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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O litoral e eu, para desanuviar...

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O litoral e eu temos uma história de vida…

Desde moçoila que o palmilhar as praias piscatórias marítimas, se revelou, para mim, uma delícia. O mar, na sua imensidão, em tons de azul e espuma branca, enrolava-se e espraiava-se na areia cálida e macia, num vaivém constante e sempre surpreendente.

Os cenários eram deslumbrantes a qualquer hora. Desde o alvorecer ao anoitecer, homens e mulheres em alarido, guiavam bois, ajudavam barcos a varar, remendavam redes, corriam com cabos às costas, enquanto, à margem, se faziam lanços no areal cálido e amplo.

Dirão…ou pensarão: convenceu-se que conhece alguma coisa de marítimo e que apanhou essa paixão pelas embarcações tradicionais assim sem mais nem menos. Não foi moda, não. Nem delírio. Também não. Foi gosto, dedicação, observação e estudo.

Finalista de Filologia Românica na UC, defendia a tese "O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos", quando a vida me desafiou para mudar e, de solteira, passar a casada, tomando outro rumo familiar.

Sucedeu que a dita "lua-de-mel" foi feita litoral abaixo, entre Cascais, Sesimbra e baía da Baleeira, passeando mesmo até ao sotavento algarvio.

Palmilhávamos as praias, calcorreávamos areais, sentávamo-nos em rochas. Eu, alcandorada, em embarcações, adorava assistir directamente na beira-mar às lotas de peixe prateado e saltitante. O movimento, o alarido, o colorido, o vaivém de barcos e artes entontecia-me apaixonadamente.

Pelos anos 60, continuava o estertor das embarcações tradicionais e da navegação à vela, a que fui assistindo com alguma mágoa. Mas todo aquele movimento, essa balbúrdia, esse bulício, momentos de extrema beleza, ficaram no meu gosto pelo «marítimo».

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Em Sesimbra. A lota do peixe-espada, na praia. 1965

 

Ao final da tarde, o peixe prateado estrebuchava na areia, no estertor da morte. Vários lanços decorriam em simultâneo, enquanto aiolas se aquietavam em terra e chatas, grosseiras e pesadonas regressavam ao mar prateado…

Anotei, apontei, fotografei, escrevinhei, voltei várias vezes a vários pontos litorâneos, sempre numa perspectiva etno-linguística, até que em 1971, a tese ficou pronta.

Estas imagens dos anos 60 falam mais do que «mil palavras».

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P. de Varzim. Barquinhos com murejonas

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Embarcações diversas na praia da Nazaré

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Barco do mar na Caparica

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 Sines. Lota na praia

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Albufeira. Vai um bote à água

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Lancha da sacada. Albufeira

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Monumental calão. Quarteira
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O gosto não esmoreceu. Bem pelo contrário.

Pelos anos 80, visitei todos os locais já então percorridos, para fazer uma avaliação entre o que a história tinha feito desaparecer e o que ainda perdurava. Esta comparação gorou as minhas expectativas, quanto ao que ainda havia de tradição.

No primeiro decénio deste século XXI, eis-me de novo ao terreno, de norte a sul do país. E o resultado foi o livro “REGRESSO AO LITORAL”, dado ao prelo pela Comissão Cultural de Marinha, em 2008, que muito me orgulhou.

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O tempo foi passando, as embarcações tradicionais e as minhas forças atingiram o seu crepúsculo. Poderia ter sido um pouco antes, mas considero que ainda o fiz a tempo de me ter deixado a alma cheia.

Hoje, nem de longe nem de perto teria forças e ânimo para fazer o que fiz. A idade não perdoa.

Neste primeiro dia de Quaresma, acinzentado e frouxo, desiludida e cansada, apenas poderei  escrever de mim e para mim, recordando o "tal passado à beira-mar"

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Ílhavo, 17 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes

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domingo, 8 de março de 2015

O litoral e eu


O litoral e eu temos uma história de vida…
Desde moçoila que o palmilhar as praias piscatórias marítimas, se revelou, para mim, uma delícia. O mar, na sua imensidão, em tons de azul e espuma branca, enrolava-se e espraiava-se na areia cálida e macia, num vaivém constante e sempre surpreendente.
Os cenários eram deslumbrantes a qualquer hora. Desde o alvorecer ao anoitecer, homens e mulheres em alarido, guiavam bois, ajudavam barcos a varar, remendavam redes, corriam com cabos às costas, enquanto, à margem, se faziam lanços no areal cálido e amplo.
Dirão…ou pensarão: convenceu-se que conhece alguma coisa de marítimo e que apanhou essa paixão pelas embarcações tradicionais assim sem mais nem menos. Não foi moda, não. Nem delírio. Também não. Foi gosto, dedicação, observação e estudo.
Finalista de Filologia Românica na UC, defendia a tese O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos, quando a vida me desafiou para mudar e, de solteira, passar a casada, tomando outro rumo familiar.
Sucedeu que a dita «lua-de-mel» foi feita litoral abaixo, entre Cascais, Sesimbra e baía da Baleeira, passeando mesmo até ao sotavento algarvio.
Palmilhávamos as praias, calcorreávamos areais, sentávamo-nos em rochas. Eu, alcandorada, em embarcações, adorava assistir directamente na beira-mar às lotas de peixe prateado e saltitante. O movimento, o alarido, o colorido, o vaivém de barcos e artes entontecia-me apaixonadamente.
Pelos anos 60, continuava o estertor das embarcações tradicionais e da navegação à vela, a que fui assistindo com alguma mágoa. Mas todo aquele movimento, essa balbúrdia, esse bulício, momentos de extrema beleza, ficaram no meu gosto pelo «marítimo».
 
Em Sesimbra. A lota do peixe-espada, na praia. 1965
 
Ao final da tarde, o peixe prateado estrebuchava na areia, no estertor da morte. Vários lanços decorriam em simultâneo, enquanto aiolas se aquietavam em terra e chatas, grosseiras e pesadonas regressavam ao mar prateado…
Anotei, apontei, fotografei, escrevinhei, voltei várias vezes a vários pontos litorâneos, sempre numa perspectiva etno-linguística, até que em 1971, a tese ficou pronta.
Estas imagens dos anos 60 falam mais do que «mil palavras».

P. de Varzim. Barquinhos com muregonas
 
Embarcações diversas na praia da Nazaré
Barco do mar na Caparica
 
 Sines. Lota na praia
 
Albufeira. Vai um bote à água

Lancha da sacada. Albufeira

Monumental calão. Quarteira

O gosto não esmoreceu. Pelo contrário
Pelos anos 80, visitei todos os locais já então percorridos, para fazer uma avaliação entre o que a história tinha feito desaparecer e o que ainda perdurava. Esta comparação gorou as minhas expectativas, quanto ao que ainda havia de tradição.

No primeiro decénio do século XXI, eis-me de novo ao terreno, de norte a sul do país. E o resultado foi o livro REGRESSO AO LITORAL, dado ao prelo pela Comissão Cultural de Marinha, em 2008, que muito me orgulhou.

O tempo foi passando, as embarcações tradicionais e as minhas forças atingiram o seu crepúsculo. Poderia ter sido um pouco antes, mas considero que ainda o fiz a tempo de me ter deixado a alma cheia.
Neste dia dito da mulher, que não aprecio, poderei dar a mim própria a prenda de escrever de mim e para mim, recordando o «tal passado à beira-mar».
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Ílhavo, 8 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O MMI prepara-se para albergar a «nossa ílhava»

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A ílhava, «para mim», só tem uma história mais ou menos consistente, há cerca de 30 anos. Bateira identitária dos ílhavos, foi a mais polivalente das embarcações da região lagunar – na ria, usada, para a apanha do moliço e para carreto; no mar, desde a rede do chinchorro, na quebra da vaga à arte da tarrafa, em águas do Tejo, na baia de Cascais. É enigmática e senti necessidade de sistematizar o que fui aprendendo sobre ela. Não descobri nada. Atenção! Li, observei, pensei e vou tentar pormenorizar coincidências. O processo da ílhava tem tido vários intervenientes, que se foram sucedendo no tempo.
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Sabia desde os meus vinte e tal anos que tinha havido uma bateira ílhava, mas como não havia deixado rasto que me despertasse a curiosidade, esse conhecimento permaneceu em letargia.
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A consulta frequente, pelos anos 60, do brilhante livro de Baldaque da Silva, Estado Actual das Pescas em Portugal, de 1891, não me despertou muito a curiosidade. Os elementos que, na altura, o autor forneceu, não me chamaram ao assunto. Baldaque fez algumas referências a esta embarcação e às tarrafas usadas pelos pescadores ílhavos na enseada de Entre Cabos da Roca e Espichel, em barcos denominados ílhavos. Inclusivamente com uma gravura (p. 403) e com uma descrição não muito vigorosa, relata que são barcos de fundo chato, de proa e popa terminadas em bico recurvado, mastro e leme de xarolo, construídos nas margens da ria de Aveiro, também usados na apanha da vegetação que ali denominam moliço.
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Barco ílhavo, em Baldaque da Silva (gravura)
 
Embarcação, muito possivelmente, já usada pelos ílhavos nos séculos XVIII e XIX para a pesca da sardinha com a arte da tarrafa, em faina no Tejo – conclui-se.
Embora a mesma fotografia (aqui já fotografia), tivesse sido usada por Rocha Madahil in Alguns Aspectos do Traje Popular na Beira Litoral e pelo padre João V. Rezende na sua Monografia da Gafanha (1944), os autores não dão nenhum realce à embarcação, mas sim aos trajes dos pescadores que a usaram, sobretudo ao gabão, barrete, calça, camisa axadrezada e faixa.
 

E, à época, mais ninguém despertara para a ílhava, que eu tivesse tido conhecimento.
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Eis senão quando D. Manuel de Castello Branco, in Embarcações e Artes de Pesca, livro publicado pela Lisnave, em 1981, fala destas embarcações oriundas do litoral de Aveiro, em que os ílhavos se deslocavam durante o Outono e parte do Inverno, temporariamente, para as águas de Cascais, atraídos por melhores condições de trabalho, preços, mercados e mar mais calmo.
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Castello Branco faz uma descrição muito minuciosa da ílhava: as características principais, a construção, as dimensões e tonelagem, a cor, o leme, o velame, os aprestos e acessórios, meios de propulsão (remos e vela), tripulação, actividade, artes de pesca (tarrafa) e porto de armamento. Era sem dúvida a «nossa ílhava» (imagem seguinte).



Luiz de Magalhães, in Barcos da Ria de Aveiro, 1905-1908, fez-lhe uma referência muito fugaz, que, de certa maneira, me confundiu. O próprio Museu de Ílhavo, criado oficialmente em 1937, não tinha no seu conjunto de miniaturas à escala, feitas habilmente por Porfírio Maia Romão em 1934, uma verdadeira ílhava.
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Há pormenores curiosos que me vão engrossando o interesse pela bateira ílhava.
Como nunca deixei de fazer recortes de jornais, de assuntos marítimos relativos ao mar e à ria, ao organizá-los, há cerca de três anos, veio-me à mão um, do Diário de Aveiro de 6 de Junho de 1999, em que a SIMRIA e o Clube de Vela da Costa Nova tinham assinado um protocolo em que uma das suas intenções era trazer de volta a ria antiga. Outro objectivo seria apoiar o projecto de recuperação da ílhava, embarcação que andou na ria de Aveiro, que deu origem a todas as outras, referiu Senos da Fonseca, acrescentando que «o próprio moliceiro é fruto de uma evolução natural da ílhava».
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DA de 6 de Junho de 1999

Achei que essa predilecção pela ílhava já era uma vocação mais antiga de Senos da Fonseca, tanto mais que um tempito antes (meados dos anos 90) tinha aparecido no Museu, para trocar umas impressões com a directora de então, sobre a bateira ílhava, munido de uns projectos da embarcação, em computador. Eu não sabia muito mais e confesso que os computadores, nessa altura, me intimidavam um pouco.
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Revelou-me mais tarde que devido a maleitas de que as informáticas às vezes padecem, perdera, com pena, os referidos projectos. Talvez a razão por que ainda hoje não tivéssemos tido uma bateira ílhava em tamanho real.
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Entretanto, tive conhecimento que na Colecção Seixas do Museu de Marinha existia uma miniatura à escala 1/25, em exibição, de um barco ílhavo.
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Também me apercebi de que o precioso Catálogo Seixas (publicado em 1988, pelo MM), abundante em fartas e seguras informações, nos apresenta, uma fotografia de um barco ilho, assim o apelida, a navegar na ria de Aveiro.
 
Barco ilho navega na ria de Aveiro… (Foto cedida pelo Museu de Marinha. Colecção Seixas)

 
E mais umas tantas preciosas imagens da bateira ílhava, na pesca da tarrafa, na baía de Cascais e imediações.
Entre os Amigos do Museu havia uma vontade não divulgada, mas intrínseca, de que o Museu viesse a ter uma bateira ílhava, mas tal desejo também nunca se cumpriu. Era capaz de ser um bocadinho arriscado, em vários domínios, assumir a sua construção.
E o tempo foi passando…
Com a mudança de século e já em Junho de 2007, SF., após uma pesquisa aturada e entusiasta, lançou o Ílhavo – Ensaio Monográfico do Século X ao Século XX, em que informa, a propósito da ílhava que, com base nas informações de Castello Branco, encomendara a Manuel Rufo, de Pardilhó, um modelo à escala de 1/27.
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Conclui (pp. 225 e 226) que havendo referências deste barco ter sido utilizado na apanha de moliço, não será estulto admitir ter sido a ílhava a precursora do barco moliceiro, tantas similitudes são patentes na forma e no conceito das duas embarcações…
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Nesse mesmo ano de 2007, o MMI exibira a exposição A Diáspora dos Ílhavos, no seu 70º Aniversário, de 8 de Agosto a 31 de Outubro, em que um modelo da bateira ílhava executado pelo hábil Marques da Silva fora vedeta. O plano, à escala 1/25, do Museu de Marinha, pertence ao desenhador e modelista, Luís António Marques, investigador da equipa H. M. Seixas, entre 1926 e 1948.

Modelo de barco ílhavo, em exibição, no MM

 
E com a força do Verão de 2011, o livro Embarcações que Tiveram Berço na Laguna, de Senos da Fonseca foi dado à estampa pela Papiro Editora. O autor revelou mais pormenores sobre a embarcação e teceu as suas considerações, algo discutíveis, mas admissíveis, pela sua viabilidade.
Já agora, seria realizável, hoje em dia, com os associados da AMI, em causa, e os meios de que dispomos (ou não dispomos) levar a efeito a recriação de uma ílhava em tamanho real? – pergunta-se. A nossa embarcação identitária? E para abicar onde? Não numa rotunda…exposta às intempéries. Na água, não duraria muito tempo – é sabido. O nosso museu, concordemos, à parte algumas limitações, temos consciência, seria mesmo o local de eleição.
Fica o desafio….
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Ílhavo, 20 de Outubro de 2011
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PS. Este blogue está em banho-maria desde o inverno de 2010. Parece-me o momento oportuno de ele vir a lume.

Como nas novelas…dois anos mais tarde…

A ílhava é um desejo concretizado. Chegou, no passado dia 30, ao Museu Marítimo de Ílhavo, graças ao saber e empenhamento de uma comissão da AMI, com a participação entusiasta e sabedora do construtor António Esteves, de Pardilhó, de Marco Silva (que se encarregou da vela) com cobertura fotográfica completa de Etelvina Almeida. No Verão passado, já com a ílhava em construção, Paulo Horta Carinha, reconhecendo o meu interesse pelo assunto, teve a gentileza de me oferecer um postal antigo de Aveiro, de que é grande coleccionador. Mostra nada mais nada menos que uma ílhava, já de menor dimensão, junto às Pirâmides, numa fase de vida já mais tardia, eventualmente pelo segundo ou terceiro decénio do século XX.
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A ílhava vai ser apresentada aos ílhavos, a 11 de Janeiro 2014, como nossa embarcação identitária, que levou muitos conterrâneos de antanho, por essa borda fora, que se transformaram em colónias mais ou menos fechadas de pescadores oriundos da zona, dando até origem a várias localidades litorâneas. Rogamos aos ilhavenses que estejam presentes.

Ria de Aveiro, junto às Pirâmides
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Imagens – Do arquivo pessoal da autora do blogue (livros, postais e jornal)
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Ílhavo, 3 de Janeiro de 2014
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Ana Maria Lopes
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domingo, 11 de novembro de 2012

Bateira erveira «prova» as águas da Ribeira de Canelas

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Depois das detalhadas notícias de ontem e hoje que o Diário de Aveiro nos dá a conhecer sobre a matéria, limitamo-nos a deixar umas impressões da nossa participação no bota-abaixo da réplica do «barco de ervagens» de Canelas.
Quem semeia, colhe, concluímos e, graças ao investimento etnográfico-linguístico feito em pesquisas, nos anos 80, em andanças pelas ribeiras e esteiros da zona, em livros publicados, com espanto, mas satisfação, fomos convidados para o saudável e simples evento, pelo Presidente da Junta de Freguesia de Canelas. E lá estivemos com muito para contar e muito para ouvir sobre a embarcação.
Depois daquelas saudáveis discussões académicas acerca da terminologia mais correcta para a classificação da embarcação, concluímos, ontem, mais uma vez, que embora muito conhecida por «bateira erveira de Canelas», entre os populares, a terminologia mais adequada e correcta seja «barco de ervagens de Canelas», mandado fazer pelos proprietários com mais posses, já extinta a mais tradicional bateira erveira da região (a fêmea), que ainda conhecemos, a flutuar, mas já afastada de uso.
Reportagem fotográfica:
 
Aí vem ele! Saída do estaleiro
 
 
Proa elegante, breada a negro, polvilhada de casca de arroz
 
 
Sinal festivo! O ramilhete da praxe de flores campestres
 
 
Arrojada manobra! Trajecto arriscado
 
 
O Zé da Fonte, sorridente, experiente, homem de outros tempos, orienta o caminho
 
 
Chegada ao Ribeiro de Canelas, novo local de residência
 
 
Depois dos discursos da praxe, bênção pelo pároco da freguesia, a embarcação prova as águas da região.
 
 
Arriscada descida!
 
 
Construtor Manuel Pires e a «sua» obra
 
 
Manuel Pires e Zé da Fonte deslocam-se à vara
 
 
As «meninas da Ria», a junior e a senior, deliciadas...
 
 
E assim se passou a tarde de sábado, entre chuviscos e sol, num convívio alegre, salutar, singelo, mas cheio de calor humano.
 
 
Fotografias da autora do blogue

Ílhavo, 11 de Novembro de 2012

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ainda o S. Paio...8 de Setembro de 2012

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No último sábado, 8 de Setembro, o programa foi de arromba. Desde a missa campal, procissão de longo trajecto e muita devoção, às corridas de bateiras à vela e chinchorros, havia para todos os gostos. Já que lá estávamos, apesar das nossas conhecidas preferências, mas poucas forças, resolvemos assistir a todos os eventos.
 
Mas, a bem dizer, as bateiras à vela, em competição lagunar, trespassaram-nos a alma, redimensionando a paisagem. Não havia palavras.
Momentos raros como estes permitem-nos ver as bateiras, tipo caçadeira, com todos os apetrechos para velejar – mastro, verga, vela, todo o cordame necessário, tostes e leme.


 
Em vias de ser aparelhada

 
E com a contribuição do S. Pedro e do S. Paio, o tempo, de melhor feição não podia estar – um sol entre nuvens, ora acasteladas, ora rarefeitas, surtia, na água espelhada, um efeito paradisíaco. Inesquecível, fascinante e estonteante.
 
Eram cerca de 40 bateiras distribuídas por duas classes, A (até 7 metros) e B (de 7 a 9 metros). E aquelas cascas de noz, vá lá, que ainda podemos encontrar em praticamente todos os esteiros da ria, quase sempre motorizadas, com mastro, vela e brisa suave, ganhavam uma dimensão de pujantes embarcações.

 
É indescritível, porque a luminosidade projectava-se fatiada, entre nuvens, sobre as velas, ocasionando planos diferentes de claridade, como que valorizando os brancos.
 
 
Luminosidade fatiada…
 
Os amantes da competição e da paisagem lagunar eram a rodos e esta moldura humana ainda mais «vestia» o quadro, óleo ou aguarela, digno da paleta de um Fausto Sampaio, de uma Eduarda Lapa, de um Alberto de Souza, de um Hipólito de Andrade ou de um Cândido Teles, entre outros.
 
Largada!...

 
Em seguida, era preciso aproveitar a maré possível – os chinchorros, na sua elegância e garridice, ultimavam as equipas, de homens e mulheres da ria, que se dispunham a dar tudo por tudo e se desunhavam por dar o melhor de si, numa travessia no sentido leste/oeste.
 
Aplaudidos, no fim, os vencedores de cada um dos grupos das bateiras e a equipa vencedora do chinchorro Santa Maria Adelaide, que competiu renhidamente versus Raquel, posicionada em 2º lugar.

 
Chinchorro RAQUEL

 

E com isto, para nós, após um ameno passeio pela borda-d’água, em observação de alguns pormenores de embarcações, tão grande foi o dia como a romaria.
De regresso, a bicha de carros, em sentido contrário, ultrapassava a rotunda perto da Bestida. Para quê? A festa ainda não tinha acabado? Faltava o fogo-de-artifício da noite, desta vez, na ria, depois de já ter sido, na noite anterior, no mar.
 
Amanhã, há mais, pensávamos – a ida no «Pardilhoense», para assistir à regata de barcos moliceiros.

 
Mas, o cenário lagunar vespertino com as bateiras à vela entre céu e ria, não nos saía da mente. Ainda agora, olhamos a ria neste fim de tarde setembrino e imaginamo-las.

 
Aguarelando…

 
Informou a autarquia da Murtosa que mais de 300.000 pessoas passaram pelo S. Paio, entre os dias 5 e 9 deste mês.
 
Imagens – AML e gentil cedência de Etelvina Almeida (chinchorro)

 

Costa Nova, 13 de Setembro de 2012

 
Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Regata do S. Paio ... lá se cumpriu - 2012


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Ontem, domingo, a regata do S. Paio – 2012 não teve o brilho que tem tido nos derradeiros anos. Tudo se conjugou.
 
Barcos moliceiros de tamanho vernáculo, apenas se apresentaram oito, mais algumas amostras.
 
O tempo não ajudou e não saiu de um cinzentismo que envolveu o ambiente, sem grandes emoções e pouco vento.
 
O júri do concurso de painéis não esperou pelos moliceiros da zona sul (Costa Nova), que eram três, o Marnoto, Pardilhoense e o Inobador, a que uma neblina cerrada atrasou o andamento. Resultado – não assistimos.
 
A moldura humana não tinha o mesmo fervor do dia anterior.
 
Pairava no ar um forte pressentimento de que o moliceiro está a morrer de uma morte anunciada e velozmente concretizada. Será reversível? Parece-nos que não, apesar do empenho destes três, que vão animando a ria, frente à Costa Nova.

 

Passará, em breve, a sobreviver apenas como barco de museu, o moliceiro, e através dos registos escritos e videográficos que têm sido feitos sobre ele. Oxalá nos enganemos, mas os tempos não estão fáceis para nada.
 
A meio da regata, quando os lugares já quase pareciam estar definidos, eis que um estrondo seco nos assusta, já que seguíamos de perto a competição, em bateira, para  melhor  a fotografar e apreciar.
 
O que terá sido? O sonho do Zé Rito, homem multifacetado da ria, aguerrido e vencedor das últimas competições lagunares – regata de moliceiros, no Bico da Murtosa, regata de bateiras à vela e de chinchorros, ambas no dia anterior, na Torreira, esfumara-se. O esbelto e rijo mastro estalara, quebrara, ribombara, arrastando a grande vela, brandais e todos os outros aprestos necessários ao seu funcionamento. Nada de acidentes pessoais, apenas a aspiração ao prémio da regata maior, desfeita. Para o ano há mais… Haverá?
 
Sequência de imagens:

 
1.

 
2.

 
3.


Os auxílios foram rápidos e o Zé Rito, descoroçoado, rumou ao seu estaleiro, à borda d’ água. Substituir o mastro quebrado está nas suas mãos habilidosas de Mestre, apesar do trabalho e despesas.
 
A classificação final foi:
 
1º - Dos Netos – Arrais /Ti Abílio «Carteirista»
2º - Manuel Silva – Arrais/Zé Pedro
3º - A. Rendeiro – Arrais/Ti Zé Rebeço
4º - Pardilhoense – Arrais/Marco
5º - Inobador – Arrais/ Pedro Paião

 
Teve azar o avô Rito, mas ganhou o 2º prémio o neto, o Zé Pedro, de 12 anos, a lemar o Manuel Silva. Filho de peixe sabe nadar – diz o povo e com razão.
 
Felicitações aos vencedores e ânimo para enfrentarem as dificuldades e contribuírem com garra para a manutenção da tradição.

 
O sábado anterior da romaria, com programa muito intenso a que também assistimos e de que nos havemos de ocupar foi bem mais alegre, divertido, entusiasmante e sonhador.
 
Imagens – 1.Paulo Miguel Godinho, 2. Etelvina Almeida e 3. AML
 
Ílhavo, 10 de Setembro de 2012

 
Ana Maria Lopes
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