sexta-feira, 28 de maio de 2021

O "Argus" entrou a barra de Aveiro, há 11 anos

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A história do lugre “Argus”, enquanto navio bacalhoeiro (1939 – 1970), é sobejamente conhecida, e está bem narrada, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Muito se deve a Alan Villiers e à sua famosa viagem no navio em questão, em 1950, de que resultaram A Campanha do Argus, o documentário com o mesmo tema, o artigo I sailed whith Portugal’s Captains Courageous, publicado no nº 5 da National Geographic Magazine, em 1952, bem como as belíssimas imagens conseguidas, que têm corrido mundo.

Foi a 1ª fase do “Argus”.

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A Campanha do “Argus” – 1950
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A segunda, embora menos conhecida, também já ocupou alguns pesquisadores, sabendo-se, então, em estudo publicado por António Manuel Gonçalves, na Revista da Armada de Março de 2005, que o “Argus” foi então vendido, em 1975, pela Parceria Geral de Pescarias, à empresa canadiana White Fleet Cruise Ships, por 7 000 contos. No entanto, esta empresa acabou por vendê-lo, no mesmo ano, ao Comandante Mike Burke, para companhia com sede em Miami, nos Estados Unidos, que procurava navios históricos, para fins turísticos.

Ao passar a ser utilizado para tal fim, esteve sujeito a várias e exigentes transformações.

Acima do convés, recebeu um novo pavimento. À ré deste novo espaço, ficava o local onde eram servidas as refeições, com vigias panorâmicas, que asseguravam aos passageiros, uma vista deslumbrante.

Dispunha, então, de 52 camarotes duplos e 3 camarotes de seis pessoas, todos eles com casa de banho. Relativamente ao aparelho, recebeu novos mastros e velas, e armava, enquanto navegava, em escuna americana.

Foi a 2ª fase do ex-“Argus”, “Polynésia II”.

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“Polynésia II”, enquanto navegava…
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Entrada a reboque do “Sella”
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Foi este o navio que entrou a barra de Aveiro, às 10h e 27 minutos, do dia 6 de Abril de 2009, entre molhes, enferrujado, um pouco danificado e desmazelado, depois de uns tempos de paragem e da compra em leilão, em Aruba, pela Empresa Pascoal & Filhos, S. A., com sede na Gafanha da Nazaré.

Enfrentou longa viagem, pelo Atlântico, desde 13 de Fevereiro até 6 de Abril de 2009, a reboque do “Sella”.

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A 3ª fase já começou… à espera de voltar a ser o “Argus”…

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A acostar na Gafanha, frente à Pascoal
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Saudações marítimas para o velho/novo “Argus”.

Ontem, um novo passo se deu, que é do domínio público. Acabei de ver no telejornal.

A ver vamos!

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Ílhavo, 28 de Maio de 2021

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Ana Maria Lopes

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sábado, 22 de maio de 2021

Apanhar "navalhas", a nova experiência na Ria

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Este título de capa do Diário de Aveiro de hoje (22.5.2021) chamou-me a atenção. Apanhar “cricos” e “navalhas” em família, a nova experiência.

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Para quem não a conhece nem nunca o praticou, garanto que há cerca de sessenta anos, para mim e amigos/as foi um grande e entusiasmante entretenimento. E desafio!

Pelos anos 60, lá saíamos de bateira, a remos, da Mota (de início dos anos quarenta), hoje turismo da Costa Nova, na vazante da maré, em direcção ao Norte, até uma das primeiras “coroas”, frente à Biarritz. Toca de abicar a bateira, sempre sob o olhar atento, não fosse a maré fazer das “suas”.

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Postal do centro da Costa Nova, pelos anos sessenta
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Ir para a lama de pés descalços não é o que mais aconselho, devido a possíveis cortes e arranhões, calçar chinelas de enfiar o dedo também não é o mais aconselhado, porque a sola adere à lama e lá se vai o encaixe do dedo ou o pé. Há calçado barato e mais apropriado, para tal aventura!

Uma vez na lama, usávamos dois modos de apanhar “as navalhas” também conhecidas por “lingueirão de canudo”. Ou apanhavam-se com sal que se colocava em orifício próprio (dois pequenos orifícios, juntos, que lembram um 8) ou usava-se uma vareta de guarda-chuva, a que era aplicado, numa das pontas, um triângulo de chumbo que se enfiava no tal orifício.

Além de saber estas regras, é preciso viver a experiência de as pôr em prática, com toda a pica e adrenalina que provocam.

A vareta que, depois de enfiada se torce ¼ de círculo, é um processo rápido e garante a apanha do bicharoco, cujo corpo é atravessado por ela. Mas, longe de ser tão emotiva como o processo do sal.

O apanhador, com água pelo tornozelo, curvado, conhecedor do orifício duplo, em forma de 8, coloca-lhe sal em abundância e aguarda. Começa a água a borbulhar, e, passados uns segundos, avista-se a “navalha”. Agora, há que intervir ligeirinho, puxá-la devagar, mas com firmeza. Dá luta e é nessa luta que reside a pica e a adrenalina. Coloca-se num balde com água da ria que vamos levando connosco, para a conservar fresquinha. Tenho pena de não ter fotos de época, desta famosa apanha, mas, frente à ria, e de memória fresca, vivo e sinto todas as emoções por que passava, então, depois de umas horas de lazer bem passadas.

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Foto da net
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Depois do balde já bem composto, chegava a hora de as devolver à ria ou de as trazer para casa para uma arrozada ou à Bolhão Pato.  

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Foto da net
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Nunca fui de grandes degustações. O prazer era mesmo saborear a apanha e conviver na ria, em boa companhia. Coisas da juventude!....

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Costa Nova, 22 de Maio de 2021

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Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 21 de maio de 2021

João de Jesus da Rocha Agra

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João de Jesus da Rocha Agra

Esta história de um Homem do Mar, ou melhor de um Jovem do Mar, tardou a aparecer. Porquê? Como? Quando?

Procuram-se, mas só vêm ter connosco, quando menos pensamos. Depois, cruzam-se os dados do “puzzle” e o jogo bate certo.

Aquando da história de José Duarte Oliveira, que perdeu a vida, em pleno oceano, na ânsia de carregar mais o bote, enquanto pescador do lugre-motorD. Diniz, na viagem de 1952, tendo deixado a sua mulher, eterna viúva, com três filhas para criar, pelo menos a família, emocionou-se com esta narrativa, pressagiada num belo e profundo sonho premonitório.

Num comentário ao sucedido, então, na dita Faina Maior, João Cândido Agra, através do FB, informou-me que um seu tio/padrinho de quem tinha a cédula marítima, também tinha perdido a vida na pesca do bacalhau, num dóri, enquanto pescador do “Milena, em 1955. O caso chocou-me, interessou-me e repliquei que haveríamos de falar. Mas, outras tarefas se impuseram.

Eis senão quando, há uns três anos, no Museu Marítimo de Ílhavo (o lugar certo), enquanto apreciava os modelos de embarcações tradicionais apresentados a concurso, dei de caras com o tal João Cândido Agra, ao apreciarmos, ambos, a mesma peça. Deu-se a conhecer, pois já falara, virtualmente, comigo, e contou-me que tinha construído aquele modelo de dóri, patinado pelo tempo, e corroído por alguma ferrugem dos anos, em memória do seu tio/padrinho, que desaparecera, no dóri, enquanto pescador verde (que pesca pela primeira vez), do lugreMilena, em 1955. Alto! O assunto interessou-me, trocámos umas palavras e pedi-lhe que procurasse documentação que tivesse dele, para acertarmos um encontro mais esclarecedor.

Mas, a conversa ficou por ali.

Como se chamava? – perguntei eu. Não tinha a certeza. João de Jesus?

Seria melhor confirmar.

Ao entardecer, a curiosidade despertou-me e toca de tentar encontrar o nome, entre os maiores da Faina Maior. Mas só com João de Jesus, não chegava lá e os dados não batiam certo. Experimentei teclar também Agra e surge-me um nome que preenchia os requisitos – João de Jesus da Rocha Agra, nascido em Ílhavo, em 20 de Agosto de 1934. Tentei situar-me no tempo, na tragédia e debrucei-me numa foto que já tinha dele – moço, jovem, aprumado, bonitão, de olhos grandes, escuros, vivaços, cheios de sonhos, que se afundaram, eternamente nas águas do oceano. Pareceu-me.

Quem teria sido o capitão do “Milena, em meados da década de 50? Mais propriamente, em 1956…

Pensemos nas situações que originavam estes desaparecimentos – o demasiado afastamento do navio, neste caso de pescador-verde, a pouca experiência, uma brisa levantada repentinamente que enraivecera o mar ou um forte nevoeiro, que, rapidamente, toldara o horizonte. Qualquer uma destas razões poderia ter sido o motivo do desaparecimento do jovem João de Jesus Agra. Ou, então, nenhuma destas.

Depois do encontro com o sobrinho e do que me contou, algo mais compôs o cenário, mas, o resultado era aquele e só ele – afundara-se no oceano, enquanto pescava.

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Milena, à entrada de Leixões
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Teria, porventura, pais, que terão sofrido uma dor profunda e eterna, não tinha ainda família constituída, mas, sempre uma mulher, de permeio. Deixara, uma jovem namorada, na sua terra natal – Ílhavo – a sua prometida, com quem tencionava casar, no Dezembro seguinte, após a viagem. Dor sem fim, virara viúva antes do tempo.

Alto, forte, espadaúdo, um castelo de um jovem, engolido pelas águas – assim era o João Agra, nascido em Ílhavo, em 29 de Agosto de 1934, filho de Manuel da Rocha Agra e de Leonor de Jesus. Com a cédula passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 21 de Janeiro de 1951, tinha a formação da Escola de Pesca e fora tripulante do “Milena de 1951 a 1956, como como moço nos dois primeiros anos, passando a verde, a maduro e a 2ª linha, à data do acidente

Nada como tentar escalpelizar e procurar pormenores… No Ciemar, porventura, encontraria a resposta, se a sorte me rondasse. Pedi “O Ilhavense” e perguntei se havia o Diário Náutico do “Milena, da campanha de 1956 (era essa a data certa). E havia. Folheei-o emocionalmente, à espera de algo que me esclarecesse completamente. De folha em folha, cheguei a 6 de Maio e aí, nas observações, surge-me a nota esclarecedora, que procurava – Bom tempo. Chamou-se às 16 15. Pelas 19.30, como todos os botes estivessem dentro, deu-se por falta do número seis, João de Jesus da Rocha Agra, que se afundou com a embarcação que tripulava. Mais uma página, e abanada pela emoção, deparei com o:


Termo de Óbito


Aos sete dias do mês de Maio de mil novecentos e cincoenta e seis, o lugre-motor Milena, propriedade da Indústria de Aveirense de Pesca, Limitada, na posição estimada quarenta e seis graus e quatro minutos Norte e quarenta e nove graus cincoenta e nove minutos Oeste de Greenwich, arriou este navio a sua campanha para o exercício da faina da pesca às treze horas e trinta minutos com vento fraco e bonançoso de Oeste-Noroeste, mar encrespado e boa visibilidade, condições estas consideradas como boas e normais para trabalhar, tendo todos os navios arriado e estando à vista, com os botes na água, os bacalhoeiros «Maria das Flores» e «S. Jorge». Pelas dezasseis horas, o Capitão do navio suspendeu e navegou trinta minutos para Les-Sueste, ficando assim todos botes a barlavento.

Pelas dezasseis horas e quinse minutos, içou a bandeira chamando para bordo a sua companha. Os botes começaram a chegar a bordo pelas desassete horas e quinse minutos.

Às dezanove horas e trinta minutos, estando já todos os pescadores dentro, deu-se pela falta do número seis, João de Jesus da Rocha Agra, natural da freguesia e concelho de Ílhavo, nascido a vinte e nove de Agosto de mil novecentos e trinta e quatro, filho de Manuel da Rocha Agra e de Leonor de Jesus e inscrito marítimo na Capitania de Aveiro, sob o número vinte e seis mil seiscentos e trinta. Segundo informações do pescador José Borda d’Água Hilário, o tripulante em questão encontrava-se ao Norte do navio alando o seu aparelho.

Imediatamente o capitão suspendeu e se dirigiu para rumo indicado. Depois de várias pesquisas até ao anoitecer viemos para sotavento da posição indicada onde permanecemos fundeados até ao alvorecer.

Pelas cinco horas do dia oito suspendeu e navegou durante quatro horas e meia a vários rumos contornando a posição em que se encontrava aquele pescador.

Depois de todas estas tentativas e como não se encontrassem quaisquer vestígios, reuniu o Capitão os seus oficiais e principais da equipagem, concordando todos que o desditoso pescador se afundou juntamente com o bote que tripulava quando se encontrava a alar o aparelho tanto mais que as botas de cabedal e o fato de oleado que usava quando pescava lhe dificultavam bastante os movimentos.

A atestar esta afirmação tomamos em linha de conta, em virtude de se encontrarem perto o lugre «Maria das Flores» e navio-motor «São Jorge», pescando também, o facto de por nenhum deles ter sido recolhido, tanto mais que as condições de visibilidade eram esplêndidas. Como aliás o eram inicialmente.

Em fé do que se lavrou o presente termo de óbito, que vai ser assinado pelo capitão e principais da equipagem.

 

Joaquim Manuel Marques Bela – capitão

Silvério Conde Teixeira – imediato

Flávio da Silva Pereira – piloto

Francisco Malaquias Matias Lau – 1º motorista

Albino Domingues Gafanha – 1ª linha

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Folheando o diário, no sentido de saber como se passou o dia seguinte, a bordo, deparei com este registo, no dia 8 – Bom tempo, mar e horizonte. Não se arriou em sinal de luto.

No jornal O Ilhavense de 20 de Maio de 1956, a notícia VARRIDO ao MAR dá-nos conta que de bordo do lugre «Milena» foi varrido ao mar o pescador ilhavense João de Jesus Rocha Agra, solteiro, de Cimo do de Vila.

Consultado o Jornal do Pescador desse ano, não encontrei qualquer referência. No ano de 1953, no mês de Janeiro, p. 16, nas Notas de elogio dos capitães, relativas ao aproveitamento dos alunos da Escola Profissional de Pesca, embarcados na campanha de 1952, o capitão do Milena, Carlos Augusto de Castro, sobre o João de Jesus da Rocha Agra, refere que cumpriu a contento todas as suas obrigações.

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Foto da cédula marítima
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E por aqui fica o relato de acontecimento tão triste e da preocupação da tripulação em localizar e salvar o desditoso jovem, cuja sepultura foram as profundezas geladas do Oceano.

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Ílhavo, 21 de Maio de 2021

Ana Maria Lopes

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domingo, 16 de maio de 2021

O lugre "Ernani"

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Por ser um dos lugres de Testa & Cunhas de que se conhecem menos dados, e de que não existem fotos, isoladas, tentei recolher os que encontrei em diversas fontes, alargando, ao máximo, a sua história. Quem, porventura, souber mais e queira contribuir, pode participar. Aceitam-se, de bom grado, informações.

O lugre “Ernani”, de madeira e de três mastros, foi construído na Gafanha da Nazaré, por Manuel Maria Bolais Mónica e lançado à água a 26 de Dezembro de 1918, com o nome de “Estrella do Mar”, para o Armador Santos, Moreira & Cª., de Aveiro, na posse do qual se manteve até 1920.

Foi pertença da Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, Lda., de Aveiro, entre 1920 e 1921, tendo navegado com o nome de “Apollo”.

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O lugre “Apollo” na ria de Aveiro
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Passou a chamar-se “Ernani”, aquando da venda, em 1921, à Empreza de Navegação e Exploração de Pesca, também de Aveiro, à qual Testa & Cunhas o adquiriu, em 20 de Dezembro de 1927, com o mesmo nome. Simpatizou com a designação e manteve-a, até porque havia um conceituado familiar de um sócio, assim chamado.

O “Ernani” media 37,10 metros de comprimento, fora a fora, 8,90 m. de boca e 3,85 de pontal.

Com arqueação bruta de 256,70 toneladas e arqueação líquida de 182,92, não tinha, nem nunca veio a ter, motor auxiliar.

Depois de vendido, manteve as mesmas características.

Foram seus capitães: Augusto Fernandes Pinto, (1922 a 1924), Júlio Fort’ Homem (1925), Júlio António Lebre (1925 a 1930) e Joaquim Fernandes Agualuza, pelo menos, em 1934, segundo pesquisa feita no jornal “O Ilhavense”.

Na campanha de 1928 o lugre navegou com 44 tripulantes, dispondo de 39 dóris. Pescou 1446,7 quintais de peixe, que renderam 173 600 escudos. Na de 1929, com o mesmo número de tripulantes e de dóris, pescou 1 503,3 quintais que renderam 180 400 escudos. Na de 1930, com 43 tripulantes e o mesmo número de dóris, pescou 1 105,7 quintais que renderam 132 680 escudos.

Não participou as campanhas de 1931 e 1932. Na campanha de 1933, o lugre navegou com 42 tripulantes, dispondo de 40 dóris; registou, nesse ano, a magnífica captura de 4 560 quintais de peixe, tendo ainda produzido 2 000 quilos de óleo de fígado de bacalhau. O valor do pescado rendeu 548 000 escudos.

Com algum encanto e fascínio que atenuam um pouco o cansaço da visão, tenho consultado as actas da Empresa proprietária do “Ernani e na de 11 de Agosto de 1934, encontrei alguns dados que passo a resumir: - (…) Depois de elaborado o presente relatório, chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre “Ernani, nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores, nem sabemos como se liquidarão os seguros efectuados. Uma dificuldade nos surge.

Como suprir a baixa daquela unidade?

Três soluções se apresentam:

1ª – Reparar e apetrechar o “Silvina, há uns anos desactivado;

2ª – Adquirir um navio já feito;

3ª – Mandar construir um navio novo.

Um só navio não defende a sociedade das suas despesas.

Há falta de informações acerca da ocorrência e está ausente o capitão Manuel Simões da Barbeira, cuja opinião técnica convém apreciar (…).

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Vista aérea da seca, em 1933
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A falta de informação e de notícias que sabemos ter existido, naqueles anos difíceis, é prova da crueldade, desumanidade e dureza de tal vida!...

Pequenos fragmentos vão engrossando o relato e no nosso Jornal de 19 de Agosto de 1934, o título “Lugre Hernani chamou-me a atenção:

“Como é sabido, êste navio bacalhoeiro foi pasto das chamas na Groenlândia, onde estava pescando.

Sabia-se que a tripulação se havia salvo, mas ninguém tinha conhecimento do seu paradeiro.

A Empresa Testa & Cunhas enviou dois telegramas a saber dos náufragos, que ficaram sem resposta.

Teve, então, que apelar para o Ministério da Marinha que, por sua vez, reclamou do Ministério dos Estrangeiros, providências, no sentido de saber do paradeiro do lugre “Hernani.

A resposta veio, por fim, que eles se encontram distribuídos pelos vários pesqueiros que estão naquelas paragens”.

Na acta de 15 de Agosto de 1935, lê-se:

(…) A empresa tinha dois navios em safra, que tiveram de ser totalmente apetrechados. Devido ao lamentável sinistro que incendiou o “Ernani, só tirámos resultado da safra do “Cruz de Malta.

Entre o prejuízo da perda do “Ernani e o respectivo pagamento do seguro, a empresa teve um prejuízo efectivo de cerca de 80 contos (…), que têm de ser suportados pelos lucros desta safra, e que foi levado, na devida proporção, às contas de prejuízos dos sócios (…).

Importa-nos comunicar aos dignos sócios que é de salientar o acto de solidariedade dos capitães dos demais navios pesqueiros e a actividade do nosso capitão (Joaquim Fernandes Agualuza) e demais pessoal do lugre “Ernani, quando do seu incêndio, que, recolhendo a outros veleiros onde produziam serviço, evitaram à nossa Empreza, despezas de repatriação, que importariam em cifra superior a um cento de contos.

Segundo informação oficial (Lista de Navios Portugueses, secção dos naufrágios), o incêndio deflagrou a partir da cozinha, propagado por uma porção de azeite que estava a ser utilizado para fritar peixe.

É caso para repetir que a história da Faina Maior nunca estará acabada…

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Ílhavo, 16 de Maio de 2021

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Ana Maria Lopes

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sábado, 8 de maio de 2021

Capitão Vitorino Ramalheira

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No MMI… 2016

Acabei de receber uma triste notícia…

Aquela magana tem ceifado a longa vida dos últimos decanos da Faina Maior. Os que restam sentem-se alinhados – confessam, de onde a onde.

Da grande família dos Ramalheira, de propensão marítima, filho e neto de capitães da Marinha Mercante, bisneto de um mestre de cabotagem e trineto de um pescador, todos por linha paterna, Vitorino Paulo Silva Ramalheira, nasceu em Ílhavo, em 29 de Junho de 1929, filho de João Pereira Ramalheira (o Vitorino) e de Ema Silva Ramalheira.

Depois dos estudos normais em Ílhavo e em Aveiro, matriculou-se na Escola Náutica de Lisboa, onde tirou o curso elementar de pilotagem, que acabou em 1948, onde voltou mais tarde, pelos anos sessenta, para obter a carta de capitão de Marinha Mercante.

Simpático, afável, culto, de conversa agradável, um grande senhor, muitas vezes nos encontrámos, em francos e produtivos diálogos, depois da sua aposentação e nas suas muitas idas ao Museu Marítimo de Ílhavo.

Com 19 anos de idade, em 1948, embarcou de terceiro piloto no navio “Horta”, da Companhia Carregadores Açoreana, até 1951, com viagens na linha da América do Norte, entre Hamburgo e Nova Iorque.

Mas, o seu rumo do mar estava traçado. Nesse mesmo ano, fez uma viagem no navio-hospital “Gil Eannes”, cujo capitão era seu pai, João Pereira Ramalheira, um experiente oficial. O pai tinha-o levado como 3º piloto, nessa campanha, para lhe tirar o gosto pelo mar, fazendo-lhe ver as dificuldades, a dureza da vida, o afastamento da família, mas o efeito surtiu no contrário – enfeitiçou-se pela pesca do bacalhau.

Vitorino pretendia casar-se, precisava de dinheiro para a mobília e, no bacalhau, ganhava-se melhor – conseguia ganhar em seis meses, quarenta contos, o que era bom.

Visto que tinha o casamento em vista, depois das viagens de piloto, em 1952 e 53, no “Elizabeth” e no “Capitão João Vilarinho”, casou em Vagos com Maria Angelina Rocha de Oliveira.

Entre 1954 e 1959, continuou a sua actividade de pesca no bacalhau, como imediato, no navio com motor “Condestável”. Mas, o verdadeiro fascínio surgiria, entre 1960 e 65, quando ao serviço de um armador do Porto, passou a comandar, pela primeira vez o lugre com motor “Aviz”, que lhe deu as maiores alegrias, mas também a mais dolorosa viagem de que tem memória, quando o perdeu, por incêndio, nas Virgin Rocks, ao largo da Terra Nova. Terá sido a sua causa, um curto-circuito nos geradores, por uma sobrecarga de gambiarras acesas.

Outro episódio que merece ser lembrado, relativo ao “Aviz” tem a ver com as grandes cheias do Douro, em Janeiro de 1962, em que muitos navios se afundaram, mas em que o “Aviz” se safou.

O tempo vai passando, Vitorino fala com ternura da emoção que era “andar num navio à procura de peixe” e em 1966, salta, de saco às costas, para capitão do belo cisne branco que era o lugre “Santa Maria Manuela”. Um documentário canadiano, da autoria de Hector Lemieux, imortalizou Vitorino Ramalheira – “The White Ship”, uma das “jóias da coroa” dos documentários sobre a pesca à linha do bacalhau.

No navio, de olhar atento, perscrutando o mar e controlando os seus homens, surge-nos, nos seus 37 anos, com a sua boina basca, um autêntico galã hollywoodesco.

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Atento ao mar e à sua tripulação, 1966
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Grande mágoa foi que, nessa campanha, tenha falecido, por lesões internas provenientes de uma forte pancada, um homem de Vila Praia de Âncora, Dionísio Esteves, que jaz num cemitério de St. John’s. Estes sofridos momentos ainda tornam o filme mais emocionante.

Depois de mais duas campanhas no “Santa Maria Manuela” entrecortadas por uma no “Capitão João Vilarinho”, Vitorino Ramalheira, em 1970, deixou a pesca e ainda voltou à carreira com que, inicialmente sonhara – a Marinha Mercante –, mas, por pouco tempo. Já não fazia sentido, tinha os filhos casados e a mulher, sozinha, em casa. Estava na hora de voltar e assim o fez, em 1983, entregando-se à leitura, ao arranjo do quintal, e cooperando com o Museu Marítimo, onde se guarda a memória desses tempos gloriosos.

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A bordo do “Capitão João Vilarinho”, 1968
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Deixou-nos, em viagem sem retorno, em 8 de Maio de 2021, com 91 anos. Parece que a vida tem coincidências e tem. Ontem o “Santa Maria Manuela” entrou a barra de Aveiro, destinado a uma reparação na Navalria. Terá sido uma despedida?

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Ílhavo, 8 de Maio de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 4 de maio de 2021

O lugre "Encarnação" em episódios

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No jornal “O Ilhavense” de 13 de Novembro de 1927, a notícia NAVIO NO FUNDO chamou-me a atenção. Passo a citar:

“No domingo passado entraram na nossa barra nada menos do que seis navios dos que regressavam da pesca do bacalhau.

Alguns deles deram em seco na restinga, e ali se conservaram à espera de água para se safarem

Na madrugada de segunda-feira, caiu um valente temporal, indo o lugre “Encarnação”, da firma Ribau & Vilarinho à garra, abalroando com o lugre “Senhora da Conceição» do que resultou sofrer um grande rombo no casco e na amura.

Na quarta-feira, como já tivesse águas para navegar, iam a dirigi-lo para a “carreira”, quando o navio começou a ir a pique, afundando-se em poucos minutos.

Os tripulantes do navio afundado mal tiveram tempo de salvar as suas vidas e alguma roupa, ficando todo o recheio e a carga do barco debaixo de água. O navio está seguro em três companhias”.

Para mim, o “Encarnação” tinha ido à vida!!!!!!!!!!

Mas, um belo dia, passando os olhos pelo catálogo “A Frota Bacalhoeira” (1999), em lugre “San Jacinto”, vislumbrei: Ex- “Encarnação” construído em 1919 em Pardilhó por Joaquim Dias Ministro. Adquirido pela Empresa de Pesca de Aveiro para a campanha de 1933, o “San Jacinto” na campanha de 1936 passou a ser propriedade da Empresa de Pesca de São Jacinto, Lda.

Então, o lugre “Encarnação” não se tinha afundado?

Avançando nos jornais, deparei-me com esta notícia, no número de 8 de Junho de 1930.

O lugre “Encarnação” que em Novembro de 1927 se havia afundado dentro da nossa barra, depois do seu regresso dos Bancos da Terra Nova, acabou de ser posto a flutuar graças aos enérgicos trabalhos da casa construtora Mónica & Cª, Lª, a quem foi confiado o salvamento do referido barco.

O “Encarnação” que vai sofrer importantes reparações, destina-se a viagens de cabotagem, voltando, provavelmente, à Terra Nova, na futura safra.

Uns anos mais tarde, tendo adquirido os volumes da obra de João David Batel, “A Pesca do Bacalhau”, 2018/19, resolvi ressaltar os momentos mais importantes da vida do lugre “San Jacinto”, deixando mais de lado as curtas, mas valiosas notícias de “O Ilhavense”.

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O lugre “San Jacinto”
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Foi registado na Capitania do Porto da Figueira da Foz, em 18 de Março de 1937, para o serviço da marinha de comércio e da pesca longínqua.

No final desta campanha, foi apanhado por uma forte tempestade, tendo sido, o contramestre Manuel de Oliveira Frade, de 28 anos, natural de Ílhavo, varrido ao mar, para nunca mais ser visto.

Em 1939, partiu da Groenlândia sem saber da eclosão da Grande Guerra, porque não estava equipado com aparelhagem de TSF, tendo sido a 10 de Setembro, visitado por um submarino, de que um tripulante solicitou a vistoria dos documentos do lugre. E depois de alguns pedidos, tudo acabou bem. Chegou para o susto.

Em 1940, ficou célebre a sua aventura, quando no norte do Banco Store, na Groenlândia, foi apanhado por uma tempestade com ventos ciclónicos de sudoeste. Viu-se obrigado a correr com o tempo, passando entre dezenas de icebergs, de cuja existência se apercebeu mais tarde, quando navegou para sul, depois de o tempo melhorar, para regressar à faina de pesca.

Em 6 de Agosto de 1951, recolheu parte dos náufragos do lugre “Paços de Brandão”.

A 25 de Fevereiro de 1952, quando se encontrava no rio Douro, deu-se um incêndio a bordo, que obrigou a uma reparação duradoura, num estaleiro do Porto.

Naufragou, por água aberta, durante a campanha de 1952, no Virgin Rocks, na Terra Nova. Os náufragos foram recolhidos pelo “Lousado”, tendo regressado a Portugal, quinze, a bordo do “Cruz de Malta” e os outros foram distribuídos pelo “Ana Maria”, “Labrador”, “Lousado “e “Júlia Primeiro”.

Afinal, o “Encarnação” que foi dado como perdido, na entrada da barra de Aveiro, em 1927, afinal, depois de algumas reconstruções, de alguns benefícios, mudanças de finalidades e empresas, e algumas peripécias complicadas de mar, acabou por viver mais um quarteirão de anos.

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Ílhavo, 4 de Maio de 2021

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Ana Maria Lopes

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