terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

José Teiga Gonçalves Leite

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Capitão José Leite. 1950. AV.
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José Teiga Gonçalves Leite, o jovem capitão, filho de José Gonçalves Leite Júnior e de Alzira Teiga Leite, nasceu em Ílhavo, em 22 de Novembro de 1924. Filho mais velho da D. Alzira, que sempre conheci viúva e, como filho mais velho de mãe “viúva”, era o “homem” da família, para os irmãos mais novos, Armanda e Francisco.

Era possuidor da cédula marítima nº 24.250, passada pela Capitania do porto de Aveiro, a 9 de Setembro de 1943.

Do casamento com Maria Henriqueta Gomes da Cunha e Maia Mendonça, nasceram os filhos José Alberto, Maria Solange e Maria Frederico Mendonça Leite. Passaram, então, a residir, em Lisboa.

“O jovem capitão Leite era típico dos jovens comandantes de Ílhavo. Hoje em dia, em vez de começar como moço e progredir para o posto de pescador, o aspirante a capitão tem um longo período de instrução académica, porventura mais teórica do que prática. Mas, o capitão Leite ainda era um comandante à maneira da tradição antiga, apesar de não ter mais do que vinte e cinco anos de idade. Era bem capaz de conduzir o Gazela e de o navegar com grande velocidade, apesar de o único outro navio de pano redondo em que servira tivesse sido o navio-escola Sagres, onde o jovem Leite não passava de um entre 300 rapazes” – escreve sobre o capitão Leite, Alan Villiers, na sua Campanha do Argus, que acompanhara na safra de 1950, sob o comando do Capitão Adolfo Paião.

E continua: “José Leite olhou em volta da pequena câmara branca, limpa e imaculada, com a velha bússola pendurada em argolas acima do lugar do capitão (o seu lugar) à mesa, de modo a que pudesse ser vista de lá de baixo, para que o capitão estivesse sempre certo do rumo tomado. (…). Através da pequena claraboia, o capitão Leite avistava o triângulo da popa, abanando por enquanto ao de leve, porque não havia vento. Pegou nos binóculos e apressou-se a ir até ao convés. Ainda não havia quaisquer sinais de perigo real no que dizia respeito ao clima e todos os pescadores que ele conseguia avistar continuavam perseverantemente, à pesca, a maioria deles alando os aparelhos depois do primeiro lanço do dia. Tornaram-se amigos, nessa safra de 1950, o comandante australiano Alan Villiers e José Leite, nesse ano, capitão do lugre- patacho “Gazela Primeiro”.

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Gazela Primeiro. AV.
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Antes do seu início de vida na pesca do bacalhau, é de lembrar um episódio por que passou o jovem José Leite na primeira viagem que fazia, acabadinho de sair da Escola Naútica, com os  seus dezoito anos. Desempenhava o cargo de 2º piloto no vapor "Pádua", quando este teve um acidente perto de Marselha, numa viagem ao serviço da Cruz Vermelha Internacional. 
O navio foi de encontro a uma mina que andava à deriva, dando-se uma explosão, que provocou a morte de seis dos vinte tripulantes, bem como o afundamento do vapor.

A sua vida profissional, começou, propriamente, como piloto do lugre “Creoula”, que dispensa apresentações, na safra de 1947. Em 1948 e 49, saltou para imediato do mesmo lugre, sob o comando de Francisco Paião (Almeida).

Nos anos de 1950 e 51, foi então capitão do icónico lugre patacho “Gazela Primeiro”. Deixou, então, os navios da Parceria Geral das Pescarias.

Nos anos de 1952 a 54, comandou o navio-motor “António Coutinho”, construído em 1945, por Manuel Maria Bolais Mónica para a Sociedade Lisbonense da Pesca do Bacalhau, Lda.

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Navio-motor “António Coutinho”

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Em 1955, “saltou” para o comando do navio-motor de ferro, “Sam Tiago”, construído pelos Estaleiros de Viana do Castelo, para Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau (SNAB), tendo o prazer de fazer a viagem inaugural. Por lá ficou mais os anos de 1956 e 1957, na companhia do imediato Francisco Leite, seu irmão.

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Navio-motor “Sam Tiago”

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E terminou a sua brilhante carreira do bacalhau, na campanha de 1958, com a estreia do navio-motor de ferro “Nossa Senhora da Vitória”, construção dos estaleiros de Viana do Castelo, para a SNAB.

Depois da carreira do bacalhau, passou a ser piloto da barra de Lisboa, cidade, onde já se tinham instalado.

Há uns anitos, creio que estive com ele, numa idade já provecta, no Museu, aquando da estreia do filme “A campanha do Creoula” (2013), apresentado pelo realizador André Valentim Almeida, seu sobrinho-neto, que se inspirou em algumas fotos da grande pesca, no “Creoula”, encontradas numa gaveta do tio-avô, no auge da sua vida pesqueira. Sempre tentei que essas fotos me chegassem à mão, mas vários desencontros impediram-no. Chegou hoje a oportunidade de relatar a biografia de José Leite, que faz parte da minha memória, mesmo sem as tais fotos.

Deixou-nos, em 25 de Dezembro de 2014 com 90 anos de idade.

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Ílhavo, 23 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes

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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Aníbal da Graça Ramalheira

 

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Tendo-me pessoa amiga perguntado se eu tinha a biografia do capitão Aníbal da Graça Ramalheira, fui direita às fichas do Grémio, sem me lembrar que a dele estava quase em branco, sem os dados básicos e com o registo de meia dúzia de viagens, apenas. Valendo-me de pessoas amigas e de outros elementos, os habituais, tentei reconstituí-la. E ei-la:

Aníbal da Graça Ramalheira nasceu na Rua do Pedaço em 30 de Julho de 1900, filho de João Pereira Ramalheira Júnior, marítimo e Vitorina da Graça Ramalheira. Do casamento com Leonilde Vitorina Corujo em 30 de Outubro de 1921, nasceram os filhos Vitorina Paula Corujo Ramalheira, Aníbal Leonídio Corujo Ramalheira e Maria do Rosário Ramalheira.

Frequentou o Liceu de Aveiro e o de Viana do Castelo, porque nessa altura, entre 1914 e 1918, época da pneumónica, o pai dirigira uns terrenos para secadouro, pertencentes à Parceria Geral de Pescarias (PGP), em Darque, Viana do Castelo.

Mais um Ramalheira que dedicou o seu tempo aos navios da Parceria, no Barreiro, bem como, na parte final da vida, à empresa, seguindo as pisadas do pai.

Do que se consegue apurar, foi ao bacalhau na campanha de 1922 na “escuna Creoula”, conhecida como “Creoulinha” como piloto, com o capitão António Marques e na de 1923, foi de capitão.

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Escuna “Creoula”
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Nos anos de 1925 e 26, foi capitão do “Argus” velho, futuro “Ana Maria”, pertença da praça do Porto. Era um donairoso e elegante veleiro.

No lugre-patacho “Gazela I”, fez quatro viagens de capitão – as de 1924, 27, 28 e 1929. Quase toda a gente ouviu falar do lugre patacho “Gazela I”, do Gazelinha ou Gazelão, conforme as épocas, que hoje ainda é mantido pelas Américas por um grupo de Amigos.

Teve a honra de fazer a viagem inaugural do lugre “Hortense”, em 1930, onde residiu como capitão até 1936 (inclusive), construído na Gafanha da Nazaré, nos estaleiros de Manuel Maria Bolais Mónica.

Era obrigatório equipar com radar, os navios construídos a partir de 1950, mas Aníbal Ramalheira adorava tanto o” Hortense” e achava-o tão elegante, que dizia que o mastro da antena do radar iria tirar o brilho ao navio. Conseguiu-o aguentar sem radar até 1961, ano em que as autoridades não autorizaram a sua saída.

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O lugre “Hortense”
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Mais uma vez se orgulhou de inaugurar o lugre “Creoula”, construído nos estaleiros da CUF, em tempo record, para a viagem de 1937, tendo ficado por lá mais o ano de 1938, que ficou célebre pela negativa. Foi um ano fatídico com um ciclone que soprou no oceano, tendo atingido fortemente alguns navios. Dentre eles, foi o “Creoula”, do comando do sr. Aníbal Ramalheira, que perdeu quatro homens da sua tripulação, entre eles, o imediato, sr. Carlos Eduardo Miranda Calàs de S. Pedro do Sul, sofrendo também avarias de grande monta. O “Brites” e o “Maria da Glória” felizmente não tiveram perdas pessoais, mas sofreram, igualmente, prejuízos importantes.

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O “Creoula”

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Não há dois sem três e em 1939, fez a viagem inaugural do lugre “Argus”, construído na Holanda, tendo deixado, então, o mar, por motivos de saúde.

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O “Argus”, com a pintura original, de sangue de boi
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Conhecedor e amante de navios, bom profissional, sabedor e habilidoso, seguiu as pegadas do pai, tendo passado a exercer o cargo de gerente da PGP, em Fevereiro de 1941. Supervisionou a frota dos Bensaúde, no Barreiro, depois de uma carreira longa e notável, à frente de vários lugres.

Uma bela panóplia de “navios históricos” passou-lhe pelas mãos, com mestria.

Aposentou-se em 30 de Junho de 1970, tendo vindo morar para Ílhavo.

Deixou-nos em viagem sem retorno, em 6 de Dezembro de 1976 com 76 anos de idade.

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Ílhavo, 21 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O litoral e eu, para desanuviar...

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O litoral e eu temos uma história de vida…

Desde moçoila que o palmilhar as praias piscatórias marítimas, se revelou, para mim, uma delícia. O mar, na sua imensidão, em tons de azul e espuma branca, enrolava-se e espraiava-se na areia cálida e macia, num vaivém constante e sempre surpreendente.

Os cenários eram deslumbrantes a qualquer hora. Desde o alvorecer ao anoitecer, homens e mulheres em alarido, guiavam bois, ajudavam barcos a varar, remendavam redes, corriam com cabos às costas, enquanto, à margem, se faziam lanços no areal cálido e amplo.

Dirão…ou pensarão: convenceu-se que conhece alguma coisa de marítimo e que apanhou essa paixão pelas embarcações tradicionais assim sem mais nem menos. Não foi moda, não. Nem delírio. Também não. Foi gosto, dedicação, observação e estudo.

Finalista de Filologia Românica na UC, defendia a tese "O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos", quando a vida me desafiou para mudar e, de solteira, passar a casada, tomando outro rumo familiar.

Sucedeu que a dita "lua-de-mel" foi feita litoral abaixo, entre Cascais, Sesimbra e baía da Baleeira, passeando mesmo até ao sotavento algarvio.

Palmilhávamos as praias, calcorreávamos areais, sentávamo-nos em rochas. Eu, alcandorada, em embarcações, adorava assistir directamente na beira-mar às lotas de peixe prateado e saltitante. O movimento, o alarido, o colorido, o vaivém de barcos e artes entontecia-me apaixonadamente.

Pelos anos 60, continuava o estertor das embarcações tradicionais e da navegação à vela, a que fui assistindo com alguma mágoa. Mas todo aquele movimento, essa balbúrdia, esse bulício, momentos de extrema beleza, ficaram no meu gosto pelo «marítimo».

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Em Sesimbra. A lota do peixe-espada, na praia. 1965

 

Ao final da tarde, o peixe prateado estrebuchava na areia, no estertor da morte. Vários lanços decorriam em simultâneo, enquanto aiolas se aquietavam em terra e chatas, grosseiras e pesadonas regressavam ao mar prateado…

Anotei, apontei, fotografei, escrevinhei, voltei várias vezes a vários pontos litorâneos, sempre numa perspectiva etno-linguística, até que em 1971, a tese ficou pronta.

Estas imagens dos anos 60 falam mais do que «mil palavras».

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P. de Varzim. Barquinhos com murejonas

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Embarcações diversas na praia da Nazaré

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Barco do mar na Caparica

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 Sines. Lota na praia

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Albufeira. Vai um bote à água

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Lancha da sacada. Albufeira

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Monumental calão. Quarteira
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O gosto não esmoreceu. Bem pelo contrário.

Pelos anos 80, visitei todos os locais já então percorridos, para fazer uma avaliação entre o que a história tinha feito desaparecer e o que ainda perdurava. Esta comparação gorou as minhas expectativas, quanto ao que ainda havia de tradição.

No primeiro decénio deste século XXI, eis-me de novo ao terreno, de norte a sul do país. E o resultado foi o livro “REGRESSO AO LITORAL”, dado ao prelo pela Comissão Cultural de Marinha, em 2008, que muito me orgulhou.

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O tempo foi passando, as embarcações tradicionais e as minhas forças atingiram o seu crepúsculo. Poderia ter sido um pouco antes, mas considero que ainda o fiz a tempo de me ter deixado a alma cheia.

Hoje, nem de longe nem de perto teria forças e ânimo para fazer o que fiz. A idade não perdoa.

Neste primeiro dia de Quaresma, acinzentado e frouxo, desiludida e cansada, apenas poderei  escrever de mim e para mim, recordando o "tal passado à beira-mar"

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Ílhavo, 17 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes

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domingo, 14 de fevereiro de 2021

João Pereira Cajeira

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Cap. João Pereira Cajeira

Mais um ílhavo que não deveria ficar no esquecimento, mas, por falta de dados fotográficos e outros pormenores, foi ficando para trás. Nestes tempos que correm, chegou o seu dia de ser lembrado, mesmo com algumas lacunas, ainda.

João Pereira Cajeira, filho de Manuel Pereira Cajeira e de Maria de Jesus Vilela, nasceu em São Salvador, Ílhavo, em 7 de Março de 1879, na Rua Arcebispo Bilhano.

Era portador da cédula marítima nº 369, passada pela Capitania do porto de Aveiro, em 31 de Março de 1921.

Na ficha do Grémio, o próprio declara que exercera a profissão de capitão do bacalhau desde 1908. Desses tempos, nada nos chegou. Terá começado como moço como mutos camaradas do tempo dele? Mais tarde, após um curso de pilotagem rápido, terá passado por piloto, imediato, até chegar a capitão? Era o normal da época.

Casou em Vina do Castelo com Isilda V. da Silva, em 18 de Janeiro de 1933 de cuja união nasceu o filho José Pereira Cajeira.

Dados certos, encontrámo-los no jornal “O Ilhavense”, a partir de 1924 até 1928, como capitão do lugre “Santa Luzia”, da Empresa de Pesca de Viana do Castelo. (EPV).

No dia 21 de Outubro de 1928, sob o comando do Cap. Cajeira, ao demandar a barra de Viana de Castelo, quando seguia a reboque do “gasolina dos pilotos”, encalhou num banco de areia. Os esforços para o desencalhar não resultaram e foi decidido descarregá-lo, na esperança de que numa preia-mar se safasse, mas sem êxito.

Após ter sofrido este encalhe, o Cap. Cajeira passou na safra de 1929 para o comando do 3º “Santa Luzia”, que tinha sido construído em 1922, em São Martinho do Porto por J. José Honrado com o nome de “Neptuno”. Este navio foi adquirido pela EPV e redenominado   de “Santa Luzia”, logo depois do acidente com o seu antecessor. No final da campanha de 1929 o Cap. Cajeira entregou o navio ao Cap. Aquiles Gonçalves Bilelo, vindo do lugre “Orion”.

Os anos 30 foram cruciais para a sobrevivência das empresas então empenhadas na pesca.

Em 1930, o capitão Cajeira, oficial da EPA, no lugre “Santa Mafalda”, lança-se na procura dos mares da Groenlândia. Chega a avistar aquelas terras inóspitas, alvas e geladas, mas o medo do desconhecido origina um temor na tripulação, que o obriga a voltar para trás. Após o regresso dá uma interessante entrevista ao jornal “Beira-Mar”, de 30 /11/1930, em que refere: (…) Castigada pelo frio intensíssimo e ante o perigo iminente em que nos achávamos, em virtude da proximidade dos icebergs, a tripulação reunida declarou-me que era impossível pescar. Que não podiam – diziam eles – e eu tive de concordar. O fogão já não tinha calor suficiente para cozer pão e a água já fervia com muita dificuldade (…).

No ano seguinte, 1931, este capitão já tinha decidido que os que quiserem ir, vão, e os que não quiserem, ficam em terra.  Ele e mais três irredutíveis capitães dos lugres bacalhoeiros (ele do “Santa Mafalda”, Manuel Labrincha do “Santa Isabel”, João da Cruz do “Santa Joana”, todos da EPA e Aquiles Bilelo do “Santa Luzia”, da EPV, rumaram à Groenlândia, onde encheram diariamente os quetes, atafulhando os navios de bacalhau, de excelente qualidade.

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O “Santa Mafalda” do capitão Cajeira

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Assim, nos anos 1930, 31 e 32, o capitão Cajeira, esteve ao serviço da EPA, na Gafanha da Nazaré, e, no ano seguinte, rumou para Viana.

Entre 1933 e 1936, foi capitão do “Rio Lima”, lugre com motor, de madeira, pertencente à EPV, a que já estava acostumado.

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A bordo do “Rio Lima”, 1936
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E o ano de 1937 chegara e, com ele, a estreia do saudoso lugre com motor, de ferro, “Santa Maria Manuela”, construído nos estaleiros da CUF, em Lisboa, em tempo record, para a EPV. 

É sempre um orgulho estrear um navio, além do mais com uma beleza e elegância inauditas como este. Sentiu-se bem e por lá foi ficando 9 anos, até 1945, ano em que se reformou, com 66 anos de idade.

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À entrada da barra de Leixões
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Ainda teve uns aninhos para saborear a reforma entre Ílhavo e Viana do Castelo, onde, ainda hoje, tem descendentes.

Deixou-nos, em viagem sem retorno, em 30 de Julho de 1958, com 79 anos.

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Ílhavo, 14 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O torpedeamento do "Santa Irene"

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As palavras são como as cerejas e, quando o Sr. João José Senos me veio entregar as fotos do pai que fez o favor de me ceder, perguntou-me se eu sabia o que tinha acontecido com o pai dele, seu avô, Joaquim André Senos.

De repente, não sabia, tendo-me dito que tinha morrido no torpedeamento do “Santa Irene”. Farta de ter conhecimento do sucedido, deu-me a vontade de reler o artigo que constava do jornal “O Ilhavense” de 22 de Abril de 1943.

Ei-lo, o acontecimento que deixou Ílhavo de luto:

De novo a gente da nossa terra veste luto carregado pela perda de mais alguns dos seus filhos, homens do mar de um país neutro a quem um inexplicável bombardeamento, a tiros de canhão, durante a noite, sepultou quiçá, para sempre, no fundo das águas.

Ainda sangrava a ferida causada pelo desaparecimento dos nossos conterrâneos, tripulantes do “Catalina” e do “Maria da Glória” e já outro golpe cruel vem despedaçar os corações e enlutar as almas.

O vapor “Santa Irene” de 1.200 toneladas, pertencente à Companhia Industrial Portuguesa, de Lisboa, partira em 23 de Março para a Itália, com carregamento de trigo para a Suíça, por conta da Cruz Vermelha. Levara pão para os refugiados naquêle pais, neutro como o nosso, e que agasalha nos seus muros homens de todas as nações beligerantes, mulheres e crianças que ali procuravam escapar aos horrores da guerra.

No retorno devia trazer carga consignada ao govêrno português. Saíra, poer isso, de Génova para outro pôrto italiano, mas, ao passar, na noite de 12 para 13 de Abril, entre as ilhas de Córsega e Elba, que distam uma da outra cêrca de 4 milhas, surgiu-lhe um submarino fantasma que o meteu no fundo.

 

Santa Irene

Da tripulação salvou-se a nado o nosso conterrâneo António Menício Tróia, da Rua da Fontoura, que se encontra actualmente hospitalizado em Livorno. Dos restantes nada se sabe, sendo provável – visto até agora não terem chegado notícias do seu salvamento – m que para sempre tenham encontrado o fim do seu infeliz destino.

E então teremos êste saldo macabro e terrível: 5 viúvas, 13 órfãos, e desaparecidos do nosso convívio e da existência, os seguintes ilhavenses:

Manuel dos Santos Marnoto, capitão; Paulo Francisco do Bem, imediato; Henrique Gonçalves Vilão, motorista: Joaquim André Senos, marinheiro; e Manuel Pereira da Silva, fogueiro.

A restante tripulação do “Santa Irene” era constituída por:

Pedro Henrique de Meneses Alarcão, 2º piloto; Manuel dos Santos Belfo, 1º maquinista; Manuel Lopes de Almeida, 2º maquinista; Francisco M. Cominho, 3º maquinista, Flávio da C. Castro telegrafista; José Simões, contramestre; José Joaquim e João da Luz, fogueiros; António Tavares Chegador; António Ferreira Dias, cozinheiro; e João Durte, criado; de várias terras do país, quási todos casados e chefes de família.

E aqui está o resultado de mais um acto de barbarismo de que a Marinha Mercante Portuguesa é vítima, sem nada que o justifique, a não ser a maldade e a cegueira.

É fácil calcular as horas de pavor que se teem vivido em Ílhavo. E fácil é, também, adivinhar o estado de espírito de todos os homens do mar, aqui residentes, que estão prestes a largar para as suas fainas sobre os oceanos em guerra, onde já se não respeita a bandeira dos países neutros”.

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E neste relato de “O Ilhavense», se encontra o nome de Joaquim André Senos, marinheiro, tal como o seu neto tinha relatado, no torpedeamento do "Santa Irene". Ílhavo, mais uma página de sangue, suor e lágrimas…. Sobre as ondas do mar e em terra, para os que esperaram os seus entes queridos, que nunca mais voltaram.

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Ílhavo, 8 de Fevereiro de 2021

Ana Maria Lopes

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sábado, 6 de fevereiro de 2021

João da Cruz Senos (Carriça)

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                O cozinheiro João Senos (Carriça)

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João da Cruz Senos, de alcunha Carriça, mais um homem de bordo ilhavense, filho de Joaquim André Senos (marinheiro falecido no afundamento do “Santa Irene”) e de Maria da Cruz Gomes, nasceu em 21 de Abril de 1921, em São Salvador, Ílhavo.

Morava na Rua João de Deus, mais conhecida por Espinheiro, para onde dá um dos lados da minha casa.

Casou em 24 de Novembro de 1946 com Maria Marques da Silva, costureira, de cuja união nasceram os filhos João José Senos e Benilde Senos.

Era portador da cédula marítima nº23 115, passada pela Capitania do porto de Aveiro, em 16 de Dezembro de 1940. a bordo,

Desde que há documentos credíveis, João Senos, nas safras de 1942 43, foi moço – difícil tarefa – pau para toda a obra, no lugre-motor de madeira “San Jacinto”, ex- “Encarnação”, construído em Pardilhó, em 1919. Depois de passar pela Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), em 1936, passou a ser propriedade da Empresa de Pesca de São Jacinto Lda.

Tendo dado provas de boa vontade e de cumprimento das suas tarefas, o moço João Senos, nas campanhas de 1944 e 45, no mesmo navio, passou a ajudante de cozinheiro, tendo lidado, durante estes quatro anos, com o capitão ilhavense António dos Santos Carrancho.

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O lugre “San Jacinto”

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Tendo deixado “a linha”, definitivamente, passou para o arrastão clássico “Santa Joana”, como ajudante de cozinheiro, nas campanhas de 1946 a 1948, num total de cinco viagens, com os capitães Francisco dos Santos Calão e José Pereira da Bela.

E o tempo de cozinheiro chegou.

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Na cozinha do “Santa Mafalda”, pelos anos 50/60

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Era cargo de grande responsabilidade.

Do cozinheiro e seu ajudante, dependia todo o “combustível” da tripulação, trabalho nada fácil, exaustivo, preocupante, mas rotineiro. E Ílhavo também fora pródigo em fornecer bons cozinheiros para a pesca.

A principal peça da cozinha, incluída «no rancho» era o grandioso fogão, ladeado de pequenas tulhas com os mantimentos que o cozinheiro mais usava: feijão branco e encarnado, grão, arroz e açúcar. As grandes bailas, tachos, panelas, tabuleiros, passe-vites, cafeteiras, penduradas nos vaus. Espaço acanhado…, mas, asseado, limpo, escufenado e arrumado.

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A apanhar a brisa, no "Santa Mafalda"

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Rente à saída para os grandes bancos, vinha a fragata dos mantimentos. Avisado o cozinheiro, ele conferia-os com ajuda de outros companheiros – tudo com peso e medida!

No dia seguinte, chegava o bote com caixas de peixe: pescada, chicharro, pargo-mulato, peixe-espada, corvina… Vinha logo o cozinheiro – vida difícil a deste homem –, estripá-lo com a ajuda da sua mulher (se ela podia ir uns dias para bordo), da do contramestre e de um ou outro marinheiro. Salgava-se no porão, ao lado do encerado com as alfaces, favas, ervilhas, cenouras, para os primeiros dias de viagem. Mais perto da saída, vinha a fragata da água – o cozinheiro que começasse logo a tenteá-la– era-lhe   recomendado.

Na segunda viagem do arrastão lateral “Santa Mafalda”, em 1948, estreara-se como cozinheiro, e por aí ficara até 1965 – no total, cerca de uma trintena de viagens.

Conhecera os capitães, seus patrícios, António Trindade da Silva Paião, José de Oliveira Rocha e António Trindade Grilo Paião. Dera-se bem – conclui-se.


O ano de 1966 tinha sido fatídico para o arrastão “Santa Mafalda e sua tripulação.

À saída da barra de Lisboa, no dia 21 de Janeiro (fez 55 anos, há dias), pelas 11 h e 40, em frente a S. Julião da Barra, numa zona da barra onde o mar obrigava às maiores cautelas, pela sua estreiteza, e por ser semeada de rochedos e bancos de areia, ocorreu o naufrágio do “Santa Mafalda”, sob o comando de Asdrúbal José Sacramento Capote Teiga, cujas consequências, entretanto, felizmente, não foram além dos elevados prejuízos materiais.

Esse dia, lá em casatestemunhava o filho – tinha sido um dia de horrores. O meu pai era cozinheiro e o tripulante mais antigo. Tinha ido buscá-lo a Itália, em 1948. Foram 18 anos de tristezas e alegrias!... Estava para ser a última viagem que faria no arrastão.

O “Santa Mafalda” passava em frente de S. Julião, navegando a velocidade reduzida. Batido por rajadas de vento violento, sofreu uma avaria de leme, cujo sistema eléctrico levou o navio trancado a estibordo.

O navio sem governo permaneceu à deriva, ao sabor do vento.

Foi através de uma lancha de Pilotos que os náufragos foram recolhidos, após se ter conseguido estabelecer um género de cabo de vaivém, que se posicionou a barlavento, e muito próximo do “Santa Mafalda”. E nestas andanças, que não teriam sido fáceis, apesar da proximidade de terra, se salvou-se a tripulação do arrastão.

O mar, após dez dias de fúria violenta, partiu em duas partes o arrastão Santa Mafalda, e por ali acabara por ser desmantelado.

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Santa Mafalda encalhado. Do blogue “Navios à vista”

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E, em viagens normais, o pão de bordo? Ah! Ah! De boa farinha de trigo americana, amassado em água salgada, estava sempre em tabuleiros sobre a mesa. Se era igual e creio que sim, àquele que nos mandavam a casa, ainda quentinho, sempre que entrava algum navio da empresa: – Era de comer e chorar por mais!

Segundo informações do filho, depois deste acidente no “Santa Mafalda”, deixou o bacalhau, mas ainda andou uns aninhos no comércio, no navio/motor “Alcobaça”, conhecido por “barco das bananas” em viagens para a Madeira, entre outros.

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N/M “Alcobaça”

 

Mais tarde, já reformado, ali na ponte Juncal Ancho, teve um acidente, que esteve na origem do seu falecimento.

Não à laia de elogio fúnebre, era mesmo um homem bom que emanava calma e tranquilidade infinitas.

Tendo feito três viagens com o amigo João Manuel Peixoto, entre 1964 e 65, este testemunhou que era um bom profissional, simpático e de fácil trato. A sua boca também acusava a falta de uns bons pitéus, que cozinhava a bordo. Fazia uns bolinhos de bacalhau que “faziam crescer água na boca”.

Deixou-nos, em 17 de Abril, com 65 anos.


Fotos cedidas pelo filho João José Senos

Ílhavo, 06 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes
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