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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Cozinha de bordo na Expomar 92, em Aveiro

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Hoje, em dia, nas preocupações gastronómicas, muito se fala em pratos de bacalhau, na confecção de petiscos com os seus derivados, na qualidade da famosa chora de bordo e outros. Comia-se bem? Comia-se mal? Sempre questões postas por jornalistas actuais, em várias entrevistas.

Aquando da montagem da primeira Faina Maior, em Novembro de 1992, não houve tanto assim, uma preocupação gastronómica, mas sim a procura das peças usadas, antigamente, a bordo, bem como a sua identificação e serventia. Depois de percorrermos as antigas empresas, desde Viana do Castelo ao Barreiro, que para lá tinham destas peças atiradas, foi, para nós, uma satisfação e um prazer, ao encontrá-las. A este propósito, outras questões vieram a lume, em depoimentos prestados pelos antigos cozinheiros, que nos apoiarem e trabalharam connosco:

- António Ferreira Gordo (1921-1997), ajudante de cozinha e cozinheiro no Vaz, Maria Carlota, Elizabeth, Senhora da Boa Viagem e Rio Alfusfueiro.

- João Arlindo Barreirinha Vagos (1927-2011), moço de câmara, ajudante de cozinha e cozinheiro no Argus, Hortense e São Gabriel.

- João Diogo Ferreira Labrincha (n. em 1921) moço de câmara, ajudante de cozinha e cozinheiro no Alcion, Paços de Brandão, Infante de Sagres e Vaz.

O primeiro painel expositivo a ficar pronto e a ser ensaiado, em Aveiro, na Expomar 92, a 21 de Outubro de 1992, foi a cozinha de bordo de navio tipo Hortense (1930) para 42 tripulantes, feita segundo os planos originais, com os materiais e técnicas então usadas na carpintaria naval.

Ficava integrada no próprio rancho, espaço destinado a beliches, onde dormiam os homens, e, onde, à mesa, eram servidas as refeições. Estas cozinhas integradas no rancho situavam-se na parte posterior deste, à amurada do navio. Em épocas mais recentes, passaram a ser isoladas dos beliches e chegaram até mesmo a ser mudadas para plano superior, o convés. Junto à antepara da ré, ficava o fogão, peça fulcral no funcionamento da cozinha. Grande fogão, funcionava a carvão de pedra, tendo sofrido uma adaptação, por volta dos anos 50, para gasóleo, combustível muito mais prático e limpo. Este era o original do navio Creoula (1937).

Com fornalha a meio, um forno de cada lado para o pão, e tanque de aquecimento de água doce, ainda suportava sobre o seu tampo, com oito discos, as grandes louças, peadas, para evitar os efeitos do balanço – peias, de ferro, que encaixavam ema apoios com sulcos apropriados.

O fogão, aceso com uns cavaquitos, e um bocadinho de petróleo, praticamente, na pesca, nunca se apagava – morria, mas quando o cozinheiro se levantava, dava-lhe uma mexedela com o ferro do fogão, punha-lhe mais carvão e estava sempre a andar. A fornalha, interiormente, era forrada a tijolo refractário, que além de isolar o ferro, tinha a vantagem de isolar o calor.

Pelo lado de bombordo, situavam-se umas pequenas tulhas de madeira, com tampa, onde eram colocados mais à mão do cozinheiro os alimentos que mais se gastavam – arroz, feijão encarnado, açúcar e grão.

Sobre as tulhas, havia prateleiras destinadas a louças menores, para o serviço de refeições. As maiores, as grandes bailas, tachos, cafeteiras, chaleiras, suspendiam-se em ganchos fixos nos vaus – o cozinheiro chegava a tocar-lhes com a cabeça. Ainda sobre as tulhas e suspensa dos vaus, uma rede de galinheiro facilitava a conservação das cebolas, ao longo dos meses.

Também a bombordo, um pequeno tanque de água doce, de zinco, servido por uma bomba de relógio, que ligava aos tanques de água dispostos no porão, sob o pavimento da cozinha.

A carvoeira, situada mais ou menos a meio navio, a estibordo do fogão, como que delimitando a cozinha, destinava-se a receber o carvão para abastecimento, que era guardado no pique do carvão, donde era trazido em baldes de boça e, mais tardiamente, em cestos de trol.

Num rudimentar lava-louças móvel, de zinco, suspenso no fogão, lavava-se a louça em água do mar, aquecida, por vezes, com auxílio de uma solução de potassa.

Do cozinheiro e ajudante dependia todo o “combustível” da tripulação, trabalho nada fácil, exaustivo, preocupante, mas rotineiro.

A alimentação a bordo, deficiente em frutas e verduras (que, por não haver frigorífico se gastavam nos primeiros dias após a largada), era pouco diversificada, embora existissem algumas diferenças apreciáveis entre as refeições de viagem e na pesca e as refeições da proa (para os pescadores) e as da ré (para os oficiais).

Em viagem, as refeições eram três: o almoço, a partir das sete e meia da manhã, o jantar, a partir das onze e meia, e a ceia, a partir das seis da tarde, sempre servidas em dois turnos.

O almoço, de garfo, servido no rancho, variava entre papas de farinha de trigo, açorda, papas de feijão, feijão guisado e feijão assado no forno.

O jantar constava de sopa (de feijão branco, vermelho ou grão e massa ou arroz, temperada com toucinho bem alto) e peixe cozido (quase sempre bacalhau seco, que ia de terra, ou pescada, besugo, pargo, amanhados e salgados pelos marinheiros dois dias antes de sair), só por só, ou acompanhados de batatas.

À ceia, voltavam a comer peixe acompanhado de grão-de-bico ou feijão frade.

E o pão de bordo? Feito todos os dias, amassado com água salgada, o grande pão de forma, às fatias, era comido rijo, para se comer menos; só o pequenino, o papo seco, era servido ao meio-dia.

Os dias iam passando e chegava-se ao pesqueiro; aí o horário das refeições estava condicionado à pesca. O almoço, sensivelmente o mesmo do de viagem, podia oscilar entre as quatro da manhã – hora dos “louvados” – e as nove ou dez horas, se a safra do dia anterior tivesse sido muito boa e a escala se tivesse prolongado até muito tarde.

A refeição volante que o pescador levava no foquim para o pesqueiro era constituída por postas de peixe frito, fatias de pão de forma barradas com margarina e azeitonas, à descrição do homem do dóri, que preparava o seu próprio farnel com os alimentos que o cozinheiro lhe apresentava. O café, conservado em garrafa térmica, ia aquecendo o pescador.

Antes da escala, o jantar, com sopa e peixe cozido – agora o bacalhau fresco, miúdo, pescado e escolhido para o efeito.

Depois da escala, a famosa “chora”, cozinhada com caras de bacalhau também fresco.

Todas as refeições eram acompanhadas por chá ou café que se fazia diariamente a bordo, sendo o vinho um costume mais tardiamente introduzido e com restrições.

Pequenas regalias distinguiam a quinta-feira e o domingo: o queque ao almoço e a carne guisada ao jantar, a carne salgada que vinha da Argentina, fervida três vezes em água salgada para perder o sal – carne salcochada.

De regresso, o esquema das refeições de regresso era o mesmo do da ida com maior ou menor recurso a certos géneros alimentícios, o que dependia do tempo despendido na pesca. O peixe agora comido era o bacalhau salgado para esse efeito, nos últimos dias de pesca.

Os pecadores também tinham, de vez em quando, os seus pitéus: – toninha guisada, cozida ou em bife, apanhada na ida, por altura das ilhas, mantendo-se, por norma, o rabo da toninha pregado no pau da bujarrona, até à entrada;

- a tartaruga, igualmente apanhada na ida, era também uma carne muito apreciada, porque idêntica à da galinha, mas com sabor a peixe;

- a lula primordialmente servia para isca, mas quando era excedentária, com autorização do capitão, também se cozinhava;

- da cagarra, ave marinha, se também com abundância, o pescador aproveitava as coxas e o peito, para assar; quando os ia buscar ao forno, por vezes, já lá não os encontrava, tão cobiçados eram.

A comida da ré, porque em muito menor quantidade era sempre mais bem cuidada: temperos mais apurados, batatas descascadinhas, pão e peixe frito sempre frescos. Vinho ao domingo, queques pequeninos, eram estes os chamados “mimos da ré”.

Os horários das refeições, em tempo de pesca também eram mais respeitados, porque os oficiais não saíam para o mar como os homens do dóri.

Dos derivados do bacalhau, que não eram usados à descrição, o cozinheiro preparava uns petiscos que, ainda hoje, os oficiais recordam: caldeirada de espinhas, caras fritas de escabeche, dobrada de samos, arroz de corações, buchos de bacalhau guisados.

Havia no chão uma panela de três pés destinada a derreter o chumbo para a feitura de singas e outras chumbadas. O chamado sino do rancho destinava-se a dar os “louvados” e a chamar o pessoal para as refeições.

Funcionava, assim, a cozinha de bordo.

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Aspecto geral da cozinha de bordo, na Expomar 92
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Passando os olhos pelas folhas de sala
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-A elegante maqueta do l/m “Aviz”

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De frente para a réplica da cozinha de bordo, na Expomer 92
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Ílhavo, 21 de Fevereiro de 2023

Ana Maria Lopes

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sábado, 6 de fevereiro de 2021

João da Cruz Senos (Carriça)

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                O cozinheiro João Senos (Carriça)

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João da Cruz Senos, de alcunha Carriça, mais um homem de bordo ilhavense, filho de Joaquim André Senos (marinheiro falecido no afundamento do “Santa Irene”) e de Maria da Cruz Gomes, nasceu em 21 de Abril de 1921, em São Salvador, Ílhavo.

Morava na Rua João de Deus, mais conhecida por Espinheiro, para onde dá um dos lados da minha casa.

Casou em 24 de Novembro de 1946 com Maria Marques da Silva, costureira, de cuja união nasceram os filhos João José Senos e Benilde Senos.

Era portador da cédula marítima nº23 115, passada pela Capitania do porto de Aveiro, em 16 de Dezembro de 1940. a bordo,

Desde que há documentos credíveis, João Senos, nas safras de 1942 43, foi moço – difícil tarefa – pau para toda a obra, no lugre-motor de madeira “San Jacinto”, ex- “Encarnação”, construído em Pardilhó, em 1919. Depois de passar pela Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), em 1936, passou a ser propriedade da Empresa de Pesca de São Jacinto Lda.

Tendo dado provas de boa vontade e de cumprimento das suas tarefas, o moço João Senos, nas campanhas de 1944 e 45, no mesmo navio, passou a ajudante de cozinheiro, tendo lidado, durante estes quatro anos, com o capitão ilhavense António dos Santos Carrancho.

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O lugre “San Jacinto”

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Tendo deixado “a linha”, definitivamente, passou para o arrastão clássico “Santa Joana”, como ajudante de cozinheiro, nas campanhas de 1946 a 1948, num total de cinco viagens, com os capitães Francisco dos Santos Calão e José Pereira da Bela.

E o tempo de cozinheiro chegou.

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Na cozinha do “Santa Mafalda”, pelos anos 50/60

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Era cargo de grande responsabilidade.

Do cozinheiro e seu ajudante, dependia todo o “combustível” da tripulação, trabalho nada fácil, exaustivo, preocupante, mas rotineiro. E Ílhavo também fora pródigo em fornecer bons cozinheiros para a pesca.

A principal peça da cozinha, incluída «no rancho» era o grandioso fogão, ladeado de pequenas tulhas com os mantimentos que o cozinheiro mais usava: feijão branco e encarnado, grão, arroz e açúcar. As grandes bailas, tachos, panelas, tabuleiros, passe-vites, cafeteiras, penduradas nos vaus. Espaço acanhado…, mas, asseado, limpo, escufenado e arrumado.

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A apanhar a brisa, no "Santa Mafalda"

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Rente à saída para os grandes bancos, vinha a fragata dos mantimentos. Avisado o cozinheiro, ele conferia-os com ajuda de outros companheiros – tudo com peso e medida!

No dia seguinte, chegava o bote com caixas de peixe: pescada, chicharro, pargo-mulato, peixe-espada, corvina… Vinha logo o cozinheiro – vida difícil a deste homem –, estripá-lo com a ajuda da sua mulher (se ela podia ir uns dias para bordo), da do contramestre e de um ou outro marinheiro. Salgava-se no porão, ao lado do encerado com as alfaces, favas, ervilhas, cenouras, para os primeiros dias de viagem. Mais perto da saída, vinha a fragata da água – o cozinheiro que começasse logo a tenteá-la– era-lhe   recomendado.

Na segunda viagem do arrastão lateral “Santa Mafalda”, em 1948, estreara-se como cozinheiro, e por aí ficara até 1965 – no total, cerca de uma trintena de viagens.

Conhecera os capitães, seus patrícios, António Trindade da Silva Paião, José de Oliveira Rocha e António Trindade Grilo Paião. Dera-se bem – conclui-se.


O ano de 1966 tinha sido fatídico para o arrastão “Santa Mafalda e sua tripulação.

À saída da barra de Lisboa, no dia 21 de Janeiro (fez 55 anos, há dias), pelas 11 h e 40, em frente a S. Julião da Barra, numa zona da barra onde o mar obrigava às maiores cautelas, pela sua estreiteza, e por ser semeada de rochedos e bancos de areia, ocorreu o naufrágio do “Santa Mafalda”, sob o comando de Asdrúbal José Sacramento Capote Teiga, cujas consequências, entretanto, felizmente, não foram além dos elevados prejuízos materiais.

Esse dia, lá em casatestemunhava o filho – tinha sido um dia de horrores. O meu pai era cozinheiro e o tripulante mais antigo. Tinha ido buscá-lo a Itália, em 1948. Foram 18 anos de tristezas e alegrias!... Estava para ser a última viagem que faria no arrastão.

O “Santa Mafalda” passava em frente de S. Julião, navegando a velocidade reduzida. Batido por rajadas de vento violento, sofreu uma avaria de leme, cujo sistema eléctrico levou o navio trancado a estibordo.

O navio sem governo permaneceu à deriva, ao sabor do vento.

Foi através de uma lancha de Pilotos que os náufragos foram recolhidos, após se ter conseguido estabelecer um género de cabo de vaivém, que se posicionou a barlavento, e muito próximo do “Santa Mafalda”. E nestas andanças, que não teriam sido fáceis, apesar da proximidade de terra, se salvou-se a tripulação do arrastão.

O mar, após dez dias de fúria violenta, partiu em duas partes o arrastão Santa Mafalda, e por ali acabara por ser desmantelado.

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Santa Mafalda encalhado. Do blogue “Navios à vista”

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E, em viagens normais, o pão de bordo? Ah! Ah! De boa farinha de trigo americana, amassado em água salgada, estava sempre em tabuleiros sobre a mesa. Se era igual e creio que sim, àquele que nos mandavam a casa, ainda quentinho, sempre que entrava algum navio da empresa: – Era de comer e chorar por mais!

Segundo informações do filho, depois deste acidente no “Santa Mafalda”, deixou o bacalhau, mas ainda andou uns aninhos no comércio, no navio/motor “Alcobaça”, conhecido por “barco das bananas” em viagens para a Madeira, entre outros.

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N/M “Alcobaça”

 

Mais tarde, já reformado, ali na ponte Juncal Ancho, teve um acidente, que esteve na origem do seu falecimento.

Não à laia de elogio fúnebre, era mesmo um homem bom que emanava calma e tranquilidade infinitas.

Tendo feito três viagens com o amigo João Manuel Peixoto, entre 1964 e 65, este testemunhou que era um bom profissional, simpático e de fácil trato. A sua boca também acusava a falta de uns bons pitéus, que cozinhava a bordo. Fazia uns bolinhos de bacalhau que “faziam crescer água na boca”.

Deixou-nos, em 17 de Abril, com 65 anos.


Fotos cedidas pelo filho João José Senos

Ílhavo, 06 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes
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