sexta-feira, 21 de julho de 2023

Representação de Ílhavo no Milenário e Bicentenário de Aveiro

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Representação de Ílhavo no Milenário e Bicentenário de Aveiro


Em Julho de 1959, Aveiro comemorou o Milenário” da primeira referência, conhecida, à sua existência, expressa no documento da doação feita em 26 de Janeiro de 959, pela Condessa Mumadona Dias, ao mosteiro de Guimarães, por ela fundado. Aveiro contava-se entre as terras então doadas ao referido Mosteiro.

Em simultâneo, na data referida, Aveiro comemorou o Bicentenário” do registo da Carta de Provisão (26.07.1759), em que D. José outorga e faz mercê, que dessa data em diante, Aveiro fique erecta cidade.

A representação de Ílhavo nas festas comemorativas do Milenário e Bicentenário de Aveiro”, nomeadamente no Cortejo Folclórico, foi exemplar. Faz quarta-feira, portanto, dia 26 de Julho, 64 anos…Era domingo, em 1959.

Dia de festa em Aveiro. Ruas e avenidas apinhadas de gente, varandas ornamentadas de colgaduras, a abarrotar… todos quantos acorreram a Aveiro procuraram local de onde pudessem apreciar o espectáculo que se lhes deparava. Corriam de um lado para o outro para bisar os aplausos a todos quantos nos seus bonitos trajes, antigos ou modernos, nas suas danças e canções os encantavam.

Todos os concelhos do nosso distrito cooperaram, participando com os bonitos carros alegóricos representativos das suas actividades comerciais, industriais e agrícolas.

Embora todo o concelho de Ílhavo tivesse uma representação à altura, é, do nosso grupo, de que eu e muitas das minhas amigas fazíamos parte, que tenho uma memória mais viva.

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Abertura da representação de Ílhavo
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A abrir, um dístico com a palavra ÍLHAVO, conduzido por dois autênticos pescadores. A seguir, um friso de jovens pescadeiras, seguidas por mais seis padeiras e outras tantas ceifeiras, vestidas a capricho. Um grupo de lindas tricanas antigas e modernas, tendo havido o cuidado de, naquelas como nestas, escolher lindos palminhos de cara, dentre as mais graciosas das nossas gentis meninas.in “O Ilhavense“ de 1 de Agosto de 1959.


O desfile

Pelo menos as ceifeiras entoavam alegremente a “Canção das Ceifeiras” que fazia parte do repertório da revista infantil “A Nossa Escola”, com letra do Prof. José Pereira Teles e música do vaguense Berardo Pinto Camelo.

Seguiram-se representações do Illiabum Clube, da Fábrica da Vista-Alegre, da Gafanha da Nazaré, da Indústria de Conservas de Peixe da Barra, o carro da Capelinha da Nossa Senhora da Saúde…

Fechava esta parte do cortejo um carro com uma alegoria de Ílhavo (a vela não podia faltar), estruturada sob um feliz desenho modernista de Emanuel Macedo e ladeada pelos Bombeiros Voluntários de Ílhavo.

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O carro alegórico
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Segundo a fonte jornalística já referida, foi um cortejo que fechou com chave de oiro todas as festas mundanas do Milenário e Bicentenário de Aveiro”.

E lembrar a azáfama que antecipou todo este folclore?

O centro do mundo era a casa da Senhora D. Dadinha Lé, pequenina, gordinha e gaiteira, com o bairrismo à flor da pele.

Em cima da mesa da sala de jantar, metros e metros dos mais variados tecidos (cetins, sarjas, veludos, chitas, fazendas, feltros, etc.) e acessórios: chapéus, lenços, cestos, canastras, faixas, xailes, foices e outros.

E as idas ao Porto àqueles grandes armazéns de têxteis, em busca dos tecidos mais apropriados?

E as provas, que farra! Na nossa juventude, queríamos apresentarmo-nos o melhor possível: o calçar da bota, da meia riscada de vermelho e branco, o arriar do saiote, o içar da saia com a faixa, o trilhar do avental, o ajeitar da blusa ao peito e o dobrar da aba do chapéu da maneira que melhor condissesse com o rosto.

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Ceifeiras ledas, morenas…
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Eram estas as gentis ceifeiras, da esquerda para a direita: Célia Ré, Ana Maria Lopes, Maria Manuela Vilão, Rosa Armanda Mano, Idalina Bela e Elisabete Moreira.

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Ílhavo, 21 de Julho de 2023

Ana Maria Lopes

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segunda-feira, 17 de julho de 2023

Rememorando...A regata de S. Paio lá se cumpriu - 2012

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A regata do S. Paio – 2012 não teve o brilho que tem tido nos derradeiros anos. Tudo se conjugou.

Barcos moliceiros de tamanho vernáculo, apenas se apresentaram oito, mais alguns de tamanho inferior.

O tempo não ajudou e não saiu de um cinzentismo que envolveu o ambiente, sem grandes emoções e pouco vento.

O júri do concurso de painéis não esperou pelos moliceiros da zona sul (Costa Nova), que eram três, o Marnoto, Pardilhoense e o Inobador, a que uma neblina cerrada atrasou o andamento. Resultado – não assistimos.

A moldura humana não tinha o mesmo fervor do dia anterior.

Pairava no ar um forte pressentimento de que o moliceiro está a morrer de uma morte anunciada e velozmente concretizada. Será reversível? Parece-nos que não, apesar do empenho destes três, que vão animando a ria, frente à Costa Nova.

Passará, em breve, a sobreviver apenas como barco de museu, o moliceiro, e através dos registos escritos e videográficos que têm sido feitos sobre ele. Oxalá nos enganemos, mas os tempos não estão fáceis para nada.

A meio da regata, quando os lugares já quase pareciam estar definidos, eis que um estrondo seco nos assusta, já que seguíamos de perto a competição, em bateira, para melhor a fotografar e apreciar.

O que terá sido? O sonho do Zé Rito, homem multifacetado da ria, aguerrido e vencedor das últimas competições lagunares – regata de moliceiros, no Bico da Murtosa, regata de bateiras à vela e de chinchorros, ambas no dia anterior, na Torreira, esfumara-se. O esbelto e rijo mastro estalara, quebrara, ribombara, arrastando a grande vela, brandais e todos os outros aprestos necessários ao seu funcionamento. Nada de acidentes pessoais, apenas a aspiração ao prémio da regata maior, desfeita. Para o ano há mais…. Haverá?

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Sequência de imagens. Elas falam por si.

 


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Os auxílios foram rápidos e o Zé Rito, descoroçoado, rumou ao seu estaleiro, à borda d’água. Substituir o mastro quebrado está nas suas mãos habilidosas de Mestre, apesar do trabalho e despesas.

A classificação final foi:

1º - Dos Netos – Arrais /Ti Abílio “Carteirista”

2º - Manuel Silva – Arrais/Zé Pedro

3º - A. Rendeiro – Arrais/Ti Zé Rebesso

4º - Pardilhoense – Arrais/Marco

5º - Inobador – Arrais/ Pedro Paião


Teve azar o avô Rito, mas ganhou o 2º prémio o neto, o Zé Pedro, de 12 anos, a lemar o Manuel Silva. Filho de peixe sabe nadar – diz o povo e com razão.

Felicitações aos vencedores e ânimo para enfrentarem as dificuldades e contribuírem com garra para a manutenção da tradição.

O sábado anterior da romaria, com programa muito intenso a que também assistimos e de que nos havemos de ocupar foi bem mais alegre, divertido, entusiasmante e sonhador.

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Ílhavo, 10 de Setembro de 2012/Julho de 2023

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Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 12 de julho de 2023

Na Costa Nova, há 63 anos...

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Na Costa Nova, os turistas não abalam, sem levar umas fotos, tendo como cenário, os palheiros, os mais apetecíveis. Os famosos risquinhas! Os proprietários deveriam passar a cobrar. Chegam a entrar nos terraços e a sentar-se nos bancos como que se deles fossem. E esta, hein? 

Além dos palheiros, há casas bem bonitas e também carismáticas, nesta praia. E a Mota (actual turismo)? Nada, não vêem mais nada. 

Começo a aperceber-me que as estreitas vielas, que davam e ainda dão acesso às recoletas lhes começam a interessar. E, vai daí, mais uma “chapa”. Outros recantos, também com encanto, mais lá para o sul, nem são visitados. Nem o cais dos pescadores, cenário também apetecível.

Penso e reflicto. Com 78 verões por aqui passados, não tenho uma imagem, uma que seja, com um palheiro, o meu eleito, como fundo. Ainda estarei em tempo de aproveitar? Talvez.

Na nossa juventude, tínhamos por hábito fazer sessões fotográficas, para o que nos aperaltávamos, feitas modelos, mas o que elegíamos?  A esplanada, a ria, com todas as embarcações tradicionais que ainda ia tendo, as varandas, a Biarritz, o movimento da romaria da Senhora a Saúde…  Mas um dos cenários eleitos, de que fiquei com algumas recordações, era mesmo o sul piscatório, interagindo com os pescadores que remendavam redes, preparavam aparelhos e outras tarefas necessárias ao seu dia a dia. Por vezes, uma visita também ao “barco do mar”, a dita arte xávega, assim apelidada, actualmente. Essa, por aqui, foi-se. Há muito que deixou de existir, desde os anos 50, do século passado.

Eis algumas das referidas fotos como documento, com as modelos, Manuela Vilão, Alcina Cachim Parracho e eu, com dois amigos de então.

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A sul, as modelos e um pescador

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Exibem a juventude, vestidos de negro
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Cena piscatória, ao sul
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Na proa do “barco do mar”
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Ílhavo, 12 de Julho de 2023

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Ana Maria Lopes-

sexta-feira, 7 de julho de 2023

A Costa-Nova em Fotoselos da Rotep

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Na décima sexta carteira da colecção de Fotoselos da Rotep, publicada em Julho de 1962, foram contemplados vários locais pertencentes a Ílhavo e ao seu concelho.

Por acaso, sabe o que é um fotoselo?

Deve saber. Mas, se não souber, não é difícil descobrir. A palavra é concludente – pedacinho de papel impresso, no formato de 8,4 x 6,8 cm., que, nem é selo nem fotografia. Era coleccionável, publicitário, enfim, era uma recordação ou um souvenir, como refere a própria carteira, que protege o conjunto dos doze (ou vinte) fotoselos.

Podíamos colar um em cada carta que escrevêssemos, coleccioná-los em álbum próprio ou simplesmente mostrar Portugal aos nossos filhos – dão-nos estas sugestões.

Curioso não é? Reporta-nos a outros tempos. Comparemo-los com os actuais meios publicitários e de comunicação.

A colecção da “nossa terra” exibia uma Vista Parcial de Ílhavo, o Estádio Municipal e Jardim Infantil, as Torres da Igreja Matriz, a Ponte de Juncal Ancho, a Capela da Vista Alegre, o Trajo de Tricana, um barco na Ria, a Praia do Farol, os Estaleiros da Gafanha e três dedicados à Costa-Nova, pelos vistos, merecedora de tal propaganda.

Esta carteira com 12 fotoselos tinha o custo de 4$50, com opções a preto ou sépia.

Por hoje vamos saborear os da Costa-Nova, linda praia…


 

Quadro de Dias Sanches
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Quadro de Eduarda Lapa
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Costa Nova (imagem invertida)
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Quem imprimiu este fotoselo, não conhecia a Costa-Nova, pois a imagem está invertida.

Verifica-se muito bem à transparência. Confirmem os “entendidos”.

Mesmo assim, revejam as bateiras e os “Vougas”, de aluguer, do Sr. Tainha, a mota, a barca da passagem e, ao fundo, a antiga Pensão “A Marisqueira”.

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Costa -Nova na devida perspectiva
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Ílhavo, 07 de Julho de 2023

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Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 5 de julho de 2023

A ponte das "Duas Águas", no dia 5 de Julho de 1951

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Era domingo - no dia 5 de Julho de 1951, tal como hoje, (há 72 anos), a ponte de madeira das “Duas Águas”, que ligava o Forte à Barra, arriou, abrindo uma brecha de uns bons pares de metros, exactamente no momento em que passava uma camioneta de carga.

Milagrosamente, para lá do mergulho e afundanço da camioneta, não houve mais consequências nefastas, pois que os seus três tripulantes safaram-se a nado, depois de um grande susto.

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Aspecto da ponte, após o acidente – 1951
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As forças vivas do concelho deveriam, pois, actuar. Continuando a velha ponte a servir de passagem entre as duas margens da ria, várias dezenas de pessoas teriam a sua vida em risco!

Diz que se ouviram lamentos: – Agora… mais um compasso de espera para o comércio da Costa-Nova e da Barra. Quem compensa?

A tragédia não atingiu maiores proporções, porque a camioneta de passageiros que seguia atrás, pôde ser travada a tempo. O condutor, com perícia, conseguiu recuá-la para terra firme.

Na imprensa da época, lia-se com frequência “– Ponte interrompida para obras, Ponte Farol /Barra sujeita a benefício…”

Lembro-me dessas agruras, a que os mais novos achavam muita piada, mas os mais velhos nem tanto…

Uma camioneta de cada lado… e os passageiros tinham de passar “a ponte a pé” (expressão com que se brincava), com o tremelicar contínuo dos barrotes, que, nas junções, deixavam a água corrente e profunda, à vista, lá em baixo.

Durante esse interregno houve momentos, devido ao corte da ponte, em que nem esse tipo de travessia era possível!

Havia um plano para a construção de uma ponte em cimento armado que tardava. Só ficou pronta no Verão de 1975, com acessos ainda provisórios e em Março de 77, a velha ponte de madeira, foi demolida.


Mais uma imagem da ocorrência – 1951
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Então, o serviço da travessia entre a Costa-Nova e a Gafanha da Encarnação era sobrecarregado, para o que não estava preparado.

Estavam, à época, ao serviço da travessia duas lanchas da carreira, a “Rosa Branca e a “Costa-Nova, que não aprovaram por muitos anos. Recorreu-se, de novo, às pesadonas “barcas da passagem”.

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A “Rosa Branca, à esquerda da Mota
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Como a afluência era muita, leu-se na imprensa regional de então, a 1 de Agosto, que chegou a haver pequenos incidentes na travessia, em dois domingos seguidos.

“ (…) Estava atracada à mota da Costa uma lancha da carreira. O povo foi entrando e os barqueiros não notaram que um dos bordos da embarcação estava em cima da mota. Quando se afastou aquela, como o povo era muito, a lancha inclinou-se tanto que alguns passageiros e algumas bicicletas foram cuspidos à água.

Houve pânico, alarido, mas felizmente o acidente não resultou senão num banho forçado (…)”.

Mas, pasme-se: - notícia de 10 de Agosto de 1951 anunciou: “(…) A ponte das Duas Águas já dá passagem a carros ligeiros (…)”, apesar do travejamento continuar sempre a tremelicar.

Meu Deus! Parece que as obras eram mais rápidas pelos anos cinquenta do que agora, pois, actualmente, as obras nas estradas em Ílhavo, Aveiro, Gafanhas, ainda continuam a perseguir-nos!... das quais não se imagina um fim à vista.

Nos meus sete anos, recordo-me da ocorrência, mas sem grandes pormenores. Foi um desaforo na Costa-Nova!

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Ílhavo, 05 de Julho de 2023

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Ana Maria Lopes

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