quarta-feira, 25 de maio de 2022

A propósito da exposição "O Grande Norte"...

 -

Na exposição “O Grande Norte”, patente na sala de Exposições Temporárias, no MMI, até 6 de Novembro, tive o prazer de reler esta entrevista, que recordo e de que respiguei alguns excertos.

-

E o capitão João Pereira Cajeira assim o conta ao jornal “Beira Mar”, de 30/11/930.

– […] Ano passado chegaram até mim informações sobre a belíssima pesca que havi feito um navio francês nos Bancos da Groenlândia. […] Este ano, quando cheguei aos Bancos da Terra Nova, procurei os meus lugares predilectos de pesca, aqueles onde, em anos transactos, tenho feito boa safra. Uma grande desilusão sofri. Má pesca, escassês de peixe, uma arrelia. […] Resolvi, definitivamente, ir até aos bancos da Groenlândia.

– No dia?

– Partimos no dia 20 de Junho e tivemos uma viagem magnífica […] sem novidade e ao fim de 10 dias estávamos a 63º 40’ de latitude norte. Estávamos, então, sob a acção de um frio inclemente, cortante, indescritível. Espectáculo soberbo, verdadeiramente extraordinário. […] De todos os lados, mais perto e mais longe, se erguiam magestosos e bizarros os icebergs […] de todos os tamanhos e de todos os feitios. Alguns davam-nos a impressão fiel de veleiros singrando os mares, com o velame içado. Outros ainda, agigantados, magestosos, pareciam rochedos perdidos no meio das águas… Interessante, mas tétrico. Interessantíssimas as auroras boreais. São espectáculos frequentes naquelas paragens. Que vivacidade e que frescura de colorido!

– E pescaram?

– Oiça: Castigada pelo frio intensíssimo e ante o perigo eminente em que nos achávamos em virtude da proximidade dos icebergs, a tripulação reunida declarou-me que era impossível pescar […] Que não podiam, diziam êles, e eu tive de concordar. O fogão já não tinha calor suficiente para cozer pão e a água já fervia com muita dificuldade. […]

Em derredor do navio, a certa distância, avistaram-se centenas de icebergs. Faziam um ruído ensurdecedor. […]

– Como escaparam de tam grande perigo?

– Tivemos a nosso favor um grande factor de ordem natural. Quási não havia noite naquelas longínquas paragens. O sol rompia às duas horas da madrugada e só às 11, 5 horas desaparecia no horizonte.

– Três horas, pouco mais de noite…

 – É certo… e, nem sequer nesse tempo dormia sossegado. Com grande dificuldade e, por vezes em riscos de nos perdermos, conseguimos descobrir uma aberta pela qual iniciámos o regresso.

Navegando com ventos contrários só conseguimos chegar aos Bancos da Terra Nova no dia 12 de Julho. […]

Um pescador disse referindo-se aos mares da Groenlândia:

Eh! Sinhor Capitão! Aquele mar não tem passage! Aquilo era tudo fechado que até metia medo…

O capitão Cajeira sorridente e pensativo parecia recordar a acidentada viagem que, pelos perigos de que foi cercada, nos faz lembrar as antigas viagens dos navegadores portugueses.

- 

Ílhavo, 25 de Maio de 2022

-

Ana Maria Lopes

-

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Ainda JOÂO CARLOS...

-

Depois de ter visitado a Exposição JOÃO CARLOS, incluída no “Ilustração à Vista”, tive vontade de revisitar o meu baú, para lembrar obras do autor que estiveram presentes na “Retrospeciva JOÃO CARLOS”, que o Museu Marítimo e Regional de Ílhavo apresentou em Abril/Maio de 1991.

-

Tormenta, 1932

Nanquim, 57x44 cm

Col. Museu Santos Rocha. Figueira da Foz

-

Ceifeiros, 1934

Técnica mista, 42x35 cm

Col. Feverónia Mendonça, Lisboa

-

 

Varina, 1941

Lápis, 41x59

Col. Marítimo e Regional de Ílhavo

-

Caminhos do Sangue, 1942

Nanquim, 24x20 cm

Col. Moreira das Neves, Lisboa

-

A Ceia, 1951

Óleo sobre tela, 200x300 cm

Col. Seminário dos Olivais. Lisboa

-

 
Ondina, 1953

Estudo para fonte. Gesso.118x35x53 cm

Col. Marítimo e Regional de Ílhavo

-

Flor de Plástico, 1959

Óleo sobre cartão, 56x45 cm

Col. Feverónia Mendonça. Lisboa

-

Lisboa, 1959

Óleo sobre tela, 81x65 cm

Col. M. Luisa C. Saldanha Q. R. dos Santos. Lisboa

-

Cartão para figurino dos Pajens de Santa Joana, 1959

Nanquim e gouache, 33x33 cm

Col. Paço Episcopal de Aveiro

- -

D. João II, 1960

Nanquim, 56x43 cm

Col. Museu de Marinha, Lisboa

-

Para terminar, apreciemos a capa de uma Revista editada pela C.M.I. em 1932, em que a Costa Nova publicitada por uma banhista escultural e naïve daria um dos melhores cartazes para a nossa praia.

É pena que alguns dos ingredientes apregoados já não sejam os mesmos: a ria a beijar as casas, as bateiras atracadas aos moirões em frente aos palheiros, o barco do mar com toda a beleza e empolgamento da arte que praticava.

-

 

Costa Nova, 1932
-

Ílhavo, 20 de Maio de 2022

-

Ana Maria Lopes

-

 

 

domingo, 15 de maio de 2022

Manuel Fernandes Matias

 -

Através de conhecimento comum, tive acesso a uma fotografia do avô materno da colega Maria Vitorina Matias Azevedo. Toca de trocar dados para chegar a uma curtinha biografia.

Manuel Fernandes Matias, filho de João Fernandes Matias e de Maria Emília Pereira, nasceu em Ílhavo, na freguesia de São Salvador, em 3 de Agosto de 1890.

-

 Manuel Fernandes Matias

-

Casou com Felicidade dos Santos Matias, em 21 de Agosto de 1912, de cuja união nasceram seis filhos: Rosa, Maria, falecida com 23 anos, Luís, falecido em criança, num desalmado acidente em Matosinhos, Maria Natália Fernandes Matias, João Fernandes Matias e Maria da Conceição Fernandes Matias. De quem mais me lembro, ou não estivesse ligado ao mar, é de João Fernandes Matias, sobretudo pela célebre viagem de Alan Villiers, no “Argus” na safra de 1950, onde ocupou o lugar de imediato.

Voltando a Manuel Fernandes Matias, era possuidor da cédula marítima nº 7785, passada pela Capitania do porto de Aveiro, em 6 de Dezembro de 1915.

Desde que há registos fidedignos, foi piloto dos lugres”Argus” (velho), em 1928, “Hortense”, em 1931, “Santa Mafalda”, em 1933, “Ilhavense 2º”, em 1934 e 35,  “Infante”, em 1936, “Neptuno Segundo”, nas safras de 1937 e 38.

Com três anos de interregno da pesca do bacalhau, durante a II Guerra Mundial, em que naufragou por duas vezes, voltou a pilotar o lugre-motor “Brites”, em 1942, para passar a imediato do navio-motor, “Bissaya Barreto”, na campanha de 1944.

-

Lugre “Hortense”
- 

Abandonou, então, a pesca do bacalhau para se dedicar à pesca no Cabo Branco.

Em 1958, era o sócio nº 7 do Grupo dos Amigos do MVSEV MVNICIPAL DE ÍLHAVO.

Tendo deixado a sua carreira marítima, veio a “partir” numa viagem sem retorno, em 2 de Novembro de 1959, com 69 anos.

-

Ílhavo, 15 de Maio de 2022

-

Ana Maria Lopes

-

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Retrospectiva de... Retrospectiva JOÃO CARLOS, 1991

 -

A Exposição JOÃO CARLOS, integrada no “ILUSTRAÇÃO à vista, 2022, foi inaugurada a 5 de Maio, na Casa da Cultura de Ílhavo, prolongando-se até 24 de Julho. É uma exposição de parceria entre a Câmara Municipal de Setúbal e o Museu Marítimo.de Ílhavo. A não perder, porque até já vi o catálogo, que me seduziu.

Mas, pensei, antes de a visitar, vou dar revisão à matéria dada – singelo Catálogo João Carlos – Retrospectiva, 1991, no Museu Marítimo e Regional de Ílhavo, muitas fotografias e uma memória muito presente, apesar dos 31 anos já passados.

 

JOÃO CARLOS Celestino Pereira Gomes nasceu em Ílhavo, a 5 de Outubro de 1899 e morreu em Lisboa a 11 de Novembro de 1960, estando sepultado em Ílhavo, conforme desejo por ele formulado.

João Carlos, figura multifacetada, foi médico, escritor, pintor, entalhador, ilustrador, desenhador e xilógrafo. Tentou também a cerâmica, a escultura, o ferro e o mosaico, onde deixou curiosos e interessantes exemplares. Pena é que, nesta exposição, com tanto espaço disponível, demais, alguns destes aspectos não tenham sido contemplados!

Ao reler, minuciosamente, um texto de Frederico de Moura que lhe dedica na “Evocação” do Catálogo João Carlos – Retrospectiva, 1991, não resisti à tentação de transcrever este excerto:

(…) A altura em que o seu lápis e o seu pincel eram tocados de poesia, era quando ondulava o tronco duma peixeira de Ílhavo, quando individualizava a musculatura dum pescador da Costa Nova, quando catava motivos decorativos na proa dum moliceiro, quando se auto-retratava, ainda menino, com a opa vermelha da Irmandade do Senhor, ao lado de seu avô, ou quando aparecia com um moinho de papel da romaria da Senhora da Saúde. Tinha Ílhavo no coração e a sua obra é a tradutora mais rica da sua ambiência e da nossa etnografia. Por isso, merece a gratidão da gente da sua terra, da gente que o seu lápis e o seu pincel acarinharam numa obra perene de beleza e muitas vezes marcada de sentido humano (…).

 

Algumas fotos da Exposição:

-

Convite sob Auto-retrato
-

 

Mobília da saleta da casa do Artista e outras peças, diversas…
-

 

Inauguração, a 20 de Abril de 1991
-

 

Um mar de gente, entre um mar de obras de arte...
-
-

Eng. Galante, Monsenhor G. Gaspar, eu e Sr. Gouveia
-

Muita gente entre muitas obras
-

 

Francisco Marques, Esposa e outros Amigos…
-

O grande tríptico   da Associação Nacional de Lanifícios, 1954
-

O Presépio, 1930
-

Revisitei com prazer e saudade esta exposição. até porque muitos dos visitantes já cá não estão para contar, outros seriam muito jovens e não teriam estado presentes e outros, em que me incluo, organizaram-na, visitaram-na, decoraram-na e estão prontos a visitar a actual Exposição JOÃO CARLOS, na Casa da Cultura de Ílhavo, até 24 de Julho de 2022.

-

Fotografias – Carlos Duarte

-

Ílhavo, 9 de Maio de 2022

-

Ana Maria Lopes

-

sábado, 7 de maio de 2022

Conversa de madrinhas de navios, em 30 de Abril de 2022, no MMI

 -

Estas duas madrinhas de navios-motor, em madeira, são as sobreviventes, que se saiba, e já quase peças de museu.

Uma, eu própria, madrinha do navio/motor, “São Jorge”, construído em 1956, na Gafanha da Nazaré, no estaleiro de Manuel Maria Mónica cujo bota-abaixo foi a 10 de Março do mesmo ano. Neta do Capitão Pisco, um dos sócios fundadores da empresa Testa & Cunhas, Lda., eis a razão pela qual fui convidada para madrinha do navio, com apenas 12 anos. Receios, ansiedades, alegria, chança, vaidade, pequenez, foram muitas das emoções que senti, antes, sobretudo, e depois do bota-abaixo.

A multidão, a altivez do navio na carreira, o embandeiramento em arco dos restantes navios ancorados, o receio que o navio empancasse na descida, que o sebo secasse, que o navio tombasse, que arrastasse o palanque dos convidados – alguns receios possíveis, outros nem tanto, fizeram daquele momento, um momento único da minha vida de menina! O foguetório, as bandas, os ranchos, as sirenes e tudo o mais que possamos imaginar, fizeram da Gafanha da Nazaré um palco único, naquela altura. Todos os caminhos lá iam desembocar…

A outra senhora, menina de 8 anos, à época, era Inês Maria Chambers de Sousa Amorim, filha do então Presidente da Câmara de Vila do Conde – e também nome do navio. Daí a razão do convite para madrinha, do navio-motorVila do Conde” num ambiente que não lhe era tão familiar como a mim, mas de que gostou, embora não tivesse uma memória tão acentuada. Mas, nas muitas fotos que tinha, nas atenções que lhe prestaram, bateu-me aos pontos… uma verdadeira vedeta.

O “Vila do Conde” construído em 1955, na Gafanha da Nazaré, no estaleiro de Benjamim Bolais Mónica, teve o bota-abaixo a 25 de Março do mesmo ano, construído para a firma Tavares, Mascarenhas, Neves & Vaz, Lda., com  sede em Ílhavo e no Porto.

Eu ofereci ao navio uma bonita escultura do São Jorge a cavalo, de espada em riste, a lutar contra o dragão, que viajou no navio, na Sala de Oficiais, entre 1956 e 1972, ano em que foi vendido.

A madrinha do “Vila do Conde” ofereceu-lhe uma bonita fotografia sua, de Domingos Alvão, emoldurada, que viajou no navio entre 1955 e 1973, ano em que se afundou.

Não houve grande quórum, mas houve muita conversa, troca de muitas memórias e de muitas fotos.

-

Conversa junto à proa do “Faina Maior
-

As madrinhas, já de cabelos embranquecidos
-
- 
Foto de pormenor…
- -

Ílhavo, 7 de Maio de 2022

Ana Maria Lopes

-

terça-feira, 26 de abril de 2022

O último capitão do "Gazela I" partiu...

 -

-

Acabei de saber que o último capitão do lugre-patacho Gazela I, na safra de 1969 “partiu”, ontem.

Aníbal Carlos da Rocha Parracho, filho de Carlos Fernandes Parracho e de Silvina da Rocha, nasceu em Ílhavo, em 26 de Junho de 1927, em Ílhavo.

Não tendo tido grande convivência com ele nem com a Família, era assim que o identificava – o último capitão do Gazela.

-

Capitães do Gazela I
-

Homem do mar e quase sempre piloto, imediato ou capitão de navios de pesca à linha, era possuidor da cédula marítima nº 115511, passada pela Capitania do porto de Lisboa, em 21 de Julho de 1954.

Do casamento com Fernanda de Oliveira Pio Parracho, nasceram os filhos Maria Filomena e Carlos Júlio Pio Parracho.

Passou pelos navios Senhora das Candeias (arrastão lateral), em 1954, Dom Denis, em 1955, Santa Maria Madalena, em 1956, Rio Antuã, de 1957 a 1960, Rainha Santa, em 1961, Neptuno, de 1962 a 68, Gazela I, em 1969, Conceição Vilarinho, em 1970, Ilhavense, em 1971, Celeste Maria, em 1972, ano em que naufragou. De novo, comandou o navio-motor Ilhavense, em 1973 e 1974, ano em que naufragou.

-

Entre amigos…
-

Acabou a sua carreira de pesca à linha do bacalhau.

Depois de uma longa e merecida aposentação, partiu em viagem sem retorno, a 25 de Abril de 2022, com a provecta idade de 94 anos.

-

Ílhavo, 26 de Abril de 2022

Ana Maria Lopes

-

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Duas velinhas (14) para o "Marintimidades"

 -

Colecção Capitão Marques da Silva

-

catorze anos, por vintes de Abril de 2008, andava em ensaios para criar um blogue, exactamente, quando estava em exposição no Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), a “Colecção Capitão Marques da Silva, na Sala de Exposições Temporárias. Mesmo depois do prazo de encerramento, seria integrada, pelo menos o seu núcleo principal, na Sala dos Mares do referido Museu.

O protocolo do depósito desta colecção foi assinado, a 5 desse mês de Abril, bem como lançado um pormenorizado Catálogo da mesma. Dele direi apenas que, quem o adquirir, levará a exposição para casa, pois é ilustrado por 30 boas fotografias de Carlos Pelicas das 30 peças expostas, com os respectivos inventários.

-

 
Capa do Catálogo
-

Para mim, foi muito gratificante trabalhar com Marques da Silva, consolidando uma amizade já com alguns anos, aquando do seu empréstimo ao museu de algumas peças que figuraram na 1ª exposição Faina Maior, em 1992. Não há palavras que qualifiquem as suas mãos nem a sua paciência, que fazem dele um modelista pedagógico de primeira água. Só mesmo as peças falam por si.

-

Modelo do lugre-motor Creoula
- 

Curioso o facto de termos em comum um gosto forte pela Grande Faina e, também, pelas embarcações tradicionais portuguesas.

Louvável, a todos os níveis, o seu acto de depósito da maravilhosa Colecção, dando possibilidade a todos os visitantes do Museu de a observarem de perto.

-

O autor e o barco moliceiro
- 

E assim foi criado o Marintimidades, que ora festeja 14 anos, juntando-lhe mais uma velinha, para falar das coisas do mar, da ria, de embarcações, de artes, de museologia marítima e de eventos que surjam dentro desta área, publicitando-os, e sobre eles detendo um olhar…

Uma recordação desse dia… e nestes catorze anos, muita água passou por baixo das pontes…

-

Uma recordação desse dia...
-

A “Colecção Capitão Marques da Silva” foi-se enriquecendo com o depósito de outros documentos, bem como de outas maquetas de embarcações tradicionais de outras regiões e de sete modelos de Navios dos Descobrimentos – barca de vela e remo, barinel, caravela pescareza, caravela de dois mastros, caravela de três mastros, caravela redonda e nau “S. Gabriel”, que deram origem ao livro com o mesmo nome, editado pelos AMI.

 -

"Os Navios dos Descobrimentos- Memórias e Modelos"
- 

Ílhavo, 21 de Abril de 2022

-

Ana Maria Lopes

-

quinta-feira, 14 de abril de 2022

A 110 anos do naufrágio do inafundável "Titanic"

 -

O maior modelo ja
 O maior modelo jamais construído
 O maior modelo jamais construído

Desde que me lembro, conheço seis colheres sóbrias e pesadas, de prata, com a estrela relevada, no cabo, logotipo da WSL, companhia a que o Tinanic pertenceu. Desde sempre o meu Avô me contou a história delas, repetida mais tarde pela minha Avó, após a sua partida.

O Titanic, paquete colossal e luxuoso, naufragara contra um malvado e gélido iceberg, na sua viagem inaugural, quando saiu de Southampton (Reino Unido) em direcção a Nova Iorque, na madrugada do fatídico dia 14/15 de Abril de 1912.

Por essa altura, costumavam os veleiros portugueses da pesca do bacalhau partir dos diversos portos que os apetrechavam, em direcção aos Grandes Bancos, de onde voltavam por meados de Setembro a Novembro. Ora, consta que, em Ílhavo, algumas famílias possuem talheres provenientes do Titanic, mas todos com a mesma origem. E o que nos dizia a tradição?

Na primavera de 1912, ao dirigirem-se para a pesca, pescadores do lugre Trombetas, da praça da Figueira da Foz, «pescaram» uma cómoda que boiava, mais ou menos no sítio, um pouco mais a norte, onde tinha naufragado o luxuoso paquete. Era seu capitão, à época, o ilhavense João Francisco Grilo, de alcunha, Frade, casado com a irmã Rosário da minha bisavó, a «arraisa» Joana Caloa. Nesse mesmo ano, o meu Avô, Manuel Simões da Barbeira, mais conhecido por Capitão Pisco, sobrinho e afilhado do achador, comandara o lugre Golfinho, também da mesma praça da Figueira da Foz. Entraram essa barra, ambos, a 27 de Outubro de 1912, testemunha o jornal «A Voz da Justiça», da Figueira da Foz.

O capitão, à chegada, deu contas do achado ao seu armador, da Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca, mas, talvez, tendo este ficado com alguns talheres, não deu grande importância ao assunto e aconselhou o Capitão Frade a trazê-los para Ílhavo, ficar com alguns e distribuir os restantes por familiares e amigos. Foi esta a origem das minhas, hoje, seis colheres de prata, com a estrela relevada da WSL.

Esta história mítica, mas «com pernas para andar», porque as coincidências e probabilidades são mais que muitas, manteve-se dezenas de anos no seio destas famílias ilhavenses que não gostavam muito de falar do assunto – fui constatando.

O interesse pelas colheres mágicas ressalta-me, e, na qualidade de Directora do Museu Marítimo de Ílhavo, na década de noventa, tinha gosto em certificar mais esta tradição. Eis que o National Maritime Museum – Greenwich – Londres, em 1994, em grandes parangonas, anuncia a exposição – The Wreck of Titanic. Sorvi a informação e pus-me lá, em dois tempos. Mas, embora tenha apreciado muito, talheres iguais não eram apresentados. Desconfiei…, mas, o peso da tradição ilhavense tinha mais força.

Dez anos mais tarde, o Mercado Ferreira Borges, no Porto, exibiu uma exposição idêntica, que também não me elucidou completamente. Foi preciso chegar a uma terceira exposição apresentada na Estação do Rossio (Restauradores), em 2009, em Lisboa, quando, ao visitar a secção de objectos de cozinha, da baixela e faqueiros da sala de jantar, não me contive que não soltasse uma exclamação de alegria e espanto:      

Aqui estão talheres (eram vários) do Titanic iguaizinhos às colheres que temos lá em casa. Sorri com um brilho nos olhos. Pois, pudera, já tinha comido sopa com elas!!!!!!!!!

Para recordar, um dos filmes feito no Centenário, há 10 anos. Não foi assim há tanto tempo!...

-


Ílhavo, 14 de Abril de 2022

Ana Maria Lopes

sábado, 9 de abril de 2022

Bandeira da Associação Mista de Marinheiros de Ílhavo

 -

Apontamento

No dia 21 de Dezembro de 2021, o Sr. Fernando Gago deslocou-se ao Museu Marítimo de Ílhavo, para fazer a entrega aos Amigos do Museu de Ílhavo da Bandeira da Associação Mista de Marinheiros de Ílhavo, que vinha sendo guardada na casa de um dos seus associados, tendo estado, ultimamente, na sua, muito bem cuidada e preservada.

Entretanto, tendo em consideração a extinção de facto da Associação e como melhor forma de salvaguardar o futuro da bandeira, tendo consultado antigos colegas associados, entendeu que ela deveria ser depositada no MMI, com a ordem expressa de apenas de lá sair para a procissão do Senhor Jesus dos Navegantes.

Esta bandeira foi feita para substituir a original, de 1926, já em muito fraco estado devido ao uso e degradação de materiais, a qual foi entregue, no MMI, a 11 de Novembro de 1988. Veio a ser restaurada, a seu tempo, pelos Amigos do Museu, e encontra-se exposta, presentemente, com os devidos cuidados, no Centro de Religiosidade Marítima de Ílhavo.

E a actual, a que agora foi entregue, como surgiu, quem a pagou e quem tratou de todas essas diligências?

Consultámos alguns livros de actas e de despesas da Associação que também foram entregues e, com a ajuda do Sr. Fernando Gago, esclarecemos essas dúvidas.

Segundo documento sem data, mas, supostamente, de meados dos anos 80, existente nos livros da Associação, a Bandeira dos Marinheiros de Ílhavo, relíquia significativa de todos os que trabalham sobre as águas do mar, atingiu o termo da sua duração. O seu estado é precário, dado que a sua confecção data de 1926.

Entretanto, a 13 de Outubro de 1983, foi consultada a casa de estandartes Sousa & Martins, Lda., do Porto, que deu o orçamento para a bandeira de 47.500 escudos, bem como para uma haste de metal niquelado, articulada e com lança, pelo valor de 5.950 escudos.

Foi feita uma campanha de angariação de fundos, no Jornal “O Ilhavense”, bem como outras iniciativas para o mesmo fim. Só a Junta de Freguesia de S. Salvador, presidida, à época, pelo Sr. Dr. Alcino Couto, contribuiu com 45.000 escudos. Entretanto, a bandeira ficou pronta no prazo agendado, em Novembro de 1984, e foi exposta numa montra central de Ílhavo.

Confeccionada em cetim de seda de primeira qualidade, na dimensão de 110x160 cm., leva ao centro, um emblema composto de uma roda de leme, âncora, bússola, tendo na parte superior, os dizeres ASSOCIAÇÃO MISTA DE MARINHEIROS, ao centro do lado esquerdo Fundada e do lado direito em 1-12-1924, e na parte inferior a palavra ÍLHAVO, tudo bordado a matiz e contornos a ouro, orlada por cordão e borlas, trabalho de grande valor artístico e fino acabamento. Leva a circundá-la uma barra azul, sendo os motivos ornamentais baseados na bandeira original.

Mais uma bonita e valiosa peça de Museu, em bom estado, oferta da dos antigos associados da extinta Associação Mista de Marinheiros de Ílhavo.

-


Foto de Hugo Calão

Ílhavo, 09 de Abril de 2022

Ana Maria Lopes

-

sábado, 2 de abril de 2022

Lembrando a fragata D. Fernando II e Glória

 -

De volta ao baú das memórias, encontrei estas fotos, que sabia que tinha, mas que nunca usara. Tinham-me sido oferecidas por Dinis Nazaré, no início dos anos 90 (18/8/1991), apaixonado pela luta da reconstrução da fragata D. Fernando II e Glória. Constituíam uma reportagem feita por ele, ao estado da embarcação, no Mar da Palha, carcomida pelo tempo, pelas intempéries e por um incêndio que ajudara a devorá-la.

Sem apreciações sobre o processo que não conheço ao pormenor, em 1992, fora rebocada em condições especiais, para a Gafanha da Nazaré, para ser reconstruída pelo saudoso Mestre Alberto e sua equipa, no estaleiro da “Ria Marine”, entre 1992 e Abril de 1997. Passei por lá, algumas vezes, para apreciar o andamento da obra.

Até que, em 8 de Abril de 1997, foi o seu lançamento à água, a que fui convidada para assistir.

Apesar de uma embarcação imponente (por acabar), o seu lançamento não teve a emoção de todos os que já assistira, porque a descida foi lenta e controlada, por diversos motivos técnicos e, porque a ria, no local em causa, não tinha largura nem profundidade para tal. Faz 25 anos, no próximo dia 8 deste mês.

Foi, então, rebocada (não tem meios próprios de deslocação) para Lisboa, onde, no Alfeite, se procederam a todos os trabalhos de pormenor, bem como à sua musealização, tal como foi apresentada na Expo 98.

Voltarei a ela, um dia destes.

-

Lançamento à água (da popa)
-

 

Parte da assistência. Abril de 1997
-

 

No Tejo. Ao fundo, o Cristo-Rei
-

Pormenores da degradação…
-

Pormenores da degradação
-
Pormenores da degradação
-
Pormenores da degradação
-
Dinis Nazaré, entre os escombros
-
Pormenores da degradação
-
-

Ílhavo, 2 de Abril de 2022

-

Ana Maria Lopes

-