terça-feira, 13 de abril de 2021

O naufágio do "Palmirinha"

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Das vezes sem conta que passei pelos meus recortes do jornal “O Ilhavense”, desde a sua fundação, sempre me deu na vista o título “O naufrágio do Palmirinha”, bem evidente no jornal de 25 de Outubro de 1936, mas além do título, nunca li mais nada. Chegou o dia de parar e ler.

Sem grandes detalhes, o ”Palmirinha”, lugre de madeira, ex-“Palmira” construído em Fão por José dos Santos Borda, em 1921 para a Parceria Marítima do Douro, Lda., tomou o nome de “Palmirinha”, ao ter sido adquirido por Veloso, Pinheiro & Cª. Lda., para a campanha de 1935.

Quanto ao naufrágio, vou respigar uns apontamentos do tal “Ilhavense de 25 de Outubro de 1936.

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O “Palmirinha”, foto de autor desconhecido
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“No dia 26 de Setembro começou de soprar um fortíssimo temporal. O “Palmiririnha” que era comandado pelo Sr. João Francisco Bichão (Mano), encontrava-se ancorado na Terra Nova, exercendo a sua faina, tendo pescado, até àquele dia cerca de 4.000 quintais de peixe.

Durante a noite, o mar varreu o convés do barco, que começou a abrir água.

Na manhã do dia seguinte rebentou a amarra fora do escovém umas quinze braças, atravessando-se o navio ao mar, o que constituía um enorme perigo. Mandou então o comandante que o navio fôsse pôsto de capa com a vela grande nos primeiros rizes e triângulo, conservando-se assim o “Palmirinha” até ao dia seguinte. Como o tempo amainasse um pouco, foi ordenado que se içasse mais algum pano e se desfizesse a capa, notando-se então que a embarcação não dava pelo leme. Investigado o motivo, verificou-se que êste estava partido por cima do primeiro “macho”, estando apenas no lugar um bocado da “madre”. O momento era de grande perigo. Tôda a tripulação corria o risco de morrer.

Providencialmente, andavam os veleiros “Gaspar” e “João Miguel”, aos quais pelo código, foi comunicada a situação embaraçosa do “Palmirinha”. Os capitães daqueles dois barcos, logo que o tempo melhorou um pouco mais, foram a bordo do lugre em perigo, onde a tôda a pressa se procedia á construção dum leme provisório com o qual o “Palmirinha”, pudesse demandar o porto mais próximo.

Como o tempo novamente começasse a piorar, os capitães visitantes tomaram o rumo dos seus barcos, depois de combinarem com o capitão do “Palmirinha”, que se não afastariam muito dele para o caso de um socorro de vidas que não tardou.

Colocado o leme provisório no “caixão”, em breve começou a bater contra “o cadaste”, abrindo o navio mais água e tanta, que a tripulação não pôde mais abandonar as bombas.

Na manhã do dia 29 de Setembro, após o emprego dos últimos esforços para salvar o navio, como a vida de toda aquela gente corria iminente risco, pediu o seu comandante ao “João Miguel”, que se aproximasse, dando então ordem para que se fizesse o transbordo da tripulação, procedendo em seguida ao afundamento mais rápido do “Palmirinha”, visto se perderem todas as esperanças de o salvar. Quando o lugre sinistrado se afundou estava na latitude de 40º-30’ N e na longitude de 49º-12’. Oeste, ou seja entre 15 a 20 milhas do Banco.

O “João Miguel” recolheu com provas da melhor camaradagem os náufragos do “Palmirinha” trazendo-os para a Figueira da Foz, donde retomou cada um a direcção da sua terra natal, depois de irem ao Porto apresentar na Capitania o respectivo protesto.

O capitão veio directamente da Figueira para Ílhavo, visto o seu estado de saúde ser melindroso.

Guarda o leito, sob os cuidados do Sr. Dr. José Santos.

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Ílhavo, 13 de Abril de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 6 de abril de 2021

"Atlântico" - Navio Perdido

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Há muito que os naufrágios na barra de Aveiro, nos princípios do século XX me atraem, mas, só há uns tempos, tive disponibilidade para me entregar mais à sua redescoberta.

Em pesquisa sistemática do jornal “O Ilhavense”, eis que a notícia do encalhe do lugre “Atlântico, nos finais de 1925, no regresso dos bancos da Terra Nova, me fez pensar e revirar os apontamentos.

 

Para chegar ao lugre “Atlântico”, tive de regredir no tempo e com trocas de impressões com amigos interessados, parece que cheguei a porto seguro…

 

Pesquisa ali, pesquisa acolá, listas de navios, jornais, catálogos e o tal “puzzle” marítimo encaixa gradativamente.

 

O lugre “Atlântico, ex-“Dolores, de madeira, (tendo navegado sob bandeira dinamarquesa com os nomes de “Urda, de 1892 a 1907, e “Sylphe, de 1907 a 1909), foi construído em 1892, em Odense, Dinamarca, por N. F. Hansen. De comprimento, media, entre perpendiculares, 33,85 metros, 7,40 m. de boca e 3,14 de pontal. Registava uma arqueação bruta de 152, 68 toneladas e líquida de 101,10.

A partir de 1910, surge registado no porto de Aveiro, com o nome de “Dolores, tendo sido seu capitão até 1916, António José dos Santos e Augusto Fernandes Pinto (1916 e 1917).

Por informação da lista de navios portugueses de 1914, temos, então, a certeza de que era, pois, pertença da Parceria Marítima Aveirense e foi-o até 1917.

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Lugre Dolores”. MMI.
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Entre 1918 e 1921, passou para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, mudando o nome de Dolores para Atlântico”, em 1920.

Alcançámos o “Atlântico

Por ele passaram os Capitães Jorge Fort’Homem (1919 e 1920) e Joaquim Gonçalves Guerra (1921).

Mas, a dança das sociedades não pára e a partir de 1922 até 1925, é propriedade da Parceria Marítima Africana.

De 1922 a 1924, inclusive, comandou o “Atlântico”, Adolpho Francisco da Maia e no ano de 1925, assumiu o mesmo cargo o ilhavense Marco Luís Frasco, para quem estava reservada a desdita do fatídico sinistro, sendo piloto, João Firmeza.

 

Por informação da Marinha, o “Atlântico” naufragou por encalhe a sul da barra de Aveiro, em 30 de Outubro de 1925, por motivo de avaria no leme, tendo sido salvos todos os tripulantes, através do cabo de vaivém.

O relato do nosso jornal do primeiro de Novembro de 1925, em notícia Navio Perdido é muito mais emocionante e pormenorizado, pelo que respigo alguns parágrafos:

 

“Quando ao largo da barra pairava uma quantidade de navios esperando a entrada no porto […], o rebocador Vouga tentou sair, não o podendo fazer em consequência da agitação do mar.

Entretanto, o “Atlântico vendo o sinal do Forte, foi-se aproximando, à espera de ocasião propícia. Como o rebocador não se aproximasse […], o navio veio singrando ligeiro, passou o banco de areia e, ao chegar perto da “Meia-Laranja”, ficou sem governo, em consequência de uma vaga lhe ter despiado a gaiúta e esta ter quebrado a roda do leme.

De terra, onde uma multidão esperava a entrada dos navios, ao ver-se que o “Atlântico corria o risco de se perder, houve um grito de angústia por aqueles marinheiros, que estavam prestes a serem tragados pelas ondas, tão perto de suas famílias e seus lares!

Sem governo, à mercê do vento e da corrente […], o “Atlântico é arremessado pelas vagas que lhe varrem o convés, um pouco a sul da Meia-Laranja. Na impossibilidade de salvação do navio, o capitão ordena que a tripulação (no total de 28 homens) se prepare para o abandonar. Estava salva a tripulação!”

Com a vazante da maré, iniciaram-se os trabalhos de recuperação dos salvados e de grande parte da carga, constituída por 2 200 quintais de bacalhau. Era capitão do lugre “Atlântico, Marcos Luís Fraco e piloto, João Firmeza.

 

Ao local acorreram milhares e milhares de curiosos, de Ílhavo, Aveiro, Gafanhas, Costa-Nova, para verem o navio naufragado.

 

Pena é que entre tantos “mirones”, nenhum tivesse feito disparar a objectiva, de modo que um documento visual tivesse chegado, hoje, até nós, para enriquecer a narrativa, já por si, tão forte e impressionante!

 

Pessoa amiga teve a gentileza de me enviar uma notícia de época, do “Comércio do Porto”, com foto e tudo.

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Ílhavo, 06 de Abril de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 30 de março de 2021

De "Altair" a "Vega" e de "Vega" a "Vaz"

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Num belo dia de pesquisas em Testa & Cunhas, já há uns bons anos, veio-me à mão, por lá, nem sei muito bem porquê, a sugestiva imagem, identificada, do lugre “Altair. O “Altair? Gostei do navio e da expressividade do nome – “Altair”, de origem árabe, significa "Águia voando" e é a estrela mais brilhante da constelação Áquila. Poucos dados…Há pouco tempo, veio outra parar-me às mãos.

 

Imponente imagem do lugre “Altair”

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Percorridos os caminhos tortuosos habituais da pesquisa, opiniões encadeadas, monta-se mais uma vez um “puzzle”, que poderá ter alguma delicadeza, mas que creio que tem uma forte e segura dose de viabilidade.

Lugre de madeira de três mastros, foi construído por Manuel Maria Bolais Mónica, em 1918, na Gafanha da Nazaré, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca. O seu lançamento à água foi em 25 de Março de 1918.

Nas campanhas de 1918 e 1919, foi seu capitão Fernando Domingues Magano e na de 1920, o Sr. Fernando Mathias.

Vendido à Companhia Portuguesa de Pesca do Bacalhau, em 1921, continua com o registo em Aveiro, mas altera o nome para “Vega, outra brilhante estrela, sendo capitão das campanhas de 1921, 1922 e 1923, Júlio António Lebre.

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Outra imagem do lugre “Altair”
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Após a safra de 1924, é vendido à Sociedade Continental de Pesca, de Lisboa, alterando o registo para Lisboa, mas mantendo o nome de “Vega”.

As características não deviam diferir muito das que apresentava enquanto “Vega: comprimento entre perpendiculares 35,70 metros, boca, 8,90 m. e pontal, 3,85 m; com uma tonelagem de arqueação bruta de 242,36 toneladas, não possuía motor auxiliar.

Foi capitão na safra de 1925 José André Senos (o Argau).

Também tinha gosto em editar esta imagem que me chegou às mãos, por via paterna, claramente anotada – “Vaz – e tem razão de ser.

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O lugre “Vaz”, na Gafanha
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A fonte por onde normalmente começo é o Catálogo de “A Frota Bacalhoeira”, que explicita: - “Vaz, lugre de madeira, ex-Vega, construído em 1918, por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré.

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Fechou-se o circuito: só podia ter sido o “Altair”, depois “Vega”, para acabar em “Vaz.

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Há umas ligeiríssimas diferenças na tonelagem e no comprimento, que provarão que o navio foi reconstruído, com o seu regresso à praça de Aveiro.

O “Vaz”, pertença de um primeiro armador, José Cândido Vaz, nos anos de 1928 e 1929, passou para a propriedade de Brites, Vaz e Irmãos, Lda., em 1930.

Foi seu capitão, nas campanhas de 1936 e 37, João dos Santos Redondo, segundo confirmação da respectiva ficha do Grémio. Nos anos de 1938 a 40,   João Fernandes Parracho, de alcunha o Vitorino foi capitão, já que o navio naufragou, com água aberta, nos bancos da Terra Nova a 31 de Agosto de 1940, não havendo conhecimento de vítimas.

Na última imagem, para os leitores mais observadores, é curiosa a ausência de estrada, que mais parece um estaleiro, e muito menos de avenida e de cais, junto à ria (anos 30).

Sobressai, em baixo, à esquerda, a ré de um mercantel, com o seu pujante leme. Vão-se os tempos, mudam-se os costumes, é caso para evocar!

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Posteriormente, existiu outro navio de nome “Vaz”,navio-motor, de aço, construído na Holanda em 1948, para a mesma empresa. Inicia a faina da pesca em 1949, efectua a última campanha em 1969, sendo, então, adquirido pela Empresa de Pesca Oceano, Lda.

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Ílhavo, 30 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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quinta-feira, 25 de março de 2021

Abria hoje a Feira de Março!...

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Isto é só para lembrar… Para mim, a Feira de Março, apesar da vetustez dos seus quase 600 anos, já foi, já era. Neste ano maldito, pelos motivos que todos sabemos, até faz falta…

Para aí, há sessenta anos, quando vinha de férias da Universidade de Coimbra, que agradável era ir até à Feira de Março! Era mesmo obrigatório experimentar as sensações dos divertimentos mais ousados, para a época – comboio-fantasma, cadeirinhas voadoras, poço da morte –, ir ao Circo, flanar, pavonear as toilettes já primaveris, almejar encontros agradáveis, flirtar, renovar as bijouterias, etc., etc.….

O ambiente favorecia a diversão!

Mas porquê no “Marintimidades”, estas intimidades? Apesar dos meus verdes anos, os barcos moliceiros já não me eram indiferentes. E daí ficou a chapa que bati em 25 de Março de 1961. Não há dúvida que já atraíam as minhas atenções. Eis a prova.

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Inauguração da Feira de Março – 1961
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 Inauguração da Feira de Março - 1961
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A ria, inspiradora e calma, espelhava a paisagem!

Estava um bonito dia primaveril! O Rossio é, era, (será?) sempre o Rossio! Alimentava-se da água que bebia! ….

Além do mais, era hábito os barcos moliceiros estarem presentes, por iniciativa dos arrais, movidos pela tradição, em razoável número, no Canal Central, para exibirem as suas elegantes formas e garridismo cromático. Com eles vinham, também, alguns mercantéis, mais pesadões, mas sempre pujantes senhores da Ria.

Esta imagem deixa-me alguma saudade. Apesar de continuar a apreciar a beleza do Canal Central, algo mudou e, se calhar, não foi para melhor. Opiniões!...

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Antiga ponte Aveiro/Barra
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De passagem pela antiga ponte de Aveiro/Barra, naquela manhã resplandecente e de águas cristalinas, cliquei uma bela imagem do n/m “Ilhavense” e já em pleno Cais dos Bacalhoeiros, outra, do lugre-motor “Coimbra”.

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Lugre-motor “Coimbra”

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Que bela, soalheira e calma manhã de 25 de Março, há 60 anos!...

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Ílhavo, 25 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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domingo, 21 de março de 2021

Fernando Freire N. Pinguelo, motorista da pesca do bacalhau

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Não é a primeira vez que alguma “neta saudosa” se me dirige, na expectativa de saber  mais alguma coisa do seu ente querido, já que pela profissão exercida a bordo, estava muito pouco tempo em casa.

Como as compreendo, que também tinha uma adoração pelo meu avô, também ele, homem do mar.

Eu, tentando localizar a pessoa e agradecer alguns dados que me possa ceder, juntando o “puzzle”, faço sair mais uma singela biografia.

Desta vez, o motorista em causa, é Fenando Freire Nunes Pinguelo e a Sara adora ir “ao baú” para ler uns escritos breves, uma cédula e uns lembretes que deixou, em que a linguagem, para ela, invulgar, a seduz e faz viajar também, no tempo.

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Fernando Freire Nunes Pinguelo, filho de Moisés Nunes Pinguelo e de Zulmira Freire de Assunção, nasceu na freguesia de São Salvador, na Apeada – Ílhavo, em 7 de Março de 1929. A cédula marítima nº 42871 foi passada na Capitania do porto de Lisboa, em 27 de Abril de 1945.

Casou com Maria de Lourdes Graça Bastião, de quem teve três filhos: Fernanda, Aníbal e João Graça Pinguelo.

A sua carreira começou por moço, durante três viagens, ascendendo na profissão, para ajudante de motorista, 3º e 2º motorista.

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Cédula de inscrição marítima
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Viveu 23 anos de mar, de 1946 a 1969, praticamente fiel, toda a vida marítima, à empresa em que muito ilhavenses trabalharam – Parceria Geral de Pescarias (PGP), com sede na Azinheira Velha, Barreiro.

Começou nas safras de 1946, 1947 e 1951, como moço de convés, no navio-motor de aço, “Argus”, dando nota pelos seus escritos, que estava bem a par da pesca diária:

Dia 13 de Maio de 1951. Domingo. Arriou-se e chamou-se às 14 horas. Bento fresco e foi dia de Nossa Senhora de Fátima.

Dia 15 de Maio de 1951. Terça-feira. Arriou-se com bom tempo.

Dia 17 de Maio de 1951. Quinta-feira. Arriou-se com bom tempo. Muito pouco peixe…

O famoso “Argus”, construído na Holanda, em 1939, para a PGP, foi o seu “habitat”, além dos três anos de moço, já citados, também de ajudante de motorista, desde 1948 até 1955. Notabilizou-se o “Argus”, na safra de 1950, pela presença de Alan Villiers investigador, realizador, fotógrafo e oficial da armada australiana, que acompanhou a dita Frota Branca, para dela fazer uma reportagem fotográfica excelente, um filme e escrever o livro talvez mais famoso da pesca do bacalhau “A Campanha do Argus”, com tradução, num sem número de idiomas. E o nosso ajudante de motorista também lá esteve para contar.

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“Argus”, na campanha de 1950
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Interrompeu nos anos de 1956 e 57 a pesca de bacalhau para fazer 3 viagens no navio “Terceirense”, de transporte misto, pertença da Empresa Insulana de Navegação e no navio de carga “Girão”, também pertença da PGP.

Pelos vistos, preferiu o bacalhau e voltou, desta vez, para estrear, em 1958, o n/m” Neptuno”, com outro conforto e melhores condições de navegabilidade, construído para a mesma empresa, nos fatídicos, malogrados e desaparecidos Estaleiros de São Jacinto.

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N/M “Neptuno”
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E o homem íntegro, interessado, curioso, dedicado e particularmente habilidoso, subiu a pulso e, de ajudante de motorista, chegou a 3º e a 2º motorista, até 1968.

E, se foi fiel à PGP quase toda a vida, com o bem conhecido, à época, capitão Adolfo Paião, fez 21 viagens, tendo mudado com ele, do “Argus” para o “Neptuno”. Só se poderiam ter entendido bem.

Foi a última viagem de Adolfo Paião, enquanto Fernando Pinguelo fez mais a viagem de 1969, como 2º motorista, no n/m “Alan Villiers”, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1953, para a empresa Bacalhau de Portugal, Lda.

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N/M “Alan Villiers”

 

Um modo de homenagear a presença de Alan Villiers, na safra de 1950, entre a nossa frota branca.

O nosso marítimo, após a aposentação, ainda teve uns anos para saborear em terra, a merecida reforma.

Faleceu em 11 de Agosto de 2017 com 88 anos.

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Ílhavo, 21 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 16 de março de 2021

António Fernando Redondo

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Cara Carolina:

Não te vou deixar sem reposta, não é meu hábito, embora um pouco tardia.

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Além do mais, uma jovem que se encantou por ter tido a  oportunidade de ler no “Marintimidades”, uma biografia sucinta sobre o seu bisavô, Mário dos Santos Redondo, que não chegou a conhecer, não merece ficar sem resposta.

Pede-me se eu não poderia fazer um texto similar para o seu avô, António Fernando Borges Redondo, de quem tanto gostava, tendo passado, com frequência, férias de Verão, com os avós, na Costa Nova. Expliquei os meus motivos e disse-lhe que, além do avô não ter tido muito tempo de mar, nem uma fotografia tinha dele, identificativa ou, melhor, se fosse a bordo. Poderia ela ajudar-me? A moça esforçou-se, enviou-me uma foto a bordo, do bisavô e do avô, no arrastão “João Álvares Fagundes”, ou seja, quando o António Fernando foi de piloto, ano 1960, com o pai. Tinha de lhe agradecer a oferta, a simpatia, o esforço e gentileza.

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 António Fernando Redondo

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António Fernando de Almeida Redondo, filho de Mário dos Santos Redondo e de Rosa Borges de Almeida Borrelho, nasceu em São Salvador, Ílhavo, em 17 de Abril de 1933.

Era possuidor da cédula marítima 115755, passada na Capitania do porto de Lisboa, em 23 de Julho de 1959.

Como homem do mar, na pesca do bacalhau, foi piloto no arrastão “João Álvares Fagundes”, nas campanhas de 1960 e 1961, sendo comandante o seu Pai, Mário dos Santos Redondo.

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Pai e filho, a bordo do arrastão “João Álvares Fagundes”. 1960
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Entre 1962 e 1964, inclusive, foi imediato do arrastão “João Ferreira”, tendo feito duas viagens, na campanha de 1963.

De seguida, passou a ocupar o cargo de piloto do porto de Leixões, até à reforma, passando a residir em Matosinhos.

Do casamento com Rosa Adelaide da Rocha São Marcos, nasceram os filhos Ana Cristina, Luís Filipe e Fernando António São Marcos Redondo.

Depois de uns anos, adoentado, mas em que ainda ia para a Costa Nova, no Verão, deixou-nos, em 30 de Junho de 2018, com 85 anos.

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Um beijinho, Carolina, e obrigada pela bonita foto que me enviaste.

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Ílhavo, 16 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 9 de março de 2021

O lugre "Ariel"

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Fiz várias consultas para saber um pouco mais do “Ariel”, bonito lugre que também fez parte daqueles que tiveram como cemitério a barra de Aveiro, em princípios do século XX.

Mas com tão, tão curta existência, não poderia ter longa história. Foi o que consegui.

 

O "Ariel”, lugre de madeira, de três mastros, com arqueação líquida de 191 toneladas, foi construído na Gafanha da Nazaré por Manuel Maria Bolais Mónica para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, Lda., de Aveiro, e lançado à água no dia 7 de Abril de 1919.

Há quem lhe tenha atribuído como primeiro proprietário Testa & Cunhas, mas, em minha opinião, tal seria impossível, pois a empresa ainda não estava constituída.

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Única foto conhecida do "Ariel"

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Depois de realizar a 1ª campanha na pesca do bacalhau, naufragou à entrada da barra de Aveiro, em virtude da escassez de vento e agitação do mar, no dia 11 de Novembro de 1919.

Durou nada mais do que seis meses, de Abril a Novembro.

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Sabendo-me interessada no assunto, pessoa amiga fez-me chegar às mãos estas notícias, que, por raras, não deixam de ser curiosas.

 

Título – "Barco em perigo"

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De Aveiro foi pedido ao Ministério da Marinha um rebocador com a força precisa para socorrer um navio em perigo.

In "Comércio do Porto", 12.11.1919

 

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Título – "Lugre encalhado – Os socorros"

 

Pela Capitania de Aveiro, foram na noite de anteontem pedidos socorros para a Capitania de Leixões, por se encontrar encalhado na barra de Aveiro, um lugre português, cujo nome se desconhece e que parece ser bacalhoeiro. Imediatamente foram dadas ordens para saírem daquele porto a Canhoneira "Limpopo" e o rebocador "Magnete".

Estas embarcações, que voltaram ontem para o porto de Leixões, onde chegaram pela 1 hora da tarde, nenhum socorro puderam prestar,  devido à forte agitação do mar. O lugre continua na mesma posição.

In "Comércio do Porto", 13.11.1919

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Título – "Naufrágio"

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Acerca do navio que naufragou na costa de Aveiro, a que nos referimos, recebemos do nosso correspondente em Ílhavo as seguintes informações, que o correio nos retardou, pois que as devíamos ter recebido anteontem…

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Ílhavo, 12 – O lugre "Ariel", que regressava da pesca do bacalhau com um carregamento de cerca de cinco mil quintais de peixe, ao demandar ontem, à tarde, a nossa barra, encalhou num banco de areia, e perdendo o governo por falta de vento, veio dar à costa ao sul da barra.

A tripulação foi salva com um cabo de vaivém, e é possível salvar-se parte da carga.

O "Ariel", porém, considera-se perdido. Era um lindo barco, construído há pouco nos estaleiros da Gafanha, sendo esta a primeira viagem que fazia.

In "Comércio do Porto", 14.11.1919

 

Obrigada, pois, pelas informações conseguidas, após pouco mais de 90 anos do acidente, que vitimou o “Ariel.

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E aos poucos, se vai reconstituindo a história trágico-marítima da nossa frota bacalhoeira.

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Fotografia – Amável cedência do MMI.

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Ílhavo, 09 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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