sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Contrastes na Ria

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Duas imagens de que gosto. São o oposto.

 

Poder-lhe-íamos chamar: Contrastes. Qual delas a mais bonita?

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É dia…
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É noite…

Evocam-nos vocábulos opostos. Jogos de palavras. Por detrás da antinomia sempre presente, o bucolismo da paisagem lagunar. De uma paisagem lagunar que já foi.

Na primeira imagem, o fim do peso da rotina de mais uma emposta, as velas atadas em fim de tarde, projectada no azul celestial, aqui e ali sujo por uns fiapos de algodão, a servirem de fundo à irmandade colectiva dos amanhadores da ria. É dia.

Na segunda, um prateado sobre o azul-cobalto da ria, originando sombras negras como lava, pintadas no silêncio do recolhimento de um olhar sempre amanhecido.

Jogos de luz que se entretêm a colar tatuagens sensuais sobre o corpo da laguna, em ensaios cenográficos de volúpia deslumbrante, que a emoção colhe por inteiro, sôfrega, ainda antes da compreensão os tactear à superfície das águas.

E ali em qualquer lado, em qualquer parte escondidas, as galhetas, em bandos, à procura de poiso para dormir, em lamento, piando em baixos e agoirentos dizeres, até que a luz agonize e sejam horas do sono. É noite.

A ria dorme para serenamente embalar o moliceiro no cochilo.

O mar, não. O Mar não tem sossego. O Mar resmunga sempre, espreguiçando-se pela areia branca.  

As duas imagens são da nossa ria, em situações opostas. A superfície lagunar tem destas coisas: noite/dia, claro/escuro, agitação/descanso, velas brancas, mastros negros. Apreciem-nas.

Contrastes também do dia e noite de hoje: o belo, o rebuliço, o alvoroço diurnos dão lugar ao sossego, à paz e à calma nocturnas.

Repesquei estas palavras de um post que tinha colocado no dealbar do Marintimindades, com algumas alterações. Hoje, já lá vão uns anos, ou é de mim, ou da ria. Sinto tudo murcho, muito despido e desmazelado, apesar de ser lua-cheia e maré-viva. Resta-me o horizonte, nos seus cambiantes volúveis, ao longo das diversas horas do dia. E, quando estou em silêncio, como agora, com o tal dito horizonte por fundo, o meu trabalho preferido é brincar nostalgicamente com as palavras, trabalhando-as, mudando-as, acoplando-as, contrastando-as. Contrastes em mim e na ria.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora (anos 80)

Ílhavo, Janeiro de 2022

Ana Maria Lopes



Aniversário da Restauração do Concelho de Ílhavo

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O 124.º Aniversário da Restauração do Concelho de Ílhavo foi assinalado ontem, quinta-feira, dia 13, numa homenagem a todos os ilhavenses que, durante 3 anos (entre 1895 e 1898) lutaram pela autonomia municipal.

Recorde-se que, em 1895, o Município de Ílhavo perdeu a sua autonomia, tendo sido integrado no concelho de Aveiro, pelo decreto de 21 de novembro de 1895.

O Ultimato Britânico, a crise financeira, a bancarrota parcial portuguesa e a permissividade do Código Administrativo de então constituíram-se como os principais fatores que estiveram na origem da perda de autonomia de Ílhavo.

Três anos após a extinção, Ílhavo recuperou a sua autonomia, pelo Decreto de 13 de janeiro de 1898, fundamentando-a com o controlo financeiro das contas do concelho, o valor das suas transações comerciais e a existência de empresas de referência, como a Vista Alegre e os Estaleiros Mónica. O regresso dos Progressistas ao poder e a prova de que a extinção dos concelhos não refletiu uma redução da despesa pública como se esperava contribuíram também para esta mudança.

O construtor Manuel Maria Mónica esteve no centro das comemorações da independência (1889-1959), pelo seu papel na construção naval, a partir dos estaleiros da Gafanha da Nazaré com projecção nacional, “igualado aos génios dos construtores navais da época dos descobrimentos”, como escreveu João Campolargo no prefácio da edição especial “Nossas Gentes – Biografias” sobre Manuel Maria Bolais Mónica, da autoria do Prof. Vítor Carvalho.

Além da biografia, o programa, de ontem, do aniversário da restauração de Ílhavo, incluiu ainda uma intervenção de Pedro Silva sobre “Manuel Bolais Mónica e a religiosidade bacalhoeira” e a exibição do filme sobre o bota-abaixo do navio “São Jorge”, da autoria, à época de Vasco Branco, comentado por Ana Maria Lopes. O Presidente João Campolargo encerrou a sessão, tendo havido, seguidamente, em dois grupos, uma visita guiada ao Centro de Religiosidade Marítima de Ílhavo.

Fotos para mais tarde recordar:

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E, agora, felicidades!...

Fotos de João Parracho

Ílhavo, 14 de Janeiro de 2022

Ana Maria Lopes

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sábado, 8 de janeiro de 2022

O lugre bacalhoeiro "Golphinho"

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No Inverno de 1991, faziam-se obras de restauro na casa da Costa-Nova e, sobretudo, era o fim das tradicionais recoletas, que, devolutas há uns anos, já só se degradavam com o correr dos anos. Da época do palheiro original (anos 30), não tinham condições mínimas de habitabilidade.

Com o previsto aumento da família, também convinha pensar num espaço traseiro de lazer para os pequenotes, que, entretanto, chegariam.

No meio daquele mobiliário característico das recoletas da Costa-Nova, salvaram-se umas camas e lavatórios de ferro, bem bonitos.

E da parede? – uma fotografia de um elegante e esbelto lugre, em dia de bota-abaixo…Mesmo sem identificar o navio à primeira, mais valia, desmontar o quadro, limpar a fotografia amarelecida pelo tempo, e guardá-la com carinho. Um lugre a decorar a parede de uma recoleta que pertencera ao Avô Pisco, só poderia ter a ver com a vida dele: - ou navio da empresa, ou navio que teria comandado. Conclui, de facto, que capitaneara o Golfinho de 1912 a 1914, teria então 27 anos.

A vida do meu Avô, que fizera mais de quarenta anos de mar, despertava então o meu interesse para o modo singular e estranho da vida destas gentes que labutaram na faina maior: os perigos das viagens naquele tempo, feitas só à vela; as condições sofridas e precárias daquele tipo de vida, por vezes certamente angustiantes pelas poucas ou nenhumas notícias da família; “as ralações que a minha Avó sofrera com coisas que nunca chegaram a acontecer”, como ela me dizia.

Mais: – a tal fotografia também se revelaria de valor museológico, aquando da aturada e entusiástica pesquisa, ao tempo, da preparação da exposição de fotografia A Frota Bacalhoeira, durante Maio/ Junho de 1999.

O saudoso Francisco Marques e eu parecíamos dois putos radiantes a olhar os cromos, quando tínhamos a sorte de encontrar um navio (em fotografia), que ainda não constasse das nossas aquisições.

Não é que a amarelecida relíquia encontrada na recoleta da Costa-Nova, era, nada mais, nada menos, que o lugre Golphinho, da praça da Figueira da Foz?

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O Golphinho, em dia de bota-abaixo
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Tivera uma existência muito efémera, mas digna de se recordar.

Segundo consta do Catálogo da referida exposição, o Golfinho foi construído por José Maria Bolais Mónica, nos estaleiros da Murraceira, na Figueira da Foz, para a Empresa de Pesca da Foz do Mondego. Fora, então, considerado o melhor e maior navio do seu tempo.

O seu bota-abaixo tivera lugar a 3 de Março de 1912; porém, quando começou a deslizar, saiu da carreira e enterrou o cadaste no lodo. Só depois de porfiados esforços e aproveitando outras marés vivas, foi possível pô-lo a flutuar. A terceira viagem, tendo saído de Lisboa a 6 de Maio de 1914, fora de um adeus sem fim…

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Londres, 30 de Maio de 1914. Um radiograma do paquete Corinthian dizia que o Corinthian teria salvo o capitão e a tripulação em número de 45 homens, pertencentes ao navio de pesca Golfish da Figueira da Foz. O Golfish bateu contra uma montanha de gelo devido ao denso nevoeiro que caiu às 3 horas da madrugada, sendo abandonado em chamas.

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Quadro num restaurante da Gafanha da Nazaré
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Não fora outra coincidência, e nada mais saberia, para lá do que ouvira do meu Avô.

Em meados dos anos 80, fizeram-me chegar às mãos cópia do Boletim Mensal da Liga dos Oficiais de Marinha Mercante, ano I, nº 5 de Agosto, de 1914, intitulada Naufrágio do “Golfinho” que expunha o Protesto e relatório do naufrágio e abandono do lugre português “Golphinho”, feitos a bordo do vapor inglez “Corinthian”, de cinco páginas.

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É evidente que não vou editar todo o relato, mas apenas respigar o seu texto, recuperando algumas passagens que me parecem dignas de nota, respeitando a ortografia da época.

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Por amável deferência de nosso presado consocio Ex.mo Sr. Manoel Simões da Barbeira publicamos o singelo e bem elaborado relatório de mar relativo á perda do seu belo navio que… abalroou com um iceberg na noite de 29 de Maio p.p. O “Golphinho” que pertencia á praça da Figueira era propriedade da Sociedade de Pesca da Foz do Mondego e era talvez o melhor navio português que ia á Terra Nova.

O capitão Barbeira e piloto sr. Arthur Oliveira da Velha são oficiais distintos da especialidade a que se dedicam e foi devido á sua muita perícia que, habilmente obstaram a que o navio sossobrásse, dando tempo a que conseguissem passar para bordo do “Corinthian”, que tomou todos os tripulantes, entre os quais José Pedro Martins em estado grave e que infelizmente foi morrer ao hospital de Havre.

Só quem anda nesta vida do mar, vida de constante combate contra inimigos traiçoeiros e poderosos, pode avaliar o que seja pelo meio duma noite escura sentir de repente o navio abalroar contra um obstáculo invisível e inesperado, ouvir o ranger do cavername, o esfacelar do costado, o estalar dos mastros partindo-se e a derrocada dos mastaréus, das enxárcias, dos cadernais, dos estais, por entre o bater de pano, os gemidos dos feridos e os gritos de todos! Quanto animo e sangue frio precisa então ter o capitão para, pensando por todos, os serenar e lhes salvar as vidas em perigo! Aí então sobressai a grandesa da sua missão e a nobresa desta vida feita toda de dedicações obscuras e de brilhantíssimos feitos quasi sempre ignorados!

Foi de noite e com nevoeiro que o “Golphinho” bateu na ilha de gelo que por ali vinha no seu deslisar funesto, sem que nada a denunciasse. (…)

Serenados os animos o capitão, que modestamente no seu relatório nunca fala em si, fez tudo por salvar o navio, mas reconhecida a impossibilidade pelo péssimo estado em que ficou após o abalroamento, tratou então de salvar as vidas confiadas à sua guarda.

Felizmente quando ia tomar a resolução de mandar abandonar o navio entregando-se e aos outros a uma sorte incerta em pequenos botes, apareceu o paquete inglez “Corinthian” da Allan Line, em viagem de Montreal para o Havre, que prontamente se aproximou e os recebeu a bordo. O seu Comandante fora de uma bondade extrema, deixando os náufragos no porto de Havre e d’aí vieram num paquete para Lisboa.

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Era assim a vida do mar em 1914.

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Manuel Simões da Barbeira – Avô Pisco

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Mas as coincidências não ficam por aqui. Entre este naufrágio, suas causas e condições de salvamento, há muitas semelhanças com o desastre do famoso e mítico Titanic.

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Ílhavo, 8 de Janeiro de 2021

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Ana Maria Lopes

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sábado, 1 de janeiro de 2022

O "Capitão Pisco" ... um destino

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No primeiro de Janeiro de 1986, quando dava os últimos retoques à mesa, para o almoço de boas-vindas ao Ano Novo, toca o telefone… Está? O que acabei de ouvir, pela voz perturbada do Dr. A. Alberto Cunha?...

Sem perdas pessoais, até porque, na altura, não estava ninguém a bordo, o Capitão Pisco naufragara. Faz, exactamente, hoje, trinta e seis anos.

Como fora, como não fora…Todos comentámos que o Novo Ano (1986) estava a começar com “óptimas” entradas…

 

Junto à Marginal da Figueira da Foz, onde hoje é o porto comercial, durante a invernosa noite, o arrastão costeiro Capitão Pisco estava atracado por fora do Santa Mãe Laura, arrastão igualmente costeiro, pertença da empresa de pesca Sociedade Brasília.

 

Por força da corrente, na vazante, os cabos do Santa Mãe Laura partiram e os dois navios foram de enxurrada, com a força da correntia, pela barra fora, quais brinquedos de criança.

O Santa Mãe Laura estatelou-se nas pedras do molhe e partiu-se de imediato – era de madeira.

O Capitão Pisco saiu a Barra, contornou o molhe e foi encalhar no Cabedelo, a sul da Figueira da Foz.

O mestre pedira para o levarem para bordo, de helicóptero, a ele e ao motorista, mas, impossível, devido às péssimas condições de tempo e mar. Ali ficou, meses e meses, dado como perdido.

 

A mútua considerou a perda total do navio e indemnizou a empresa, tendo ficado com os salvados que vendeu.

Com o alvará, construiu-se, para substituição da unidade, no Estaleiro Naval do Mondego, na Figueira da Foz, o arrastão costeiro para crustáceos Cygnus.

Fiquei, mais tarde, com um salvado de grande importância afectiva para mim, o sino, embelezado por um primoroso trabalho de marinharia.

 

Além de alindar a entrada da casa de praia, anuncia visitas e serve de mote a uma história “verdadeira” para os netos. Era uma vez… um barquinho verde, que, numa noite de mau tempo, …

No domingo seguinte, num soalheiro, mas gélido dia de inverno, eu e o Miguel fomos “ver para crer” e imortalizámos o naufrágio com estas “chapas que batemos”.

 

Comentários para quê?

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O Capitão Pisco encalhado
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No baixa-mar
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No preia-mar
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O belo horrível…
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Imagens – Arquivo pessoal da autora

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Ílhavo, 1 de Janeiro de 2022

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Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Inauguração da Estátua do Bispo do Mar. A propósito...

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Faz, exactamente, hoje, cinquenta e três anos, que Ílhavo viveu um dia festivo – 29. 12. 1968.

Um evento não muito bem aceite por todos… Mas história é história e D. Manuel Trindade Salgueiro, figura eclesiástica e homem de cultura, de grande relevo, era de Ílhavo (1898 – 1965) e tem tido o seu Largo, amplo, lá em baixo, que todos conhecemos, a que chamamos Largo do Bispo.

 

Desde adolescente que manifestei gosto por manusear máquinas de filmar – aproveitemos, pois, e divulguemos três minutinhos de filme, francamente de má qualidade; mas o que se esperaria de uma jovem amadora, há 53 anos, com uma Bell & Howell, 8 mm, maneirinha, muda, e de dúbia qualidade?

Ainda por cima, as sucessivas transformações por que a peça foi passando (de 8 mm para vídeo VHS, de vídeo para DVD, e deste para o reduzido formato Web/blog), produziram o que resta.

 

Ílhavo, terra de homens do mar, alia, sobretudo, a figura de D. Manuel, ao Bispo que, durante anos, entre as décadas de 40 e 60, celebrou a Missa campal e dirigiu as pomposas cerimónias da Bênção dos Navios Bacalhoeiros, em Belém, frente aos Jerónimos.

 

Filho de pescador desaparecido em naufrágio, sempre que visitava a sua terra natal, alojava-se na modesta casinha, aqui, na Rua João de Deus, nº 82, rezando missa, de madrugada, na capelinha privada de S. Domingos, sita à Rua do Curtido de Baixo, e já demolida.

 

Era domingo, numa manhã calma, luminosa e fria de Dezembro.

A Vila de então preparara-se para a recepção de ilustres visitantes.

Das janelas, pendiam luxuosas e aveludadas colgaduras; “mariatos” coloridos engalanavam as ruas apinhadas de curiosos. O relógio da torre marcava o meio-dia menos vinte, quando a comitiva saiu da Igreja Matriz, onde missa festiva havia sido celebrada. Do céu choviam milhares de papelinhos multicolores; estacionados ordeiramente, os Mercedes-Benz governamentais aguardavam os ocupantes; as vestes cardinalícias, no seu tom de nobreza, esvoaçavam, por entre a populaça bisbilhoteira.

Os convivas, guiados pelo Senhor Dr. Amadeu Cachim, Presidente da Câmara, à época, fizeram o percurso a pé, entre a Matriz e o referido Largo, onde duas tribunas montadas para o efeito os aguardavam.

Após os discursos da praxe, a estátua do Bispo da Gente do Mar, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida, foi descerrada pelo Senhor Presidente da República, para gáudio da multidão que acorreu à cerimónia. Algumas figuras etnográficas da vila, trajadas a rigor, emprestavam à festa um colorido característico. Depois de um almoço opíparo, servido à comitiva, entidades locais e convidados, houve lugar a romaria ao Museu Marítimo e Regional de Ílhavo, na altura, sito na Rua Serpa Pinto. O que prova que fosse quais fossem as suas instalações, o nosso Museu Municipal parece, sempre ter sido a grande Sala de Visitas de Ílhavo.

Caros amigos, desculpem a qualidade do filme, mas quem partilha o que tem, a mais não é obrigado.

 

 

Ílhavo, 29 de Dezembro de 2021

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Ana Maria Lopes

sábado, 18 de dezembro de 2021

As mulheres das secas

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A aproximação do Natal e o sempre citado bacalhau levaram-me a ir “ao baú”, rever que fotos tinha relativas a esta dura profissão da secagem do dito, embora um pouco mais tardias às registadas por Maria Lamas.

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Uma das últimas secas tradicionais…a IAP. s/d
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Com o andar dos tempos, com o avanço das tecnologias, com regras mais higiénicas, com as exigências da ASAE, com a competição aguerrida, viriam a acabar, mas, para amostra, nem uma, naquele seu tabuado acastanhado, trincado, nos seus extensos armazéns, na sua carpintaria consertadora dos botes, nos tanques/lavadouros, frequentemente exteriores e rústicos, singulares e típicos carros-de-mão de roda de ferro e, sobretudo, naquela vastidão imensa do «secadouro», com as tradicionais «mesas» de arame para exposição do «fiel amigo» ao sol.

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Tanques na seca do Brites…
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Os tempos são outros, o progresso fez-se sentir, mas as mulheres das secas, sobretudo da Gafanha da Nazaré e arredores foram grandes MULHERES e merecem a honra desta singela homenagem.

Tive, por afinidades familiares, contactos, com as ditas mulheres, verdadeiras heroínas, pelo início dos anos sessenta, em que os trajares já eram mais aligeirados do que foram, outrora, e, porventura, as mentalidades, um tudo ou nada, mais abertas. Foi, então, que me deu para as fotografar.


Os clichés a preto e branco, num tempo em que “clicar” não era vulgar como agora, aprecio-os mais, porque são imagens de um passado que não volta, a que tive oportunidade de assistir ao vivo. E até de surripiar, para saborear, umas lasquinhas de bacalhau, das altas e ordenadas pilhas. Era uma técnica dura, pesada, mas perfeita, cheia de saberes, de sabores e de “conhecimentos”.

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Carros, lambretas e bacalhau a perder de vista
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As secas do bacalhau, na Gafanha, empregavam muitas centenas de mulheres, durante parte do ano, havendo empresas onde o trabalho era permanente, porque abrangia duas campanhas, a dos lugres e a dos arrastões.

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A escritora Maria Lamas, que andou pela nossa região na década de quarenta, recorda a maneira de viver das mulheres da Gafanha, com a sua ignorância, o seu fatalismo, mas também com a sua responsabilidade e solidariedade. Assim, acentua Maria Lamas (…), a psicologia das trabalhadoras das secas de bacalhau, desembaraçadas, faladoras e alegres, como se a vida lhes não pesasse. Em conjunto, nas horas de plena actividade, cantando em coro ou simplesmente escutando os programas de rádio, elas constituem um quadro de plena vitalidade e de optimismo. (…)

 

O trabalho da mulher, nas secas, consta de: descarregar, lavar, salgar e levar o bacalhau, todos os dias, para as “mesas” da seca, recolhendo-o à tarde; depois há ainda a tarefa de o empilhar, seleccionar e enfardar. (…) A lavagem faz-se em tanques; depois o peixe é colocado, em pilhas, a escorrer, sobre pequenos carros, que cada mulher conduz à secção onde recebe o sal. (…)

As mulheres, que se ocupavam nestes serviços, eram de todas as idades, solteiras e casadas, predominando as mais jovens. Tinham consciência plena da dureza daquela vida de labores diversificados e pesados. Se o tempo estava bom, a tarefa era-lhes facilitada.

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Escolha e separação do peixe…1961
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Um criativo designer de moda, hoje, inspirar-se-ia nos trajes das mulheres das secas para uma toilette jovial e contemporânea – saias sobre calças, caneleiras (canos) sobre o calçado e chapéu sobre o lenço…que tal? E, não raro, botas de borracha, a que hoje se chamam galochas. Um laivo de modernidade?...

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E a tarefa prossegue… 1961
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Já agora, se temos receado que as crianças e pessoas menos conhecedoras do assunto pensem que o bacalhau é um peixe espalmado, tal qual o vemos nos supermercados/mercearias, com cura mais ou menos tradicional, temamos também que com a visita ao aquário do MMI, as crianças comecem a exigir aos pais a presença de um aquário, na cozinha, com bacalhaus pequeninos, tal Nemo, colorido e listado, com a sua história comovente.

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Ílhavo, 18 de Dezembro de 2021

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Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

A "estória" da Joana Labrega

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Dos Postais da CASA do BICO que Senos da Fonseca tem escrevinhado, já há uns anos, no blogue Terra da Lâmpada, não há dúvida que, para mim, o que relata um parto improvisado a bordo de uma bateira labrega, seduziu-me mais profundamente. Todos eles têm o seu atractivo, porque relatam histórias ficcionadas entre figuras características da Costa Nova, que, por sua vez, lhe são hipoteticamente relatadas pela Zefa e pela Bernarda, em encontros de passeios matinais.

Elogio no autor, a capacidade criativa, a preocupação do registo dos nossos linguajares, em contexto, bem como o entusiasmo com que nos brinda com os seus relatos.

 

No entanto, a «estória» do parto da Joana Labrega fascinou-me demais …Porquê?

 

Por ter a ria como cenário, a bordo de uma bateira labrega, de vela bastarda, com toldo espalmado (pata de rã)?

 

Por registar os tais linguajares (vertedouro, escalamãos (escalamões), saltadouro, castelo da proa, traste, orça, etc.), sobretudo, de cariz marítimo?

 

Por nos contar um parto improvisado, o desabrochar de uma vida, com toda a sua emoção?

 

Eu, que assisti a partos e, principalmente, fui mãe, sem os artifícios que envolvem os partos actuais, pensei, depois de ter acabado de ler a história:

 

 – há cinquenta e 5 anos, quase que preferia ter parido a bordo de uma labrega que numa «cama de bilros», de pau-santo.

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E fiquei ferrada naquele pensamento!!!!!!!!!! que navegou comigo até de manhã. Que beleza!

 

Ílhavo, 17 de Dezembro de 2021

 

AMLopes