sexta-feira, 5 de março de 2021

Cenas litorâneas - Buarcos

 -

A minha mente está recheada de belas cenas litorâneas – algumas, muitas, dei-as ao prelo em livros, e, mais tarde, no blogue Marintimidades. Outras há que não tiveram essa sorte e ainda não foram contadas, narradas, exibidas, retratadas por palavras ou imagens.

É o caso desta, passada em Buarcos, pelos anos oitenta que sempre me deixa saudades, pela vida que ornamentava o nosso litoral. Menos meios, vida mais precária, mais faltas, mas mais riqueza e beleza antropológica e etnológica.

Chegada a Buarcos, à procura do dito bote de Buarcos, à volta do primeiro decénio deste século, o desânimo invadiu-me. O que é feito dos botes que daqui saíam para o mar de uma forma encantadora? Seduziu-me este recanto, pelos anos oitenta, noutra investida remota de inquirições.

Areia deserta, mar deserto, ninguém na praia, sequer, a quem perguntar.

Nos anos sessenta em Buarcos, o bote tinha «grosso modo» a silhueta dos botes do bacalhau. E não é por acaso que isto acontece. Desaparecidos gradualmente os navios de pesca à linha do bacalhau, os dóris ou botes, construídos nas carpintarias das empresas por hábeis carpinteiros, foram perdendo a razão de existir. Construção simples permitia que em alguns pormenores não fossem totalmente iguais, mas as suas dimensões principais geralmente eram respeitadas: 5,30 metros de comprimento, 1,50 m. de boca e 0,60 m. de pontal. Alguns museus marítimos exibem-nos com orgulho, como o da Póvoa de Varzim, o de Ílhavo e o Museu de Marinha, em Lisboa.

Em algumas das localidades que forneceram homens para a pesca do bacalhau (Costa Nova, Gafanhas, Cova/Gala e outras), foram transferidos alguns para a pesca local, sofrendo algumas modificações.

-

Na Costa Nova, na apanha do crico. Anos 80

-

Aos poucos, foram abandonando o tabuado trincado, recebendo à popa um banco em U, e passaram a ter bancos fixos, ganhando castelo de proa fechado por portinhola e popa, mais larga, com um pequeno motor.

Pelos anos 80, a silhueta do bote foi abrindo, pois as águas a que se destinava não eram as mesmas e o comprimento também excedeu os 5 metros.

-

À espera e à conversa, na praia…Anos 80
-

Em Buarcos, assistimos ao encalhe do último bote daquele dia, puxado por uma junta de bois que todos os dias se dirigia à praia com aquela finalidade. A dona da junta fazia este trabalho há 40 anos, desde que se casara em Buarcos e recordou a existência de grandes bateiras (maiores que os botes) e de lanchas poveiras (ainda muito maiores).

-

Junta de bois a varar o bote, em Buarcos. Anos 80
-

O bote era utilizado para a rede de um pano para a faneca, para o tresmalho (rede de três panos) para o linguado, sargo, robalo, etc., para o aparelho a que chamavam troles com muito inzóis, para a linha de mão para o safio e para os cofos.

Que encanto! Como vemos, a venda do peixe era feita na praia directamente aos banhistas, colaborando a mulher com o marido na separação do peixe e sua pesagem.

-

O peixeiro a pesar… Anos 80
.

Em 2005, a visita ao local foi desmotivante. Apenas um bote para amostra, de 6 metros de comprimento, 2 m. de boca e 0,60 m. de pontal, em madeira, anódino, e mesmo assim, protegido e coberto, fora de uso, porque pertencera a um ex-pescador de 84 anos, já bastante doente.

-

Este local tornou-se muito perigoso e «tudo desistiu, não há autorização» – informaram-me.

– A Senhora encontrará alguns botes no porto de abrigo da Cova-Gala – e lá fui, meia murcha, observá-los, com saudades da algazarra, movimento e alarido do areal, pelo menos dos anos 80.

Vi bastantes, de cores alegres, quase todos de madeira e muito poucos revestidos a fibra. Actualmente, são usados na pesca, no rio.

-

Botes usados no rio. Porto de abrigo da Cova-Gala. 2006

 -

Por estas e por outras, tenho a mente cheia de belas cenas litorâneas, que passaram ao lado da maioria das gentes.

 

Ílhavo, 05 de Março de 2021

Ana Maria Lopes

-

terça-feira, 2 de março de 2021

Dos lugres "Águia" ao "Silvina"

-

O lugre “Silvina”, registado em Aveiro, foi construído na Gafanha da Nazaré, em 1919, por Manuel Maria Bolais Mónica, com o nome de “Águia”, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, tendo sido o bota-abaixo a 4 de Outubro de 1919. Era um lugre com três mastros, de madeira, proa de beque, popa de painel e um pavimento.

-

Dia de bota-abaixo do lugre “Águia” (1919)
- 

Media de comprimento, entre perpendiculares, 35,50 metros, 8,80 m. de boca e 3,60 de pontal. Tinha uma arqueação bruta de 212, 33 toneladas e líquida de 169,88.

Não tinha motor auxiliar e a tripulação era, em média, de quarenta homens.

Em 1920, foi comprado por 75 000$00, pelo Sr. João Bola, para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, em Aveiro, para quem já efectuou a campanha em causa, com o nome de “Silvina”.

 

Surge com características ligeiramente diferentes: 40, 42 metros de comprimento, fora a fora, 34,67, entre perpendiculares, 8,92 m. de boca e 3,62 de pontal. A arqueação bruta era de 207,76 toneladas e líquida de 152,65.


Foi vendido à empresa Agualuza & Batata, Lda., de Aveiro, em 1927, ficando este contrato anulado, face à compra da totalidade dos bens do armador pela firma Testa & Cunhas, ainda durante o ano de 1927, tendo-lhe sido atribuído o valor de 250 000$00 (escritura em 20.12.1927).

De 1920 a 1926, foi comandado por Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco, de alcunha) e em 1927, por António de Souza.
Já na posse de Testa & Cunhas, foi capitão em 1928, Ambrósio Gordinho, e em 1929, António de Souza (ou, eventualmente, Manuel dos Santos Lanbrincha).

Curiosidades:

Nos anos de 1928, 1929 e 1930, o navio foi à Terra Nova com 37, 37 e 36 tripulantes, respectivamente, tendo utilizando sempre 32 dóris. Nestas campanhas de fracas capturas, foram apurados apenas 1.148, 1.400 e 835 quintais de peixe e 1.100, 2000 e 1.200 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a venda foi de 140.000$00, 172.000$00 e 102.000$00 (escudos), certamente muito abaixo das melhores perspectivas, resultando daí um considerável prejuízo.

Daí resultou o navio não ter feito as viagens seguintes.

Na acta de 7 de Dezembro de 1932 da firma Testa & Cunhas, Lda., os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do “Ernani” e “Cruz de Malta”.

Decidiram ainda anunciar a venda do navio “Silvina”, entendendo que o podiam dispensar. Todos concordaram, desde que se pudesse efectuar em boas ou regulares condições, ficando a gerência autorizada a promover a sua venda.

Segue:

Depois de elaborado o presente relatório (acta de 11 de Agosto de 1934), chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre “Ernani” nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores. Uma dificuldade surge.

Como suprir a baixa daquela unidade?

Três soluções se apresentam:

1ª – Reparar e apetrechar o “Silvina”

2ª – Adquirir um navio já feito

3ª – Mandar construir um navio novo

Resolveu-se reparar o lugre “Silvina”, de modo a estar pronto para a futura safra (para o que foram gastos cerca de 50 contos), obtendo a Gerência informação dos barcos que se ofereçam em boas condições, quer no país, quer no estrangeiro e ainda de um orçamento para um barco novo.

- 

Foto do “Silvina”, frente à seca

-
Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. Quem oferece melhores garantias de técnicas é o Senhor Manoel Maria Mónica, que tem dado provas da sua competência e idoneidade. A proposta foi construir um lugre segundo o modelo do “Brites” (1936), com a introdução de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, pelo preço de 640 contos. A aquisição do motor Diesel ficaria a cargo da gerência.

Encomendado em fins de 1936, o “Novos Mares”, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré.

O “Silvina” foi prosseguindo a sua difícil missão, comandado por Joaquim F. Agualuza (de 1935 a 1937) e José Cachim Júnior (de 1938 até 1941), até que viu o seu fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941.


Quem quiser recordar, pormenorizadamente, este acidente, poderá ler as páginas a ele dedicadas (103 a 116 da reedição de 2007), escritas por Jorge Simões, em prosa da época, “O Silvina em chamas”, no livro “Os Grandes Trabalhadores do Mar”. O jornalista fez a campanha de 1941, a bordo do “Groenlândia”, para a observação da faina e recolha de dados.
-

Ílhavo, 02 de Março de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

José Teiga Gonçalves Leite

 -

Capitão José Leite. 1950. AV.
-

José Teiga Gonçalves Leite, o jovem capitão, filho de José Gonçalves Leite Júnior e de Alzira Teiga Leite, nasceu em Ílhavo, em 22 de Novembro de 1924. Filho mais velho da D. Alzira, que sempre conheci viúva e, como filho mais velho de mãe “viúva”, era o “homem” da família, para os irmãos mais novos, Armanda e Francisco.

Era possuidor da cédula marítima nº 24.250, passada pela Capitania do porto de Aveiro, a 9 de Setembro de 1943.

Do casamento com Maria Henriqueta Gomes da Cunha e Maia Mendonça, nasceram os filhos José Alberto, Maria Solange e Maria Frederico Mendonça Leite. Passaram, então, a residir, em Lisboa.

“O jovem capitão Leite era típico dos jovens comandantes de Ílhavo. Hoje em dia, em vez de começar como moço e progredir para o posto de pescador, o aspirante a capitão tem um longo período de instrução académica, porventura mais teórica do que prática. Mas, o capitão Leite ainda era um comandante à maneira da tradição antiga, apesar de não ter mais do que vinte e cinco anos de idade. Era bem capaz de conduzir o Gazela e de o navegar com grande velocidade, apesar de o único outro navio de pano redondo em que servira tivesse sido o navio-escola Sagres, onde o jovem Leite não passava de um entre 300 rapazes” – escreve sobre o capitão Leite, Alan Villiers, na sua Campanha do Argus, que acompanhara na safra de 1950, sob o comando do Capitão Adolfo Paião.

E continua: “José Leite olhou em volta da pequena câmara branca, limpa e imaculada, com a velha bússola pendurada em argolas acima do lugar do capitão (o seu lugar) à mesa, de modo a que pudesse ser vista de lá de baixo, para que o capitão estivesse sempre certo do rumo tomado. (…). Através da pequena claraboia, o capitão Leite avistava o triângulo da popa, abanando por enquanto ao de leve, porque não havia vento. Pegou nos binóculos e apressou-se a ir até ao convés. Ainda não havia quaisquer sinais de perigo real no que dizia respeito ao clima e todos os pescadores que ele conseguia avistar continuavam perseverantemente, à pesca, a maioria deles alando os aparelhos depois do primeiro lanço do dia. Tornaram-se amigos, nessa safra de 1950, o comandante australiano Alan Villiers e José Leite, nesse ano, capitão do lugre- patacho “Gazela Primeiro”.

-

Gazela Primeiro. AV.
-
Antes do seu início de vida na pesca do bacalhau, é de lembrar um episódio por que passou o jovem José Leite na primeira viagem que fazia, acabadinho de sair da Escola Naútica, com os  seus dezoito anos. Desempenhava o cargo de 2º piloto no vapor "Pádua", quando este teve um acidente perto de Marselha, numa viagem ao serviço da Cruz Vermelha Internacional. 
O navio foi de encontro a uma mina que andava à deriva, dando-se uma explosão, que provocou a morte de seis dos vinte tripulantes, bem como o afundamento do vapor.

A sua vida profissional, começou, propriamente, como piloto do lugre “Creoula”, que dispensa apresentações, na safra de 1947. Em 1948 e 49, saltou para imediato do mesmo lugre, sob o comando de Francisco Paião (Almeida).

Nos anos de 1950 e 51, foi então capitão do icónico lugre patacho “Gazela Primeiro”. Deixou, então, os navios da Parceria Geral das Pescarias.

Nos anos de 1952 a 54, comandou o navio-motor “António Coutinho”, construído em 1945, por Manuel Maria Bolais Mónica para a Sociedade Lisbonense da Pesca do Bacalhau, Lda.

 -


Navio-motor “António Coutinho”

 -

Em 1955, “saltou” para o comando do navio-motor de ferro, “Sam Tiago”, construído pelos Estaleiros de Viana do Castelo, para Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau (SNAB), tendo o prazer de fazer a viagem inaugural. Por lá ficou mais os anos de 1956 e 1957, na companhia do imediato Francisco Leite, seu irmão.

-

Navio-motor “Sam Tiago”

 -

E terminou a sua brilhante carreira do bacalhau, na campanha de 1958, com a estreia do navio-motor de ferro “Nossa Senhora da Vitória”, construção dos estaleiros de Viana do Castelo, para a SNAB.

Depois da carreira do bacalhau, passou a ser piloto da barra de Lisboa, cidade, onde já se tinham instalado.

Há uns anitos, creio que estive com ele, numa idade já provecta, no Museu, aquando da estreia do filme “A campanha do Creoula” (2013), apresentado pelo realizador André Valentim Almeida, seu sobrinho-neto, que se inspirou em algumas fotos da grande pesca, no “Creoula”, encontradas numa gaveta do tio-avô, no auge da sua vida pesqueira. Sempre tentei que essas fotos me chegassem à mão, mas vários desencontros impediram-no. Chegou hoje a oportunidade de relatar a biografia de José Leite, que faz parte da minha memória, mesmo sem as tais fotos.

Deixou-nos, em 25 de Dezembro de 2014 com 90 anos de idade.

-

Ílhavo, 23 de Fevereiro de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Aníbal da Graça Ramalheira

 

-

Tendo-me pessoa amiga perguntado se eu tinha a biografia do capitão Aníbal da Graça Ramalheira, fui direita às fichas do Grémio, sem me lembrar que a dele estava quase em branco, sem os dados básicos e com o registo de meia dúzia de viagens, apenas. Valendo-me de pessoas amigas e de outros elementos, os habituais, tentei reconstituí-la. E ei-la:

Aníbal da Graça Ramalheira nasceu na Rua do Pedaço em 30 de Julho de 1900, filho de João Pereira Ramalheira Júnior, marítimo e Vitorina da Graça Ramalheira. Do casamento com Leonilde Vitorina Corujo em 30 de Outubro de 1921, nasceram os filhos Vitorina Paula Corujo Ramalheira, Aníbal Leonídio Corujo Ramalheira e Maria do Rosário Ramalheira.

Frequentou o Liceu de Aveiro e o de Viana do Castelo, porque nessa altura, entre 1914 e 1918, época da pneumónica, o pai dirigira uns terrenos para secadouro, pertencentes à Parceria Geral de Pescarias (PGP), em Darque, Viana do Castelo.

Mais um Ramalheira que dedicou o seu tempo aos navios da Parceria, no Barreiro, bem como, na parte final da vida, à empresa, seguindo as pisadas do pai.

Do que se consegue apurar, foi ao bacalhau na campanha de 1922 na “escuna Creoula”, conhecida como “Creoulinha” como piloto, com o capitão António Marques e na de 1923, foi de capitão.

 -

Escuna “Creoula”
-

Nos anos de 1925 e 26, foi capitão do “Argus” velho, futuro “Ana Maria”, pertença da praça do Porto. Era um donairoso e elegante veleiro.

No lugre-patacho “Gazela I”, fez quatro viagens de capitão – as de 1924, 27, 28 e 1929. Quase toda a gente ouviu falar do lugre patacho “Gazela I”, do Gazelinha ou Gazelão, conforme as épocas, que hoje ainda é mantido pelas Américas por um grupo de Amigos.

Teve a honra de fazer a viagem inaugural do lugre “Hortense”, em 1930, onde residiu como capitão até 1936 (inclusive), construído na Gafanha da Nazaré, nos estaleiros de Manuel Maria Bolais Mónica.

Era obrigatório equipar com radar, os navios construídos a partir de 1950, mas Aníbal Ramalheira adorava tanto o” Hortense” e achava-o tão elegante, que dizia que o mastro da antena do radar iria tirar o brilho ao navio. Conseguiu-o aguentar sem radar até 1961, ano em que as autoridades não autorizaram a sua saída.

-

O lugre “Hortense”
-

Mais uma vez se orgulhou de inaugurar o lugre “Creoula”, construído nos estaleiros da CUF, em tempo record, para a viagem de 1937, tendo ficado por lá mais o ano de 1938, que ficou célebre pela negativa. Foi um ano fatídico com um ciclone que soprou no oceano, tendo atingido fortemente alguns navios. Dentre eles, foi o “Creoula”, do comando do sr. Aníbal Ramalheira, que perdeu quatro homens da sua tripulação, entre eles, o imediato, sr. Carlos Eduardo Miranda Calàs de S. Pedro do Sul, sofrendo também avarias de grande monta. O “Bries” e o “Maria da Glória” felizmente não tiveram perdas pessoais, mas sofreram, igualmente, prejuízos importantes.

-


O “Creoula”

 -

Não há dois sem três e em 1939, fez a viagem inaugural do lugre “Argus”, construído na Holanda, tendo deixado, então, o mar, por motivos de saúde.

-

O “Argus”, com a pintura original, de sangue de boi
-

Conhecedor e amante de navios, bom profissional, sabedor e habilidoso, seguiu as pegadas do pai, tendo passado a exercer o cargo de gerente da PGP, em Fevereiro de 1941. Supervisionou a frota dos Bensaúde, no Barreiro, depois de uma carreira longa e notável, à frente de vários lugres.

Uma bela panóplia de “navios históricos” passou-lhe pelas mãos, com mestria.

Aposentou-se em 30 de Junho de 1970, tendo vindo morar para Ílhavo.

Deixou-nos em viagem sem retorno, em 6 de Dezembro de 1976 com 76 anos de idade.

-

Ílhavo, 21 de Fevereiro de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O litoral e eu, para desanuviar...

 -

O litoral e eu temos uma história de vida…

Desde moçoila que o palmilhar as praias piscatórias marítimas, se revelou, para mim, uma delícia. O mar, na sua imensidão, em tons de azul e espuma branca, enrolava-se e espraiava-se na areia cálida e macia, num vaivém constante e sempre surpreendente.

Os cenários eram deslumbrantes a qualquer hora. Desde o alvorecer ao anoitecer, homens e mulheres em alarido, guiavam bois, ajudavam barcos a varar, remendavam redes, corriam com cabos às costas, enquanto, à margem, se faziam lanços no areal cálido e amplo.

Dirão…ou pensarão: convenceu-se que conhece alguma coisa de marítimo e que apanhou essa paixão pelas embarcações tradicionais assim sem mais nem menos. Não foi moda, não. Nem delírio. Também não. Foi gosto, dedicação, observação e estudo.

Finalista de Filologia Românica na UC, defendia a tese "O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos", quando a vida me desafiou para mudar e, de solteira, passar a casada, tomando outro rumo familiar.

Sucedeu que a dita "lua-de-mel" foi feita litoral abaixo, entre Cascais, Sesimbra e baía da Baleeira, passeando mesmo até ao sotavento algarvio.

Palmilhávamos as praias, calcorreávamos areais, sentávamo-nos em rochas. Eu, alcandorada, em embarcações, adorava assistir directamente na beira-mar às lotas de peixe prateado e saltitante. O movimento, o alarido, o colorido, o vaivém de barcos e artes entontecia-me apaixonadamente.

Pelos anos 60, continuava o estertor das embarcações tradicionais e da navegação à vela, a que fui assistindo com alguma mágoa. Mas todo aquele movimento, essa balbúrdia, esse bulício, momentos de extrema beleza, ficaram no meu gosto pelo «marítimo».

-

Em Sesimbra. A lota do peixe-espada, na praia. 1965

 

Ao final da tarde, o peixe prateado estrebuchava na areia, no estertor da morte. Vários lanços decorriam em simultâneo, enquanto aiolas se aquietavam em terra e chatas, grosseiras e pesadonas regressavam ao mar prateado…

Anotei, apontei, fotografei, escrevinhei, voltei várias vezes a vários pontos litorâneos, sempre numa perspectiva etno-linguística, até que em 1971, a tese ficou pronta.

Estas imagens dos anos 60 falam mais do que «mil palavras».

-

P. de Varzim. Barquinhos com murejonas

-

Embarcações diversas na praia da Nazaré

-

Barco do mar na Caparica

 -

 Sines. Lota na praia

 -

Albufeira. Vai um bote à água

 -

Lancha da sacada. Albufeira

 -

Monumental calão. Quarteira
-

O gosto não esmoreceu. Bem pelo contrário.

Pelos anos 80, visitei todos os locais já então percorridos, para fazer uma avaliação entre o que a história tinha feito desaparecer e o que ainda perdurava. Esta comparação gorou as minhas expectativas, quanto ao que ainda havia de tradição.

No primeiro decénio deste século XXI, eis-me de novo ao terreno, de norte a sul do país. E o resultado foi o livro “REGRESSO AO LITORAL”, dado ao prelo pela Comissão Cultural de Marinha, em 2008, que muito me orgulhou.

-


O tempo foi passando, as embarcações tradicionais e as minhas forças atingiram o seu crepúsculo. Poderia ter sido um pouco antes, mas considero que ainda o fiz a tempo de me ter deixado a alma cheia.

Hoje, nem de longe nem de perto teria forças e ânimo para fazer o que fiz. A idade não perdoa.

Neste primeiro dia de Quaresma, acinzentado e frouxo, desiludida e cansada, apenas poderei  escrever de mim e para mim, recordando o "tal passado à beira-mar"

-.

Ílhavo, 17 de Fevereiro de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

domingo, 14 de fevereiro de 2021

João Pereira Cajeira

 -

Cap. João Pereira Cajeira

Mais um ílhavo que não deveria ficar no esquecimento, mas, por falta de dados fotográficos e outros pormenores, foi ficando para trás. Nestes tempos que correm, chegou o seu dia de ser lembrado, mesmo com algumas lacunas, ainda.

João Pereira Cajeira, filho de Manuel Pereira Cajeira e de Maria de Jesus Vilela, nasceu em São Salvador, Ílhavo, em 7 de Março de 1879, na Rua Arcebispo Bilhano.

Era portador da cédula marítima nº 369, passada pela Capitania do porto de Aveiro, em 31 de Março de 1921.

Na ficha do Grémio, o próprio declara que exercera a profissão de capitão do bacalhau desde 1908. Desses tempos, nada nos chegou. Terá começado como moço como mutos camaradas do tempo dele? Mais tarde, após um curso de pilotagem rápido, terá passado por piloto, imediato, até chegar a capitão? Era o normal da época.

Casou em Vina do Castelo com Isilda V. da Silva, em 18 de Janeiro de 1933 de cuja união nasceu o filho José Pereira Cajeira.

Dados certos, encontrámo-los no jornal “O Ilhavense”, a partir de 1924 até 1928, como capitão do lugre “Santa Luzia”, da Empresa de Pesca de Viana do Castelo. (EPV).

No dia 21 de Outubro de 1928, sob o comando do Cap. Cajeira, ao demandar a barra de Viana de Castelo, quando seguia a reboque do “gasolina dos pilotos”, encalhou num banco de areia. Os esforços para o desencalhar não resultaram e foi decidido descarregá-lo, na esperança de que numa preia-mar se safasse, mas sem êxito.

Após ter sofrido este encalhe, o Cap. Cajeira passou na safra de 1929 para o comando do 3º “Santa Luzia”, que tinha sido construído em 1922, em São Martinho do Porto por J. José Honrado com o nome de “Neptuno”. Este navio foi adquirido pela EPV e redenominado   de “Santa Luzia”, logo depois do acidente com o seu antecessor. No final da campanha de 1929 o Cap. Cajeira entregou o navio ao Cap. Aquiles Gonçalves Bilelo, vindo do lugre “Orion”.

Os anos 30 foram cruciais para a sobrevivência das empresas então empenhadas na pesca.

Em 1930, o capitão Cajeira, oficial da EPA, no lugre “Santa Mafalda”, lança-se na procura dos mares da Groenlândia. Chega a avistar aquelas terras inóspitas, alvas e geladas, mas o medo do desconhecido origina um temor na tripulação, que o obriga a voltar para trás. Após o regresso dá uma interessante entrevista ao jornal “Beira-Mar”, de 30 /11/1930, em que refere: (…) Castigada pelo frio intensíssimo e ante o perigo iminente em que nos achávamos, em virtude da proximidade dos icebergs, a tripulação reunida declarou-me que era impossível pescar. Que não podiam – diziam eles – e eu tive de concordar. O fogão já não tinha calor suficiente para cozer pão e a água já fervia com muita dificuldade (…).

No ano seguinte, 1931, este capitão já tinha decidido que os que quiserem ir, vão, e os que não quiserem, ficam em terra.  Ele e mais três irredutíveis capitães dos lugres bacalhoeiros (ele do “Santa Mafalda”, Manuel Labrincha do “Santa Isabel”, João da Cruz do “Santa Joana”, todos da EPA e Aquiles Bilelo do “Santa Luzia”, da EPV, rumaram à Groenlândia, onde encheram diariamente os quetes, atafulhando os navios de bacalhau, de excelente qualidade.

- 

O “Santa Mafalda” do capitão Cajeira

-

Assim, nos anos 1930, 31 e 32, o capitão Cajeira, esteve ao serviço da EPA, na Gafanha da Nazaré, e, no ano seguinte, rumou para Viana.

Entre 1933 e 1936, foi capitão do “Rio Lima”, lugre com motor, de madeira, pertencente à EPV, a que já estava acostumado.

-

 

A bordo do “Rio Lima”, 1936
- 

E o ano de 1937 chegara e, com ele, a estreia do saudoso lugre com motor, de ferro, “Santa Maria Manuela”, construído nos estaleiros da CUF, em Lisboa, em tempo record, para a EPV. 

É sempre um orgulho estrear um navio, além do mais com uma beleza e elegância inauditas como este. Sentiu-se bem e por lá foi ficando 9 anos, até 1945, ano em que se reformou, com 66 anos de idade.

- 

À entrada da barra de Leixões
- 

Ainda teve uns aninhos para saborear a reforma entre Ílhavo e Viana do Castelo, onde, ainda hoje, tem descendentes.

Deixou-nos, em viagem sem retorno, em 30 de Julho de 1958, com 79 anos.

-

Ílhavo, 14 de Fevereiro de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O torpedeamento do "Santa Irene"

 -

As palavras são como as cerejas e, quando o Sr. João José Senos me veio entregar as fotos do pai que fez o favor de me ceder, perguntou-me se eu sabia o que tinha acontecido com o pai dele, seu avô, Joaquim André Senos.

De repente, não sabia, tendo-me dito que tinha morrido no torpedeamento do “Santa Irene”. Farta de ter conhecimento do sucedido, deu-me a vontade de reler o artigo que constava do jornal “O Ilhavense” de 22 de Abril de 1943.

Ei-lo, o acontecimento que deixou Ílhavo de luto:

De novo a gente da nossa terra veste luto carregado pela perda de mais alguns dos seus filhos, homens do mar de um país neutro a quem um inexplicável bombardeamento, a tiros de canhão, durante a noite, sepultou quiçá, para sempre, no fundo das águas.

Ainda sangrava a ferida causada pelo desaparecimento dos nossos conterrâneos, tripulantes do “Catalina” e do “Maria da Glória” e já outro golpe cruel vem despedaçar os corações e enlutar as almas.

O vapor “Santa Irene” de 1.200 toneladas, pertencente à Companhia Industrial Portuguesa, de Lisboa, partira em 23 de Março para a Itália, com carregamento de trigo para a Suíça, por conta da Cruz Vermelha. Levara pão para os refugiados naquêle pais, neutro como o nosso, e que agasalha nos seus muros homens de todas as nações beligerantes, mulheres e crianças que ali procuravam escapar aos horrores da guerra.

No retorno devia trazer carga consignada ao govêrno português. Saíra, poer isso, de Génova para outro pôrto italiano, mas, ao passar, na noite de 12 para 13 de Abril, entre as ilhas de Córsega e Elba, que distam uma da outra cêrca de 4 milhas, surgiu-lhe um submarino fantasma que o meteu no fundo.

 

Santa Irene

Da tripulação salvou-se a nado o nosso conterrâneo António Menício Tróia, da Rua da Fontoura, que se encontra actualmente hospitalizado em Livorno. Dos restantes nada se sabe, sendo provável – visto até agora não terem chegado notícias do seu salvamento – m que para sempre tenham encontrado o fim do seu infeliz destino.

E então teremos êste saldo macabro e terrível: 5 viúvas, 13 órfãos, e desaparecidos do nosso convívio e da existência, os seguintes ilhavenses:

Manuel dos Santos Marnoto, capitão; Paulo Francisco do Bem, imediato; Henrique Gonçalves Vilão, motorista: Joaquim André Senos, marinheiro; e Manuel Pereira da Silva, fogueiro.

A restante tripulação do “Santa Irene” era constituída por:

Pedro Henrique de Meneses Alarcão, 2º piloto; Manuel dos Santos Belfo, 1º maquinista; Manuel Lopes de Almeida, 2º maquinista; Francisco M. Cominho, 3º maquinista, Flávio da C. Castro telegrafista; José Simões, contramestre; José Joaquim e João da Luz, fogueiros; António Tavares Chegador; António Ferreira Dias, cozinheiro; e João Durte, criado; de várias terras do país, quási todos casados e chefes de família.

E aqui está o resultado de mais um acto de barbarismo de que a Marinha Mercante Portuguesa é vítima, sem nada que o justifique, a não ser a maldade e a cegueira.

É fácil calcular as horas de pavor que se teem vivido em Ílhavo. E fácil é, também, adivinhar o estado de espírito de todos os homens do mar, aqui residentes, que estão prestes a largar para as suas fainas sobre os oceanos em guerra, onde já se não respeita a bandeira dos países neutros”.

-

E neste relato de “O Ilhavense», se encontra o nome de Joaquim André Senos, marinheiro, tal como o seu neto tinha relatado, no torpedeamento do "Santa Irene". Ílhavo, mais uma página de sangue, suor e lágrimas…. Sobre as ondas do mar e em terra, para os que esperaram os seus entes queridos, que nunca mais voltaram.

-

Ílhavo, 8 de Fevereiro de 2021

Ana Maria Lopes

-