quarta-feira, 22 de junho de 2022

O bota-abaixo do "Vila do Conde", em imagens

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Ainda a propósito da conversa de madrinhas de navios, consegui que a madrinha do “Vila do Conde”, Inês Maria Chambers de Sousa Amorim, me emprestasse, através do MMI, as fotos que possuía do bota-abaixo de que fora marinha, na Gafanha da Nazaré.

O navio-motor “Vila do Conde” construído por Benjamim Bolais Mónica para a Firma Tavares, Mascarenhas, Neves & Vaz, Lda., teve o seu bota-abaixo a 25 de Março de 1955, tendo tido como madrinha a menina, à época, Inês Amorim, filha do Presidente da Câmara de Vila do Conde, ao tempo. com quem me encontrei.

O navio foi transformado para redes de emalhar em 1971 e naufragou em Junho de 1973, de naufrágio, com explosão a bordo.

Não deixa de ser mais um, mas as fotos têm sempre o seu encanto e as suas diferenças:

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 O navio, ainda em terra, de lado
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Da proa altaneira…
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A madrinha e os Pais
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Altas personalidades conhecidas
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O cortar do “cabo da bimbarra”
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A magia do baptismo…
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A descida da “carreira”
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Já na água, enfeitado por pequenas embarcações
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O sugestivo bolo festivo…

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Ílhavo, 22 de Junho de 2022

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Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 17 de junho de 2022

MOLICEIROS A MEMÓRIA DA RIA

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“Foi a melhor homenagem que te podiam ter feito” – alguém opinou junto à ria, perante o painel de proa de BB do moliceiro “S. Salvador”.

Parece que sim, respondi. Será? Singela, mas muito sincera, por parte José Oliveira (Zé Manel), com a anuência da proprietária da embarcação, Maria Emília Prado Castro. Sensibilizou-me, sem dúvida.

Vou andar a vogar pela ria, em quadro flutuante, pelo menos, por uns tempos. E mais não digo.

Conhecemos o Zé Manel, pintor, eu e o Miguel, em 1989, enquanto pintava o moliceiro «JOÃO MANUEL», A 2040 M, em terreno verdejante e arenoso, à beira ria, foto nº 129, reproduzida em “Moliceiros – A Memória da Ria” (2ª edição).

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O Zé Manel a pintar em 1989, à beira-ria…
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Segui-lhe a execução com entusiasmo, indo três tardes à Torreira, frente ao Museu-Estaleiro, um dos mais belos recantos da ria, para reter o seu desenvolvimento, nas diversas fases de execução. Inspirado numa fotografia, depois de os painéis já delineados e pintados a verde, vermelho e amarelo (belas cercaduras florais), surgiu o esboço do rosto por decalque em papel vegetal.

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Pintura das cercaduras florais
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Passados dois dias, o rosto já decorado, em tom rosa cárneo, cabelo branco revolto, óculos delineados ao pormenor, já se identificava a pessoa, por quem a conhecesse. Sobre a ria e céu azuis, alguns moliceiros, lateralmente, enquadravam a figura central.

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Motivo central a  meias tintas…
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Na terceira tardada, a pintura está quase concluída. Muito trabalho, na nossa ausência tinha sido feito, pois o moliceiro tem mais três painéis e mais alguns adornos em locais de referência. Com a Etelvina de assistente e boa companhia, presenciámos a técnica do “sombreado” a preto, tão importante, com “o biquinho de pardal”, pincel de cerdas muito fininhas, que transmite o realce final à decoração.

Para terminar, a legenda, em tetras maiúsculas e entre aspas, como é hábito, sobre tira de fundo róseo – «MOLICEIROS – A MEMÓRIA DA RIA», o grande livro, vivido, pesquisado e escrito por mim, com o maior dos entusiasmos e fotos do meu filho Paulo Godinho, um jovem à época, com o entusiasmo próprio da idade.

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Pronto, com a “modelo” por perto
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Já posso “partir” para a outra margem, à falta de “barca”, navegando sobre a ria, em painel flutuante de moliceiro. Muito grata ao Zé Manel, que conheço há 33 anos e de quem tenho acompanhado o percurso, com alguma regularidade, até hoje, quer em painéis pintados de novo, quer como júri de painéis de moliceiros, desde 1988.

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Painel flutuante, pronto a navegar 
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Ílhavo 17 de Junho de 2022

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Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 25 de maio de 2022

A propósito da exposição "O Grande Norte"...

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Na exposição “O Grande Norte”, patente na sala de Exposições Temporárias, no MMI, até 6 de Novembro, tive o prazer de reler esta entrevista, que recordo e de que respiguei alguns excertos.

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E o capitão João Pereira Cajeira assim o conta ao jornal “Beira Mar”, de 30/11/930.

– […] Ano passado chegaram até mim informações sobre a belíssima pesca que havi feito um navio francês nos Bancos da Groenlândia. […] Este ano, quando cheguei aos Bancos da Terra Nova, procurei os meus lugares predilectos de pesca, aqueles onde, em anos transactos, tenho feito boa safra. Uma grande desilusão sofri. Má pesca, escassês de peixe, uma arrelia. […] Resolvi, definitivamente, ir até aos bancos da Groenlândia.

– No dia?

– Partimos no dia 20 de Junho e tivemos uma viagem magnífica […] sem novidade e ao fim de 10 dias estávamos a 63º 40’ de latitude norte. Estávamos, então, sob a acção de um frio inclemente, cortante, indescritível. Espectáculo soberbo, verdadeiramente extraordinário. […] De todos os lados, mais perto e mais longe, se erguiam magestosos e bizarros os icebergs […] de todos os tamanhos e de todos os feitios. Alguns davam-nos a impressão fiel de veleiros singrando os mares, com o velame içado. Outros ainda, agigantados, magestosos, pareciam rochedos perdidos no meio das águas… Interessante, mas tétrico. Interessantíssimas as auroras boreais. São espectáculos frequentes naquelas paragens. Que vivacidade e que frescura de colorido!

– E pescaram?

– Oiça: Castigada pelo frio intensíssimo e ante o perigo eminente em que nos achávamos em virtude da proximidade dos icebergs, a tripulação reunida declarou-me que era impossível pescar […] Que não podiam, diziam êles, e eu tive de concordar. O fogão já não tinha calor suficiente para cozer pão e a água já fervia com muita dificuldade. […]

Em derredor do navio, a certa distância, avistaram-se centenas de icebergs. Faziam um ruído ensurdecedor. […]

– Como escaparam de tam grande perigo?

– Tivemos a nosso favor um grande factor de ordem natural. Quási não havia noite naquelas longínquas paragens. O sol rompia às duas horas da madrugada e só às 11, 5 horas desaparecia no horizonte.

– Três horas, pouco mais de noite…

 – É certo… e, nem sequer nesse tempo dormia sossegado. Com grande dificuldade e, por vezes em riscos de nos perdermos, conseguimos descobrir uma aberta pela qual iniciámos o regresso.

Navegando com ventos contrários só conseguimos chegar aos Bancos da Terra Nova no dia 12 de Julho. […]

Um pescador disse referindo-se aos mares da Groenlândia:

Eh! Sinhor Capitão! Aquele mar não tem passage! Aquilo era tudo fechado que até metia medo…

O capitão Cajeira sorridente e pensativo parecia recordar a acidentada viagem que, pelos perigos de que foi cercada, nos faz lembrar as antigas viagens dos navegadores portugueses.

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Ílhavo, 25 de Maio de 2022

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Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 20 de maio de 2022

Ainda JOÂO CARLOS...

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Depois de ter visitado a Exposição JOÃO CARLOS, incluída no “Ilustração à Vista”, tive vontade de revisitar o meu baú, para lembrar obras do autor que estiveram presentes na “Retrospeciva JOÃO CARLOS”, que o Museu Marítimo e Regional de Ílhavo apresentou em Abril/Maio de 1991.

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Tormenta, 1932

Nanquim, 57x44 cm

Col. Museu Santos Rocha. Figueira da Foz

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Ceifeiros, 1934

Técnica mista, 42x35 cm

Col. Feverónia Mendonça, Lisboa

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Varina, 1941

Lápis, 41x59

Col. Marítimo e Regional de Ílhavo

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Caminhos do Sangue, 1942

Nanquim, 24x20 cm

Col. Moreira das Neves, Lisboa

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A Ceia, 1951

Óleo sobre tela, 200x300 cm

Col. Seminário dos Olivais. Lisboa

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Ondina, 1953

Estudo para fonte. Gesso.118x35x53 cm

Col. Marítimo e Regional de Ílhavo

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Flor de Plástico, 1959

Óleo sobre cartão, 56x45 cm

Col. Feverónia Mendonça. Lisboa

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Lisboa, 1959

Óleo sobre tela, 81x65 cm

Col. M. Luisa C. Saldanha Q. R. dos Santos. Lisboa

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Cartão para figurino dos Pajens de Santa Joana, 1959

Nanquim e gouache, 33x33 cm

Col. Paço Episcopal de Aveiro

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D. João II, 1960

Nanquim, 56x43 cm

Col. Museu de Marinha, Lisboa

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Para terminar, apreciemos a capa de uma Revista editada pela C.M.I. em 1932, em que a Costa Nova publicitada por uma banhista escultural e naïve daria um dos melhores cartazes para a nossa praia.

É pena que alguns dos ingredientes apregoados já não sejam os mesmos: a ria a beijar as casas, as bateiras atracadas aos moirões em frente aos palheiros, o barco do mar com toda a beleza e empolgamento da arte que praticava.

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Costa Nova, 1932
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Ílhavo, 20 de Maio de 2022

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Ana Maria Lopes

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domingo, 15 de maio de 2022

Manuel Fernandes Matias

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Através de conhecimento comum, tive acesso a uma fotografia do avô materno da colega Maria Vitorina Matias Azevedo. Toca de trocar dados para chegar a uma curtinha biografia.

Manuel Fernandes Matias, filho de João Fernandes Matias e de Maria Emília Pereira, nasceu em Ílhavo, na freguesia de São Salvador, em 3 de Agosto de 1890.

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 Manuel Fernandes Matias

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Casou com Felicidade dos Santos Matias, em 21 de Agosto de 1912, de cuja união nasceram seis filhos: Rosa, Maria, falecida com 23 anos, Luís, falecido em criança, num desalmado acidente em Matosinhos, Maria Natália Fernandes Matias, João Fernandes Matias e Maria da Conceição Fernandes Matias. De quem mais me lembro, ou não estivesse ligado ao mar, é de João Fernandes Matias, sobretudo pela célebre viagem de Alan Villiers, no “Argus” na safra de 1950, onde ocupou o lugar de imediato.

Voltando a Manuel Fernandes Matias, era possuidor da cédula marítima nº 7785, passada pela Capitania do porto de Aveiro, em 6 de Dezembro de 1915.

Desde que há registos fidedignos, foi piloto dos lugres”Argus” (velho), em 1928, “Hortense”, em 1931, “Santa Mafalda”, em 1933, “Ilhavense 2º”, em 1934 e 35,  “Infante”, em 1936, “Neptuno Segundo”, nas safras de 1937 e 38.

Com três anos de interregno da pesca do bacalhau, durante a II Guerra Mundial, em que naufragou por duas vezes, voltou a pilotar o lugre-motor “Brites”, em 1942, para passar a imediato do navio-motor, “Bissaya Barreto”, na campanha de 1944.

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Lugre “Hortense”
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Abandonou, então, a pesca do bacalhau para se dedicar à pesca no Cabo Branco.

Em 1958, era o sócio nº 7 do Grupo dos Amigos do MVSEV MVNICIPAL DE ÍLHAVO.

Tendo deixado a sua carreira marítima, veio a “partir” numa viagem sem retorno, em 2 de Novembro de 1959, com 69 anos.

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Ílhavo, 15 de Maio de 2022

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Ana Maria Lopes

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segunda-feira, 9 de maio de 2022

Retrospectiva de... Retrospectiva JOÃO CARLOS, 1991

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A Exposição JOÃO CARLOS, integrada no “ILUSTRAÇÃO à vista, 2022, foi inaugurada a 5 de Maio, na Casa da Cultura de Ílhavo, prolongando-se até 24 de Julho. É uma exposição de parceria entre a Câmara Municipal de Setúbal e o Museu Marítimo.de Ílhavo. A não perder, porque até já vi o catálogo, que me seduziu.

Mas, pensei, antes de a visitar, vou dar revisão à matéria dada – singelo Catálogo João Carlos – Retrospectiva, 1991, no Museu Marítimo e Regional de Ílhavo, muitas fotografias e uma memória muito presente, apesar dos 31 anos já passados.

 

JOÃO CARLOS Celestino Pereira Gomes nasceu em Ílhavo, a 5 de Outubro de 1899 e morreu em Lisboa a 11 de Novembro de 1960, estando sepultado em Ílhavo, conforme desejo por ele formulado.

João Carlos, figura multifacetada, foi médico, escritor, pintor, entalhador, ilustrador, desenhador e xilógrafo. Tentou também a cerâmica, a escultura, o ferro e o mosaico, onde deixou curiosos e interessantes exemplares. Pena é que, nesta exposição, com tanto espaço disponível, demais, alguns destes aspectos não tenham sido contemplados!

Ao reler, minuciosamente, um texto de Frederico de Moura que lhe dedica na “Evocação” do Catálogo João Carlos – Retrospectiva, 1991, não resisti à tentação de transcrever este excerto:

(…) A altura em que o seu lápis e o seu pincel eram tocados de poesia, era quando ondulava o tronco duma peixeira de Ílhavo, quando individualizava a musculatura dum pescador da Costa Nova, quando catava motivos decorativos na proa dum moliceiro, quando se auto-retratava, ainda menino, com a opa vermelha da Irmandade do Senhor, ao lado de seu avô, ou quando aparecia com um moinho de papel da romaria da Senhora da Saúde. Tinha Ílhavo no coração e a sua obra é a tradutora mais rica da sua ambiência e da nossa etnografia. Por isso, merece a gratidão da gente da sua terra, da gente que o seu lápis e o seu pincel acarinharam numa obra perene de beleza e muitas vezes marcada de sentido humano (…).

 

Algumas fotos da Exposição:

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Convite sob Auto-retrato
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Mobília da saleta da casa do Artista e outras peças, diversas…
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Inauguração, a 20 de Abril de 1991
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Um mar de gente, entre um mar de obras de arte...
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Eng. Galante, Monsenhor G. Gaspar, eu e Sr. Gouveia
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Muita gente entre muitas obras
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Francisco Marques, Esposa e outros Amigos…
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O grande tríptico   da Associação Nacional de Lanifícios, 1954
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O Presépio, 1930
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Revisitei com prazer e saudade esta exposição. até porque muitos dos visitantes já cá não estão para contar, outros seriam muito jovens e não teriam estado presentes e outros, em que me incluo, organizaram-na, visitaram-na, decoraram-na e estão prontos a visitar a actual Exposição JOÃO CARLOS, na Casa da Cultura de Ílhavo, até 24 de Julho de 2022.

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Fotografias – Carlos Duarte

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Ílhavo, 9 de Maio de 2022

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Ana Maria Lopes

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sábado, 7 de maio de 2022

Conversa de madrinhas de navios, em 30 de Abril de 2022, no MMI

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Estas duas madrinhas de navios-motor, em madeira, são as sobreviventes, que se saiba, e já quase peças de museu.

Uma, eu própria, madrinha do navio/motor, “São Jorge”, construído em 1956, na Gafanha da Nazaré, no estaleiro de Manuel Maria Mónica cujo bota-abaixo foi a 10 de Março do mesmo ano. Neta do Capitão Pisco, um dos sócios fundadores da empresa Testa & Cunhas, Lda., eis a razão pela qual fui convidada para madrinha do navio, com apenas 12 anos. Receios, ansiedades, alegria, chança, vaidade, pequenez, foram muitas das emoções que senti, antes, sobretudo, e depois do bota-abaixo.

A multidão, a altivez do navio na carreira, o embandeiramento em arco dos restantes navios ancorados, o receio que o navio empancasse na descida, que o sebo secasse, que o navio tombasse, que arrastasse o palanque dos convidados – alguns receios possíveis, outros nem tanto, fizeram daquele momento, um momento único da minha vida de menina! O foguetório, as bandas, os ranchos, as sirenes e tudo o mais que possamos imaginar, fizeram da Gafanha da Nazaré um palco único, naquela altura. Todos os caminhos lá iam desembocar…

A outra senhora, menina de 8 anos, à época, era Inês Maria Chambers de Sousa Amorim, filha do então Presidente da Câmara de Vila do Conde – e também nome do navio. Daí a razão do convite para madrinha, do navio-motorVila do Conde” num ambiente que não lhe era tão familiar como a mim, mas de que gostou, embora não tivesse uma memória tão acentuada. Mas, nas muitas fotos que tinha, nas atenções que lhe prestaram, bateu-me aos pontos… uma verdadeira vedeta.

O “Vila do Conde” construído em 1955, na Gafanha da Nazaré, no estaleiro de Benjamim Bolais Mónica, teve o bota-abaixo a 25 de Março do mesmo ano, construído para a firma Tavares, Mascarenhas, Neves & Vaz, Lda., com  sede em Ílhavo e no Porto.

Eu ofereci ao navio uma bonita escultura do São Jorge a cavalo, de espada em riste, a lutar contra o dragão, que viajou no navio, na Sala de Oficiais, entre 1956 e 1972, ano em que foi vendido.

A madrinha do “Vila do Conde” ofereceu-lhe uma bonita fotografia sua, de Domingos Alvão, emoldurada, que viajou no navio entre 1955 e 1973, ano em que se afundou.

Não houve grande quórum, mas houve muita conversa, troca de muitas memórias e de muitas fotos.

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Conversa junto à proa do “Faina Maior
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As madrinhas, já de cabelos embranquecidos
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Foto de pormenor…
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Ílhavo, 7 de Maio de 2022

Ana Maria Lopes

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