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quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

António Marques da Silva

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Capitão António Marques da Silva

Partiu um dos últimos e dos Grandes...

António Marques da Silva, grande amigo, filho de Manuel Marques da Silva e de Ana Nunes Pereira da Silva, nasceu na Lapa, em Lisboa, em 23 de Junho de 1931. Casou com Maria Júlia, de cuja união, nasceu o filho João Silva. Seguiu o Curso Geral da Escola Náutica, sendo possuidor da cédula marítima nº 115393, passada pela Capitania do porto de Lisboa, em 13 de Agosto de 1951. Residiu em Caxias, com largas estadias na Gafanha da Nazaré, cada vez mais longas...

O seu primeiro cargo marítimo foi como praticante de piloto, desde Março de 1952 até Fevereiro de 1953, no arrastão lateral, “Santo. André”.

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ArrastãoSanto André

Neste ano de 1953, numa larga emposta, deixou a praça de Aveiro, para a Parceria Geral de Pescarias e passou ao lugre-motor de aço, “Creoula”, em 1953, como piloto e de 1954 a 57, inclusive, como imediato.

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A bordo do lugre motorCreoula

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Numa nova emposta, entre 1958 e 64, inclusive, foi o capitão do lugre-patachoGazela Primeiro”, com muito orgulho.

De saco às costas, mudou para o lugre-motorArgus”, entre 1965 e 68, da mesma empresa, com o cargo de imediato.

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                                 A bordo do "Argus", em 1965

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Terminou a sua carreira na pesca à linha do bacalhau, como capitão do lugre-motorCreoula”, de 1969 até 72, inclusive.

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A bordo do “Creoula”, 1971

Entre 1973 e 1987, andou embarcado em navios da companhia Econave, onde desempenhou funções de comandante em vários navios de carga geral e porta-contentores. Em 1981, acompanhou a execução do projecto e supervisão das obras de recuperação e adaptação do lugre Creoula a navio-escola, obras que acabaram em Agosto de 1987.

Em 1982, foi contratado para professor da disciplina de Marinharia, na Escola Náutica Infante D. Henrique, cargo que exerceu até Janeiro de 1993.

Por limite de idade, aposentou-se, em Janeiro de 2002.

Mas o seu grande trabalho começou a partir daqui, com a sua entrega à escrita e ao modelismo, de uma forma exímia.

Entre os vários livros escritos, salienta-se ”Memória dos Bacalhoeiros – Uma contribuição para a Sua História”, editado pela Editorial Presença, em 1999.

A Comissão Cultural de Marinha deu-lhe ao prelo os livros “A Força do Vento”, “O Pequeno Herói” e “Quem Vai Pró Mar”, repectivamente em 2003, 2004 e 2005.

Em Agosto de 2016, foi editado pela CMI/MMI e AMI o seu livro “Barcos da Ria de Aveiro – Memórias e Modelos”.

Em 18 de Novembro de 2017, foi editado pela CMI/MMI e AMI o seu livro “Traços de Construção Naval em Madeira – Mastreação e Aparelho do Navio”.

Em Novembro de 2021, foi editado pelo Grupo de Amigos e pelo Museu Marítimo de Ílhavo, o seu livro “Navios dos Descobrimentos – Memórias e Modelos”.

Em Agosto de 2024, foi editado pelo Grupo de Amigos do Museu, o seu livro “ Embarcações da nossa Costa – Memórias e Modelos”.

Pelo seu bom préstimo, exímios conhecimentos e extrema habilidade, foi alvo de diversas homenagens, a saber:

Em 2006 foi condecorado pela Marinha de Guerra Portuguesa com a medalha da “Cruz Naval de Primeira Classe”, na cerimónia do Dia da Marinha que teve lugar em Sines a 20 de Maio desse mesmo ano.

Em Dezembro de 2011, foi eleito por unanimidade, membro emérito da Academia de Marinha.

Em Março de 2017, foi homenageado pela Escola Náutica Infante D. Henrique.

Em Abril de 2022, foi entronizado Confrade de Honra pela Confraria do Bacalhau de Ílhavo.

Em Agosto de 2022, foi homenageado pelo MMI. com a abertura de uma exposição temporária da sua colecção de modelos e aprestos de bordo lá depositada.

Em Abril de 2023, foi homenageado pela Câmara Municipal de Ílhavo, com a atribuição da medalha de mérito cultural prateada.

Hoje, dia 2 de Janeiro. com a vetusta idade de 93 anos, partiu para uma viagem sem fim.

Ílhavo, 02 de Janeiro de 2025

Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 8 de março de 2024

Nunca é tarde

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Zé António Paradela

José António Bóia Paradela nasceu em Ílhavo, em 30 de Outubro de 1937, filho de José António Paradela Júnior e de Rosa de Jesus Bóia. Foi casado com Matilde Ventura Nunes Henriques, amor de uma vida.  Adoptaram dois filhos, o Marco e o Jorge.

Subiu a pulso. Foi embarcadiço na pesca do bacalhau, tendo feito uma campanha de moço, em 1955, no navio-motor “Lousado”. Depois, bolseiro da Fundação Gulbenkian, durante cinco anos, formou-se em Arquitetura, na Escola Superior de Belas Artes.

O seu curriculum vasto compreendeu várias disciplinas e tipologias, desde as arquitecturas, especialmente habitação colectiva e equipamentos, ao ordenamento do território e ao planeamento urbanístico. Nesse aspecto, podemos dizer que na ilha da Madeira, teve um papel fundamental.
No planeamento urbanístico, a sua área de trabalho preferida foi o POTRAM (1990) – Plano de Ordenamento Territorial da Região Autónoma da Madeira, em que   coordenou uma vasta equipa pluridisciplinar.

Para Ílhavo, a sua terra natal, fez o projecto dos Paços do Concelho, o Centro Cultural da Gafanha da Nazaré, o edifício antigo dos Bombeiros Voluntários, que adaptou ao Centro de Religiosidade Marítima e o Jardim Henriqueta Maia.

Usava como pseudónimo literário Ábio de Lápara.

Na escrita, deixou-nos dois livros de crónicas e pequenas estórias sobre os lugares onde cresceu e conviveu “Uma Ilha no Nome” e “A Rua Suspensa dos Olhos”, e um livro de textos poéticos, “O Livro das Santinhas de Apegar”.

O Zé António era um homem bom, honesto, culto, sem pretensões e com humor. E a juntar a tudo isto – um grande arquitecto e urbanista. Apresentou-nos, em Ílhavo, com saber e boa vontade o livro “Moliceiros” – A Memória da Ria”, em 2012.

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Apresentação de “Moliceiros – A Memória da Ria”
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Depois de doença prolongada, a que resistiu estoicamente, faleceu em 21 de Fevereiro de 2023, com 85 anos.

A título póstumo, foi-lhe concedida a medalha de ouro, de mérito cultural, em 2023, pela CMI.

Ílhavo, 8 de Março de 2024

Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Album de Navios da Pesca do Bacalhau"

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No passado dia 4 de Fevereiro, a Fundação Gil Eannes deu ao prelo, a obra, “Álbum de Navios da Pesca do Bacalhau”, da autoria do capitão ilhavense João David Batel Marques, integrada nos festejos do resgate dos 25 anos do navio-hospital “Gil Eannes”. Na senda das obras a que já nos tem habituado, este volume pressupõe a mesma qualidade dos anteriores, por fora e por dentro.

De casa cheia, a assistência era 70% de pessoal de Ílhavo. Mais nos valia ter alugado “uma camionete do Charlim” – comentávamos.

Estavam presentes as individualidades habituais da cidade. A apresentação do livro, curta, mas bem conseguida, foi feita pelo amigo e colega do autor, capitão Manuel de Oliveira Martins, que também escreveu o prefácio.

O Amigo João David teceu as considerações que entendeu sobre a obra, chamando a atenção para o título - …Álbum de Navios e não dos Navios, porque apenas foram elencados os navios dos quais foram conseguidas fotografias. Se assim não fosse, teriam sido mais uns trinta ou quarenta.

Teceu uma sucinta, mas completa história da pesca do bacalhau, muito apreciada por todos e também por quem tem um conhecimento mais brando sobre este assunto, destacando datas importantes, que não podem cair no esquecimento.

Dirigiu os agradecimentos às pessoas que mais de perto colaboraram com ele, na feitura desta tarefa gigantesca.

Será sempre uma obra de consulta, todas as vezes necessárias, de modo atraente e rápido.

Parabéns à Fundação Gil Eannes e, sobretudo, ao autor, João David Batel Marques, a quem felicitamos penhoradamente.

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Fotos - gentileza  de Etelvina Almeida

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Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Apresentação de "Tributo a Marítimos de Ílhavo"

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Para mais tarde recordar…

Depois da apresentação no auditório, no dia 7 de Agosto, na sessão do 85º aniversário do Museu, de “Tributo a Marítimos de Ílhavo”, seguiu-se a sessão de autógrafos.

Foi um sacrifício e um prazer… Sacrifício, porque já não tenho muita paciência para escrevinhar tantas dedicatórias e prazer, porque as pessoas, afectuosamente, familiares dos biografados e não só, estiveram, em massa, para obter a sua dedicatória.

Bateu-se um record de vendas, em dia de apresentação – informaram-me.

Algumas imagens:

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Reconhecimento e afecto...- 

Ílhavo, 14 de Setembro de 2022

Ana Maria Lopes

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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Tributo a Marítimos de Ílhavo

 

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Prefácio

O livro Tributo a Marítimos de Ílhavo de Ana Maria Lopes surge-nos passados exatamente cinco anos sobre a edição de Tributo a Capitães de Ílhavo, igualmente no âmbito dum aniversário do Museu Marítimo de Ílhavo, também em data redonda, pelo seu 85º aniversário.

O carinho e interesse com que foi acolhida a edição de 2017 deixou a sensação de que mais cedo ou mais tarde um novo Tributo viria a público. Não que houvesse o propósito ou a vontade de ser totalizante nas biografias a realizar, mas porque o instinto de pesquisa e gosto pela partilha que a autora sempre nos habituou o fazia prever. Os tempos pandémicos desaceleraram o seu trabalho de procura dedicada e sagaz, assim como inibiram a proximidade necessária com os descendentes dos biografados na pesquisa de registos documentais, fotográficos ou memórias familiares. Deu-se o feliz acaso de concluir a última biografia a tempo de assinalar o 85ª aniversário do museu.

Este Tributo a Marítimos de Ílhavo não é meramente uma continuação do primeiro livro, em que as histórias de vida e de família se misturam com a memória da pesca do bacalhau e da comunidade ilhavense. Se o formato biográfico, bem documentado com inúmeras fotografias inéditas, e o estilo memorial, alicerçado em factos históricos, nos levam a crer que sim, o conteúdo atribui-lhe outra dimensão.
Ao biografar outras categorias socioprofissionais da pesca do bacalhau, Ana Maria Lopes contribuiu para a pluralização das memórias da pesca do bacalhau. Às biografias de dezoito saudosos Capitães juntou-lhes mais doze biografias de Motoristas, 1ª Linhas, Cozinheiros, Maquinistas e Contramestres, trinta homens de vocação marítima que contribuíram para a história da pesca do bacalhau e para afirmação da comunidade, caracterizando Ílhavo como terra de Capitães, mas sobretudo como terra de gentes do mar.

Este Tributo a Marítimos de Ílhavo vem enfatizar a noção de que a pesca do bacalhau foi e é feita de pessoas e que conhecê-las e dar-lhes voz é a melhor forma de contribuir para o conhecimento desta atividade de contornos épicos.

O Portal Homens e Navios do Bacalhau é a expressão máxima deste desígnio, onde se quer que todos estejam representados, relacionados e valorizados na sua individualidade, procurando que as memórias pessoais contribuam para a história comum. O portal não é um mero repositório de dados históricos ou socioprofissionais. O portal é a ferramenta ideal para que o tipo de trabalho que Ana Maria Lopes aqui nos apresenta, sobre um lote circunscrito de homens, ganhe outra forma e dimensão. Nele podem ser inseridas biografias, memórias de família, registos documentais e fotográficos. No fundo, o grande tributo dos que andaram ao bacalhau.

Por fim, felicito a Dra. Ana Maria Lopes, por mais esta empreitada, que amavelmente me convidou para escrever o prefácio, e de ter confiado ao Museu Marítimo de Ílhavo a edição deste livro e a possibilidade de continuar a contribuir para um conhecimento mais profundo sobre a história e a memória da pesca do bacalhau. Agradeço-lhe os projetos que valorizaram e ajudaram a divulgar as culturas marítimas e sobretudo o empenho e carinho que tem pelo nosso Museu.

 

Nuno Miguel Costa

Coordenador da Direção do Museu Marítimo de Ílhavo

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quinta-feira, 25 de novembro de 2021

E assim "partiu" o Tibério Paradela...

 


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Libânio Tibério Boia Paradela, filho de José António Paradela e de Rosa de Jesus Boia, nasceu em Ílhavo, na Rua de Alqueidão, em 9 de Julho de 1940.

Possuidor da cédula marítima nº 115.820, passada pela Capitania do porto de Lisboa, em 29 de Dezembro de 1960, foi Homem do Mar. Além de, na safra de 1962, ter sido praticante de piloto no arrastão “Santa Mafalda” , foi de imediato com o Capitão António Pascoal, no navio-motor “Novos Mares”, nas campanhas de 62, 63 e 64. Filmei essa entrada na barra e foi aí que conheci o Tibério.

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Botes empilhados   no “Novos Marres”
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Foi casado com Maria Elisabete (Betinha) Barata de Matos Moreira, de cuja união nasceram os filhos Ana Margarida e José António Barata Moreira Paradela.

Andou pelas Àfricas, sempre, Homem de Mar. Nunca tive grande contacto com ele, mas, de Verão, na Costa Nova, passava de bicicleta, quase diariamente, para o encontro dos “ílhavos” no café Atlântida.

Era este o Tibério que conheci, sorridente, solidário e bem-disposto. Pertencente ao Club dos Lions de Ílhavo, socializava. Hábil na escrita, foi colaborador do jornal “O Ilhavense”. Tentou outros voos difíceis, e deu ao prelo no Verão de 2014, o romance ficcionado “Neste Mar É Sempre Inverno”, apresentado no CVCN.

Já que ainda participou, como imediato, na pesca nos botes, gostava de saber como sentira esse tempo. Embora não concordasse com alguns aspectos apresentados, deparei-me, ao lê-lo, com vários excertos de uma bela prosa.

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Sessão de autógrafos
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No último Verão, um ar débil tomou conta dele e, de problema em problema, assim “partiu”, ontem, 24 de Novembro de 2021, com 81 anos, para essa viagem “sem retorno”. Esperemos que seja por um mar calmo, já que ele o amava.

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Ílhavo, 25 de Novembro de 2021

Ana Maia Lopes

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O litoral e eu, para desanuviar...

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O litoral e eu temos uma história de vida…

Desde moçoila que o palmilhar as praias piscatórias marítimas, se revelou, para mim, uma delícia. O mar, na sua imensidão, em tons de azul e espuma branca, enrolava-se e espraiava-se na areia cálida e macia, num vaivém constante e sempre surpreendente.

Os cenários eram deslumbrantes a qualquer hora. Desde o alvorecer ao anoitecer, homens e mulheres em alarido, guiavam bois, ajudavam barcos a varar, remendavam redes, corriam com cabos às costas, enquanto, à margem, se faziam lanços no areal cálido e amplo.

Dirão…ou pensarão: convenceu-se que conhece alguma coisa de marítimo e que apanhou essa paixão pelas embarcações tradicionais assim sem mais nem menos. Não foi moda, não. Nem delírio. Também não. Foi gosto, dedicação, observação e estudo.

Finalista de Filologia Românica na UC, defendia a tese "O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos", quando a vida me desafiou para mudar e, de solteira, passar a casada, tomando outro rumo familiar.

Sucedeu que a dita "lua-de-mel" foi feita litoral abaixo, entre Cascais, Sesimbra e baía da Baleeira, passeando mesmo até ao sotavento algarvio.

Palmilhávamos as praias, calcorreávamos areais, sentávamo-nos em rochas. Eu, alcandorada, em embarcações, adorava assistir directamente na beira-mar às lotas de peixe prateado e saltitante. O movimento, o alarido, o colorido, o vaivém de barcos e artes entontecia-me apaixonadamente.

Pelos anos 60, continuava o estertor das embarcações tradicionais e da navegação à vela, a que fui assistindo com alguma mágoa. Mas todo aquele movimento, essa balbúrdia, esse bulício, momentos de extrema beleza, ficaram no meu gosto pelo «marítimo».

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Em Sesimbra. A lota do peixe-espada, na praia. 1965

 

Ao final da tarde, o peixe prateado estrebuchava na areia, no estertor da morte. Vários lanços decorriam em simultâneo, enquanto aiolas se aquietavam em terra e chatas, grosseiras e pesadonas regressavam ao mar prateado…

Anotei, apontei, fotografei, escrevinhei, voltei várias vezes a vários pontos litorâneos, sempre numa perspectiva etno-linguística, até que em 1971, a tese ficou pronta.

Estas imagens dos anos 60 falam mais do que «mil palavras».

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P. de Varzim. Barquinhos com murejonas

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Embarcações diversas na praia da Nazaré

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Barco do mar na Caparica

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 Sines. Lota na praia

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Albufeira. Vai um bote à água

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Lancha da sacada. Albufeira

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Monumental calão. Quarteira
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O gosto não esmoreceu. Bem pelo contrário.

Pelos anos 80, visitei todos os locais já então percorridos, para fazer uma avaliação entre o que a história tinha feito desaparecer e o que ainda perdurava. Esta comparação gorou as minhas expectativas, quanto ao que ainda havia de tradição.

No primeiro decénio deste século XXI, eis-me de novo ao terreno, de norte a sul do país. E o resultado foi o livro “REGRESSO AO LITORAL”, dado ao prelo pela Comissão Cultural de Marinha, em 2008, que muito me orgulhou.

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O tempo foi passando, as embarcações tradicionais e as minhas forças atingiram o seu crepúsculo. Poderia ter sido um pouco antes, mas considero que ainda o fiz a tempo de me ter deixado a alma cheia.

Hoje, nem de longe nem de perto teria forças e ânimo para fazer o que fiz. A idade não perdoa.

Neste primeiro dia de Quaresma, acinzentado e frouxo, desiludida e cansada, apenas poderei  escrever de mim e para mim, recordando o "tal passado à beira-mar"

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Ílhavo, 17 de Fevereiro de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 17 de março de 2020

"Apelos do Passado" apresentado no Museu Marítimo de Ílhavo



A obra “Apelos do Passado” de Valdemar Aveiro foi apresentada no Museu Marítimo de Ílhavo, no passado dia 6, perante uma assistência significativa, que “diz muito” ao autor. Coube a Álvaro Garrido, antigo director e consultor da unidade museológica ilhavense e novo director da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, apresentar a obra.
Este, que é o sétimo livro do autor, tem cerca de cerca de 100 páginas, com breve glossário, dado ao prelo pela Âncora Editora.
É uma obra, sobretudo autobiográfica, que se baseia em factos vividos de uma forma aleatória, quer nas ondas do mar quer em terra lhana, entrecortados por sonos, sonhos e deambulações diversas.
Nascido em Ílhavo, homem de 85 anos, gosta de viver de pé, colaborando ainda hoje com a administração da Empresa de Pescas de S. Jacinto, despois da convalescença de uma grave doença vivida após a sua última viagem em 1988, como capitão “do seu navio” – o arrastão Coimbra.
Tendo conhecido o sabor salgado do mar, apenas com 16 anos como moço de lugre-motor Viriato em 1951, subiu na vida a pulso e depois do Curso de Oficial da Marinha Mercante, na Escola Náutica, em Lisboa, comandou homens e arrastões, confessando com orgulho, que apenas serviu duas empresas, a Empresa de Pesca de Aveiro (EPA) e a Empresa de Pescas de São Jacinto, tecendo os maiores elogios aos seus armadores, respectivamente, Sr. Egas Salgueiro e Dr. Domingos Vaz Pais, já “ausentes”, mas que nunca esquecerá.
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É um livro forte, em que o autor evoca a sua vida de marinheiro entre vagas alterosas, tempestades, growlers e icebergs, de que sente saudades e lembra a doçura de uma criança acabada de nascer, ao compará-la com os novos tempos, que não sabemos para onde nos catapultam. É um livro amargurado, com um tom desencantado do mundo em que vivemos.
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Foto de Etelvina Almeida
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Ílhavo, 17 de Março de 2020
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Ana Maria Lopes-

domingo, 16 de fevereiro de 2020

" ÍLHAVO - Ensaio Monográfico - Séc. X ao Séc XX"


“ÍLHAVO – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX”
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Senos da Fonseca
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3ª edição
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Esgotadas as edições anteriores, o autor julgou chegado o momento de reformular, revendo e aumentando o conteúdo do “ÍLHAVO – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX", livro com que o autor pretende precisar uma história, contado passo a passo o percurso desde o nascimento, a evolução económica e social da comunidade ilhavense, para lá de outras referências de interesse para memória futura.
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Tão pormenorizada e documentada, quanto o permitem os documentos que anexa, (disponibilizando-os assim), a obra procura justificar no seu todo, a singular diferenciação (que perdurou até há bem pouco) entre as duas comunidades que lhe deram identificação singular: a dos lavradores acantonados lá no cimo do agregado, e os pescadores dispersos pela beira da ria, acovilhados nos becos tão característicos…
Partindo da afirmação da villa como agregado populacional, identificando em pormenor o historial dos seus donatários, o livro aborda os primeiros tempos ao encontro do Foral Manuelino que a identifica, define e inscreve na história pátria. Segue cronologicamente até à grande crise lagunar, abordando o modo singular como “os ílhavos” procuraram no litoral a sobrevivência. Deixando um rasto inapagável, afirmada nos saberes que transmitiram passo a passo, praia a praia, transmitindo a singularidade de uma cultura diferente. Única!
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Insere o livro, o panorama social e económico, apontando profissões, rendimentos e ofícios que deram a forma, a Ílhavo, de comunidade (já) evoluída, de referência. Aborda o papel marcante dos “ílhavos mareantes”, participantes maiores da faina maior dos bacalhaus, importante para o esforço do país em minorar a sua dependência do estrangeiro.
Não deixa o livro de referenciar a extraordinária geração que, na transição do século, se distinguiu por obras e feitos ou distinção intelectual.
O livro – de 600 páginas, contendo referências históricas e fac-similes de documentos – encerra com um mapa referência que recolhe em datas os principais pontos do historial de Ílhavo.
Encontra-se, para venda, na livraria do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), na livraria Leya, no Clube de Vela da Costa Nova (CVCN) e outros locais a designar.
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Ílhavo, 10 de Fevereiro de 2020
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Ana Maria Lopes-


domingo, 22 de abril de 2018

Curiosidades - O Mar de Sines


Na última sexta-feira, assisti no MMI, integrado no Mar Film Festival, a um documentário extraordinário sobre o Mar de Sines – A resiliência das gentes do mar. Confesso que gostei. Relevava as «artes» de pesca tradicionais de que eu tinha conhecimento existirem em Sines. Sempre as observei do lado de terra, enquanto que, no documentário também me era dado observá-las, em acção, no interior da embarcação, o que completava a minha visão. Algumas delas:  caixote do aparelho de anzóis e a sua preparação, a rede do tresmalho, a rede de cerco, o alcatruz para o polvo, a penosa arte de mariscador, a descarga de peixe, sobre os antigos chapéus de lata, a venda em lota, no areal, a toneira para a lula, o chinchorro, os covos já de plástico, e outras, que não memorizei. Todas me eram familiares, tendo gostado de as ver ao vivo, bem como o amor ao mar, manifestado em entrevista, por quem as praticava.
Curioso é que, há uns três anos, recebera um pedido, por e-mail, de um realizador de Sines, Diogo Vilhena, para utilização do livro de que sou co-autora, Faina Maior – A Pescado Bacalhau nos Mares da Terra Nova, encontrado nas mãos de pessoa ainda entre nós, que se identificara numa fotografia, neste livro, que, em primeira edição (Quetzal, 1996) lhe havia sido oferecido por pessoa amiga. Claro que autorizei. Além de outras imagens que tive o prazer de rever no filme, esta era a principal, o dono do livro e protagonista na imagem.
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Imagem 76, do espólio de Francisco Marques

O jovem moço que sustentava o gigantesco bacalhau é João da Silva Faria, nascido em 19 de Novembro de 1931, em Sines, moço, nas campanhas de 1951 1952, no lugre Labrador – assim testemunha a ficha do Grémio. Que coincidência e como o mundo é pequeno. Tudo batia certo.
Cerca de três dias, antes da exibição do documentário em Ílhavo, recebi o gentil convite do produtor António Campos, para estar presente, se possível, à sua exibição. E estive.
No final, entabulou-se entre nós uma agradável conversa sobre as artes tradicionais, que conhecera na minha estadia em Sines, nos anos sessenta, em pesquisa para a minha tese de licenciatura, O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterrarreísmos, que tiveram o prazer de folhear e levar. As imagens desse tempo manifestaram-se, para eles, uma raridade. Outro projecto teriam em vista, para as quais poderiam ser muito úteis. Possivelmente, a seu tempo, conversaremos, de novo. E assim foi o encontro de gentes de Sines, em Ílhavo.
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Botes em Sines. Anos 60
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Sines. Lota no areal.
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Ílhavo, 22 de Abril de 2018
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Ana Maria Lopes
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