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domingo, 22 de dezembro de 2024

Conto de Natal - o milagre na companha

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Anteontem, fui à Costa Nova, buscar a minha prenda de Natal de Senos da Fonseca. Como se pressupõe, foi um Conto de Natal por ele escrito.

À noite, li-o e reli-o e pensei:

Conto curtinho, narrado com uma prosa expressiva e malandreca, muito ao jeito do autor.

Quem não conhecer o calão dos “ílhavos” , o seu linguajar e alguma terminologia marítima, não entende metade. Recontando-o:

Em dia de temporal, o meia-lua, na praia, não conseguia ir ao mar e, nem que se aventurasse a ir, a rede vinha esgalmida de peixe.

O mulherio, na praia, via os seus homes partir em busca de sustento, ou na apanha de batatas pelas Galafanhas, ou de pinhas e lenha, que vendiam pelas portas da vila e outros, pelo contrário, gastando os últimos patacos, a escorropichar uns copos, encostados ao balcão das tascas.

Na praia, o meia-lua e o mulherio, só. Assim, não governavam vida. Decidiram ir ao mar. Mulherio, havia. E arrais? Bateram á porta do “Ti Noé”, velhote de 80 anos, que convidaram para tal. Até o levavam ao colo, colo esse que era mais macio que as ondas do mar. O cheiro do mulherio sabia-lhe a guloseima e lá foi.

Entretanto, o autor lança mão de comparações e metáforas, a das cócegas ao remo (ui!), a do furacão do Toino em cima da mulher, esfomeado de ternuras, depois de uma viagem ao bacalhau e outras… , que o lápis azul não deixaria passar.

As cachopas, apressadas, lá saltaram para dentro do barco, quando a Micas, grávida, com um barrigão, prestes a romper as águas, endiabrada, também embarcou. Como que por milagre, o mar aquietara-se e até cheirava a peixe.

Ao som do puxa…puxa, dirigido ao remo, a Micas, prenha, ao ouvir esta ordem, dá um grito e o “Ti Noé” olha-lhe para os pés, onde vê uma poça de sangue, donde saíam os berros de uma criança. Saca do canivete, limpa-o à camiseta, e com ele corta a imbide, que o unia à mãe. Lava o menino nas águas do mar, que, por milagre, ficara morna. Senta-se no cagarete, com ele, embrulhado na camisa, logo baptizado, de Jesus “das Águas”.

Já tinham feito o cerco, faltava, apenas, levar a “mão da barca”, à praia.

Quando se aperceberam que a rede vinha pesada – uma sacada com peixe vivinho no estertor da morte – observaram o milagre do peixe! O “Ti Noé”, com o mesmo canivete   que usara, no parto, corta o porfio do saco da rede. Que fartura, que dádiva da natureza – outro milagre! As mulheres ergueram os braços ao céu, em sinal de agradecimento.

E o menino, o Jesus “das Águas”, esse, lourinho e de olhos azuis da cor do mar, como que nada tendo a ver com o milagre, sorri-se.

Assim, recriei o conto, resumindo-o, para um leitor vulgar.  Este passará nos traços da censura, decerto.

AML. 2024.

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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

"Filinto - O poeta amargurado", no palco da CCI, esgotou a lotação

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Segundo o Diário de Aveiro de 2.2.2016, há 8 anos, foi perante uma casa cheia, ao final da tarde, que o Grupo de Teatro Ribalta estreou a peça «Filinto – O Poeta Amargurado». O espectáculo, que decorreu na Casa da Cultura de Ílhavo (CCI) e que é baseado num texto da autoria de Senos da Fonseca, surpreendeu o público presente, que reivindica, agora, por novas apresentações, noutras localidades da região ou do país.

A peça, que retrata a vida de Filinto Elísio – um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português e com raízes em Ílhavo (filho de pais ilhavenses) – contou com encenação de José Júlio Fino e subiu ao palco com o apoio da Junta de Freguesia de São Salvador.

Considero que as expectativas foram alcançadas, uma vez que já há agora muita gente a saber quem foi Filinto Elísio, destacou o autor Senos da Fonseca, depois da estreia da peça – não obstante o mérito das suas obras, o poeta foi caindo no esquecimento. Foi bonito o esforço de todos e a encenação foi excelente, frisou ainda o autor do texto, a propósito do trabalho conseguido pela equipa do grupo Ribalta.

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Esta imagem de uns carinhosos ílhavos seduziu-me…

E encantou-me…

Desde que conheci a peça de teatro, já pelo Verão de 2014, relativa à biografia de Filinto, manifestei uma especial predilecção pela jovialidade, pelo carinho, pelo romantismo, pela coragem das personagens deste I acto e pela linguagem extremamente bem utilizada, relativamente às manobras que conduziram o jovem par, numa singela bateira, até Lisboa, à procura de vida melhor e numa tentativa de se «pisgar» de Ílhavo, dada a gravidez prematura da Maria Manuel. Esta, saltitante, meiga e enamorada, abraçada ao pescoço do Manuel Simões, seu amado, saltitava entre a preocupação e a satisfação da vida que tinha dentro de si.

Com o amadurecimento nas subsequentes leituras, fui encontrando outras belezas textuais e interpretativas nos outros dois actos, correspondentes a fases distintas na vida do amargurado poeta.

Depois do segundo acto, todo palaciano e bem conseguido, pareceu-me que o terceiro se tornou um pouco mais pesado, apesar de surgirem uns laivos de comicidade, resultante da interpretação adequada de algumas personagens, que, intencionalmente, atenuavam a dureza do contexto.

Resultou muito bem a economia cénica de meios, como convinha, com a sobriedade e ligeireza com que os diversos cenários foram mudados.

O efeito de som e luzes também se tornou extremamente agradável ao olhar e ouvir dos espectadores, embevecidos e esforçados para captar o mais possível do espectáculo, em silêncio, entrecortado por aplausos.

O guarda-roupa, na sua simplicidade, mas bem adaptado à época e condição social das diversas personagens, esteve perfeito, bem como a maquilhagem.

Os artistas, além de amadores, jogaram «sem rede», pois o palco não tinha ponto e o texto, na sua diversidade, não era fácil.

O que achei menos bom foi a definição e o vigor de algumas vozes, por condição, sobretudo, femininas, que não estavam direccionadas para a plateia, como a encenação exigiria.

E onde foi mais notório este aspecto, pelo menos, tendo em conta a minha localização na sala, foi no I Acto. Mas, não foi por isso que desgostei menos dele.

Um par enamorado, apaixonado, perante uma gravidez anunciada, não grita, não clama, mas sussurra ternamente, numa voz doce e melíflua.

Crítica construtiva, como deve ser a de professora, que sempre me acompanha, além de outras profissões que fui tendo pela vida fora.

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Ílhavo, 2 de Fevereiro de 2016/2024

 

Ana Maria Lopes


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

A "estória da Joana Labrega"

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Dos Postais da CASA do BICO que Senos da Fonseca tem escrevinhado, no blogue Terra da Lâmpada, não há dúvida que, para mim, o último, que relata um parto improvisado a bordo de uma bateira labrega, seduziu-me mais profundamente. Todos eles têm o seu atractivo, porque relatam histórias ficcionadas entre figuras características da Costa Nova, que, por sua vez, lhe são hipoteticamente relatadas pela Zefa e pela Bernarda, em encontros de passeios matinais.

Elogio no autor, a capacidade criativa, a preocupação do registo dos nossos regionalismos, em contexto, bem como o entusiasmo com que nos brinda com os seus relatos.

No entanto, a «estória» do parto da Joana Labrega fascinou-me demais …Porquê?

Por ter a ria como cenário, a bordo de uma bateira labrega, de vela bastarda, com toldo espalmado (pata de rã)?

Por registar os tais regionalismos (vertedouro, escalamãos (escalamões), saltadouro, castelo da proa, traste, orça, etc.), sobretudo, de cariz marítimo?

Por nos contar um parto improvisado, o desabrochar de uma vida, com toda a sua emoção?

Eu, que assisti a partos e, principalmente, fui mãe, sem os artifícios que envolvem os partos actuais, pensei, depois de ter acabado de ler a história:

 – há cinquenta e 4 anos, quase que preferia ter parido a bordo de uma labrega que numa «cama de bilros», de pau-santo.

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E fiquei ferrada naquele pensamento!!!!!!!!!! que navegou comigo até de manhã. Que beleza!

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Ílhavo, 23 de Dezembro de 2020

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AMLopes

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domingo, 16 de fevereiro de 2020

" ÍLHAVO - Ensaio Monográfico - Séc. X ao Séc XX"


“ÍLHAVO – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX”
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Senos da Fonseca
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3ª edição
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Esgotadas as edições anteriores, o autor julgou chegado o momento de reformular, revendo e aumentando o conteúdo do “ÍLHAVO – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX", livro com que o autor pretende precisar uma história, contado passo a passo o percurso desde o nascimento, a evolução económica e social da comunidade ilhavense, para lá de outras referências de interesse para memória futura.
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Tão pormenorizada e documentada, quanto o permitem os documentos que anexa, (disponibilizando-os assim), a obra procura justificar no seu todo, a singular diferenciação (que perdurou até há bem pouco) entre as duas comunidades que lhe deram identificação singular: a dos lavradores acantonados lá no cimo do agregado, e os pescadores dispersos pela beira da ria, acovilhados nos becos tão característicos…
Partindo da afirmação da villa como agregado populacional, identificando em pormenor o historial dos seus donatários, o livro aborda os primeiros tempos ao encontro do Foral Manuelino que a identifica, define e inscreve na história pátria. Segue cronologicamente até à grande crise lagunar, abordando o modo singular como “os ílhavos” procuraram no litoral a sobrevivência. Deixando um rasto inapagável, afirmada nos saberes que transmitiram passo a passo, praia a praia, transmitindo a singularidade de uma cultura diferente. Única!
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Insere o livro, o panorama social e económico, apontando profissões, rendimentos e ofícios que deram a forma, a Ílhavo, de comunidade (já) evoluída, de referência. Aborda o papel marcante dos “ílhavos mareantes”, participantes maiores da faina maior dos bacalhaus, importante para o esforço do país em minorar a sua dependência do estrangeiro.
Não deixa o livro de referenciar a extraordinária geração que, na transição do século, se distinguiu por obras e feitos ou distinção intelectual.
O livro – de 600 páginas, contendo referências históricas e fac-similes de documentos – encerra com um mapa referência que recolhe em datas os principais pontos do historial de Ílhavo.
Encontra-se, para venda, na livraria do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), na livraria Leya, no Clube de Vela da Costa Nova (CVCN) e outros locais a designar.
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Ílhavo, 10 de Fevereiro de 2020
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Ana Maria Lopes-


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

«Filinto - O Poeta amargurado», no palco do CCI, esgotou a lotação

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Segundo o Diário de Aveiro de hoje (2.2.2016) foi perante uma casa cheia, ao final da tarde do passado domingo, que o Grupo de Teatro Ribalta estreou a peça «Filinto – O Poeta Amargurado». O espectáculo, que decorreu no Centro Cultural de Ílhavo (CCI) e que é baseado num texto da autoria de Senos da Fonseca, surpreendeu o público presente, que reivindica, agora, por novas apresentações, noutras localidades da região ou do país.
A peça, que retrata a vida de Filinto Elísio – um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português e com raízes em Ílhavo (filho de pais ilhavenses) – contou com encenação de José Júlio Fino e subiu ao palco com o apoio da Junta de Freguesia de São Salvador.
Considero que as expectativas foram alcançadas, uma vez que já há agora muita gente a saber quem foi Filinto Elísio, destacou o autor Senos da Fonseca, depois da estreia da peça – não obstante o mérito das suas obras, o poeta foi caindo no esquecimento. Foi bonito o esforço de todos e a encenação foi excelente, frisou ainda o autor do texto, a propósito do trabalho conseguido pela equipa do grupo Ribalta.
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Esta imagem de uns carinhosos ílhavos seduziu-me…
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E encantou-me…
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Desde que conheci a peça de teatro, já pelo Verão de 2014, relativa à biografia de Filinto, manifestei uma especial predilecção pela jovialidade, pelo carinho, pelo romantismo, pela coragem das personagens deste I acto e pela linguagem extremamente bem utilizada, relativamente às manobras que conduziram o jovem par, numa singela bateira, até Lisboa, à procura de vida melhor e numa tentativa de se «pisgar» de Ílhavo, dada a gravidez prematura da Maria Manuel. Esta, saltitante, meiga e enamorada, abraçada ao pescoço do Manuel Simões, seu amado, saltitava entre a preocupação e a satisfação da vida que tinha dentro de si.
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Com o amadurecimento nas subsequentes leituras, fui encontrando outras belezas textuais e interpretativas nos outros dois actos, correspondentes a fases distintas na vida do amargurado poeta.
Depois do segundo acto, todo palaciano e bem conseguido, pareceu-me que o terceiro se tornou um pouco mais pesado, apesar de surgirem uns laivos de comicidade, resultante da interpretação adequada de algumas personagens, que, intencionalmente, atenuavam a dureza do contexto.
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Resultou muito bem a economia cénica de meios, como convinha, com a sobriedade e ligeireza com que os diversos cenários foram mudados.
O efeito de som e luzes também se tornou extremamente agradável ao olhar e ouvir dos espectadores, embevecidos e esforçados para captar o mais possível do espectáculo, em silêncio, entrecortado por aplausos
O guarda-roupa, na sua simplicidade, mas bem adaptado à época e condição social das diversas personagens, esteve perfeito, bem como a maquilhagem.
Os artistas, além de amadores, jogaram «sem rede», pois o palco não tinha ponto e o texto, na sua diversidade, não era fácil.
O que achei menos bom foi a definição e o vigor de algumas vozes, por condição, sobretudo, femininas, que não estavam direccionadas para a plateia, como a encenação exigiria.
E onde foi mais notório este aspecto, pelo menos, tendo em conta a minha localização na sala, foi no I Acto. Mas, não foi por isso que desgostei menos dele.
Um par enamorado, apaixonado, perante uma gravidez anunciada, não grita, não clama, mas sussurra ternamente, numa voz doce e melíflua.
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Apreciação construtiva, como deve ser a de professora, que sempre me acompanha, além de outras profissões que fui tendo pela vida fora.
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Ílhavo, 2 de Fevereiro de 2016
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Ana Maria Lopes

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

«Filinto - O Poeta Amargurado»

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No próximo dia 16 de Janeiro, pelas 16 horas, a Professora Dr.ª Rita Marnoto da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra apresentará o livro Filinto – O Poeta Amargurado de Senos da Fonseca, no Salão da Junta de Freguesia de São Salvador, em Ílhavo.
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Há mais de dez anos que ouço, entre outros temas que lhe teriam sido mais caros, Senos da Fonseca falar de Filinto Elísio. Com razões para sabermos de quem falávamos, a maior parte dos ilhavenses desconhecerá a figura de Filinto.
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Com este livro, passará a conhecê-lo melhor – primeiro, porque foi «um dos nossos», um ílhavo, gerado no nosso rincão e levado, por mar até Lisboa, onde nasceu. Segundo, porque, embora um arcádico não muito conhecido, foi um grande poeta.
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Alguns dos nossos maiores autores como Garrett, Eça, Castilho e outros renderam a este poeta oitocentista, pouco estudado e pouco conhecido, como já referimos, rasgados encómios. Foi um purista do século XVIII, este Filinto, ligando mais às palavras e à construção sintáxica mais importância que às ideias e sentimentos, segundo Eça.
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A biografia do poeta amargurado de SF não é simplesmente a sucessão de notas biográficas de Filinto, mas surge-nos, formalmente, como peça de teatro a levar à cena, no dia 31 de Janeiro, pelo grupo de teatro amador ilhavense – «A Ribalta», no Centro Cultural de Ílhavo, pelas 17 horas.
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Ílhavo, 14 de Janeiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Convite EMBARCAÇÕES LAGUNARES

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De degrau em degrau, vamos subindo ou descendo, no tempo?
Convite
 
Será que tem verso e reverso?
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Parece que sim, mas só para alguns, por causa da crise.
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Será o Arquitecto Carlos Carvalho a apresentar EMBARCAÇÕES LAGUNARES – Bateiras & Artes, Tomo II, de Senos da Fonseca., no próximo dia 18, sábado, pelas 16 h e 30, no MMI.
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Fiquei muito satisfeita ao saber que irei ouvir o meu caro Amigo Carlos Carvalho a falar de embarcações tradicionais, por o rever, para variar e pelo que ele sabe do assunto, que é bastante.
Caramba! Até me levantei para catrapiscar, mas nem uma bateira avisto. Só, ao longe, «uma chata esverdeada» das modernas.
Costa Nova, 8 de Julho de 2015
Ana Maria Lopes

sábado, 4 de julho de 2015

EMBARCAÇÕES LAGUNARES - Bateiras & Artes

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EMBARCAÇÕES LAGUNARES
 
Bateiras & Artes
 
Tomo II
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O Autor, João Fonseca, pelo FB., convidou-nos, para a apresentação do seu novo livro, EMBARCAÇÕES LAGUNARES – Bateiras & Artes, Tomo II, no dia 18 de Julho, no auditório do MMI, pelas 16 h e trinta.
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Sinceramente, um «pouco de suspense» não faz mal a ninguém, mas, muito francamente, não sei como se vai processar o evento. É hábito anunciar. Aguardemos. A seu tempo, saberemos.
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Parece-me que estas bateiras ainda vão fazer correr muita «água», no bom sentido, admitindo que corre para o mesmo lado, apenas com uma contracorrente, de vez em quando, que até faz bem para retemperar.
Exactamente o que acontece com as Artes; umas colocam-se a favor da corrente, outras são do contra e exigem o «contrauga». Terão tempo de aprender se estudarem bem a lição…coisas da nossa ria. Estou ansiosa por pegar em tal livro, saboreá-lo à minha vontade, virá-lo e revirá-lo a meu gosto, observar-lhe os defeitos e as virtudes, que serão muito mais pelo que já conheço dele.
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Ílhavo, 4 de Julho de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 7 de junho de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

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(Cont).
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Segunda singularidade:
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Surpreendeu-me positivamente, quando me apercebi por onde queria ir a «A Janela para o Sal» …
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O livro tem uma particularidade que passará certamente despercebida ao leitor comum. É escrito no presente – como se a safra fosse hoje, ainda como se descreve.
Historicamente errado, que poderia, se levado à letra, destruir todo o trabalho. Mas perceptível.
O livro nasce, na realidade, de um convite feito à co-autora Etelvina. Levando-o a um passado já distante, um passado em que foram feitos os registos da Ana e do filho Paulo. É pois a história vista num passado, transmitida, relatada, num presente qualquer. Uma espécie de crónica real…
Não deixando de fazer a via-sacra do escoar das comedorias, ao estranger, do imoirar à botadela o léxico está presente qb. Não podia deixar de estar. Léxico imaterial rico, que foge a definições mais detalhadas. Sem perder tempo nos descritivos alongados da definição técnica, para aqui despropositada.
Assim, parece-me desde já ser possível, dizer que os três co-autores souberam conciliar e verter para obra, com conta peso e medida, cada um, de per si, os particulares atributos, individuais. Diria, com particular equilíbrio. Every one has is place... ou mais trivial Chacun  à sa place ..... E são a meu ver: o rigor da observação, registo e tratamento de Ana Maria; a beleza poética da descritiva de Etelvina Almeida (uma apaixonada das funduras da laguna e dos relevos humanos – e não humanos que a povoam); a retina selectiva de Paulo Godinho, na escolha e transferência para o duradouro, do que entreviu no momento. O resultado final, acabado de sair do forno e agora deposto em vossos regaços, é... porque foi  assim  que deliberadamente se quis,  não um trabalho  técnico mas uma sucinta monografia sobre a safra do sal na ria, apoiada numa recolha imagética e num estudo de campo, como bem esclarecem  os autores. Uma obra diferente que acrescenta frescura ao tema e enaltece o homem, sublinham, como que a dizer-nos ao que vieram... Confirmamo-lo em absoluto. Final conseguido.
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E assim cada imagem que fixa o humano na paisagem circundante, deixa de ser apenas entusiasmante para uma apreciação sensorial do olhar deslumbrado. Logo em paralelo, reforçando-a, sublinhando-a ou matrizando-a, corre um dorido, poético e choroso texto. Que a explica, reforça e lhe recupera os pormenores do milagre que permite à natureza imitar o milagre isabelino, ao perguntar à Ria – o que trazes no teu seio?... e esta a responder: – flores de Sal, Senhor.
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A natureza ofereceu o meio.
Ao princípio pareceu molhado demais para ser acolhedor. E de noite sob o prateado de uma lua cheia embolada, parecia não haver sequer fantasma, nele a bulir. E de som apenas se ouvia, de onde a onde, um choro de pio perdido de gaivota grazina, chorando na margem a sua desdita.
Mas logo o homem se lhe atirou afadigado, agradecendo a dádiva. Rapou de um imaginativo compasso, sobraçou no olhar esbelta régua, e logo se atirou a riscar as águas azuis, metendo-a em viveiros, algibés, caldeiras, talhos e cabeceiras, onde se espreguiçam num azul soluçante que, inquietado pela aragem, cintila, parecendo invadido por milhões de cus de lume incendiados pela torreira.
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Essa figura humana, o primeiro da cronologia humana lagunar, é o marnoto. O decano das labutas lagunares, duradouras. Aquela que serviu de plinto ao Homem que, atraído pelas promessas entrevistas, se alapou, célere, nas suas margens. Abrigado em ocres tugúrios das ruindades da natureza agreste, que foram brotando das lamas secas, enegrecidas, depressa tornadas terras de viço.
Dele bem se poderá dizer: ao princípio era o marnoto!!!
E assim começaria a história até que a página foi encerrada, já lá vão quase três boas dezenas de anos.
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Meus senhores Minhas senhoras: Amigos
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O presente trabalho é guarida segura para memória futura. Para lembrar o arquétipo humano, através do qual os deuses imateriais concederam a feitura do sal, «nativo e factício», como o designou, Plínio «O Velho». Quando no séc. II dC, por estas bandas deambulou, em trabalho de campo, a recolher elementos para a sua «História Natural».
E the last but not the least: uma outra singularidade…
As autoras não irão certamente corar… Falamos de janelas e eu espreitei. E o que vi?
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Este livro feito por duas mulheres que qualquer leitura permitirá dizer-se «muito interessantes», tem, a dada altura, uns laivos de erotismo. Sugerido nas páginas em que esboça o perfil do moço lagunar. Mostrado de calções, sem outro sudário que não seja a pele, a cobri-lo. Ei-lo desnudo qb, e logo as autoras parecem deslumbradas:
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Quase nu,… eis o moço do Sal, de corpo esbelto e pele bronzeada. Os seus músculos retesam ao longo da íngreme subida...elegante e sereno no caminhar... o corpo moldado à canastra.
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E continuam as autoras na luxuosa descrição:
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Sob intenso sol esse homem musculado, exala e escorre suor e moira....que se colam sobre o peito molhado e salgado.... (a)pele dura gretada.... deixa antever longo curtir que lhe rouba anos de delicadeza... A todo o tempo ele transpira...sal.
A janela passa rapidamente a buraco de fechadura para uma espécie de cândido  voyeurismo...
E o moço de marnoto, surge na «Janela para o Sal», como um Adónis mitológico, divindade de vida-morte-renascimento, ele mesmo, aqui, mito do ciclo anual da produção do sal: a sua «afrodite» com quem escolhe(ia) conviver meses de cio salgado. Corpos de beleza masculina excelsa, talhados na perfeição dos mitos, a que a exsudação copiosa concede um brilho de virilidade entrevista...
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Meus Senhores, minhas Senhoras, Amigos:
Caros Autores:
A Ana costuma temer a severidade das minhas apreciações.
Pode aqui ficar descansada. Ela esteve certa; eu estive errado. Mas em boa verdade, a Ana esteve certa: porque acreditou e teimou levar por diante algo, onde eu não consegui ver interesse.
Voltando a António Vieira, o Sal de que a Ana queria falar é o sal da salga.
O saído de uma hipotética feitura minha, talvez não o fosse (!). O pregador (eu) quereria fazer uma coisa, mas no fim, faria outra. A cada um, o seu sal, pois…
A Ana esteve certa e feliz, porque comigo nunca esta obra atingiria o mérito que lhe reconheço.
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A estimada e estreante Etelvina, por quem nutro grande simpatia e apreço, foi the right womam, for the right job... Conferiu uma beleza poética a uma amargurada tarefa. Não é fácil...
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Bem: do Paulo Godinho, que um dia, ainda rapazito imberbe, apareceu em minha casa a vender um excelente vídeo de sua autoria (e de Rui Bela), direi que fiquei, já então, aí, na certeza que havia muito a esperar (dos dois). Mas a vida «oblige»...e o fotógrafo teve de dar lugar ao óptimo profissional, que sei o Paulo ser.
Olhe Paulo: não gosto (já!) de dar conselhos aos mais jovens. Se o pudesse fazer dizia-lhe: guarde lá para o fim, como eu fiz, tempo suficiente para trabalhar no seu hobbie. Vai ver que vai muito a tempo...
A todos os meus parabéns.
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Senos da Fonseca, 16 de Maio de 2015
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Imagens de Paulo Mendes e de Teresa Soares (assinadas)
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Ílhavo, 7 de Junho de 2015
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AML
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domingo, 31 de maio de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

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Há textos que gostamos de guardar, partilhar e exibir no Marintimidades. E este, com que o Amigo Senos da Fonseca nos brindou na apresentação do nosso último livro, no MMI, é um deles. A saber:
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De Sal, pouco conhecimento tenho para além do seu ajuste ao tempero. Dizem ter mão pitosa.
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O sal materializado ou imaterializado, está permanentemente na vida de cada um. Alguém que ame sem sal qb, não ama: vive de tédio. Alguém que sonhe sem sal qb, não sonha: vive na glória da desilusão…
Ai de quem não dê pela sua presença. Sal da vida, sal da alma, sal dos olhos. Sem o sal qb, não há objectividade no sentir, não há clareza no mundo externo.
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De sal, observo as doutas palavras desse príncipe de letras portuguesas: – Padre António Vieira. Há sal que não salga…
Ou porque o sal não salga; ou porque a terra não se deixa salgar, ou porque quem prega diz uma coisa e faz outra.
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Haveria, pois, mil e uma maneiras de abordar ao que vim…ora o que me foi pedido é bem mais simples.
Do sal que salga mesmo…
Mas, lembrei-me, então…
Certo (e quem sabe ter sido esse o motivo) ter em tempo publicado o título «O Homem e o Sal». E aí ter dito (permitam-me citar o dito, que fez parte de setenta títulos publicados).
(…) Há vários milhares de anos, caíram as janelas do Palácio do Céu… Ficaram intactas as vidraças nos respectivos caixilhos, porque as janelas caíram sobre o terreno macio. Hoje são as salinas… (Almada Negreiros)
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O Homem aqui venceu…
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Delas disse Unamuno: são, de facto, como que exemplares de uma espécie, em outras partes, já extinta.
Seja qual for o motivo por que estou aqui a perorar, espero não vos maçar.
Entremos, pois, na curiosa história de «A Janela para o Sal».
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Aqui há uns anos, não muitos, a Ana Maria cirandou em minha volta quando me fazia companhia para os minhas inquirições do livro Bateiras & Artes, tentando-me engajar para um plano conjunto, de trabalho sobre o Sal.
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Era minha opinião: sobre o sal e a sua feitura, do ponto de vista técnico, era matéria esgotada. Depois de o nosso conterrâneo, Manuel da Maia Alcoforado, ter publicado o seu rigoroso tratado sobre o ouro branco retirado da Laguna de Aveiro.
Do sal, tempero de vitualha, procurado desde a mais longínqua e profunda noite dos tempos, para simples sobrevivência, ou tempero de povos mais adocicados, celebrado por reis, consagrado aos deuses, credor de vassalagem de povos e imperadores antiguidade.
Sobre o Sal, outros trabalhos (livros e álbuns) foram sendo por aqui publicados. Parecia-me (a mim!), pois, esgotado o filão salícola para o prelo. Como morta estava desde há muito a sua produção por estas bandas. O Sal desde o século passado desapareceu na planície alagada lagunar; que não da nossa mesa, vindo de outras paragens onde a extracção dispensa o esforço braçal humano. E onde a máquina, substituiu o ugalho; e o comboio, o burrico do almocreve: o saleiro, logo na pia baptismal, ajoujado de sal – não o da sabedoria, mas o do carrego. 
Do Sal, da sua dorida e suada feitura, pouco mais resta que a lembrança registada em esses inúmeros trabalhos, alguns já repetitivos, já gastos ao nascer para o relembrar. Mas, sim! – é verdade. Há a Troncalhada, Marinha- museu para o mostrar aos turistas. Ao longo do tempo recuperou-se o léxico decalcado da «bíblia» de Maia Alcoforado; métodos e glossário, quase sempre, pouco ou nada acompanhados do exercício de um metódico trabalho de campo.
E aqui faço um parêntesis, para me dirigir às autoras; o glossário n’ «A Janela para o Sal» contradiz a intenção de que falaremos adiante. Era perfeitamente dispensável (em nossa opinião).
Outros livros dados à estampa, insistiram nas fotos «mudas», quase sempre bem felizes – é facto – pois as cãs e as rugas provocadas pela desaforada faina salícola, a isso bem se prestam. Mas de todo pobres no texto que não ultrapassa a simples legenda.
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Ao meu desinteresse, a Ana não desistiu.
E ainda bem...Como lhe costumo dizer: ouve o que Te digo, mas não faças o que Te digo... Hoje, constato, o SAL, foi nela motivação obsessiva, motivação que teria de ser cumprida. Como o fazer (?!)..., creio, ser essa a sua dificuldade.
Tinha consigo um fantástico acervo fotográfico (que seu filho então um jovem entusiasta do registo na caixa impressiva, acompanhante da mãe nas deambulações pelo salgado lagunar, fixou com mestria). Hoje aqui bem patente. Fotografias onde os artifícios hoje permitidos pelos hi-techs digitais, ainda não existiam. Fixadas nos velhos diapositivos, sem acesso a photoshopadas que hoje permitem inserir um pôr de sol em dia tristonho, uma alegoria de estranhos tons, numa exultante sinfonia de cor roubada às quatro estações de Vivaldi. Ana Maria era fiel depositária desse minucioso espólio – um tipo de herança a funcionar ao contrário – sem dúvida lauto e esgotante cardápio de momentos escolhidos, fixados para perdurar (ou renascer, um dia, como foi aqui o caso). Descritivo em imagens, «vitualhas», que marcam cada momento alto do bodo sensorial que é a fazedura da marinha, por entre perfumadas maresias de flores silvestres a povoarem os ares, desde o nascer do sol até ao encharcado crepúsculo nocturno.
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Um belo dia chegou-se e deu-me conta:
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  Já arranjei companheira de jorna: – a Etelvina...
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E, passo a passo, fui acompanhando o início do escufenar da marinha, o risco dos vieiros, depois a entre safra...as molhaduras, e a botadela etc, etc.
Rapidamente me dei conta de que o trabalho ganhara um cariz muito diferente do modo como até aqui se tinha falado do sal. O trabalho da parelha (duo) Ana/ Etelvina, tinha escolhido, não o Sal como figuração central do seu livrinho, mas sim, fixado e eleito, o marnoto, como figura central da dorida feitura do sal. E deu a este quase todas as páginas. O trabalho (hoje aqui livro) ganhou justificadas alvíssaras, pelo profundo humanismo que espelha.
Uma apreciação mais cuidada permitiu-me verificar 3 ou 4 singularidades que afastam «As Janelas» do que foi feito até aqui. Note-se, não estou a dizer para melhor, mas diferente. E isso é bastante para merecer elogio.
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Primeira singularidade:
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A começar pelas imagens, e a prolongar-se num texto que está lá, para as servir. E não como habitualmente, ao contrário. Creio não me enganar se disser que alinhadas antes de tudo, as imagens, catalogadas de acordo com os pontos marcantes da safra, só depois se contextualizaram as mesmas. O texto não é pois uma descrição consecutiva. Corre como de acordo com a imagem. Com liberdade diria: estamos perante uma banda desenhada poética. O que por norma é, exactamente, o contrário, do que é costume fazer nestes trabalhos.
E conta-nos, gota a gota o desalmado bulício do marnoto.
Não me afasto muito da escriba, se o descrever a meu jeito:
Logo que a ria punha a descoberto uma ruga, logo ele se lhe atirava sob torreira que lhe ressumava o rosto em bagas de suor salgado. Pernas de ceroulas enroladas, camisa arregaçada até aos sovacos, atira-se, sol a despontar, a um bulir esfalfante. Figura central dos clichés (na sua quase totalidade) este era o irredutível marnoto... Que só tem medo que amanhã, numa volta de vento, imprevisível, o céu, em vez de lhe cair em cima – coisa habitual do seu dia-a-dia – comece a chorar copiosamente. E lá vai a sua esfalfadela. Quase que me atreveria a dizer: a janela do livro por onde somos convidados a espreitar, com um certo pudor, centra-se e elege como a figura suada, por vezes quase mortificada. Um dos demiurgos lagunares: o criador do sal. Que sem sudário que lhe acalme a aspereza da torreira do vento aquilão (o seu sudário é a sua pele brochada pelo iodado braseiro que o fustiga), leva a canastra ao calvário. Que é aqui o cone alvo do malhadal...
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(Cont).
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quarta-feira, 13 de maio de 2015

UMA JANELA PARA O SAL

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No próximo sábado, dia 16 de Maio, pelas 18 horas, integrado nas comemorações do Dia Internacional dos Museus, a Alêtheia Editores convida-vos para o lançamento do livro Uma Janela para o Sal com texto de Ana Maria Lopes e Etelvina Almeida e fotografia de Paulo Godinho.
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A obra será apresentada por Senos da Fonseca.  

Convite

Referem as autoras, na contracapa do livro, em sinopse:
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E finalmente, se abre uma janela para o sal...
Fruto de um antigo propósito, o de trazer à luz e à escrita um acervo de imagens das salinas, recolhidas nos anos 80, alusivas a um património que se tem vindo a extinguir, repescaram-se apontamentos não só imagéticos, mas também escritos e confirmados no local, que agora renascem das lamas negras das marinhas e dos brancos cristais desses tempos, trazendo a saudade e o labor de outras fainas.
E assim se retomou a «safra» e se verteu sobre o papel a escrita que os aguardava. E, a outros olhos, outros pensares, em duplo sentir, suavemente se foi tecendo homenagem a uma profissão, actividade e tradição, a do marnoto, que já morre na alma de muitos, porque os que a lembram já poucos são.
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Trata-se de um património que faz parte da identidade de uma região que bem aconchegava esta actividade no seu seio, tal foi a sua importância desde sempre.
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Acompanhou-se, registou-se, descreveu-se e contou-se, «cantando» e exaltando o homem do sal, que foi, é, e será o único sabedor e conhecedor de tão árduo trabalho, o de amanhar a marinha, desde a rudeza à beleza do sal.
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Com a percepção de que se trata de uma maneira diferente de abordar o sal lagunar, com alguns laivos poéticos, fomos escrevendo esta pequena monografia Uma Janela para o Sal, acrescentando frescura ao tema e enaltecendo o Homem, o território lagunar e as marinhas. É aprazível, esclarecedora e sedutora, quer para um leitor conhecedor, quer para um leitor interessado.

Capa do livro


Amigos/as, compareçam no Museu Marítimo de Ílhavo, para darem uma espreitadela para o sal. Não se arrependerão.

Ílhavo, 13 de Maio de 2015

Ana Maria Lopes
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