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sábado, 22 de agosto de 2015

E ainda... «Uma Janela para o Sal»

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Porque gostei muito e quase me chocou, alguns respigues do discurso de Álvaro Garrido, na apresentação de «Uma janela para o Sal» na antiga Capitania de Aveiro, que consegui através da Rádio Terra Nova:
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«(…) É um texto poético, ela (Ana Maria Lopes) diz e teima que este é o derradeiro livro, mas, eu há pouco, disse-lhe que seria o derradeiro antes do próximo, certamente, será. Nós sabemos que ela é assim.
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É um livro poético feito de imagens, honra ao Paulo Godinho, também feito na altura certa.
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A Dra. Ana Maria Lopes tem um talento especial para captar as coisas no momento final em que elas podem ser captadas e isto significa uma elevadíssima consciência patrimonial, ou seja, um apurado sentido de declínio da memória e das identidades e, não é por acaso, que o Paulo guardou estas imagens em «slides» desde os anos 80, e, se elas não fossem dos anos oitenta, como disse o Sr. Vereador, não eram tão expressivas das lides do sal, da safra do sal e tão evocativas e exaltantes para evocar os heróis que aqui desfilam que são as figuras sociais às quais nós rendemos homenagem – o marnoto, o moço, o barqueiro, basicamente, o MARNOTO, figurante de todos os outros.»
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O discurso do apresentador foi forte. Calou-me bem fundo, na altura em que falou na escola de Coimbra, «Palavras e Coisas», defendida pelo Professor Paiva Boléo, Catedrático de Filologia Românica, que tanto influenciou a minha formação. Senti-me, no momento, com 18 anos, então, sua aluna e sua fiel seguidora, como sempre fui, até hoje.
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Aveiro, 4 de Junho de 2015
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Álvaro Garrido
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domingo, 26 de julho de 2015

Apresentação do livro «Uma Janela para o Sal», na Murtosa

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Estão quase a terminar as actividades do mês de Julho, em que intervenho mais directamente. Já não é sem tempo.
A Alêtheia Editores, a Câmara Municipal da Murtosa e os autores convidam-no/a a participar na apresentação do livro «Uma Janela para o Sal», no auditório da COMUR - Museu Municipal da Murtosa, integrada na programação da «Semana do Emigrante 2015», pelas 21 h e 30, do próximo dia 29, quarta-feira.
Senos da Fonseca apresenta o livro e momentos musicais relacionados com a ria abrilhantam e animam  a sessão. Outros palcos, para variar.
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Ana Maria Lopes
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domingo, 21 de junho de 2015

«Oratória» sobre «Uma Janela para o Sal»

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Nada como registar «a oratória», mesmo a minha, no «Marintimidades». Local sagrado!... para mim…
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Caros /as Amigos/as:
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Na vida, é adágio popular dizer-se que se deve plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Imbuída pelo gosto de meu pai, plantei umas arvorezitas. Relativamente a filhos, até fiz dois, que, hoje, são o meu suporte e o meu orgulho. Escrever, ou melhor, escrevinhar, entre folhas de sala, catálogos, brochuras e livros, já lá vão alguns.
Mas cada um tem uma histórica.
Quase todos de pesquisa etno-marítima, e/ou etno-linguística, por minha formação, roçando quase a antropologia, também vivem muito da imagem, que considero indispensável neste tipo de trabalhos.
Livro, livro, propriamente dito, acho que começa a ser uma boa altura de este ser o derradeiro.
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Umas brochuras, uns artigos para revistas da especialidade, uns posts para o famoso Marintimidades, fá-lo-ei até que a voz me doa e já começo a enrouquecer, com facilidade.
São o meu meio, o meu mundo, o que me entusiasmou, na vida – foi o litoral deste país, de norte a sul e, mais tarde, as embarcações lagunares, por empatia e vizinhança geográfica.
Não é obrigatório verter o saber em livro, mas não há nada como deixar escrita a nossa perspectiva. Há várias maneiras de tratar um assunto. De degrau em degrau, chega-se, por vezes, a uma suposta verdade…
Do Vocabulário Marítimo, à Faina Maior (em co-autoria), aos Moliceiros, ao Regresso ao Litoral, às Bateiras da Ria de Aveiro – Memórias e Modelos (em co-autoria), continuei a olhar para as bateiras e seus processos de pesca que sempre me fascinaram, se bem que manifeste mais um fraquinho pelas embarcações. Por aqui residente, era natural que a nossa ria, que sempre me atraiu, me atraísse, agora, de uma maneira diferente, mais amadurecida. Olhares mais sólidos, consistentes e mais vividos…
Discussões salutares que mais tarde dão frutos e nos conduzem a uma suposta solução.

 
Com o SAL, tudo foi diferente, mas afim.
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Depois do meu filho Miguel ter captado, nos anos 80, as imagens para Moliceiros – A Memória da Ria, fê-lo, de igual modo, com a minha colaboração e orientação durante uma safra de sal, desde os trabalhos preparatórios até ao final, ao devolver o sal de uma marinha, em saleiro, para o canal de S. Roque.
Visavam as imagens e as pesquisas, a feitura de um livro que o trabalho de direcção do Museu de Ílhavo interrompeu. E assim, ficaram acondicionados os diapositivos, em abundância e as cassettes de som com as entrevistas a moços e marnotos, em fita ainda magnetofónica.
Outras vidas, outras andanças, outras procuras pelas últimas empresas de pesca deste país de tal modo que o sal teve de ficar em banho-maria.
Foi uma pesquisa de sacrifício, esta, com imagens contínuas em cerca de 30 marinhas, embora sempre procurássemos as de mais fácil acesso. Fainas matutinas, esfriadas, pinos do sol crestados, enfim, de morrer…neblinas, nevoeiros, que, nuns casos facilitavam a recolha de imagens, noutras, nem por isso.
É o tempo atmosférico um dos principais mandadores na produção salícola… e esse nem sempre estava a jeito.
Todo este material foi ficando e sempre que lhe pegava, a falta de tempo impedia-me de avançar.
Muita água passou por baixo das pontes e o número de marinhas cada vez ia diminuindo mais.
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Mesmo depois de ter deixado a direcção do museu, fiz vários trabalhos e colaborei noutros. Mas o SAL empedrava…empedernia…
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Não tinha quem me incentivasse, muito pelo contrário. Seria sempre um livro com muita imagem, e sei bem como são, as dificuldades económicas, sobretudo a nível gráfico.
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O tempo de trabalhar com o filhote, hoje, um homem, já passara. Outros tempos… Lancei pontes e uni gerações. Acho importante tentar fazer escola e criar, desenvolver o gosto noutras pessoas. Numas, pegará, noutras, nem por isso. Tenta-se.

Mas, há sempre um mas.
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Há uma boa meia dúzia de anos conheci no museu, a Etelvina, entendemo-nos bem, dei-lhe umas dicas para a tese de mestrado que trazia em mãos com o tema Embarcações tradicionais da Ria de Aveiro, uma análise pelo Design, e, ao poucos foi-se fortalecendo entre nós, uma amizade, apoiada por alguns interesses comuns, cruzamento de saberes, cruzamento de idades, de geração.

 
Há cerca de uns 4 anos, visitei, de novo, o Sr. João Banca da marinha Troncalhada, para que me ajudasse a avivar a memória relativamente às imagens captadas nos anos 80, bem como o Felisberto Fortes, que, entretanto, já não está entre nós. E ingressei pela meia dúzia de marinhas que sobrava, sozinha. Quarenta e tal anos de idade não são sessenta e tal e chegava cansadíssima a casa. Ai, o sal, o sal, que me fazia a alma negra, tal como aos salgadores do bacalhau.
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O trabalho de campo é muito cansativo e os anos passam e deixam marcas.
Se eu tenho um conhecimento técnico, qb, já de longe, pelo muito que calcorreei marinhas, e a Etelvina tem uma fluência frásica de cariz poético, e que tal, se nos juntássemos e aos poucos, fôssemos produzindo um texto a 4 mãos, em leve dueto, em que o Marnoto fosse o rei da ria? Descrever, «cantando», imagens já com uma três dezenas de anos…
O trabalho na marinha é duro, cansativo, repetitivo, porque o processo é mesmo esse.
Cansa um leitor pela monotonia, que se encanta com o processo, mas, só de vez em quando, espreitando. E para nosso mal, está mais do que em vias de extinção. Até eu, também estou… Marcas do tempo… E tenho uma tendência e um gosto terríveis por fixar e reter assuntos que sinto e pressinto que estão para acabar. É o que tenho praticado.
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Mas o SAL continuava-me atravessado na garganta, qual espeto, salgando-a demais. Fiz uma proposta à Etelvina e ela gostou do projecto. Primeiro, seduzi-a, com aquelas imagens que achava mais fortes e, posteriormente, disse-lhe o que pensava para o género de texto.
E arrancámos, também para a «nossa safra», nas ditas «terças-feiras no museu», onde trabalhávamos, sem que nem uma mosca nos pudesse interromper o processo.
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Passado cerca de um ano e meio, estava pronto. O Miguel ia-nos, por vezes, enviando umas dicas – afinal, sem estas imagens não teria havido este livro.

 
E agora? Nada como um livrinho em estilo panorâmico, fácil de ler e reler, de ver e rever, ao colo, como merece, com carinho, em deslumbramento de um desejo alcançado.
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Lembrei-me, numa tarde de domingo outonal, que havia uma promessa da (Alêtheia Editores), na pessoa de Zita Seabra que há uns anos me disse, – talvez ainda venhamos a trabalhar juntas – ela que nos deu ao prelo «dos primeiros livros de grande memória», ainda noutra editora, lançados neste Museu, nos anos 90.
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E a Zita gostou do ficheiro enviado, texto e imagens. Outro projecto, outro sonho a concretizar, desta vez para os co-autores – a Etelvina, o Paulo e eu.
Não foi nada fácil. A partir de aqui, nós, os intervenientes, sabemos as vias-sacras por que passámos.
Mas vencemos e «Uma Janela para o Sal» pode, hoje, ser lido e apreciado no regaço. O Sal saiu da gaveta e da garganta, tal qual como foi registado. Não empederniu, nem liquidificou.
Um grande agradecimento a muitos (não vou elencar), ou melhor, a todos quantos trouxeram uma pedrinha de sal para o monte.
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E aos Amigos que cá vieram ouvir-nos, transmitir-nos aquele calor humano, que sempre faz falta, em ocasiões destas, o nosso grande agradecimento.
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Fotografias – Teresa Soares (assinada), MEPC e Paulo Mendes.
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Ílhavo,16 de Maio/ Aveiro, 4 de Junho de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 7 de junho de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

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(Cont).
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Segunda singularidade:
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Surpreendeu-me positivamente, quando me apercebi por onde queria ir a «A Janela para o Sal» …
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O livro tem uma particularidade que passará certamente despercebida ao leitor comum. É escrito no presente – como se a safra fosse hoje, ainda como se descreve.
Historicamente errado, que poderia, se levado à letra, destruir todo o trabalho. Mas perceptível.
O livro nasce, na realidade, de um convite feito à co-autora Etelvina. Levando-o a um passado já distante, um passado em que foram feitos os registos da Ana e do filho Paulo. É pois a história vista num passado, transmitida, relatada, num presente qualquer. Uma espécie de crónica real…
Não deixando de fazer a via-sacra do escoar das comedorias, ao estranger, do imoirar à botadela o léxico está presente qb. Não podia deixar de estar. Léxico imaterial rico, que foge a definições mais detalhadas. Sem perder tempo nos descritivos alongados da definição técnica, para aqui despropositada.
Assim, parece-me desde já ser possível, dizer que os três co-autores souberam conciliar e verter para obra, com conta peso e medida, cada um, de per si, os particulares atributos, individuais. Diria, com particular equilíbrio. Every one has is place... ou mais trivial Chacun  à sa place ..... E são a meu ver: o rigor da observação, registo e tratamento de Ana Maria; a beleza poética da descritiva de Etelvina Almeida (uma apaixonada das funduras da laguna e dos relevos humanos – e não humanos que a povoam); a retina selectiva de Paulo Godinho, na escolha e transferência para o duradouro, do que entreviu no momento. O resultado final, acabado de sair do forno e agora deposto em vossos regaços, é... porque foi  assim  que deliberadamente se quis,  não um trabalho  técnico mas uma sucinta monografia sobre a safra do sal na ria, apoiada numa recolha imagética e num estudo de campo, como bem esclarecem  os autores. Uma obra diferente que acrescenta frescura ao tema e enaltece o homem, sublinham, como que a dizer-nos ao que vieram... Confirmamo-lo em absoluto. Final conseguido.
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E assim cada imagem que fixa o humano na paisagem circundante, deixa de ser apenas entusiasmante para uma apreciação sensorial do olhar deslumbrado. Logo em paralelo, reforçando-a, sublinhando-a ou matrizando-a, corre um dorido, poético e choroso texto. Que a explica, reforça e lhe recupera os pormenores do milagre que permite à natureza imitar o milagre isabelino, ao perguntar à Ria – o que trazes no teu seio?... e esta a responder: – flores de Sal, Senhor.
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A natureza ofereceu o meio.
Ao princípio pareceu molhado demais para ser acolhedor. E de noite sob o prateado de uma lua cheia embolada, parecia não haver sequer fantasma, nele a bulir. E de som apenas se ouvia, de onde a onde, um choro de pio perdido de gaivota grazina, chorando na margem a sua desdita.
Mas logo o homem se lhe atirou afadigado, agradecendo a dádiva. Rapou de um imaginativo compasso, sobraçou no olhar esbelta régua, e logo se atirou a riscar as águas azuis, metendo-a em viveiros, algibés, caldeiras, talhos e cabeceiras, onde se espreguiçam num azul soluçante que, inquietado pela aragem, cintila, parecendo invadido por milhões de cus de lume incendiados pela torreira.
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Essa figura humana, o primeiro da cronologia humana lagunar, é o marnoto. O decano das labutas lagunares, duradouras. Aquela que serviu de plinto ao Homem que, atraído pelas promessas entrevistas, se alapou, célere, nas suas margens. Abrigado em ocres tugúrios das ruindades da natureza agreste, que foram brotando das lamas secas, enegrecidas, depressa tornadas terras de viço.
Dele bem se poderá dizer: ao princípio era o marnoto!!!
E assim começaria a história até que a página foi encerrada, já lá vão quase três boas dezenas de anos.
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Meus senhores Minhas senhoras: Amigos
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O presente trabalho é guarida segura para memória futura. Para lembrar o arquétipo humano, através do qual os deuses imateriais concederam a feitura do sal, «nativo e factício», como o designou, Plínio «O Velho». Quando no séc. II dC, por estas bandas deambulou, em trabalho de campo, a recolher elementos para a sua «História Natural».
E the last but not the least: uma outra singularidade…
As autoras não irão certamente corar… Falamos de janelas e eu espreitei. E o que vi?
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Este livro feito por duas mulheres que qualquer leitura permitirá dizer-se «muito interessantes», tem, a dada altura, uns laivos de erotismo. Sugerido nas páginas em que esboça o perfil do moço lagunar. Mostrado de calções, sem outro sudário que não seja a pele, a cobri-lo. Ei-lo desnudo qb, e logo as autoras parecem deslumbradas:
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Quase nu,… eis o moço do Sal, de corpo esbelto e pele bronzeada. Os seus músculos retesam ao longo da íngreme subida...elegante e sereno no caminhar... o corpo moldado à canastra.
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E continuam as autoras na luxuosa descrição:
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Sob intenso sol esse homem musculado, exala e escorre suor e moira....que se colam sobre o peito molhado e salgado.... (a)pele dura gretada.... deixa antever longo curtir que lhe rouba anos de delicadeza... A todo o tempo ele transpira...sal.
A janela passa rapidamente a buraco de fechadura para uma espécie de cândido  voyeurismo...
E o moço de marnoto, surge na «Janela para o Sal», como um Adónis mitológico, divindade de vida-morte-renascimento, ele mesmo, aqui, mito do ciclo anual da produção do sal: a sua «afrodite» com quem escolhe(ia) conviver meses de cio salgado. Corpos de beleza masculina excelsa, talhados na perfeição dos mitos, a que a exsudação copiosa concede um brilho de virilidade entrevista...
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Meus Senhores, minhas Senhoras, Amigos:
Caros Autores:
A Ana costuma temer a severidade das minhas apreciações.
Pode aqui ficar descansada. Ela esteve certa; eu estive errado. Mas em boa verdade, a Ana esteve certa: porque acreditou e teimou levar por diante algo, onde eu não consegui ver interesse.
Voltando a António Vieira, o Sal de que a Ana queria falar é o sal da salga.
O saído de uma hipotética feitura minha, talvez não o fosse (!). O pregador (eu) quereria fazer uma coisa, mas no fim, faria outra. A cada um, o seu sal, pois…
A Ana esteve certa e feliz, porque comigo nunca esta obra atingiria o mérito que lhe reconheço.
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A estimada e estreante Etelvina, por quem nutro grande simpatia e apreço, foi the right womam, for the right job... Conferiu uma beleza poética a uma amargurada tarefa. Não é fácil...
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Bem: do Paulo Godinho, que um dia, ainda rapazito imberbe, apareceu em minha casa a vender um excelente vídeo de sua autoria (e de Rui Bela), direi que fiquei, já então, aí, na certeza que havia muito a esperar (dos dois). Mas a vida «oblige»...e o fotógrafo teve de dar lugar ao óptimo profissional, que sei o Paulo ser.
Olhe Paulo: não gosto (já!) de dar conselhos aos mais jovens. Se o pudesse fazer dizia-lhe: guarde lá para o fim, como eu fiz, tempo suficiente para trabalhar no seu hobbie. Vai ver que vai muito a tempo...
A todos os meus parabéns.
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Senos da Fonseca, 16 de Maio de 2015
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Imagens de Paulo Mendes e de Teresa Soares (assinadas)
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Ílhavo, 7 de Junho de 2015
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AML
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domingo, 31 de maio de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

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Há textos que gostamos de guardar, partilhar e exibir no Marintimidades. E este, com que o Amigo Senos da Fonseca nos brindou na apresentação do nosso último livro, no MMI, é um deles. A saber:
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De Sal, pouco conhecimento tenho para além do seu ajuste ao tempero. Dizem ter mão pitosa.
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O sal materializado ou imaterializado, está permanentemente na vida de cada um. Alguém que ame sem sal qb, não ama: vive de tédio. Alguém que sonhe sem sal qb, não sonha: vive na glória da desilusão…
Ai de quem não dê pela sua presença. Sal da vida, sal da alma, sal dos olhos. Sem o sal qb, não há objectividade no sentir, não há clareza no mundo externo.
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De sal, observo as doutas palavras desse príncipe de letras portuguesas: – Padre António Vieira. Há sal que não salga…
Ou porque o sal não salga; ou porque a terra não se deixa salgar, ou porque quem prega diz uma coisa e faz outra.
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Haveria, pois, mil e uma maneiras de abordar ao que vim…ora o que me foi pedido é bem mais simples.
Do sal que salga mesmo…
Mas, lembrei-me, então…
Certo (e quem sabe ter sido esse o motivo) ter em tempo publicado o título «O Homem e o Sal». E aí ter dito (permitam-me citar o dito, que fez parte de setenta títulos publicados).
(…) Há vários milhares de anos, caíram as janelas do Palácio do Céu… Ficaram intactas as vidraças nos respectivos caixilhos, porque as janelas caíram sobre o terreno macio. Hoje são as salinas… (Almada Negreiros)
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O Homem aqui venceu…
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Delas disse Unamuno: são, de facto, como que exemplares de uma espécie, em outras partes, já extinta.
Seja qual for o motivo por que estou aqui a perorar, espero não vos maçar.
Entremos, pois, na curiosa história de «A Janela para o Sal».
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Aqui há uns anos, não muitos, a Ana Maria cirandou em minha volta quando me fazia companhia para os minhas inquirições do livro Bateiras & Artes, tentando-me engajar para um plano conjunto, de trabalho sobre o Sal.
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Era minha opinião: sobre o sal e a sua feitura, do ponto de vista técnico, era matéria esgotada. Depois de o nosso conterrâneo, Manuel da Maia Alcoforado, ter publicado o seu rigoroso tratado sobre o ouro branco retirado da Laguna de Aveiro.
Do sal, tempero de vitualha, procurado desde a mais longínqua e profunda noite dos tempos, para simples sobrevivência, ou tempero de povos mais adocicados, celebrado por reis, consagrado aos deuses, credor de vassalagem de povos e imperadores antiguidade.
Sobre o Sal, outros trabalhos (livros e álbuns) foram sendo por aqui publicados. Parecia-me (a mim!), pois, esgotado o filão salícola para o prelo. Como morta estava desde há muito a sua produção por estas bandas. O Sal desde o século passado desapareceu na planície alagada lagunar; que não da nossa mesa, vindo de outras paragens onde a extracção dispensa o esforço braçal humano. E onde a máquina, substituiu o ugalho; e o comboio, o burrico do almocreve: o saleiro, logo na pia baptismal, ajoujado de sal – não o da sabedoria, mas o do carrego. 
Do Sal, da sua dorida e suada feitura, pouco mais resta que a lembrança registada em esses inúmeros trabalhos, alguns já repetitivos, já gastos ao nascer para o relembrar. Mas, sim! – é verdade. Há a Troncalhada, Marinha- museu para o mostrar aos turistas. Ao longo do tempo recuperou-se o léxico decalcado da «bíblia» de Maia Alcoforado; métodos e glossário, quase sempre, pouco ou nada acompanhados do exercício de um metódico trabalho de campo.
E aqui faço um parêntesis, para me dirigir às autoras; o glossário n’ «A Janela para o Sal» contradiz a intenção de que falaremos adiante. Era perfeitamente dispensável (em nossa opinião).
Outros livros dados à estampa, insistiram nas fotos «mudas», quase sempre bem felizes – é facto – pois as cãs e as rugas provocadas pela desaforada faina salícola, a isso bem se prestam. Mas de todo pobres no texto que não ultrapassa a simples legenda.
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Ao meu desinteresse, a Ana não desistiu.
E ainda bem...Como lhe costumo dizer: ouve o que Te digo, mas não faças o que Te digo... Hoje, constato, o SAL, foi nela motivação obsessiva, motivação que teria de ser cumprida. Como o fazer (?!)..., creio, ser essa a sua dificuldade.
Tinha consigo um fantástico acervo fotográfico (que seu filho então um jovem entusiasta do registo na caixa impressiva, acompanhante da mãe nas deambulações pelo salgado lagunar, fixou com mestria). Hoje aqui bem patente. Fotografias onde os artifícios hoje permitidos pelos hi-techs digitais, ainda não existiam. Fixadas nos velhos diapositivos, sem acesso a photoshopadas que hoje permitem inserir um pôr de sol em dia tristonho, uma alegoria de estranhos tons, numa exultante sinfonia de cor roubada às quatro estações de Vivaldi. Ana Maria era fiel depositária desse minucioso espólio – um tipo de herança a funcionar ao contrário – sem dúvida lauto e esgotante cardápio de momentos escolhidos, fixados para perdurar (ou renascer, um dia, como foi aqui o caso). Descritivo em imagens, «vitualhas», que marcam cada momento alto do bodo sensorial que é a fazedura da marinha, por entre perfumadas maresias de flores silvestres a povoarem os ares, desde o nascer do sol até ao encharcado crepúsculo nocturno.
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Um belo dia chegou-se e deu-me conta:
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  Já arranjei companheira de jorna: – a Etelvina...
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E, passo a passo, fui acompanhando o início do escufenar da marinha, o risco dos vieiros, depois a entre safra...as molhaduras, e a botadela etc, etc.
Rapidamente me dei conta de que o trabalho ganhara um cariz muito diferente do modo como até aqui se tinha falado do sal. O trabalho da parelha (duo) Ana/ Etelvina, tinha escolhido, não o Sal como figuração central do seu livrinho, mas sim, fixado e eleito, o marnoto, como figura central da dorida feitura do sal. E deu a este quase todas as páginas. O trabalho (hoje aqui livro) ganhou justificadas alvíssaras, pelo profundo humanismo que espelha.
Uma apreciação mais cuidada permitiu-me verificar 3 ou 4 singularidades que afastam «As Janelas» do que foi feito até aqui. Note-se, não estou a dizer para melhor, mas diferente. E isso é bastante para merecer elogio.
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Primeira singularidade:
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A começar pelas imagens, e a prolongar-se num texto que está lá, para as servir. E não como habitualmente, ao contrário. Creio não me enganar se disser que alinhadas antes de tudo, as imagens, catalogadas de acordo com os pontos marcantes da safra, só depois se contextualizaram as mesmas. O texto não é pois uma descrição consecutiva. Corre como de acordo com a imagem. Com liberdade diria: estamos perante uma banda desenhada poética. O que por norma é, exactamente, o contrário, do que é costume fazer nestes trabalhos.
E conta-nos, gota a gota o desalmado bulício do marnoto.
Não me afasto muito da escriba, se o descrever a meu jeito:
Logo que a ria punha a descoberto uma ruga, logo ele se lhe atirava sob torreira que lhe ressumava o rosto em bagas de suor salgado. Pernas de ceroulas enroladas, camisa arregaçada até aos sovacos, atira-se, sol a despontar, a um bulir esfalfante. Figura central dos clichés (na sua quase totalidade) este era o irredutível marnoto... Que só tem medo que amanhã, numa volta de vento, imprevisível, o céu, em vez de lhe cair em cima – coisa habitual do seu dia-a-dia – comece a chorar copiosamente. E lá vai a sua esfalfadela. Quase que me atreveria a dizer: a janela do livro por onde somos convidados a espreitar, com um certo pudor, centra-se e elege como a figura suada, por vezes quase mortificada. Um dos demiurgos lagunares: o criador do sal. Que sem sudário que lhe acalme a aspereza da torreira do vento aquilão (o seu sudário é a sua pele brochada pelo iodado braseiro que o fustiga), leva a canastra ao calvário. Que é aqui o cone alvo do malhadal...
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(Cont).
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quarta-feira, 13 de maio de 2015

UMA JANELA PARA O SAL

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No próximo sábado, dia 16 de Maio, pelas 18 horas, integrado nas comemorações do Dia Internacional dos Museus, a Alêtheia Editores convida-vos para o lançamento do livro Uma Janela para o Sal com texto de Ana Maria Lopes e Etelvina Almeida e fotografia de Paulo Godinho.
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A obra será apresentada por Senos da Fonseca.  

Convite

Referem as autoras, na contracapa do livro, em sinopse:
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E finalmente, se abre uma janela para o sal...
Fruto de um antigo propósito, o de trazer à luz e à escrita um acervo de imagens das salinas, recolhidas nos anos 80, alusivas a um património que se tem vindo a extinguir, repescaram-se apontamentos não só imagéticos, mas também escritos e confirmados no local, que agora renascem das lamas negras das marinhas e dos brancos cristais desses tempos, trazendo a saudade e o labor de outras fainas.
E assim se retomou a «safra» e se verteu sobre o papel a escrita que os aguardava. E, a outros olhos, outros pensares, em duplo sentir, suavemente se foi tecendo homenagem a uma profissão, actividade e tradição, a do marnoto, que já morre na alma de muitos, porque os que a lembram já poucos são.
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Trata-se de um património que faz parte da identidade de uma região que bem aconchegava esta actividade no seu seio, tal foi a sua importância desde sempre.
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Acompanhou-se, registou-se, descreveu-se e contou-se, «cantando» e exaltando o homem do sal, que foi, é, e será o único sabedor e conhecedor de tão árduo trabalho, o de amanhar a marinha, desde a rudeza à beleza do sal.
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Com a percepção de que se trata de uma maneira diferente de abordar o sal lagunar, com alguns laivos poéticos, fomos escrevendo esta pequena monografia Uma Janela para o Sal, acrescentando frescura ao tema e enaltecendo o Homem, o território lagunar e as marinhas. É aprazível, esclarecedora e sedutora, quer para um leitor conhecedor, quer para um leitor interessado.

Capa do livro


Amigos/as, compareçam no Museu Marítimo de Ílhavo, para darem uma espreitadela para o sal. Não se arrependerão.

Ílhavo, 13 de Maio de 2015

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Uma janela para o sal - XX

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O alagamento dos céus...
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Da preparação à produção, da remoção à conservação do sal, a marinha transfigura-se.
O Homem, esse molda-se à lama e transforma-a em cama para que a ria se deite.
Prazerosamente vê-a fecunda, depois de a tratar.
Vem o sol e o vento... e nasce o rebento.
Eis chegado o momento de tão belo colher o que plantado foi, pela mão da Providência e do homem de bom saber.
O marnoto verga-se ao tempo, tem dias de tormento, outros de alento. Cura-o o sal, curte-o o sol.
A ria cede e o céu abençoa-o.
 
Depois da safra, vai-se o sal.
Despe-se a deusa e retira-se-lhe o fruto.
Ali fica ela, ao vento e à sorte.
Em breve, o homem a deixará repousar banhando-a com as águas da ria mãe.
Alagar-se-ão as camas e os céus.
Finalmente... o descanso! 

 
Lá do céu, avistam-se os montes de sal harmoniosamente dispersos pelas eiras.
Foram mãos sabedoras que por ali deixaram cair os brancos cristais, em montinhos, como quem semeia o pão nosso no dia-a-dia.
Abençoadas pedrinhas que tão bom sustento dão!

À vista, são recortes de ria enclausurada em camas de areia e lama batida.
No labor da marinha, são janelos de vida que se enchem de sal ao longo dos dias.
O seu brilho, ao sol do meio-dia, ofusca. Toda ela se cobre de um esbranquiçado manto de luz e de sal.
O céu, em plenitude, nela se reflecte, inundando-a com os seus tons estivais.
É encanto para a vista e alimento para alma desta gente ribeirinha.

Na marinha Pioneira, em 1964

Ali, na eira, em cima do monte de sal, marnoto e moço agasalham e afagam o produto da safra, com fervor que o suor já se esfumou…
É com braçadas de bajunça, criada pela ria, que se cobre o monte.
Entrelaçadas e acamadas são chapeadas com lama, em forma de pé de galinha, como reforço.
Urde-se a capa de Inverno, que os tempos serão agrestes.
O sal ali aguardará, protegido, até que o leve o barqueiro no seu saleiro.
Esse sal novo, velho ficará e noutra safra se recolherá.

 
Geometria mais bela, esta, a da nossa ria!
Horizonte alienado deste pedaço de céu ali espelhado.
Se pudesse mergulhar no céu que ali mora, revoava as águas sem demora, que beleza desta tão efémera só a Providência poderá recriar.
 


A safra chegou ao fim!
Alagam-se os céus pelo leito enlameado da marinha, é a retoma da Ria.
Camas desfeitas, janelas fechadas. A casa repousa.
Só o céu ali fica, em retalhos, vidrado.

Quer faça chuva, quer faça sol quer sopre vento, aprisionado fica, este céu alagado, na beleza da laguna...

Até à nova safra... só Deus, o céu e a Ria!

Nota final para Uma janela para o sal

Pelas janelas, janelos e postigos, toda a marinha se mostra rainha.
Abram-se os céus e mostre-se a lida, ali, em baixo, onde o homem se une com a ria.
 
Do homem sabedor da ria e do sal, rebentam as gretas que sangram, por toda a safra dorida, mas ansiada, pois o pão é alimento para a boca e o trabalho é cura para a alma.
 
Foi o Marintimidades, companheiro de uma safra.
De outros tempos, é certo, mas levou a recordação a quem dela se apraz.
Outros levarão o que dela quiserem... curiosidade, algum saber, quiçá, magia.
Mas algo ficará na retina e na alma, imagens com sentimento, banhadas por palavras de quem sente a Ria com alegria e alguma nostalgia.
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Agradecemos a companhia... quiçá a safra continue...
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Imagens | Paulo Godinho | Anos 80
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17| 06 | 2014
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Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
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