quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Praias lagunares da Costa Nova

 -

Será que a Costa Nova terá sempre algo a acrescentar? Relativamente à «minha bíblia» sobre esta língua de areia que já nos deleitou muito mais, este “postal” não é novidade.

Há muito que vimos sentindo a falta de uma praia lagunar, num contacto aberto, directo, solto, franco, doce e libertador, com as águas correntes lagunares. Além de nos ter sido afastada da vista, uma boa dezena de metros, a ria, ainda nos foi levado esse refrescar directo dos pés ou dos corpos, nas suas macias águas. Isto consegue-se na ilha, na dita «Ilha Branca» de formação recente (pelos anos 70), mas convenhamos que aí abicar, a quem não tem embarcação, não é fácil.

Desde que a nossa estância balnear se começou a afirmar como pousio de veraneantes, o Bico começou por ser a primeira praia lagunar de renome, aí, até aos anos 30 do século XX.

Quem sabe, hoje, o que foi o Bico?

Um espraiado de areia, mais ou menos defronte ao actual e degradado parque infantil, enamorado de sol, apaixonado de água e luz, onde as beldades chapinhavam em grupo, para se sentiram mais afoitas. Foi a praia lagunar do tempo dos meus pais, onde chegaram a ser montadas, algumas, não muitas, barraquitas riscadas, para aconchego dos grupos de jovens veraneantes e possível troca de vestimenta molhada.

A actividade piscatória na zona era muito razoável e as embarcações, ao longe, na ria, pontilhavam-na de marcas mates ou brilhantes, empasteladas no casario embaciado ou reluzente da Gafanha da Maluca.

 

Postal da Costa Nova (Banhos no rio) – o Bico

Ainda reconheci este Bico, já só com uns restos de areia e vegetação (tramagueiras), onde nos reuníamos, em tardes mais ventosas, para apanhar búzios e «concharinhas» para colares, para jogar as cartas, o prego, o encarreirar ou o ringue. O banho, mesmo para as mais afoitas, já era impossível, dado que ao caminhar pé ante pé, logo atolávamos num lodaçal que nos atemorizava.

No nosso tempo de menina e moça, usámos uma praia lagunar mais a norte (entre 1935 e 70), a que foi dado o pomposo nome de Biarritz (praia famosa do sul de França), frente a um casario que começaria a nascer e a desenvolver-se no redondo conhecido ainda hoje por esse nome.

A pé, de bicicleta ou de bateira, para aí nos dirigíamos em bandos, quais gaivinas ou gaivotas esvoaçantes.

Saboreávamos-lhe a areia branca, macia, em declive, o sol quente, luminoso e acariciador, bem como a água corrente, límpida, agitada ou calma, consoante o vento ou a ausência dele.

A ria era o palco de um sem número de malabarismos – mergulhos corridos, saltados, pinoteados, braçadas em diversos estilos (bruços, crawl, mariposa). Mas, para deleite mesmo ao sabor da corrente, fruindo a quentura do sol, nada como boiar directamente na água ou em colchões ou bóias insufláveis.

Pelos anos 50, os vários banheiros da praia (Sr. Portugal, Abreu e Maiaia) ainda dispunham na faixa de areal, as suas barracas riscadas e coloridas, onde, mediante aluguer, nos vestíamos, despíamos e abrigávamos da canícula, vento ou nevoeiro em excesso.

 

Na Biarritz, em 1963

E, por aqui, foram despontando os primeiros amores que, ainda hoje, deixaram as suas marcas.

Logo a seguir ao aparecimento da Biarritz, começou a moda de San Sebastian (praia do norte de Espanha), uns trezentos metros mais a norte, junto à antiga seca de Lavadores, que não chegou a gozar do brilho do primeiro espaço.

 

 

Na enseada, ao fundo, avista-se San Sebastian.1967
 

A rapaziada, que fruía de belos mergulhos de dunas altas para água límpida e profunda, era mais a clientela de San Sebastian. Ficava, mais ou menos antes da actual ponte da Barra, frente à actual moradia do arquitecto Cravo.

Foram estas as praias lagunares da Costa Nova, até ao grande desfalque, a que foi submetida a ria, pelos princípios de setenta.

-

Costa Nova, 23 de Setembro de 2021

Ana Maria Lopes

-

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Representação de Ílhavo no "Milenário e Bicentenário de Aveiro"

 -

Em Julho de 1959, domingo, Aveiro comemorou o Milenário” da primeira referência, conhecida, à sua existência, expressa no documento da doação feita em 26 de Janeiro de 959, pela Condessa Mumadona Dias, ao mosteiro de Guimarães, por ela fundado. Aveiro contava-se entre as terras então doadas ao referido Mosteiro.

Em simultâneo, na data referida, Aveiro comemorou o Bicentenário” do registo da Carta de Provisão (26.07.1759), em que D. José outorga e faz mercê, que dessa data em diante, Aveiro fique erecta cidade.

A representação de Ílhavo nas festas comemorativas do Milenário e Bicentenário de Aveiro”, nomeadamente no Cortejo Folclórico, foi exemplar. Faz segunda-feira, portanto, dia 26 de Julho, 62 anos…Era domingo, em 1959.

Dia de festa em Aveiro. Ruas e avenidas apinhadas de gente, varandas ornamentadas de colgaduras, a abarrotar… todos quantos acorreram a Aveiro procuraram local de onde pudessem apreciar o espectáculo que se lhes deparava. Corriam de um lado para o outro para bisar os aplausos a todos quantos nos seus bonitos trajes, antigos ou modernos, nas suas danças e canções os encantavam.

Todos os concelhos do nosso distrito cooperaram, participando com os bonitos carros alegóricos representativos das suas actividades comerciais, industriais e agrícolas.

Ílhavo não poderia faltar. Não só porque as histórias das duas povoações tiveram origens e percorreram caminhos comuns até certo período da sua história, confundindo-se durante largo período as suas gentes, já que Sá, sita no termo de Aveiro, pertencia a Ílhavo. Sujeitas aos mesmos momentos de fartura ou de privações, e até catástrofes, conforme o estado da laguna que era a circunstância destas gentes da borda. Mas a ligação entre os dois agregados populacionais ainda se reforçou aquando da grande crise de abastecimento da vila de Aveiro, verificada no séc. XVI. Ílhavo foi, naturalmente, pelas ligações referidas, dos lugares vizinhos que mais comparticipou para suprir as carências sentidas na vila vizinha, fazendo-o dos mais variados modos, com os mais variados produtos em que o termo da vila era rico. Forneceu pão, cereais (milho, trigo, painço), lenha, vinho e ainda carnes e muitos outros produtos, de que Aveiro precisava para sustento da sua população que teria crescido de um modo explosivo a partir do séc. XV, com a presença de muitos mercadores estrangeiros, que ali se vieram fixar.

Por estes motivos, a participação do concelho de Ílhavo, nas festas do Milenário, deveria ter uma dimensão muito vasta e variada, na expressão e motivação.

Embora todo o concelho de Ílhavo tivesse uma representação à altura, é, do nosso grupo, de que eu e muitas das minhas amigas fazíamos parte, que tenho uma memória mais viva.

-

Abertura da representação de Ílhavo
-

A abrir, um dístico com a palavra ÍLHAVO, conduzido por dois autênticos pescadores. A seguir, um friso de jovens pescadeiras, seguidas por mais seis padeiras e outras tantas ceifeiras, vestidas a capricho. Um grupo de lindas tricanas antigas e modernas, tendo havido o cuidado de, naquelas como nestas, escolher lindos palminhos de cara, dentre as mais graciosas das nossas gentis meninas. – in “O Ilhavense “ de 1 de Agosto de 1959.

-

O desfile
-

Pelo menos as ceifeiras entoavam alegremente a “Canção das Ceifeiras” que fazia parte do repertório da revista infantil “A Nossa Escola”, com letra do Prof. José Pereira Teles e música do vaguense Berardo Pinto Camelo.

Seguiram-se representações do Illiabum Clube, da Fábrica da Vista-Alegre, da Gafanha da Nazaré, da Indústria de Conservas de Peixe da Barra, o carro da Capelinha da Nossa Senhora da Saúde…

Fechava esta parte do cortejo um carro com uma alegoria de Ílhavo (a vela não podia faltar), estruturada sob um feliz desenho modernista de Emanuel Macedo e ladeada pelos Bombeiros Voluntários de Ílhavo.

 -

O carro alegórico
-

Segundo a fonte jornalística já referida, foi um cortejo que fechou com chave de oiro todas as festas mundanas do Milenário e Bicentenário de Aveiro”.


E lembrar a azáfama que antecipou todo este folclore?

O centro do mundo era a casa da Senhora D. Dadinha Lé, pequenina, gordinha e gaiteira, com o bairrismo à flor da pele.

Em cima da mesa da sala de jantar, metros e metros dos mais variados tecidos (cetins, sarjas, veludos, chitas, fazendas, feltros, etc.) e acessórios: chapéus, lenços, cestos, canastras, faixas, xailes, foices e outros.

E as idas ao Porto àqueles grandes armazéns de têxteis, em busca dos tecidos mais apropriados?

E as provas, que farra! Na nossa juventude, queríamos apresentarmo-nos o melhor possível: o calçar da bota, da meia riscada de vermelho e branco, o arriar do saiote, o içar da saia com a faixa, o trilhar do avental, o ajeitar da blusa ao peito e o dobrar da aba do chapéu da maneira que melhor condissesse com o rosto.

-

Ceifeiras ledas, morenas…
-

Eram estas as gentis ceifeiras, da esquerda para a direita: Célia Ré, Ana Maria Lopes, Maria Manuela Vilão, Rosa Armanda Mano, Idalina Bela e Elisabete Moreira.

-

Ílhavo, 21 de Julho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

quarta-feira, 14 de julho de 2021

As velas do moliceiro

 -

Luís de Magalhães refere, no seu trabalho “Os barcos da Ria de Aveiro”, 1905 – 1908, que nas romarias fluviais, as velas ricas têm bordados interessantes, quase todos multicores e feitos por meio da aplicação de estofos diversos ao pano da vela: umas armas reais, uma cruz, um vaso com flores, etc.

Já há muito que esse costume não se observa, é pena. Creio mesmo que nunca vi.

No MMI., em exposição na Sala da Ria, o visitante tem possibilidade de apreciar um desses raros exemplares, com escudo encimado por coroa real, ladeado por ornamentos florais, em arte aplicada. Tem a particularidade de rizar só por cima. Data provável 1816/1876 (?)

-

MMI. – Enfeite de vela festiva
-

Costume que ainda se mantém é ornamentar a vela com bandeiras de várias nacionalidades, relativas aos países para onde emigraram os donos dos barcos ou familiares, em dias também festivos.

-

Decisão e confiança de vencer
-

Normalmente. as velas são brancas, não se submetendo ao encasque ou seja à submersão numa cozedura de casca de pinheiro, que lhes dá uma cor vermelho-acastanhada. Tornam-se translúcidas e luminosas, deixando transparecer a luz, o que permite apreciar as várias teadas inteiriças ou emendadas, se a lona não chegou, ou remendadas, quando já apresentam partes envelhecidas.

-

As “teadas” da vela evidenciam-se
-

Esporadicamente, há anos, usavam um segundo mastro, à proa, o mastaréu, mais baixo, que fixavam numa pequena coicia, através de uma abertura entre as duas painas da proa, entre um argolão que funcionava encostado a uma reentrância do barrote, onde trabalhava uma vela de dimensões menores, chamada traquete. Chegavam “a bolear e a arrastar com dois panos, mas, quando o tempo era muito, arriavam o traquete e botavam ombro ao mastaréu, poisando-o por cima da proa, por riba dos golfiões”.

Imagem de beleza invulgar era o moliceiro armado com vela grande e traquete de que conservo uma vaga ideia da minha juventude, aqui, na Costa-Nova. Era motivo para virmos apreciar à varanda, quando algum passava…já ia sendo raro. Agora, nada, nem com duas velas, nem com uma. Eu bem olho…mas…só na realidade imagética de alguns espólios encontrados…

-

Na amplidão da ria, moliceiro com duas velas
-

Foi o que aconteceu há pouco tempo, quando me veio à mão, em buscas em sótãos, pela primeira vez, um cliché de um moliceiro a navegar com duas velas, frente à Costa-Nova. Não é brilhante a imagem, mas, até hoje, foi a única encontrada. Por isso, merece divulgação e partilha.

-

Ílhavo, 14 de Julho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

domingo, 11 de julho de 2021

Travessia na VA, nos anos 50

 -

Uma paisagem que sempre me encantou – a travessia do Canal do Boco, entre as traseiras da quase bicentenária Fábrica da Vista-Alegre e a Gafanha da Boavista – com a sua luminosidade, a água espelhante, a barca de negro embreada, timonada pelo barqueiro (Ó, da barca!...), a simplicidade tosca do trapiche… Hoje, figura humana enriquece a paisagem. Mulher das Gafanhas…

Mulher de trabalho, de pés descalços, veste com grande simplicidade: saia lisa, ajustada e avental florido pelo meio da perna anafada. Blusa garrida e estampada, de manga comprida. Carregada, quereria passar para a outra banda.

O xaile típico, supostamente amarelado, de lã, com cadilhos torcidos, caindo pelas costas, dobrado em diagonal, sustido no braço esquerdo, envolve a afadigada mulher. Segura à cabeça, em equilíbrio, um cesto de vime, pejado de lenha que acarreta para casa. Para atear a fogueira onde as crianças se aquecerão enquanto cozinha, durante o inverno?

-

De perfil… 

Ó da barca!...

De frente, com rodilha a proteger-lhe a cabeça, de cabelo apanhado, faz prova de esforço, com os braços em asas de ânfora, que sustêm e equilibram o peso da lenha.

-

Poderia ter inspirado algum escultor da VA? Existe uma figura de mulher – tricana –, policromada, de cantarinha à cabeça, que, de algum modo, me lembra esta mulher.

 -

De frente, para a fotografia
-

Ó da barca!...
-

Ó da barca!...

E a grande e negra barcaça aproxima-se lentamente, para transportar a esforçada passageira. Vidas e destinos!..............

-

Ó da barca!...

-

Fotografias – Gentil cedência de familiar de Cândido Ançã

-

Ílhavo, 11 de Julho de 2021

Ana Maria Lopes

-

domingo, 4 de julho de 2021

A ponte das "Duas Águas", num domingo de Julho

 -

No dia 5 de Julho de 1951, num domingo aproximado ao de hoje (há 70 anos), a ponte de madeira das “Duas Águas”, que ligava o Forte à Barra, arriou, abrindo uma brecha de uns bons pares de metros, exactamente no momento em que passava uma camioneta de carga.

Milagrosamente, para lá do mergulho e afundanço da camioneta, não houve mais consequências nefastas, pois que os seus três tripulantes safaram-se a nado, depois de um grande susto.

-

Aspecto da ponte, após o acidente – 1951
- 

As forças vivas do concelho deveriam, pois, actuar. Continuando a velha ponte a servir de passagem entre as duas margens da ria, várias dezenas de pessoas teriam a sua vida em risco!

Diz que se ouviram lamentos: – Agora… mais um compasso de espera para o comércio da Costa-Nova e da Barra. Quem compensa?

A tragédia não atingiu maiores proporções, porque a camioneta de passageiros que seguia atrás, pôde ser travada a tempo. O condutor, com perícia, conseguiu recuá-la para terra firme.

Na imprensa da época, lia-se com frequência “– Ponte interrompida para obras, Ponte Farol /Barra sujeita a benefício…”

Lembro-me dessas agruras, a que os mais novos achavam muita piada, mas os mais velhos nem tanto…

Uma camioneta de cada lado… e os passageiros tinham de passar “a ponte a pé” (expressão com que se brincava), com o tremelicar contínuo dos barrotes, que, nas junções, deixavam a água corrente e profunda, à vista, lá em baixo.

Durante esse interregno houve momentos, devido ao corte da ponte, em que nem esse tipo de travessia era possível!

Havia um plano para a construção de uma ponte em cimento armado que tardava. Só ficou pronta no Verão de 1975, com acessos ainda provisórios e em Março de 77, a velha ponte de madeira, foi demolida.

- 

Mais uma imagem da ocorrência – 1951
- 

Então, o serviço da travessia entre a Costa-Nova e a Gafanha da Encarnação era sobrecarregado, para o que não estava preparado.

Estavam, à época, ao serviço da travessia duas lanchas da carreira, a “Rosa Branca e a “Ausenda Conde, que não aprovaram por muitos anos. Recorreu-se, de novo, às pesadonas “barcas da passagem”.

- 

A “Rosa Branca, à esquerda da Mota
- 

Como a afluência era muita, leu-se na imprensa regional de então, a 1 de Agosto, que chegou a haver pequenos incidentes na travessia, em dois domingos seguidos.

“ (…) Estava atracada à mota da Costa uma lancha da carreira. O povo foi entrando e os barqueiros não notaram que um dos bordos da embarcação estava em cima da mota. Quando se afastou aquela, como o povo era muito, a lancha inclinou-se tanto que alguns passageiros e algumas bicicletas foram cuspidos à água.

Houve pânico, alarido, mas felizmente o acidente não resultou senão num banho forçado (…)”.

Mas, pasme-se: - notícia de 10 de Agosto de 1951 anunciou: “(…) A ponte das Duas Águas já dá passagem a carros ligeiros (…)”, apesar do travejamento continuar sempre a tremelicar.

Meu Deus! Parece que as obras eram mais rápidas pelos anos cinquenta do que agora, pois, actualmente, as obras nas estradas de Ílhavo, Aveiro e Gafanhas, ainda continuam a perseguir-nos!... das quais não se imagina um fim à vista.

Nos meus sete anos, recordo-me da ocorrência, mas sem grandes pormenores. Foi um desaforo na Costa-Nova!

-

Ílhavo, 04 de Julho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

domingo, 27 de junho de 2021

O naufrágio do lugre "Maria Carlota"

 -

Entretida com a pesquisa de elementos, em jornais antigos, deparei com o afundamento do lugre bacalhoeiro “Maria Carlota”, de regresso da Terra Nova, em “O Ilhavense” de 10 de Novembro de 1947. Também o “Comércio do Porto”, do dia 5 de Novembro do mesmo ano, lhe dedica notícia muito pormenorizada. Quem quiser acrescentar saberes ao seu, deve consultar o livro de João David Batel Marques “A Pesca do Bacalhau”, tomo II, “Os lugres da pesca à linha”, pp. 229-236. Saberá todo o historial do lugre.

Fico-me pelos dados de “O Ilhavense”, relativos ao naufrágio:

“O último lugre bacalhoeiro que largou dos pesqueiros da Terra Nova, na campanha de 1947, não chegou a porto de salvamento.

Tendo água aberta e regularmente carregado, o “Maria da Carlota” arribara a Saint John’s para reparar a avaria. E logo que se julgou o navio apto a atravessar o Atlântico, fez-se de novo aos pesqueiros, onde melhorou, dentro do possível, o carregamento.

Como o tempo despertasse, teve de fazer rumo a Portugal, o que foi anunciado pelo navio de apoio “Gil Eannes”.

Com poucos dias de viagem, porém, o temporal começou a açoitar a embarcação, que não podendo resistir às intempéries, naufragou.

-

Em mar revolto…
-

Aos pedidos de socorro lançados pelo “Maria Carlota”, acudiram vários navios.

Uma unidade de guerra americana – o “Charles Stafford” – recolheu os náufragos que levou para New York e no local do sinistro apareceram o “Caramulo”, o “Gil Eannes”, o “Corte Real”, tendo o transatlântico inglês “Queen Elisabeth” chegado a desviar a sua rota para correr em auxílio dos náufragos.

O “Maria Carlota” tinha 3 mastros, e, pertencia, à época, ao armador de Lisboa, João Norberto Gonçalves Guerra.

Comandava-o o nosso conterrâneo António Fernandes Matias (Cajeira) e era seu imediato o ilhavense Jorge Fort’ Homem.

Dos seus 30 homens de tripulação, faziam também parte os ilhavenses:

José Fernandes Parracho, João Pereira Gateira, Tomé dos Santos Ferreira Gordo, Celestino Esteves de Figueiredo e José Saraiva Verdade.

Felizmente que toda a tripulação se salvou, pelo que toda a tripulação se salvou, pelo que, sinceramente, todos nos regozijamos”.

-

 

O “Maria Carlota”, em Lisboa
-

O lugre de madeira “Maria Carlota”, o ex-“Estrela I” foi construído em 1918 em Dayspring, Nova Escócia, Canadá. Tomou o nome de “Maria Carlota” na campanha de 1927, propriedade de Nuno Freire Temudo de Viana do Castelo. Em 1934, foi propriedade de João Norberto Gonçalves Guerra. Teve porto de registo em Viana do Castelo, Porto e Lisboa.

-

Costa Nova, 26 de Junho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

domingo, 20 de junho de 2021

Lugre bacalhoeiro "Cruz de Malta"

 -

A propósito da biografia do meu Avô, procurava uma imagem do “Cruz de Malta”, que também consta dos navios que comandou.

Como ainda tenho uma ideia, se bem que vaga, do belo lugre e, perante as várias imagens que tinha e as que alguns amigos me foram cedendo, “fez-se luz” e alto lá!... podia juntar os dados que tenho do navio, pesquisar outros e tornar a sua história mais aliciante e apetecível.

É obrigatório começar pelo lugre “Laura”. Este navio, de três mastros, sem motor auxiliar, foi construído em 1921 na Gafanha da Nazaré por José Maria Mónica, sob risco de José Soares; propriedade da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., participou nas campanhas de 1921 a 1926. Imobilizou em 1927, para reconstrução, a cargo de Manuel Maria Bolais Mónica e toma o nome de “Cruz de Malta” na campanha de 1928, então, propriedade da Empresa Testa & Cunhas, Lda.

Lá que a reconstrução fez milagres, pelo menos, a nível estético, fez. O “Laura” não devia muito à elegância, na sua roda de proa direita e rombuda, enquanto o “Cruz de Malta” primava pela beleza e elegância, no lançamento da roda de proa. Passou a ter um motor Guldner, com potência de 150 cavalos.

-

Cruz de Malta” frente à seca
-

Na primeira campanha ao serviço da nova empresa, com 47 tripulantes e 42 dóris, a captura limitou-se a 1597 quintais de peixe e 2 toneladas de óleo de fígado de bacalhau, que renderam 195.600$00, dos 5500 quintais possíveis. Foi, talvez, a grande escassez de peixe, neste período, que levaria os navios nos anos seguintes até à Groenlândia, revelando-se, desde aí, local obrigatório de pesca.

 -

“Cruz de Malta” encalhado
- 

Encalhado frente a S. Jacinto (não havia, ainda o actual Triângulo), ferro a pique, vê-se bem, é aliviado. Três mercantéis, um por bombordo e dois, por estibordo, trasfegam o que é possível, incluindo dóris empilhados, atravessados, a bordo. Original!!!

Coexistiram na Empresa Testa & Cunhas, o “Cruz de Malta”, o “Inácio Cunha”, o “Novos Mares” e o “São Jorge”.

Foi, por uns anos, sempre muito cuidado, o navio mais velhinho e de menor capacidade de Empresa, mas, talvez porque tivesse sorte, era considerado a mascote, uma espécie de talismã, para a mesma.

Passaram pelo pequeno, mas garboso lugre, como capitães, tantos ilhavenses conhecidos como o Avô Pisco (1928 a 37), Capitão Quim da Graça (1938), Capitão Júlio Paião (1943 e 44), Capitão José S. Bixirão (Ponche) (1947 a 49), Capitão Manuel da Silva (1950 a 55) e tantos outros! Tantas e tantas safras, tantas e tantas campanhas, tantos e tantos sacrifícios, tantos e tantos perigos!

-

A navegar a todo o pano
-

A sua vida já era longa, quando por alquebramento (água aberta), se afundou, em 7 de Agosto de 1958, sob o comando do conterrâneo António Fernandes Matias, tendo sido recolhida toda a tripulação, a bordo do “Gil Eanes”.

-

Em vias de naufragar…
-

Assim o relata o jornal “O Ilhavense” de 10 de Agosto de 1958, na notícia “Afundou-se o navio bacalhoeiro Cruz de Malta”.

E assim viveu, soberano, o “Cruz de Malta”, levando e trazendo tantas vidas, tantas saudades e tantas esperanças! Destes pedaços de tábuas e de almas foi feita a Faina Maior!

-

Ílhavo, 20 de Junho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

quinta-feira, 17 de junho de 2021

O lugre "Senhora das Dores"

 -

Lugre naufragado na barra de Aveiro… há 99 anos.

O lugre “Senhora das Dores” foi construído em Caminha, pela Empresa de Construções Navais de Caminha, Lda., para o armador Manuel de Sá Pereira e outros, com registo no Porto, tendo sido lançado à água, em 12 de Setembro de 1919. Com uma arqueação bruta de 310,00 toneladas, não tinha motor auxiliar.

- 

OSenhora das Dores” encalhado
-

Naufragou na barra de Aveiro a 17 de Junho de 1922. Não houve mais comentários. As notícias são escassas. Não se conseguiram mais informações sobre o navio.

Apenas em notícias nacionais de início de Agosto, o Capitão do porto de Aveiro, sobre o encalhe, informou superiormente que o naufrágio ficou a dever-se às correntes da barra e à pouca largura do canal, motivo que tem estado na origem dos naufrágios anteriores.

-

O “Senhora das Dores” entregue ao seu destino…
- 

Vali-me então da imprensa local, já que o jornal “O Ilhavense” me dá sempre uma preciosa ajuda.

Relata, pois, que na tarde de 17 de Junho de 1922, encalhou em frente ao Farol da nossa barra, o referido lugre, procedente do Porto, com lastro e algum cobre para reparos a que vinha sujeitar-se nos Estaleiros da Gafanha. Era seu capitão o nosso conterrâneo João dos Santos Redondo (o Maurício), que não conseguiu safar o barco, apesar de todos os esforços empregues. A tripulação salvou-se.

-

Fotografias – Arquivo Digital de Aveiro.

-

Ílhavo, 17 de Junho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

domingo, 13 de junho de 2021

De "Guerra II", a "Corça" e a "Granja"

 -

O lugre “Guerra II” desliza na calmaria pacífica, inspiradora, reflectora, espelhenta, das águas lagunares… Que belo veleiro, reflectido em tão tranquila ria… Tem a elegância de manequim, em passerelle, ao exibir todo o seu velame.

-

O “Guerra II” a reboque…
-

Segundo o Catálogo “A Frota Bacalhoeira – Navios de pesca à linha”, editado pelo MMI. em Maio de 1999, o lugre de madeira “Guerra II” foi construído em 1919 na Figueira da Foz por Sebastião Gonçalves Amaro para a Empresa Nunes, Guerra & Cª Lda., de Ílhavo, tendo participado nas campanhas de 1922 a 1930. Foi vendido à Parceria Geral de Pescarias Lda., Lisboa, para a campanha de 1933, passando a ter o nome de “Corça”.

- 

O lugre “Corça”
-

Após a campanha de 1936, foi vendido à Companhia Transatlântica Lda., Porto, onde terá passado a ser o “Granja”, já com motor instalado. Participou nas campanhas de 1937 a 1939 e efectuou viagens de comércio, em 1940.

Naufragou em 1941, nos baixios a norte do Cabo de São Francisco, Terra Nova, quando se dirigia a portos da Terra Nova para carregar bacalhau seco.

Notícia do jornal “O Ilhavense» de 1 de Agosto de 1941 relata que, “por telegrama de Manuel São Marcos, capitão do lugre “Granja”, à proprietária deste navio, Sociedade de Pesca Transatlântica, naufragou, no domingo, dia 20, devido ao nevoeiro, nas proximidades do cabo de S. Francisco, junto à Costa da ilha da Terra Nova, aquele barco, que, em 30 de Junho havia largado de Lisboa, com carregamento de sal para aquelas paragens, a fim de trazer para Portugal um carregamento de bacalhau. O “Granja, que, ultimamente, não tem ido à pesca do bacalhau, empregou-se durante muito tempo no transporte de encomendas para os prisioneiros de guerra, entre Lisboa e Génova.

Na sua última viagem, tinha estado prestes a naufragar perto do estreito de Gibraltar, tendo ainda perdido dois dos seus tripulantes.

Além do ilhavense Sr. Manuel São Marcos que o comandava, o piloto, Jorge Fort’ Homem, e toda a restante tripulação está a salvo, devendo ser repatriada nos primeiros navios que venham daquelas paragens”.

 -

O lugre “Granja”
-

“Guerra II”, “Corça”, “Granja”, que dança de nomes e de armadores…o que, acontecia, com frequência.

-

Ílhavo, 13 de Junho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-

sábado, 12 de junho de 2021

VIII Encontro de Embarcações Tradicionais em Esposende

 

Evocação… A pandemia fez com que estes eventos, que eu adorava, deixassem de existir. Ao mesmo tempo, eu também já não me sinto com forças de me envolver neles…  Vivo de memórias... que recordo e republico”

Cheguei há pouco de Esposende. Cansada, mas de alma cheia. Dois dias diferentes, a registar. O meu grande agradecimento à Amiga Ivone Magalhães, Directora do Museu Municipal e à Conceição, pela simpatia e acolhimento com que me receberam. Dia de festa em Esposende… Dia do rio e mar e de sua comunidade piscatória.

Ontem, passei a tarde na rampa junto à lota, à beira-rio, a tentar identificar as embarcações tradicionais que participaram no VIII Encontro de Embarcações Tradicionais em Esposende e a saborear-lhes a beleza das suas manobras.

Algumas embarcações já me eram bem familiares, como a catraia de Esposende, réplica navegante construída em 1993, a Sta. Maria dos Anjos”, algumas «dornas galegas» e a lancha de fragata ou o catraio tejano, bem bonito e centenário, trasladado por gosto do proprietário, do Tejo para a laguna de Aveiro, de seu nome Costa Nova».

 -

Catraia Sta. Maria dos Anjos”

 -

O catraio tejano Costa Nova”
-

As tais memórias tradicionais marítimas de Esposende, que são relevadas pelo carinho e genica de alguns, iam-se sucedendo e preparando, ao mesmo tempo. Ao fim da tarde, algumas pescadeiras enfeitavam devotamente os andores que participariam na procissão fluvial de hoje e no lançamento de uma coroa de flores, ao mar, após a difícil saída da barra, em memória dos homens do mar falecidos em acidentes marítimos.

- 

Na lota, alguns das divindades
-

Algumas «estórias», tradições, memórias, lendas foram recordadas, enquanto transpúnhamos a fé e o carinho com que enfeitavam os andores, com as respectivas divindades. Pescador e fé caminham de braço dado – Nossa Senhora da Barca do Largo, Nossa Senhora da Graça, S. Pedro, a Senhora da Bonança (freguesia de Fão), a Senhora da Guia, a Senhora de Fátima, e o, para mim, conhecido, mas nunca visto, S. Bartolomeu do Mar.

O dia de hoje, com a dita procissão fluvial, num clima ameno, calmo e morno convidava ao passeio. Sem contar, mas sem hesitar, aceitei o convite de última hora para embarcar. Todo o desfile foi magnífico, neste caso, em “catraias” modernizadas, ditas «voadoras», a motor. Embandeiradas em arco com bandeirolas multicolores, desfraldavam à pouca aragem a beleza e o significado da bandeira nacional. Cenário alegre, garrido, penetrante e envolvente. A procissão teve dois momentos altos: um, o do encontro, em que as embarcações se dirigem mais para montante, para receber a Senhora da Bonança (da freguesia de Fão), que vem incorporar-se no cortejo.

 -

A incorporação da Senhora da Bonança
-

O outro, em navegação a jusante, em direcção à barra, o lançamento à água da simbólica coroa de flores, em homenagem aos pescadores mortos em acidentes marítimos. Um misto de respeito e temor pela ondulação do próprio mar e do entrecruzar da agitação dos motores das embarcações, era o que sentíamos a bordo.

 -

No mar, a coroa de flores
-

Chamou-me a atenção um barco com quatro fotografias de rostos – explicou-me a Ivone – que era um barco de memória fúnebre, o “Flecha”, que lembra os quatro últimos homens do mar, que faleceram de uma mesma família – a família Nibre.

 

Barco de memória fúnebre
-

De regresso à lota, donde saímos, parece que soube a pouco. Belo, empolgante e salutar!

 -

De regresso do rio

 

Ílhavo, 5 de Junho de 2016/12 de Junho de 2021

Ana Maria Lopes

-

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Na Escola Primária da Costa Nova

 -

A propósito de um escrito de Senos da Fonseca, relativo à Gafanha da Gramata, depois da Maluca e, por fim da Encarnação – veio-me à cabeça um capítulo da minha vida escolar em que também tem lugar a Escola Primária da Gafanha da Encarnação.

Vou para a Costa Nova desde que nasci, sempre para a mesma casa.

-

O bonito palheiro em 1948
-

Antes de ter a arquitectura actual, era um bonito palheiro de rés-do-chão em adobe, com varanda, o terceiro da Calçada Arrais Ançã (lado sul), a partir do actual Largo da Marisqueira, de onde se usufrui uma paisagem inebriante e mutante, de dia e de noite, ao amanhecer e ao entardecer. Era esta a vista da minha casa, até 1973, inserida num horizonte sem fim.

-

Mota actual, em 1942

 

Com o aterro parcial da laguna (seria necessário?), foi-me roubada.

Costa Nova dos meus encantos!!!!! Adeus, bateira Namy, atracada ao moirão multicolor, em frente a casa! Adeus, serventia do embarcadouro da barca! Adeus, travessia, para a “Bruxa”. Adeus, pesca, ao caranguejo da muralha com fio, pedra ou concha e uma lasquita de bacalhau! Também passaram à história as belíssimas atracações da barca, ao perto, em dias de nortada ou de inverno, com marola forte e vento rijo, não sei se à Labareda nem se não. Mas lá que eram bonitas, certeiras e arrojadas, eram.

 -

Cenário frente a casa, em 1973
- 

Mas, voltando à história, frequentei a 1ª e 3ª classes da Escola Primária, nesta linda praia, entre ria e mar situada.

Foi minha professora, a Senhora D. Palmira, de quem guardo gratas recordações, bem como de algumas colegas que ainda hoje reconheço.

O local para a Escola Primária que frequentei foi criado em 1930, na então Avenida Boa-Vista, a norte.

Um belo dia, a Senhora Professora informou a minha Mãe que eu, com 5 anos, chegava demasiado cedo à escola. Gostava sempre, antes das aulas de ir ver o mar. Vem de longe, esta tendência…

-

Escola Primária, no r/ch, 1948
-

Chegado o final do ano lectivo de 1950-51, o exame da 3ª classe estava à porta. O meu primeiro exame. E onde fazê-lo? Tinha de ser na Escola da Gafanha da Encarnação.

Sempre que lá passo, me lembro.

Claro, tínhamos que ir de barca, à vara, tão calmo estava o dia de Julho, e, a pé, até à escola. Vestido novo… toda enfeitada.

Uma nova escola, novos professores, novo ambiente…algum nervosismo.

O texto que me saiu em sorte foi “A libelinha e as folhas de nenúfar”. Correu bem e, no final, bom resultado.

- 

Escola da Gafanha da Encarnação em 1959
-

Voltámos. A minha Mãe e Avó esperavam-me…com ansiedade. A sua menina a chegar do primeiro exame… e de barca!!! Quem se gaba do mesmo?

Um pequeno percalço, no regresso: escorregou-me um lápis novinho em folha, costado abaixo e enfiou-se debaixo dos pesadões paneiros da embarcação.

Por mais que pedisse, lamuriosa, ao barqueiro, ele não se compadeceu da minha mágoa. Será que um insignificante lápis merecia o trabalhão de levantar um ou dois paneiros da grande barca?... Lá ficou para sempre, mas não me esqueci…

O que interessava é que estava na 4ª classe, com as férias à porta…

-

Ílhavo, 2 de Junho de 2021

-

Ana Maria Lopes

-