terça-feira, 6 de abril de 2021

"Atlântico" - Navio Perdido

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Há muito que os naufrágios na barra de Aveiro, nos princípios do século XX me atraem, mas, só há uns tempos, tive disponibilidade para me entregar mais à sua redescoberta.

Em pesquisa sistemática do jornal “O Ilhavense”, eis que a notícia do encalhe do lugre “Atlântico, nos finais de 1925, no regresso dos bancos da Terra Nova, me fez pensar e revirar os apontamentos.

 

Para chegar ao lugre “Atlântico”, tive de regredir no tempo e com trocas de impressões com amigos interessados, parece que cheguei a porto seguro…

 

Pesquisa ali, pesquisa acolá, listas de navios, jornais, catálogos e o tal “puzzle” marítimo encaixa gradativamente.

 

O lugre “Atlântico, ex-“Dolores, de madeira, (tendo navegado sob bandeira dinamarquesa com os nomes de “Urda, de 1892 a 1907, e “Sylphe, de 1907 a 1909), foi construído em 1892, em Odense, Dinamarca, por N. F. Hansen. De comprimento, media, entre perpendiculares, 33,85 metros, 7,40 m. de boca e 3,14 de pontal. Registava uma arqueação bruta de 152, 68 toneladas e líquida de 101,10.

A partir de 1910, surge registado no porto de Aveiro, com o nome de “Dolores, tendo sido seu capitão até 1916, António José dos Santos e Augusto Fernandes Pinto (1916 e 1917).

Por informação da lista de navios portugueses de 1914, temos, então, a certeza de que era, pois, pertença da Parceria Marítima Aveirense e foi-o até 1917.

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Lugre Dolores”. MMI.
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Entre 1918 e 1921, passou para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, mudando o nome de Dolores para Atlântico”, em 1920.

Alcançámos o “Atlântico

Por ele passaram os Capitães Jorge Fort’Homem (1919 e 1920) e Joaquim Gonçalves Guerra (1921).

Mas, a dança das sociedades não pára e a partir de 1922 até 1925, é propriedade da Parceria Marítima Africana.

De 1922 a 1924, inclusive, comandou o “Atlântico”, Adolpho Francisco da Maia e no ano de 1925, assumiu o mesmo cargo o ilhavense Marco Luís Frasco, para quem estava reservada a desdita do fatídico sinistro, sendo piloto, João Firmeza.

 

Por informação da Marinha, o “Atlântico” naufragou por encalhe a sul da barra de Aveiro, em 30 de Outubro de 1925, por motivo de avaria no leme, tendo sido salvos todos os tripulantes, através do cabo de vaivém.

O relato do nosso jornal do primeiro de Novembro de 1925, em notícia Navio Perdido é muito mais emocionante e pormenorizado, pelo que respigo alguns parágrafos:

 

“Quando ao largo da barra pairava uma quantidade de navios esperando a entrada no porto […], o rebocador Vouga tentou sair, não o podendo fazer em consequência da agitação do mar.

Entretanto, o “Atlântico vendo o sinal do Forte, foi-se aproximando, à espera de ocasião propícia. Como o rebocador não se aproximasse […], o navio veio singrando ligeiro, passou o banco de areia e, ao chegar perto da “Meia-Laranja”, ficou sem governo, em consequência de uma vaga lhe ter despiado a gaiúta e esta ter quebrado a roda do leme.

De terra, onde uma multidão esperava a entrada dos navios, ao ver-se que o “Atlântico corria o risco de se perder, houve um grito de angústia por aqueles marinheiros, que estavam prestes a serem tragados pelas ondas, tão perto de suas famílias e seus lares!

Sem governo, à mercê do vento e da corrente […], o “Atlântico é arremessado pelas vagas que lhe varrem o convés, um pouco a sul da Meia-Laranja. Na impossibilidade de salvação do navio, o capitão ordena que a tripulação (no total de 28 homens) se prepare para o abandonar. Estava salva a tripulação!”

Com a vazante da maré, iniciaram-se os trabalhos de recuperação dos salvados e de grande parte da carga, constituída por 2 200 quintais de bacalhau. Era capitão do lugre “Atlântico, Marcos Luís Fraco e piloto, João Firmeza.

 

Ao local acorreram milhares e milhares de curiosos, de Ílhavo, Aveiro, Gafanhas, Costa-Nova, para verem o navio naufragado.

 

Pena é que entre tantos “mirones”, nenhum tivesse feito disparar a objectiva, de modo que um documento visual tivesse chegado, hoje, até nós, para enriquecer a narrativa, já por si, tão forte e impressionante!

 

Pessoa amiga teve a gentileza de me enviar uma notícia de época, do “Comércio do Porto”, com foto e tudo.

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Ílhavo, 06 de Abril de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 30 de março de 2021

De "Altair" a "Vega" e de "Vega" a "Vaz"

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Num belo dia de pesquisas em Testa & Cunhas, já há uns bons anos, veio-me à mão, por lá, nem sei muito bem porquê, a sugestiva imagem, identificada, do lugre “Altair. O “Altair? Gostei do navio e da expressividade do nome – “Altair”, de origem árabe, significa "Águia voando" e é a estrela mais brilhante da constelação Áquila. Poucos dados…Há pouco tempo, veio outra parar-me às mãos.

 

Imponente imagem do lugre “Altair”

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Percorridos os caminhos tortuosos habituais da pesquisa, opiniões encadeadas, monta-se mais uma vez um “puzzle”, que poderá ter alguma delicadeza, mas que creio que tem uma forte e segura dose de viabilidade.

Lugre de madeira de três mastros, foi construído por Manuel Maria Bolais Mónica, em 1918, na Gafanha da Nazaré, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca. O seu lançamento à água foi em 25 de Março de 1918.

Nas campanhas de 1918 e 1919, foi seu capitão Fernando Domingues Magano e na de 1920, o Sr. Fernando Mathias.

Vendido à Companhia Portuguesa de Pesca do Bacalhau, em 1921, continua com o registo em Aveiro, mas altera o nome para “Vega, outra brilhante estrela, sendo capitão das campanhas de 1921, 1922 e 1923, Júlio António Lebre.

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Outra imagem do lugre “Altair”
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Após a safra de 1924, é vendido à Sociedade Continental de Pesca, de Lisboa, alterando o registo para Lisboa, mas mantendo o nome de “Vega”.

As características não deviam diferir muito das que apresentava enquanto “Vega: comprimento entre perpendiculares 35,70 metros, boca, 8,90 m. e pontal, 3,85 m; com uma tonelagem de arqueação bruta de 242,36 toneladas, não possuía motor auxiliar.

Foi capitão na safra de 1925 José André Senos (o Argau).

Também tinha gosto em editar esta imagem que me chegou às mãos, por via paterna, claramente anotada – “Vaz – e tem razão de ser.

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O lugre “Vaz”, na Gafanha
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A fonte por onde normalmente começo é o Catálogo de “A Frota Bacalhoeira”, que explicita: - “Vaz, lugre de madeira, ex-Vega, construído em 1918, por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré.

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Fechou-se o circuito: só podia ter sido o “Altair”, depois “Vega”, para acabar em “Vaz.

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Há umas ligeiríssimas diferenças na tonelagem e no comprimento, que provarão que o navio foi reconstruído, com o seu regresso à praça de Aveiro.

O “Vaz”, pertença de um primeiro armador, José Cândido Vaz, nos anos de 1928 e 1929, passou para a propriedade de Brites, Vaz e Irmãos, Lda., em 1930.

Foi seu capitão, nas campanhas de 1936 e 37, João dos Santos Redondo, segundo confirmação da respectiva ficha do Grémio. Nos anos de 1938 a 40,   João Fernandes Parracho, de alcunha o Vitorino foi capitão, já que o navio naufragou, com água aberta, nos bancos da Terra Nova a 31 de Agosto de 1940, não havendo conhecimento de vítimas.

Na última imagem, para os leitores mais observadores, é curiosa a ausência de estrada, que mais parece um estaleiro, e muito menos de avenida e de cais, junto à ria (anos 30).

Sobressai, em baixo, à esquerda, a ré de um mercantel, com o seu pujante leme. Vão-se os tempos, mudam-se os costumes, é caso para evocar!

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Posteriormente, existiu outro navio de nome “Vaz”,navio-motor, de aço, construído na Holanda em 1948, para a mesma empresa. Inicia a faina da pesca em 1949, efectua a última campanha em 1969, sendo, então, adquirido pela Empresa de Pesca Oceano, Lda.

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Ílhavo, 30 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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quinta-feira, 25 de março de 2021

Abria hoje a Feira de Março!...

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Isto é só para lembrar… Para mim, a Feira de Março, apesar da vetustez dos seus quase 600 anos, já foi, já era. Neste ano maldito, pelos motivos que todos sabemos, até faz falta…

Para aí, há sessenta anos, quando vinha de férias da Universidade de Coimbra, que agradável era ir até à Feira de Março! Era mesmo obrigatório experimentar as sensações dos divertimentos mais ousados, para a época – comboio-fantasma, cadeirinhas voadoras, poço da morte –, ir ao Circo, flanar, pavonear as toilettes já primaveris, almejar encontros agradáveis, flirtar, renovar as bijouterias, etc., etc.….

O ambiente favorecia a diversão!

Mas porquê no “Marintimidades”, estas intimidades? Apesar dos meus verdes anos, os barcos moliceiros já não me eram indiferentes. E daí ficou a chapa que bati em 25 de Março de 1961. Não há dúvida que já atraíam as minhas atenções. Eis a prova.

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Inauguração da Feira de Março – 1961
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 Inauguração da Feira de Março - 1961
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A ria, inspiradora e calma, espelhava a paisagem!

Estava um bonito dia primaveril! O Rossio é, era, (será?) sempre o Rossio! Alimentava-se da água que bebia! ….

Além do mais, era hábito os barcos moliceiros estarem presentes, por iniciativa dos arrais, movidos pela tradição, em razoável número, no Canal Central, para exibirem as suas elegantes formas e garridismo cromático. Com eles vinham, também, alguns mercantéis, mais pesadões, mas sempre pujantes senhores da Ria.

Esta imagem deixa-me alguma saudade. Apesar de continuar a apreciar a beleza do Canal Central, algo mudou e, se calhar, não foi para melhor. Opiniões!...

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Antiga ponte Aveiro/Barra
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De passagem pela antiga ponte de Aveiro/Barra, naquela manhã resplandecente e de águas cristalinas, cliquei uma bela imagem do n/m “Ilhavense” e já em pleno Cais dos Bacalhoeiros, outra, do lugre-motor “Coimbra”.

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Lugre-motor “Coimbra”

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Que bela, soalheira e calma manhã de 25 de Março, há 60 anos!...

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Ílhavo, 25 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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domingo, 21 de março de 2021

Fernando Freire N. Pinguelo, motorista da pesca do bacalhau

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Não é a primeira vez que alguma “neta saudosa” se me dirige, na expectativa de saber  mais alguma coisa do seu ente querido, já que pela profissão exercida a bordo, estava muito pouco tempo em casa.

Como as compreendo, que também tinha uma adoração pelo meu avô, também ele, homem do mar.

Eu, tentando localizar a pessoa e agradecer alguns dados que me possa ceder, juntando o “puzzle”, faço sair mais uma singela biografia.

Desta vez, o motorista em causa, é Fenando Freire Nunes Pinguelo e a Sara adora ir “ao baú” para ler uns escritos breves, uma cédula e uns lembretes que deixou, em que a linguagem, para ela, invulgar, a seduz e faz viajar também, no tempo.

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Fernando Freire Nunes Pinguelo, filho de Moisés Nunes Pinguelo e de Zulmira Freire de Assunção, nasceu na freguesia de São Salvador, na Apeada – Ílhavo, em 7 de Março de 1929. A cédula marítima nº 42871 foi passada na Capitania do porto de Lisboa, em 27 de Abril de 1945.

Casou com Maria de Lourdes Graça Bastião, de quem teve três filhos: Fernanda, Aníbal e João Graça Pinguelo.

A sua carreira começou por moço, durante três viagens, ascendendo na profissão, para ajudante de motorista, 3º e 2º motorista.

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Cédula de inscrição marítima
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Viveu 23 anos de mar, de 1946 a 1969, praticamente fiel, toda a vida marítima, à empresa em que muito ilhavenses trabalharam – Parceria Geral de Pescarias (PGP), com sede na Azinheira Velha, Barreiro.

Começou nas safras de 1946, 1947 e 1951, como moço de convés, no navio-motor de aço, “Argus”, dando nota pelos seus escritos, que estava bem a par da pesca diária:

Dia 13 de Maio de 1951. Domingo. Arriou-se e chamou-se às 14 horas. Bento fresco e foi dia de Nossa Senhora de Fátima.

Dia 15 de Maio de 1951. Terça-feira. Arriou-se com bom tempo.

Dia 17 de Maio de 1951. Quinta-feira. Arriou-se com bom tempo. Muito pouco peixe…

O famoso “Argus”, construído na Holanda, em 1939, para a PGP, foi o seu “habitat”, além dos três anos de moço, já citados, também de ajudante de motorista, desde 1948 até 1955. Notabilizou-se o “Argus”, na safra de 1950, pela presença de Alan Villiers investigador, realizador, fotógrafo e oficial da armada australiana, que acompanhou a dita Frota Branca, para dela fazer uma reportagem fotográfica excelente, um filme e escrever o livro talvez mais famoso da pesca do bacalhau “A Campanha do Argus”, com tradução, num sem número de idiomas. E o nosso ajudante de motorista também lá esteve para contar.

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“Argus”, na campanha de 1950
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Interrompeu nos anos de 1956 e 57 a pesca de bacalhau para fazer 3 viagens no navio “Terceirense”, de transporte misto, pertença da Empresa Insulana de Navegação e no navio de carga “Girão”, também pertença da PGP.

Pelos vistos, preferiu o bacalhau e voltou, desta vez, para estrear, em 1958, o n/m” Neptuno”, com outro conforto e melhores condições de navegabilidade, construído para a mesma empresa, nos fatídicos, malogrados e desaparecidos Estaleiros de São Jacinto.

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N/M “Neptuno”
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E o homem íntegro, interessado, curioso, dedicado e particularmente habilidoso, subiu a pulso e, de ajudante de motorista, chegou a 3º e a 2º motorista, até 1968.

E, se foi fiel à PGP quase toda a vida, com o bem conhecido, à época, capitão Adolfo Paião, fez 21 viagens, tendo mudado com ele, do “Argus” para o “Neptuno”. Só se poderiam ter entendido bem.

Foi a última viagem de Adolfo Paião, enquanto Fernando Pinguelo fez mais a viagem de 1969, como 2º motorista, no n/m “Alan Villiers”, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1953, para a empresa Bacalhau de Portugal, Lda.

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N/M “Alan Villiers”

 

Um modo de homenagear a presença de Alan Villiers, na safra de 1950, entre a nossa frota branca.

O nosso marítimo, após a aposentação, ainda teve uns anos para saborear em terra, a merecida reforma.

Faleceu em 11 de Agosto de 2017 com 88 anos.

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Ílhavo, 21 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 16 de março de 2021

António Fernando Redondo

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Cara Carolina:

Não te vou deixar sem reposta, não é meu hábito, embora um pouco tardia.

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Além do mais, uma jovem que se encantou por ter tido a  oportunidade de ler no “Marintimidades”, uma biografia sucinta sobre o seu bisavô, Mário dos Santos Redondo, que não chegou a conhecer, não merece ficar sem resposta.

Pede-me se eu não poderia fazer um texto similar para o seu avô, António Fernando Borges Redondo, de quem tanto gostava, tendo passado, com frequência, férias de Verão, com os avós, na Costa Nova. Expliquei os meus motivos e disse-lhe que, além do avô não ter tido muito tempo de mar, nem uma fotografia tinha dele, identificativa ou, melhor, se fosse a bordo. Poderia ela ajudar-me? A moça esforçou-se, enviou-me uma foto a bordo, do bisavô e do avô, no arrastão “João Álvares Fagundes”, ou seja, quando o António Fernando foi de piloto, ano 1960, com o pai. Tinha de lhe agradecer a oferta, a simpatia, o esforço e gentileza.

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 António Fernando Redondo

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António Fernando de Almeida Redondo, filho de Mário dos Santos Redondo e de Rosa Borges de Almeida Borrelho, nasceu em São Salvador, Ílhavo, em 17 de Abril de 1933.

Era possuidor da cédula marítima 115755, passada na Capitania do porto de Lisboa, em 23 de Julho de 1959.

Como homem do mar, na pesca do bacalhau, foi piloto no arrastão “João Álvares Fagundes”, nas campanhas de 1960 e 1961, sendo comandante o seu Pai, Mário dos Santos Redondo.

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Pai e filho, a bordo do arrastão “João Álvares Fagundes”. 1960
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Entre 1962 e 1964, inclusive, foi imediato do arrastão “João Ferreira”, tendo feito duas viagens, na campanha de 1963.

De seguida, passou a ocupar o cargo de piloto do porto de Leixões, até à reforma, passando a residir em Matosinhos.

Do casamento com Rosa Adelaide da Rocha São Marcos, nasceram os filhos Ana Cristina, Luís Filipe e Fernando António São Marcos Redondo.

Depois de uns anos, adoentado, mas em que ainda ia para a Costa Nova, no Verão, deixou-nos, em 30 de Junho de 2018, com 85 anos.

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Um beijinho, Carolina, e obrigada pela bonita foto que me enviaste.

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Ílhavo, 16 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 9 de março de 2021

O lugre "Ariel"

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Fiz várias consultas para saber um pouco mais do “Ariel”, bonito lugre que também fez parte daqueles que tiveram como cemitério a barra de Aveiro, em princípios do século XX.

Mas com tão, tão curta existência, não poderia ter longa história. Foi o que consegui.

 

O "Ariel”, lugre de madeira, de três mastros, com arqueação líquida de 191 toneladas, foi construído na Gafanha da Nazaré por Manuel Maria Bolais Mónica para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, Lda., de Aveiro, e lançado à água no dia 7 de Abril de 1919.

Há quem lhe tenha atribuído como primeiro proprietário Testa & Cunhas, mas, em minha opinião, tal seria impossível, pois a empresa ainda não estava constituída.

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Única foto conhecida do "Ariel"

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Depois de realizar a 1ª campanha na pesca do bacalhau, naufragou à entrada da barra de Aveiro, em virtude da escassez de vento e agitação do mar, no dia 11 de Novembro de 1919.

Durou nada mais do que seis meses, de Abril a Novembro.

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Sabendo-me interessada no assunto, pessoa amiga fez-me chegar às mãos estas notícias, que, por raras, não deixam de ser curiosas.

 

Título – "Barco em perigo"

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De Aveiro foi pedido ao Ministério da Marinha um rebocador com a força precisa para socorrer um navio em perigo.

In "Comércio do Porto", 12.11.1919

 

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Título – "Lugre encalhado – Os socorros"

 

Pela Capitania de Aveiro, foram na noite de anteontem pedidos socorros para a Capitania de Leixões, por se encontrar encalhado na barra de Aveiro, um lugre português, cujo nome se desconhece e que parece ser bacalhoeiro. Imediatamente foram dadas ordens para saírem daquele porto a Canhoneira "Limpopo" e o rebocador "Magnete".

Estas embarcações, que voltaram ontem para o porto de Leixões, onde chegaram pela 1 hora da tarde, nenhum socorro puderam prestar,  devido à forte agitação do mar. O lugre continua na mesma posição.

In "Comércio do Porto", 13.11.1919

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Título – "Naufrágio"

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Acerca do navio que naufragou na costa de Aveiro, a que nos referimos, recebemos do nosso correspondente em Ílhavo as seguintes informações, que o correio nos retardou, pois que as devíamos ter recebido anteontem…

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Ílhavo, 12 – O lugre "Ariel", que regressava da pesca do bacalhau com um carregamento de cerca de cinco mil quintais de peixe, ao demandar ontem, à tarde, a nossa barra, encalhou num banco de areia, e perdendo o governo por falta de vento, veio dar à costa ao sul da barra.

A tripulação foi salva com um cabo de vaivém, e é possível salvar-se parte da carga.

O "Ariel", porém, considera-se perdido. Era um lindo barco, construído há pouco nos estaleiros da Gafanha, sendo esta a primeira viagem que fazia.

In "Comércio do Porto", 14.11.1919

 

Obrigada, pois, pelas informações conseguidas, após pouco mais de 90 anos do acidente, que vitimou o “Ariel.

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E aos poucos, se vai reconstituindo a história trágico-marítima da nossa frota bacalhoeira.

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Fotografia – Amável cedência do MMI.

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Ílhavo, 09 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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sábado, 6 de março de 2021

Ângelo Mendes, pescador do bacalhau

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Ângelo Mendes, em primeiro plano, à direita
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Esta foto atraiu-me, seduziu-me, encantou-me! Vida dura! Gente dura e heróica, estes homens dos “dóris”! Meia dúzia de pescadores entretêem-se no “rancho”, conversam, bebem em canecas de esmalte, fazem-se à fotografia, mostram as suas vestimentas – camisas típicas axadrezadas e outras, lisas; na cabeça, as características boinas negras ou boné de pala. Ao fundo, avista-se o amontoado de roupas de linhas e de estralhos. Jogam as damas. E é essencialmente este pescador em que o axadrezado das damas se confunde com o quadriculado da camiseta, que me interessa, especialmente. Não é porque os outros não me interessem. A imagem é um todo. Era aqui o “rancho”. Seria um regresso para Portugal, com a alma cheia de saudades acumuladas, com a esperança de quem vai abraçar a família? Talvez.

Esta foto já a conhecia, mas nunca me tinha chegado às mãos – fotos no “rancho”, na cozinha, à época, no salão dos oficiais, entre “hinos” do porão, são muito raras pela deficiente luz dos espaços e raridade de bom material fotográfico.

Foi o amigo António Bizarro, que me identificou o sogro, o tal pescador que jogava as damas, com camisa axadrezada e que me contou o resto. A ficha do Grémio ajudou.

Ângelo dos Santos Mendes, conhecido por Pote, nasceu em Ílhavo, filho de pai incógnito e de Maria Rosa de Jesus, em 8 de Novembro de 1905.

Casou em 22 de Novembro de 1930 com Laurinda de Oliveira, de quem teve três filhos e uma filha, a mais velha, que bem conheço, Maria Ângela de Oliveira Mendes, esposa de António Bizarro.

Era possuidor da cédula marítima nº 16.388, passada pela Capitania do porto de Aveiro, em 1920. Na ficha do Grémio, declara que exerceu a profissão de moço, desde 1921 e de pescador do bacalhau desde 1927.

 

Só a partir de 1936, sabemos em que lugres andou. Entre 1936 e 1939, passou pelo “Santa Mafalda”, “Groenlândia” (2 viagens) e “Milena”, na categoria, respectivamente de pescador/especial e 1ª linha.

 

Em 1940, assentou arraiais no bonito lugre de quatro mastros, “Novos Mares”, construído em 1938, por Manuel Maria Bolais Mónica, até 1945, tendo-se cruzado com o meu avô, Manuel Simões da Barbeira, conhecido por capitão Pisco, nos anos de 1940 a 42, ano em que deixou o mar.

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“Novos Mares” na Groenlândia. 1938

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De saco de lona às costas, em 1946, estreou o “Maria das Flores”, depois de um conturbado desencalhe no Bico da Murtosa e muitas peripécias na viagem do Bico até ao ancoradoiro da Gafanha da Nazaré. De 1946 até 1954, 9 viagens, oscilando entre as categorias de 1ª e 2ª linhas e especial. Conviveu com os capitães, seus conterrâneos, Manuel Pereira Teles e Manuel de Oliveira Vidal Júnior.

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“Maria das Flores”
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Na safra de 1955, ano em que deixou o bacalhau, mudou as tralhas para o convés do n/m “Vila do Conde”, inaugurado pelo capitão José Augusto Machado dos Santos, onde foi 2ª linha e salgador, tarefa duríssima.

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Em dia de bota-abaixo
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Passou por diversos navios, mas aquele de que era verdadeiramente o capitão, era o seu bote – meio de vida ou local de morte. Meio de vida, porque era ali que ganhava o seu sustento e de sua família, numa viagem cheia de perigos, incertezas e medos, ao longo de seis meses. Local de morte, muitas vezes, porque os perigos que o espreitavam eram muitos: o nevoeiro cerrado, que, por vezes se fechava sobre o bote, impedindo-o de localizar o navio-mãe; um vento ciclónico que se levantava de modo a afastá-lo demais no seu bote; a ganância de ganhar mais uns escudos, que o fazia carregar o bote demasiado, levando-o ao fundo; sendo assim, as pesadonas botas de cabedal enchiam de água gelada e o pescador jamais voltaria à superfície, mesmo pertinho do navio a que pertencia. Mas “no seu bote era livre, porque era ele o capitão”, para o mal e para o bem.

Deixou-nos cedo. Faleceu a 29 de Dezembro, de 1956 com 51 anos de idade.

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Ílhavo, 06 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 5 de março de 2021

Cenas litorâneas - Buarcos

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A minha mente está recheada de belas cenas litorâneas – algumas, muitas, dei-as ao prelo em livros, e, mais tarde, no blogue Marintimidades. Outras há que não tiveram essa sorte e ainda não foram contadas, narradas, exibidas, retratadas por palavras ou imagens.

É o caso desta, passada em Buarcos, pelos anos oitenta que sempre me deixa saudades, pela vida que ornamentava o nosso litoral. Menos meios, vida mais precária, mais faltas, mas mais riqueza e beleza antropológica e etnológica.

Chegada a Buarcos, à procura do dito bote de Buarcos, à volta do primeiro decénio deste século, o desânimo invadiu-me. O que é feito dos botes que daqui saíam para o mar de uma forma encantadora? Seduziu-me este recanto, pelos anos oitenta, noutra investida remota de inquirições.

Areia deserta, mar deserto, ninguém na praia, sequer, a quem perguntar.

Nos anos sessenta em Buarcos, o bote tinha «grosso modo» a silhueta dos botes do bacalhau. E não é por acaso que isto acontece. Desaparecidos gradualmente os navios de pesca à linha do bacalhau, os dóris ou botes, construídos nas carpintarias das empresas por hábeis carpinteiros, foram perdendo a razão de existir. Construção simples permitia que em alguns pormenores não fossem totalmente iguais, mas as suas dimensões principais geralmente eram respeitadas: 5,30 metros de comprimento, 1,50 m. de boca e 0,60 m. de pontal. Alguns museus marítimos exibem-nos com orgulho, como o da Póvoa de Varzim, o de Ílhavo e o Museu de Marinha, em Lisboa.

Em algumas das localidades que forneceram homens para a pesca do bacalhau (Costa Nova, Gafanhas, Cova/Gala e outras), foram transferidos alguns para a pesca local, sofrendo algumas modificações.

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Na Costa Nova, na apanha do crico. Anos 80

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Aos poucos, foram abandonando o tabuado trincado, recebendo à popa um banco em U, e passaram a ter bancos fixos, ganhando castelo de proa fechado por portinhola e popa, mais larga, com um pequeno motor.

Pelos anos 80, a silhueta do bote foi abrindo, pois as águas a que se destinava não eram as mesmas e o comprimento também excedeu os 5 metros.

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À espera e à conversa, na praia…Anos 80
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Em Buarcos, assistimos ao encalhe do último bote daquele dia, puxado por uma junta de bois que todos os dias se dirigia à praia com aquela finalidade. A dona da junta fazia este trabalho há 40 anos, desde que se casara em Buarcos e recordou a existência de grandes bateiras (maiores que os botes) e de lanchas poveiras (ainda muito maiores).

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Junta de bois a varar o bote, em Buarcos. Anos 80
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O bote era utilizado para a rede de um pano para a faneca, para o tresmalho (rede de três panos) para o linguado, sargo, robalo, etc., para o aparelho a que chamavam troles com muito inzóis, para a linha de mão para o safio e para os cofos.

Que encanto! Como vemos, a venda do peixe era feita na praia directamente aos banhistas, colaborando a mulher com o marido na separação do peixe e sua pesagem.

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O peixeiro a pesar… Anos 80
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Em 2005, a visita ao local foi desmotivante. Apenas um bote para amostra, de 6 metros de comprimento, 2 m. de boca e 0,60 m. de pontal, em madeira, anódino, e mesmo assim, protegido e coberto, fora de uso, porque pertencera a um ex-pescador de 84 anos, já bastante doente.

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Este local tornou-se muito perigoso e «tudo desistiu, não há autorização» – informaram-me.

– A Senhora encontrará alguns botes no porto de abrigo da Cova-Gala – e lá fui, meia murcha, observá-los, com saudades da algazarra, movimento e alarido do areal, pelo menos dos anos 80.

Vi bastantes, de cores alegres, quase todos de madeira e muito poucos revestidos a fibra. Actualmente, são usados na pesca, no rio.

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Botes usados no rio. Porto de abrigo da Cova-Gala. 2006

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Por estas e por outras, tenho a mente cheia de belas cenas litorâneas, que passaram ao lado da maioria das gentes.

 

Ílhavo, 05 de Março de 2021

Ana Maria Lopes

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terça-feira, 2 de março de 2021

Dos lugres "Águia" ao "Silvina"

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O lugre “Silvina”, registado em Aveiro, foi construído na Gafanha da Nazaré, em 1919, por Manuel Maria Bolais Mónica, com o nome de “Águia”, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, tendo sido o bota-abaixo a 4 de Outubro de 1919. Era um lugre com três mastros, de madeira, proa de beque, popa de painel e um pavimento.

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Dia de bota-abaixo do lugre “Águia” (1919)
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Media de comprimento, entre perpendiculares, 35,50 metros, 8,80 m. de boca e 3,60 de pontal. Tinha uma arqueação bruta de 212, 33 toneladas e líquida de 169,88.

Não tinha motor auxiliar e a tripulação era, em média, de quarenta homens.

Em 1920, foi comprado por 75 000$00, pelo Sr. João Bola, para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, em Aveiro, para quem já efectuou a campanha em causa, com o nome de “Silvina”.

 

Surge com características ligeiramente diferentes: 40, 42 metros de comprimento, fora a fora, 34,67, entre perpendiculares, 8,92 m. de boca e 3,62 de pontal. A arqueação bruta era de 207,76 toneladas e líquida de 152,65.


Foi vendido à empresa Agualuza & Batata, Lda., de Aveiro, em 1927, ficando este contrato anulado, face à compra da totalidade dos bens do armador pela firma Testa & Cunhas, ainda durante o ano de 1927, tendo-lhe sido atribuído o valor de 250 000$00 (escritura em 20.12.1927).

De 1920 a 1926, foi comandado por Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco, de alcunha) e em 1927, por António de Souza.
Já na posse de Testa & Cunhas, foi capitão em 1928, Ambrósio Gordinho, e em 1929, António de Souza (ou, eventualmente, Manuel dos Santos Lanbrincha).

Curiosidades:

Nos anos de 1928, 1929 e 1930, o navio foi à Terra Nova com 37, 37 e 36 tripulantes, respectivamente, tendo utilizando sempre 32 dóris. Nestas campanhas de fracas capturas, foram apurados apenas 1.148, 1.400 e 835 quintais de peixe e 1.100, 2000 e 1.200 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a venda foi de 140.000$00, 172.000$00 e 102.000$00 (escudos), certamente muito abaixo das melhores perspectivas, resultando daí um considerável prejuízo.

Daí resultou o navio não ter feito as viagens seguintes.

Na acta de 7 de Dezembro de 1932 da firma Testa & Cunhas, Lda., os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do “Ernani” e “Cruz de Malta”.

Decidiram ainda anunciar a venda do navio “Silvina”, entendendo que o podiam dispensar. Todos concordaram, desde que se pudesse efectuar em boas ou regulares condições, ficando a gerência autorizada a promover a sua venda.

Segue:

Depois de elaborado o presente relatório (acta de 11 de Agosto de 1934), chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre “Ernani” nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores. Uma dificuldade surge.

Como suprir a baixa daquela unidade?

Três soluções se apresentam:

1ª – Reparar e apetrechar o “Silvina”

2ª – Adquirir um navio já feito

3ª – Mandar construir um navio novo

Resolveu-se reparar o lugre “Silvina”, de modo a estar pronto para a futura safra (para o que foram gastos cerca de 50 contos), obtendo a Gerência informação dos barcos que se ofereçam em boas condições, quer no país, quer no estrangeiro e ainda de um orçamento para um barco novo.

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Foto do “Silvina”, frente à seca

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Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. Quem oferece melhores garantias de técnicas é o Senhor Manoel Maria Mónica, que tem dado provas da sua competência e idoneidade. A proposta foi construir um lugre segundo o modelo do “Brites” (1936), com a introdução de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, pelo preço de 640 contos. A aquisição do motor Diesel ficaria a cargo da gerência.

Encomendado em fins de 1936, o “Novos Mares”, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré.

O “Silvina” foi prosseguindo a sua difícil missão, comandado por Joaquim F. Agualuza (de 1935 a 1937) e José Cachim Júnior (de 1938 até 1941), até que viu o seu fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941.


Quem quiser recordar, pormenorizadamente, este acidente, poderá ler as páginas a ele dedicadas (103 a 116 da reedição de 2007), escritas por Jorge Simões, em prosa da época, “O Silvina em chamas”, no livro “Os Grandes Trabalhadores do Mar”. O jornalista fez a campanha de 1941, a bordo do “Groenlândia”, para a observação da faina e recolha de dados.
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Ílhavo, 02 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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