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terça-feira, 5 de novembro de 2024

O Bote Catraio de Passagem da Bacia do Tejo


Continuei o meu caminho e, ao entrar no magnífico porto de Lisboa, dei por mim a pensar que estava na altura de construir um barquinho que só tinha visto numa vitrine da Sala da Pesca do Museu de Marinha, como representação dos pequenos transportadores de passageiros, que ligavam esta cidade à outra banda, como então se dizia.

Procurei no Pavilhão das Galeotas do Museu de Marinha e lá encontrei o que tinha pensado. Era o bote catraio de passagem, que, embora numa dimensão um pouco diminuta, logo me pareceu ser este o modelo que ficava a aguardar oportunidade e disposição para dar início a um novo trabalho, que ia enriquecer a minha colecção.

Era um belíssimo trabalho da coleção Seixas, que como todos é de uma perfeição e rigor inexcedíveis.

Não foi preciso mais nada para me dar a coragem que me andava a fazer falta. Preparei um plano de formas na escala de 1/25, como me é habitual, para que este modelo possa vir a fazer parte da minha já vasta colecção. É um airoso barquinho de formas perfeitas. Como trabalha com velas de espicha vai enriquecê-lo duplamente, pois será o primeiro desta arte.

Agora nada mais era preciso para começar a preparar o estaleiro e procurar nas minhas reservas os pedaços de madeira de limoeiro que me iam permitir fazer a quilha e as rodas da proa e da popa.

Prontas estas peças, chegam os pormenores e o trabalho vai com mais vagar. As escarvas de ligação devem ser perfeitas, para o conjunto ficar resistente, desempenado e certo no comprimento que o modelo tem. De seguida, é o alefriz que vai levar algum tempo para ficar bem graminhado, principalmente no redondo da roda de proa.

Agora, durante a montagem no estaleiro, tudo tem de ser feito com atenção. A quilha deve ficar bem segura, com a roda e o cadaste alinhados e fixados na vertical, para que o barquinho se construa perfeito.

Chegou então a altura de tratar das cavernas e as primeiras são as duas da casa mestra. Como são iguais, são marcadas e serradas ao mesmo tempo e depois de prontas assentes na quilha nos respetivos lugares, marcados previamente, de acordo com a informação retirada do plano de construção.

Com a colocação de mais algumas cavernas para vante e para ré das mestras, o meu bote começa a mostrar as suas formas elegantes e bem proporcionadas.

Aos olhos de quem o observa, as linhas do seu casco parecem ter sido retiradas de algum gabinete de arquitectura naval, traçadas por mestre muito sabedor.

Estou convencido, se hoje esse gabinete tivesse que idealizar uma embarcação de vela e remo, para executar o trabalho de transportar pessoas de um para outro lado da bacia do Tejo, ou passageiros e tripulantes de navios ancorados neste porto, serviço que a esta estava destinado, nada alterava ou modificava nesta pequena embarcação.

O desenho que me orientou é de Francisco Dias datado de 1929, o que me leva a pensar que teriam sido os barqueiros que navegavam nestes catraios, os chamados catraeiros, que reunidos em grupo, formaram a conhecida Companhia dos Catraeiros. Recordo que, era aos Catraeiros que eu fazia a requisição das lanchas e reboques, quando eram necessários para as manobras do meu navio em porto.

Mas voltando ao meu modelo; quando o casco ficou pronto e afagado a preceito, chegou a altura de começar a preparar o leme, as bancadas e os paneiros. Ainda faltava o mastro do grande, o da catita, o gurupés, o botaló e as varas das espichas, para poder tirar a dimensão e a forma dos painéis da vela grande, da catita e da de estai, que me permitiriam riscar no pano as respectivas velas.

Como este bote usava a arte de espicha (velas em que o punho da pena é esticado por uma vara em diagonal), este plano vélico era também uma novidade para mim e foi necessário aprender. Depois de cortadas, bainhadas, entralhadas e envergadas nos respetivos mastros, foi com muito gosto que verifiquei que o meu trabalho tinha resultado.

Faltava ainda fazer dois pares de remos, uma fateixa, um balde e um vertedouro para o meu bote catraio de passagem ficar aparelhado.

Resolvi deixar este modelo sem pintura. Dei isolante por fora e por dentro e revesti tudo com recuperador incolor para ficar à cor da madeira. Como sempre, apliquei madeira de limoeiro nas peças estruturais, choupo no costado, tola nas cintas bancadas e remos. Ramos de ameixieira nos mastros e varas. Nas ferragens e âncora, usei cobre. Nas velas e cordame algodão.

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Por estibordo
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De cima…
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Plano de construção
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Plano vélico
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Este modelo do bote catraio de passagem da Bacia do Tejo construído na escala 1/25, representa uma embarcação com as seguintes dimensões:

. Comprimento fora a fora……6,62 m

. Boca………………………...…2,35 m

. Pontal……………………..…..0,89 m

 

Gafanha da Nazaré, 3 de Setembro de 2023

António Marques da Silva

domingo, 6 de outubro de 2024

A Catraia Piladeira de Esposende

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E Marques da Silva continua:

Concluído o meu modelo da masseira de Vila Praia de Âncora, tinha chegado a hora de continuar a navegar para o sul, pois era esse o caminho que vinha fazendo, ao encontro de embarcações locais.

Não foi necessário percorrer grande distância, pois chegado a Esposende, logo os olhos ficaram presos na elegante e vaidosa catraia piladeira, embarcação que foi muito utilizada, em toda esta zona da nossa costa.

De Esposende para sul até ao Douro, era possível encontrar sempre embarcações deste tipo. Mesmo com pequenas alterações, necessárias à arte de pesca ou ao local onde tinham de trabalhar, era sempre bela a sua presença.

Mas é a catraia piladeira de Esposende, que eu vou tentar reproduzir, seguindo os desenhos do magnífico livro “Embarcações Tradicionais: Em busca de um património esquecido” de Ivone Baptista de Magalhães, p. 80, e todas as preciosas informações que a pesquisa no computador sempre pode facultar.

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Página do livro citado
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Como sabemos, esta embarcação que não passava dos sete metros de comprimento, era construída com uma elegância de linhas e uma beleza de formas que a meu ver, é difícil de superar.

Tendo de boca, isto é, de máxima largura, uma dimensão que à primeira vista parecia exagerada, os seus construtores conseguiram com o lançamento de proa e os bem delineados delgados de popa, fazer um casco que dá gosto observar.

Certo é, que não foi de ânimo leve que assim o idealizaram com tão grande largura. A vela que lhe estava destinada era enorme e foi essa a forma de a conseguir envergar e marear, permitindo atingir com segurança, uma considerável velocidade.

Foi com todas as informações que consegui recolher, que preparei como é meu costume, um plano de construção de modelo de uma catraia piladeira, na escala de 1/25, para juntar aos meus anteriores modelos.

Principiei então a preparação do estaleiro e a escolha da madeira para a quilha, roda de proa e cadaste. Depois para o cavername escolhi os ramos mais curvos, que melhor se adaptavam às delicadas formas da minha catraia que ia ficando cada dia mais bonita. Mas quando se aplicaram as sarretas e as primeiras tábuas da cinta, era um gosto para a vista e até mereceu a sessão de fotografias que a perícia do meu sobrinho Quim tão bem fixou e que eu vou guardar para memória futura.

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Uma mão cheia …de cavername
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Aos poucos fui concluindo o tabuado do casco, e depois dos arranjos interiores, apliquei por fora e por dentro o costumado tratamento para a madeira, que a deixou de cor dourada e tão bonita que nem apetecia pintá-la.

Mas era preciso fazer a porta do leme e respectiva ferragem para fixação no cadaste e em seguida tratar do mastro e da verga para definir o painel da vela.

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Pormenor dos aprestos
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Pronta a vela, comecei a construir a fateixa, a polé, o vertedouro e os forcados, onde arrumei os quatro remos depois de prontos, para não estorvarem a manobra de rede, que consegui arrumar numa das casas da popa.

Ficou assim pronto o meu modelo da catraia piladeira de Esposende, a que atribui o nome de Gaivina.

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                                      A Gaivina – catraia piladeira de Esposende


Como de costume, apliquei madeira de limoeiro nas peças estruturais da ossada e choupo no forro dos costados. Para as ferragens usei arame de cobre, nos remos, madeira de tola e no mastro na verga e nos forcados, ramos de ameixieira. A vela, os cabos e a rede são de algodão.

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De proa…

 

A catraia que procurei representar teria:

 

Comprimento…………...7.00  m

Boca……………………..2.50  m

Pontal…………………...0.87  m

10/12/2015

António M. Silva

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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O "carocho de Caminha"

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“Carocho” de Caminha –

Embarcação do rio Minho

 

Completada a minha colecção de embarcações da Ria de Aveiro e do meu bote de meia quilha como representante das da bacia do Tejo, por que não procurar construir algumas que nos recordem os rios do norte de Portugal?

Esta pergunta que fiz a mim mesmo levou-me a pesquisar algumas informações sobre este assunto.

Principiando pelo Rio Minho, não foi difícil encontrar as respostas de que necessitava.

O carocho português foi título que logo me prendeu a atenção e que trouxe consigo as informações desejadas: adaptação sob desenhos de José Gonçalves e apontamentos de memórias de João Paulo Baptista.

Muito grato a estes dois estudiosos, deitei mãos à obra.

Baseado nos desenhos que são apresentados, comecei a preparar um plano de construção do modelo na escala de 1/25, como é meu costume, para fazer um carocho de Caminha, que, na realidade, tivesse aproximadamente seis metros de comprimento.

Agora só me restava seguir as informações que o autor dos referidos «Apontamentos e Memórias» tão detalhadamente apresenta acerca desta embarcação. Sugere ainda o autor a existência no Rio Minho de um carocho galego muito semelhante ao nosso, mas é o de Caminha que eu vou procurar reproduzir.

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Visão geral
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Tratando-se de uma construção que segue o método conhecido por (shell-first), isto é costado primeiro, tudo é um pouco diferente das minhas anteriores bateiras e barcos da Ria de Aveiro. Para estas como sempre referi, o cavername é assente no fundo, para depois receber os costados.

Aqui, como o autor explica, depois de pronta a quilha, ser-lhe-ão aplicadas com escarva as rodas de proa e de popa, seguidas das duas primeiras tábuas, que pregam directamente para estas peças. Só então se assentam as sete primeiras cavernas do meio.

Assim tentei proceder, mas logo me surgiu uma dúvida. Como pregaria estas primeiras tábuas na quilha, se não tivesse umas sólidas abas laterais para as receber?

Entendi que à quilha vertical deveria sobrepor-se uma tábua/quilha, que iria topar nas extremidades dos pés das rodas, onde previamente se teriam afundado os alefriz, para receber as tábuas dos costados.

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De proa
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Assim fiz, por ter concluído que em minha opinião, seria a forma prática para fazer este trabalho.

Aplicadas então as duas tábuas do fundo, preparei as sete cavernas que coloquei no seu lugar, seguindo a indicação de que a estas se juntariam as restantes quatro, sendo três para vante e uma para ré.

Daqui se conclui que a caverna mestra, a mais larga das primeiras sete, fica nitidamente para ré da meia-nau. Esta é a razão que vai permitir ao carocho mostrar a sua proa adelgaçada, muito elegante e levantada, depois de pregadas todas as tábuas da borda.

Voltando à construção, e tendo já colocada a segunda tábua de cada lado, fiz os braços para juntar às cavernas, para que cada uma ficasse com a largura que lhe era devida.

Só depois assentei as tábuas da borda e as restantes cavernas de vante e de ré. Com a aplicação do verdugo, do alcatrate e do talabardão, já era possível fixar as quatro chumaceiras com os escalamões para os remos, ficando a borda completa e o carocho com ar de acabado.

Mas ainda lhe faltava a bancada do meio, o assento da popa, os paneiros inclinados das casas de vante e de ré, os remos, o mastro e a verga, o vertedouro e a fateixa, sem esquecer a vela e o leme, para que possa navegar quando tiver vento de feição.

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Pormenor dos aprestos

Como é meu costume, apliquei na construção madeira de limoeiro para a quilha, rodas de proa, de popa e cavername. Para o tabuado utilizei choupo, para os remos tola e para o mastro e verga ramos de ameixieira.

A vela e os cabos são de algodão, a fateixa e as ferragens do leme, de arame de cobre.

Os costados, por fora, pintei-os de preto para imitar o breu e por dentro dei bondex para imitar o breu louro aplicado para conservação da madeira.

A embarcação real representada tinha de:

 

Comprimento ……6,45 m

Boca……………...1,60 m

Pontal…………… 0,45 m

 

Caxias, 12/07/2015

António Marques da Silva

 


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Que surpresa, ontem, no MMI...

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Ontem, foi uma surpresa na entrada do MMI, para os amigos que frequentam com alguma regularidade o Museu. E, sobretudo para o autor dos modelos.

O Amigo Marques da Silva depositara-os no museu, na semana passada, já que, por motivos diversos, não estavam inseridos na actual exposição que homenageia o autor. Estão, então, na vitrine da recepção, à entrada. A saber, o “moliceiro”, o primeiro modelo que o autor fez, já há alguns anos, que esteve na origem de uma brochura sobre a embarcação, entretanto esgotada, o “matola” ou “mirão”, moliceiro da zona sul da ria, a “mercantela”, a dita “barca da passagem Os Velhotes”, a “matola ou ladra”, que apanhava o moliço acumulado nas praias ou em locais mais recônditos e a “patacha” usada na Pateira de Fermentelos.

Todos de uma delicadeza, perfeição e beleza, na escala de 1/25.

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Barco moliceiro e o seu autor
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“Matola” ou “mirão”, do sul da ria
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Mercantela – Barca da passagem “Os Velhotes”
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“Matola ou ladra”, auxiliar do moliceiro, outrora
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“Patacha” da Pateira de Fermentelos

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Ílhavo, 20 de Outubro de 2022

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Ana Maria Lopes

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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Modelos de Marques da Silva

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Desde 7 de Agosto até 31 de Dezembro, está patente no Museu Marítimo de Ílhavo, a exposição “Ciências Náuticas – Memórias e Modelos”, que pretende homenagear o Capitão António Marques da Silva, através da exibição dos seus trabalhos.

Desde 2008, o Amigo Marques da Silva, com a generosidade que lhe é conhecida, depositou no Museu, uma riquíssima colecção de modelos de embarcações tradicionais da Ria de Aveiro, de modelos de lugres da pesca do bacalhau e de sete embarcações que navegaram nos Descobrimentos Portugueses, entre outros artefactos relacionados com a pesca à linha do bacalhau e alguns desenhos a lápis de lugres e do lugre-patacho “Gazela-Primeiro”. Ainda estão presentes as publicações com que nos foi brindando, entre 1998 e 2021.

Este post no “Marintimidades”, tem por objectivo chamar a atenção para a exposição, em que os modelos têm um lugar de honra.

Meia dúzia de fotografias de telemóvel, e com o defeito do reflexo das vitrines, pretende cativar os leitores, para os irem observar ao vivo, para apreciar toda a sua minúcia e beleza – as mais bonitas “maqettes” saídas das hábeis mãos de Marques da Silva.

Muito parabéns ao Autor e continuação da feitura de mais uns modelos, que põem à prova toda a sua sabedoria, paciência e habilidade manual.

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Lugre Creoula

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Lugre Argus
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Lugre-patacho Gazela Primeiro e lugre Hortense
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Bateira ílhava
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Barco do mar Sto. António
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Bateira de bicas e caçadeira de pesca Namy
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Ílhavo, 3 de Outubro de 2022

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Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Marques da Silva expôs "modelos" na Universidade Sénior

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Ao dar uma mexedela em lume brando aos meus ficheiros fotográficos, encontrei um, que abri, intitulado “Modelos. Universidade Sénior”. Sabia e lembrava-me muito bem do que era.

Em Maio de 2011, já lá vão mais 11, o Amigo Capitão Marques da Silva, com a minha  colaboração, levou a efeito uma Exposição dos seus modelos de embarcações tradicionais, na Universidade Sénior da Gafanha da Nazaré, sobre os quais teceu algumas histórias, memórias e explicações.

Durante mais estes anos, "muita água passou por baixo das pontes" e Marques da Silva não parou de “maquetar”. Voltarei ao assunto.

Por agora, debrucemo-nos sobre estes, de que estou certa que ele vai apreciar. É um homem  de memórias, habilidade manual e muito saber.

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A jeitando “os seus meninos”

 

Aspecto parcial
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Outro aspecto…
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Mais um…
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Hei-de voltar aos grandes modelos deste nosso amigo.

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Ílhavo, 30 de Setembro de 2022

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Ana Maria Lopes
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domingo, 21 de fevereiro de 2016

A CATRAIA de ESPOSENDE


Concluído o meu modelo da masseira de Vila Praia de Âncora, tinha chegado a hora de continuar a navegar para o sul, pois era esse o caminho que vinha fazendo, ao encontro de embarcações de pesca local. 
Não foi necessário percorrer grande distância, pois chegado a Esposende, logo os olhos ficaram presos na elegante e vaidosa catraia, embarcação que foi muito utilizada, em toda esta zona da nossa costa.
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De Esposende para sul até ao Douro, era possível encontrar sempre embarcações deste tipo. Mesmo com pequenas alterações, necessárias à arte de pesca ou ao local onde tinham de trabalhar, era sempre bela a sua presença.
Mas é a catraia piladeira de Apúlia, que eu vou tentar reproduzir, seguindo os desenhos do magnífico livro «Embarcações Tradicionais: Em busca de um património esquecido» de Ivone Baptista de Magalhães, p. 80, e todas as preciosas informações que a pesquisa no computador sempre pode facultar. 

Desenho do livro citado

Como sabemos, esta embarcação que não passava dos sete metros de comprimento, era construída com uma elegância de linhas e uma beleza de formas que a meu ver, é difícil de superar.
Tendo de boca, isto é, de máxima largura, uma dimensão que à primeira vista parecia exagerada, os seus construtores conseguiram com o lançamento de proa e os bem delineados delgados de popa, fazer um casco que dá gosto observar.
Certo é, que não foi de ânimo leve que assim o idealizaram com tão grande largura. A vela que lhe estava destinada era enorme e foi essa a forma de a conseguir envergar e marear, permitindo atingir com segurança, uma considerável velocidade.
Foi com todas as informações que consegui recolher, que preparei como é meu costume, um plano de construção de modelo de uma catraia piladeira, na escala de 1/25, para juntar aos meus anteriores modelos.
Principiei então a preparação do estaleiro e a escolha da madeira para a quilha, roda de proa e cadaste. Depois para o cavername escolhi os ramos mais curvos, que melhor se adaptavam às delicadas formas da minha catraia que ia ficando cada dia mais bonita. Mas quando se aplicaram as sarretas e as primeiras tábuas da cinta, era um gosto para a vista e até mereceu a sessão de fotografias que a perícia do meu sobrinho Quim tão bem fixou e que eu vou guardar para memória futura.

Uma mão cheia …de cavername

Aos poucos fui concluindo o tabuado do casco, e depois dos arranjos interiores, apliquei por fora e por dentro o costumado tratamento para a madeira, que a deixou de cor dourada e tão bonita que nem apetecia pintá-la.
Mas era preciso fazer a porta do leme e respectiva ferragem para fixação no cadaste e em seguida tratar do mastro e da verga para definir o painel da vela.

Pormenor dos aprestos
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Pronta a vela, comecei a construir a fateixa, a polé, o vertedouro e os forcados, onde arrumei os quatro remos depois de prontos, para não estorvarem a manobra de rede, que consegui arrumar numa das casas da popa.
Ficou assim pronto o meu modelo da catraia piladeira de Apúlia, a que atribui o nome de Gaivina.
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A Gaivina – catraia piladeira de Apúlia
-
Como de costume, apliquei madeira de limoeiro nas peças estruturais da ossada e choupo no forro dos costados. Para as ferragens usei arame de cobre, nos remos, madeira de tola e no mastro na verga e nos forcados, ramos de ameixieira. A vela, os cabos e a rede são de algodão.
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De proa…
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A catraia que procurei representar teria:
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Comprimento…………...7.00  m
Boca……………………..2.50  m
Pontal…………………...0.87  m
Escala utilizada 1/25

10/12/2015
António M. Silva 

sábado, 19 de dezembro de 2015

A gamela ou masseira de Vila Praia de Âncora

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Prosseguindo a minha pesquisa acerca das embarcações dos rios e das praias do norte, desci um pouco para o sul de Caminha e parei em Vila Praia de Âncora.
Os autores do trabalho que me ajudou na construção do carocho de Caminha, desenvolvem igualmente os seus estudos na direcção de uma embarcação utilizada pelos pescadores de Âncora, que nesta praia toma o nome de gamela ou masseira.
Assim, continuando a seguir atentamente a, «Adaptação sob desenhos de José Gonçalves e Apontamentos e memórias de João Baptista», obtive mais uma vez, as informações que desejava, para construir um modelo desta invulgar embarcação de pesca.
Dizem-nos os autores deste estudo que na Galiza se utilizava também uma masseira muito parecida com esta, mas é a de Âncora que vou tentar reproduzir tão fiel quanto me for possível.

De proa

Grato a estes dois estudiosos e seguindo as suas preciosas memórias, comecei por preparar como de costume, um plano de construção de modelo, simplificado, para reproduzir uma masseira com cerca de quatro metros e oitenta, na escala de 1/25, que é a que mais costumo utilizar.
Principiando este trabalho, logo fui verificando que sendo tão próximas estas localidades, o método de construção utilizado no carocho e nesta masseira, são totalmente diferentes.
Na verdade, tanto na forma, como no aspecto, estas duas embarcações também em nada se podem comparar.
O «shell-first» utilizado na construção do carocho é aqui completamente esquecido e voltamos a ter primeiro a preparação do painel do fundo, onde se vão aplicar as quatro cavernas, seguidas dos respectivos braços.
Como na masseira não há roda de proa nem cadaste, estas peças são substituídas por painéis trapezoidais, que depois de colocados nos seus lugares a vante e a ré do fundo vão receber as tábuas dos costados.
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De popa

Ficamos assim com uma embarcação de formas específicas, diferentes de todas as que tenho vindo a reproduzir nos modelos que tenho construído.
É na verdade na sua forma muito semelhante a uma gamela ou masseira, mas suficientemente reforçada interiormente e com dimensões para poder suportar ser utilizada na pesca e vir à praia em mar aberto.
Por esta razão, tem pregadas no fundo a todo o comprimento, a meio e nos lados, umas largas réguas para protecção ao apraiar.
Interiormente tem três bancadas, sendo a de vante com uma enora para o mastro. Tem paneiros a vante e a ré e duas anteparas transversais, sendo uma na primeira caverna de ré e outra na última de vante.
As chumaceiras para escalamões são três por bordo, podendo assim usar dois ou quatro remos para sua deslocação com falta de vento.
No painel de ré tem ferragens para aplicação de um leme de cana, cuja porta desce abaixo do fundo.
Usa vela de pendão de amurar a vante, do tipo poveiro. Como palamenta tem quatro remos, um vertedouro e uma âncora de pedra, dita poita.
 
Pormenor interior com palamenta

Na construção deste modelo, como de costume, utilizei madeira de limoeiro no cavername e de choupo no tabuado. Nas ferragens arame de cobre e na vela pano de algodão. Como medidas temos:
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Comprimento………….4.80 metros
Boca………………………..2.20 m
Pontal…………………….. 0.60 m                               
Escala ……………………. 1/25

 
10 / 09 / 2015
António Marques da Silva 

Ílhavo, 19 de Dezembro de 2015
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Ana Maria Lopes
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