sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Entrevistando o Capitão do «Ilhavense I». 2

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(Cont.)
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– Houve salvados?
– Quando saltei para o meu dóri, levava comigo todos os livros e documentos de bordo, incluindo dois diários do piloto, mas o meu dóri foi ao fundo, sendo eu salvo nessa ocasião, por outro dóri que veio em meu auxílio, perdendo-se os livros e os documentos.
– Depois…
– Às três horas da manhã, como visse que já nada se podia fazer, para salvamento do navio, mandei remar para terra, em busca de local para desembarque
– Que foi…?
– Perto de uma povoação chamada Saint Shotts.
– Não voltaram ao navio?
– Voltámos por um cabo de vaivém que se estabeleceu de terra para o barco.
– E fizeram, então, alguns salvados?
– Apenas alguma roupa dos tripulantes e alguns objectos de insignificante alor, pois o navio já estava raso de água e impossibilitava, em absoluto, os trabalhos de salvação. Vendo que nada mais se podia ali fazer, voltámos a terra e fomos, então, em busca das autoridades. De Saint Shotts, comuniquei para Trepassey, povoação distante daquela cerca de vinte milhas. Telegrafou-se para o cônsul de Portugal em Saint John’s, Sr. João José Denis.
– O local onde encalharam é de boa navegação?
– Não. Até lhe chamam o cemitério dos navios. Dias antes de nós, naufragou um vapor inglês, que ainda lá vimos, morrendo toda a tripulação. Contam-se já perto de vinte, os barcos encalhados.
– Passaram muitas torturas?
– Muitas torturas e muita fome. Saint Shotts é uma povoação pequena, com cerca de 20 habitantes e onde não há recursos de espécie alguma. Havia de ser uma hora da tarde quando, extenuados, nos desjejuámos com uma chávena de chá.
– As autoridades fizeram-se demorar?
– Só passadas algumas horas depois que telegrafei é que chegaram ao local do sinistro o Juiz de Trepassey, o oficial da Alfândega e um polícia.
– E o nosso cônsul?
– Telegrafou imediatamente ao Juiz de Trepassey, pedindo que nos fossem dados imediatos socorros. Também o nosso conterrâneo Sr. Copérnico da Rocha* foi incansável e dispôs tudo para que nada nos faltasse. Fomos transportados para Trepassey em pequenos carros, por caminhos perigosíssimos, tendo ficado no local do naufrágio um polícia de guarda ao navio e aos salvados. De chegada a Trepassey, também lá estava o cônsul de Saint Jonh’s.
– Que providências tomou o cônsul?
– Averiguados todos os detalhes do naufrágio, e informado de que nada mais se podia fazer e vendo que os marinheiros estavam passando as piores privações, dormindo no soalho de uma sala e cheios de cansaço e fome e tendo ido ao local do sinistro comigo, com o piloto e autoridades verificaram a situação e posição do navio, ordenou, então, a nossa partida para Saint John’s, onde embarcámos a bordo do paquete «Nova Scotia» que nos transportou ao Havre, tomando neste ponto o vapor «Pancras», que nos desembarcou em Leixões.
– Vieram todos?
– Vieram 23 homens. Os restantes 5, em cujo número se contam o piloto, Sr. José Fernandes Matias de Melo e o contramestre Sr. Joaquim Fernandes Serrão, devem estar a chegar a bordo do vapor «Catalina»
– Quantos homens eram de Ílhavo?
– Seis. E outros tantos da Gafanha. Os restantes eram da Nazaré, da Figueira e do Algarve.
E o nosso entrevistado, sem dar mostras de aborrecimentos pelas nossas constantes e contínuas interrogações, cerrou neste momento os olhos.
Calámo-nos. Naquele instante, devia passar-lhe pela mente a recordação de um sonho feito saudade, evocando as horas tormentosas do naufrágio em que correndo da proa à popa, gritava aos seus homens:
– Coragem, marinheiros!
Antes fosse um sonho!
Mas, infelizmente, a perda do «Ilhavense I» fora uma dura e cruel realidade!
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Degustem esta entrevista levada a cabo há 86 anos, tal como eu a saboreei, apesar de todo o seu dramatismo.
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*Ainda conheci o Sr. Copérnico Rocha e sua Esposa, quando vinha a Ílhavo, irmão de Conceição e Rosa Rocha, tio de Maria da Conceição Rocha Mano e de José (Zeca) Mano.
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Costa Nova, 19 de Setembro de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 25 de outubro de 2015

Entrevistando o Capitão do «Ilhavense I» 1

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As causas do sinistro – Uma tripulação inteira em riscos de perder a vida – O cemitério dos navios – Horas de tortura e de fome – Uma saudade e um sonho – Coragem, marinheiros!
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Ao respigar Ilhavenses antigos, por outro assunto, passou-me pelas mãos no de 25/8/1929, esta entrevista que me interessou, ao Capitão do «Ilhavense I».
 
Lugre «Ilhavense I» (foto cedida por Reinaldo Delgado).

Catando-a, (…) Homem experimentado nas lides do mar, o nosso amigo Sr. João André Alão era o capitão, há já alguns anos, do lugre «Ilhavense I», naufragado no dia 15 de Julho passado nos Bancos da Terra Nova.
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Chegado a Ílhavo na terça-feira pretérita, era nosso dever ouvi-lo sobre o sinistro que causou a perda do barco do seu comando que em 11 de maio havia deixado o porto de Lisboa, impelido pela leve brisa que no tope dos seus mastros cantava a canção dolente que aprendera ao roçar no dorso das vagas – brisa cantante e benéfica a cujo sopro adormecem os nautas portugueses, os nautas da nossa terra, cheiinhos de sonhos e de saudades, sonhos que são uma vida, saudades que são consolo para as suas almas de lutadores nevróticos.
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À sua casinha da rua Direita nos dirigimos, pois, na manhã escaldante de 5ª feira.
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E, em frente do arrojado marinheiro, de rosto tisnado e magrizela, ali nos dispusemos à entrevista, rápida, instantânea:
– Em que dia haviam chegado ao Banco?
– No dia 12 de Junho.
– Tinham, portanto…
– Já tínhamos perto de 500 quintais a bordo.
– E porque levantaram ferro?
– Porque o peixe falhou.
– Em que posição estavam?
– A 46 º 11, 6 de latitude N e 57 º 3’ de latitude W.
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– E navegaram…
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– Com rumo SE 4 E com destino aos bancos de «Virgin Rocks».
– Aquela posição…
– Era em Saint Pierre, donde levantámos às seis horas.
– O tempo…
– Vento regular de W.S.W., mar de pequena vaga, atmosfera e horizonte empoalhado.
– A que atribui o sinistro?
– A névoa cerrada que apareceu cerca das dezanove horas e a um desvio de agulha, duas coisas frequentíssimas naquelas paragens.
– Houve falta de precauções?
– Não senhor; flutuávamos de acordo com as exigências de flutuação em tais casos.
– Queira contar-nos o que foi esse momento tremendo?
– Devia ser uma hora da madrugada quando fomos surpreendidos pelos gritos das vigias, anunciando terra na proa. Sentindo o perigo iminente, imediatamente mandei arribar. O barco rodou, mas a popa bateu no rochedo. Mandei largar ferro. O navio estava encalhado de popa à proa, rebentando grandes mares no convés.
– Havia possibilidades de salvar o navio?
– Não. Só havia a possibilidade de salvar a tripulação, que ali estava toda em riscos de perder a vida. Por isso, mandei proceder ao imediato desembarque.
– Que se fez…?
– Com grandes sacrifícios e enormes dificuldades. Foram arriados doze dóris, em que se recolheram todos os tripulantes, tendo eu deixado o navio somente depois de verificar que mais ninguém estava a bordo.
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(Cont.)
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Costa Nova, 19 de Setembro de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 11 de outubro de 2015

Cenas litorâneas - Buarcos

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A minha mente está recheada de belas cenas litorâneas – algumas, muitas, dei-as ao prelo em livros, e, mais tarde, no blogue Marintimidades. Outras há que não tiveram essa sorte e ainda não foram contadas, narradas, exibidas, retratadas por palavras ou imagens.
É o caso desta, passada em Buarcos, pelos anos oitenta que sempre me deixa saudades, pela vida que ornamentava o nosso litoral. Menos meios, vida mais precária, mas mais riqueza e beleza antropológica e etnológica.
Chegada a Buarcos, à procura do dito bote de Buarcos, à volta do primeiro decénio deste século, o desânimo invadiu-me. O que é feito dos botes que daqui saíam para o mar de uma forma encantadora? Seduziu-me este recanto, pelos anos oitenta, noutra investida remota de inquirições.
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Areia deserta, mar deserto, ninguém na praia, sequer, a quem perguntar.
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Nos anos sessenta em Buarcos, o bote tinha «grosso modo» a silhueta dos botes do bacalhau. E não é por acaso que isto acontece. Desaparecidos gradualmente os navios de pesca à linha do bacalhau, os dóris ou botes, construídos nas carpintarias das empresas por hábeis carpinteiros, foram perdendo a razão de existir. Construção simples permitia que em alguns pormenores não fossem totalmente iguais, mas as suas dimensões principais geralmente eram respeitadas: 5,30 metros de comprimento, 1,50 m. de boca e 0,60 m. de pontal. Alguns museus marítimos exibem-nos com orgulho, como o da Póvoa de Varzim, o de Ílhavo e o Museu de Marinha, em Lisboa.
Em algumas das localidades que forneceram homens para a pesca do bacalhau (Costa Nova, Gafanhas, Cova/Gala e outras), foram transferidos alguns para a pesca local, sofrendo algumas modificações.  

Na Costa Nova, na apanha do crico. Anos 80

Aos poucos, foram abandonando o tabuado trincado, recebendo à popa um banco em U, e passaram a ter bancos fixos, ganhando castelo de proa fechado por portinhola e popa, mais larga, com um pequeno motor.
Pelos anos 80, a silhueta do bote foi abrindo, pois as águas a que se destinava não eram as mesmas e o comprimento também excedeu os 5 metros.

À espera e à conversa, na praia…Anos 80

Em Buarcos, assistimos ao encalhe do último bote daquele dia, puxado por uma junta de bois que todos os dias se dirigia à praia com aquela finalidade. A dona da junta fazia este trabalho há 40 anos, desde que se casara em Buarcos e recordou a existência de grandes bateiras (maiores que os botes) e de lanchas poveiras (ainda muito maiores).

Junta de bois a varar o bote, em Buarcos. Anos 80

O bote era utilizado para a rede de um pano para a faneca, para o tresmalho (rede de três panos) para o linguado, sargo, robalo, etc., para o aparelho a que chamavam troles com muito inzóis, para a linha de mão para o safio e para os cofos.
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Que encanto! Como vemos, a venda do peixe era feita na praia directamente aos banhistas, colaborando a mulher com o marido na separação do peixe e sua pesagem.

O peixeiro a pesar… Anos 80

Em 2005, a visita ao local foi desmotivante. Apenas um bote para amostra, de 6 metros de comprimento, 2 m. de boca e 0,60 m. de pontal, em madeira, anódino,  e mesmo assim, protegido e coberto,  fora de uso, porque pertencera a um ex-pescador de 84 anos, já bastante doente.
Este local tornou-se muito perigoso e «tudo desistiu, não há autorização» – informaram-me.
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– A Senhora encontrará alguns botes no porto de abrigo da Cova-Gala – e lá fui, meia murcha, observá-los, com saudades da algazarra, movimento e alarido do areal, pelo menos dos anos 80.
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Vi bastantes, de cores alegres, quase todos de madeira e muito poucos revestidos a fibra. Actualmente, são usados na pesca, no rio.
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Botes usados no rio. Porto de abrigo da Cova-Gala. 2006

Por estas e por outras, tenho a mente cheia de belas cenas litorâneas, que passaram ao lado da maioria das gentes.
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Imagens – Da autora do blogue
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Ílhavo,11 de Outubro de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 4 de outubro de 2015

Vamos à romaria da Senhora das Areias! - 2015


Em dia de reflexão, nada como moliceirar até à Senhora das Areias, em São Jacinto, de véspera «como os gaiteiros».
Sendo impossível fazê-lo no domingo, devido ao dever cívico que todos sabemos, e à trabuzana anunciada, optámos pelo sábado.
Outra perspectiva da romaria. Porque não? Preparativos do principal dia festivo, com eucaristia dominical e procissão em que o ponto alto será o encontro dos andores da Senhora das Areias e da Senhora do Ar, na marginal junto à ria e próximo da base militar (RI 10).
À partida, no Oudinot, uma calmaria pungente, «nem uma agulha bulia na quieta melancolia dos pinheiros do jardim». Um sol envergonhado, em céu acinzentado, espreitava, aquecendo-nos os corpos e libertando-nos a mente, em sábado outoniço, verdadeiramente setembrino.
O SÃO SALVADOR, espera-nos aquietado, no seu poiso habitual, espelhado e vaidoso.

O São Salvador nem acredita…

Passadas a zona do Forte, do Farol, da entrada da barra, do Triângulo (cenários sempre imperdíveis), eis-nos perto de S. Jacinto com bons encontros, embarcações exuberantes ou típicas e encantadoras, que nos cativam.

Embarcação do Norte da Europa 

Antes do almoço, o nosso objectivo, hoje, para além do prazer de navegar, era visitar as barracas de romaria e a secular capelinha hexagonal da Senhora das Areias, podendo assistir aos enfeites dos andores, com o brio e a fé que caracterizam «aquelas gentes».
Nem «um barco do mar» em estrado apropriado faltará na procissão, para recordar os tempos em que «a arte de xávega» se praticou naquela praia, antes de se estabelecer na Costa Nova do Prado, depois de se ter fixado a abertura definitiva da barra, em 1808.

Foto de arquivo (2014)

«Ògada» pelas tendas que já não existem há uns bons anos na Senhora da Saúde, toca de fazer algumas compras sazonais características – um guarda-chuva para os invernos tempestuosos que nos têm assolado, cutelarias e una atoalhados garridos para as cozinhas.
Outras barracas de frutos secos, de doçaria regional – suspiros, suspirinhos, raivas, cavacas, bolinhos de gema, beijinhos, regueifas -, de brinquedos e de calçado típico, também nos prenderam o olhar!

Tamancaria portuguesa

Depois de uma grelhada variada num restaurante da frente ria, em cordial convívio, fomo-nos deixando ficar um bocado, «em suave remanso», pela nova margem de S. Jacinto, a saboreara a beleza e a doçura lagunares, sob um calorzinho tépido, sonarento e convidativo ao sonho.
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Meninos e meninas, deixem-se de mazanzices e toca a despertar. São horas da partida – ousou o arrais.
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No regresso, um sol anémico espelhava-se na laguna, por entre nuvens acinzentadas, deixando-a chumbada de prata, num efeito agridoce e envolvente.

Ria chumbada de prata brilhante

O nosso arrais havia-nos preparado uma surpresa e, ultrapassada a Meia-laranja, aproou o SÃO SALVADOR à Praia Velha da Barra.
Uns ocupantes saltaram para a água, outros banharam-se, outros foram ao Café Farol comprar umas «minis»…

Que belo cenário!...

Não é todos os dias que se aprecia esta paisagem, local histórico que foi palco de prantos e de alegrias com naufrágios, entradas e saídas de navios, lembrando, sobretudo, as campanhas do bacalhau, nas suas chegadas e despedidas de navios e tripulações.
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Imagens – Da autora do blogue
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Ílhavo, 4 de Outubro de 2015
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Antevisão da Festa da Senhora da Saúde - 2015

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Em maré de romarias setembrinas, segue-se no próximo fim-de-semana, último de Setembro, a festa da Nossa Senhora da Saúde, na Costa Nova. É uma pena que  aquela que já foi, em tempos, a segunda maior romaria lagunar a seguir ao S. Paio, presentemente, não passe da festa religiosa, procissão e eucaristia dominical.
Se fosse possível regredir no tempo, por uns dias, desejaria assistir a uma romaria dos anos sessenta, com artística armação na Avenida Marginal e nos caminhos conducentes à Capelinha. A montagem da armação em altos escadotes marcava o início da festa. Seguia-se a vinda das primeiras tendas. Mas quando os primeiros moliceiros chegavam do norte e do sul da ria, os norteiros e os matolas e atracavam mesmo aqui pertinho de mim, então a festividade estava próxima.
Recordo com saudade a chegada das barracas das cutelarias de Guimarães, os chapelinhos de papel de vários feitios e cores, os brinquedos toscos infantis de lata e de madeira, o café «de apito», a doçaria tradicional da Ti Rosa Caçoa, com os seus suspiros melosos e açucarados e os bolinhos brancos de gema.
Ao lado, a Ti Adelaide Ronca com as flores das festas, de papel, com quadra a gosto, e as coloridas e vistosas ventarolas. O Sr. Quintino Teles com os seus pratos típicos, em cerâmica relevada, com castanhas e sardinhas assadas, ovos estrelados, que até apetecia degustar, etc.
Ainda os ferros forjados, as barracas das loiças de Barcelos e de alguns atoalhados e «lingerie», bem como, os homens dos guarda-chuvas, compunham o ramalhete.
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E os vistosos e animados coretos com a banda a tocar!!!!.....
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Não faltava a Vida de Cristo, em movimento, descrita em voz roufenha, rouca, do publicitador, tornada ensurdecedora pela ampliação conferida pelas cornetas do altifalante, que tentavam sobrepor-se ao anúncio da casa do espelhos, do carrocel, dos carrinhos eléctricos ou cadeirinhas voadoras.
Com muita gente, com muito barulho, acabou por se tornar impossível a festa na frente/ria, incluindo a própria procissão, que não era recebida com o respeito devido.
Há uns anos largos, toca de mudar a festa para a Avenida do Mar. Ainda pior!!!! Chegou-se a um exagero e a uma falta de sanidade, com que alguns moradores não conviviam muito bem, quase impossibilitados de entrar em suas casas. Já não eram vendas típicas e, por vezes, ingénuas, mas uma autêntica FEIRA, onde chegou a intervir a ASAE.
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E hoje, o que é que temos? A procissão, após a missa festiva e pouco mais. A praia tem menos movimento que num domingo normal de Agosto. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
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No entanto, ainda se vai passar à Costa Nova a Senhora da Saúde, quanto mais não seja, para saborear, entre amigos, a chanfana ou o leitão assado, o que origina uma prévia «procissão de leitões».
Normalmente, a visão que tenho da procissão é a que a minha varanda me oferece. Esta:

Tendo-me uma amiga disponibilizado uns clichés, com uma visão diferente da procissão, entre palmeiras e palheiros, resolvi usá-los, com sua autorização, para ilustrar a descrição do cortejo processional do ano passado, dando relevo aos andores, com as respectivas imagens, adornados carinhosamente com flores – cravos, rosas, antúrios, copos de leite, gladíolos – e verduras multicolores. 

Nossa Senhora da Saúde, entre palmeiras altivas
 
 S. José, plasmado contra bonitos palheiros riscados de branco, azul e verde, com varandas ornadas de colgaduras, em sinal festivo
Imagem da Mãe do Redentor

Nossa Senhora de Fátima, tendo como cenário um dos mais aprimorados palheiros, riscado de branco e vermelho e de toldo igualmente rubro 

Os cochichos das «santinhas»

Santo Amaro, aconchegado no seu esbelto meia-lua, levado aos ombros por pescadores, nas suas camisas aos quadrados
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Outros aspectos haveria mais a enumerar – irmandades, fanfarra, grupo de escuteiros, pároco da Gafanha da Encarnação, acólitos e crentes acompanhantes, cumpridores de promessas – mas dei prioridade aos andores, na sua imponência e singeleza.
Nem gosto, sequer, de ver a casa fechada, nesse dia.

Tradição…apesar de já não ser o que era. É a que temos. É para respeitar e tentar transmitir…

Imagens – De arquivo (Etelvina Almeida, 1, e 6 e as restantes de Maria Emília Prado e Castro)

Costa Nova, 24 de Setembro de 2015
 
Ana Maria Lopes

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Procissão lagunar da Senhora dos Navegantes



Como já é tradição, realizou-se ontem, domingo, no Forte da Barra, Gafanha da Nazaré, a festa em honra de Nossa Senhora dos Navegantes, cujo ponto alto foi a procissão pela Ria, que antecedeu a missa, por volta das 16.30 horas.
O cortejo, com destino ao Porto Bacalhoeiro, saiu da igreja da Cale da Vila às 14 horas, tendo-se iniciado, meia hora depois, o desfile pela Ria, no qual se incorporaram os andores de Nossa Senhora dos Navegantes e outros, diversos, a Filarmónica Gafanhense, os grupos e ranchos folclóricos convidados, moliceiros e mercantéis motorizados, bem como barcos de recreio e demais embarcações piscatórias.
Foi a estreia nestas lides do moliceiro tradicional São Salvador, depois de recuperado, com nova roupagem colorida, com um grupo de amigos de bordo.
Na passagem da procissão por S. Jacinto, houve um simbólico e comovente encontro entre a população e orago locais, Senhora das Areias, encimada num altar improvisado dentro de uma bateira engalanada em arco, e a Senhora dos Navegantes. Mas, o que nos interessou mesmo e tem sempre o seu encanto foi o cortejo fluvial.
São os crentes, os simpatizantes, em todo o tipo de embarcações, das menores às mais robustas, que, com mais ou menos brio, exibem um sinal de fé, apanágio dos pescadores.
A ria, já por si bonita e fulgurante, neste dia é agitada e atormentada, na sua calmaria habitual, pelo bulício dos motores das embarcações, pelos roncos das buzinas de bordo, pelo estalejar do foguetório e pelas ovações dos populares presentes, que enchem os cais, ao longo do percurso do cortejo religioso, num misto de crença e profano antinómicos.
Enquanto piquenicámos, à chegada do São Salvador, no seu novo poiso habitual, no Oudinot, depois da eucaristia, exibiu-se a Filarmónica Gafanhense, seguida do Festival de Folclore.
A degustação não foi só para os amigos do moliceiro, como para as gaivotas e gaivinas, que em voos rodopiados, nos sobrevoavam as cabeças. Confortaram-se com umas migalhas sobrantes, a que, em exercícios de mergulho, «chamavam um figo». Ao repasto subaquático, juntaram-se as tainhas saltitonas e assustadiças. Foi o enlevo dos fotógrafos. 
O tempo abençoou-nos com um domingo extraordinário, quente e calmo, em despedida de um Verão envergonhado…
Apesar de ter sido um belo e dignificante espectáculo, temos vindo a notar que as embarcações participantes têm sensivelmente, de ano para ano, vindo a diminuir.
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Alguns aspectos interessantes, captados no cortejo religioso:

 
O barco dos pilotos, Espinheiro, que abriu a procissão.
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A motora FAINA MAIOR, com o Sto. Amaro, à proa, num esbelto meia-lua, da capelinha da Senhora da Saúde, na Costa Nova.


Aspecto parcial da procissão, em que as embarcações desfilaram, agitando a ria e participantes, num cortejo de emoções.

 
A Senhora das Areias, em S. Jacinto, venerou a Senhora dos Navegantes, à sua passagem, saudando-a com chusmas de pétalas de flores multicolores.
 
A velhinha lancha de recreio PRAIA DA COSTA NOVA, restaurada com carinho, incorporada na procissão, conduziu os ranchos folclóricos participantes ao jardim do Forte.
 
Mais uma vez, a traineira JESUS NAS OLIVEIRAS, transportou a imagem homenageada, entre múltiplos enfeites, rodeada de pequenas embarcações de recreio, que não quiseram perder pitada do feérico espectáculo.
 
Em fim de festa fluvial, o rebocador MERCÚRIO, no seu alaranjado vistoso, transportou a Filarmónica Gafanhense, com o som festivo característico, provindo dos seus brilhantes e vistosos instrumentos.
Imagens – da autora do blogue, com excepção da de S. Jacinto, gentilmente cedida por Teresa Soares.
Costa Nova, 21 de Setembro de 2015
Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Salvador Arrojado - «fazedor de velas»

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Numa arte ou noutra, gente da ria…
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Não fazia ideia que, ao fazer uma pergunta no FB sobre o Salvador Arrojado, no grupo Moliceiros com História, desse origem a uma conversa longa, interessante e tão participada. Por isso, vou tentar respigando-a, fixá-la.
AML – Talvez alguém, por aí, conheça ou tenha conhecido. Falei com ele na sua casa, onde fazia velas, como se vê pela imagem, pelos anos 80. Com o tempo, perdi-lhe o rumo e apenas (além das descrições exemplificativas que me fez), me lembro e registei que era conhecido por Ti Arrojado, Alguém reconhece ou sabe mais?
 
A mosquear…

AML – Na primeira imagem está a mosquear.
Pois, gostam, gostam e eu agradeço, mas ninguém me sabe dizer mais nada dele se também o conheceram, etc. Penso que foi por Pardilhó ou arredores, onde falei com ele. E, uma vez, encontrei-o no S. Paio, nesses anos 80. A sua grande paixão eram as velas.
AMF – O ti Salvador Arrojado já faleceu há uns anos mas menos de quinze. A sua casa é agora pertença do filho Albino, que o acolheu na sua velhice. Este filho dedica-se à pesca na ria.
JC – Se é o que eu penso, ele era Arrojado e Salvador, da Murtosa. Se é ele já faleceu!!!
A citada casa fica no lugar da Balsa logo aqui ao norte da minha.
AMF – Portanto, agarradinha ao Bico. Convivi com ele muito de perto. Passava-me à porta diariamente e no final de vida visitava-o, levando-lhe a comunhão.
AMLObrigada, por me recordarem esses dados. Imaginava sim, que já tivesse falecido. Eu não o conhecia só por Salvador. Era mesmo por Ti Salvador Tavares da Silva Arrojado, nascido em 1918, do Bico da Murtosa. Quando na segunda edição, em 2010, do meu livro Moliceiros – A Memória da Ria, quis saber a data do falecimento, e não encontrei quem me desse dados.
São as duas únicas fotos que tenho dele – a mosquear (aplicar as moscas, na vela) e a coser uma vela que havia talhado. Havia segredos que não me queria revelar. Que iam com ele para a cova, dizia-me ele.

A coser uma vela…

MJ – Ele era o Pai do Sr. Albino Arrojado?
AML – Ah, isso já não sei.
JRM – Parece mesmo o Albino Arrojado. Tal pai tal filho.
RP – Conheci muito bem o senhor Salvador. Trabalhou com o meu pai na faina do moliço e aprendeu a fazer velas Eu também sou testemunha e ajudei a cozê-las e a fazer o molde. Eu era amiga de sua filha no tempo de escola. A Ana Maria Faustino devia conhecer o meu Pai, no Canto da Caneira, José Paiva e a minha Mãe, Ascensão Carrocha. Saudades desse tempo. Um abraço.
AMF – Rosa, claro que conheci os teus pais. Fui colega da tua irmã na escola, por quem tenho muita estima. O vosso caminho era muito utilizado por mim e pelo meu irmão quando íamos para a escola. Era a aventura possível daquele tempo.
Dra. Ana Maria, pelo que a Rosa Paiva nos conta, também as mulheres davam o seu contributo na confecção das velas!
AML – Sim, era. Obrigada.
MTM – Não deixo de fazer o meu comentário. Esta gente toda vizinha e conhecida com muitas recordações… E bem me lembro do (ti Salvador) como era conhecido... Rosa numa das tuas casas ainda viveu um filho dele que está na América. De tudo que está para traz resta a recordação...
PHC – Recordo-me dele vir comprar o pano da vela lá à loja (não me lembro é como se designava o tecido).
AP – «Lona». Também servia para as sacolas das escolas. Dura…dura.
AML – Havia-a mais e menos dura, de vários números. Agora, é complicada de encontrar.
AMF – Falei com a Helena, a nora doTi Salvador Arrojado. O nome é de facto o que mencionou a Dra. Ana Maria. Faleceu a 31 de Julho de 2005. José Maria era o filho mais velho, que morreu de acidente.
AML – Obrigada. Tiraram-me as dúvidas. Fiquei a saber. Anoto no livro.
EA – Maravilhoso, Ana Maria!
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Estas minhas dúvidas acerca do Ti Arrojado vieram proporcionar a um grupo de «murtoseiros» conhecidos e amigos uma romagem de saudade.
E eu advim muito mais enriquecida, também.
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Imagens – Da autora do blogue (1986)
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Costa Nova, 26 de Julho de 2015
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Fixação do diálogo – Ana Maria Lopes
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