quarta-feira, 24 de maio de 2023

A Ria de Aveiro está de luto...

 -

A Ria de Aveiro está de luto…

Ontem, a ria de Aveiro ficou mais pobre, com o desaparecimento de José Maria de Oliveira Rendeiro. Carinhosamente tratado por Ti Zé Revesso, aos 83 anos (2.1.1940 – 23.5.2023), deixou, para sempre, as águas da ria para subir para a nuvem, de onde sempre avistará o seu moliceiro “A. Rendeiro”.

Murtoseiro de gema, aí nasceu. Desde rapaz, dedicava-se à apanha do moliço, à lavoura e também à pesca. A ria era o ar que respirava e, sem ela não podia viver.

Largou a lavoura e a apanha do moliço em 1975, ano em que foi para o Canadá em busca de uma vida melhor.

Depois de voltar à terra natal, retomou a actividade de arrais e tornou-se um dos resistentes que ajudou a salvar a embarcação tradicional da laguna, quando correu o risco de extinção, tão escassos eram os exemplares a navegar.

Homem bom, afável, dado, simpático, sempre trazia o seu barco, impecável, bem pintado, num brilho.

Participante assíduo em todas as regatas, fazia passeios em ria aberta e contava histórias relativas à sua vida e à sua ria.

Também cativou os fotógrafos, amantes da ria, que o retrataram com assiduidade. Para memória futura, aqui deixo uma pequena mostra de imagens de fotógrafos amigos, que o imortalizaram.-

Etelvina Almeida

 Etelvina Almeida

Etelvina Almeida

António Cravo

Paulo Marques

Camilo Rego

Etelvina Almeida

Etelvina Almeida

Etelvina Almeida

Rui Cruz

Entrevista TV. EA.

Rui Cruz

 

Jorge Bacelar

Mariano Zé

 
Um até qualquer dia. Etelvina Almeida
-

Ílhavo, 24 de Maio de 2023

-

Ana Maria Lopes


 

domingo, 21 de maio de 2023

MAR OCEANO: legado de Mário Ruivo

 -

MAR OCEANO: legado de Mário Ruivo

 

A bordo…
-

Ontem, 20 de Maio, integrada no programa do Dia dos Museus, abriu a exposição MAR OCEANO: legado de Mário Ruivo, no MMI. Entre outros, há um agradecimento sentido que quero deixar a Mário Ruivo. Foi a escrita do prefácio ao livro “Faina Maior – A pesca do bacalhau nos Mares da Terra Nova”, editado pela Quetzal Editores, em Junho de 1996, que transcrevo:

-

Quando hoje se fala de pesca, raramente se faz referência aos aspectos humanos desta actividade. Mais do que faina no mar, a atenção concentra-se nos conflitos que lhe estão associados, aos quais de tempos a tempos alude a comunicação social. A pesca aparece, assim, despersonalizada.

Os pescadores só ocasionalmente surgem nos écrans de televisão ou nas páginas dos jornais, no momento de grandes tragédias, com fundo de temporal e vaga alta. Mostram-nos mulheres a chorar na praia e entidades oficiais fazendo um discurso de circunstância. Recorda-se, então, que se trata de uma profissão de risco, que é preciso modernizar o sector e garantir a segurança das tripulações. Relembra-se a tradição marítima de Portugal. Os mais cultos citam Raul Brandão.

Daí o interesse deste livro, bem documentado, que nos oferece uma breve história e um panorama vivo e humanizado da pesca do bacalhau enriquecido por recordações e memórias de quem por lá andou. As fotografias, a preto e branco – ainda com alma – ajudam a recriar o “mito” e a “dureza” da faina maior. Vida tão dura e em condições tão ingratas que os mancebos que se matriculavam naquela pesca escapavam ao serviço militar.

Um mito até há poucas décadas profundamente enraizado no imaginário colectivo, cotejando o das navegações e que contribuiu para alimentar a ideia, já um tanto esbatida, que somos possuídos pelo “delírio das coisas marítimas” e um povo profundamente marcado pelas relações com o mar.

A leitura destas páginas faz-me voltar quarenta anos atrás, à época em que me ocupei do estudo das pescarias portuguesas no Noroeste do Atlântico, partilhando, todos os anos, meses a fio, a vida a bordo dos lugres, navios-motores e num ou outro arrastão, nos bancos da Terra Nova, nas costas do Labrador e na Gronelândia, até para além do círculo polar árctico.

Do fundo da memória, chegam-me recordações dos capitães que me acolheram nos seus navios, dos pescadores que pacientemente e com curiosidade me ajudaram nos meus trabalhos, das relações e amizades estabelecidas. Estou a ver o Capitão Sílvio Ramalheira, na cabine de navegação do «Capitão João Vilarinho», escutando com condescendente simpatia as minhas divagações sobre os otólitos e a idade dos bacalhaus e comentando com pragmatismo o que pensava da investigação pesqueira! Pergunto-me o que será feito do João Palão – considerado o melhor profissional da pesca à linha – que, nas horas vagas, fazia ofício de barbeiro e me cortava o cabelo, no convés, sentado num caixote, antes de embarcar em St. John’s. Recordo a azáfama dos dias de grande pesca, a angústia partilhada quando havia nevoeiro e estavam ainda homens no mar, com o “fog-horn” a roncar, como contam os autores. Relembro os termos preciosos que faziam parte do quotidiano a bordo, para mim tão misteriosos e poéticos, com os quais me ia lentamente familiarizando: “alantas”, “gatos”,”locas”. E até o “alfabuche” – uma medida de sal – que durante muito tempo pensei ser de origem árabe (por começar por “al”) e que não era mais do que “half bush”aportuguesado.

Vejo-me num dia agreste e cinzento, no cemitério de Godthaab, onde tínhamos ido enterrar um pescador, ao lado da figura severa do Comandante Tavares de Almeida, que me iniciou nestas lides a bordo do «Gil Eannes». Para onde vai o «Gil Eannes?», titulava, há dias, o jornal “Público”. “O Gil Eannes, que serviu de navio-hospital da frota da Terra Nova, fez 41 anos no passado dia 19 que foi lançado ao mar. Nos dias de glória, o seu hospital, por exemplo, dava assistência a 70 navios e a cerca de 7 000 pessoas. Atracado, há anos, na Rocha de Conde de Óbidos em Lisboa”. Onde, com nostalgia, o vi, há meses, quando passeava na doca. O prestimoso navio branco de assistência à frota, agora amarrado ao cais, gasto pelo tempo e coberto de ferrugem.

Nesta obra, a pesca do bacalhau é-nos apresentada quando ocupava ainda uma posição dominante nas actividades marítimas nacionais. A sobrevivência da nossa frota de pesca à linha face à concorrência de outros países que praticavam a pesca do bacalhau, utilizando sobretudo e cada vez mais os arrastões, resultou em grande parte da necessidade de ganhar a vida dos pescadores e do regime corporativo e de proteccionismo económico que dominava o sector.

Começava, então, a ser evidente, para quem analisasse criticamente a situação, que a pesca longínqua portuguesa perdia pouco a pouco posição face à concorrência das frotas modernas, bem equipadas, com adequado científico, técnico e diplomático, inseridas em economias dinâmicas e sociedades abertas.

 

Quando regressei a Portugal, depois do 25 de Abril, este processo tinha entrado já numa fase avançada que se acelerou com o novo direito do mar e a criação de zonas económicas exclusivas sob jurisdição de Estados costeiros – designadamente em águas tradicionalmente frequentadas pelos pescadores portugueses – onde agora apenas podíamos invocar direitos históricos para defender o acesso e negociar quotas. Em 1979, numa nota publicada no balanço do ano do “Expresso” considerei, face à incoerência da política de pescas nacional, que a decadência da nossa pesca longínqua era irreversível. As recentes notícias sobre a “guerra da palmeta” representam, simbolicamente, o fim de um ciclo.

 

O livro de Ana Maria Lopes e Francisco Marques, para além do seu valor documental constitui uma excelente fonte de referências para quem, no futuro, pretenda aprofundar o tema na diversidade dos seus aspectos técnicos, etnográficos e culturais do que foi uma importante actividade portuguesa. Ao valorizar culturalmente a “grande faina” e ao recriar uma ligação sentimental à actividade marítima, está também a contribuir para estimular a reflexão sobre o almejado “regresso de Portugal ao Mar”, à luz de novas perspectivas. Um tal objectivo nacional requer uma crescente informação e sensibilização da opinião pública, sobretudo quando se reconhece, hoje, à escala mundial, que os Oceanos constituem a última fronteira do planeta e um espaço vital para o futuro da Humanidade. Esta é, de resto, uma das motivações subjacentes à realização, em Lisboa, da Expo 98 e à designação pelas Nações Unidas, por iniciativa de Portugal, de 1998 como Ano Internacional dos Oceanos.

 

Ílhavo, 21 de Maio de 2023

 

Ana Maria Lopes

-

 

 

 

 

sábado, 1 de abril de 2023

A salga, na exposição Faina Maior de 1992

 -

A salga é a última operação que o bacalhau sofre, a bordo, indispensável à sua conservação e que é efectuada no porão.

Este é o espaço do navio destinado à carga, limitado pela antepara da proa contígua ao paiol de mantimentos e ao rancho, e pela antepara da ré, que, nos antigos veleiros, era contígua aos aposentos dos oficiais (câmara ou salão). Neste porão, aparecem prumos de madeira no sentido longitudinal e transversal, que sustentam a estrutura do convés (os pés de carneiro) e ainda os vimes, que, no sentido transversal, ajudam à travação da ossada do navio. É entre estes prumos, que, por colocação de madeira, se fazem as divisórias do porão – as panas. Estas ainda são subdivididas em três partes chamadas hinos, dois à amurada (de bombordo e estibordo) e o hino do meio.

Na impossibilidade de expor um porão inteiro, limitámo-nos a apresentar meia secção de um porão de um antigo veleiro, desde a sobrequilha até meia altura.

-

 
Secção de porão de antigo veleiro
-

Quando o navio se dirigia para os pesqueiros, o porão ia carregado de sal, só com uma das divisórias, a pana de proa vazia; esta levava, por vezes, barricas de farinha, amarras, apetrechos de pesca, remos, madeiras dos dóris, varas de eucalipto, isto é, material que, em viagem, era distribuído para estrafego e aliviava a pana.

Iniciado o processo da salga, o peixe era passado do escorredouro do convés para o porão, através de uma mangueira de lona, caindo na dala, onde era garfado pelo passador de peixe para um dos hinos vazios, pronto a recebê-lo. Aí, dois salgadores, vestidos de roupa oleada e botas de borracha, com os joelhos protegidos da humidade por joelheiras, ajoelhavam-se sobre um encerado, ligeiramente virados um para o outro, com o alfabuche entre os joelhos.

O passador de sal (sempre sobre um hino com sal), gritava:” Sal! Sal! Sal!” e o salgador instintivamente puxava o balde de sal e despejava-o no alfabuche.

O garfeiro ou passador de peixe, junto à dala, gritava: “Peixe! Peixe! Peixe!” e ia atirando o bacalhau para o meio dos dois salgadores. Estes gritos de aviso facilitavam a mecanização do serviço e faziam com que os salgadores quase instintivamente pegassem no balde do sal, sem olharem para ele e se acautelassem no sentido de não apanharem com algum peixe sobre as mãos, o que iria redundar por possível ferimento, em prejuízo do seu próprio trabalho. Os salgadores, consoante a posição em que se encontravam, agarravam no peixe com a mão direita ou esquerda e estendiam-no com os cachaços para as anteparas de vante ou de ré do hino e começavam a salgar o peixe á mão (só mais tarde as luvas de lã de cinco dedos, protegidas por luvas de borracha foram introduzidas), com mãozadas de sal, do cachaço para o rabo. Seguidamente, a meio da canja (primeira corrida da salga de peixe com cerca de meio metro de altura por meio metro de largura), punham o peixe quer de cachaço quer de rabo para a amurada, ficando todos os espaços; o peixe, ligeiramente mais alto a meio, fazia com que a salmoura escorresse para os extremos da canja. Acabada esta primeira canja, os salgadores limpavam o sal caído no encerado e recuavam para fazer a mesma operação. Geralmente, faziam três canjas por hino do meio (estamos a exemplificar com meio hino) e para efectuar a terceira canja, passavam por cima do peixe salgado, viravam-se na posição contrária à que estavam, tapavam o último terço do hino e elevavam-se como se efectuassem, de novo, a primeira canja. Este hino ia subindo, subindo, subindo, até cerca de dois metros de distância do tecto do porão. Safavam-se os hinos da amurada, indo

o sal destes hinos para as panas contíguas (serviço feito com o auxílio de pás) e passavam a salgar os hinos da amurada…. E assim se ia repetindo sucessivamente a operação.

-

 
Imagem de Alan Villiers. 1950
-

O peixe ia abatendo bastante devido à dissolução do sal, por força do balanço e sobrecarga de sal que levava em cima. Daí que, em anos de carregamento, houvesse duas operações finais: o abarrote e o empanque. O abarrote consistia em salgar o peixe até ao cimo da pana desde que houvesse possibilidade do salgador trabalhar, muitas vezes já com a cabeça encostada ao tecto do porão: o empanque consistia em encher uma pana já abatida com peixe curado com bastantes dias de salga), de uma pana contígua.

Os salgadores eram pescadores com mais vocação para a salga e que se iam mantendo de uns anos para os outros. Formação especial ou técnica, não tinham; iam aprendendo com a prática e essa escola ia-se aperfeiçoando durante a descarga, a que os pescadores assistiam, e ao verem a qualidade da salga, contrariavam a tendência de mais ou menos sal, no ano seguinte.

Por mais arriscado que fosse o trabalho da pesca, por mais custoso e árduo que fosse o dos escaladores, o pior ainda era o dos salgadores. Em algumas povoações de pescadores, mulheres havia que diziam aos filhos pequenos, quando faziam maldades: “Se não tens juízo, mando-te embarcar de salgador num navio de bacalhau”. A posição incómoda, a frouxa claridade vinda da escotilha, umas pobres velas, os efeitos da humidade, as consequentes feridas nas mãos, a responsabilidade do trabalho controlado sistematicamente pelo capitão, faziam do cargo uma tarefa extremamente penosa.

De recordar os utensílios: mangueira, dala (que não se vêem na imagem), vertedouro, garfo de meio cabo, touco de vassoura, balde, pá, galão, joelheiras, encerado, alfabuche, tabuinhas e cachimbos, suportes de velas de estearina, com que se fazia a iluminação do porão.

Ílhavo, 01 de Abril de 2023.

Ana Maria Lopes

-

sexta-feira, 24 de março de 2023

Abre, hoje, a Feira de Março...

 -

Para mim, a Feira de Março, apesar da vetustez dos seus quase 600 anos, já foi, já era.

Para aí, há sessenta anos, quando vinha de férias da Universidade de Coimbra, que agradável era ir até à Feira de Março! Era mesmo obrigatório experimentar as sensações dos divertimentos mais ousados, para a época – comboio-fantasma, cadeirinhas voadoras, poço da morte –, ir ao Circo, flanar, pavonear as toilettes já primaveris, almejar encontros agradáveis, flirtar, renovar as bijouterias, etc., etc.….

O ambiente favorecia a diversão!

Mas porquê no “Marintimidades”, estas intimidades? Apesar dos meus verdes anos, os barcos moliceiros já não me eram indiferentes. E daí ficou a chapa que bati em 25 de Março de 1961. Não há dúvida que já atraíam as minhas atenções. Eis a prova

-

           -

Inauguração da Feira de Março – 1961
-

A ria, inspiradora e calma, espelhava a paisagem!

Estava um bonito dia primaveril! O Rossio é, era, (será?...) sempre o Rossio! Parece que não. Muito está em mudança. Alimentava-se da água que bebia! ….

Além do mais, era hábito os barcos moliceiros estarem presentes, por iniciativa dos arrais, movidos pela tradição, em razoável número, no Canal Central, para exibirem as suas elegantes formas e garridismo cromático. Com eles vinham, também, alguns mercantéis, mais pesadões, mas sempre pujantes senhores da Ria.

Esta imagem deixa-me alguma saudade. Apesar de continuar a apreciar a beleza do Canal Central, algo mudou e, se calhar, não foi para melhor. Opiniões!...

 

Da antiga ponte Aveiro/Barra
-

De passagem pela antiga ponte de Aveiro/Barra, naquela manhã resplandecente e de águas cristalinas, cliquei uma bela imagem do n/m “Ilhavense” e já em pleno Cais dos Bacalhoeiros, outra, do lugre-motor “Coimbra”.

-

Lugre-motor “Coimbra”
- 

Que bela, soalheira e calma manhã de 25 de Março, há 62 anos!...

-

Ílhavo, 24 de Março de 2023

-

Ana Maria Lopes

-

segunda-feira, 20 de março de 2023

Naufrágio da "chalupa D. Maria", na Barra de Aveiro

 -

Naufragou na barra de Aveiro a chalupa D. Maria, da praça do Porto, para onde se dirigia com carga de sal, de conta do negociante de Ílhavo Sr. José Teiga.

O D. Maria foi ainda até ao espalhado para sair, mas como o mar embravecesse, voltou para dentro. Antes, porém, de chegar ao ancoradouro, um desarranjo no leme fez desgovernar o navio, que foi cair num baixo de areia do lado Norte, abrindo logo água e começando de imediato a inutilizar a carga, que se perdeu por completo. Sem esperanças de salvar o casco, a tripulação começou removendo o massame, velas, correntes, etc., que se acham em terra. O navio conserva-se ainda inteiro, porque está ao abrigo do embate das ondas, pelo que se pensa poder recuperá-lo. O D. Maria foi propriedade do conhecido e falecido armador de Ílhavo Sr. Manuel Machado e viajava então com o nome de "Machado 1º".

Perto do sítio onde agora naufragou, o navio sofreu há três anos igual sinistro, conseguindo-se, todavia, pô-lo a flutuar, passando depois à propriedade do Sr. José Teiga. Este Sr. só dispunha agora de uma terça parte, sendo as restantes duas terças partes da firma do Porto José Dias Pimenta & Cª. Nem o navio nem a carga estavam seguros. O D. Maria que se achava tombado foi ontem à tarde posto direito, à força de espias, lançadas pelo lado da costa de São Jacinto. Parece que se pode considerar salvo, embora seja grande o volume de água que se encontra no porão.

 

[Notícia publicada no jornal "Progresso de Aveiro" de 21 de Março de 1908]

 

Ílhavo, 20 de Março de 2023

 

Ana Maria Lopes

domingo, 5 de março de 2023

"Molinete" do "Faina Maior", em 2009

 -

Na senda do programa “O Meu Museu”, que iniciei, a convite do director do MMI, Nuno Miguel Costa, muitos episódios me assolaram a memória e este foi um deles – a história do molinete.

“Certo dia, quando o nosso saudoso amigo Capitão Francisco Marques terminava a construção do Faina Maior” e com grande satisfação me foi mostrar o seu trabalho, perguntei-lhe se não pensava instalar-lhe um molinete. Ele olhou para mim e, com amargura, disse-me que não se sentia com forças para isso. Não mais se tocou no assunto.

Mais tarde, já em Lisboa, conversei com o amigo Dr. Manuel Leitão, que, com a sua sempre pronta solicitude, logo me apresentou um conjunto de desenhos detalhados dos molinetes que se usavam nos palhabotes de Gloucester. Era completamente igual ao que eu conhecia do “Gazela”, só que de dimensões apropriadas a um navio como o Faina Maior”.

Guardei estes planos, mas não falei no assunto a ninguém, por não ter oportunidade.

Construi, então, uma maquette à escala e apresentei ao Sr. Director do Museu e ao Sr. Presidente da Associação dos Amigos do Museu a ideia da sua possível construção.

A minha proposta foi aceite em reunião da AMI e o Dr. Aníbal Paião, de imediato, deu ordem para a iniciação dos trabalhos, pondo à disposição as oficinas, os armazéns e o apoio logístico necessário para se dar início à obra.

Contactei o mestre José Vareta, a quem mostrei os desenhos e a maquette, para saber se estava disposto a dar seguimento a esta tarefa.

Observou tudo com atenção, e aceitou o trabalho, com a condição de ter apoio do serralheiro para acompanhar e executar os trabalhos em metal, para os transportes e suporte financeiro para a aquisição das madeiras necessárias.

O trabalho começou e logo se mostrou a todos os que o acompanharam, de uma atracção invulgar.

Foi bom voltar a ver riscar, serrar, unir e dar forma àquelas grandes peças de madeira que, dia a dia, iam mostrando as colunas, o tambor e as bonecas que começavam a dar vida à “velha” peça feita agora de novo.

-

Na Pascoal…
-

Depois, voltámos a ver trabalhar a enxó de ribeira, guardada há tantos anos, mas que o mestre ainda manobrava com mestria.

Começava o acerto das ferragens que, depois de devidamente aplicadas, davam movimento ao nosso molinete.

Trabalhava, rodava e até “cantava” como os seus “irmãos” a bordo dos navios.

-

No MMI…
-

Chegava o dia de partir para o seu lugar e lá seguiu desmontado na camioneta que o levou até ao Museu de Ílhavo, onde o mestre Zé Vareta, que já tinha construído o “Faina Maior” ia agora terminar o seu trabalho colocando no castelo de proa o molinete para virar a amarra».

-

No MMI…
-

28.4.2009 – António Marques da Silva

 

Fui acompanhando o trabalhado, sempre com curiosidade e entusiasmo, e fotografando as suas diversas fases.

Mais uma vez, estamos muito gratos ao Amigo Marques da Silva, pela boa vontade, espírito de pesquisa, saber e paciência.

Obrigada, Capitão Marques da Silva!

-

Ílhavo, 5 de Março de 2023

-

Ana Maria Lopes

-

sexta-feira, 3 de março de 2023

A Barca Processional dos Apóstolos

 -

Depois de ter assistido à tertúlia “Memórias viajantes” no MMI, no passado dia 25 de Fevereiro, resolvi reescrever e melhorar tudo quanto tinha escrito, até aí. Intervieram Senos da Fonseca que, além de referir, sempre, a importância da diáspora dos ílhavos, litoral abaixo, justificou por que motivo se deveria dizer barca e não barco, Dr. João Pires da Rosa, representante da Família e Drª. Carla Felizardo, professora de Conservação e Restauro na Universidade Católica do Porto, onde a peça se encontra em intervenção.

Para mim, esta barca só existe, presencialmente, desde que a visitei em Setembro de 2009, ali umas casas abaixo da minha, na posse da Senhora D. Zídia Mendonça (falecida em 2012, com 89 anos). Amavelmente ma mostrou e deixou fotografar, sempre receosa que a rara peça de arte sofresse, com as deslocações, algum pequeno dano – apercebi-me.


1.Em Setembro de 2009…
-

Tendo conhecimento que aquele barquinho teria estado presente, em tempos, numa antiga festa de S. Pedro, celebrada em Ílhavo, tentei informar-me melhor.

Como? Para já, lendo, consultando, pois a senhora, já de provecta idade, não me soube dizer muito mais.

Tendo bem à mão o delicado livrinho Senhor Jesus dos Navegantes – Mar e devoção (2007), respiguei o que Hugo Cálão escreve a este respeito, p. 12:

(…) A devoção pela imagem do Senhor Jesus creio que começou sem ligação marítima continuando a invocação da imagem só como Senhor Jesus até finais do séc. XIX, fazendo-se em Ílhavo a festa de pescadores em devoção ao S. Pedro Apóstolo. As várias companhas de pesca costeira da Costa Nova, depois da esmola recolhida por todos, faziam a sua procissão que se festejava no dia 29 de Junho.

A imagem de S. Pedro tinha lugar de honra num pequeno barquinho, onde figuravam os apóstolos, uns remando, outros a colher redes, e a imagem de São Salvador, o padroeiro da Vila, à proa, abençoando também o trabalho da faina. Desta antiga devoção, que terminou com a dissolução das antigas companhas pouco depois de 1840, hoje restam apenas as figuras dos apóstolos do antigo barco processional que saía por ocasião da festa ao S. Pedro, actualmente nas reservas do MMI.

 

Com a abertura da barra de Aveiro em 1808 (…), a construção dos estaleiros e organização de campanhas de longo curso deu início a uma nova devoção dos pescadores ilhavenses, transitando a grande festa religiosa que se celebrava ao S. Pedro (das pequenas campanhas de costa), para a actual festa dos marítimos em honra do Senhor Jesus dos Navegantes. Embora numa acta da Junta de Paróquia de 7 de Agosto de 1865 apareça a despesa da Festividade do Senhor Jesus e São Sebastião (referente a 1864), a imagem com a nova invocação marítima de Festa do Senhor Jesus dos Navegantes, apenas aparece em ex-votos pintados de finais do séc. XIX e início do séc. XX, propriedade da nossa Igreja Matriz.

Com o incremento económico dos capitães nas prósperas campanhas ao bacalhau, a devoção cresceu e a fé ilhavense projectou-se com brilho, na Festa ao Senhor Jesus dos Navegantes.

Refere ainda que o andor da antiga procissão ao S. Pedro em Ílhavo ainda serviu em início do século XX na procissão de Nossa Senhora da Saúde, na Costa Nova, no último domingo de Setembro.

Em 200 Anos de Memória da Costa-Nova do Prado (2009), Senos da Fonseca relata também, na p. 169, que na Costa Nova, os festejos em honra da Senhora da Saúde, iniciados em 1837, vieram substituir a primitiva festa de S. Pedro em Ílhavo – tornando-se a festa das Companhas – passando a ter data fixa, no último domingo de Setembro. E assim continua, nos nossos dias…

O mesmo autor, no Ílhavo – Ensaio Monográfico do Século X ao Século XX (2007), refere das pp. 295 a 298, que a festa de S. Pedro era celebrada pelos pescadores das companhas (pensamos que tivesse tido o seu início próximo do século XVIII), na matriz, em 29 de Junho de cada ano (…). O préstito (…) deixava o lugar de honra para o andor de S. Pedro, onde mareava o simbólico barquinho – infelizmente desaparecido –, e com o Salvador na proa, em acto de louvada bênção à companha (…).

 

A partir de uma determinada data (não se consegue fixar…), a festa de S. Pedro passa a ter a designação de Festa do Senhor Jesus dos Navegantes e de S. Sebastião. Talvez tenha acontecido por meados do século XIX.

A mudança reflecte uma profunda alteração no tecido social da vila e o pescador passa a mareante no alto mar.

Em meados do séc. XIX, o ílhavo tinha deixado para trás o areal da Costa Nova.

Começámos, através das leituras feitas, a pensar que terão sido vários os barcos processionais a desfilar no préstito do Sr. Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora da Saúde. Estamos em crer que este foi o último a fazê-lo, já então na Costa Nova.

De consulta em consulta, rapei da estante o Etnografia e Memória – Bases para a Organização do Museu Municipal de Ílhavo, (1933), em que Rocha Madahil, na p. 80, refere a presença de um barquinho na Exposição de Arte Ilhavense, em 1932.

(…) Tinham eles antigamente a sua festa em Ílhavo, ao seu patrono S. Pedro, e na respectiva procissão apresentavam o andor do barco do mar (…) E o barquinho com as miniaturas de pescadores aos remos, muito hirtos e aprumados, tombando com os balanços do andor, uma rêdesinha e uns rolinhos de corda à ré, junto ao arrais, passou a fazer parte da procissão de Nossa Senhora da Saúde.

Conserva-se ainda esse belo barquinho e esteve presente na Exposição de Arte Ilhavense de 1932; seria um acto de grande civismo e muito de agradecer, se o seu actual proprietário consentisse em depositá-lo no Museu; é uma peça valiosa pelas tradições que lhe estão ligadas e que ele representa e evoca. 

Barco rústico, algo desproporcionado, mas com sabor arcaizante e sacro, com apóstolos hirsutos, gigantes, para a embarcação, quase talhados a naifinha, de uma policromia enegrecida.

Com vestígios de pequenos motivos a ouro, próprios de arte sacra, é dono de uma beleza sui generis.

Parece-nos que terá mais de um século, princípios do século XX ou finais do século XIX (não há dados rigorosos).

Em madeira de tom acastanhado, tem o costado decorado com grinaldas florais, ricas em pormenores e apresenta nos dois bordos, também policromada, a cor de mel, num fundo mais escurecido, uma inscrição que reza VIVA A COMPANHA DOS LUIZES.

-

2. VIVA A COMPANHA
- 

Falando em Exposição de Arte Ilhavense, em 1932, o jornal O Ilhavense não podia deixar de ter uma palavra no número de 3 de Abril de 1932 – A propósito da Exposição de Arte Ilhavense, em Sala Marítima, refere… Naquela sala, vimos (…) o barco dos pescadores que todos os anos vai na procissão da Senhora da Saúde.

-

3. ...COMPANHA DOS LUIZES
-

Seria um precioso elemento situar no tempo a Companha dos Luizes, mas por dados catados em livros e documentos, ela existiu entre 1808 (?) e 1930, ano em que ainda estava registada em livros da Capitania de Aveiro, existentes na Cordoaria em Lisboa. É um período muito largo que nos deixa algumas dúvidas.

Segundo várias fontes, dentre as quais Palheiros do Litoral Central Português de Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano (1964), na p. 73, por volta de 1808, o arrais Luís dos Santos Barreto (Luís da Bernarda), de Ílhavo, com a maioria das gentes que iam pescar a S. Jacinto, decide arriscar a sua sorte, em busca de pescarias mais proveitosas, a sul. Acaba por se estabelecer na dita Costa Nova, em frente ao Prado da Gafanha.

Também, por volta de 1808, o seu irmão José da Silva Barreto arriba com a sua companha composta exclusivamente por ílhavos, ao areal da Cova, em terras de Lavos. A companha dos «Luizes» rapidamente povoa o local, chegando a erguer uma exígua capela perto da Gala e a instituir a festa de S. Pedro, como padroeiro dos pescadores.

Rememorando a exposição «A Diáspora dos ílhavos» que o MMI exibiu em 2007, por ocasião do seu 70º aniversário, lembrei-me de um modelo de barco do mar, policromado, com o registo FF-1967-L, com Cristo e os Apóstolos, oferecido pela companha dos Luizes, quando ergueram uma capelinha na Cova/Gala, hoje a freguesia de S. Pedro.

Um pouco mais tarde, em 2011, resolvi dar uma volta pela Cova/ Gala, onde encontrei, na Capela, o dito barquinho.

-

4. Barca dos Apóstolos, na capela de Cova/Gala
-

Devoções idênticas com a presença na procissão dos oragos locais de barcos processionais, havia também na Costa da Caparica e na Ericeira, dentre outras, porventura.


5. Festa de N. S. do Rosário, na Caparica
- 

E tradição semelhante continua, com o desfile processional actual, na Costa Nova, mas com o Santo Amaro, em barco do mar, aos ombros de pescadores.

Ainda há uns dias fui ao Ciemar, na esperança de encontrar mais algum dado, e com a colaboração do Hugo, lá demos com uma separata do vol. XXXIII do A.D.Aveiro, da autoria de António Correia “A acção dos pescadores de Ílhavo, na Costa da Caparica”, de  Março de 1967, onde cita, na p. 10 que, como lembrança apenas ficou um barco meia-lua de S. Pedro Pescador, feito em madeira, por um carpinteiro de Ovar, e que é a cópia fiel em miniatura, dos primeiros barcos trazidos pelos pescadores de Ílhavo, mostrado em imagem anterior.

Não concordo completamente, porque os barcos mar com que os “ilhos”, foram ao longo do litoral, expandindo a sua longa diáspora, eram barcos de proa mais em riste, bem mais pontiaguda do que a bica da ré.

A.A. Baldaque da Silva cita na sua obra “Estado Actual das Pescas em Portugal”, 1891, na p. 396, a existência de barcos, ditos meias-luas, de altura de proa e ré, bem mais aproximada, na Costa da Caparica, com o seu tradicional olho, como decoração de proa.

 -

6. Meias-luas da Costa da Caparica

-

Muitas hipóteses, relatos e citações, mas continuam muitas dúvidas.

-

Propriamente da obra de arte em causa, pouco mais sei do que para trás colijo.

-

Era indispensável contactar com uma pessoa da família Maia Mendonça; para me facilitar esse conhecimento, foi fortuito, mas proveitoso, um encontro com a esposa do Senhor Dr. Pires da Rosa, em que veio a lume a vontade manifesta da Família de depositar o Barco de S. Pedro no Museu, desde que todos os elementos da Família concordassem.

Lá lhe indiquei os passos a seguir e ninguém melhor para encabeçar o assunto que o próprio Dr. Pires da Rosa com quem vim a falar, colocando-lhe todas as questões que urgia saber e que seriam úteis e habituais na incorporação de uma peça em Museu.

Quem o teria construído? Quando? Desde quando residiria, ali, no nº 15 da Rua de Espinheiro, morada que foi do Sr. Tenente Alberto Mendonça e sua esposa Maria Casimira Gomes da Cunha?

-

Testemunhou-me gentilmente o senhor Dr. Pires da Rosa que o Barco do S. Pedro terá chegado à sua família oferecido ao seu avô materno (ou talvez ao seu bisavô) por uns parentes, pescadores, que tinham na Costa Nova, conhecidos pelos "Luizes". Cá surgem mais uma vez os Luizes, da tal referida companha.

Ao que se lembra, desde sempre o Barco esteve em casa dos seus avós, Sr. Tenente Alberto Mendonça e sua esposa Maria Casimira Gomes da Cunha. Ele próprio, nascido a 4 de Outubro de 1946, é o neto mais velho e tem uma pequena fotografia dentro da embarcação, datada de Junho de 1947, aos oito meses e meio de idade, que só encontrou agora, passados uns doze anos.

-

7. Belo registo
-

E continua o relato: Na minha memória – há setenta e seis anos, portanto – nunca o Barco saiu da Sala de casa dos meus Avós. Saíra em tempos anteriores para a procissão do Senhor Jesus dos Navegantes em Ílhavo e para a Procissão da festa da Nossa Senhora da Saúde, na Costa Nova, onde seguia habitualmente montado em andor.

Estes dados conferem com a referência facultada pelo jornal O Ilhavense de 3 de Abril de 1932.

Sempre ouvi dizer aos meus Avós que a partir de certa altura o Papá (assim conhecíamos todos o meu avô em Família!) proibira a saída do Barco, porque o mesmo era pregado ao andor para ir na procissão e, por isso mesmo, estava a deteriorar-se.

No meu tempo – tenho a certeza – o Barco já não saía de casa. Vai sair agora pela primeira vez para o Museu, que é – para a Família – o local apropriado onde deve estar preservado e exposto.

Por isso nos reunimos, todos os netos que estão em Portugal, em casa de meus Avós e decidimos colocar o Barco em depósito no Museu desde já (como forma de o preservar e de o expor ao conhecimento dos ilhavenses), com vista a uma doação futura. O Barco é uma peça da Família, que nunca chegou a ser partilhada e que agora vai ter o destino que a Família tem por mais adequado.

É do nosso gosto deixar no Museu o Barco de S. Pedro, um Barco que – pensamos – é património cultural da terra de nossos Avós. De minha Mãe, – não sou capaz de evitar esta nota pessoal! – que sempre desejou em vida que o destino do Barquinho fosse o Museu de Ílhavo, pelo qual nutria um especial afecto.


Cumpre-se também uma vontade expressa pelo Dr. Rocha Madahil, em 1933, primeiro Director do Museu, e do Sr. Américo Teles, grande impulsionador da criação do mesmo e que creio que chegou a ir ver o barquinho, a casa dos seus Avós, há uns anos muito largos.

Foi um gesto louvável da Família Tenente Mendonça, o depósito da barca processional dos Apóstolos, no MMI, que teve lugar em Outubro de 2011.

-

8. Barca já depositada no MMI
-

Em Junho de 2013, dois habilidosos do maquetismo, elementos da AMI, António Marques da Silva e Francisco Paião, fizeram uma intervenção de emergência na barca, que acusava alguns danos visíveis. Mas não foi suficiente…

-

9. Em intervenção, nas reservas do MMI
- 

Entre 2013 e 2023, como é natural, foi-se degradando pela acção do tempo, para além de uns bons achaques que já revelava. Resolveu a Direcção do Museu, com ordem da família depositante, entregá-la à Universidade Católica do Porto, secção de Conservação e Restauro, sob a orientação da Professora Carla Felizardo. Depois de a ter ouvido nas ditas memórias viajantes e da apresentação de diversas imagens, aguardamos com entusiasmo e ansiedade o regresso da Barca dos Apóstolos, que nos irá encantar, sem dúvida, mais do que já encantava.
-

10. Com a Professora Carla Felizardo e suas alunas
-

Talvez se faça luz em mais algum pormenor…

-

Ílhavo, 3 de Outubro de 2011(3 de Março de 2023)

-

Ana Maria Lopes

-