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sexta-feira, 24 de março de 2023

Abre, hoje, a Feira de Março...

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Para mim, a Feira de Março, apesar da vetustez dos seus quase 600 anos, já foi, já era.

Para aí, há sessenta anos, quando vinha de férias da Universidade de Coimbra, que agradável era ir até à Feira de Março! Era mesmo obrigatório experimentar as sensações dos divertimentos mais ousados, para a época – comboio-fantasma, cadeirinhas voadoras, poço da morte –, ir ao Circo, flanar, pavonear as toilettes já primaveris, almejar encontros agradáveis, flirtar, renovar as bijouterias, etc., etc.….

O ambiente favorecia a diversão!

Mas porquê no “Marintimidades”, estas intimidades? Apesar dos meus verdes anos, os barcos moliceiros já não me eram indiferentes. E daí ficou a chapa que bati em 25 de Março de 1961. Não há dúvida que já atraíam as minhas atenções. Eis a prova

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Inauguração da Feira de Março – 1961
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A ria, inspiradora e calma, espelhava a paisagem!

Estava um bonito dia primaveril! O Rossio é, era, (será?...) sempre o Rossio! Parece que não. Muito está em mudança. Alimentava-se da água que bebia! ….

Além do mais, era hábito os barcos moliceiros estarem presentes, por iniciativa dos arrais, movidos pela tradição, em razoável número, no Canal Central, para exibirem as suas elegantes formas e garridismo cromático. Com eles vinham, também, alguns mercantéis, mais pesadões, mas sempre pujantes senhores da Ria.

Esta imagem deixa-me alguma saudade. Apesar de continuar a apreciar a beleza do Canal Central, algo mudou e, se calhar, não foi para melhor. Opiniões!...

 

Da antiga ponte Aveiro/Barra
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De passagem pela antiga ponte de Aveiro/Barra, naquela manhã resplandecente e de águas cristalinas, cliquei uma bela imagem do n/m “Ilhavense” e já em pleno Cais dos Bacalhoeiros, outra, do lugre-motor “Coimbra”.

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Lugre-motor “Coimbra”
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Que bela, soalheira e calma manhã de 25 de Março, há 62 anos!...

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Ílhavo, 24 de Março de 2023

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Ana Maria Lopes

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domingo, 13 de junho de 2021

De "Guerra II", a "Corça" e a "Granja"

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O lugre “Guerra II” desliza na calmaria pacífica, inspiradora, reflectora, espelhenta, das águas lagunares… Que belo veleiro, reflectido em tão tranquila ria… Tem a elegância de manequim, em passerelle, ao exibir todo o seu velame.

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O “Guerra II” a reboque…
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Segundo o Catálogo “A Frota Bacalhoeira – Navios de pesca à linha”, editado pelo MMI. em Maio de 1999, o lugre de madeira “Guerra II” foi construído em 1919 na Figueira da Foz por Sebastião Gonçalves Amaro para a Empresa Nunes, Guerra & Cª Lda., de Ílhavo, tendo participado nas campanhas de 1922 a 1930. Foi vendido à Parceria Geral de Pescarias Lda., Lisboa, para a campanha de 1933, passando a ter o nome de “Corça”.

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O lugre “Corça”
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Após a campanha de 1936, foi vendido à Companhia Transatlântica Lda., Porto, onde terá passado a ser o “Granja”, já com motor instalado. Participou nas campanhas de 1937 a 1939 e efectuou viagens de comércio, em 1940.

Naufragou em 1941, nos baixios a norte do Cabo de São Francisco, Terra Nova, quando se dirigia a portos da Terra Nova para carregar bacalhau seco.

Notícia do jornal “O Ilhavense» de 1 de Agosto de 1941 relata que, “por telegrama de Manuel São Marcos, capitão do lugre “Granja”, à proprietária deste navio, Sociedade de Pesca Transatlântica, naufragou, no domingo, dia 20, devido ao nevoeiro, nas proximidades do cabo de S. Francisco, junto à Costa da ilha da Terra Nova, aquele barco, que, em 30 de Junho havia largado de Lisboa, com carregamento de sal para aquelas paragens, a fim de trazer para Portugal um carregamento de bacalhau. O “Granja, que, ultimamente, não tem ido à pesca do bacalhau, empregou-se durante muito tempo no transporte de encomendas para os prisioneiros de guerra, entre Lisboa e Génova.

Na sua última viagem, tinha estado prestes a naufragar perto do estreito de Gibraltar, tendo ainda perdido dois dos seus tripulantes.

Além do ilhavense Sr. Manuel São Marcos que o comandava, o piloto, Jorge Fort’ Homem, e toda a restante tripulação está a salvo, devendo ser repatriada nos primeiros navios que venham daquelas paragens”.

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O lugre “Granja”
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“Guerra II”, “Corça”, “Granja”, que dança de nomes e de armadores…o que, acontecia, com frequência.

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Ílhavo, 13 de Junho de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 9 de março de 2021

O lugre "Ariel"

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Fiz várias consultas para saber um pouco mais do “Ariel”, bonito lugre que também fez parte daqueles que tiveram como cemitério a barra de Aveiro, em princípios do século XX.

Mas com tão, tão curta existência, não poderia ter longa história. Foi o que consegui.

 

O "Ariel”, lugre de madeira, de três mastros, com arqueação líquida de 191 toneladas, foi construído na Gafanha da Nazaré por Manuel Maria Bolais Mónica para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, Lda., de Aveiro, e lançado à água no dia 7 de Abril de 1919.

Há quem lhe tenha atribuído como primeiro proprietário Testa & Cunhas, mas, em minha opinião, tal seria impossível, pois a empresa ainda não estava constituída.

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Única foto conhecida do "Ariel"

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Depois de realizar a 1ª campanha na pesca do bacalhau, naufragou à entrada da barra de Aveiro, em virtude da escassez de vento e agitação do mar, no dia 11 de Novembro de 1919.

Durou nada mais do que seis meses, de Abril a Novembro.

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Sabendo-me interessada no assunto, pessoa amiga fez-me chegar às mãos estas notícias, que, por raras, não deixam de ser curiosas.

 

Título – "Barco em perigo"

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De Aveiro foi pedido ao Ministério da Marinha um rebocador com a força precisa para socorrer um navio em perigo.

In "Comércio do Porto", 12.11.1919

 

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Título – "Lugre encalhado – Os socorros"

 

Pela Capitania de Aveiro, foram na noite de anteontem pedidos socorros para a Capitania de Leixões, por se encontrar encalhado na barra de Aveiro, um lugre português, cujo nome se desconhece e que parece ser bacalhoeiro. Imediatamente foram dadas ordens para saírem daquele porto a Canhoneira "Limpopo" e o rebocador "Magnete".

Estas embarcações, que voltaram ontem para o porto de Leixões, onde chegaram pela 1 hora da tarde, nenhum socorro puderam prestar,  devido à forte agitação do mar. O lugre continua na mesma posição.

In "Comércio do Porto", 13.11.1919

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Título – "Naufrágio"

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Acerca do navio que naufragou na costa de Aveiro, a que nos referimos, recebemos do nosso correspondente em Ílhavo as seguintes informações, que o correio nos retardou, pois que as devíamos ter recebido anteontem…

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Ílhavo, 12 – O lugre "Ariel", que regressava da pesca do bacalhau com um carregamento de cerca de cinco mil quintais de peixe, ao demandar ontem, à tarde, a nossa barra, encalhou num banco de areia, e perdendo o governo por falta de vento, veio dar à costa ao sul da barra.

A tripulação foi salva com um cabo de vaivém, e é possível salvar-se parte da carga.

O "Ariel", porém, considera-se perdido. Era um lindo barco, construído há pouco nos estaleiros da Gafanha, sendo esta a primeira viagem que fazia.

In "Comércio do Porto", 14.11.1919

 

Obrigada, pois, pelas informações conseguidas, após pouco mais de 90 anos do acidente, que vitimou o “Ariel.

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E aos poucos, se vai reconstituindo a história trágico-marítima da nossa frota bacalhoeira.

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Fotografia – Amável cedência do MMI.

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Ílhavo, 09 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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terça-feira, 2 de março de 2021

Dos lugres "Águia" ao "Silvina"

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O lugre “Silvina”, registado em Aveiro, foi construído na Gafanha da Nazaré, em 1919, por Manuel Maria Bolais Mónica, com o nome de “Águia”, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, tendo sido o bota-abaixo a 4 de Outubro de 1919. Era um lugre com três mastros, de madeira, proa de beque, popa de painel e um pavimento.

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Dia de bota-abaixo do lugre “Águia” (1919)
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Media de comprimento, entre perpendiculares, 35,50 metros, 8,80 m. de boca e 3,60 de pontal. Tinha uma arqueação bruta de 212, 33 toneladas e líquida de 169,88.

Não tinha motor auxiliar e a tripulação era, em média, de quarenta homens.

Em 1920, foi comprado por 75 000$00, pelo Sr. João Bola, para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, em Aveiro, para quem já efectuou a campanha em causa, com o nome de “Silvina”.

 

Surge com características ligeiramente diferentes: 40, 42 metros de comprimento, fora a fora, 34,67, entre perpendiculares, 8,92 m. de boca e 3,62 de pontal. A arqueação bruta era de 207,76 toneladas e líquida de 152,65.


Foi vendido à empresa Agualuza & Batata, Lda., de Aveiro, em 1927, ficando este contrato anulado, face à compra da totalidade dos bens do armador pela firma Testa & Cunhas, ainda durante o ano de 1927, tendo-lhe sido atribuído o valor de 250 000$00 (escritura em 20.12.1927).

De 1920 a 1926, foi comandado por Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco, de alcunha) e em 1927, por António de Souza.
Já na posse de Testa & Cunhas, foi capitão em 1928, Ambrósio Gordinho, e em 1929, António de Souza (ou, eventualmente, Manuel dos Santos Lanbrincha).

Curiosidades:

Nos anos de 1928, 1929 e 1930, o navio foi à Terra Nova com 37, 37 e 36 tripulantes, respectivamente, tendo utilizando sempre 32 dóris. Nestas campanhas de fracas capturas, foram apurados apenas 1.148, 1.400 e 835 quintais de peixe e 1.100, 2000 e 1.200 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a venda foi de 140.000$00, 172.000$00 e 102.000$00 (escudos), certamente muito abaixo das melhores perspectivas, resultando daí um considerável prejuízo.

Daí resultou o navio não ter feito as viagens seguintes.

Na acta de 7 de Dezembro de 1932 da firma Testa & Cunhas, Lda., os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do “Ernani” e “Cruz de Malta”.

Decidiram ainda anunciar a venda do navio “Silvina”, entendendo que o podiam dispensar. Todos concordaram, desde que se pudesse efectuar em boas ou regulares condições, ficando a gerência autorizada a promover a sua venda.

Segue:

Depois de elaborado o presente relatório (acta de 11 de Agosto de 1934), chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre “Ernani” nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores. Uma dificuldade surge.

Como suprir a baixa daquela unidade?

Três soluções se apresentam:

1ª – Reparar e apetrechar o “Silvina”

2ª – Adquirir um navio já feito

3ª – Mandar construir um navio novo

Resolveu-se reparar o lugre “Silvina”, de modo a estar pronto para a futura safra (para o que foram gastos cerca de 50 contos), obtendo a Gerência informação dos barcos que se ofereçam em boas condições, quer no país, quer no estrangeiro e ainda de um orçamento para um barco novo.

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Foto do “Silvina”, frente à seca

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Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. Quem oferece melhores garantias de técnicas é o Senhor Manoel Maria Mónica, que tem dado provas da sua competência e idoneidade. A proposta foi construir um lugre segundo o modelo do “Brites” (1936), com a introdução de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, pelo preço de 640 contos. A aquisição do motor Diesel ficaria a cargo da gerência.

Encomendado em fins de 1936, o “Novos Mares”, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré.

O “Silvina” foi prosseguindo a sua difícil missão, comandado por Joaquim F. Agualuza (de 1935 a 1937) e José Cachim Júnior (de 1938 até 1941), até que viu o seu fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941.


Quem quiser recordar, pormenorizadamente, este acidente, poderá ler as páginas a ele dedicadas (103 a 116 da reedição de 2007), escritas por Jorge Simões, em prosa da época, “O Silvina em chamas”, no livro “Os Grandes Trabalhadores do Mar”. O jornalista fez a campanha de 1941, a bordo do “Groenlândia”, para a observação da faina e recolha de dados.
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Ílhavo, 02 de Março de 2021

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Ana Maria Lopes

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