quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Homens do Mar - Sílvio Ramalheira - 50


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Cap. Sílvio Ramalheira, a bordo do Argus, em 1950

Foi um homem do mar que todos devemos reverenciar, por ter suportado no mar uma das maiores tragédias, que jamais afectaram, mortalmente, Ílhavo, e outras localidades do litoral português. Todos sabemos a que nos referimos!... O fatídico afundamento do lugre Maria da Glória, em Junho de 1942. Mas a sua vida de mar não se limitou a esse ano!...

Alto, simpático, entroncado, de olhos claros, era mais um marinheiro da família Ramalheira – o capitão Sílvio. Tinha de ser. Os Ramalheiras, de Ílhavo, gerações e gerações, cruzaram os mares tenazmente, com um impulso de coragem no olhar. Havia muitos Ramalheiras de Ílhavo, a trabalhar na frota bacalhoeira, nos anos 50, – recorda Alan Villiers – o, João Pereira Ramalheira, o Vitorino, comandava o navio-hospital Gil Eannes, o Aníbal Ramalheira, que supervisionava frota dos Bensaúde, em terra, em Lisboa, depois de uma carreira longa e notável à frente de vários lugres. E muitos mais teria havido.
O Capitão Sílvio Ramalheira nasceu em Ílhavo em 2 de Dezembro de 1902. Filho de João Pereira Ramalheira, de alcunha, o Pisco, também ele capitão da Marinha Mercante, nascido em 1868, e de Maria Rosa Ramalheira. Casou com Maia Júlia Magano, de quem não teve filhos. De segundas núpcias, teve três filhos, dos quais o mais velho, de nome Sívio Ramalheira, seguiu a carreira da Marinha de Guerra, segundo desejo do Pai.
O capitão Sílvio, pela vida fora, conhecia bem, ao longe, aquele pontinho branco que era aquele pequeno veleiro – o Gazela, pois a sua primeira viagem aos bancos, fizera-a, como moço, com cerca de dez anos, naquele navio. Mais tarde e, consultados os primeiros jornais de Ílhavo, fora piloto, nos anos de 1922, 23, 25 e 26 do dito Gazela Primeiro, sob o comando do Pai, João Pereira Ramalheira, o Pisco. Mais tarde, na campanha de 1932, comandara-o. O bichinho do Gazela ficara-lhe, mas, vida é vida e saltitou, então, no comando entre mais três lugres da Parceria – o velho Argus, mais tarde o Ana Maria, em 1927 e 29, o Neptuno II, em 1928 e 30 e o velhinho Gamo, na campanha de 1931. Durante estes anos, teve como pilotos, de Ílhavo, Manuel dos Santos Labrincha (1928) e João Pereira Ramalheira, o Vitorino, em 1930 e Adolfo Francisco da Maia, em 1931. Que recordar dos lugres Neptuno II e do Gamo?
O tal Neptuno II, de madeira, construído em 1873 em Vila do Conde, armou em patacho e, reconstruído em 1926 por Manuel Maria Bolais Mónica, passou a armar em lugre. Deixou de pertencer à Parceria Geral de Pescarias, no ano de 1938.
Do lugre Gamo, há que realçar que foi um lugre de madeira, construído para a PGP, Lda., por Luiz Basílio, no Funchal. Utilizado para a pesca do bacalhau, entre 1923 e 1939, foi vendido, tendo-se destinado ao comércio.

Lugre Gamo

Sílvio Ramalheira, num dia de Junho de 1932, capitão do Gazela Primeiro, num momento de correntes traiçoeiras, de um vento repentino e de ondas perigosas, tinha os seus homens fora (…). Era difícil para um navio, como o Gazela chegar perto dos seus pescadores, sendo costume, nesse tempo, lançar-lhes um longo cabo de manobra preso à popa do navio ancorado (…). Como o Cap. Sílvio não era homem para estar parado, nesse dia, fez-se ele próprio ao mar, levando esse cabo. Levou ainda um segundo dóri, em que remou, velejou, indo ao encontro dos homens que estavam mais em perigo (…). Havia trinta e um dóris do Gazela no mar, e o capitão encontrou e salvou vinte e nove: os dois restantes nunca mais regressaram – recorda Alan Villiers, na campanha de 1950.
Se isto não era uma boa recordação, o que haveríamos de dizer da maior tragédia da sua vida marítima? Horrível! …sem adjectivos que a classifiquem!...
Os capitães, quando o tempo o permitia e se davam bem, visitavam-se nos seus navios. Em 1939, a bordo do lugre Hortense, amigos, à nossa esquerda, Francisco Paião, o seu irmão Adolfo, a meio, capitão do Hortense, e Sílvio Ramalheira, à nossa direita. Uma relíquia de imagem!...
  
Em 1939, a bordo do Hortense

Mas, entre, 1932 e 34, a sua vida dera uma grande reviravolta. Deixava a parceria, para comandar, de saco e bagagens, o lugre Maria da Glória, da praça de Aveiro. Era um belo lugre de madeira, elegante e capaz, onde o capitão investira as suas poupanças. O ex-Portugália, construído na Gafanha da Nazaré, na campanha de 27, passou a chamar-se Maria da Glória, então propriedade da Empresa União de Aveiro, Lda. Foi sujeito a uma reconstrução no ano de 1937, bem como à aplicação de motor de propulsão.
Entre 1933 e 1942, o «nosso» capitão comandara este lugre, até ao seu final trágico, doloroso e pungente. Durante estes dez anos, tivera como pilotos, Flávio Ramires Campos Pereira (36 e 37), Júlio António Lebre (38 e 39) e António dos Santos (1942), todos de Ílhavo.
Em tempos de guerra, foi afundado em 5 de Junho de 1942 por um submarino alemão, em viagem para a Groenlândia, tendo constituído uma das maiores tragédias que assolaram a nossa vila maruja. Dos 44 tripulantes, apenas se salvaram 8, em condições sobre-humanas, em dois botes despojados de tudo. E Sílvio Ramalheira foi um dos que se salvou, em muito mau estado psicológico e físico, pelos muitos estilhaços, com que tinha sido atingido na perna direita.
Vários relatos doridos e arrebatadores existem deste afundamento, não sendo todos eles unânimes na sua narrativa. Muito luto, muita dor, muitas perdas, poucas notícias, muita ansiedade, muito tempo de espera. O jornal O Ilhavense de 1.8.42 dá a notícia, o Diário da Manhã de 25 de Julho de 1942, igualmente, referindo-se aos 37? (36) marinheiros desaparecidos e O Primeiro de Janeiro de 3 de Setembro do mesmo ano, noticia a chegada a Lisboa do capitão Sílvio Ramalheira e de mais três tripulantes do lugre afundado na Groenlândia. E muitos mais se lhe referem, até recentes, como um artigo do jornal Expresso do penúltimo Verão, de 18 de Junho de 2017.
Mas a convalescença do capitão, devagar, devagarinho, de dia em dia, ia avançando, tendo sido muito longa, dolorosa e morosa. Nos anos de 1943, 44 e 45, ficou em terra, não vendo mais jeito de recuperar a perna ferida, sem o auxílio de muletas. Mas, dificilmente, esse tempo chegou e o seu estado físico e psicológico de tal acidente foi-se recompondo. Creio mesmo que lhe deve ter ensombrado a vida toda, se bem que o tempo se tivesse ido encarregando de suavizar as tragédias sofridas. Numa tentativa de minorar as suas penas e de se voltar a sentir válido, retornou ao mar, na campanha de 1946.

E ei-lo a retomar o mar, como capitão do navio Lutador, o tal navio-motor dos três mastros, nas safras de 1946 a 1948.

Durante estes três anos, foi seu imediato, Manuel dos Santos Marnoto Praia (1946 e 47), de Ílhavo. E pilotos, como estreante, João Fernandes Matias (46) e António Remígio Sacramento Teiga conhecido como António Capote (47), também ilhavense. Sílvio Ramalheira teve a satisfação de estrear o navio, que tinha sido construído em 1945 para a Empresa de Pesca de Lavadores, Lda., por João Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, tendo iniciado, pois, a actividade de pesca, no ano seguinte.

Navio-motor Elisabeth, em 1950

Entre as campanhas de 1949 e de 1952, o capitão Sílvio comandou o navio- motor Elisabeth, que fora construído em 1945, para a Empresa João Norberto Gonçalves Guerra, da praça de Lisboa, por Manuel Maria Bolais Mónica. De Ílhavo, teve como imediatos Elmano Graça Ramalheira (50 e 51) e Manuel dos Santos Marnoto Praia (52). Piloto, de Ílhavo, Vitorino Paulo da Silva Ramalheira (52), seu 2º primo.
Durante a célebre campanha do Argus, com Alan Villiers a bordo do mítico navio, visitava com frequências os Capitães Adolfo e Almeida, irmãos, a quem o uniam laços de amizade. A meio, na foto seguinte.

A bordo do Argus, 1950

O repórter do Jornal do Pescador de Setembro de 1951, na p. 8, noticia que o Elisabeth fora o primeiro navio bacalhoeiro a regressar da Groenlândia completamente carregado, elogiando a arte e saber do capitão, em perseguir os cardumes de bacalhau.

Em última «emposta», saltou com regozijo, na safra de 1953, para o novo navio-motor, de aço, Capitão João Vilarinho, construído para João Maria Vilarinho, nos Estaleiros Navais do Mondego, Figueira da Foz, em 1952. E por lá se manteve, durante cinco campanhas. De Ílhavo, apenas teve como imediato, Manuel dos Santos Marnoto Praia e, como piloto, Vitorino Paulo da Silva Ramalheira, em 1953.
  
Navio-motor Capitão João Vilarinho

Aposentou-se em Setembro de 1962, com direito a saborear um merecido descanso, depois de uma ousada e extenuante vida de mar. Deixou-nos em 26 de Abril de 1982, com 79 anos de idade.
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Ílhavo, 16 de Outubro de 2018
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Fotos – de A. Villiers, cedidas pelo MMI e do arquivo pessoal.
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Homens do Mar - Manuel Cecílio do Bem - 49


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Manuel Cecílio do Bem (Paulo)

Sempre foi minha conhecida e vizinha, a Silvina Paula, por aqui por entre as ruas Ferreira Gordo e João de Deus. Noutro dia, ao cruzarmo-nos no passeio, aqui de Espinheiro, dirigiu-se-me e   entabulou conversa. Nesse dia, o assunto tinha a ver com os «Homens do Mar», que O Ilhavense tem publicado. Como filha de marítimo, de quem muito se orgulha, e possuidora de pequenas fotos do Pai, a bordo, tinha muito empenho em que eu pudesse dedicar um dos meus despretensiosos trabalhos ao Manuel do Bem, de alcunha, o Paulo.
E porque não? Se as imagens fossem elucidativas e ela me orientasse naqueles primeiros dados que só a família sabe, então, soltar-me-ia, percorrendo caminhos habituais (jornais O Ilhavense, Jornal do Pescador, fichas pessoais do Grémio, fichas de navios, de cada campanha, tripulações, etc.), que percorro com gosto.
Além disso, em 1992, juntamente com os colegas cozinheiros António Gordo, João Labrincha e João Barreirinha, tinha ido algumas vezes ao Museu, aquando da preparação da lembrada Faina Maior, ajudando-nos a identificar algumas peças do gigantesco trem de cozinha trazidas das secas, bem como dar umas dicas sobre o seu «papel» de cozinheiro, a bordo. Do cozinheiro e seu ajudante, dependiam todo o «combustível» da tripulação, trabalho nada fácil, exaustivo, preocupante, mas rotineiro. E Ílhavo também fora pródigo em fornecer bons cozinheiros para a pesca.
A Paula, mesmo ali, no passeio, recordou alguns dos navios em que o Pai andara embarcado e também os seus capitães – Quim da Graça, Mário Paulo do Bem, Valdemar Aveiro e capitão Pascoal, entre outros. Claro, o seu desejo despertou-me interesse e fiquei, ansiosamente, à espera das fotografias. Da cozinha de bordo, propriamente, não tinha esperança que aparecesse alguma, pois as condições de luz do espaço não eram favoráveis e dificultavam o registo dos desejados cenários reais. Um dia, de posse das mesmas, a Paula, em conversa, ali na sua casa do típico beco ilhavense, nº 11, à Rua João de Deus, tirou-me algumas dúvidas, forneceu-me mais uns dados e daí em diante, eu que me desvencilhasse.
Manuel Cecílio do Bem, de alcunha Paulo, filho de José Paulo do Bem e de Maria de Jesus Calçôa, em Ílhavo tinha nascido em 27 de Maio de 1921 e por aqui se criara.
Portador da cédula marítima nº 22601, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 7 de Março de 1939, terá ainda jovem, sido levado para o mar, por algum amigo ou familiar, como moço de câmara.
Do casamento com Silvina Marques da Silva, em Novembro de 1952, nasceram a Silvina Paula (mais velha) e António Augusto Marques do Bem, também marítimo, com o mar a correr-lhe nas veias.
Depois que termos acesso aos registos do Grémio, Manuel Paulo, terá feito o seu baptismo de mar como moço, no navio-motor de ferro, Santa Maria Madalena, nas safras de 1939 e 40. Continuou no mesmo navio, construído em 1939, para a Empresa de Pesca de Viana, nos estaleiros da Companhia União Fabril (CUF), até 1943, tendo passado a ajudante de cozinheiro. Sempre sob o comando de Joaquim Fernandes Agualusa (1901-1983), mais conhecido por Quim da Graça, de Ílhavo.
  
À nossa direita, a bordo
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Nas safras de 1944 e 45, perde-se-lhe o rasto, que, talvez se venha a encontrar. Esperemos.  Surge-nos, ainda como ajudante de cozinheiro, nas campanhas de 1946 e 47, no lugre Ilhavense Segundo. Este lugre-motor construído para a Parceria Marítima Esperança, Lda., por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1918, não participou nas campanhas de 1949 a 1952, tendo retomado a actividade depois de reconstrução sofrida em 1952. Foi seu capitão, o ilhavense Carlos Ançã.

À nossa esquerda, a bordo…
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E na safra de 1948, o Paulo deu o salto com o «saco da roupa» para o convés do Viriato, aonde regressaria por muito mais tempo, sob o comando de Mário Paulo do Bem (1907-1976).
  
Bota-abaixo do Viriato, em 1945
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Depois de uma passagem na safra de 1949, pelo icónico Gazela Primeiro, sob o comando do ilhavense João Simões Chuva, o Anjo (1901-1956), assentou arraiais no Viriato, durante mais oito viagens, com o mesmo capitão, Mário Paulo do Bem, seu amigo e familiar, até 1955 e com Elmano Pio da Maia Ramos, ambos ilhavenses, entre 1956 e 57, tendo alcançado o posto de cozinheiro no ano de 1951.  Este ano de 1951, no Viriato, parece que me diz mais alguma coisa. Ah!...
Por mais que uma vez que ouvi da boca do Cap. Valdemar Aveiro que se fizera à pesca do bacalhau, pela primeira vez, como moço, a bordo do lugre-motor Viriato, no ano de 1951, no sentido de suportar as despesas da sua formação. Era isso! Acto louvável!...
O Manuel Paulo, como cozinheiro do navio. conterrâneo e amigo do Valdemar, sempre lhe preparava uns «miminhos culinários», à socapa, como era hábito em situações deste tipo – referiu-me a filha.
A principal peça da cozinha, incluída «no rancho» era o grandioso fogão, de início, a carvão de pedra, ladeado de pequenas tulhas com os mantimentos que o cozinheiro mais usava: feijão branco e encarnado, grão, arroz e açúcar, este, fechado a cadeado. As grandes bailas, tachos, panelas, tabuleiros, passe-vites, cafeteiras, penduradas nos vaus. Espaço acanhado…, mas, asseado, limpo e arrumado.
Rente à saída para os grandes bancos, vinha a fragata dos mantimentos. Avisado o cozinheiro, ele conferia-os com ajuda de outros companheiros – tudo com peso e medida!
No dia seguinte, chegava o bote com caixas de peixe: pescada, chicharro, pargo-mulato, peixe-espada, corvina… Vinha logo o cozinheiro – vida difícil a deste homem –, estripá-lo com a ajuda da sua mulher, da do contramestre e de um ou outro marinheiro. Salgava-se no porão, ao lado do encerado com as alfaces, favas, ervilhas, cenouras, para os primeiros dias de viagem. Mais perto da saída, vinha a fragata da água – o cozinheiro que começasse logo a tenteá-la– era-lhe   recomendado.

O casal, a bordo do Viriato, em 1954
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A foto anterior é mais um documento da presença das mulheres a bordo. Aqui, a do cozinheiro, na sua vestimenta de época, com avental lavrado e embonecado com folhos, calçada com as suas peúgas de lã e tamancos envernizados e solas de madeira, comprados na feira da Vista Alegre.

Às vezes, havia queixas - a sopa anda a sair salgada com’à pilha – reclamava a companha.
Às sete e meia da matina, saía o «almoço» – variava entre  papas de feijão, feijão guisado ou assado no forno, papas de farinha de trigo, açorda; – o «jantar», às onze e meia (sopa de feijão branco ou vermelho, ou grão com arroz ou massa, temperada com toucinho bem alto) e peixe cozido, só por só, com alguns temperos, se o cozinheiro estivesse bem amurado (de boa disposição). À ceia, voltava o peixe acompanhado de feijão frade e grão de bico.

E o pão de bordo? Ah! Ah! De boa farinha de trigo americana, amassado em água salgada, estava sempre em tabuleiros sobre a mesa. Se era igual e creio que sim, àquele que nos mandavam a casa, ainda quentinho, sempre que entrava algum navio da empresa: –  Era de comer e chorar por mais!

Pequenas regalias distinguiam a quinta-feira e o domingo: o queque, ao almoço e a carne salcochada, ao jantar.

Também a alguns «pitéus», tinham direito os pescadores, de vez em quando:
– tartaruga, com carne muito apreciada, idêntica à da galinha, mas com sabor a peixe, apanhada ali por altura das ilhas.
– toninha, cozida ou guisada, ou em bifes frescos, apanhada, também, pelas bandas das ilhas.
– a lula excedentária, depois de primordialmente, servir para isca.
– peitos e coxas de cagarra também constituíam um óptimo «pitéu».

Chegados aos pesqueiros, o horário das refeições estava condicionado à pesca.
O cozinheiro aviava o pessoal em refeição volante, que se misturava com gagins e anzóis, no foquim – pão, umas postas de peixe frito, azeitonas, café, uma garrafa de água. Antes da escala, o jantar, com sopa e peixe cozido – agora fresco, pescado e escolhido para o efeito.

Que belo troféu!...
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Depois da escala, a famosa «chora», cozinhada com caras de bacalhau e arroz.
Horas de descanso… poucas…, e de secar a roupa com o calor do fogão, que nunca se apagava – «morria», mas quando o cozinheiro se levantava, dava-lhe uma mexedela com o ferro, punha-lhe mais carvão e toca a andar.

Vida dura que foi melhorando com a maior capacidade e condições dos navios. O Paulo do Bem, desde o Santa Maria Madalena, em 1939, passando pelos já citados navios, também cozinhou, para as companhas dos navios-motor Novos Mares, entre 1958 e 1961, e S. Jacinto, entre 1962 e 64 e do arrastão João Ferreira, em 1965 e 66. Por eles lidou com os capitães Weber Manuel Marques Bela, António de Morais Pascoal, e Joaquim Manuel Marques Bela, todos de Ílhavo, e com João Francisco Grilo, da Figueira da Foz.
Em dias de brisa, com descanso a mais e falta de peixe, más caras, todos se aborreciam.
O pobre do cozinheiro é que alombava…comer sempre a horas certas. Lá se lhe iam os mantimentos, era mais a refeição do meio-dia. Esta malta a bordo só fazia lixo e ainda tinha de a aturar – pensava o cozinheiro.
As mulheres, como já referido, também passavam algum tempo a bordo, antes da largada, ajudando à baldeação e à limpeza. Até mandavam e habituavam-se a ver o tempo…
O Manuel Paulo também teve a sua passagem pelo comércio, como atestam algumas fotografias. Entre fins de 1943 e princípios de 1946, fez algumas viagens para o Brasil, no paquete pertencente à Companhia Colonial de Navegação, Serpa Pinto, que ficou conhecido pelo navio da Amizade.

Paquete Serpa Pinto
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Já após a carreira do bacalhau, por 1967, fez algumas viagens de cabotagem, no navio Alger, em que naufragou por encalhe, em 29 de Junho de 1969, tendo feito um telefonema para a mulher, ali para a antiga loja do Sr. Lamarão, na rua, para a descansar e ouvir.

Em 1971, tirou o curso de cozinheiro no Alfeite, para poder embarcar, então, na Marinha Mercante, tendo sido cozinheiro no «novo» Serpa Pinto, da Companhia Insulana de Navegação, bem como no Funchalense e Madeirense – informação do genro Fernando Gago.
Deixou o mar por volta de 1980.
Depois de um AVC de que recuperou bem, ainda passou uns aninhos cá pela vizinhança, entre umas saídas com amigos, por casa e «dando uma mãozinha» nas lides culinárias, em que chegava a cozinhar ementas diferentes, para satisfazer os gostos de adultos e crianças. Cozinheiro era assim, em Ílhavo. Deixou-nos em 16 de Fevereiro de 2000, com 78 anos.
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Fotos cedidas pela filha.
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Ílhavo, 4 de Junho de 2018
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Ana Maria Lopes
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sábado, 18 de agosto de 2018

Na senda das exposições do Titanic... mais uma!...

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Ontem, no Exploratório de Coimbra, dia 17 de Agosto, pelas 17 horas, foi inaugurada a exposição TITANIC - A Reconstrução.
Tenciono visitá-la e será, para mim, a quinta exposição sobre o Titanic, que visitarei.

A primeira, em 1994, no Museu de Greenwich. A segunda, no Mercado Ferreira Borges, no Porto, em 2004 e a terceira, no espaço Rossio, em Lisboa, em 2009. Foi há bem pouco, que, a convite especial de Paulo Trincão, que muito agradeço, que visitei esta mesma exposição TITANIC – A Reconstrução, presente na Expofacif, em Cantanhede, durante dez dias.
Foi acarinhada com muito interesse e visitada por 18 mil e quinhentas pessoas, num espaço de tempo bastante limitado.

Apesar de já saber que viria a estar presente no Exploratório de Coimbra, a partir de 18 de Agosto, não deixei de vencer a onda de calor dos inícios de Agosto, para visitar o pomposo Titanic, que, em 1912, um ainda mais gigantesco iceberg afundou, sem dó nem piedade. E tal afundamento, pelas suas condições, serviu de tema a livros, a um mar de notícias, a grandes filmes, e, finalmente, já a algumas exposições, depois de terem sido encontrados os seus despojos no fundo do mar, umas dezenas de anos após o naufrágio (1912-1985).

A emoção não foi a mesma da sentida nas anteriores, em que pretendia creditar a existência dos mágicos talheres do Titanic, pertença de algumas famílias figueirenses e, sobretudo, ilhavenses. Já o tinha conseguido na terceira exposição no espaço Rossio, em Lisboa, em 2009. Mas, aprende-se sempre mais e a exibição estava dignamente montada, de uma forma séria e criteriosa, deixando para o final a sumptuosa surpresa.
Resume, um pouco, a história do navio desde o nascimento da lenda da construção (1907), do design naval rigoroso, criado em 1908, do início da construção em Março de 1909, do dia do lançamento à água, em 31 de Maio de 1911, do seu acabamento até Março de 1912, da viagem inaugural com partida de Southampton, em 10 de Abril de 1912, até ao desfecho dramático do Iceberg à vista!, pelas 23 horas e 40 minutos de 14 de Abril de 1912.
Recria alguns míticos espaços, começando pela  fotografia em grande formato da escadaria sumptuosa de acesso aos salões de 1ª classe, alguns pormenores das instalações de lavabos, diversas peças de louça, de garrafas de champagne Henri Abelé, alguns instrumentos da orquestra que tocaria, enquanto o Titanic se afundava, a cabine telegráfica Marconi, muitas fotografias conhecidas, mas sempre emocionantes, em tamanho fantástico de cenas fulcrais no naufrágio, os cadeirões do casal Strauss, de história empolgante,  no deck da primeira classe, e a simulação de uma das várias caldeiras a carvão, do navio.
E a ansiedade vai-se cultivando, à medida que os cenários nos conduzem até ao simbólico e gigantesco iceberg, que destruiu o dito indestrutível.

 
Escadaria famosa
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Pormenores dos lavabos individuais
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Garrafas de champagne, louças e outros objectos
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Alguns instrumentos da orquestra
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Cabine Marconi
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E chegamos ao climax… à simulação do iceberg e da fenomenal «maquette», de cerca de doze metros de comprimento, que a todos espanta, bem como do estaleiro White Star Line, onde o navio foi magistralmente construído.
De bombordo, uma plataforma aproxima os visitantes a nível do modelo, e a estibordo, a «maquette» é aberta, de modo a serem observados todos os pormenores dos diversos conveses, iluminados e em movimento.

Perante o iceberg e o modelo gigantesco

Panorâmica do modelo, a estibordo
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E ficamos por aqui. Quem quiser saber mais, vá mesmo visitar.
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Fotografias de Paulo Godinho
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Costa Nova, 18 de Agosto de 2018
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Projecto DE NOVO NA TERRA NOVA


Faz exactamente, hoje, 20 anos que o navio Creoula saiu para a Terra Nova, numa das missões mais expressivas que jamais cumpriu.

Regresso do antigo lugre aos mares da Terra Nova – in Jornal de Notícias de 9.8.1998

Canadianos e portugueses reaproximam-se
Creoula parte hoje para a Terra Nova – in Diário de Aveiro de 9.8.1998

Ílhavo «viveu» a partida do Creoula para a Terra Nova
O Presidente da República, Jorge Sampaio, no dia da largada do Creoula para a Terra Nova
Na tripulação segue grupo de jovens ilhavenses
Os votos são de boa viagem!... in O Ilhavense de 15.8.1998

Projecto De novo na Terra Nova junta Portugal e Canadá – in Diário de Aveiro de 15.8.1998

Assim se referem ao acontecimento alguns jornais da época. Muitos mais se lhe referiram.

Acudiram milhares de pessoas ao cais nº 10 do Porto bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré, para viverem a saída do Creoula, com destino à Terra Nova. O Presidente da República, Jorge Sampaio, entre aquela massa humana, dirigiu-se ao navio para cumprimentar o Comandante, bem como todos os instruendos e Director de Treino de Mar, Capitão Francisco Marques, numa missão igualmente simbólica, já que havia sido o último Comandante do navio, enquanto lugre da pesca do bacalhau, no ano de 1973.


Jorge Sampaio cumprimenta o Comandante do navio

Também a Barra teve um movimento invulgar. A afluência ao Paredão e Meia-Laranja era fora de série. O NTM Creoula, de velas enfunadas, saía a Barra, relembrando as saídas dos antigos lugres com o mesmo destino. Só que a missão era bem diferente!

De velas enfunadas, saía a Barra

Muitas embarcações de vários tipos acederam ao convite de acompanhar o antigo lugre-motor, dando à entrada da Barra um aspecto comovente e arrebatador.

Saída envolvente e arrebatadora…

Tendo vivido este projecto muito por dentro e acompanhado a viagem muito de perto, inclusive no Canadá, não quis deixar passar a data despercebida – vinte anos são passados.
Patrícia Dole, Embaixadora do Canadá, à época, lançou a ideia desta viagem, que recebeu o apoio dos dois países.
Ao contactar a Associação dos Amigos do Museu, encontrou nela uma forte aliada e, a partir daí, constituiu-se uma Comissão Executiva, sediada no M.M. de Ílhavo, formada pela citada Associação, pela Universidade de Aveiro e  pela C.M. de Ílhavo – assim se realizou o projecto DE NOVO NA TERRA NOVA.
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Fotos de Carlos Duarte
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Costa Nova, 9 de Agosto de 2018
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 7 de agosto de 2018

AMI festeja o 81º aniversário do Museu Marítimo


Hoje, 8 de Agosto, Amigos do Museu festejam o 81º aniversário desta instituição, com a oferta de uma bateira labrega, primorosamente aparelhada. Tosca, mas airosa, embreada a negro, e de bica de proa caracteristicamente levantada, menos atrevida que a do chinchorro, foi construída pelo «mestre de primeira água» António Esteves, de Pardilhó.


Mestre Esteves ultima a labrega

Com um comprimento de 8,40 m, boca 1,82 m, pontal com 0,53 m e 14 cavernas, navegava a remos, à vara ou à vela e dedicava-se à antiga, singular e engenhosa «arte do salto», para a tainha. Depois da vela bastarda, aderiu à moda da vela latina quadrangular, auxiliada, por um pequeno leme de xarolo, de cabeça direita, tipo mercantel.
Sobretudo característica da Murtosa, expandiu-se pelo país, através da diáspora de gentes da região – para sul, integrando-se na «saga dos avieiros» no Tejo, e mesmo até Setúbal, no Sado e, para norte, até à Afurada, chegando a decorar-nos também por aqui, o canal de Mira, na Costa Nova, em tempos idos.
Era uma peça que faltava na Sala da Ria do Museu, tendo sido construída com base no levantamento levado a cabo pelo Arquitecto Fernando Simões Dias, em âmbito de Mestrado em Design, pela Universidade de Aveiro, de Etelvina Almeida, com o título: Embarcações Tradicionais da Ria de Aveiro – uma análise pelo Design, no ano de 2010.
Queremos preservar a memória patrimonial da bateira labrega, A1440 L, A PRETA, de cor e de nome, do afamado Ti Manuel «das Tainhas», que, à data, nela praticava a «arte do salto», na nossa Costa Nova.
A última das últimas (e não será por muito tempo), é a labrega A 2829 L, ROSINHA, da Bestida, é propriedade de Alfredo Cruz (mais conhecido por Viola ou Calcado), ainda primo do Ti Tainha. A ROSINHA, já algo alterada pelas várias amanhações sofridas e pela adaptação de uma falca fixa, ainda utiliza uma arte idêntica (arte da parreira), adaptada às exigências legais actuais. É suposto que ambas as bateiras tivessem sido construídas pelo mestre José Preguiça, do Monte, Murtosa.

 
Alfredo Calcado, com a dita arte de pesca

Para navegar nas águas do Museu, tem sido nossa intenção, ir salvando do tenebroso esquecimento do tempo, uma embarcação tradicional lagunar, de cada vez. A última oferecida ao MMI, em 2013, pelo seu grande peso simbólico e identitário e sua elegância, foi a bateira ílhava, seguindo-se, após uma diuturnidade, a bateira labrega.


A bateira labrega no Museu
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Ílhavo, 8 de Agosto de 2018
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Fotografias de Etelvina Almeida
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Ana Maria Lopes
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