terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Inauguração da Estátua do Bispo do Mar

Faz, exactamente hoje, quarenta e um anos, que Ílhavo viveu um dia festivo – 29. 12. 1968.
O evento não muito bem aceite por todos. Mas história é história e D. Manuel Trindade Salgueiro, figura eclesiástica e homem de cultura, de grande relevo, era de Ílhavo (1898 – 1965) e tem o seu Largo, amplo, lá em baixo, onde todos conhecemos, a que chamamos Praça ou Largo do Bispo.

Desde adolescente que manifestei gosto por manusear máquinas de filmar – aproveitemos, pois, e divulguemos três minutinhos de filme, francamente de má qualidade; mas o que se esperaria de uma jovem amadora, há 41 anos, com uma Bell & Howell, 8 mm, maneirinha, muda e de dúbia qualidade?
Ainda por cima, as sucessivas transformações por que a peça foi passando (de 8 mm para vídeo VHS, de vídeo para DVD, e deste para o reduzido formato Web/blog), produziram o que resta.

Ílhavo, terra de homens do mar, alia, sobretudo, a figura de D. Manuel, ao Bispo que, durante anos, entre as décadas de 40 e 60, celebrou a Missa campal e dirigiu as pomposas cerimónias da Bênção dos Navios Bacalhoeiros, em Belém, frente aos Jerónimos.

Filho de pescador desaparecido em naufrágio, sempre que visitava a sua terra natal, alojava-se na sua modesta casinha, aqui, na Rua João de Deus, nº 82, rezando missa, de madrugada, na capelinha privada de S. Domingos, sita à Rua do Curtido de Baixo, e já demolida.

Era domingo, numa manhã calma, luminosa e fria de Dezembro.
A Vila de então preparara-se para a recepção de ilustres visitantes.
Das janelas, pendiam luxuosas e aveludadas colgaduras; mariatos coloridos engalanavam as ruas apinhadas de curiosos. O relógio da torre marcava o meio-dia menos vinte, quando a comitiva saiu da Igreja Matriz, onde missa festiva havia sido celebrada. Do céu choviam milhares de papelinhos multicolores; estacionados ordeiramente, os Mercedes-Benz governamentais aguardavam os ocupantes; as vestes cardinalícias, no seu tom de nobreza, esvoaçam, por entre a populaça bisbilhoteira.


Os convivas, guiados pelo Senhor Dr. Amadeu Cachim, Presidente da Câmara, à época, fizeram o percurso a pé, entre a Matriz e o referido Largo, onde duas tribunas montadas para o efeito os aguardavam.


Após os discursos da praxe, a estátua do Bispo da Gente do Mar, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida, foi descerrada pelo Senhor Presidente da República, para gáudio da multidão que acorreu à cerimónia. Algumas figuras etnográficas da vila, trajadas a rigor, emprestavam à festa um colorido característico. Depois de um almoço opíparo, servido à comitiva, entidades locais e convidados, houve lugar a romaria ao Museu Marítimo e Regional de Ílhavo, na altura, sito na Rua Serpa Pinto. O que prova que fosse quais fossem as suas instalações, o nosso Museu Marítimo, parece, sempre ter sido a grande Sala de Visitas de Ílhavo.

Caros amigos, desculpem a qualidade do filme, mas quem partilha o que tem, a mais não é obrigado.


video

Filme – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 29 de Dezembro de 2009

Ana Maria Lopes

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Natal de 2009


Outro Natal se avizinha. É o segundo do Marintimidades. Inspirada neste belíssimo painel que as mesas das malaguetas da nossa Sagres nos proporcionam, desejo a todos os Amigos, leitores, colaboradores e apreciadores deste Blog, um óptimo Ano de 2010.


Ílhavo, 17 de Dezembro de 2009

Ana Maria Lopes

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A bateira caçadeira Namy - II



Para se deslocar, tem dois longos remos de escalamão, que podem ser utilizados por dois remadores, um na bancada de vante e outro na do meio. Sendo um só remador, fica a meio cruzando os punhos para que o remo de um bordo seja movido pela mão do outro bordo.

Remadores amadores… a passear, em 1981


Também lhe podia ser aplicada uma vela de pendão de amurar ao mastro, habitual na Ria. Para esse efeito, tem carlinga no fundo, enora na bancada do meio e leme de xarolo, aplicado na ferragem do cadaste.

Vista geral do modelo


Foi numa caçadeira, que há quase setenta anos, me deixaram, pela primeira vez, ajudar a remar, no remo do meio, de pé, voltado para a proa, empurrando o punho na cadência da remada. Como me senti importante naquela embarcação, atravessando do Forte da Barra para S. Jacinto na bateira da passagem.
O meu modelo desta bateira foi construído na escala de 1/25, e os materiais aplicados foram balsa para o fundo, choupo nos costados e ramos de limoeiro para o cavername, roda de proa, de ré, bancadas e leme.

Pormenor do interior

Para os remos, usei tola e para a vela, pano de algodão. Fiz o mastro e a verga com ramos de ameixieira e para a ferragem e fateixa, apliquei arame de cobre.


Caxias, 10 de Setembro de 2009
António Marques da Silva


Coincidência das coincidências…tinha sido uma das minhas bateiras. Mandada construir ao Henrique Lavoura, em Pardilhó, em 1981, a NAMY veio para a Costa Nova, depois de pronta, de camião, e foi descida para a ria pelos degraus da actual mota.
A fama do construtor garantia-lhe a qualidade. Nela brincámos, remámos, pescámos, quer com cana desportiva, quer à sertela, embora nunca tendo usado vela. Cheguei a cedê-la a um pescador profissional, que a vigiava durante o inverno, enquanto a MARIA JÚLIA, (a sua bateira), sofria uma reparação. Conheceu, portanto, o sabor da solheira, branqueira, da sertela, da rede da galeota, da cabrita, etc.
Viveu na minha posse durante 14 anos e, por razões várias, entre as quais o facto de ser muito pesadona na deslocação, não estava interessada em mantê-la. Foi então que pelo empenhamento da Associação dos Amigos do Museu, a caçadeira deu entrada na Sala da Ria do Museu, em anterior edifício, em 1995.
E lá continua, no actual, para que os visitantes apreciem a elegância das suas linhas.

Fotografias – Arquivo pessoal da Autora

Ílhavo, 13 de Dezembro de 2009

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A bateira caçadeira NAMY - I



A vinda do Amigo Marques da Silva à Gafanha da Nazaré traz sempre novidades. E lá nos sentámos à mesa, para trocar impressões, consultar informação, fotografar e tomar o agradável chazinho das cinco. Desta vez, a embarcação homenageada é a bateira caçadeira, que, por grande acaso, tinha sido a minha segunda bateira de recreio, na ria, frente à Costa Nova.

A NAMY na ria da Costa Nova, em 1981


Não fora tão feliz nela, como na primeira (bastava a juventude), mas aproveitemos-lhe o que teve de bom.

Refere Marques da Silva: A caçadeira é um tipo de bateira dos mais usados da Ria de Aveiro. Mesmo nos nossos dias, ainda é fácil observá-la, ao serviço de vários trabalhos da Ria, desde a ponta mais a norte dos canais de Ovar e Murtosa, até à lagoa de Mira, no extremo sul da zona lagunar.
A caçadeira navega por todo o lado, fazendo parte da paisagem. Quer se encontre transportando pessoas e coisas, ou nas fainas dos pescadores e mariscadores, na procura de berbigões, de amêijoas ou das enguias, é esta bateira a que se mostra mais apta para tudo.
Não sendo de grandes dimensões, é de formas airosas e bem proporcionadas. Constrói-se segundo moldes tradicionais, com madeira de pinho, sendo utilizado o pau de pontos para lhe manter a forma.
Banhando a Ria, diferentes vilas ou cidades, é fácil encontrar nesta embarcação pequenas diferenças, que não modificando o tipo, lhe conferem algumas características locais específicas, próprias dos seus diferentes construtores.
As dimensões podem igualmente apresentar ligeiras alterações, que, facilmente, se reconhecem pelo número de cavernas.
Para recolher medidas, escolhi uma das que me pareceu mais representativa que encontrei no Museu Marítimo de Ílhavo, na Sala da Ria, a bateira NAMY:
Comprimento (sem o leme) – 6,05 metros
Boca máxima – 1,55 m.
Pontal – 0,55 m.
O número de cavernas é de catorze.

Caçadeira de pesca NAMY, no MMI


(Cont.)

Ílhavo, 11 de Dezembro de 2009

Ana Maria Lopes
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sábado, 5 de dezembro de 2009

Moliceiros - Outras zonas decoradas - II



Uma ou outra inovação maliciosa no interior da ré, junto ao cagarete, surge esporadicamente, bem como, na antepara do castelo da proa. Esta esteve para ser cortada pela censura, mas, não sei como, passou.

De escondida… a escarrapachada…


As falcas, que, normalmente, não eram decoradas, muito menos pelo artista que embelezou a embarcação, por vezes, surgem com bandeira nacional ao centro, ladeada por ornatos a verde e vermelho, símbolo de patriotismo.

Decoração das falcas. Anos 80


O grande leme ostenta a divisa ou marca do construtor, um dos últimos acabamentos executados pelo próprio mestre.
A recolha das siglas existentes ao longo dos tempos também constitui um trabalho de grande interesse.

Mestre Henrique Lavoura pinta a sua sigla


O número de registo da embarcação é pintado à proa, ao lado do painel, em letras e números brancos, sobre rectângulo negro. Alguns pintores revelavam um cuidado muito especial pelos grafismos aí utilizados, já que para além da perfeição dos números, o A e o M tinham um ornato em forma de coração.
O facto de os moliceiros terem o seu nome de baptismo, em grandes letras brancas sobre a cinta negra, julgo ser uma questão de moda. Já por volta de 1930, este costume existia. Caído um pouco em desuso, umas décadas mais tarde, quase não se via, mas, ultimamente, aparece com alguma frequência.


Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 5 de Dezembro de 2009

Ana Maria Lopes

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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

À laia de apontamento...o São Jorge


À laia de surpresa de Natal, tinha na caixa do correio, uma foto, oferecida por pessoa Amiga, apaixonada por navios, a quem o São Jorge muito diz.
Sabendo que, para mim, o navio em causa também tem um significado forte, por isso, ma enviou.

O São Jorge fundeado em Lisboa


É sempre agradável receber a fotografia de um afilhado, de há longa data, que rasgou as águas da ria, a 10 de Março de 1956, construído na Gafanha da Nazaré pelo Mestre Manuel Maria Mónica, para Testa & Cunhas, Lda.
Trata-se de uma fotografia curiosa, meia perdida pelas bancas de um alfarrabista de Lisboa, do navio fundeado com os dois ferros de escacha (boa manobra para as amarras não se enrolarem uma na outra, com o virar da maré) em Lisboa, completamente carregado de sal, à chegada de Setúbal.
Esta fotografia deve ser de 1963, ou anterior, porque o navio só tem uma antena de radar "DECCA", do lado de bombordo, já que, em 1964, salvo o erro, foi-lhe instalado mais um radar italiano com a antena do lado de estibordo, marca "TERMA".
O São Jorge foi vendido à Empresa de Pesca Manuel das Neves, Lda., para a campanha de 1972.
Naufragou, de regresso dos Bancos, por incêndio e explosão, a 22 de Julho de 1974, tendo sido a tripulação salva pelo “gémeo” Novos Mares, comandado pelo Sr. Capitão António de Morais Pascoal.
Agradeço a gentileza, e, à laia de apontamento… publico o post.

Ílhavo, 1 de Dezembro de 2009

Ana Maria Lopes

sábado, 28 de novembro de 2009

Moliceiros - Outras zonas decoradas - I



O barco moliceiro, com as suas quatro iluminuras de uma diversificação estonteante, fez da ria de Aveiro uma galeria de arte flutuante, em que todos os elementos estéticos foram mergulhando.

Porém, há outras zonas da embarcação que não dispensam a decoração.

A antepara da proa exibe um motivo floral de grande dimensão ou motivo geométrico, com preferência pelo sino-saimão (signum salomonis), de protecção mágica, cuja origem Celestino Gomes procurou na deformação da estrela-do-mar: sino-saimão, sanselimão ou sinaimão, diversas nomenclaturas para o mesmo signo.

Motivo floral da antepara do castelo da proa

Signo-saimão


Nos golfiões, terminações exteriores do forcado da proa, não faltam o rapaz e a moçoila, ora amigos, ora zangados, conforme as voltas das amarras que a vida dá.

Golfiões entrelaçados por amarras


Na base da bica, um motivo floral, vaso com planta florida, umas pétalas singelas ou apenas umas riscas transversais, sempre garridas, encimadas por vasito singelo.

Motivo floral da base da bica


As extremidades dos forcados biqueiros, por vezes, são também decoradas, bem como a parte vertical da entremesa da ré, sobre a qual se senta o arrais.

Pormenor do interior da ré


(Cont.)

Ílhavo, 28 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes

sábado, 21 de novembro de 2009

Evocação de Mestre Cândido Teles, o pintor da Ria



A próxima palestra integrada no 3º Ciclo de Conferências sobre “Aveirenses Ilustres” que a Câmara Municipal de Aveiro leva a efeito no auditório do Museu da Cidade, das 18, 30 às 19,30 horas, do dia 26 de Novembro, presta homenagem ao Artista ilhavense Cândido Teles.

Com esta iniciativa pretende a CMA homenagear personalidades que, activamente, deram o seu contributo para o desenvolvimento sociocultural e político-económico da região, valorizar a Historiografia Local e formar pedagogicamente públicos.
Associada à palestra evocativa decorre também uma pequena mostra de objectos e literatura alusiva à individualidade evocada que estará patente durante 15 dias no espaço do Museu da Cidade.
Tem hoje, também, o Artista, um lugar de destaque no Marintimidades, porque a oradora convidada será a autora deste blog e Cândido Teles, apesar de muitos outros aspectos de relevo, identifica-se, na região, com um grande pintor da Ria, da Costa Nova, das nossas fainas marítimas e lagunares.

António Cândido Patoilo Teles nasceu em Ílhavo, no Arenal, em 1921 e faleceu na mesma cidade, a 31 de Outubro de 1999.


Cândido Teles, fruto da sua profissão, viveu e interpretou, na tela, ambientes distintos: Aveiro, Ílhavo, Açores, África (Angola, Guiné, S. Tomé e Moçambique), Madeira, Alentejo, Algarve, num intenso trabalho, sofrendo, em todos eles, uma influência dos meios, humano e paisagístico.

Mutações, nos aspectos temático, técnico e estético da sua arte, fizeram dele um experimentalista nato. À Ria de Aveiro, de que se afastou, geograficamente, por circunstâncias profissionais, voltou, com garra, nos últimos 20 anos da sua vida, numa técnica estruturalmente enobrecida e diversificada.
Ao longo da vida, recebeu várias distinções e a sua obra está representada em diversos museus nacionais e colecções públicas e particulares.

Plurifacetado, usou sabiamente o lápis, as tintas, os pincéis e a espátula; moldou o barro e trabalhou o ferro forjado.
Em matéria de datas, o último dígito – 9 – teve, na sua vida, uma forte carga afectiva; repete-se, por coincidência? …1939, primeira Exposição no Salão Arrais Ançã, na Costa Nova; 1999, ano do falecimento; em 2009, teria feito 70 anos de vida artística e passaram dez anos, após a sua morte.

Como apreciadora do Mestre Cândido Teles e amiga da Família, fizemos o melhor para apresentar uma visão globalizante da obra do Artista. Evocar é, sobretudo, lembrar e revisitar.
Apreciemos uma ligeira mostra de óleos, por ordem cronológica:

Vista para o Forte. 1939. Col. Família


Xávega. 1948. Col AML

Apontamento da época. Col. Família

Açores. Anos 40. Col. MJM


Tríptico da arte xávega. Col. MMI

Saleiros. Aveiro. 1969. Col. CMI

Ria em verde. 1969. Col Família

Estudo Painel. Aveiro. 1985. Col. Família

Flores (uma excepção). 1998. Col. JLR

Último quadro datado, no cavalete. 1999


Oxalá tenham apreciado esta abreviada e truncada visita pela obra de Cândido Teles. Se assistirem à evocação, apreciarão bastante mais.


Os nossos agradecimentos pela cedência das obras fotografadas.

Ílhavo, 21 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Desafio ... 4

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Será o quarto desafio deste género do Marintimidades. Durante o último Verão, as minhas andanças têm sido mais pela nossa ria.

Mas, como a organização do novo site da Confraria Gastronómica do Bacalhau teve a gentileza de colocar o meu blog nos links de interesse, amor com amor se paga, também lhe dedico este desafio, relativo a dois belíssimos lugres bacalhoeiros.

Tinha prometido que, da próxima, seria bem mais difícil! E é…

Os nomes dos navios não se conseguem distinguir, creio, devido à distância a que foram fotografados, mas trata-se de dois elegantes lugres da praça de Aveiro, em plena faina, com mar de senhoras … Ambos de quatros mastros, apresentam uma curiosidade – as velas dos pequenos dóris, a secar…Vamos aos palpites! Tentem identificá-los. Não desanimem!!! É de mestre e de confrade!


Fotografia – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 18 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 15 de novembro de 2009

Execução da canga vareira ( Parte IV )


Joaquim Ruivo (tive, agradavelmente, notícias dele, noutro dia), e ainda mantém esta ocupação.

Em primeiro lugar, a canga é cortada – explicou-me –, sendo constituída pela parte inferior, direita, o braço, que termina lateralmente em dois círculos, as maçãs ou romãs e pela parte superior, recortada em forma de castelo – o pente.
Para aperfeiçoamento de todas as partes direitas, é metida a garlopa (plaina grande), para desempenar, aplainar e desengrossar, pois a canga é mais grossa no braço que no pente.
Rectificadas todas as medidas, feitas as quininhas em volta do pente e das maçãs, entra em desenho. Após uma marcação central e longitudinal com régua, o artista grava a compasso o que pode, para então riscar a lápis os desenhos.

Estes – refere – vai-os armazenando na cabeça, para serem usados, consoante a inspiração do momento. Dentre os motivos centrais mais frequentes, sobressaem a sagrada custódia, o vaso de flores, a cruz de Cristo, a flor-de-lis, o escudo português e o signo-saimão.
Os elementos decorativos menores são linhas e flores picadas, ramagens dispostas ou não em friso.
Marcadas as furações (furos necessário às piaças, tamoeiro e coleiras), toda a superfície da face frontal da canga é recoberta de motivos entalhados e pouco vazados.
A face posterior também é gravada e pintada, embora menos ricamente; é no verso que surgem normalmente as iniciais do jugueiro e a data da conclusão da obra.

Face posterior da canga


Após o risco, segue-se a talha, que o artista designa pelo nome de moldura. Utiliza formões, goivas de vários tamanhos e ferrinhos de fundo, também de diversas dimensões, para os diferentes gravados. Em movimentos rítmicos de martelo, o desenho ganha relevo, a cada batedela.

A cada batedela…


Chegou o momento da aplicação das tintas. Depois de um aparelho ou subcapa, à semelhança dos painéis dos barcos, seguem-se as outras tintas bem garridas, vivas, pitorescas nos fundos e meios fundos, terminando na pintura mais superficial.

São cores alegres, porque a vida do campo também o era. Esta ligação entre as cores e a labuta na terra imprime a este tipo de trabalho artesanal uma carga antropológica muito forte, bem como sentimentos religiosos muito enraizados nas vivências de um povo.
As cores mais usadas são o amarelo (para fundo) o rosa vivo, o encarnado, o azul, o laranja e o verde. As tintas, hoje industriais, eram, primitivamente, preparadas com anilinas em pó a que se juntava óleo de linhaça e secante líquido.

Chegou o momento final do encabelamento, que se traduz na aplicação de maçanetas ou touças de pelo de cauda de cavalo, no rebordo superior do pente (cinco a sete tufos), e no das maçãs (cinco tufos), pretas e brancas, alternadamente.

Quanto à antiguidade deste tipo de peça, referem Ernesto Veiga de Oliveira e os seus colaboradores, in Sistemas de atrelagem dos bois em Portugal, Lisboa, 1973, que todos os exemplares de jugos que conhecem, quando datados, são-no sempre e unicamente a partir da segunda metade do século XIX, sendo o exemplar datado mais antigo, de 1868. Este período corresponde a uma melhoria de vida campesina, reflectida nomeadamente na decoração de outras alfaias agrícolas e no engrandecimento da vida e casa rurais.
Na sua opinião, os grandes jugos lavrados representarão, provavelmente, o desenvolvimento de uma dessas anteriores cangas de tábuas, modestas e sem grande valor.

Será que a decoração do barco moliceiro também testemunha um processo idêntico? Terá ele enriquecido as suas roupagens, pela mesma época, para denotar, como alfaia agrícola que era, a pujança do seu dono? De barco indiferenciado, ter-se-á transformado num exemplar exuberantemente decorado, até por influência, também, da vinda de algumas gentes nortenhas para a região?

É uma hipótese perfeitamente aceitável, até porque os primeiros barcos eram quase despojados de decoração e a própria decoração, de que há documentos fotográficos (princípios do século XX), era extremamente modesta, moderada e simplista.

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 15 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Joaquim Ruivo, um homem da ria... ( Parte III )



Joaquim Ruivo, homem da borda de água, com uma casa modesta de lavoura, com farta horta, saudáveis produtos, trata do gado e apanha junco para lhe renovar a cama. Num esteiro próximo de casa, abrigava o seu barco, que reconstruía, quando necessitava, participando também em amanhações de barcos de amigos. Ia ao moliço para uso próprio, quando o havia e decorava barcos, estando o dele sempre muito aprimorado. Além do mais, constrói cangas vareiras nas horas vagas…Um modus vivendi…

ESTÁ AQUI, MAS NAO É P' RA TI…

Daria um belíssimo pintor de moliceiros, se a luta pela vida lhe permitisse e houvesse número de embarcações que justificasse. Os motivos florais e as ramagens são em tudo idênticas às gravadas nas cangas.

Começou o ofício aos catorze anos, tendo feito já cangas para Cortegaça, Furadouro, Ovar, Murtosa, Torreira, Avança, Válega, Estarreja, Salreu, Canelas, Angeja, Vilarinho, Póvoa do Paço, Sarrazola, Oliveirinha, Frossos e S. João de Loure.
Genericamente, executa sempre o mesmo tipo de canga, gravada, esculpida, alta no centro, abatendo-se abruptamente, dos lados, para aí terminar em forma de disco. No entanto, tem algumas diferenças conforme as localidades e as funções a que se destina: mais ou menos baixa, mais ou menos larga, mais ou menos esculpida, mais ou menos forte, pintada ou envernizada.
Para a alagem das redes no mar, aí todos a queriam pintada, bem esculpida, a mais bonita de todas, se possível.

Alagem das redes na Torreira – Anos 80

Utiliza normalmente o eucalipto, embora já tenha usado o carvalho, amoreira e “langomeiro” (lamegueiro). Vai directamente aos pinhais, escolhe as árvores adequadas, trata com os donos, negoceia, põe abaixo, leva a madeira à serração e armazena a necessária, em casa.
Do mesmo “pranchão” (tábua em bruto) pode tirar duas ou três cangas, desde que pratique um bom aproveitamento da madeira, aproveitando as reentrâncias e convexidades de ambas.

J. Ruivo na sua oficina – Anos 80

(Cont.)

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 11 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Alguns jugueiros da região lagunar (Parte II)


O primeiro de que tive notícia foi António Tavares de Almeida (o Soeco Velho), de Avanca, cuja obra foi continuada pelo filho, José Soeco (1897-1988), também já falecido, mas com quem ainda contactei nos anos 80, com cerca de noventa anos.
Ambos artistas famosos, decoraram muitos barcos na zona de Pardilhó, Bunheiro e Murtosa, deixando António Almeida (o Soeco) alguns vestígios no Museu da nossa terra:
- decoração de uma proa de barco moliceiro (actualmente, em reservas), 1935;
- nove painéis, em formato de quadro (59x 82cm), 1935, de uma grande beleza, simplicidade e ingenuidade, do espólio inicial do Museu – 1935, expostos na Sala da Ria.

Painel de bombordo – P. Soéco1935

BAMOS LA COM DEUS


A FAMA O LONGE TOA

Dois dos nove painéis do Soeco Velho – 1935


Pelos anos 80, tive oportunidade de visitar na sua rudimentar oficina, no Bunheiro, o Joaquim Tavares dos Santos, Ruivo de alcunha, nascido em 1944.
Constitui um exemplo flagrante da inter-penetração moliceiro/canga vareira, pois, para além da sua vida de lavoura, apanhava junco e moliço para uso pessoal. Também ia trabalhando nas reconstruções e “restaurações” dos moliceiros, como ele lhes chamava e…fazia cangas.

Apenas se dedica a esta actividade, nos tempos livres e de Inverno, quando o tempo não lhe permite outras ocupações. Aprendeu o ofício com o pai.

(Cont.)

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 6 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Muleta do Tejo


O livro A Muleta é uma edição conjunta da Câmara Municipal do Seixal/Ecomuseu Municipal e do Museu de Marinha, da autoria de Manuel Leitão, Ferdinando Oliveira Simões e António Marques da Silva.
Constitui um significativo contributo para a documentação, o estudo descritivo e a caracterização dos aspectos construtivos estruturais de uma embarcação que possui um enorme valor simbólico para as comunidades ribeirinhas do estuário do Tejo.
Depois de ter sido já lançado no passado dia 27 de Setembro no Ecomuseu do Seixal, vai ser apresentado, agora, no próximo dia 5 de Novembro, no Pavilhão das Galeotas, no Museu de Marinha, pelas 18 horas.

Capa do livro


Ao Sr. Dr. Manuel Leitão, que já não está entre nós, dedicado e douto colaborador do Museu de Marinha, autor de várias publicações, esta edição é também uma homenagem à sua memória, pela sua tão grande dedicação a assuntos desta natureza.

Ao pormenorizado estudo bem ilustrado com todas as imagens que foi possível reunir sobre a embarcação, juntaram-se vários desenhos de pormenor que facilitam o estudo e compreensão da operação e manobra do pano desta embarcação.

Um dos três modelos existentes no Museu de Marinha


Apesar da sua estranha, exótica e atraente forma do casco e do seu complicado aparelho vélico, a muleta é, a navegar, – e do que se pode concluir das muitas gravuras que chegaram até nós, uma embarcação elegante de boa manobra e rápida para os padrões da época.


Parabéns, pois, aos Srs. Comandantes Ferdinando Oliveira Simões e António Marques da Silva.
Das várias expressões artísticas que escolheram a muleta como fonte inspiradora, também o modelismo de embarcações em garrafas se inspirou nela.
Pelos anos 90, apareceu-me, cá em casa, o Sr. Capitão Weber Bela (1925 - 2008), amante da arte, com esta bonita peça, para me oferecer. E assim a guardo, com afecto, entre os meus objectos de colecção:

Muleta do Tejo – Weber Bela


Acautelem-se os amantes e estudiosos de embarcações da laguna de Aveiro, e não só, com a nomenclatura usada para as embarcações tradicionais. Passo a citar: “A muleta de pesca do Seixal, ou bateira, …(p. (8)”. Creio que não há nada melhor quando se nomeia uma embarcação tradicional, que essa nomenclatura seja aliada ao espaço geográfico onde é usada, bem como à função a que se destina. Para evitar tantas confusões.
O livro encontra-se disponível nas lojas dos Museus de Marinha e Ecomuseu Municipal do Seixal.

Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 2 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Inter-relação da iconografia do barco moliceiro/canga vareira (Parte I)


A minha paixão pelo barco moliceiro é francamente conhecida. Após um estudo, de certo modo aturado, sobre o referido barco, desde os anos 70, por que não um breve apontamento sobre a canga vareira, um artefacto que lhe está intimamente ligado?
Vários autores têm evidenciado a semelhança entre a canga vareira e o moliceiro, quer quanto à sua morfologia, quer quanto à decoração.

Na opinião de Luís Chaves, a canga, de frente, lembra o perfil do moliceiro carregado; a carga não se estende a todo o comprimento de proa à ré, ficando avultada a meio, em prisma quadrangular e volumoso. Quando o mastro já é inútil, é apeado e estendido por cima da carga. Assim, o perfil torna-se de arqueado em rectilíneo; a igual distância, com o centro de simetria no mastro ou no seu lugar, a linha recta quebra verticalmente e é, em baixo, continuada pela curva até às pontas enroladas do barco. Talvez este perfil tivesse influenciado a forma da canga.


Maré de moliçoAnos 60


Não menos curiosa é a interpretação de Domingos José de Castro que compara a sua morfologia com a rede da arte xávega, composta pelo saco trapezoidal, mangas e rolos do cabo. No centro, o saco rectangular, corresponde ao castelo da canga; dos lados, os cabos de arrasto da rede, enrolados sobre si, sugerem a parte baixa da mesma.

Canga em carro

A canga vareira, imprescindível nas juntas de bois, era utilizada na alagem das redes da arte xávega, em toda a extensão do cordão litoral, desde Espinho à Torreira. A sua infiltração na lavoura explica-se pelo facto das juntas de bois em prestação de serviço de pesca serem, normalmente, propriedade de lavradores das vizinhanças, lavradores esses que, por vezes, se dedicavam também à faina do moliço. A sua adopção no campo, imediatamente pressupunha a proximidade do mar e a alternativa compreensível da sua aplicação em ambos os serviços.

Quer barco, quer canga, complemento do carro de bois, eram ambos alfaias agrícolas, que, muitas vezes, se complementavam. O moliceiro, segundo Raul Brandão, “rapa os cabelos verdes da ria” que o carro de bois descarrega e transporta para os campos.



Descarga de moliço – Anos 80

Para além da sugestão mórfica e da complementaridade de funções, a semelhança entre canga vareira e o moliceiro da zona norte da ria existe a vários níveis:


– geograficamente, o moliceiro e a canga vareira constroem-se nos mesmos locais, nomeadamente, Bunheiro, Pardilhó e Monte (Murtosa).
– decorativamente, painéis de moliceiro e cangas são idênticos pela álacre policromia e pela ingenuidade dos motivos utilizados. As cores são fortes, puras e luminosas: o branco, o vermelho, o azul, o verde, o amarelo, o zarcão (cor-de-laranja) e o rosa, umas de origem, outras manipuladas pelo próprio artista, através de algumas composições.
Quanto à temática, certos motivos são comuns: o vaso florido, o sino-saimão, o escudo português. Os elementos decorativos menores (círculos gravados e ramagens), podem ou não constituir frisos. Na canga, nunca existe o elemento figurativo.
Esta simbiose entre a iconografia do moliceiro e da canga tem sido representada por alguns jugueiros, desde os finais do século XIX.

(Cont.)

1ª Imagem – Arquivo pessoal da autora
Restantes fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 26 de Outubro de 2009

Ana Maria Lopes


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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Colóquio Falas do Mar/Falas da Ria, no MMI

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Programa
10.00
Sessão de abertura

10.15 - 11.30
Álvaro Garrido (Director do Museu Marítimo de Ílhavo)
Ana Paula Guimarães (IELT, Univ. Nova Lisboa) – "Lavrar / Navegar na tradição popular portuguesa".
Clara Sarmento (CEI, Inst. Politécnico Porto) – "Falas da Ria sobre a Ria: Ambiente e Património no Barco Moliceiro".

Intervalo
Joaninha Duarte (IELT, Fluviário) conta uma história sobre o mar e sobre Aveiro.

11.45 - 13.00
José Maria Trindade (CIID, Instituto Politécnico Leiria) e Convidados – Os Pescadores da Nazaré.
Matilde Estevens (Inst. Politécnico Lisboa e Univ. Coimbra) – "Marinhagem".

14.00 - 15.00
Construtores Navais & Pintores de Moliceiros.
Manuel Augusto Oliveira, da Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro.
João Herculano, construtor naval.
Marisa Carvas, pintora de moliceiros.

15.00 - 15.45
Ana Maria Lopes (Investigadora) – "O linguajar da Ria na 'arte do saltadouro'".
Silvério da Rocha-Cunha (Univ. Évora) – "Com os pés no mar: imagens político-filosóficas do mar numa era global".

16.00 - 17.30
Cristina Novo (FCSH, Univ. Nova Lisboa) e Rui Torres (FCSH, Univ. Fernando Pessoa) – "POPULAR ID: Identidade Visual Popular Portuguesa em Hipermédia".
José Barbieri e Filomena Sousa (IELT) – "Vozes do mar no MEMORIAMEDIA".
18.00
Sessão de Encerramento

ANIMADORES DOS DEBATES: Isabel Victor (Museu do Trabalho Michel Giacometti); Luís Cancela da Fonseca (IELT, Universidade do Algarve); Pedro Prista (ISCTE), João Figueira de Sousa (FCSH).

O Colóquio “Falas do Mar / Falas da Ria” resulta de uma colaboração entre o Instituto de Estudos de
Literatura Tradicional (IELT) da Universidade Nova de Lisboa – com especial relevo para os projectos “Falas da Terra: Natureza e Ambiente na Tradição Popular Portuguesa” e “Práticas da Cultura” –, o Museu Marítimo de Ílhavo e o Centro de Estudos Interculturais (CEI) do Instituto Politécnico do Porto.

“Falas do Mar / Falas da Ria” é dedicado a todo o riquíssimo património oral, literário, documental, pictórico, fotográfico e multimédia existente – do passado e do presente – sobre as práticas culturais, representações, valores, comportamentos, simbologias e discursos ligados ao Mar em geral e à Ria de Aveiro em particular.

A perspectiva interdisciplinar deste Colóquio conta com a contribuição de investigadores, criadores e narradores capazes de encetar uma busca comum e comparada do conhecimento, com a preocupação de ligar a investigação bibliográfica e multimédia à experiência de vida e do terreno.


Consultar o site do MMI e o jornal D. de Aveiro, de hoje.

Fonte: Texto publicitário do Colóquio.

Ílhavo, 20 de Outubro de 2009

Ana Maria Lopes

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Naufrágio do "Courage", em S. Jacinto, faz dez anos



Faz hoje dez anos, dia 19 de Outubro, que, pelas 3. 30 h da madrugada, um cargueiro de grande porte, com bandeira dos Barbados, encalhou na praia de S. Jacinto.

O Courage, que transportava cerca de seis mil toneladas de bagaço e resíduos de palmiste, preparava-se para descarregar parte da mercadoria no Porto de Aveiro; encontrava-se fundeado ao largo da costa e o incidente deverá ter sido provocado pelo mau tempo que se fez sentir e consequentes problemas técnicos.
O navio, de cerca de 114 metros de comprimento fora a fora, 17,68 m. de boca e 9,02 de pontal, com uma arqueação bruta de 4 715 toneladas e líquida de 2 981, construído em Uwajima, no Japão, em 1976, acabou por encalhar a 50 metros da praia de S. Jacinto.

O Courage encalhado na praia


Feita a chamada de emergência, as equipas de salvamento ainda aventaram a hipótese de salvar os seus dezoito tripulantes através de um cabo de vaivém, mas a forte rebentação impediu tal operação, acabando por se optar pela utilização de um helicóptero, cerca das 10 h da manhã. A tripulação foi salva em segurança.

O salvamento por helicóptero

E, agora, o navio?

Depois de uma primeira hipótese de poder ser rebocado e reposto a navegar, tal solução foi rapidamente posta de parte, pois houve dificuldades em contactar o armador e as condições climatéricas também não eram as mais favoráveis.

E os problemas ambientais originados por qualquer derrame do combustível existente a bordo?

O comandante grego, Papapateras, descansou os jornalistas assegurando que o navio não tinha muito gasóleo a bordo e, que o que tinha, não apresentava qualquer perigo.

O pior é que, entretanto, com o decorrer dos acontecimentos, foi lançado o alerta de que o cargueiro estava em risco de se quebrar, o que veio a acontecer com a abertura de uma fenda a meio, na zona da carga e de um dos depósitos, o que motivou preocupações bem maiores e daí a necessidade de ser efectuado um plano de emergência.

Corre o risco de abrir fissuras…


Tudo a postos, disponibilizadas autoridades de emergência, de prevenção também alguns responsáveis da Reserva Natural de S. Jacinto, chegou a ser posto algum material antipoluição pela Direcção Geral da Marinha (tanques, bombas e aspiradores) em frente ao local onde o navio encalhou, tentando evitar os efeitos de uma eventual “maré negra”.

O previsto aconteceu mesmo e o navio alquebrou em dois.

Quebrado em duas partes…

Todos davam o seu parecer…achando que os impactos causados pelo eventual derrame de combustível seriam um pouco imprevisíveis. Teriam um efeito mais imediato, derramando-se sobre a areia? Far-se-iam sentir mais tarde, através da cadeia alimentar, com peixes com sabor a gasóleo? – foram as hipóteses mais imediatas.

Só me fui apercebendo, na época, que o assunto causou muita polémica, que foi noticiado, quer na imprensa, quer na televisão, durante anos, tendo-me chegado ecos, através do jornal Expresso, que, após 5 anos (1999), ainda permaneciam soterradas no areal 300 toneladas de destroços, visto que a operação de remoção não obtivera um sucesso pleno.

Ainda, uma nota de imprensa de 29 de Novembro de 2000, refere que “já começou a instalação do estaleiro para a remoção dos destroços do navio Courage, encalhado na praia, junto à Reserva Natural das Dunas de São Jacinto. A Capitania do Porto de Aveiro vai seguir os trabalhos na condição de observador. Branco Toscano, responsável pela Capitania, à época, espera que os trabalhos não levantem problemas de poluição na zona envolvente, mostrando-se confiante, já que a empreitada vai ser desenvolvida por uma empresa experiente. Os trabalhos no terreno deverão começar ainda esta semana”.

Nunca mais ouvi falar do assunto. Certamente porque o que se temeu na altura - riscos ambientais - se não concretizou.

Fotografias gentilmente cedida por Reinaldo Delgado

Ílhavo, 19 de Outubro de 2009

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O Cais do Areão, ontem... e hoje...



Para avaliar da grandiosidade que constituiu a actividade do moliço e a sua comercialização, em tempos idos, podemos observar o mapa dos cais e desembarcadouros, na Ria de Aveiro, pelos anos 40, em que se procedia à sua carga, secagem ou venda, conforme os casos.

Pelos anos 80, era já bem diminuta, não passando de uma amostra cada vez mais escassa.
O Bico da Murtosa, a Mama Parda, a Bestida, o Pardilhó e, sobretudo, os terrenos marginais inclinados, entre a Torreira e o Areão, eram pelos anos oitenta, os pontos mais notórios de descarga e transacção de moliço.
Entre as Gafanhas da Encarnação e da Vagueira também se observavam, raramente, algumas marés, normalmente, recolhidas por bateiras.
Nessa altura, a comercialização do moliço era feita em verde; noutros tempos, também se fazia em seco, essencialmente quando se destinava aos terrenos da zona sul da ria (Areão, Quintã-Boco), mais distantes, relativamente aos locais onde era arrastado.

Hoje, é nula a transacção, porque nem se apanha e nem sequer o há. É uma actividade completamente morta.

E por falar em Cais do Areão, que já visitara nos anos 80, completamente desactivado, a placa de sinalização, na estrada florestal, em passagem para a praia de Mira, chamou-me a atenção e levou-me lá, de novo.

Ainda existiria?

Numa inscrição gravada nuns restos de muralha, consegue, a custo, ler-se: M. N. 1948. Provavelmente, as inicias de Matas Nacionais e a data.

Matas Nacionais – 1948

E o vazio, o silêncio, a ausência do bulício e movimento de outrora, são inspiradores, mas chocantes.

O Cais do Areão de hoje

Para onde foram tantos barcos moliceiros que povoavam, animavam e davam vida ao mesmo espaço, em foto conseguida, através do Sr. Capitão Francisco Paião, proveniente do espólio de seu Pai, o saudoso Capitão Almeida, no ano de 1950?

Cais do Areão, em 1950

Por sermos de Ílhavo, pessoa amiga alertou-nos para o papel curioso que tivera no Cais do Areão, um ilhavense de famílias conhecidas.
Para confirmar os dados, fui junto da Senhora D. Cilinha Matias, sobrinha do dito conterrâneo, que me confirmou:

Em fins de 40, o Manuel «da Lúcia» – irmão do Pai, Senhor Cap. João Matias (também conhecido por João da Lúcia), era o guarda-rios estabelecido no Cais do Areão, onde era muito estimado, vivendo no palheiro, então ali existente.
Era ele quem calculava a carga dos moliços desembarcados, destinados aos campos da Gândara, e cobrava o imposto para o Estado.
Apesar de uma deficiência numa mão (resultante de paralisia), que mantinha permanentemente junta ao corpo, era um feitio brincalhão, bem disposto e amigo da pândega.

Ora, nesse tempo, havia racionamento de produtos essenciais. Estávamos no pós-guerra e o açúcar e, principalmente, o azeite eram difíceis de adquirir. Aos seus amigos, o Manuel «da Lúcia» arranjava maneira de os fornecer. Estes produtos vinham de burro para Ovar ou Murtosa e um e outro arrais, em troca de uns escudos, embarcavam-no na proa do moliceiro e descarregavam-no no Areão, à guarda do Manuel «da Lúcia», que logo dava um salto de bicicleta a Ílhavo a avisar os amigos que a encomenda chegara. De noite, pela estrada da mata, correndo o perigo de encontrar a guarda, que era, ao tempo, incorruptível, lá vinham aqueles buscar o azeitinho e açúcar, trazendo ao amigo Manel «da Lúcia» uns garrafões de tinto bairradino, que ele distribuía pelos arrais seus amigos. Nesses dias o Manel arranjava sempre uma caldeirada a preceito confeccionada na proa de um moliceiro, em animada festa.
E assim vai a vida! E a vida que os lugares escondem!... Ao menos, recordá-la, enquanto há memória…

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 14 de Outubro de 2009

Ana Maria Lopes