sábado, 25 de abril de 2015

Rotas lagunares - o mercantel no carreto

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Se bem que ao falar do mercantel ao serviço do transporte de sal (saleiro), do peixe e de passageiros, sempre cargas, vamos acabar a missão do mercantel como «o burro de carga da ria», no carreto de tudo e de mais alguma coisa.
Já desde 1693 data em que por alvará régio concedido por D. Pedro II, começou a ter lugar todos os dias 13 de cada mês, a Feira da Vista-Alegre vinha dos mais variados pontos da ria, mensalmente, uma imensidão de barcos alimentando com produtos transportados no seu bojo a intensa actividade das trocas que se faziam na referida feira, uma das mais importantes da região. Visitavam aquele sítio do canal do rio Boco, não só gentes das regiões vizinhas, como também, estranhos interessados na quantidade de produtos. Além do sal e do peixe, na «Feira dos Treze» havia uma grande diversidade de produtos: lenha, animais, tecidos, artigos de artesãos locais, tamancos, gabões, arados, que justificavam grande procura. A maioria destes produtos, usava os mercantéis, pelo canal do rio Boco, para seu transporte.
Desde 1824, no mesmo local onde se realizava a feira, nasceu e foi implementada a Fábrica da Vista-Alegre.*
Para os seus fornos eram trazidos toros com muita frequência, mas o caulino utilizado na produção da porcelana, vinha de Ovar, pela ria, sempre que a necessidade obrigasse. Os objectos de barro ovarense também se vendiam muito pela região, quer na feira dos 13, quer em outras situações.

Após 1824, descarga nas traseiras da Fábrica da VA

Vinhos, trigo, cereais, ervagens, gado materiais artesanais, tudo, os mercantéis transportavam, em rotas lagunares.
Na Gafanha da Nazaré, o carregador lagunar servia para tudo. Além de transportar madeiras e operários para os estaleiros, transportava bacalhau de navios mais afastados para o cais, junto às secas, junco, lamas para as marinhas, sacos de lona com as roupas dos tripulantes de navios de bacalhau. Vi, realmente visto, à chegada do n/ motor Novos Mares, depois de o ter ido receber e filmar à boca da barra, na campanha de 1964, atracarem a bombordo e a estibordo, dois mercantéis, para os quais eram descidos os tais sacos de lona que seriam distribuídos, muito mais rapidamente, pela Torreira, Bico da Murtosa, Bestida, Pardilhó, Válega, Ovar.

Gafanha da Nazaré – transportes diversos

Pedra para a construção do afamado «triângulo» na entrada da barra, pelos anos 30 de século XX, os mercantéis, de costado bem no fundo, lá a suportavam.
 
Barra – Transporte de pedra para o triângulo

De Ançã e, sobretudo, de Eirol – pedra de Eirol, presente nas obras da barra, diversos monumentos, muralha de Aveiro, Farol e quejandos, mais uma prova fotográfica curiosa.

Eirol – Ponte da Rata

E, por ora, f1quemos por aqui…já chega. Outra rota diferente se seguirá, a seu tempo.
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Nota *Sobretudo relativamente a este assunto, foi consultado o livro de Senos da Fonseca, Ílhavo – Ensaio Monográfico Séc. X ao Séc. XX, pp. 215-216.
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Postais e algumas fotos retiradas do Google e outras cedidas por amigos
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Ílhavo, 25 de Abril de 2015
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Rotas lagunares - de passageiros

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O mercantel foi a barca, por excelência, de transporte de passageiros, a partir do século XV, entre os diversos centros urbanos, entre os quais não havia ligações terrestres. Inês Amorim, in Aveiro e sua Provedoria no século XVIII, refere um extenso número de locais onde havia barca da passagem – Serém, S. João de Loure, Lamas do Vouga, Pessegueiro do Vouga, Almiar, Óis, e Aguada, isto no interior dos rios. No litoral, para lá da carreira Ovar-Aveiro, refere Soza e Pedricosa.
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É bastante conhecida uma gravura de mercantéis no Rossio, em Aveiro, datada de 1877 que tiveram o seu auge até meados (sétimo decénio) do século XX.

Aveiro, no Rossio, em 1877

O último mercantel construído pelo Mestre Lavoura, em Pardilhó, para serviço, foi em 1973. Em 2001, o Mestre Esteves, também de Pardilhó, construiu o último mercantel tradicional, para exibição na Sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo.
De Aveiro para Ovar e vice-versa, havia carreiras diárias de mercantel, durante a noite, que eram das mais importantes, custando o preço da viagem Ovar-Aveiro, a quantia de 100 réis.
Como a viagem era longa e pouco confortável, mesmo à chuva e ao frio, de Inverno, havia quem alugasse a proa, por um preço mais elevado, se ainda não estivesse reservada.
Com irregularidades no cumprimento de horários e  preços tão elevados, o Governador Civil de Aveiro (em 1854) chegou mesmo a intervir no assunto.

Algures, na ria, com passageiros

Com saída de Ovar, em 1843, havia diversos fretes de mercantel, com destino à Torreira, a S. Jacinto, a Aveiro, a Águeda e à Costa Nova, sendo este de ida e volta, com preços diversos, em estação alta e baixa, bem mais elevados que a barca da carreira. 

Transporte lagunar, em Aveiro, século XIX

Claro que a curta travessia, que nos meus tempos de rapariga me era mais familiar era a passage da Costa Nova para a Gafanha da Encarnação e respectivo regresso. Frequentando a escola primária, à época (em 1951), na, então, 3ª classe, na Costa Nova, até o exame me obrigou a ir prestar provas à Gafanha da Maluca, de barca. Que satisfação! E com que saudade o recordo!
 
Costa Nova. A nova MOTA. 1941

Não quero concluir sem referir que os mercantéis chegaram a transportar passageiros reais:
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A rainha D. Maria II, aquando em visita ao norte do país, deslocou-se do Carregado (Ovar) a Aveiro, com o seu séquito, em cinco mercantéis, primorosamente decorados, em 23 de Maio de 1852.
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Foi também em mercantel feito bergantim real, que D. Manuel II, em 1908, em visita a Aveiro, se passeou, em visita à barra, conforme documentam as fotografias da época, in D. Manuel II e Aveiro, de Armando Tavares da Silva, publicado em 2007.

Séquito de D. Manuel II, em 1908

Fotos retiradas do Google e cedidas por amigos
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Ílhavo, 17 de Abril de 2015
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 6 de abril de 2015

De passagem pela Gafanha...

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Em vésperas de Páscoa, visitei o amigo Marques da Silva, em sua casa de férias, na Gafanha da Nazaré, para ver o estado de adiantamento da obra que iniciara pelo Natal – um modelo de um bote de meia quilha do Tejo.
Construído por plano geral do Museu de Marinha da autoria de J. Barros, de 1941, à escala de 1:25, obedecia a todos os pormenores.
De registo B1520TL, de nome NOVA ELIZA, pintado nas caras brancas de bombordo e estibordo, usava, normalmente, a reboque, uma chata de serviço.
Aproveitei a ocasião de estar ainda em madeira, para fixar para a posteridade, antes da pintura, a sua beleza construtiva.
Além da vela, uma perfeição e uma riqueza de pormenor, MS vai preparando o aparelho para levantar a carangueja e poder determinar o respectivo painel. Uma obra de arte que as imagens, melhor que as palavras, evidenciam. Uma beleza!
Em estaleiro, sobre os planos de construção
Vista de convés de vante
Pormenor interior de
Pormenor de leme de cana
Espero com confiança que, depois da pintura, lá para o Verão, possa fazer outra sessão fotográfica «de estúdio».
Esta espécie de embarcação, já inexistente, foi das mais belas e rápidas que navegaram no Tejo, destinada ao transporte de carga e até de passageiros, dada a sua leveza.
Fotos – Da autora do blogue
Ílhavo, 2 de Abril de 2015
Ana Maria Lopes

domingo, 29 de março de 2015

Rotas lagunares - do sal

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O grupo uariadeaveiro, em colaboração com a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro, está a promover um novo ciclo de «Quintas da Ria», que inclui uma tertúrlia por mês, a uma quinta-feira, entre fevereiro e julho de 2015.
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A primeira conversa iniciou-se pelo tema «As embarcações e as rotas na Ria de Aveiro», entregue aos palestrantes Senos da Fonseca, eu própria e Helder Ventura, tendo tido  lugar a 12 de Fevereiro passado.
Senos da Fonseca ocupou-se das principais embarcações lagunares, as maiores, situando o seu aparecimento, de acordo com as necessidades dos utilizadores e a evolução geográfica da laguna, que considerou formada, a partir do século IX. Não esqueceu o xávega, que, embora operando no mar, proveio igualmente das hábeis mãos dos nossos construtores lagunares, ao longo dos tempos.
Referido o principal por Senos da Fonseca sobre as embarcações, fiquei com o caminho aberto para me deter sobre as principais rotas lagunares, já que o tempo concedido para tal, era fugaz.
Este tema implicou regredirmos no tempo, o suficiente, e não é assim tanto, em que a laguna era a grande auto-estrada líquida, pois não havia rotas terrestres, na zona, que pudessem transportar mercadorias e passageiros.
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As rotas lagunares estiveram forçosamente ligadas às embarcações – mercantel (saleiro), moliceiro, bateira moliceira, bateira do junco e bateira berbigoeira, que mais tarde, com algumas adaptações, passou a designar-se por mercantela.
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Talvez possamos considerar, sem cometer nenhuma infidelidade histórica, o mercantel como uma das primeiras embarcações de fundo chato, nascida nos tempos modernos (depois dos séculos XV, XVI) construída para sulcar a laguna, servindo vários projectos.
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De facto, teria sido o mercantel, a embarcação (comummente designada por barca) que terá servido, tão eficazmente, de vários modos, a economia lagunar.
Houve necessidade de fazer evoluir, uma nova embarcação de fundo chato, que calasse pouca água e que albergasse cerca de 15 toneladas, que se adaptasse à condição geográfica lagunar, que aproveitasse para sua propulsão, os ventos mais dominantes desta região, o norte e o noroeste, para navegar de popa (fazer popas) ou para bolinar (navegar à bolina), avançando contra o vento, aproveitando-o, na sua vela latina quadrangular, mais tarde.
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Assim nasceu o mercantel.
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É bastante conhecida uma gravura de mercantéis no Rossio, em Aveiro, datada de 1877. Tiveram o seu auge até meados, (sétimo decénio) do século XX.
Anteriormente, teria havido umas barcas de rio acima, idênticas, quantas vezes abicadas à proa e a ré, de vela tosca de pendão que aproveitavam a brisa matinal do rio e a corrente, para subirem e a brisa da tarde para descerem, trazendo outras mercancias de lá para cá, necessárias, como madeirame, vinhos, e produtos diversos artesanais para feiras.
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Barcas de rio acima de vela de pendão

Nos rios Vouga, Águeda e Cértima, são referidas nas Memórias Paroquiais escritas pelo prior de Águeda, em1758, umas barcas semelhantes, que transportavam rios acima, mercadorias, sobretudo sal e peixe, também para o cais de Águeda e para os portos secos, locais para onde era distribuído o sal por outros pontos do país.

Barcas em Águeda, em 1920
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A estrada norte/sul mais próxima passava por Águeda, Mealhada e Albergaria.
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Rota do SAL
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Tendo sido, certamente, o sal, a primeira das mercadorias a ser carregada no mercantel, foi conhecido, neste transporte, sobretudo, por saleiro.
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O sal era retirado das marinhas e era levado para os armazéns do canal de S. Roque.

Tirada de sal junto a marinha

Descarga do sal no Canal de S. Roque
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Daí, primeiro para Águeda, depois para o Cais de Ovar (Ribeira de Ovar), onde o movimento era intenso e activo, não podia também de deixar de passar também pelo esteiro de Estarreja.

Na Ribeira de Ovar, os saleiros carregados

Descarga de sal, no esteiro de Estarreja

A rota do sal não podia praticamente separar-se da rota do peixe, porque a seguir ao sal, era o peixe o produto mais transportado.
Vindo desde a Costa Nova, onde era lavado, salgado e vendido em palheirões à beira-ria, de S. Jacinto e da Torreira para Aveiro, daí seguia os destinos já designados.

Armazéns de venda de peixe, na Costa Nova
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Imagens diversas: postais, retiradas do Google e cedidas por amigos
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Ílhavo, 29 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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sábado, 21 de março de 2015

Então, como estamos de galeota?

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Já o Março passou a vintena e ainda não ouvi nenhum pregão de galeota! Este ano tem tardado…
Comi noutro dia, mas comprada, lá em baixo, perto da peixaria. Haverá pouca? Ou haverá problemas com a certificação da «arte», como já me zuniu?
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Galeooooota!
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Pregão único, mas bem timbrado, prolongado e amiúde!
Faz-me falta, sobretudo, o pregão. Faz-me bem à alma e ao paladar – dizia um apreciador.
Marca esta época – a época da galeota.
É tempo dela! Amanhã, vou «investigar» à Costa Nova, mas, atenção, não sou «fiscal» e não vou vigiar nada. Só tentar recolher informações.
Parece que os grandes apreciadores estão ògadinhos por ela – lê-se pelo facebook, perante a imagem de um prato bem apresentado e cativante à vista e ao paladar.
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Costumava durar, cerca de um mês a mês e meio (de Março a Abril), a venda da galeota pelas ruas de Ílhavo e zona das Gafanhas, porta a porta. No início da safra, é sempre cara como fogo; pudera! há um ano que não se lhe chinca!!!! Mas à medida que se banaliza (por se ir transformando no lingueirão), o preço desce, permitindo que bolsas menos folgadas já lhe acedam.
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Sempre mais apoquentada com as embarcações e processos de pesca usados do que com os prazeres gastronómicos, ia frequentemente até à Costa Nova (junto à Biarritz e San Sebastian), observar a sua apanha e ver as redes, bastantes sui generis, nos trapiches, a secar.

Arte a secar nos antigos trapiches, à borda da ria

Hoje já não teria forças para andar de botas de água, pela borda da ria ou junto às coroas, para gravar conversas e bater chapas.
Já abordei esta apanha da galeota no Marintimidades, por umas duas vezes, mas não é que, ontem, numas arrumações do «baú de memórias», encontrei mais umas tantas imagens que cliquei em 11 de Março de 1986 de um lanço de galeota? Que maravilha! Já com trinta aninhos…registadas por mim, «à coca» de todos os pormenores. Conheço a «arte» de cor e salteado. Toca de ordenar as imagens e de preparar a conversa para captar os leitores/amantes do peixinho milagroso.
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Trata-se um aparelho envolvente, tipo chincha, especialmente adaptado para a apanha da galeota, uma espécie de recém-nascido lingueirão.
Consta, essencialmente, de uma tira de rede, que adelgaça para os calões, tendo, no centro, um rectângulo de pano branco, um pano tipo mosquiteiro, muito franzido e folgado, que substitui o saco da chincha. O comprimento da rede é de cerca de 40.00 metros, tendo o pano mosquiteiro cerca de 2 de comprimento. A arte é feita com rede usada, de traineira.
Uma bateira vulgar (ou qualquer outro género de embarcação de fundo chato), é o tipo de embarcação utilizada neste processo de pesca.

Fica um camarada em terra…

Fica um pescador em terra aguentando o cabo do reçoeiro, enquanto a bateira se afasta da margem, largando a rede, a favor da corrente.
A partir do meio da rede, a embarcação dirige-se para a margem, completando o cerco, para o que fez um percurso, sensivelmente, em semicírculo.

Já completo o percurso em semicírculo

Aproada a bateira, os pescadores saltam para a água e, em conjunto com o que havia ficado na margem, alam a rede. Vão-lhe dando sacudidelas rítmicas, para espantar e conduzir o peixe para o pano.

Camaradas alam a rede

Percorrem a tralha da cortiça, até que ao chegar ao centro, com a galeota agrupada junto ao pano, levantam a rede fora de água, fechando a boca do saco.

Pescadores vão fechando o saco de pano branco

A galeota, quando perseguida, esconde-se na areia branca, enterrando-se rapidamente. A arte aproveitou engenhosamente esta particularidade, pois o pano branco consegue enganar a galeota, dando-lhe a ilusão de areia. Por vezes, apenas dois pescadores lançam a rede.
Finalmente escolhem-na dos moliços e de outas mínimas ervagens, para a passarem para um balde ou para o quete da bateira.

Escolha da galeota

A galeota mais apreciada pelos entendidos é a primeira, por ser mais pequena (a larva do lingueirão). Depois de crescida, já não é tão saborosa (dizem os degustantes).
Apanhado o petisco sazonal, é preciso fazer o seu escoamento imediato no mercado da Costa Nova, nos restaurantes da zona, porta a porta, em grito estrídulo:
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Galeooooota! É tempo dela!...cantava o pregão.
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E compradoras assomavam às portas!
Mas pareceu-me que o pregão estridente e bem-sonante foi interrompido por exigências marítimas que transtornam os pescadores. Continuemos de atalaia!...
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Fotografias – clichés da autora do blogue, nos anos 80
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Ílhavo, 21 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 16 de março de 2015

Postais da Costa Nova - 2

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Ainda o Bico…

Os postais, que ultimamente têm surgido em alfarrabistas sobre a Costa Nova, não trazem propriamente nada de novo, mas deixam-nos visualizar cenas que nunca tínhamos presenciado antes, com tanto pormenor.
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Porventura, um pouco a norte do Bico, com a Senhora da Maluca, na banda de lá, como cenário, desenrolam-se várias cenas de trabalho, que passamos a listar.
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Em primeiro plano, pescadores descalços, de ceroulas atadas e de camisa lisa ou sarapintada, de bonés ou barrete negro tradicional, de borla na ponta, sentam-se à beira-ria, sobre uma rede da chincha que, entretanto, com agulha de rede, cuidam e remendam. São notórios os pandulhos usados na tralha dos chumbos, em primeiro plano, e as pandas, flutuantes, na tralha oposta.
A sua bateira chinchorra, ancorada, possivelmente com toldo enrolado, com varas e cabos, apetrechada, aguarda-os para a faina lagunar.
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De passagem, dois moliceiros, norteiros, com tudo a que têm direito, embelezam e completam a cena.
Numa bolina suave, auxiliada pela vara, homens-moliceiros aproveitam para, com os ancinhos trilhados entre tamanca e forcada, «raparem os cabelos verdes da ria».
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Um autêntico quadro de Raul Brandão.
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Ílhavo, 16 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 8 de março de 2015

O litoral e eu


O litoral e eu temos uma história de vida…
Desde moçoila que o palmilhar as praias piscatórias marítimas, se revelou, para mim, uma delícia. O mar, na sua imensidão, em tons de azul e espuma branca, enrolava-se e espraiava-se na areia cálida e macia, num vaivém constante e sempre surpreendente.
Os cenários eram deslumbrantes a qualquer hora. Desde o alvorecer ao anoitecer, homens e mulheres em alarido, guiavam bois, ajudavam barcos a varar, remendavam redes, corriam com cabos às costas, enquanto, à margem, se faziam lanços no areal cálido e amplo.
Dirão…ou pensarão: convenceu-se que conhece alguma coisa de marítimo e que apanhou essa paixão pelas embarcações tradicionais assim sem mais nem menos. Não foi moda, não. Nem delírio. Também não. Foi gosto, dedicação, observação e estudo.
Finalista de Filologia Românica na UC, defendia a tese O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos, quando a vida me desafiou para mudar e, de solteira, passar a casada, tomando outro rumo familiar.
Sucedeu que a dita «lua-de-mel» foi feita litoral abaixo, entre Cascais, Sesimbra e baía da Baleeira, passeando mesmo até ao sotavento algarvio.
Palmilhávamos as praias, calcorreávamos areais, sentávamo-nos em rochas. Eu, alcandorada, em embarcações, adorava assistir directamente na beira-mar às lotas de peixe prateado e saltitante. O movimento, o alarido, o colorido, o vaivém de barcos e artes entontecia-me apaixonadamente.
Pelos anos 60, continuava o estertor das embarcações tradicionais e da navegação à vela, a que fui assistindo com alguma mágoa. Mas todo aquele movimento, essa balbúrdia, esse bulício, momentos de extrema beleza, ficaram no meu gosto pelo «marítimo».
 
Em Sesimbra. A lota do peixe-espada, na praia. 1965
 
Ao final da tarde, o peixe prateado estrebuchava na areia, no estertor da morte. Vários lanços decorriam em simultâneo, enquanto aiolas se aquietavam em terra e chatas, grosseiras e pesadonas regressavam ao mar prateado…
Anotei, apontei, fotografei, escrevinhei, voltei várias vezes a vários pontos litorâneos, sempre numa perspectiva etno-linguística, até que em 1971, a tese ficou pronta.
Estas imagens dos anos 60 falam mais do que «mil palavras».

P. de Varzim. Barquinhos com muregonas
 
Embarcações diversas na praia da Nazaré
Barco do mar na Caparica
 
 Sines. Lota na praia
 
Albufeira. Vai um bote à água

Lancha da sacada. Albufeira

Monumental calão. Quarteira

O gosto não esmoreceu. Pelo contrário
Pelos anos 80, visitei todos os locais já então percorridos, para fazer uma avaliação entre o que a história tinha feito desaparecer e o que ainda perdurava. Esta comparação gorou as minhas expectativas, quanto ao que ainda havia de tradição.

No primeiro decénio do século XXI, eis-me de novo ao terreno, de norte a sul do país. E o resultado foi o livro REGRESSO AO LITORAL, dado ao prelo pela Comissão Cultural de Marinha, em 2008, que muito me orgulhou.

O tempo foi passando, as embarcações tradicionais e as minhas forças atingiram o seu crepúsculo. Poderia ter sido um pouco antes, mas considero que ainda o fiz a tempo de me ter deixado a alma cheia.
Neste dia dito da mulher, que não aprecio, poderei dar a mim própria a prenda de escrever de mim e para mim, recordando o «tal passado à beira-mar».
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Ílhavo, 8 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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