segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Apresentação da «Terras de Antuã», na Câmara de Estarreja

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Anteontem, sábado, por ocasião da comemoração do 495º aniversário da outorga do Foral à vila de Antuã, por D. Manuel, em 15 de Novembro de 1519, foi apresentado o número oito da revista Terras de Antuã – Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja, mais uma vez com uma assistência numerosa, no belíssimo Salão Nobre dos Paços do Concelho, numa sessão presidida pelo Presidente da Câmara Municipal de Estarreja, Diamantino Sabina.

Convite

Este oitavo volume é constituído por 14 artigos de dezasseis autores, cujas temáticas vão desde a arqueologia, passando pela arte popular, arte sacra, biografia, conflitos sociais, documentação, construção naval, emigração, entre outras.
Para nós foi gratificante participarmos com o artigo sobre o convívio que fomos tendo desde 1994, com o prestigiado Mestre António Esteves, de Pardilhó, construtor de machado e enxó, ainda em laboração. O artigo parte do Homem para a obra, obra essa que é evidente na Sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo e que culminou com a construção da ancestral bateira ílhava. Memórias recentes que, depressa, se tornarão longínquas.

Alguns dos autores participantes na Revista
Desta vez, a capa da Terras de Antuã e o convite apresentam a casa Arte Nova, de Francisco Maria Simões, no Largo da Igreja de Salreu, cujo arquitecto foi Francisco Augusto da Silva Rocha (1864-1957).  
Foi, pois, um prazer de colaborar com a revista, sabiamente dirigida, em estreia, pela Dra. Rosa Maria Rodrigues, ilustre Conservadora da Casa-Museu Egas Moniz.
 
 
Fez 140 anos que nasceu Egas Moniz (1874-2014) e todo o ambiente que se respirava na CME era dedicado ao nosso Prémio Nobel de Medicina, em Outubro de 1949, pelo qual nutrimos um carinho muito especial.
Depois de termos visitado, na Casa da Cultura de Estarreja, uma exposição de pintura «Memórias Resgatadas» de Gina Marrinhas, regressámos com o espírito mais leve, mais arejado e com novos projectos em mente. Talvez venham a ter realização. Quem sabe!... É preciso, sobretudo, sonhar…para, mais tarde, executar.
À noite, folheámos a revista, debruçando-nos sobre alguns dos artigos que mais nos interessaram – As descobertas de Egas Moniz e o seu contexto histórico, da autoria de seus sobrinhos netos e Francisco Augusto da Silva Rocha e a casa de Francisco Maria Simões – Um novo padrão de beleza, pela pena de Maria João Fernandes, crítica de arte e bisneta do arquitecto Silva Rocha.
Ainda está por reconhecer o justo mérito ao Arquitecto, em Aveiro, cuja casa da Família Pessoa, no Rossio, hoje, Museu de Arte Nova, de seu projecto, recebeu o seu nome.
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Fotografias de Etelvina Almeida
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Ílhavo, 17 de Novembro de 2014
Ana Maria Lopes

sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

Modelo de caravela redonda de Marques da Silva

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Pelo 1º de Novembro, em que Marques da Silva se deslocou à Gafanha da Nazaré, trouxe-me esta surpresa para abrilhantar o Marintimidades – modelo da caravela redonda e texto alusivo. Ei-los:
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Quando terminei o meu modelo da caravela latina de três mastros, logo me surgiu a vontade de construir também uma réplica da caravela redonda, que era sem dúvida um complemento para o estudo que eu vinha desenvolvendo acerca deste tipo de navios, dos quais tanto se fala.

Assim, comecei por procurar os desenhos que havia no Museu de Marinha e fazer uma atenta observação do belíssimo modelo que lá se encontra.
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A pesquisa na Internet pouco adiantou ao que já sabíamos.
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Agora só faltava deitar mãos à obra.
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A caravela redonda ou de armada foi uma embarcação que começou a ser conhecida em Portugal, fazendo parte dos navios da época dos Descobrimentos, após o regresso de Bartolomeu Dias da sua notável viagem em que conseguira dobrar a ponta Sul do continente africano.

O simpático atelier de Marques da Silva

Sabe-se que em Castela, já era normal aparecerem caravelas com um mastro de pano redondo, arvorado a vante, mas essa alteração não foi muito utilizada pelos navegadores portugueses. Possivelmente, a nortada que é persistente na nossa costa Oeste, não aconselhava muito essa aplicação, que só teria vantagem nas viagens para Sul.
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Depois de ter sido conhecido e estudado o regime geral de ventos de todo o Oceano Atlântico, ter-se-á verificado, que para as viagens que então começávamos a efectuar, seria útil que as nossas caravelas, tivessem melhores condições, para navegar com ventos mais largos.
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Assim se justifica o aparecimento deste novo navio, que logo se apresentou com vantagem para ser utilizado nas armadas de defesa das costas, não só no continente, mas também nas ilhas atlânticas e nos mares do Oriente, onde começava a nossa ocupação.
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Da sua observação se verifica que não se trata de uma simples alteração do plano vélico. É um navio construído de novo para aproveitar o que tinha de bom a velha caravela acrescentando-lhe o que se entendeu vantajoso para fazer melhores viagens e em outros mares. Melhor aproveitamento do vento, mais espaço para colocação de armamento e mais casa para resguardo de maior número de tripulantes. 

Pormenor da popa e massame

Encontra-se referência à caravela de armada nos séculos XV, XVI e XVII, caindo depois em desuso.
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Construí o meu modelo desta caravela, seguindo, como disse, o plano do Museu de Marinha e observando os pormenores do modelo lá exposto.

Aspecto geral do modelo

Utilizei madeira, fio de cobre, pano e linha de algodão. Na pintura apliquei cuprinol, bondex e tinta preta.

O velame, obra da «artesã» habitual

Tal como na caravela latina, utilizei a escala de 1/75.
Este navio teria assim na realidade, como dimensões aproximadas:
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Comprimento ………………………... ± 30,00 metros
Boca ……………………………………..± 9,00 metros
Pontal …………………………………. ± 4,50 metros

Lisboa, 28 de Setembro de 2014
António Marques da Silva
 
Ílhavo, 14 de Novembro de 2014
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AML
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sábado, 8 de Novembro de 2014

Uma «Costa Nova» de Eduarda Lapa, no MMI

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Um óleo Costa Nova saído da paleta de Eduarda Lapa valoriza o espólio pictórico do Museu Marítimo de Ílhavo.
Pintora contemporânea, distinguiu-se, essencialmente, como intérprete de flores, mas é a faceta de pintora da nossa ria que, sobretudo, me atrai.
Recordo-me, quando criança, de a ver pintar, da varanda da minha casa na Costa-Nova, protegida do sol, pelo seu chapeuzinho branco, de pano, de olhos fixos na ria de então, bem diferente da de hoje: grande variedade de barcos em que os moliceiros eram os senhores da laguna e dos seus quadros. Memórias da juventude…
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A 21 de Outubro, em que o edifício do Museu de Ílhavo cumpriu 13 anos de renovação, a CMI enriqueceu a colecção de pintura, com a entrada de um quadro Costa Nova de Eduarda Lapa.
A sua ida a leilão na leiloeira Veritas, Lisboa, foi-nos dada a conhecer por Zé Sacramento, galerista conhecido da «nossa praça». Da licitação se encarregou, tendo a AMI (Associação dos Amigos do Museu) contribuído para a sua compra com uma forte participação.
A obra, pintura a óleo, empastelado, sobre platex, de 33 por 43.5 cm, está assinada e não datada, o que é frequente, na autora.
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É uma romântica Costa Nova, pincelada com aquele timbre naturalista de quem pinta o que vê, dando a artista, natural relevo ao que mais a toca.
Temos elementos de sobra que nos permitem com alguma segurança, arriscar uma data para o óleo em causa.
A pintora estaria posicionada um pouco a sul da lingueta frente ao antigo mercado (1º plano), donde observava com pormenor, a 2ª mota que houve na praia, de 1932. Por outro lado, não existia ainda o edifício da Mota, com a sua pala característica, construído pela JARBA, em 1942. Por outro lado, também não há um apontamento da famosa esplanada, cuja construção andou ali por 1934/35.
Todas estas datações bem conhecidas levam-nos a situar o óleo, com segurança, entre 1932 e 35.
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Que imortalizou Eduarda Lapa? A ria junto à estrada, a sul, a mota com o seu vaivém intenso de passageiros, peixeiras, para as duas barcas de passage, acostadas à rampa, a ria a lamber a estrada, a norte, num contacto directo e poético, com o casario riscado e não riscado, de frente para a água. Que belo espectáculo!

 
Costa Nova de Eduarda Lapa

Era o quadro que faltava à colecção do MMI. De posse de alguns simpáticos registos de autores regionais, do princípio do século XX, sem esquecer Cândido Teles, com dois óleos de Fausto Sampaio, um de 1933, o casario sobre a ria, noutra perspectiva e uma neblina majestosa, sobre a ria, de 1939, o nome e a arte de Eduarda Lapa vieram completar a colecção de registos da nossa praia e da nossa ria.

Apontamentos biográficos:
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Eduarda Lapa nasceu em Trancoso em 1895. Algum tempo depois foi viver para a capital, onde a sua veia artística desabrochou. Foi discípula de Emília dos Santos Braga, que a introduziu no naturalismo, ao integrá-la nos estudos ao «ar livre».
A «embaixatriz da cor», como foi chamada, passou a viver em Paris, a partir de 1930, onde conviveu com os melhores artistas entre os quais se contavam a pintora brasileira Helena Pereira da Silva, Waldemar da Costa, Arpad Szènes e Maria Helena Vieira da Silva, colega do atelier de pintura, em Lisboa.
Detentora de uma capacidade para revelar e demonstrar quer o ritmo, quer a harmonia das coisas, a pintora especializou-se em naturezas-mortas e principalmente em flores, sendo considerada, quer pelos colegas quer pelos críticos, uma das melhores neste género, «a grande pintora de flores do nosso país»
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Porém, Eduarda Lapa não se dedicou só às flores. A sua obra apresenta, também com êxito, paisagens rústicas, magníficas marinhas, em especial trechos ribeirinhos. A zona de Aveiro e da Praia da Areia Branca proporcionavam-lhe os motivos referentes às gentes do mar, como os pescadores ou os barcos moliceiros da ria de Aveiro, as praias da Torreira, da Costa Nova e da Nazaré.

Foi uma das pintoras mais apreciadas pela crítica da época, juntamente com Alda Machado Santos, a aguarelista Raquel Roque Gameiro, Maria de Lurdes Mello e Castro, Adelaide Lima Cruz e Clementina Carneiro de Moura.
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Eduarda Lapa foi sócia efectiva da Sociedade Nacional de Belas Artes, tendo sido a primeira mulher a fazer parte da Direcção desta Sociedade.
Durante mais de vinte e cinco anos, Eduarda Lapa orientou cursos de desenho e pintura, tendo como objectivo desenvolver as capacidades das suas alunas, despertando-as para o conhecimento da beleza, da forma e da cor
A sua obra encontra-se representada em Câmaras Municipais, em diversos Museus e em outras instituições de arte. Está igualmente representada em colecções estrangeiras.
Faleceu em Setembro de 1976, em Lisboa, na sua residência, onde foi descerrada uma lápide alusiva, pela Câmara Municipal, que atribuiu também, o seu nome, a uma rua.

Ílhavo, 8 de Novembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

A dureza da profissão de sargaceira

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Há dias, num Seminário que houve no MMI sobre Espaço e Paisagem no Cinema Português, atraiu-me, especialmente, o documentário «A Mãe e O Mar», realizado por Gonçalo Tocha, filmado na praia de Vila Chã, em Vila do Conde.

Cartaz

Conta a história das «mulheres-arrais», ou «pescadeiras», tidas como caso único em todo o mundo. Aqui, são representadas por Glória Ramos Costa de 60 anos de idade, a única mulher que, depois de tantos anos e tantas adversidades, ainda se atreve a enfrentar o mar. Através de entrevistas e várias conversas onde se recorda o passado, Tocha revela como estas mulheres corajosas desafiaram a tradição e obtiveram licenças de pesca, dedicando as suas vidas à pesca, uma profissão predominantemente masculina, e ao amor pelo mar.
Gostei de ver a sua participação na pesca com uma coragem inabalável, mas tocou-me mais a participação de Glória na apanha do argaço, como última sargaceira de Vila Chã.
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Passo a explicar. Por ocasião de várias visitas sistemáticas ao litoral português, tive oportunidade de observar algo desta actividade, embora não tenha constituído objecto de meu estudo. Mas, os registos fixaram momentos… E, agora, 30 anos passados, vieram ao de cima…
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Por outro lado, também existe uma semelhança entre o argaço do mar nortenho e o moliço da laguna de Aveiro. Ambos em vias de extinção, senão mesmo extintos e com finalidades idênticas.
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Não vou sacrificar os leitores amigos aos muitos pormenores que a apanha do sargaço envolvia, em diversas praias nortenhas, até meados do século XX.
A recolha das algas que andavam soltas na água ou presas aos rochedos submersos, longe da praia, era feita em embarcações – barcos tipo poveiro, masseiras ou jangadas – conforme os diversos locais, utilizando, para isso, o sargaceiro (geralmente, homem), ferramentas específicas: foicinhas, croques e ganchorras, espécie de ancinhos, de cabo muito comprido, com duas fieiras de dentes de diferentes tamanhos, com um ângulo de 90º, entre eles.
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Já não cheguei a tempo de observar este tipo de apanha.
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Aquela que ainda me foi dado analisar e que me seduziu e marcou até hoje, foi a apanha feita a pé, normalmente por mulheres, que, com grande esforço, entravam na água, vestidas, até à cinta ou ao peito, arrastando as algas que boiavam, junto à praia, com o auxílio da graveta (ancinho mais pequeno e de cabo mais curto) e do ganha-pão, uma espécie de saco de rede entralhado num arco de madeira, munido de um cabo para o manejar.
De madrugada, com a roupa molhada, fria, colada ao corpo, estas corajosas e esforçadas mulheres subiam areal acima, com o ganha-pão carregado, às costas, quantas vezes ainda sob algum nevoeiro, como cheguei a ver.
Para lhes facilitar o trabalho, duas mulheres serviam-se, com frequência, de uma espécie de padiola com dois braços de cada lado, a carrela, sobre a qual transportavam as algas colhidas até ao cimo do areal.
Idêntico à carrela, mas com duas pegas apenas e uma roda, uma espécie de carro, manejado por uma só mulher, usava-se, para o mesmo efeito, o carrelo, que facilitava muito o trabalho, a uma só pessoa.
Não quero deixar de citar o galricho do sargaço, usado só em Vila Chã, e num ou noutro local, a título excepcional, que não tem nada com o «nosso» galricho.
Constituído por um longo saco de rede de 2 a 3 metros de comprimento, também preso a um arco de 1.30 m de diâmetro, com meio arco desimpedido, mas sem cabo, é agarrado verticalmente pela sargaceira, como se pode ver no CARTAZ, que publicita o filme e que me despertou o afecto para estas imagens fechadas no «baú», há cerca de 30 anos.
Por último, em conversa, com a própria Glória, a sargaceira/artista de tão duro trabalho, testemunhou-me que, em Labruge, um jumento tocado por uma mulher acarretava, numa zorra, o sargaço que tinha dado à praia, e que a sargaceira recolhia, com o auxílio do graveto. Confirmou-me o que eu tinha visto e que tinha registado e que vos dou a conhecer, com prazer.
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Registos de outros tempos, de práticas extintas, que foram deixando um eco de memória na praia de Vila Chã.
Mas a Glória, mulher sargaceira e arrais, já não vai mais ao mar, porque os anos começam a pesar e teve o azar de ter partido uma perna.
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Chamo a atenção, isso acontece com frequência no nosso litoral, que há diferenças terminológicas na designação de alguns instrumentos de trabalho, de praia para praia, entre curtas distâncias. São os diversos falares ou linguajares que nos enriqueceram a língua, que estão em risco de serem também perdidos com os novos tempos.
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Vidas difíceis de gerações de mulheres e de mães, no nosso mar…
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As imagens libertadas pelo filme e pela memória testemunham-nos algumas das descrições que acabei de reconstruir.



À beira do mar, liso, espelhado, brilhante e esquartejado entre penedos, uma sargaceira, de roupa molhada até ao peito, retira do ganha-pão para o areal, as algas arrastadas na praia. Aver-o-Mar.

 


Duas gerações de sargaceiras – uma, de preto vestida, quem sabe, viúva de homem do mar, de costas voltadas para nós; outra, jovem e bonita, orgulha-se do seu trabalho, deixa-se fotografar, ao acarretar as fitas, a bodelha e os limos do argaço, num carrelo, pelo areal acima. Aver-o-Mar.

 

Duas gerações de sargaceiras, talvez mãe e filha, acarretam sargaço com as típicas padiolas, as carrelas, plasmadas num ambiente marítimo de barcos tipo poveiro, aprestos, trouxas de redes, montes de algas, que salpicam o areal da Apúlia.
 

Sargaceira, em Labruge, de graveto ao ombro, acabou de apanhar sargaço, trazido até à praia, para uma zorra que um jumento arrasta. Cena inédita.
 

Sargaceira idosa, entre rochedos, curvada pelo peso do ganha-pão, esconde o rosto, de vergonha, perante os fotógrafos, que, ainda revoltada, trata mal, por divulgarem o seu grande sacrifício. Apúlia.
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Vidas pesadas e difíceis, que entretanto acabaram, mas foram deixando alguns preciosos testemunhos.
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Fotos de Paulo Godinho (inéditas). Anos 80
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Ílhavo, 26 de Setembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Vamos ao junco?

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Na posse de um arquivo em diapositivos, cedido gentilmente por pessoa amiga, sobre mar e ria, pelos anos 70 (de 72 a 79), na zona da Torreira e Mira, muitas imagens seduziram-me.
Documentam fainas, que, felizmente, cheguei a conhecer, mas, que, em apenas dez anos nos foram praticamente roubadas… As fainas da ria atingiram uma dimensão espantosa e, hoje, são cada vez menos…
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Agora, é  da do junco que pretendo falar.
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Nos anos 80, quando pesquisei mais intensamente na ria, tive consciência perfeita que uma actividade alternativa dos moliceiros era a apanha e transporte de junco.

Ribeira de Aldeia. Pardilhó. Anos 80
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Não só de moliceiros e de bateiras erveiras, mas também de mercantéis, embarcações, por excelência, de carreto, da laguna.
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O junco, género botânico semelhante às gramíneas, desenvolve-se em terrenos alagadiços, naturalmente junto à ria, os juncais.
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Ao longo dos anos foi tendo várias utilizações:
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- os próprios palheiros, abrigos dos pescadores, daí o seu nome, foram inicialmente cobertos de junco
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- a cama do gado também era feita de junco, que à mistura, posteriormente, com os excrementos dos animais, resultava num proveitoso adubo para as terras
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- na maior parte das cozinhas de uso,  o chão, era de junco,  nas casas de lavradores, pelo  XIX
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- o junco alcatifava também barcos, em dias de romaria, para os tornar  mais confortáveis
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-servia para a feitura de esteiras, cestaria e outros artefactos congéneres
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Hoje em dia, continua a usar-se nas camas de gado, e, quando muito, no atapetado de ruas, em alguma procissão mais cerimoniosa.

Bem perto de nós, a denominação da ponte de Juncal Ancho (juncal farto, que ia do rio da Vila até à Ponte de Vagos), que separa Ílhavo da Gafanha de Aquém, aviva-nos a existência de juncais nas beiradas lagunares.
Se o uso do junco, ainda pelos anos 70 do século XX, possibilitou registos destes, o que não teria sido anteriormente?
Com estas imagens vos deixo. Dão vontade de exclamar:
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– Além do azul de céu e de ria, tudo quanto a vista alcança é o verde do junco!!!!!

Imagens – Gentilmente cedidas pelo Comandante Bento
Ílhavo, 15 de Outubro de 2014
Ana Maria Lopes
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sábado, 11 de Outubro de 2014

Lugre com motor Luiza Ribau

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Alguns posts vão ficando em banho-maria durante largos tempos. Outros se lhes adiantam. Afazeres…prioridades…interesses…razões várias.
Com o aproximar do fim do ano, temos estado a tentar arrumar a casa para ver o que anda por aqui «a boiar» e que terá ainda cabimento. No Verão, a sedução da ria, das regatas, das romarias lagunares; hoje, voltemos ao mar, à dita Faina Maior que tem sempre que contar, tal qual a Nau Catrineta.
Sempre as imagens…São, sobretudo imagens apavorantes, não divulgadas, que me fizeram, articular a história de vida, de 20 anos, do Luiza Ribau.
Segundo O Ilhavense da época, do primeiro de Abril de 1953, foi lançado à água, em 16 de Março, na Gafanha da Nazaré, o lugre-motor Luiza Ribau, entregue por João Bolais Mónica, à Sociedade Gafanhense Limitada, Ílhavo.
 
Embandeirado em arco, ainda na carreira

Depois de ter provado as águas lagunares

Esta unidade foi o último lugre-motor de 4 mastros, construído para a Faina Maior.

Características principais: – 52 metros de comprimento, 10,90 de boca e 5,46 de pontal. Deslocava 712 toneladas brutas, com uma capacidade de pesca calculada em 13.500 quintais.
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Inaugurou-o como capitão, o ilhavense Francisco Fernandes Mano (n. em 1904), que o comandou até
1957, voltando a ele, de novo, na viagem de 1966.
Capitanearam-no, também, de 1958 a 1960, em 1965 e de 1970 a 72, Manuel Maria Branco Pata (n. em 1922), natural da Gafanha da Nazaré, Ílhavo, de 1967 a 1969, Orlando Brandão Vidal, (n. em 1927), ilhavense por matrimónio, ambos falecidos, e em 1973, Fernando Paulo Rodrigues Carrancho (n. em 1937), homem da Bairrada, oriundo de uma família de marítimos.
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Em Setembro de 1958, quando em rota da Groenlândia para a Terra Nova, suportou efeitos de mar provocados pelo violento ciclone Hélène, que acabou por lhe desfazer a ponte de comando, ficando com dificuldade de governo. Valeu-lhe o navio-motor Vila do Conde, do Porto, que o comboiou até demandar o porto de São João da Terra Nova, onde lhe foram feitas reparações e instalada uma casa do leme provisória, tendo chegado a Aveiro com um mau aspecto.
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Nada mais de muito especial para contar - depois de 1958, a rotina muito sofrida de sempre.
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Na sua última viagem (1973), em que naufragou, o seu capitão, Fernando Paulo Rodrigues Carrancho à época já  há 15 anos nestas andanças, conheceu o duro ofício, sem ignorar os seus riscos, até, porque já naufragara em Agosto de 1968, no Adélia Maria.
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Em Virgin Rocks, com um carregamento de 7.100 quintais, numa madrugada de Agosto, que parecia igual a tantas outras, quando se procedia à operação do arriar de botes, recorda ele, numa entrevista, uma voz dava a dimensão do inevitável – fogo a bordo, no paiol dos apetrechos de pesca!
Suspendeu-se o arriar dos dóris e tudo se fez para evitar a perda do navio.
Os esforços revelaram-se inúteis, já que as chamas alastraram velozmente. A alternativa era o abandono do navio, perante a extensão do sinistro. Os socorros foram imediatos, entre mau tempo com rajadas de 120 Km. Foram eles o Conceição Vilarinho, o S. Jorge, o Ilhavense, o Creoula e o Novos Mares.
Levados os tripulantes para bordo, foram transferidos para o Gil Eannes, que os conduziu a St. Jonh’s. Daí para Lisboa, foram transportados por dois aviões.
Nesse mesmo ano de 1973, igualmente naufragaram o Vila do Conde e o Rio Antuã.
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Para evidenciar a dimensão assustadora do fogo e as proporções aterradoras que atingiu, nada melhor que as imagens, já a cores, que, pelos anos 90, o saudoso Capitão Francisco Marques nos cedeu. Imaginamos que tenham sido registadas por ele próprio, visto que comandou o Creoula, na sua última viagem, tendo sido um dos navios que também colaborou, na assistência aos náufragos.
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Já há uns largos anos, Francisco Marques e eu achávamos as imagens que mostramos e outras similares, duma grandeza chocante e arrepiante. Era nossa intenção vir a realizar uma exposição fotográfica sobre naufrágios de bacalhoeiros o que não se realizou, por razões diversas. Outros poderão, eventualmente, aderir à ideia, apaixonadamente.
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O belo horrível!...
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Ílhavo, 11 de Outubro de 2014
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 7 de Outubro de 2014

Romaria da Nossa Senhora das Areias. 2014


São Jacinto, 5 de Outubro de 2014. Em plena romaria do primeiro fim-de-semana de Outubro, sentada no murete de uma fonte frente à Capela da Senhora das Areias, alinhavo estas linhas, antes que a memória me atraiçoe. Além de tudo, tem mais sabor…
Com algum sacrifício, alvorei cedo, para, no «Pardilhoense», atravessar para S. Jacinto – percurso frente à entrada da Barra, sempre mágico e nostálgico.
Apesar de não ser perita em hagiologia – longe disso –, preocupei-me com a identificação correcta dos santos, nos seus andores, superlativamente decorados com alguns frutos e flores distintas: antúrios rosa, brancos, verdes, vermelhos, botões de rosa de cores diversas, gladíolos, esterlitzias, gerberas, malmequeres, verduras variadas, etc., etc., etc.
Depois da Eucaristia dominical festiva, na característica capela hexagonal (posteriormente ampliada), assisti à formatura da procissão, este ano com um percurso mais complexo, devido a obras na marginal.

 
A Banda dos Bombeiros Voluntários de Estarreja na sua musicalidade compassada, abria o cortejo eclesiástico, logo seguida, caso curioso, de uma miniatura do barco do mar N. S. das Areias, endeusada em andor. Recordaria as «companhas da arte», que laboraram em S. Jacinto no século XVIII, antes de se transferirem para a Costa Nova do Prado, após a abertura da Barra, em 1808.

 
O estralejar do foguetório anunciava a saída, indiciada por diversos estandartes, em chão pontilhado de plantas verdejantes e pétalas de rosa, que mostravam a rota da procissão, que tem sempre uma paragem obrigatória frente às «Portas de Armas» da Base Aérea Militar. Aí se dá o encontro entre as duas divindades – a Senhora do Ar, padroeira dos aerotransportados, vem saudar a Senhora das Areias, orago de S. Jacinto.

Senhora do Ar
 
Senhora das Areias

Ao mesmo tempo, enquanto anjinhos e santinhos «ao vivo» se divertiam à brava, brincando com os seus «bonecos/meninos», um sacerdote pregava o sermonário, numa varanda arredondada, enfeitada de colgaduras adamascadas, coloridas, no redondo que dá para a base militar e para a ria.

A saudação

Como romaria lagunar que é, o elemento água não podia faltar.
Uma simbólica largada de pombos homenageia o elemento ar, como meio ambiente libertador da terra, em direcção à independência cerúlea do céu. Vivas, palmas e chuviscos de pétalas de flores completaram a saudação, em ambiente religioso e tradicional.
Chamaram-me a atenção aquelas divindades que me são menos familiares – o S. Pedro Velho.
De grande chave na mão direita, será ele que nos abrirá a porta do céu?

S. Pedro Velho
 
 S. Miguel Arcanjo, com a balança justiceira, era suportado devotamente por militares.
 

S. Miguel Arcanjo

São Jacinto, pouco visto, segura ao colo a Senhora das Areias, tendo esta nos braços o Menino Jesus. Que paternalismo e que cruzamento de santidades…

São Jacinto

Depois de demorado almoço em restaurante da marginal, ao sabor de brisa suave, fizemos em grupo, uma incursão pela «ditas» tendas. De tudo se vendia, com ordem e organização – desde brinquedos, chapelaria, atoalhados, calçado, lingerie, até à doçaria tradicional, frutos secos, queijos e enchidos de toda a espécie.

Fumeiro Regional de Lamego

À tarde, no largo da capela, ressaltava um ambiente festivo tipicamente popular, animado por um conjunto com música ritmada, melodiosa e animada, que não nos estourava os tímpanos. Dava vontade de acompanhar o ritmo, enquanto escrevinhava o relato.

Outros «romeiros», entretanto, bebiam cerveja fresquinha ou uma ginjinha, enquanto saboreavam pão com chouriço ou pão na pedra. Novidade?

E o bailarico da praxe prolongava-se tarde adentro.

É que até o tempo pactuou com a romaria, que encerrou a «rota das festividades lagunares». Não esteve de excessos.

O sentimento religioso e a fé deste povo das areias reflecte-se como se mostrou no fervor presente nas procissões.
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Imagens da autora do blogue e do amigo J. Colaço (São Jacinto).
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S. Jacinto, 5 de Outubro de 2014
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Ana Maria Lopes
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