domingo, 14 de dezembro de 2014

Memórias «líquidas» de Ílhavo - II

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(Cont).
Retrocedamos um pouco no tempo.
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Ana Maria – Hoje, creio que é de tanta chuva, deu-me para os rios ou riachos, lavadeiras com tripeças. E identificar esta imagem, do tal arquivo de Ílhavo?
Atenção ao vestuário. O lenço na cabeça, com chapéu negro de aba estreita, mas voltada, diz-vos alguma coisa?
Etelvina Almeida – Gosto desta imagem. Contém muita informação.
Ana Maria – Isso é verdade...mas local? Época, aposto nos primeiros decénios do século XX, pelo traje. A roupa a corar, nos arbustos...
Ábio De Lápara – Esta sim! Não reconheço o chapéu. Os de que me lembro não tinham abas. Mas o "rio" tem exactamente a configuração geomorfológica e paisagística do Rio dos Pintos! Corre a meia encosta, contido pelo caminho de acesso. Para a direita o declive para as vessadas que percorriam o vale que desembocava na ponte de pedra da Malhada. As canas, as silvas, a sebe de louros, os velhos choupos ao longe... o tapume de madeira que vedava os acessos privados à levada... tudo aqui me cheira à minha infância. Por incrível que nos pareça hoje, este local situava-se na rua que, a partir da Avenida, hoje leva à Biblioteca Municipal. Lavava-se aqui toda a roupa da rua de Alqueidão. O alguidar de zinco e o cesto de verga mantiveram-se no mercado e a desempenhar as mesmas funções até aos anos 70.
Teresa Cruz Santos – Lembro-me bem das tripeças e da roupa a corar na vegetação envolvente, mas não na zona de Ílhavo. E desses chapéus não me lembro. Pela altura das saias, deve rondar os anos trinta, quarenta... Achei curioso não estarem todas vestidas de preto...
Ana Maria – Pelos vistos, gostaste, Ábio. Nota-se. Sei quais os chapéus a que te referes, em forma de queijo e com uma peninha. Mas, também havia estes. E outros mais rasinhos, onde as peixeiras colocavam as macolas. Grandes memórias, hein?
Ábio de Lápara – Este ribeiro corria a meia encosta, paralelo à rua José Estevão e à rua de Alqueidão. Nele terminavam todos os quintais das casas do lado sul dessas ruas. Sobre ele estão hoje os prédios da Avenida 25 de Abril, desde a Fontoura até ao CASCI, que foram exactamente construídos ao fundo daqueles quintais.
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O mar cansado, retirou-se. No final
Deixou ribeiros, ervas, ambiguidades...
Na ausência perene do seu sal,
Outras vidas nasceram nas vessadas.
Por entre finos mapas de canais
Construíram a cidade que eu amava.
As águas de cristal foram tapadas,
E não lavaram jamais,
Tudo o que a água lavava!
Do meu rio vão agora aquelas águas
Por onde o dia perdeu a claridade
E descem cantando as mágoas...
Nos subterrâneos vasos da cidade.
Céleres, correm p'rá Ria onde o sal
Lhes anula o doce e veste o ser.
Lamentam-se então, como um mortal,
Da dificuldade que tem... sobreviver.
Agora, que os becos estão à venda
E os velhos já se foram dos carris
Restam-me lembranças das contendas.
De um tempo amargo, mas feliz...
E os silêncios não me enganam
Nem nos becos, a tarde calma,
Porque esses silêncios profanam
O alegre chilreio da minha alma...
Tudo parece pacífico… talvez até mesmo doce:
Iluminaram a Praça e floriu o Jardim...
À primeira vista... Pois isso é, como se fosse
Um sobressalto negro dentro de mim.

Maria Dolores – Aqui será a azenha aonde vivia o senhor Alpoim?
Paulo Silva Flautas – O ribeiro é sempre o mesmo! Aqui creio ser onde está agora o Pingo Doce!
João José – Penso bem que era o do Casal que falei e mais ou menos onde hoje está o lago com os patos e onde a criada da minha casa lavava a roupa com a tripeça.
A azenha era na esquina da rua do Casal encostada à casa que mais tarde foi do Cap. José Rocha.
Carlos Maia – Este ribeiro e na Légua em frente ao pinhal seco.
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Há opiniões que divergem, é natural:
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Ana Maria – Cada um fica no que lhe parece. Obrigada pelo esforço, pelas hipóteses, pelas memórias. Essas foram mesmo relatadas de uma forma interessante, bem como as vivências de época, em formato «saudosista» – as lavadeiras, os seus trajares, os riachos, as ribeiras, as bacias, as canastras e as tripeças, essas, peças fundamentais. À custa destas duas longínquas imagens, «navegámos» no tempo, prazerosamente.
Paulo Morgado – Claro que identificar correctamente o local é muito difícil. No entanto será num dos locais existentes ao longo do ribeiro que vinha (vem) da Presa/Légua e que passava pelo Casal a que seguia ao longo do Jardim e ia (vai) desaguar na Malhada (passa pela ponte de grés, dita romana). Conheci locais destes, junto ao Pinhal seco, num sítio que conhecíamos por Brejo, onde hoje está o acesso do Casal para o Continente, outro junto à escola primária de Cimo de Vila, e outro ainda no "Ti Alpoim", onde está a urbanização da Plenicoop. Bem, e mais terão existido anteriormente. Alguns eram mesmo particulares aproveitando a água da levada que alimentava as diversas azenhas que existiam.
Maria Dolores – Também conheci o rio na Avenida aonde havia a lixeira. Ai ainda era pequena. A minha mãe lavava a roupa.
Júlia Sardo – As lavadeiras incansáveis.
Senos Fonseca – Este, creio ser do fio de água que corria abaixo de Alqueidão.
Maria do Rosário Celestino – Como adoro saber tudo isto.
Vieira da Silva – Ainda me lembro de ver uma parte deste riacho de que nos fala o nosso Amigo Ábio De Lápara ao fundo do quintal da casa do meu Tio João Portugal e da minha Tia Júlia Nunes (Pais dos meus Primos António Alcides e José Paulo que foram ainda muito novos para os USA e que o Ábio De Lápara provavelmente conheceu). A casa tinha a frente virada para a Rua José Estêvão, quase em frente da casa do Sr. Madail (que hoje pertence ao Casci) e o quintal terminava num riacho.
Não percebo nada de Arquitectura, mas penso muitas vezes como seria hoje a cidade de Ílhavo se, em vez de "encobrirem" todos os fios de água os tivessem transformado em canais, não necessariamente navegáveis, que (não sei se estou a dizer disparates...) provavelmente ligariam esta zona da actual Avenida 25 de Abril às águas do esteiro da Malhada tornando-se um dos motivos de atracção turística.
Ana Maria – Entrou tarde, mas ainda veio a tempo, para participar. Obrigada, por isso. Mais um testemunho e uma hipótese...
Ábio de Lápara – Conheci muito bem essa casa e era muito amigo deles. As nossas mães eram amigas, e andamos todos na creche da Sra. Henriqueta, que depois foi da Sra. Modesta. A Henriqueta era da família deles e tinha um filho, o António, bem mais velho do que nós, mas que adorávamos pelo que nos apoiava nas brincadeiras. A partida deles para a América causou-me grande dor e nunca a entendi. Não tinham dificuldades económicas, estudavam, e com 15 anos deixaram a mãe e os amigos sem razão aparente, para irem à aventura americana. O António Alcides foi incorporado no exército e veio parar a Berlim da Guerra Fria. Teve sorte. Passado pouco tempo podia ter sido a da Coreia. Correspondemo-nos durante alguns anos, até que a vida nos afastou.
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Mostraram-se retratos, evocaram-se amizades ausentes.
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Ana Maria – Como um simples riacho arrasta tantas recordações, tantas memórias!... «Muita água passou ou passa por baixo das pontes!» - diz-se, não é?
Ábio de Lápara – As palavras e as recordações são como as cerejas...
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Brinquei com palavras? Brinquei. Alinhei frases? Alinhei. Obrigada, Ilhavenses e amigos à conversa, que me forneceram matéria-prima para um texto narrativo, com excertos informativos e poéticos, que compus. I like. Gooooooooooosto muito.
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Imagens – Clichés de João Teles
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Ílhavo, 14 de Dezembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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domingo, 7 de dezembro de 2014

Memórias «líquidas» de Ílhavo - I

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Trazia no baú virtual duas imagens, já há uns anos, conseguidas num arquivo confiável, cá em Ílhavo.
Vi-as, apreciei-as, sorvi-as, mexi-lhes, toquei-as, em papel. Dá-me mesmo mais prazer. O virtual tem os seus encantos, benesses, modernidades, mas o tradicional, neste caso, a imagem em papel tem outra sedução.
Para dissertar sobre elas, no Marintimidades, tinha a consciência de que não sabia o suficiente e que tinha vivido uma infância mais singela, mais caseira. Teria amigos/ que, uns anitos mais velhos/as, passavam e repassavam pelos tais riachos e brincavam frequentemente por esses ribeiros e regueiros, em que a vila de Ílhavo era fértil, todos com a mesma origem.
Lembro-me muito bem de alguns lavadouros, sobretudo do da Fontoura, por onde passava com frequência e há muito menos tempo, de um existente no fim de Alqueidão, para quem levava o destino da Malhada.
Melhor ainda me recordo termos tido, em tempos idos, uma lavadeira, que levava a roupa, semanalmente, que, sem saber ler nem escrever, se entendia com o rol da roupa, com toda aquela sinalética habitual, não trocando sequer uma peça. E não estava marcada… A memória necessita ser exercitada…Grandes mulheres foram as lavadeiras, elas, as verdadeiras artistas destes cenários.
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Lavadouro da Fontoura. 1940

Mas, as ditas imagens forneciam muitas informações e suscitavam muitas memórias.
O seu destino foi, pois, o Facebook, que uns renegam e outros muito apreciam.
Precisavam de ser comentadas por muitas mentes e foi o que conseguimos, através de várias participações, reminiscências e comentários, por vezes de maneira saudosista e enlevada.
Portanto, agradeço sinceramente todos os «likes» e todas as simples manifestações de apreço. Atrevo-me a editar, já que o Facebook é público, as opiniões mais informativas e/ou mais poéticas. Cada um sente como sente e escreve como escreve.
Será uma recolha escrita de «nós», ilhavenses. Vamos a ver se tecnicamente, atino com isto. Foi um desafio posto a mim própria, em dia pardacento, morrinhento e chuvoso, de poucos entreténs e atavios. Tentando encadeá-las o melhor possível! O que nem sempre consegui na íntegra, porque foram partilhadas e suscitaram comentários noutros locais. Seria preciso entrar no âmago facebookiano. Aprende-se sempre…

Vamos a isso.



Optei pela de aspecto menos antigo, para este primeiro exercício de pesquisa e composição.
 
Ana Maria A propósito de um dos antigos Lavadouros de Ílhavo, tenho aqui uma imagem de lavadeiras, no rio, com as suas tripeças, não datada. Alguém me consegue dar umas dicas?
Alguém conseguirá identificar esta imagem? Local e data possíveis?
Maria Dolores – Ui! Isto é muito antigo!
Etelvina Almeida – Belo registo... Deve ser muito antiga.
Ana Maria É e é de cá. Coloquei-a a ver se alguém conseguia identificá-la.
Carlos Oliveira – Já estive a olhar para a excelente fotografia alguns minutos. Não consigo identificar o local. Mas posso especular com base no caudal de água da levada e a geografia do terreno. Ou é na vala Madriz ou vala real junto ao Soalhal ou é junto à Malhada, caso seja do lado de Ílhavo. Se for do lado das Gafanhas não tenho a menor ideia de onde seja. Mas pode muito bem ser do lado das Gafanhas pois consigo identificar as árvores como sendo pinheiros e austrálias, arvores estas que predominam sobretudo nos areais.
Ábio de Lápara Não tenho memória deste trecho. A presença da Ria com aquela dimensão e o rio com aquele caudal, desloca, na minha opinião, a imagem para norte, já fora do nosso concelho. A época em que foi obtida, ronda a viragem do século XIX para o XX. Como o tema é a tripeça, alguém sabe o porquê dos 3 pés?
Paulo Silva Flautas Se não é aqui parece!
Quanto ao caudal, não sabemos o caudal da época nem sequer qual era a época, mas o caudal supostamente era muito maior no passado!

 
Vista aérea – Aponta a via da Malhada
 
Ana Maria Obrigada pelas respostas. Não posso concordar nem discordar, porque não sei. Ábio, explica lá a razão dos 3 pés. Pelo aspecto e vestuário, aposto também na data que propões. Mais início do século XX.
Senos Fonseca – Eu olhei vezes sem conta para esta foto. Estou convencido que foi a que antecedeu o lavadouro ao fundo de Alqueidão, abaixo da Fonte dos Amores. Não vejo que outro local possa ser. Esta fotografia anda por várias mãos, e nunca se adiantou muito.
Ana Maria Somos todos muito novos, pelos vistos, mas «postei» uma outra, em que as lavadeiras têm lenços e chapéus. Procura lá e opina...
João José Lavadouros em Ílhavo só me lembro do da Fontoura e o do Casal.
Ana Maria Lembro-me de um lavadouro, em Ílhavo, no final da rua de Alqueidão, já ali mesmo pertinho da Malhada.
Ábio de Lápara – Percorri a memória dos vales que desaguam na ria ao longo do nosso concelho. A começar pelo que fica a nascente da Coutada. Terminava nas marinhas e o fundo paisagístico poderia ser o da foto. O vale a poente da Coutada não tem bacia para aquele caudal. No verão servia para fazermos "poisos" para armar as "palmas" de caçar os pardais sequiosos do trigo comido nas searas. Os locais mais notáveis eram o poiso do Mastrago e o da Maluca. O vale seguinte é o que atravessa Ílhavo, que desce da Légua, percorrido por vários ribeiros onde, aí sim, se lavava muita roupa ao longo dos seus cursos. Mas duvido que em algum desses pontos o fundo paisagístico da foto pudesse ser aquele. Depois só o vale do Soalhal, que desce de Vale de Ílhavo, poderia corresponder àquela imagem. Fiquemos pois no que nos parece porque a investigação está cara!
Já agora, respondendo à pergunta lá de trás, as tripeças tinham 3 pés, porque 4 eram demais, e dois eram insuficientes! Na verdade, 4 pés no fundo irregular do ribeiro deixariam a tábua sempre instável com um pé mal assente. Três nunca falha!!!
Maria Sílvia Eu «Inda» agora aqui cheguei, e gostei do que vi e li. O tema reportou-me à minha meninice, recordando um ribeiro que deslizava, suavemente, ao longo de toda a Avenida 25 de Abril. Quem se lembra desse tempo sem o Atlântico-Cine-Teatro, sem a Garagem Vizinhos & Vieira, enfim, em toda a extensão da Avenida corria o «rio», onde, desde o Colégio até onde hoje se encontra a Farmácia Moderna, as tripeças abundavam, (sem que suas donas receassem o seu furto) e, até ainda lembro, do sabão nelas deixado. A sua preocupação residia em que, esta presença, lhes garantisse o lugar para a tarefa do dia seguinte. Frequentando a minha 1.ª classe, por aqui passava todos os dias e, embora pequenina, reparava na resistência destas pobres mulheres quando, de Inverno, em águas tão geladas, ali as via metidas! Porém, quando de regresso a casa à hora do almoço, ao atravessar o Jardim Henriqueta Maia, já ouvia o som de suas timbradas vozes cantando, ora, triste, ora alegremente, o Melhor de AMÁLIA!!! Tempos idos em que, de saudade só me trazem a alegria da minha infância! Era triste a vida das lavadeiras, e elas bem a deixavam estampada nos lindos mas tristes fados que, tantas vezes cantavam!......
Ana Maria Observou, realmente. Ficou-lhe gravado todo esse processo. Obrigada, cara Sílvia. Memórias que não esquecem!
Maria do Rosário Celestino – Adorei o seu relato, Maria Sílvia! Desconhecia a existência de tal ribeiro e de todos os outros pormenores que abordou! Muito obrigada, pela informação, que me deu! Fico encantada a ouvir todos estes relatos do passado!
João Simões Xis Maria Sílvia, pois nesse tempo onde fica a garagem dos Vizinhos e, em frente, onde está a Galera e ainda na Travessa da Gruta eram sítios onde lavavam as roupas pois passei parte da minha meninice por esses lados, enquanto a minha mãe lavava a tal dita roupa para ganhar alguns patacos.
Amélia Marabuto – No Rio Pereira também havia um lugar onde se lavava a roupa. E bem me lembro de ver as pessoas com as bacias de zinco à cabeça com a roupa lavada! Também me lembro de ouvir dizer que iam lá lavar as tripas dos porcos, mortos pelo Sr. Ismael! Tempos idos...

Continuarei, relativamente à outra imagem, se tiverem gostado.
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(Cont.)
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Ílhavo, 7 de Dezembro de 2014
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Ana Maria Lopes
 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Traineira «Praia da Atalaia» naufraga na Barra de Aveiro


Fez exactamente ontem, 24 de Novembro, 51 anos, que aconteceu esta tragédia.
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A traineira Praia da Atalaia naufragou na barra de Aveiro, ao sair para a pesca, a 24 de Novembro de 1963. Teriam perecido, lamentavelmente, mais de 30 pescadores (segundo o jornal Comércio do Porto de 25 de Novembro de 1963).
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Era uma traineira utilizada na pesca da sardinha com rede de cerco, pertencente à praça de Peniche, construída, em 1954, por Asdrúbal Simão do Carmo para Aníbal Correia e outro sócio.
Media, de comprimento, fora a fora (17.68, entre perpendiculares), 21. 05 metros, boca,  5.25  e pontal,  2.01 m.
A arqueação bruta era de 45.82 toneladas e a líquida, de 12.30.
A propulsão era assegurada por um motor diesel Burmeister & Wain/Alpha, de 180 Hp.

Praia da Atalaia

Cerca das 16 horas, largou do seu ancoradouro, na lota, no Canal das Pirâmides, para demandar a barra, não obstante o sinal de mar bravo estar içado.
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A Praia da Atalaia navegou até à cabeça do molhe norte, tendo-se o mestre apercebido que o mar estava muito agitado. Por insistência da companha, decidiu voltar ao porto, tendo dado ordens ao maquinista para reduzir a velocidade. Quando a embarcação estava atravessada à ondulação para inverter o rumo, uma vaga alterosa atinge-a com violência por estibordo, rebentando contra o costado.
Antes que a Praia da Atalaia conseguisse safar-se da posição, uma segunda vaga, ainda mais forte, rebenta-lhe em cima, voltando-a e partindo-a ao meio.
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Entretanto, a traineira Josefa Vilarinho, que navegava ainda no canal da barra, transmitiu para o posto Rádio Telegráfico da Mútua de Pesca, desta cidade, o que havia acontecido. Imediatamente, e por intermédio do mesmo posto, foi chamada a intervenção das duas corporações de Bombeiros Voluntários de Aveiro, assim como a tripulação do barco salva-vidas Jaime Afreixo (1948-2002) dos Socorros a Náufragos. Este barco de socorro, embora tivesse sido lançado à água logo que recebeu aquela comunicação, não pode romper com a ondulação violenta do mar, regressando ao seu ancoradouro.
Outras embarcações idênticas mantiveram-se, ainda por largo tempo, com os seus projectores para as águas, na esperança de poderem recolher alguns sobreviventes que viessem arrastados pela corrente para dentro da barra. Alguns tripulantes daquelas embarcações conseguiram saltar para terra, para, tentarem socorrer alguns sobreviventes no areal da praia de S. Jacinto, para onde a Praia da Atalaia havia sido arrastada de quilha para o ar.

Até à hora em que o jornal noticia – 21,30 h –, o único sobrevivente era o pescador Pedro da Conceição Júnior, natural de Lagos, que, bom nadador e de forte compleição física, conseguiu manter-se à superfície, agarrado a uma bóia, tendo sido lançado para cima dos blocos do molhe. Na esperança de auxiliar alguns dos camaradas que pudessem dar à costa, por ali foi ficando, até que foi levado para a Base Aérea de S. Jacinto, onde recebeu os primeiros socorros.
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A mesma fonte fornece a constituição da tripulação, pertencendo à nossa zona:
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Aveiro, motorista Francisco Ferreira Cordeiro, ajudante de motorista, José Alberto Marques Cordeiro e pescadores João Simões Basílio, Carlos Alberto Ribeiro Alcaide, Manuel Matos, Francisco da Graça Basílio, Fernando dos Santos, Celestino Fernando Pataca, José Salvador da Costa, Manuel de Oliveira Pinto, Manuel Salgado, Manuel dos Santos, Manuel Fernandes Teixeira Calisto, Augusto dos Santos Neto e Manuel Maria da Silva, também de Aveiro.

Gafanhas, Emílio da Silva Gramata, Hermínio da Silva Caçoilo, Armindo dos Santos, António Faustino Pereira da Rocha, Manuel Evangelista dos Santos Cadete, José Maria da Rocha Sardo Cravo, e Moisés Vidreiro Matos.

Ílhavo, Manuel Domingos Magano.
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Segundo a mesma fonte, Comércio do Porto, mas de 26.11.1963, sabe-se de acordo com informação oficial, que o número exacto de homens a bordo que pereceram no naufrágio é de vinte e nove porquanto um, Pedro da Conceição Guerreiro, como referimos, conseguiu salvar-se e oito não chegaram a embarcar.
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A traineira afundada está quase totalmente desmantelada. 

Do jornal Comércio do Porto, 26.11.1963

 
Há, portanto, algumas disparidades entre o número de náufragos, ao compararmos os dois jornais, de datas subsequentes.
Os barcos da frota de pesca, ancorados no porto de Aveiro, hastearam as suas bandeiras a meia adriça em sinal de luto, tendo, logo de madrugada, iniciado as pesquisas ao longo da costa do litoral aveirense para a possível recolha de corpos dos desventurados pescadores que, porventura, viessem a ser arrojados às praias.
De manhã, foi recolhido e levado para terra, na praia da Torreira, o cadáver do pescador João Simões Basílio, casado, de 64 anos, da Gafanha da Encarnação.
 A tragédia, originada, ao que parece, por um acto de menos prudência, causou a maior consternação na cidade e arredores.
O Sr. Capitão do porto, Agostinho Simões Lopes, esteve em S. Jacinto, a fim de se inteirar das condições em que se deu o trágico acontecimento.
Chegou a Aveiro o Sr. Guilherme de Sousa Otero Salgado, presidente do Grémio e Mútua dos Armadores da Pesca da Sardinha, que representará nos funerais das vítimas do naufrágio, o Contra-almirante Henrique Tenreiro e Comandante Sá Linhares.
O Sr. Capitão do porto de Aveiro representará, nos funerais, o Sr. Presidente da República, e, também, o Sr. Ministro da Marinha. Os funerais serão custeados inteiramente pelo cofre da Mútua dos Armadores da Pesca da Sardinha, não bastando isso, de forma alguma, para superar a falta que os saudosos pescadores, em plena actividade, fizeram às suas famílias, ao tentarem arrancar das águas, o seu sustento, com amor e carinho.
A nossa barra tem sido palco, lamentavelmente, ao longo dos anos, de muitos acidentes e naufrágios. Segundo testemunham os entendidos, não é uma barra fácil.
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Imagem – Gentil oferta do amigo Reinaldo Delgado
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Ílhavo, 25 de Novembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Apresentação da «Terras de Antuã», na Câmara de Estarreja

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Anteontem, sábado, por ocasião da comemoração do 495º aniversário da outorga do Foral à vila de Antuã, por D. Manuel, em 15 de Novembro de 1519, foi apresentado o número oito da revista Terras de Antuã – Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja, mais uma vez com uma assistência numerosa, no belíssimo Salão Nobre dos Paços do Concelho, numa sessão presidida pelo Presidente da Câmara Municipal de Estarreja, Diamantino Sabina.

Convite

Este oitavo volume é constituído por 14 artigos de dezasseis autores, cujas temáticas vão desde a arqueologia, passando pela arte popular, arte sacra, biografia, conflitos sociais, documentação, construção naval, emigração, entre outras.
Para nós foi gratificante participarmos com o artigo sobre o convívio que fomos tendo desde 1994, com o prestigiado Mestre António Esteves, de Pardilhó, construtor de machado e enxó, ainda em laboração. O artigo parte do Homem para a obra, obra essa que é evidente na Sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo e que culminou com a construção da ancestral bateira ílhava. Memórias recentes que, depressa, se tornarão longínquas.

Alguns dos autores participantes na Revista
Desta vez, a capa da Terras de Antuã e o convite apresentam a casa Arte Nova, de Francisco Maria Simões, no Largo da Igreja de Salreu, cujo arquitecto foi Francisco Augusto da Silva Rocha (1864-1957).  
Foi, pois, um prazer de colaborar com a revista, sabiamente dirigida, em estreia, pela Dra. Rosa Maria Rodrigues, ilustre Conservadora da Casa-Museu Egas Moniz.
 
 
Fez 140 anos que nasceu Egas Moniz (1874-2014) e todo o ambiente que se respirava na CME era dedicado ao nosso Prémio Nobel de Medicina, em Outubro de 1949, pelo qual nutrimos um carinho muito especial.
Depois de termos visitado, na Casa da Cultura de Estarreja, uma exposição de pintura «Memórias Resgatadas» de Gina Marrinhas, regressámos com o espírito mais leve, mais arejado e com novos projectos em mente. Talvez venham a ter realização. Quem sabe!... É preciso, sobretudo, sonhar…para, mais tarde, executar.
À noite, folheámos a revista, debruçando-nos sobre alguns dos artigos que mais nos interessaram – As descobertas de Egas Moniz e o seu contexto histórico, da autoria de seus sobrinhos netos e Francisco Augusto da Silva Rocha e a casa de Francisco Maria Simões – Um novo padrão de beleza, pela pena de Maria João Fernandes, crítica de arte e bisneta do arquitecto Silva Rocha.
Ainda está por reconhecer o justo mérito ao Arquitecto, em Aveiro, cuja casa da Família Pessoa, no Rossio, hoje, Museu de Arte Nova, de seu projecto, recebeu o seu nome.
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Fotografias de Etelvina Almeida
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Ílhavo, 17 de Novembro de 2014
Ana Maria Lopes

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Modelo de caravela redonda de Marques da Silva

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Pelo 1º de Novembro, em que Marques da Silva se deslocou à Gafanha da Nazaré, trouxe-me esta surpresa para abrilhantar o Marintimidades – modelo da caravela redonda e texto alusivo. Ei-los:
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Quando terminei o meu modelo da caravela latina de três mastros, logo me surgiu a vontade de construir também uma réplica da caravela redonda, que era sem dúvida um complemento para o estudo que eu vinha desenvolvendo acerca deste tipo de navios, dos quais tanto se fala.

Assim, comecei por procurar os desenhos que havia no Museu de Marinha e fazer uma atenta observação do belíssimo modelo que lá se encontra.
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A pesquisa na Internet pouco adiantou ao que já sabíamos.
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Agora só faltava deitar mãos à obra.
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A caravela redonda ou de armada foi uma embarcação que começou a ser conhecida em Portugal, fazendo parte dos navios da época dos Descobrimentos, após o regresso de Bartolomeu Dias da sua notável viagem em que conseguira dobrar a ponta Sul do continente africano.

O simpático atelier de Marques da Silva

Sabe-se que em Castela, já era normal aparecerem caravelas com um mastro de pano redondo, arvorado a vante, mas essa alteração não foi muito utilizada pelos navegadores portugueses. Possivelmente, a nortada que é persistente na nossa costa Oeste, não aconselhava muito essa aplicação, que só teria vantagem nas viagens para Sul.
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Depois de ter sido conhecido e estudado o regime geral de ventos de todo o Oceano Atlântico, ter-se-á verificado, que para as viagens que então começávamos a efectuar, seria útil que as nossas caravelas, tivessem melhores condições, para navegar com ventos mais largos.
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Assim se justifica o aparecimento deste novo navio, que logo se apresentou com vantagem para ser utilizado nas armadas de defesa das costas, não só no continente, mas também nas ilhas atlânticas e nos mares do Oriente, onde começava a nossa ocupação.
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Da sua observação se verifica que não se trata de uma simples alteração do plano vélico. É um navio construído de novo para aproveitar o que tinha de bom a velha caravela acrescentando-lhe o que se entendeu vantajoso para fazer melhores viagens e em outros mares. Melhor aproveitamento do vento, mais espaço para colocação de armamento e mais casa para resguardo de maior número de tripulantes. 

Pormenor da popa e massame

Encontra-se referência à caravela de armada nos séculos XV, XVI e XVII, caindo depois em desuso.
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Construí o meu modelo desta caravela, seguindo, como disse, o plano do Museu de Marinha e observando os pormenores do modelo lá exposto.

Aspecto geral do modelo

Utilizei madeira, fio de cobre, pano e linha de algodão. Na pintura apliquei cuprinol, bondex e tinta preta.

O velame, obra da «artesã» habitual

Tal como na caravela latina, utilizei a escala de 1/75.
Este navio teria assim na realidade, como dimensões aproximadas:
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Comprimento ………………………... ± 30,00 metros
Boca ……………………………………..± 9,00 metros
Pontal …………………………………. ± 4,50 metros

Lisboa, 28 de Setembro de 2014
António Marques da Silva
 
Ílhavo, 14 de Novembro de 2014
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AML
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sábado, 8 de novembro de 2014

Uma «Costa Nova» de Eduarda Lapa, no MMI

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Um óleo Costa Nova saído da paleta de Eduarda Lapa valoriza o espólio pictórico do Museu Marítimo de Ílhavo.
Pintora contemporânea, distinguiu-se, essencialmente, como intérprete de flores, mas é a faceta de pintora da nossa ria que, sobretudo, me atrai.
Recordo-me, quando criança, de a ver pintar, da varanda da minha casa na Costa-Nova, protegida do sol, pelo seu chapeuzinho branco, de pano, de olhos fixos na ria de então, bem diferente da de hoje: grande variedade de barcos em que os moliceiros eram os senhores da laguna e dos seus quadros. Memórias da juventude…
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A 21 de Outubro, em que o edifício do Museu de Ílhavo cumpriu 13 anos de renovação, a CMI enriqueceu a colecção de pintura, com a entrada de um quadro Costa Nova de Eduarda Lapa.
A sua ida a leilão na leiloeira Veritas, Lisboa, foi-nos dada a conhecer por Zé Sacramento, galerista conhecido da «nossa praça». Da licitação se encarregou, tendo a AMI (Associação dos Amigos do Museu) contribuído para a sua compra com uma forte participação.
A obra, pintura a óleo, empastelado, sobre platex, de 33 por 43.5 cm, está assinada e não datada, o que é frequente, na autora.
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É uma romântica Costa Nova, pincelada com aquele timbre naturalista de quem pinta o que vê, dando a artista, natural relevo ao que mais a toca.
Temos elementos de sobra que nos permitem com alguma segurança, arriscar uma data para o óleo em causa.
A pintora estaria posicionada um pouco a sul da lingueta frente ao antigo mercado (1º plano), donde observava com pormenor, a 2ª mota que houve na praia, de 1932. Por outro lado, não existia ainda o edifício da Mota, com a sua pala característica, construído pela JARBA, em 1942. Por outro lado, também não há um apontamento da famosa esplanada, cuja construção andou ali por 1934/35.
Todas estas datações bem conhecidas levam-nos a situar o óleo, com segurança, entre 1932 e 35.
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Que imortalizou Eduarda Lapa? A ria junto à estrada, a sul, a mota com o seu vaivém intenso de passageiros, peixeiras, para as duas barcas de passage, acostadas à rampa, a ria a lamber a estrada, a norte, num contacto directo e poético, com o casario riscado e não riscado, de frente para a água. Que belo espectáculo!

 
Costa Nova de Eduarda Lapa

Era o quadro que faltava à colecção do MMI. De posse de alguns simpáticos registos de autores regionais, do princípio do século XX, sem esquecer Cândido Teles, com dois óleos de Fausto Sampaio, um de 1933, o casario sobre a ria, noutra perspectiva e uma neblina majestosa, sobre a ria, de 1939, o nome e a arte de Eduarda Lapa vieram completar a colecção de registos da nossa praia e da nossa ria.

Apontamentos biográficos:
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Eduarda Lapa nasceu em Trancoso em 1895. Algum tempo depois foi viver para a capital, onde a sua veia artística desabrochou. Foi discípula de Emília dos Santos Braga, que a introduziu no naturalismo, ao integrá-la nos estudos ao «ar livre».
A «embaixatriz da cor», como foi chamada, passou a viver em Paris, a partir de 1930, onde conviveu com os melhores artistas entre os quais se contavam a pintora brasileira Helena Pereira da Silva, Waldemar da Costa, Arpad Szènes e Maria Helena Vieira da Silva, colega do atelier de pintura, em Lisboa.
Detentora de uma capacidade para revelar e demonstrar quer o ritmo, quer a harmonia das coisas, a pintora especializou-se em naturezas-mortas e principalmente em flores, sendo considerada, quer pelos colegas quer pelos críticos, uma das melhores neste género, «a grande pintora de flores do nosso país»
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Porém, Eduarda Lapa não se dedicou só às flores. A sua obra apresenta, também com êxito, paisagens rústicas, magníficas marinhas, em especial trechos ribeirinhos. A zona de Aveiro e da Praia da Areia Branca proporcionavam-lhe os motivos referentes às gentes do mar, como os pescadores ou os barcos moliceiros da ria de Aveiro, as praias da Torreira, da Costa Nova e da Nazaré.

Foi uma das pintoras mais apreciadas pela crítica da época, juntamente com Alda Machado Santos, a aguarelista Raquel Roque Gameiro, Maria de Lurdes Mello e Castro, Adelaide Lima Cruz e Clementina Carneiro de Moura.
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Eduarda Lapa foi sócia efectiva da Sociedade Nacional de Belas Artes, tendo sido a primeira mulher a fazer parte da Direcção desta Sociedade.
Durante mais de vinte e cinco anos, Eduarda Lapa orientou cursos de desenho e pintura, tendo como objectivo desenvolver as capacidades das suas alunas, despertando-as para o conhecimento da beleza, da forma e da cor
A sua obra encontra-se representada em Câmaras Municipais, em diversos Museus e em outras instituições de arte. Está igualmente representada em colecções estrangeiras.
Faleceu em Setembro de 1976, em Lisboa, na sua residência, onde foi descerrada uma lápide alusiva, pela Câmara Municipal, que atribuiu também, o seu nome, a uma rua.

Ílhavo, 8 de Novembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A dureza da profissão de sargaceira

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Há dias, num Seminário que houve no MMI sobre Espaço e Paisagem no Cinema Português, atraiu-me, especialmente, o documentário «A Mãe e O Mar», realizado por Gonçalo Tocha, filmado na praia de Vila Chã, em Vila do Conde.

Cartaz

Conta a história das «mulheres-arrais», ou «pescadeiras», tidas como caso único em todo o mundo. Aqui, são representadas por Glória Ramos Costa de 60 anos de idade, a única mulher que, depois de tantos anos e tantas adversidades, ainda se atreve a enfrentar o mar. Através de entrevistas e várias conversas onde se recorda o passado, Tocha revela como estas mulheres corajosas desafiaram a tradição e obtiveram licenças de pesca, dedicando as suas vidas à pesca, uma profissão predominantemente masculina, e ao amor pelo mar.
Gostei de ver a sua participação na pesca com uma coragem inabalável, mas tocou-me mais a participação de Glória na apanha do argaço, como última sargaceira de Vila Chã.
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Passo a explicar. Por ocasião de várias visitas sistemáticas ao litoral português, tive oportunidade de observar algo desta actividade, embora não tenha constituído objecto de meu estudo. Mas, os registos fixaram momentos… E, agora, 30 anos passados, vieram ao de cima…
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Por outro lado, também existe uma semelhança entre o argaço do mar nortenho e o moliço da laguna de Aveiro. Ambos em vias de extinção, senão mesmo extintos e com finalidades idênticas.
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Não vou sacrificar os leitores amigos aos muitos pormenores que a apanha do sargaço envolvia, em diversas praias nortenhas, até meados do século XX.
A recolha das algas que andavam soltas na água ou presas aos rochedos submersos, longe da praia, era feita em embarcações – barcos tipo poveiro, masseiras ou jangadas – conforme os diversos locais, utilizando, para isso, o sargaceiro (geralmente, homem), ferramentas específicas: foicinhas, croques e ganchorras, espécie de ancinhos, de cabo muito comprido, com duas fieiras de dentes de diferentes tamanhos, com um ângulo de 90º, entre eles.
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Já não cheguei a tempo de observar este tipo de apanha.
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Aquela que ainda me foi dado analisar e que me seduziu e marcou até hoje, foi a apanha feita a pé, normalmente por mulheres, que, com grande esforço, entravam na água, vestidas, até à cinta ou ao peito, arrastando as algas que boiavam, junto à praia, com o auxílio da graveta (ancinho mais pequeno e de cabo mais curto) e do ganha-pão, uma espécie de saco de rede entralhado num arco de madeira, munido de um cabo para o manejar.
De madrugada, com a roupa molhada, fria, colada ao corpo, estas corajosas e esforçadas mulheres subiam areal acima, com o ganha-pão carregado, às costas, quantas vezes ainda sob algum nevoeiro, como cheguei a ver.
Para lhes facilitar o trabalho, duas mulheres serviam-se, com frequência, de uma espécie de padiola com dois braços de cada lado, a carrela, sobre a qual transportavam as algas colhidas até ao cimo do areal.
Idêntico à carrela, mas com duas pegas apenas e uma roda, uma espécie de carro, manejado por uma só mulher, usava-se, para o mesmo efeito, o carrelo, que facilitava muito o trabalho, a uma só pessoa.
Não quero deixar de citar o galricho do sargaço, usado só em Vila Chã, e num ou noutro local, a título excepcional, que não tem nada com o «nosso» galricho.
Constituído por um longo saco de rede de 2 a 3 metros de comprimento, também preso a um arco de 1.30 m de diâmetro, com meio arco desimpedido, mas sem cabo, é agarrado verticalmente pela sargaceira, como se pode ver no CARTAZ, que publicita o filme e que me despertou o afecto para estas imagens fechadas no «baú», há cerca de 30 anos.
Por último, em conversa, com a própria Glória, a sargaceira/artista de tão duro trabalho, testemunhou-me que, em Labruge, um jumento tocado por uma mulher acarretava, numa zorra, o sargaço que tinha dado à praia, e que a sargaceira recolhia, com o auxílio do graveto. Confirmou-me o que eu tinha visto e que tinha registado e que vos dou a conhecer, com prazer.
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Registos de outros tempos, de práticas extintas, que foram deixando um eco de memória na praia de Vila Chã.
Mas a Glória, mulher sargaceira e arrais, já não vai mais ao mar, porque os anos começam a pesar e teve o azar de ter partido uma perna.
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Chamo a atenção, isso acontece com frequência no nosso litoral, que há diferenças terminológicas na designação de alguns instrumentos de trabalho, de praia para praia, entre curtas distâncias. São os diversos falares ou linguajares que nos enriqueceram a língua, que estão em risco de serem também perdidos com os novos tempos.
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Vidas difíceis de gerações de mulheres e de mães, no nosso mar…
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As imagens libertadas pelo filme e pela memória testemunham-nos algumas das descrições que acabei de reconstruir.



À beira do mar, liso, espelhado, brilhante e esquartejado entre penedos, uma sargaceira, de roupa molhada até ao peito, retira do ganha-pão para o areal, as algas arrastadas na praia. Aver-o-Mar.

 


Duas gerações de sargaceiras – uma, de preto vestida, quem sabe, viúva de homem do mar, de costas voltadas para nós; outra, jovem e bonita, orgulha-se do seu trabalho, deixa-se fotografar, ao acarretar as fitas, a bodelha e os limos do argaço, num carrelo, pelo areal acima. Aver-o-Mar.

 

Duas gerações de sargaceiras, talvez mãe e filha, acarretam sargaço com as típicas padiolas, as carrelas, plasmadas num ambiente marítimo de barcos tipo poveiro, aprestos, trouxas de redes, montes de algas, que salpicam o areal da Apúlia.
 

Sargaceira, em Labruge, de graveto ao ombro, acabou de apanhar sargaço, trazido até à praia, para uma zorra que um jumento arrasta. Cena inédita.
 

Sargaceira idosa, entre rochedos, curvada pelo peso do ganha-pão, esconde o rosto, de vergonha, perante os fotógrafos, que, ainda revoltada, trata mal, por divulgarem o seu grande sacrifício. Apúlia.
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Vidas pesadas e difíceis, que entretanto acabaram, mas foram deixando alguns preciosos testemunhos.
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Fotos de Paulo Godinho (inéditas). Anos 80
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Ílhavo, 26 de Setembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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