domingo, 27 de novembro de 2016

Homens do Mar - João Ventura da Cruz - 24


João Ventura da Cruz, no ponto nevrálgico do navio
Tem-me sido extremamente difícil conseguir algumas fotografias de João Ventura da Cruz, bem como os dados básicos da sua biografia marítima, pois a sua ficha do grémio apenas refere que comandou o lugre com motor  Santa Izabel, construído em 1929 por Manuel Maria Bolais Mónica para a Empresa de Pesca de Aveiro, nos anos  de 1938, 39, 40 e 42. Ora sabemos que os seus feitos foram muito mais.
Tentemos explicitar.
O Sr. João Ventura da Cruz, natural de Ílhavo, nasceu em 1880. Casado com Ascensão Ricoca, foram pais de uma abundante prole, que ainda conheci, uns, bem melhor que outros – Maria, Aníbal, Ascensão, João Cândido, Manuel e Nídia Ventura da Cruz. Este ano, no Verão, mais uma foto surgiu, na casa da Costa Nova, com a sua prole. E curiosa, pois representa o capitão, de boné (5º), e, da esquerda para a direita, sua esposa Ascensão (3ª), e seus filhos, Aníbal (1º), Ascensão (2ª), Manuel (4º), João Cândido (6º) e Maria (7ª). Falta a Nídia, a mais nova.
Que sorte! Estava datada – 1935 – e identificado o navio – lugre com motor Santa Mafalda. Tudo conferia.
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A bordo do lugre Santa Mafalda, com a sua prole, em Lisboa.1935
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Perante os primeiros dados credíveis, lancei o isco e pesquei que fora capitão, nos anos de 1922 e 24, no lugre Argonauta II, de 1925 e 26, no lugre Alcion, e de 1928 e 29, no lugre Celestina Duarte, todos da praça de Aveiro, pilotado, respectivamente, por João dos Santos Marnoto (26 e 28) e Manuel Pereira da Bela (29).
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O lugre Argonauta II, de três mastros, proa de beque e popa redonda, foi construído por Manuel de Matos Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1919, para a Sociedade Argonauta, Lda., de Aveiro. O navio foi vendido em 1927 à Empresa de Navegação Portugal e Américas, do Porto, alterando o nome para Celestina Duarte, porém, conservando a matrícula em Aveiro. Naufragou nos rochedos exteriores do porto de Leixões, em Fevereiro de 1933, em que faleceu o capitão ilhavense Paulo Nunes Bagão, já septuagenário. Do lugre Alcion, soube que teve a sua origem no lugre-escuna Figueira, construído em Inglaterra em 1904, tendo sido o ex-Becca and Mary, até 1913, então registado, na Figueira da Foz. Posteriormente, foi vendido ao capitão de Ílhavo, António José dos Santos, de alcunha Rocheiro, tendo sido registado em Aveiro, passando a ser o Alcion, em 1920.
Na campanha de 1930, comandou o lugre Bretanha, pilotado por Manuel Pereira da Bela, nosso patrício.
Anos de forte crise económica. Lugres amarrados. E os armadores, se não viessem a ter melhores resultados, prometiam deixar os lugres ancorados a apodrecer.
Entretanto, conta-se que, tendo encontrado, casualmente, o rude e destemido Capitão João Pereira Cajeira, o Sr. Egas Salgueiro, armador empreendedor, lhe fez saber que os navios de pesca dinamarqueses e faroés, nos bancos da Groenlândia, faziam muito boas pescas. E logo o contratou, para chefiar o lugre Santa Mafalda, com a condição de ir pescar, sigilosamente, nesse ano, à Groenlândia. Entregue aos seus parcos conhecimentos, o Cajeira, com a preocupação de cumprir o que havia prometido, lá foi meter-se nos terríveis gelos e medonhos campos de gelo, onde se viu perdido e amedrontado pela situação.
Não chegou propriamente a pescar – muitos receios, temores e perigos, dissuadiram-no, naquele ano, mas não perdeu a ideia de lá voltar. De regresso, o capitão Cajeira dá uma longa entrevista ao jornal Beira-Mar, de 30/11/1930. Frio inclemente, cortante, bizarros e gigantescos icebergs, lindíssimas auroras boreais, riscos de se perderem, fizeram-no regressar.
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Gigantesco e medonho iceberg…
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Um pescador disse referindo-se aos mares da Groenlândia: – Eh! Sinhor Capitão! Aquele mar não tem passage! Aquilo era tudo fechado que até metia medo…
O capitão Cajeira sorridente e pensativo parecia recordar a acidentada viagem que, pelos perigos de que foi cercada, nos faz lembrar as antigas viagens dos navegadores de antanho.
Naqueles anos trinta de profunda depressão e crise económica, tudo corria mal e a situação da Empresa de Pesca de Aveiro tornara-se insustentável e os três principais sócios da EPA reuniram-se com os três capitães Manuel dos Santos Labrincha (1880-1954) do lugre com motor Santa Izabel, João Pereira Cajeira (1879-1958) do Santa Mafalda e João Ventura da Cruz (1880-1970) do Santa Joana a quem contaram a verdade nua e crua – estes comprometeram-se a ir pescar à Groenlândia, de modo a que fosse conseguido o dinheiro suficiente para pôr os navios no mar.
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E cá está o nosso capitão João Ventura da Cruz envolvido, com sua palavra e temeridade, na questão.

Sigilosamente, assim foram, pois o segredo é a alma do negócio – era o lema do Sr. Egas.
A eles se juntou o Capitão Aquiles Bilelo, de que já falámos, por convite do amigo Cajeira, a quem prometeu reboque, já que o seu navio, o Santa Luzia, tinha menos capacidades que os outros. Há alguns, poucos, relatos deste heróico feito, embora com ligeiras discrepâncias.
Com a falta de comunicações habituais para a época, mais cedo do que habitual, na Costa Nova, vislumbra-se: Navio à vista!... Navio à vista!...
É este…
É aquele…
Quando, mais cedo que o habitual, os quatro lugres, que pescaram nos bancos da Gronelândia, chegaram a Portugal e demandaram os seus portos de armamento, houve grande alvoroço e muito regozijo entre as classes ligadas às actividades piscatórias. É que, de todos os veleiros que, nesse ano de 1931, foram à pesca do bacalhau, apenas aqueles quatro conseguiram carregamentos completos.
É bom pois, que sejam sempre lembrados aqueles quatro arrojados Capitães de Ílhavo, seus pilotos – Joaquim Fernandes Agualuza (1901-1983), piloto do lugre Santa Izabel, João Fernandes Matias Júnior, Britaldo (1901-1959), do Santa Mafalda, João dos Santos Labrincha (Laruncho) (1901-1980), do Santa Joana, José Vaz Mano (1904-1980), do Santa Luzia – e suas destemidas tripulações.
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Mas as fainas marítimas de João da Cruz não ficaram por aqui. Creio que no ano de 1932, continuou a comandar o lugre Santa Joana, pilotado por João dos Santos Labrincha (Laruncho). Nos anos seguintes de 33 a 35, passou a comandar o lugre Santa Mafalda da mesma empresa, pilotado por Manuel Fernandes Matias em 1933.
Neste mesmo ano, segundo informação do jornal local, o Santa Mafalda entrou em fins de Setembro, na barra de Leixões. Trazia um carregamento completo de bacalhau, mas a viagem é que fora muito acidentada, sofrendo a perda de dois tripulantes – um na Gronelândia, a 17 de Julho, de Ílhavo, em virtude de se lhe ter virado o dóri em que pescava e outro, a 11 da de Setembro, quando, em viagem, o lugre foi apanhado por um temporal que lhe varreu o convés, um pescador da Fuzeta. Vidas sofridas e tempos muito duros, que impunham respeito a qualquer um.
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O lugre Santa Mafalda
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Entretanto, na safra de 1936, com duas viagens, João Ventura da Cruz estreou no comando o primeiro arrastão lateral português mandado construir pela EPA, na Dinamarca, em 1935, adaptado às necessidades dos mares frios do bacalhau, a que deu o nome de Santa Joana. Levava a bordo, além dos 60 tripulantes, mais alguns pescadores franceses e um maquinista alemão (Fritz Bruck), como monitores. Foi seu imediato Manuel Pereira da Bela e piloto Manuel José Fernandes, da Gafanha da Nazaré. No ano de 37 (com uma viagem), o imediato continuou o mesmo, o piloto foi João Pereira Gateira e o praticante de piloto Benjamim dos Santos (Pardal).
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O arrastão de pesca lateral Santa Joana
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De novo, passou para a pesca à linha, comandando o lugre Santa Izabel, da EPA, de 1938 até 42 (inclusive). Em plena campanha de 41, o navio foi vendido à Empresa Bacalhau de Portugal, Lda., com sede em Lisboa. Foram seus pilotos os ilhavenses Manuel Gonçalves Viana (38), Manuel Pereira Bela (39), João Nunes de Oliveira (40) e José Simões Bixirão (Ponche) (41 e 42). Imediato, José Simões Bixirão (Ponche), na campanha de 40.
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O lugre Santa Izabel

O nosso capitão, a partir de 1942, não aparece nas listas de tripulação, tendo-se, certamente, aposentado.
E nascido em 1880, deixou-nos o decano, à época, dos oficiais da marinha mercante, em 1970, com noventa anos de idade.
Que elogios tecer a um homem do mar como este?
Experimentado, arrojado e prático, chefe de família exemplar era venerado e respeitado por todos que com ele trataram.
Capitão experiente de diversos lugres bacalhoeiros (dos quatro primeiros a pescar na Groenlândia) e oficial debutante do primeiro arrastão de pesca lateral, em 1936, fica para a história dos nossos heróis, bravos e destemidos marinheiros, em mares longínquos com que sempre sonharam. Mares planos e estanhados, mares revoltos e mares gelados, convés varrido por gigantescas ondas, era este o cenário com que se habituaram a conviver.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência da neta Teresa Cachim
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Ílhavo, 30 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Homens do Mar - Joaquim Fernandes Agualuza - 23

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Era pois, minha intenção dedicar umas palavras ao Sr. Capitão Quim da Graça, de quem me lembro relativamente bem, com moradia na dita Avenida dos Capitães. Não só dele, como de sua esposa, Senhora D. Albertina, com quem a minha Avó conviveu, tendo chegado a ir os três para as termas, várias vezes.
O Sr. Capitão Joaquim Fernandes Agualuza, muito conhecido pelo nome de Capitão Quim da Graça, nasceu em Ílhavo, na Rua Nova, em 12 de Janeiro de 1901 (-1983).
Era possuidor da cédula marítima 15291, tendo sido passada a segunda via na Capitania do porto de Aveiro, em 6 de Abril de 1931.
Era filho e neto de pescadores que se dedicavam à pesca de arrasto costeiro (a dita arte de xávega), na praia da Costa Nova do Prado. O seu Pai até teria falecido ainda jovem, em consequência de uma infecção tetânica provocada por uma patada de um boi, no decurso de um arrasto da rede.
O Quim da Graça, nome de sua Mãe, Rosa da Graça, foi um homem modesto, embora austero, por profissão, mas muito carinhoso com a Família, com uma superior paixão pelo mar, vinda de seus antecessores.
Familiar chegado informou-me que começou por fazer o Curso da Escola Náutica, após o qual foi colocado como Piloto da Barra, primeiro na Figueira da Foz e, posteriormente, na Barra de Aveiro.
Poucos anos depois, nas safras de 1923 e 25, comandou o lugre Laura, pilotado por João dos Santos Labrincha (23). Este lugre foi construído em 1921 na Gafanha da Nazaré sob o risco de José Soares. Propriedade da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., participou nas campanhas de 1921 a 26. Tendo imobilizado em 1927, virá a ser o Cruz de Malta, em 1928, propriedade da Empresa Testa & Cunhas, Lda.
 
Lugre Laura entre 1921 e 26
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Na campanha de 1929, foi piloto estreante, sob o comando de Manuel dos Santos Labrincha, do recente lugre Santa Izabel, mandado construir pela Empresa de Pesca de Aveiro, no mesmo ano.
Na famosa campanha de 1931, – a da pesca do bacalhau nos mares da Groenlândia, continuou piloto do mesmo lugre, sob o comando do mesmo capitão.
Com algumas lacunas de informação e, em tempo de crise, comandou o lugre Ernâni, pertença de Testa & Cunhas, Lda., pilotado por Manuel Gonçalves Viana, na campanha de 1934, ano em que o navio naufragou, pasto de chamas, por incêndio despoletado na fritadeira do fogão. O capitão, ao contar a tripulação na hora do salvamento, deu por falta de um homem – era o mestre, que, no rancho, chorava a perda do «seu» navio, que estava a arder por sua culpa. Lá foi o capitão arrastar o desgostoso mestre, para que uma vida se não perdesse em vão – «estória» oral contada mais tarde por um familiar do mestre.
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Lugre Apollo, em 1921, futuro Ernâni
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Por acta da empresa de 15 de Agosto de 1935, apercebi-me que a empresa ia preparar o Silvina para a próxima safra, em parte, para substituir o Ernâni repasto de chamas. O lugre Silvina, há bastantes anos parado e algo deteriorado, foi reparado, tornando-o navegável, no que foram gastos cerca de 50 contos, importância que não podendo, de momento, ser amortizada, deveria ser levada à conta do respectivo lugre.
Nas safras de 1935, 36 e 37, o Capitão Quim da Graça comandou o lugre Silvina renovado, pilotado, por Alexandre Simões Ré (36) e Manuel Gonçalves da Silva, de alcunha Paroleiro. (37). Na campanha de 38, transitou para o lugre Cruz de Malta, pertencente à mesma empresa, pilotado por Manuel Pereira da Bela (Violante).

Lugre Silvina, em frente à seca
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Lugre após lugre, de três mastros, de madeira, que se deslocavam aos Bancos da Terra Nova e da Groenlândia na quadra mais quente, foi ascendendo de imediato a capitão, tendo-se transferido, posteriormente, para a praça de Viana do Castelo.
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De 1939 a 1951 (inclusive), estreou, no comando, o navio-motor de ferro Santa Maria da Madalena, construído em 1939, nos estaleiros da CUF, para a Empresa de Pesca de Viana.
Teve como imediatos, os ilhavenses Francisco Fernandes Mano (39 e 40), Manuel Pereira da Bela (Violante) (41 a 44) e Armando Pereira Ramalheira (47 e 48). Como pilotos, Manuel Pereira da Bela (Violante) (39 e 40) João Simões Ré (41 e 42), Weber Manuel Marques Bela (47) e Carlos Alberto Pereira da Bela (49, 50 e 51), também nossos conterrâneos.
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De 1952 a 61 (inclusive), inaugurou, no comando, o navio-motor de ferro Rio Lima, construído nesse mesmo ano nos estaleiros Navais de Viana do Castelo, para a mesma empresa. Após a viagem de 1961, transformou para arrastão clássico.

O navio-motor de ferro Rio Lima
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Trabalhou como seu imediato, o ilhavense Manuel dos Santos Malaquias. (53, 54, 55 e 56). Como piloto, o nosso conterrâneo António Manuel de Oliveira Gordinho (53 e 54). Nos restantes anos, quer os imediatos quer os pilotos não foram de Ílhavo. 

Capitão Quim da Graça, em navio de Viana
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Segundo informação do Jornal do Pescador de Maio de 1960, p. 23, na Bênção dos Bacalhoeiros de 1960, a três de Abril, foi condecorado por sua Exa. o Presidente da República Américo Thomaz, com o grau de Oficial da Ordem de Mérito Industrial.
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E de navio em navio vianense, foi vivendo as suas safras, nos mares longínquos e gélidos. Passou a comandar o navio-motor de ferro São Ruy nos anos de 62 e 63, com Francisco Correia Marques como imediato, tendo dado por encerrada a sua actividade marítima.
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A bordo de navio de Viana do Castelo…
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Familiar próximo contou-me que o nome de Agualuza terá vindo de um comentário feito pelo Pai, exactamente com o mesmo nome. Quando na praia da Costa Nova, a rede de arrastar estava a ser puxada pelas juntas de bois, terá dito para os camaradas de pesca: – Hoje a rede vai trazer pouco peixe, porque a água está luza (leia-se luzente). E assim passou a ser tratado pelo  Agualuza.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 24 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 6 de novembro de 2016

Homens do Mar - Manuel Gonçalves Viana - 22

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Fotografia, a bordo, retratada em painel de azulejo
Depois de uma troca de impressões com o Sr. Hélder Viana, veio à baila, a vida marítima de seu Pai, cuja casa na dita Avenida dos Capitães, última à direita, para quem volta à Malhada, tem aplicado um painel de azulejo do primitivo dono, a sépia.
Sabia de quem tinha sido a casa, perfeitamente, mas nunca aliei o painel de azulejo ao seu proprietário.
Às vezes, parece que andamos de olhos adormentados, pela rua…
O Sr. Capitão Manuel Gonçalves Viana nasceu em Ílhavo, terra de mareantes, a 23 de Março de 1901.
Casado com a Senhora D. Idalina Grilo, teve quatro filhos: a Maria Ofélia (já falecida), a Maria Francelina, a Eneida Maria de quem fui colega no, à época, Externato de Ílhavo e o Sr. Hélder Viana, cujo conhecimento já tem uns bons pares de anos.
Possuidor da cédula marítima nº 4783, passada pela Capitania do porto do Porto, em18.6.1914, terá começado, por essa altura, a sua vida de mar.
Atraído pelo oceano desde muito jovem, embarcou com 12 anos, logo que fez o exame da 4ª classe, na chalupa Portuguesa, que, na Grande Guerra de 1914, foi metida no fundo por um submarino alemão quando demandava, a reboque, a barra do Douro. A tripulação foi salva pelos seus camaradas do rebocador, que o inimigo generosamente poupara.
Conheceu vários navios, e suportou a dura vida do mar com coragem, tendo-se esforçado por conseguir uma posição de relevo na sua profissão., não só como bom navegador, mas também como bom conhecedor dos Bancos piscatórios da Terra Nova e Groenlândia. Depois de ter comandado navios de arrasto no Cabo Branco, regressou à faina bacalhoeira. Nesses mares do Norte, sofreu, como piloto, em 1934 o naufrágio do lugre Ernâni, que desapareceu envolto em chamas, sob o comando do capitão Joaquim Fernandes Agualuza (Quim da Graça) e em 1935, no dia 12 de Julho, o do lugre Santa Joana (um dos quatro Santas que tivera pescado pela primeira vez, na Groenlândia, em 1931), que fora abalroado por um navio de pesca norueguês, na Groenlândia, conforme protesto existente no Ciemar. Era capitão o Sr. Francisco dos Santos Calão, irmão do meu Avô Pisco.

O lugre Santa Joana. Anos 30

Relativamente ao lugre Ernâni, a que já aludi, pertença da sociedade Testa & Cunhas, o seu naufrágio resultou de um incêndio na cozinha, devido a óleos fritos e similares, vertidos do fogão para trás deste – algum lixo e incêndio a bordo!...Decorria o mês de Julho!... Houve muita dificuldade em obter notícias concretas do sucedido e do destino de sua tripulação, ao ponto de a própria empresa ter enviado dois telegramas ao Ministério da Marinha que os remeteu ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, na esperança de sossegar a nossa vila maruja e, porventura, outras terras que teriam fornecido a restante tripulação. Só em meados de Agosto, se teve conhecimento que, de facto, o navio se havia perdido, mas sem perdas humanas e que a tripulação se encontrava dispersa por vários navios pesqueiros. Segundo notícia de O Ilhavense de 16 de Setembro, deu entrada no porto da Figueira da Foz o lugre Lusitânia, a bordo do qual vinham seis tripulantes do lugre incendiado, entre os quais o capitão, Sr. Joaquim Fernandes Agualuza.
Nas safras de 1936, 37 e 38, exerceu o cargo de piloto, no lugre Santa Izabel, construído em 1929 para a Empresa de Pesca de Aveiro, sob o comando de Francisco dos Santos Calão (36 e 37) e João Ventura da Cruz (38). Outro dos quatro Santas que havia pescado pela primeira vez nos bancos da Groenlândia.
Começa a dar-se para Gonçalves Viana a transição da pesca à linha de bacalhau, para o arrasto lateral.
Na safra de 1940, embarcou, de imediato (duas viagens) no arrastão de pesca lateral, Santa Joana (o primeiro arrastão clássico que houve, em 1935), pertença da EPA, sob o comando de Francisco dos Santos Calão e pilotado por João Simões Ré.
E, de volta à pesca à linha, nas safras de 1941 a 45, habitou no lugre Groenlândia – duas viagens de piloto, duas de imediato e a última, a de 1945, de Capitão. Nas quatro primeiras, comandou o navio, o Sr. João Fernandes Matias Júnior, de alcunha Britaldo.
O lugre com motor Groenlândia, ex-Viana, ex-lugre-escuna Groenlândia, foi reconstruído nos estaleiros de António Mónica, em 1940, para Armazéns José Luís da Costa & Cª Lda., para a campanha de 1941, em que levou a bordo o jornalista Jorge Simões que viria a escrever Os Grandes Trabalhadores do Mar. O piloto Manuel Viana aí é referido algumas vezes, p. 219 e 227, da reedição de 2007, intitulada Heróis do Mar.
Definitivamente, passou para o arrasto lateral.
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O lugre Groenlândia

De 1946 a 1952, inclusive, foi oficial do arrastão João Corte Real, como imediato, nas viagens de 1946 e 47 e primeira do ano de 1948, sob o comando de Manuel Pereira da Bela (46), Manuel Simões Ré (47 e 48) e como capitão, até 1952. Durante estes anos, teve como imediato ilhavense, António de Morais Pascoal (49).
O arrastão clássico João Corte Real pertenceu à SNAB, e o gémeo Álvaro Martins Homem, como já aludi, foram os dois primeiros arrastões a serem construídos em Portugal, na CUF, em 1940.

Manuel Gonçalves Viana, a bordo

De 1953 a 1962, inclusive, foi oficial do arrastão David Melgueiro, como capitão, tendo realizado duas viagens nos anos de 1955, 56 e 62.
Este arrastão, de aço, foi construído na Holanda em 1950 para a SNAB, de Lisboa (1951).
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Na viagem de 1957, o médico de bordo, Bernardo Santareno, pseudónimo de António Martinho do Rosário, foi começando a colher dados para os seus escritos, crónicas de viagens e peça de teatro… não ficando por aí nas viagens ao bacalhau. Em Nos Mares do Fim do Mundo,  ao folhear, recolhi uns excertos:
 – Enquanto o David Melgueiro se afasta, mais e mais, de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos abertas ao vento (…)
Pela primeira vez neste ano, vai ser lançada a rede ao mar.
Na ponte, o nosso capitão dirige a pesca: Samarra, grossos tamancos, uma longa manta-cachecol traçada à volta do pescoço e luvas de lã. Cabelos grisalhos, revoltos e descobertos.
Voz rouca, com claridades ardentes de sal e negrumes de mar sem fundo:
– Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua Mãe Maria Santíssima, lancem a rede ao mar!
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À época, enquanto capitão do arrastão lateral David Melgueiro, deu várias entrevistas ao Jornal do Pescador, pelos anos 50 e 60, nomeadamente, em Fevereiro de 1957, Março de 1958 e de 1961, acerca da frequência do Curso de utilização de radar e em conversa com o repórter do referido Jornal com os colegas João Simões Ré, capitão do arrastão Fernandes Labrador e Humberto das Neves Martins, capitão do arrastão Álvaro Martins Homem, natural de Olhão, sobre a vida no mar e perspectivas de pesca. 

Arrastão lateral David Melgueiro
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Os imediatos que teve, normalmente, não eram de Ílhavo.
Na campanha de 1963, passou para o comando do arrastão Estêvão Gomes, também de 1950. E nas safras de 1964 e 65, comandou o também arrastão lateral da mesma sociedade, Fernandes Lavrador.
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O Fernandes Lavrador entre growlers
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E por aqui ficou, em questão de campanhas ao bacalhau.
Parecendo gozar de boa saúde, no dia 4 de Fevereiro de 1971, num acidente, do qual ainda hoje não se sabem propriamente as causas, perdeu a vida, este oficial náutico muito considerado, em  viagem longínqua e eterna.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência do filho Sr. Hélder Viana
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Ílhavo, 17 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Homens do Mar - Manuel Nunes Guerra - 21

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Manuel Nunes Guerra

Nesta dança de «cadeiras de oficiais», em que me vou sentando, encontro uma motivação mais ou menos forte para tratar a pessoa em causa no «meu» momento exacto. Normalmente, a facilidade em conseguir imagens de homens a bordo, sua identificação e diversificação dos navios em que andaram, levam-me a «dar prioridade ao seu tratamento». Por outro lado, algumas dificuldades ou controvérsias, por vezes, empancam-me.
Desta vez, foi a antiguidade e a vizinhança, mas não só – também a graça da coincidência da trilogia do apelido Guerra. Explico.
No primeiro número impresso do jornal O Ilhavense, de 20.11.1921, no artigo «Eles que voltam da TERRA NOVA», entre outros, na nossa barra, deu entrada o lugre Guerra, comandado pelo Sr. Manuel Nunes Guerra e pilotado pelo também ilhavense Sr. José Russo Loureiro.
Sabia que tinha havido no princípio do século XX, uma sociedade armadora Nunes, Guerra e Cª, sediada em Ílhavo.
Em casa de pessoa amiga, havia encontrado uma belíssima foto de um lugre de uma candura e suavidade. Só poderia ser o Guerra II a deslizar, por antítese do nome, na calmaria pacífica, inspiradora, reflectora, espelhenta, das águas lagunares… Coincidência?...
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Segundo o Catálogo A Frota Bacalhoeira – Navios de pesca à linha, editado pelo MMI, em Maio de 1999, o lugre de madeira Guerra II foi construído em 1919 na Figueira da Foz por Sebastião Gonçalves Amaro para a Empresa Nunes, Guerra & Cª Lda., de Ílhavo. Participou nas campanhas de 1921 a 1930. Foi vendido à Parceria Geral de Pescarias Lda., Lisboa, para a campanha de 1933, passando a ter o nome de Corça.
Após a campanha de 1936, foi vendido à Companhia Transatlântica Lda., Porto, onde terá passado a ser o Granja, já com motor instalado. Participou nas campanhas de 1937 a 1939 e efectuou viagens de comércio, em 1940.
Naufragou em 1941, nos baixios a norte do Cabo de São Francisco, Terra Nova, quando se dirigia a portos da Terra Nova para carregar bacalhau seco.
Guerra II, Corça, Granja, que dança de nomes e de armadores…o que, acontece., com frequência.
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Que belo veleiro, espelhado em tão tranquila ria…Tem a elegância de manequim, em passerelle, ao exibir todo o seu velame.

Lugre Guerra II

O gosto pela pesquisa confrontada reacendeu-se e comecei a cruzar todos os arquivos marítimos e jornais em que me era facultado mexericar.
Manuel Nunes Guerra, natural de Ílhavo, nasceu a 7 de Fevereiro de 1896. Casado com a Senhora D. Irene Rigueira, sempre foi meu vizinho, de frente, na Rua Ferreira Gordo.
Obteve a cédula marítima nº 9435, na Capitania de Aveiro, em 20 de Outubro de 1910.
Depois de algumas viagens de que não conseguimos informação, o capitão Manuel Guerra, com 25 anos, já comandara o lugre Guerra II, nas campanhas de 1921, pilotado por José Russo Loureiro, como já referi, a de 23, por António Fernandes Matias, as de 26 e 27, por António Augusto Marques (Marcela), de 28, por António Fernandes Matias (Cajeira), de 29, por José Vaz Mano e de 30, por António Simões Picado.



Mesmo sem data certa, sem nome de navio, nem conhecimento da pessoa que acompanha o Capitão, a imagem é rica em pormenores marítimos de um antigo veleiro, em data anterior aos anos 40.
Porventura, em anos de crise, poderá não ter embarcado. Não há dados. Na campanha de 1934, comandara o lugre Maria Carlota. Ex-Estrela I, construído em 1918, no Canadá, tomou o nome de Maria Carlota, na campanha de 1927, e na de 1934, tornou-se propriedade de João Norberto Gonçalves Guerra.

Lugre Maria Carlota


Nas campanhas de 1935, 36, 37 e 38, comandou o lugre Infante, da praça do Porto, pilotado, respectivamente pelos ilhavenses Manuel Fernandes Matias (36) e João da Silva Peixe (37 e 38).
Sobre a campanha de 1938, encontrámos dados fornecidos pelo jornal O Ilhavense de 28 de Maio de 1938: – Quando na última terça-feira, à tarde, metia carburante, o lugre Infante, em Lisboa, para no dia seguinte iniciar a viagem para a pesca do bacalhau, devido a uma imprevidência de um daqueles trabalhadores daquele serviço, que, com uma vela acesa, pretendia ver se o depósito estava cheio, deu-se uma explosão a bordo do lugre, pertencente à Firma Transatlântica, do Porto, e comandado pelo Sr. Manuel Nunes Guerra, desta vila
Apesar de socorrido por rebocadores que andavam perto, parece que ficou impossibilitado de fazer, este ano, a sua viagem à pesca, tendo já os pescadores retirado para as suas terras.
Os prejuízos são elevadíssimos, mas estão cobertos pelo seguro. Felizmente que a explosão não atingiu os bidões de gasolina, que havia a bordo.

Na campanha de 39, o Sr. Capitão Guerra estreara (era sempre um prazer e uma honra) o lugre com motor Aviz, construído nesse mesmo ano por Manuel Maria Bolais Mónica, para a Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., com praça no Porto. Comandou-o até 1947 (inclusive), mantendo sempre como seu imediato o ilhavense João da Silva Peixe.
Pai e filho mais novo, a bordo do Aviz, em dia de Bênção. 1941


Em 11 de Março de 1948, a nossa frota, enriqueceu-se com o bota-abaixo de mais dois navios bacalhoeiros, na Gafanha da Nazaré – os lugres Condestável e Coimbra, o primeiro com sede no Porto e o segundo com sede em Coimbra.
A cerimónia realizou-se com a solenidade e o aparato próprios destes actos, tendo sido servido na Costa Nova do Prado, um almoço aos membros do Governo, no Hotel Beira Ria, tendo percorrido as dependências daquela casa e felicitando o Sr. António Félix, pela sua iniciativa. Mesmo pouco a propósito, não me contive sem passar esta informação. Dá que pensar…
Mas, voltando ao nosso capitão, mais uma vez, inaugurou, no seu comando, o navio Condestável, lugre de quatro mastros, nele se tendo mantido até à campanha de 1952 (inclusive).

Condestável, na entrada, na barra do Porto…
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Os imediatos foram oriundos do Porto, Lisboa e Espinho. Os pilotos, nos anos de 1950, 51 e 52, foram respectivamente Manuel Gomes Craveiro Guerra, residente em Aveiro e o ilhavense Joaquim Manuel Marques Bela.
Ílhavo era copioso em oficiais, que se agrupavam, em circunstâncias várias. Nesta foto, com colaboração de amigos, só não conhecemos os dos extremos, superior, esquerdo e inferior, direito.
Será com agrado que, os menos jovens os identificarão e recordarão.

Grupo de oficiais, por volta de 1950
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E a vida vai rodando para todos – tantas viagens, tantas saídas e regressos. Que dureza de vida e saudade dos seus e do seu Ílhavo.
O «nosso» capitão deixou-nos prematuramente, em longa viagem, sem regresso, com 57 anos de idade, em Fevereiro de 1953.
Se bem me lembro, uns dias antes da partida do meu Avô Pisco.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares.
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Ílhavo, 10 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Traineira IDELTA

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Bota-abaixo da traineira IDELTA, em Setembro de 1942

Há dias assim, em que as pesquisas não rendem ou, de facto, não encontramos o que procuramos.
Mas surge sempre algo que nos dá jeito, passível de aproveitar. Não eram precisos estes dados para saber que, no princípio do século XX, se construíram navios, de maior ou menor porte, em Ílhavo, lá para os lados da Malhada.
Eu e as imagens!... Esta foto que utilizo, enviou-ma um familiar dos Abreus, há meia dúzia de anos. Por aqui tem andado, desempregada. Hoje, cheguei ao texto que a ilustra, ao folhear Ilhavenses dos anos 40, para outros fins.
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Assim rezava o de primeiro de Outubro de 1942, que assim respigo:
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Dos terrenos da Seca Da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., sita junto à Ponte Juncal Ancho, nesta vila, foi, no sábado (26 de Setembro), deitada à água uma traineira mandada construir pelo Sr. Francisco António Abreu, sendo construtor o Sr. Silvério Mónica, da habilidosa família deste nome, que em trabalhos de construção naval tem dado provas de uma perícia extraordinária.
A traineira que foi baptizada com o nome de IDELTA, sendo madrinha a filha do seu proprietário, menina Maria Frederica Paradela de Abreu, aluna da Faculdade de Medicina, tem 21 metros de comprimentos, é accionada por máquina a vapor e destina-se à pesca da sardinha, no Porto.
O bota-abaixo, a que assistiu grande multidão, foi coroado do mais feliz êxito, pelo que, tanto o proprietário, Sr. Francisco António Abreu, como o novel construtor, Sr. Silvério Mónica, foram muito felicitados.
De seguida, foi oferecida uma taça de espumante aos convidados, brindando pela prosperidade do arrojado iniciador deste empreendimento, o advogado, Sr. Dr. Joaquim Silveira.
No mesmo local, já está a ser preparado o cavername para a construção de um outro barco de 300 toneladas, que o Sr. Francisco Abreu conta ter pronto no prazo de seis meses.
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Eu, que era apreciadora de cerimónias de bota-abaixo, agora tenho de me contentar com as descrições e imagens encontradas.
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Foto – Gentilmente cedida por amigo
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Ílhavo, 17 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Homens do Mar - João Maria da Madalena- 20

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Na sequência da biografia marítima de João Fernandes Mano (Agualusa), só poderia ocupar-me, de seguida, da de João Maria da Madalena, respectivamente, Capitão e piloto do lugre Gamo que, em 1918, foi torpedeado por um submarino alemão camuflado, a 31 de Agosto, navegando o lugre na latitude 46º 02’ N e longitude 32º 32’ W, na rota dos Açores, tendo sobrevivido a uma aventura extenuante. Salvaram-se 34 dos 39 náufragos que tripulavam o bacalhoeiro Gamo, tendo aportado ao Faial em 8 pequenos dóris, quase sempre sem comer nem beber, 470 milhas à vela, a remo e a correr com as vagas.
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Natural de Ílhavo, nascido a 18 de Outubro de 1899 (-1964), começou por passar logo esta tremenda e trágica experiência de mar, aos 18 anos de idade, o que muito possivelmente, o terá marcado para a vida.
No entanto, o seu currículo marítimo não ficou por aqui. Tendo, muito possivelmente, andado cerca de 20 anos na marinha de comércio, voltou, de acordo com a ficha do GANPB, à pesca bacalhoeira, tendo exercido em 1938, o comando do lugre Santa Regina, com o imediato Artur Oliveira da Velha, também de Ílhavo, tendo tido o infortúnio de naufragar
Segundo o Jornal da terra, de 4 de Junho de 1938, na sexta-feira à noite chegou a notícia a Ílhavo de se ter perdido o lugre-escuna Santa Regina da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., com sede em Ílhavo. O navio naufragou a noroeste dos Açores, tendo sido salva a tripulação por um vapor de carga inglês, que a levou para Glasgow. Era seu capitão o Sr. João Maria da Madalena e piloto o Sr. Artur da Velha, levando mais de doze homens de Ílhavo, sendo os restantes de outros centros piscatórios.
Pelo neto do Sr. Capitão João da Madalena fiquei a saber que Eduardo António Rodrigues, moço, de Ílhavo, que falecera no naufrágio, era cunhado do capitão, que o levara na viagem, a seu pedido, por estar desempregado. Mais um acaso que sempre marcou a vida do «nosso capitão».
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Tendo-me sido facultado o Diário de Bordo do Santa Regina, respigo excertos arrebatadores e aflitivos da descrição do seu naufrágio.
«… No dia 1 de Junho, o barco navegava com a proa à vaga e com o velame reduzido, de «capa rigorosa».
No dia seguinte era tal a força de mar e vento que o barco cavalgava por sobre as vagas, escorregando depois «a pique», como se fosse mergulhar nas profundezas, para logo de seguida apontar de novo a proa ao céu.
Por volta das 5 horas, rebentou dentro do navio um grande golpe de mar que inteiramente varreu o convés, formando a água castelo que ia até meia altura do mastro e que levou toda a borda falsa dos dois lados e 33 dories, arrancando as poucas velas que estavam içadas, partiu com fragor os «alvois» das escotilhas, a roda do leme e levou tudo quanto se encontrava solto no convés.
O barco tombou para o lado direito, fazendo um ângulo tal que a verga que cruza um dos mastros chegou a tocar na água.
Com o barco adornado desta maneira, começámos por lançar ao mar todos os ferros e correntes, depois o sal, (de que o navio ia carregado para conservação do bacalhau) e duas horas depois quando já corríamos com o mar e com o vento, novo e violento golpe de mar abriu 5 enormes brechas na popa do Santa Regina, partindo com grande estrondo parte da câmara e levando pela borda fora 3 dos nossos tripulantes.
O mar levou os 3 homens que nunca mais apareceram e levava tudo quanto encontrasse à sua frente… até um tanque de ferro com 3 toneladas de água foi atirado contra as enxárcias do mastro central, quebrando-as e deixando-o desamparado.
Todos os homens correram às bombas, mas os seus esforços resultaram inúteis, pois o navio cada vez metia mais água (…).
Assim nos mantivemos a lutar com o mar até às 17 horas, que foi quando avistámos o vapor inglês Cap. Nelson, que imediatamente acudiu ao nosso pedido de socorro (…), mas só na madrugada seguinte dia 3 de Julho conseguiu enviar-nos por 2 vezes um salva-vidas, que transportou para bordo do Cap. Nelson, todos os sobreviventes. O Santa Regina, em cujas câmaras havia sido lançado petróleo, para que não constituísse perigo para a navegação, afundou-se, em chamas, na latitude 40 34 N. e longitude 37,18 W. …».
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Entrevista ao Cap. João Maria Madalena, a bordo do paquete Lima, em 1938
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Em Jornal de 11 de Junho de 1938, ficamos a saber que a empresa em causa recebera um telegrama do capitão do Porto da Horta, anunciando que tinham chegado àquela ilha 30 náufragos do lugre Santa Regina, tendo falecido 3 tripulantes, sendo, entre eles, Eduardo António Rodrigues, moço, de Ílhavo, mais um da Afurada e outro da Nazaré.
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Os oficiais do lugre Santa Regina e do lugre Bretanha, naufragados, ambos, em 1938
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Nas campanhas de 1939, 40 e 41, «o nosso capitão» pilotou o lugre Cruz de Malta, pertença de Testa & Cunhas, Lda., sob o comando do Sr. José Gonçalves Vilão.
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Nas viagens de 1942 e 43, foi imediato do lugre Milena, sob o comando do Sr. António Augusto Marques (Marcela).
Entre 1945 e 1948 (inclusive), comandou o lugre Senhora da Saúde, adquirido pela empresa Tavares, Mascarenhas, Neves & Vaz, Lda., para a campanha de 1935.
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Em 1949, fez uma viagem como imediato, no arrastão Invicta, sob o comando de João Nunes de Oliveira Sousa, navio de aço, construído na Holanda, em 1948, para a Companhia de Pesca Transatlântica Douro, da praça do Porto. 
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Arrastão Invicta, da praça do Porto, anos 50
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A partir do início dos anos 50, comandou o navio de cabotagem Dione, construído em 1951, nos malogrados estaleiros de S. Jacinto, tendo tido, vários imediatos de Ílhavo.  
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A bordo do Dione, em 1955
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Também conhecido por João do Grande, foi um homem zeloso, trabalhador e amigo da família, de cuja companhia se viu privado tanto tempo, pelas ausências marítimas, cheias de perigos e agruras, desde a mais tenra idade.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência do neto João da Madalena
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Costa Nova, 30 de Setembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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