domingo, 1 de maio de 2016

O bota-abaixo do barco do mar M. FÁTIMA, na Torreira

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Há muito que não vinha para o lado norte da ria… andava a fazer-me falta. Tem um sortilégio que não encontro noutro local, bem como a fibra dos homens da ria e do mar, que por ali se encontram e labutam.
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Foi um privilégio ter assistido ao bota-abaixo do barco do mar, M. Fátima, ou seja, para arte da xávega. Cumpriu-se o grande sonho do Marco Silva, seu proprietário, homem de grande têmpera, trabalhador, empreendedor, construtor de embarcações tradicionais e grande velejador.
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Foto de Jacques Hamel
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Queria substituir o seu antigo barco, de cerca de 8,50 metros de comprimento por um maior, de 11.15 metros, 3.20 m de largura e 1.20 m. de pontal, com  dois motores, pois com o mar não se brinca.
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A burocracia do projecto foi complicada e demorou cerca de um ano a concretizar-se. Hoje foi o grande dia.

O Marco, em situação de trabalho

A imponente embarcação, construída em madeira de pinho, em armazém perto da ria, após os esforços de alguns, lambeu, pela primeira vez, as águas lagunares, tendo descido pela rampa do porto de abrigo da Torreira, num dia ventoso, mas soalheiro, não faltando muito para provar, na cava da onda, a água salgada, com a arte para que foi construída – a arte da xávega.
 
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Rasga a água da ria, pela primeira vez

Como diz o Marco, foi um projecto de família, em que trabalhou ele, a Albina Amador, sua mulher, dois filhos e o Jorge, um trabalhador da companha.
O M. de Fátima, nas águas lagunares, brilhantes e agitadas por uma nortada revigorante, fez um passeio inaugural com os amigos e espectadores, bem como com os artistas do rancho folclórico As Andorinhas de São Silvestre, que actuou no relvado da Praia do Monte Branco, entre céu, ria e pinhal, animando a cerimónia do bota-baixo. Belo efeito. 

Passeio inaugural…

Alguns tocadores do rancho

As caras da proa da embarcação foram habilmente decoradas pelo pintor Zé Manel, bem como o vertente da proa, em que escreveu, pintando: – QUE A VIRGEM NOS PROTEJA.

 
Parabéns ao Zé Manel!
Este bota-abaixo foi integrado na romaria lagunar da Nossa Senhora do Bom Sucesso, que decorre entre 27 de Abril e o primeiro de Maio, na Torreira.
Não faltaram as vitualhas tradicionais, em serviço simples, mas agradável, de óptimo paladar, em ameno e salutar convívio – porco no espeto, saboroso e bem fatiado, servido em agradável pada. Para términus ou abertura um gostoso caldo verde, com rodela de chouriça – e com um tintol, à beira-ria, assim terminou a festança.
Arte de pesca ancestral, a xávega pratica-se, na actualidade, na praia da Torreira e numa extensa faixa do litoral português, representando, para além do sustento de muitas famílias, um enorme valor identitário, social e cultural.
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Ílhavo, 30 de Abril de 2016
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Fotografias – minhas, de Jacques Hamel e gentil cedência da Etelvina
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Ana Maria Lopes
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domingo, 24 de abril de 2016

Homens do Mar - Francisco Ramos - 7


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Em casa de Zé da Pardala. 1993

E cá vem, hoje, a lume Francisco Ramos (Balau). Bom homem, atencioso, educado, sabedor e prestável. Dele fiquei com gratas recordações.
Nascido em Ílhavo (1915-2002), Chico Ramos, como era conhecido, foi grande marinheiro.
Conhecida da família, já que a minha mãe era madrinha da sua filha, Maria Rosalina, eu frequentava a casa, ali num beco próximo, em Espinheiro, com assiduidade.
Imagino que tenha ido cedo para o mar como acontecia com todos, à época. A partir dos registos, foi ajudante de motorista de 1936 a 1939 no lugre Navegador, construído em Fão, por José Linhares, em 1924, com o nome de Esperança. Na campanha de 1929 passou a propriedade da firma Parceria Marítima Douro que o rebaptizara de Navegador.
Em 1940, foi pescador maduro/especial no Santa Quitéria, tendo naufragado em 1941, com água aberta, nos grandes bancos da Terra Nova.

O Santa Quitéria, em naufrágio, em 1941

Sabendo que Francisco Ramos tinha feito oito viagens no Milena entre 1942 e 1950, como contramestre, lembrei-me de folhear o magnífico livro que é Milena - 1948 | Memórias de uma campanha da autoria de Armindo da Silva Bagão, de onde rebusquei alguns diálogos/descrições em que Francisco Ramos era protagonista. A saber…
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Aliás todo o trabalho de marinharia tinha de ser feito com toda a perfeição, até porque o contramestre, o ilhavense Sr. Francisco Ramos, era muito competente em marinharia e exigia perfeição ao pessoal com ele trabalhava. Ílhavo foi um alfobre de grandes contramestres e marinheiros, apreciados até mesmo em navios estrangeiros, p.15. (…)
Em virtude de o piloto nunca ter embarcado e não ter o curso de pilotagem o capitão Tude chama o contramestre, o Francisco Ramos (Balau), homem com grande experiência nos assuntos de mar e diz-lhe:
 - «Ó Francisco, até chegarmos aos bancos da Terra Nova, tu é que vais tomar conta do quarto do piloto e vais-lhe ensinando o que deve fazer e os cuidados que se devem ter com os panos todos em cima e quando se devem mandar arriar as estênsulas (…) respondendo-lhe o contramestre:
- Fique descansado, Sr. Capitão, que tudo vai correr bem», p. 31. (…)
Com o Milena entre vagas alterosas, o capitão volta-se, agora, para o contramestre e pergunta-lhe:
- «E tu, Francisco, qual é a tua opinião, neste momento?».
Responde-lhe o contramestre:
- «Ó Sr. Capitão. A minha opinião é a mesma do Sr. Imediato. Da maneira como está o mar, o Milena não se vai escorar por muito mais tempo de capa ao temporal que está aí».
- «Pronto», diz o Capitão, «Francisco, vais aos ranchos chamar a companha toda para cima, prontos para o pior, porque vamos desfazer a capa», p. 53. (…)
«As vergas depois de bem travadas do balanço foram arriadas pelo pessoal que estava no convés, sem perigo. Foram estes grandes marinheiros Francisco Ramos, Carlos Agualuza e Luís Caramonete», p. 55.
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A bordo do Milena, entre 1946 e 47

Entre 1951 e 1955 (inclusive), Chico Ramos foi pescador especial no lugre-motor Brites, tendo terminado a sua carreira de mar, como contramestre e pescador especial, no navio-motor Celeste Maria, entre 1956 e 1960, construído em 1954, no estaleiro de Manuel Maria Bolais Mónica para a Parceria Marítima Esperança, Lda.

Dóris do Brites

Em mais do que merecida estadia em terra, após a vida de mar, foi de grande simpatia e utilidade para o «nosso Museu», a partir dos anos 90.
Prestou informações preciosas para a execução das folhas de sala da exposição Faina Maior e, sempre que chamado, vinha acudir, a trabalhos específicos de marinharia, na montagem da grande exposição (Novembro de 1992).
A vista, entretanto, começou a atraiçoá-lo, mas nunca deixou de colaborar com maior ou menor dificuldade.
Mesmo no NTM Creoula, quando havia serviços de intercâmbio cultural entre o navio e o Museu, ele, se era solicitado, respondia logo à chamada.

No Creoula, em 1993

No majestoso Creoula, a 19 de Setembro de 1993, ao aparelhar um bote, aplicava o quete da ré, entre outra palamenta.
A minha gratidão e reconhecimento ao Amigo Chico Ramos, grande homem do mar.
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família de Francisco Ramos
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Ílhavo, 21 de Abril de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 10 de abril de 2016

Homens do Mar - José Fernandes Pereira (Lau) - 6

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Foto de estúdio

Hoje, é a vez do Capitão José Fernandes Pereira Júnior, conhecido pelo Capitão Zé Lau, de temperamento muito sui generis, de quem era conhecida, amiga e aparentada, a quem associo sempre o bonito e velhinho lugre Ana Maria, da praça do Porto, a partir de 1939.
Curioso!... As rectas finais de vida do Ana Maria e do Capitão Zé Lau cruzaram-se e confundiram-se.
O capitão Zé Lau, nascido em Ílhavo (1879-1971) foi para o mar aos catorze anos, como era normal, à época, tendo-o deixado, com a provecta idade de 79 anos, em 1958.
Quem, já amadurecido, não se lembra da sua figura – baixote, velhinho, de cabelos muito alvos, rapioqueiro e sempre bem aperaltado –, mas de feitio difícil, com quem era preciso saber lidar. No meu casamento, em 1965, para que fora convidado, com uma vetusta idade, fartou-se de dançar…Gravei-o na memória…
Entre os postos de moço, piloto, imediato a capitão, lá foi sulcando os mares, no meio de muitas peripécias e alguns naufrágios, em tempos bastante difíceis, passando pelos lugres Lusitânia 3º (futuro Terra Nova) na campanha de 1939, Maria Preciosa (em 1937), Paços de Brandão (em 1938 e 39), Alcíon (1940), Silvina em 1941 (piloto), Delães (torpedeado e afundado por submarino desconhecido, em 1942), Oliveirense (1943 e 44) imediato, Labrador, em 1946, Paços de Brandão, em 1947 e Infante de Sagres III, em 1948. De 1952 até 1958, ocupou o cargo de imediato no Ana Maria, ano em que o velho lugre do Porto naufragou, com água aberta, a 7 de Setembro.

Lugre Delães, em alto-mar, cerca de 1940
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O Capitão, Sr. Joaquim Agonia da Silva, de Vila do Conde, e o nosso imediato, entre os seus quarenta tripulantes, foram salvos pela escuna costeira norte-americana «Spencer», que os entregou posteriormente a um navio espanhol. O velhinho Zé Lau, pelos seus 79 anos e pernas enfraquecidas, já teve de ser auxiliado, nestas andanças e mudanças de embarcação para embarcação. Abandonou, então, a vida do mar.
Tive conhecimento que a tripulação fora transportada para Portugal pelo arrastão João Corte Real, como demonstra a imagem, comandado por José Ângelo Ramalheira.

Tripulação do Ana Maria, a salvo
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Em terra, ainda duraria até aos 91 anos (até 1971), a saborear o aconchego do lar e seus familiares, com invejável memória e vivacidade inusitada.
O seu temperamento prejudicou-o, por vezes, na vida profissional, mas era amigo do seu amigo e por ele os colegas tinham grande estima.
Na última viagem que efectuou, numa entrevista que deu a um repórter do Primeiro de Janeiro, em 14 de Abril de 58, contou as suas histórias de mar, revelando: – o veleiro mais antigo da frota portuguesa é o Ana Maria e eu o tripulante mais antigo.
E assim o Ana Maria e Capitão Zé Lau ficaram na memória dos ilhavenses.
Antes do fecho da edição do Marintimidades, chegou-me uma foto de época, que não quero desaproveitar.



Três oficiais da mesma época
 
Capitão Zé Lau, entre dois irmãos Madalena. À esquerda, Mário Francisco Madalena (1903-1986) e, à direita, João Maria da Madalena (1899-1964).
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Ílhavo, 4 de Março de 2016
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 29 de março de 2016

4º Aniversário do Ciemar

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No próximo dia 2 de Abril, sábado, pelas 17 horas, comemora-se, no Museu, o 4º Aniversário do Ciemar.
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Programa:
> Lançamento do Boletim n.º 4 do Ciemar-Ílhavo (edição digital)
> Inauguração da exposição «Bernardo Santareno, um médico na frota bacalhoeira»
> Apresentação da reedição de Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno (co-edição E-Primatur)
> «Nos Mares do Fim do Mundo com Bernardo Santareno» – Palestra de Ana Paula Medeiros
Quem não tenha a velhinha edição da Ática, há muito esgotada, de Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno, ou mesmo quem tenha, desfrutará da oportunidade de adquirir uma reedição da mesma obra, com algumas novidades.
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Para quem não sabe ou não se lembra recordo o acidente que teve, numa mão, o nosso bom amigo, que já não está entre nós, Sr. Samuel Corujo, mais conhecido pelo Sr. Samuel dos barquinhos em garrafas.
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Recordou-me, várias vezes, nas nossas conversas, o acidente que sofrera, a bordo do Santa Mafalda, em 1958, enquanto 3º motorista. Episódio esse, imortalizado pela pena de Bernardo Santareno, ao tempo, médico no Gil Eannes, em Nos Mares do Fim do Mundo, pp. 135 a 138, capítulo, O Vento, o Mar e O Sangue, que me abalanço a respigar:
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Alô! Alô! O «Santa Mafalda» chama urgentemente o médico! Alô! Alô! Médico! Médico!...
Eu estava no «Bissaia Barreto» (…). Foi então, à hora do jantar, que, aflitivamente, este S.O.S. rasgou os ares: o terceiro maquinista do «Mafalda» tinha uma mão esmagada, por acidente de trabalho! Era preciso intervir e quanto antes. E os dois navios navegaram ao encontro um do outro.
O enfermeiro, o Lourenço, a voz trémula de emoção, deu-me pela fonia mais pormenores: um dos dedos, preso à mão por escasso retalho de pele, estava sem dúvida condenado; e além deste, dois dos outros dedos desta mesma mão, com fracturas múltiplas e expostas, teriam provavelmente a mesma sorte.
Era preciso ver as lesões, mas como chegar ao «Mafalda»? O mar, agora, estava bravo como eu ainda não o vira: vagas apocalípticas cruzavam o «Bissaia» em todos os sentidos, o vento levava pelos ares madeiras e cordame, a névoa tornara-se impenetrável. Como? Como passar?! (…)
… Era impossível tentar a minha passagem. Ai, o alívio que eu nesse momento senti! (…)
Em todo o caso e sempre pela telefonia, lá fui dando instruções de que me lembrei ao pobre Lourenço.
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Era desesperante.
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O mar atingira o auge da fúria: rasgava tudo; vencia, com o seu clamor monstruoso, os pobres gritos humanos; lavava, com a espuma claríssima das suas ondas, a sangrenta nuvem daquela hora.
(…) Mas aquele ferido, tão novo, um rapaz… ai, aquela mão! E se fosse possível salvar-lhe os dedos lacerados? Bem bastava o outro, o que já tinha sido amputado (…).
E mandei seguir o «Santa Mafalda» para terra.
(…)
Recebi hoje – oito dias sobre este acidente – uma notícia admirável: o terceiro maquinista, apesar da brutalidade das lesões, ficará com os seus dedos!
Tudo valeu a pena: a angústia daquela hora, a raiva humilhante da minha impotência, o suor de sangue e fel do Lourenço, o desespero dinâmico do comandante do «Mafalda». Valeu a pena, valeu a pena!
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Com a forte e bela narrativa de Santareno, ficou Samuel Corujo imortalizado na nossa literatura marítima e com os “seus barquinhos”, lembrado nas colecções de miniaturas de veleiros em garrafas, espalhadas por todo o mundo. 
Nos anos 80, em sua casa
Ílhavo, 29 de Março de 2016
Ana Maria Lopes

domingo, 20 de março de 2016

Homens do Mar - Júlio da Silva Paião - 5

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Em maré de irmãos, mais uma belíssima fotografia, sd., e cliché do Capitão Almeida (muito possivelmente), do irmão Paião, mais novo – Capitão Júlio da Silva Paião (1905-1945).
Com mágoa, não conheci, este homem do mar, porque partiu demasiado cedo. Tendo conhecido, desde muito jovem, a Senhora D. Vicência Fonseca, sua viúva, porque frequentava na mesma casa as explicações da Senhora D. Micas Fonseca, sei lá… não tinha idade para relacionar as famílias, nem nunca o teria sabido.
Eis que no lançamento do primeiro livro do Engenheiro Fonseca Nas Rotas dos Bacalhaus – Séc. IX ao Séc. XVI, em 2005, na avidez de me inteirar do seu conteúdo, dei de caras com um depoimento, de que respigo umas palavras, que, para mim, foram mais fortes, afectuosas e comoventes do que todo o resto – sempre disse o que pensava a esse respeito.
Refere o autor: - Mas fi-lo acima de tudo, por reconhecimento a tantos com quem convivi, de quem ouvi histórias de pasmar – e de encantar! –, que me deram uma vida plena de orgulho ao poder ajoujar-me à auréola da sua grandeza. De todos esses, que tantos foram! – seja-me permitido destacar (…) em particular o meu tio e padrinho, Cap. Júlio Paião – figura de enorme prestígio entre os seus pares, homem singularmente austero, de  uma frontalidade que raiava a dureza no trabalho, mas onde coexistia uma babada e quase obsessiva dedicação a este seu sobrinho (…)  com quem, diariamente, anos a fio, percorri de bicicleta os caminhos para o ancoradouro do CRUZ DE MALTA (…).
Ainda por cima, no Cruz de Malta, o navio mais velhinho e de menor capacidade de Testa & Cunhas, mas, talvez porque tivesse sorte, era considerado a mascote, uma espécie de talismã, para a empresa.
Apressei-me a ir àquelas relíquias que são as fichas do Grémio, uma grande ajuda para identificações de homens, navios e cargos e tudo batia certo.
Segundo a mesma fonte, fora piloto no José Alberto, da praça da Figueira da Foz, em 1936, piloto e/ou imediato, alternadamente, no Gazela I, da praça de Lisboa, entre os anos 1937 a 40 (inclusive), sendo capitão o seu irmão Francisco. E com fotógrafo a bordo, mais um bonito cliché, no Gazela, em 1937, enquanto piloto, imagem datada e documental.
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A bordo do Gazela, em 1937

Em 1942, tivera a oportunidade de passar para navios da praça de Aveiro, nomeadamente para Testa & Cunhas, tendo feito a campanha de 1942 como piloto do Novos Mares, lugre de 4 mastros construído em 1936, nos Mónica, que o meu avô Pisco inaugurara, nesse ano, só à vela, em viagem à Groenlândia. Ter-se-iam cruzado, pois o meu avô deixou o mar, nessa última viagem de 42. Coincidências!…
O Cap. Júlio Paião transitou para o Cruz de Malta, nos anos de 1943 e 44, como capitão, tendo já chegado abalado de saúde, no fim da viagem. Com promessa da empresa de que viria a comandar o Novos Mares, pois já estava na carreira o navio-motor Inácio Cunha, a vida não o deixou enfrentar mais do que uma longuíssima viagem, que a todos espera, mais tarde ou mais cedo, viagem sem retorno.

À direita, no Cruz de Malta
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Ílhavo, 28 de Fevereiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 10 de março de 2016

Música a bordo

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Em visita fortuita às reservas do Museu, deparei com uma grafonola antiga e incompleta com discos de vinil, de 78 rotações, que me fixou o olhar, que logo transmitiu o sinal à mente. Depois de observar o necessário, a conversa girou em torno da grafonola, a propósito de umas cavaqueiras tidas há muitos anos com o velho lobo do mar Capitão Almeida, assim era conhecido.
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Mais tarde foi-me dada a possibilidade de fotocopiar uns apontamentos dele, que possuo, a que recorro com alguma frequência. E assim foi. No Museu, contei aquilo de que me lembrava e, em casa, lá fui a esse baú, tenho vários, e dei logo com o que queria.
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Confessou-me o Capitão Almeida que, no primeiro ano de comando da pesca do bacalhau no lugre Argus (em 1933), mais tarde o Ana Maria da praça do Porto, após reconstrução sofrida no estaleiro de António Maria Mónica, na Gafanha da Nazaré, transmitiu música a bordo.
Argus velho, em 1934
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- Fui o primeiro capitão a dar música a bordo, para o que comprei, por intermédio do meu irmão mais velho, Manuel, uma caixa de música com corda manual, que ainda possuo, (e alguns discos de vinil antigos), com que contemplava os pescadores, em dias de boa pesca e bom tempo. Dizia-se que dava azar música a bordo (dizeres do povo), visto que no Titanic, quando se afundou (1912), a orquestra tocava a bordo.
- Pensei nisso – continuou a conversa – o que me fez, um dia, em que a pesca não estava a correr bem, partir o disco da Ramona, da Samaritana e outros de que gostava muito.
- Mas nunca desisti de dar música, até convencermos os armadores da Parceria Geral de Pescarias, Lda. a fazerem instalação eléctrica de música com altifalantes para o convés.
A música animava muito a companha e, muito principalmente, durante a escala, último e árduo trabalho a bordo, diariamente, depois da pesca, quando o tempo estava bom. Foi uma lição para os navios de outras companhias, em que os capitães também gostariam de música.
Os capitães da Parceria Geral de Pescarias, Lda. podiam, pois, considerar-se precursores da música a bordo sem maus presságios para a pesca. Quantas vezes, através dos nossos postos emissores enchemos o espaço de música, que outros navios, ainda sem instalação emissora, ouviam com agrado.
Mais tarde, foi-nos proibido pelo Gil Eannes, porque de terra se queixavam que interferíamos nas comunicações do correio e outras. Teria sido?
Mas, só para bordo, a coisa não falhava por intermédio de altifalantes.
Foi à volta deste episódio que, na hora lembrei, junto da grafonola, que a nossa conversa rodou.
Trazida da Parceria nos anos 90, anima as reservas do museu
A prova tinha passado por mim, pois «aquela grafonola» tinha sido trazida da Parceria (em 1991), pela equipa de pesquisas, preparatórias da montagem da Faina Maior.
Giraram os discos e rodou a vida. Tem sido um tal voltear!
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Ílhavo, 18 de Fevereiro de 2016
Ana Maria Lopes
 

terça-feira, 8 de março de 2016

Manuel Tavares - um aguarelista a fixar...

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Não passei estes dias de Carnaval cinzentão, pelo menos por cá, só a dar-me o prazer de me rever mais jovem e a desfilar em corsos. Águas passadas não movem moinhos – diz o povo e com razão.
Também «escodrinhei o baú» da pintura. Depois de ter terminado um sucinto post sobre o aguarelista ilhavense Hipólito de Andrade, vieram-me à mente, também umas aguarelas de Manuel Tavares, que não sendo ilhavense nem aveirense plasmou a nossa bela região lagunar com pinceladas muito «suas». Manuel Tavares conhece-se à distância, mas muito pouco de concreto de sabe da vida dele.
Em 1979, na então galeria Grade, sob a tutela de Zé Sacramento, houve, entre 19 de Maio e 3 de Junho, uma exposição de homenagem a Manuel Tavares.
Neste pequeno catálogo, depõem algumas pessoas que o conheceram, de que respiguei algumas palavras, mas muito pouco se continua a saber sobre o artista.
Nasceu em Oliveira de Azeméis em 1911 e morreu em 1974 (?).
Pintor e aguarelista, pai de Manuel Ferreira, nascido em Aveiro, também pintor, de um hiper-realismo estonteante, residente pelos Estados Unidos – soube-o numa galeria do Porto.
Porquê interessar-se o Marintimidades por Manuel Tavares? A ver vamos.
Autodidacta, com tendência para a vida boémia, saltitou de terra em terra, esquissou aguarelas em varadíssimos lugares. Segundo Mário de Oliveira, crítico de arte, o artista foi dos maiores aguarelistas nacionais, pincelando a aguarela, com espontaneidade e grande impulso emocional.
Tem lugar ao lado dos grandes aguarelistas nacionais tais como Alberto de Souza, de quem foi grande admirador e de que são visíveis algumas influências.
Aguarelista de ambientes rurais, foi dos ambientes urbanos (Lisboa, Porto Aveiro), que nos deixou os melhores clichés. E, para mim, é o pintor da água, de céus azuis que nos retrata as marinhas de Aveiro, os moliceiros lagunares, os saleiros no canal de S. Roque e as redes a secar na Costa Nova, que mais me encanta. Tinha de ser.
O «nosso» Cândido Teles, referindo-se a Manuel Tavares, disse que foi ele o primeiro aguarelista que vi interpretar os motivos da nossa ria, facto que me causou forte impressão e constituiu grande incentivo no começo da minha vida artística.
Na altura, MT já trabalhava com certa desenvoltura os temas que vieram a ser a sua predilecção: os palheiros do bairro piscatório do sul da Costa Nova, as bateiras da chincha e os moliceiros afundados nas águas calmas.
Mas, o que mais impressão me causou era o modo como o pintor conseguia obter os seus céus tão luminosos e as suas águas tão transparentes.
Mais do que dizer mais, mais vale contemplar alguns exemplares, que tenho à mão:

Marinhas de sal. MMI. 1941

Secando as redes. MMI. 1941

Moliceiros na Ria de Aveiro. 1960
(em leilão)
 
Aparecem com alguma frequência quadros de Manuel Tavares, em antiquários ou leilões.
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Ílhavo, 9 de Fevereiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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