domingo, 17 de março de 2019

Quem quer galeota?!.............



São 16 de Março.

Galeooooota!

Já há galeota – ouve-se.
É tempo dela! Pregão único, mas bem timbrado, prolongado e amiúde!

Dura, de um mês a mês e meio, a venda da galeota pelas ruas de Ílhavo e zona das Gafanhas, porta a porta. Recordo os pregões desde sempre, mas de ser, tão!..., tão miudinho, era peixito que nunca me cativou. Se bem que um petisco para muita gente! No início da safra, é sempre cara como fogo; pudera! há um ano que não se lhe chinca!!!! Mas à medida que se banaliza (por se ir transformando no lingueirão), o preço desce, permitindo que bolsas menos ricas lhe acedam.

Sempre mais preocupada com as embarcações e processos de pesca usados do que com os prazeres gastronómicos, ia frequentemente até à Costa-Nova (junto à Biarritz e San Sebastian), observar a sua apanha e ver as redes, bastante sui generis, nos trapiches, a secar. Pelos anos 80 recolhi os dados, que, agora, me dão um jeitão.
Hoje era capaz de já ter preguiça de andar, de botas de água pela borda da ria ou junto às coroas, para gravar conversas e bater chapas.
A rede da galeota é uma arte de cerco ideada especialmente para a captura daquele peixe.
Consta, essencialmente, de uma tira de rede, que adelgaça para os calões, tendo, no centro, um rectângulo de pano branco. Este pano, antigamente um lençol já puído, é, actualmente, substituído por um cortinado também fora de moda, de nylon, de textura adequada.
O comprimento da rede é de cerca de 30.00 metros e os calões medem cerca de 0,40 m. de altura. A arte é feita com rede usada, de traineira.

Uma bateira vulgar (ou qualquer outro género de embarcação de fundo chato), é o tipo de embarcação utilizada neste processo de pesca.
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A rede junto ao calão
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Fica um pescador em terra aguentando o cabo do reçoeiro, enquanto a bateira se afasta da margem, largando a rede, a favor da corrente.
A partir do meio da rede, a embarcação dirige-se para a margem, completando o cerco, para o que fez um percurso, sensivelmente, em semi-círculo.
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A zona do pano branco da rede
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Abicada a bateira, os pescadores saltam para a água e, em conjunto com o que havia ficado na margem, alam a rede. Vão-lhe dando sacudidelas rítmicas, para espantar e conduzir o peixe para o pano. Percorrem a tralha da cortiça, até que ao chegar ao centro, com a galeota amontoada junto ao pano, levantam a rede fora de água, deitando o produto do lanço no quete da embarcação.
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Pescadores levantam a rede
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A galeota, quando perseguida, esconde-se na areia branca, enterrando-se rapidamente. A arte aproveitou engenhosamente esta particularidade, pois o pano branco consegue enganar a galeota, dando-lhe a ilusão de areia. Por vezes, apenas dois pescadores lançam a rede.
A época da galeota começa em meados de Março e prolonga-se até aos fins de Abril, variando ligeiramente com a influência das condições meteorológicas, das marés, da transparência e calmaria das águas.
A galeota mais apreciada pelos entendidos é a primeira, por ser mais pequena (a larva do lingueirão). Depois de crescida, já não é tão saborosa (dizem os degustantes).

Apanhado o petisco sazonal, é preciso fazer o seu escoamento imediato no mercado da Costa-Nova, nos restaurantes da zona, porta a porta, em grito estrídulo:
Galeooooota!

Compradoras aparecem às portas!
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Avia-se a freguesa…
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Curioso o processo de venda, no passeio ou à porta, medindo a porção a fornecer à cliente, pelas mais variadas e expeditas maneiras: a mais típica, a concha da mão, formada pelo indicador enrolado, circundado pelo polegar; o copinho de vidro, em alternativa ao pires da chávena de café e, modernamente, também, o copinho de iogurte.
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Peixeira lá vai  pelo passeio

E o pregão continua, estridente e bem-sonante: Galeooooota!

Regateia-se preço e medida; se a vendedeira é enganadeira, basta-lhe fechar mais os dedos, variando a capacidade da concha. Ou tenta pôr mais água enquanto que a freguesa prefere o peixinho a nadar menos. 
Em anos de fartura,   até se pode ajustar também ao quilo.
O petisco mais vulgar será a caldeirada; mas também há quem faça, posteriormente, uma papa rala de farinha de pau, recuperando a molhanca da caldeirada. Existe ainda uma receita mais sofisticada: as pataniscas (bolos) de galeota.
Galeooooota! Galeooooota! – Ouve-se cada vez mais ao longe!!!
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Era assim... e, este ano, ainda vai sendo. Parece que tem havido bastante.
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Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho
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Ílhavo, 17 de Março de 2019
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Ana Maria Lopes-

sexta-feira, 15 de março de 2019

O bota-abaixo do Rainha Santa


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Faz, hoje, 58 anos, que o Rainha Santa desceu na carreira…
Um dos últimos navios-motor a ser construído nos estaleiros do Mestre Benjamim Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, para a firma Pascoal & Filhos, Lda., foi lançado à água no dia 15 de Março de 1961.
O navio, construído em madeira, tinha capacidade para 14 000 quintais de peixe.
O bota-abaixo aconteceu segundo os procedimentos habituais, mas já com bastante menos fulgor.
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O navio embandeirado em arco…
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Características – Comprimento, entre perpendiculares, 48, 91 metros, 10,47 de boca e 5, 35 de pontal. A arqueação bruta era de 829, 61 toneladas e a líquida, de 435, 33.
Albergava 21 tripulantes e 59 pescadores.
Foram seus comandantes, João Fernandes Parracho (Vitorino), de 1961 a 1965, João José da Silva Costa, de 1966 a 1972 e António Tomé da Rocha Santos, em 1973.

Naquele período, a vida era bastante intensa no porto bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré e, sempre que tocava a sirene, em Ílhavo, e constava que o incêndio era a bordo ou em alguma seca, uma tal correria despontava para lá, com interesse na observação do acidente.

Foi o que aconteceu no dia 25 de Fevereiro de 1974. Sireeeeene…toque de fogo!!!!!!!!!!! Incêndio no Rainha Santa! E numa debandada, muita gente acudia, num misto de curiosidade e pavor.
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Incêndio a bordo…

Um grande incêndio deflagrou a bordo, devido a curto-circuito na casa das máquinas – era notório. Colossal azáfama – bombeiros das corporações de Aveiro e de Ílhavo, assistentes, curiosos – um corrupio.
Segundo informação colhida no momento, o navio, dificilmente poderia ser recuperado para a pesca e, sobretudo, para a campanha próxima, para a qual se preparava. Milhares de contos de prejuízo.
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À época, não foi muito badalado o destino do navio. Abandonado no cais durante uns tempos, esteve perto de ser desmantelado, mas acabou por ser procurado por um empresário de Avanca, segundo informação colhida na zona, Sr. José Resende, que o adquiriu à empresa proprietária com a intenção de o preservar. Projectos destes nunca foram muito acessíveis.
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Acabou por ter sido recuperado parcialmente e ter feito, a reboque, as últimas milhas, através do Canal de Ovar da Ria de Aveiro, em inícios dos anos 80, tendo acostado junto ao chamado Monte Branco (Torreira), transformado em restaurante/bar. Outra vida, em que também não teve grande sucesso…
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Imagens da Foto Resende
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Ílhavo, 15 de Março de 2019
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Ana Maria Lopes-

sexta-feira, 8 de março de 2019

O arrastão Cidade de Aveiro... adornado

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O Cidade de Aveiro adornado

Quem não foi ver? Quem não se emocionou? Uma tragédia plasmada e reflectida nas águas calmas da nossa ria, ali, na Gafanha da Nazaré.

Percorrem-se arquivos, relêem-se jornais da época, aviva-se a memória e monta-se o «puzzle». Faz hoje cinquenta anos.

Ao amanhecer do dia 8 de Março de 1969, tocou insistentemente a sirene dos Bombeiros. O sono foi mais forte, mas de manhã, o que aconteceu, o que não aconteceu…era um burburinho por todo o Ílhavo. O Cidade de Aveiro, tinha-se virado, de noite, na Gafanha da Nazaré.

O Cidade de Aveiro? Aquela bisarma! O melhor, o mais recente e o mais moderno navio de pesca jamais construído em Portugal, o primeiro daquele tipo de arrasto pela popa, tinha-se voltado?.... Era um espectáculo, se bem que emocionante, a não perder. Sem condições adversas, sem ilhas de gelo, sem interferências externas, sem temporais, o que teria acontecido? Nunca foi muito bem aclarado, creio; ou, pelo menos, não veio a público. Provavelmente, também não conviria.

O Cidade de Aveiro, pertença da empresa João Maria Vilarinho Sucr., Lda., tinha sido construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e entregue ao armador, em Abril de 1966, a cujo bota-abaixo tinha assistido o Ministro da Marinha.
  
O Cidade de Aveiro no dia do bota-abaixo, no Estaleiro de Viana – 1966

Aquando do acidente na Gafanha da Nazaré, era seu Capitão o Sr. Joaquim Manuel Marques Bela, de Ílhavo, já falecido, que o comandou de 1967 até 1979.

Então, como já referi, tombou para EB, o Cidade de Aveiro, mesmo juntinho ao Cais dos Bacalhoeiros, no baixa-mar.

Tinha chegado há pouco dos pesqueiros com 18 000 quintais de peixe, que estava a descarregar, quando, inesperadamente, assentou no lodo do fundo, tendo virado.
Os prejuízos causados, apesar do seguro, foram vultuosos, não tendo podido o navio fazer a viagem seguinte.
As entidades competentes procuraram saber a causa da ocorrência, mas pelo menos, exteriormente, nunca se souberam os verdadeiros motivos: deficiente amarração do navio?... Estabilidade insuficiente?.... Teria sido descarregado o peixe dos porões e teriam sido deixados no convés, por descarregar, muitos tambores de óleo?

Após esforços avultados de técnicos experientes, as operações de salvamento foram coroadas de êxito, já que não se acreditava na capacidade de o navio voltar a flutuar.
Uma draga cavou um fosso junto à quilha do navio, em todo o comprimento. Com molinetes a puxá-lo da outra margem do canal, em consonância com as marés, ao fim de muito esforço, a quilha assentou na cova feita pela draga e o navio começou a endireitar-se. 

Volvidos mais de dois meses, voltou ao Tejo, a reboque dos rebocadores Praia da Adraga e Praia Grande, da Sociedade Geral, para receber as reparações necessárias, arrematadas pela firma H. Parry & Son, no valor de 15 180 contos. Com os trabalhos complementares, a despesa do salvamento do navio ficou em cerca de 19 000 contos.
Tinha pela sua frente mais uns anos de pesca, poucos, com bons carregamentos, já que a sua existência foi efémera.
  
O arrastão Cidade de Aveiro, nos anos 70

Na fatídica tarde do dia 3 de Outubro de 1979, quando o navio navegava em condições normais, já de regresso, no mar dos Açores, uma explosão na casa das máquinas, que provocou um violento incêndio a bordo, atirou-o para as profundezas do Oceano. A tripulação abandonou o navio nas baleeiras de bordo, que foram socorridas por um navio russo, que os transportou para Leixões e por um cargueiro francês, que seguiu viagem até ao Havre. Infelizmente, o mar e as suas contingências não perdoam e o segundo maquinista, João Alberto Ramos Filipe e o terceiro, João Valente Sardo, ambos da Gafanha da Nazaré, não resistiram às queimaduras sofridas na explosão e acabaram por morrer. Triste sorte! O mar foi, é, e será sempre o MAR!!!
Perdeu-se, assim, o arrastão Cidade de Aveiro, com uma existência sobre as águas do mar e da ria, nada tranquila, com a perda irreparável de duas vidas!
Serão bem-vindos comentários de quem saiba mais pormenores.
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Ílhavo, 8 de Março de 2019
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Ana Maria Lopes-

quarta-feira, 6 de março de 2019

São Jorge, uma relíquia de peça...


Era uma vez um São Jorge… e então? Que se segue?
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Num sábado, 10 de Março de 1956, com 12 anos, fui madrinha do navio-motor São Jorge, propriedade da Empresa Testa & Cunhas, construído na Gafanha da Nazaré, nos estaleiros de Manuel Maria Mónica. Passados 63 anos, ainda é um assunto que me toca, de que tantas vezes já falei. E esta vai ser mais uma.
As cerimónias de bota-abaixo fascinavam-me. Não me imaginava personagem principal do que para mim, com aquela idade, era um conto de fadas…
Um belo dia, apareceu-me ali em casa, no Curtido de Baixo, o Sr. António Cunha, então gerente da Empresa, a convidar-me para madrinha do São Jorge, que estava, então, em construção.
Porquê eu? Que sensação! Madrinha de um navio? Parecia-me convite só para gente importante e crescida!
O nervosismo e a ansiedade intensificavam-se à medida que a data se ia aproximando…
No sábado escolhido, o dia estava bonito, mas com um ventinho norte a soprar com alguma intensidade.
Aguardava a hora da maré o São Jorge, na carreira, donairoso e altaneiro, na imponência da sua altura, de cores claras, hasteando o mareato colorido, da proa à popa, esvoaçando ao vento.
Um bota-abaixo na Gafanha era sempre um acontecimento festivo: no estaleiro e em todos os caminhos em redor via-se muita gente para assistir ao sempre emocionante espectáculo. Ansiedade! Emoção! Expectativa! E na ria, toda a frota bacalhoeira, embandeirada em arco pela «camaradagem» de mais um barco que a ia enriquecer.
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Na carreira, antes do bota-abaixo
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O São Jorge era um navio-motor que deslocava mil toneladas com capacidade para catorze mil quintais de pesca.
E a razão do nome?
São Jorge é um nome que anda ligado à História de Portugal, desde que Portugal nasceu. Era o grito de guerra – «S. Jorge e Portugal!» – que levava vitoriosamente os nossos exércitos até à derrota dos inimigos. Quis a empresa dar-lhe esse nome como um símbolo e eu, como madrinha, ofereci-lhe uma bonita imagem do Santo a cavalo, de espada em riste, a lutar com o dragão, que sempre viajou durante dezenas de anos, a bordo, na câmara dos oficiais, desde 1956 até 1972, ano em que a empresa o vendeu. Era hábito que esta câmara tivesse uma imagem ou fotografia alusiva ao nome do navio e, neste caso, foi esta.
Nessa altura, chamou-me o Dr. António Alberto Cunha, à empresa, para me entregar a dita imagem do santo que, como madrinha, ofertara ao navio. Passou a fazer parte dos meus bibelots de estimação, para que olhava com enlevo.
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Aquando da montagem da exposição Faina Maior, propus ao grupo de trabalho que tal peça fosse incorporada no painel «câmara dos oficiais», por empréstimo. Aí esteve nove anos, até que, quando deixei a direcção do museu, trouxe a minha peça comigo, para ocupar o lugar que ficara vazio, na minha casa.
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À direita, em cima, confirma a presença, na exposição dos anos 90
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Mas, o tempo passa, já lá vão quase 20 anos e comecei a sentir que o lugar ideal para aquela peça era mesmo a câmara dos oficiais da exposição Faina Maior, no MMI.
Noutro dia, em conversa com a conservadora do Museu, Catarina Resende, veio à baila o sempre tão delicado assunto da doação ou do depósito de peças em museus, desde que o donatário exija a exposição definitiva, e contei-lhe, entusiasmada, esta história, com o pedido que fizesse chegar a quem de direito, a minha intenção de oferecer a peça, a imagem e respectiva peanha, tão vividas, que tanto balanço suportaram a bordo do navio, em alto mar.
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São Jorge, em peanha, adequada ao balanço marítimo
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Tendo sido a resposta positiva, assim a entreguei no museu, para que viesse a ser recolocada na câmara dos oficiais da Faina Maior, como tinha acontecido nos anos 90. E, desta vez, foi de vez.
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Ílhavo, 06 de Março de 2019
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Ana Maria Lopes-

domingo, 3 de março de 2019

Os meus carnavais ... do antigamente


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Gostava da época de Carnaval, sem dúvida. Uma paragem de aulas, uma época de folia.

Mas nunca fui de muitas folias. O meu Carnaval era mesmo à séria. O meu sortilégio começava exactamente logo no início de Janeiro com a feitura, reciclagem ou compra da vestimenta. Tudo a rigor, sim, gostava e defendia – figuras, na moda, em novelas (Dona Beija), frágeis mulheres, personagens de belas óperas (Madame Butterfly) e trajes, sobretudo, etnográficos (noiva do Minho, nazarena, tricana com traje de museu, etc.). Ditava os riscos, comprava os tecidos e experimentava, sempre que necessário. Gastava o espelho… Espelho meu!... Espelho meu!...
Desfilava individualmente, entre grupos, nos corsos ilhavenses, em anos que já lá vão (anos 80/90).

Com os meus quarenta anos e sangue na guelra, sempre adorei o traje, a arte de trajar, cada um a seu jeito.
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Por Ílhavo, recordo o Só Ca Boca, figura característica, que evocava o pescador do bacalhau, de rabana e sueste, oleados, tentando os garotos que se esforçavam por apanhar só com a boca, um figo pendurado de um pau e fio, em agitado movimento.
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E o Homem do Gabão? De nada mais precisava do que um típico gabão de burel, atado à cintura com uma corda, uma máscara e umas luvas, para que algumas características das mãos não identificassem o mascarado ou mascarada.
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E as batalhas de flores, com carros alegóricos, em volta do jardim? Essas já não são propriamente do meu tempo, mas ficaram na memória de muitos.
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Um rasgado elogio para a figura do Cardador de Vale de Ílhavo, pela sua vestimenta e máscara originais e mágicas, que chegaram a desfilar também em alguns corsos de Ílhavo. Por Vale de Ílhavo se mantêm, e ainda bem, e de lá não saem, num carnaval, que é micro local.
Na minha variedade de indumentárias, sempre me disponibilizava para desfilar em cortejos de beneficência, para algumas instituições. Outros tempos, outras modas! Hoje, passaram de moda…
Espaço não nos faltava – um jardim em redondel e duas belas avenidas bem rasgadas, mas, muito mais seria preciso.

A atraiçoada Butterfly, da ópera de Puccini. 1981

A Dona Beija, de uma novela, então, na moda. 1982
  
A noiva do Minho, entre «bichaneiras». 1983
  
A típica nazarena das sete saias. 1984

Cortejo do Centenário dos Bombeiros. 1993
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E, por aqui, ficamos…ou ficámos…?
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Ílhavo, 3 de Março de 2019
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Ana Maria Lopes-

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Homens do Mar - Cap. Francisco Leite - 53


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Cap. Francisco Leite

Numa tarde cálida de fim de Agosto, soalheira, luminosa, de maré cheia, eis que se plasma, longínqua, no horizonte, a imagem de um barco à vela, impulsionado por uma brisa suave e mansa, na Costa Nova. De casco envernizado, de linhas quebradas, dá pelo nome de OK (apa), duas letras também estampadas a negro, na vela branca, alumiada pelo sol poente reflectido na Gafanha da Encarnação. É o dono eterno deste barco que, hoje, vem à baila, em Homens do Mar, a que, aos poucos, venho dedicando algumas horas do meu trabalho e do meu lazer.
Além dos dados, que, oficialmente, pude recolher, dos que tenho conhecimento, foi a filha Teresa que, amavelmente, me cedeu alguns materiais que foram do pai e que conversou comigo, entusiasmada, saudosa e exuberante.
Sempre aliei o nome do Cap. Chico Leite à pesca do bacalhau, porque foi, sobretudo, no Museu de Ílhavo que mais contactei com ele e muitas vezes lá foi, como amigo do Cap. Chico Marques, também. Por lá aparecia, com frequência.

Apenas durante 11 anos foi homem dos bacalhaus, se bem que tenha comandado durante bastantes mais anos, outros e diversos navios.
Sempre viveu entre mar e ria e dentro ou perto de navios e embarcações.
Francisco Manuel de Oliveira Leite, filho de José Gonçalves Leite Júnior e de Alzira Teiga Leite, nasceu em Ílhavo, a 27 de Agosto de 1929, um de três irmãos, no masculino e no feminino, tendo sido José Teiga Gonçalves Leite, irmão mais velho, digno oficial da Marinha Mercante.

Do casamento em 6 de Dezembro de 1958 com Joana Maria Peixe Rodrigues, nasceram duas filhas, a Ana Margarida e a Teresa Paula Leite.
Francisco Leite era portador da cédula marítima nº 116.148, passada pela Capitania do Porto de Lisboa, em 16 de Junho de 1949.
O facto de ser de Ílhavo, os genes familiares eram o suficiente para o terem levado para a Escola Náutica. Pertenceu a uma última geração de capitães-pescadores, que não acabou a sua vida profissional, na pesca do bacalhau, tendo-lhe dado, posteriormente, outro rumo.
A sua primeira viagem ao mar, em 1950, foi no arrastão Fernandes Lavrador (já citado), da praça de Lisboa, como praticante de piloto, apenas na 2ª viagem, sob o comando do ilhavense Fernando Oliveira da Velha.

Junto ao arrastão Fernandes Lavrador, à esquerda, em 1950

Na campanha seguinte, de 1951, fez-se ao mar como imediato do belo lugre-motor Hortense, sob o comando do Cap. João Simões Chuva, o Anjo, também de Ílhavo.

A bordo do Hortense, entre a filha e a mulher do capitão

E chegou o ano de 1952 para rumar, de saco e enxoval, ao convés do navio-motor de ferro, da praça de Viana, São Ruy, (já citado) onde ocupou o cargo de piloto, tendo como capitão, José Pelicas Gonçalves Bilelo e imediato, João Araújo, de Viana do Castelo. Nos anos de 53 e 54, assim se manteve a oficialidade, com pequenas alterações – o capitão, sempre o mesmo, Chico Leite alternou o cargo de piloto com o de imediato, em 1953, sendo piloto, Orlando Brandão Vidal, nesse ano.
Chegou-me às mãos uma relíquia da viagem de 1952, no São Ruy – agenda pessoal, pormenorizada, escrita pela mão do piloto.
Li-a com muito interesse e entusiasmo, como é natural. Dela respiguei algumas notas, porque confirmavam o que já sabia, ensinavam-me o que desconhecia e descreviam alguns incidentes e decisões a bordo, na perspectiva do piloto, não sendo um diário oficial.

Boas amizades, a bordo… 1952

Pelo que li, os tempos mortos em Lisboa, eram ocupados com idas ao cinema, ao teatro e até ao futebol e com algumas compras para a viagem. Com frequência, oficiais amigos encontravam-se para almoçar, por vezes, também, com representantes oficiais das pescas. E seroadas também se faziam, entre uns cálices de licor e umas conversas. Neste caso, o relacionamento era mais entre oficiais do São Ruy, do Adélia e do Sotto, namorando, na altura, o Chico Leite com a Rosa Maria Vaz, filha do Cap. José Vaz. E assim se ia aproximando o dia da Bênção.
A 24 de Maio, depois da pesca da Terra Nova e de uma estadia de 8 dias em St. John’s, em que meteram isco, saiu o São Ruy para a Groenlândia. Os ditos apontamentos sempre referem as condições de tempo e mar, a hora dos Louvados, que oscilava entre as 4.00 h e 4 e meia, a distribuição do isco, a hora da chamada, o términus da escala e considerações sobre a quantidade e qualidade de peixe pescado. Em dias de brisa e foram alguns, não se arriou e aconteceu chegar a distribuir-se o isco e voltar a ser recolhido – o isco era um bem precioso, que tinha de ser tenteado – por brisa ou informações de mau tempo. Também as empostas feitas foram anotadas.
Durante os dias de pesca na Terra Nova, algumas notas dignas de apreço:
No dia 29 de Abril, à vista, estavam o Madalena, o Conceição Vilarinho, o Milena, o Inácio e o Argus.
Em dias de brisa, depois de acauteladas algumas situações no navio, o imediato deitava-se a ler, para além de alguns dias em que conversavam no salão ou no camarote do capitão.
No dia 17 de Maio, pelas 12 horas, com os botes já todos a bordo, suspenderam e foram para St. Jonh’s. Más condições de tempo.
No dia 18, pelas 21.00 h, meteram piloto e às 2 1e 15, atracaram.
Cerca de oito dias em terra, com afazeres diversos, – algumas compras, visitas a famílias amigas, idas aos «habituais clubes», recepções a bordo, jogatanas de futebol no cais. No dia 22, começaram a meter isco e a 24 de Maio, saiu, então o São Ruy para a Groenlândia.
(…)
No dia 29 de Maio, navegavam com bom tempo e mar. Às 12.00 h, começaram a avistar-se algumas ilhas de gelo pela proa. Às 18, veio muita névoa e às 21,45, pararam por ser perigoso navegar com névoa, por meio de ilhas de gelo.
No dia 30, o piloto fez o quarto com o navio parado, mar estanhado e névoa fechada. As informações de pesca eram péssimas. Das 11 às 13.00 h, passaram por diversos campos de gelo, qual deles o mais fechado. Meteram-se por meio deles por causa da névoa e viram-se obrigados a passar por um buraco, onde mal cabia o navio. Avistaram-se focas, sobre várias ilhas de gelo.
No dia 31 de Maio, com bom tempo e mar, iscaram-se, ontem, os «trawls», pelo que arriaram cedo.
Apesar disso, não pescaram nada e, por isso, também arriaram cedo. Pesca nula. Estavam na beirada de SW do Fiskenaes, onde, este navio, no ano passado, apanhou muito peixe. Como a falta de peixe é geral, supõe-se que o bacalhau ainda não entrou nos bancos, devido à baixa temperatura a que está a água.
No dia 1 de Junho, ouviram a «hora da saudade» da Gafanha, que se ouviu bem. Falaram alguns conhecidos.
No dia 6, deram uma trawlada e voltaram para bordo.  O peixe pescado não chegou para a cozinha.
No dia 7, fizeram nova emposta para o Fiskenaes, onde havia umas amostras de peixe.
Entre dias de má pesca e outros de melhor, com botes a aliviar, com algumas empostas, lá se foi passando a estadia na Groenlândia, com várias notas de relevo:
No dia 17, pelas 10.00 h, chegaram alguns botes para aliviar. Acabou a escala às 20 horas. Foi dos melhores dias de pesca.
No dia 19, acabou a escala, às 24.00 h.
No dia 20, ficaram satisfeitos com a pesca.
No dia 14, souberam que naufragou, por incêndio, o Maria Frederico, salvando-se toda a tripulação.
No dia 19, assistiu-os o Gil Eannes, trazendo cartas, encomendas e batatas.
No dia 22, havia mais peixe à zagaia do que ao trawl e melhor.
No dia 23, a pesca foi feita, a maioria, à zagaia. Acabou a escala às 2 .30 h da madrugada, pelo que foram postos chapéus de luzes, pois os escaladores já não viam.
No dia 29, o piloto fez a folha de pesca. Antes de jantar, fez os curativos e deu corda aos cronómetros.
No dia 1 de Agosto, botes a aliviar. De tarde, houve caçada e o piloto arriou para apanhar os pombaletes mortos.
No dia 11, houve boa pesca, tanto à zagaia, como como ao trawl.
No dia 15, soube-se ter desaparecido o contramestre do Dom Denis. Troca de botes, relativamente aos navios de origem. Troca de mantimentos e materiais de pesca entre uns e outros, se possível. Música, por vezes, na escala.
No dia 29, o cap. aguentou pela Groenlândia e não foi para a Terra Nova. O Sotto largou, carregado e outros.
No dia 31, o Chico Leite ouviu a Hora da Saudade, de Ílhavo. Falou a D. Manuela, a sua irmã e o Cap. Aquiles.
No dia 4 de Setembro, ao almoço, soube que o Rio Caima tinha água aberta. Todos os navios do Fyllas se concentraram. Houve esperanças, mas, às 17 h 30, o cap. Júlio (Machado Redondo) resolveu abandonar o navio. Vieram para o São Ruy 14 homens, incluindo o capitão. Os últimos a abandoná-lo incendiaram-no.
No dia 5, o Capitão Júlio mais bem-disposto. Chegou o Estêvão, que levou os náufragos do Caima para Portugal.
No dia 7, ao almoço, soube que o Senhora da Saúde do cap. José Augusto Machado dos Santos, estava a fazer água e em vias de ir ao fundo. À tarde, houve uma reunião de capitães que resolveram afundá-lo. O António Coutinho recolheu os náufragos e ia trazê-los para o Fyllas.
No dia 9, para o São Ruy, vieram 28 homens. Guardou-se peixe para a viagem, no frigorífico. Alguns homens do Saúde ajudaram à escala.
No dia 11, caiu bastante «snow», ao arriar os botes.

Dóris com «snow».  São Ruy. 1952

Preparou-se o navio para a viagem, que iniciou às 18.00 h.

O amigo Chico Leite continuou como piloto do São Ruy, até 1954, alternando o cargo com o de imediato, na safra de 1953, sempre sob o comando de José Pelicas Gonçalves Bilelo.

 
A bordo do São Ruy, em 2º plano, à nossa direita. 1953

E numa «emposta», desta vez, para o navio-motor de ferro, Sam Tiago, construção dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), em 1955, para a Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau (SNAB), nos anos de 1955, 56 e 1957, sob o comando de seu irmão, José Teiga Gonçalves Leite, estreou-o como imediato, com o piloto Orlando Brandão Vidal, em 1955, Samuel Guerra Tavares Maia, em 1956 e Amândio Manuel da Rocha Pinguelo, em 1957.
  
A bordo do Sam Tiago, ao centro, com Orlando Vidal. 1955

E nos anos de 1958, 59 e 1960, «saltou», desta vez, para o comando do Sam Tiago, com Amândio Manuel da Rocha Pinguelo, como imediato e com António José Ferreira da Costa, de Lisboa, como piloto.  nos anos 1958 e 59.  Em 60, o piloto fora Fernando Duarte Vieira do Coito, de Lisboa.
O ano de 58 foi um ano de pescas muito fracas, de muito mau tempo e de fortes ciclones. Só navios, naufragaram seis. Os de 59 e 60, pouco melhores.
Uma vez que tive acesso aos «diários de pesca» do Sam Tiago, nestes três anos, o ano em que o navio deu à descarga maior quantidade de peixe foi o de 1958 15.000 quintais, sensivelmente.

Passei-lhe os olhos com interesse, para ver se referia algo de especial, para além das datas, posições, ventos, estado do mar, estado da atmosfera, quantidade e qualidade de isco, hora legal de arriar e de chamar, nº de pescadores ao activo e quantidade de pesca diária. A saber:

  entradas e saídas em St. Jonh’s e em que condições
  botes a aliviarem, sinal de razoável ou boa pesca
 a aproximação do navio-hospital Gil Eannes, sinónimo de assistência a bordo, na doença, abastecimento de diversos mantimentos, troca de encomendas, etc., etc.
  navios à vista, com os quais se mantinha bom relacionamento e um espírito solidário de interajuda, eram indicados, frequentemente. Cediam, se possível, uns aos outros, por empréstimo, isco, botes, remos, estrafego (linhas, anzóis…), mantimentos, etc.
 - o naufrágio do Maria das Flores, do capitão Vidal, que estava com água aberta, no dia 17 de Setembro de 1958, pelo que foi pedido ao Sam Tiago que se aproximasse, perto de Eastern Shoals, nos bancos da Terra Nova. Foram lá o Chico Leite, o irmão, José Leite, o Capote e o João Costa, tendo-se decidido abandonar o navio, posteriormente incendiado. Dele vieram para o Sam Tiago seis pescadores.
– o produto da «pesca ao pingalim», por vezes, superava o rendimento da «trawlada».
– à saída de Faeringerhavnen, nos baixios, na Groenlândia, encalhou neste ano de 1959, no dia 10 de Agosto, o Santa Maria Madalena, do cap. José Bolais Mónica, que já estava a ser assistido. Depois da recolha dos botes, o Sam Tiago dirigiu-se ao São Ruy para buscar seis náufragos: 1º maquinista, 2º motorista e quatro pescadores.
Na leitura do diário de 1960, para além das rotinas, melhores ou piores, de notar o naufrágio do navio Condestável, do comando do capitão Pascoal, com incêndio a bordo, a 30 de Agosto.  Uma amizade notória do cap. Chico Leite com um camarada e a perda de um homem da tripulação, chamaram-me peculiar atenção.
A amizade fui certificá-la numa visita ao capitão Manuel Machado, já que um navio que frequentemente era citado era o Avé Maria que sempre associei a este capitão. O amigo Manuel Machado confirmou-me toda uma grande amizade e simpatia pelo Chico Leite, – um bom camarada, um bom amigo, uma boa pessoa, competentíssimo – certificando o grande convívio que houve entre eles, nesta viagem de 1960, Francisco Leite, enquanto capitão do Sam Tiago e Manuel Machado do Avé Maria – os vários encontros, conversas, almoçaradas e jantares, a bordo de um dos seus navios.
Relativamente à trágica perda de um tripulante, entre as folhas do diário de pesca, um rascunho solto, dactilografado, que passo a transcrever, atraiu-me a atenção:
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RELATÓRIO

No dia 18 de Abril de 1960, encontrando-se este navio Sam Tiago na recolha dos botes, cerca das 16.30 horas locais verificou-se faltar um bote, pelo que eu, capitão do navio, mandei o imediato procurar com o binóculo, o bote em falta, tendo-se visto imediatamente uma vela bastante longe e para os lados de SW. Por faltar unicamente um bote, por não haver outro navio à vista e pela cor da vela, adquiriu-se a certeza tratar-se do bote em falta. Este foi-se aproximando do navio, mas a dado momento e quando ele já se encontrava próximo, deixou de se ver repentinamente. Imediatamente mandei suspender o ferro e segui a toda a velocidade cerca de dez minutos para barlavento para as proximidades do local onde havia sido visto pela última vez. Quando ainda navegava, avistei pela proa vários objectos a flutuar; calculando tratar-se de pertenças do bote, aproximei-me e verifiquei assim ser e avistando próximo o bote voltado de fundo para o ar. Imediatamente mandei arriar dois botes e a baleeira motorizada para tentar encontrar o náufrago e recolher os objectos que flutuavam. O bote encontrava-se com a vela içada e a escota amarrada à borda e com o cesto do trol amarrado à proa, tudo indicando que se tinha voltado quando seguia à vela. Também foi encontrado bastante peixe
boiando. Recolheram-se todos os objectos à vista não se tendo encontrado o corpo do pescador.
O pescador desaparecido chamava-se António Simões Batista, de 33 anos de idade, filho de João Batista Camilo e de Felicidade de Jesus, era natural de Ílhavo, casado, inscrito na Capitania de Aveiro com o número 24806, em 15 de Fevereiro de 1945.
Foram expedidos no mesmo dia telegramas a informar o Grémio e os Armadores do navio.
Na altura, havia as seguintes condições atmosféricas: céu forrado, horizonte limpo, vento SW, força 2 a 3 e ondulação sudoeste moderada. Já se encontravam estas condições desde cerca de meio-dia.

Bordo, 18 de Abril de 1960
O Capitão

Após esta viagem, por ter nascido a primeira filha e não querer estar longe da família, tanto tempo, Francisco Leite deixou a pesca do bacalhau, para estar em casa, com mais frequência. E, assim, teve uma longa carreira na Sacor Marítima Limitada, de onde se aposentou, em 1985.
Tendo feito, intervaladamente, algumas viagens de imediato no navio Sacor, com o capitão Ferreira da Silva, logo passou definitivamente a capitão do mesmo navio, até 1968.

A bordo do Sacor, à nossa esquerda, em 1961

Entre 1968 e 84, comandou o navio Bandim e, entretanto, supervisionou a construção do navio Galp Sines, entregue a de 2 de Abril de 1985, que, seguidamente, comandou, até à reforma.
Comandante muito competente e fortemente respeitado por colegas e superiores, recomendou a entrada de alguns oficiais ilhavenses mais jovens para a Sacor, sempre e apenas aqueles que considerava também competentes.
No princípio de vida do bacalhau, entre viagens, fez algumas de comércio nos navios Moçambique, Santa Rita I e Pátria, segundo consta da sua Cédula de Inscrição Marítima.
Depois da aposentação, passou a viver quase definitivamente na Costa Nova, entre ria e mar, em palheiro atípico, bonito, branco, listado de vermelho, na horizontal, nº 102 da Calçada Arrais Ançã, finamente decorado, comprado a Joaninha Ramalheira e marido, casal de portugueses, emigrados  nos Estados Unidos.
Mas, mais algumas aventuras marítimas o esperavam, antes de, extemporaneamente, nos deixar.
Ligado familiarmente a viagens turísticas através da filha Ana Margarida, fez uma viagem de turismo, no renovado paquete Funchal com a mulher. Tanto perguntou, tanto colaborou, tanto se «meteu como o piolho pela costura», que foi convidado, e fez, algumas viagens nesse paquete, como comandante.
Saiu de Lisboa a 4 de Dezembro de 1991 para Salvador, Rio de Janeiro e Santos, após o que efectuou um programa completo de cruzeiros de Verão para o mercado brasileiro, tendo regressado a Lisboa a 21 de Março de 1992.
Anteriormente, no paquete Vasco da Gama, ex- Infante D. Henrique, já também fizera uma viagem de volta ao mundo, comandando o navio juntamente com o Comandante Kotrozos, grego, com saída de Génova a 7 de Janeiro de 1989 e regresso a 27 de Abril do mesmo ano, com 110 dias de viagem, com passageiros alemães (dados fidedignos e confirmados por Luís Miguel Correia). Ambos os paquetes navegavam, na altura, com registo e bandeira do Panamá, propriedade de empresas do armador grego Potamianos e geridos a partir de Lisboa, pela empresa Arcália.
Em viagem aos Estados Unidos, de recreio e de visita à filha Teresa, em Junho de 1992, correu tudo quanto era museu marítimo ou navio musealizado. Não poderia faltar o «nosso» Gazela, em Filadélfia, «dando cartas», ao descobrir e informar que a fotografia do irmão, José Teiga Gonçalves Leite, que havia sido capitão (nº12) daquele mítico navio em 1950 e 51, não era a verdadeira imagem. No dia seguinte, acima de tudo, tornou-se clara, até para os curadores do Museu, a profundidade do conhecimento náutico que tinha e a sua paixão pelo mar, navios e pelos tempos do bacalhau. Depois de «dar uma lição de Gazela», aos conservadores do navio-museu, deixou-lhes a fotografia certa.

Junto ao navio-museu Gazela I, em 1992.

Pela Costa Nova, ensinou muitos jovens a velejar. Sobretudo, desde que mandou construir o OK(apa), em 1973, descobriu o «Cruzeiro da Ria», que,  para ele, era uma oportunidade de ir mais longe pela ria acima e de fazer amigos velejadores para além da Costa Nova. Adorava o convívio e a camaradagem dos costanovenses que se apoiavam na competição e na logística de levar e trazer os barcos, quando não havia ainda clube de vela. Foi sócio fundador do Clube de Vela da Costa Nova e participou activamente em regatas e eventos do clube, até ao fim.
Pela mesma altura, foi Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo, desde 1994 até 2001, tendo colaborado imenso no evento, «De novo na Terra Nova», no Verão de 1998.
Depois de uma doença súbita e cruel, deixou-nos em 16 de Junho de 2001, com 71 anos de idade, levando-nos a recordá-lo com saudade.
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Fotografias cedidas pela filha Teresa
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Ílhavo, 16 de Fevereiro
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Ana Maria Lopes-