quarta-feira, 25 de maio de 2016

Homens do Mar - Capitão António Marques - 9

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À popa, grande lobo-do-mar

Saiu na roleta o dia do Capitão António Marques, meu vizinho de antanho e aparentado, de quem tenho, ainda, ténue recordação. Homem de rija têmpera, um verdadeiro «lobo-do-mar».
António Marques nasceu em Ílhavo (1889-1966), tendo tido uma vida diversificada, cheia, cheia de tanto mar.
Em Março de 1901, com 12 anos, tirou a Cédula de Inscrição Marítima na Capitania do Porto da Figueira da Foz e começou a sua vida no mar servindo na qualidade de moço de um navio de cabotagem, de uma barca, e outros que tais.
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Em 1906, com 17 anos, fez a 1ª viagem ao bacalhau, como moço, no Gazela Primeiro, comandado por Paulo Fernandes Bagão.
As campanhas do bacalhau foram-se sucedendo, tendo o Gazela Primeiro feito a última viagem de pesca em 1969, ano em que imobilizou na Azinheira, tendo sido vendido em 1971 ao Philadelphia Museum.
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Do casamento com a Senhora D. Nazaré Correia, irmã do meu Avô Pisco, em 8 de Março de 1913, foi surgindo uma família numerosa, como hoje, sói dizer-se. De três rapazes, todos seguiram a vida de mar. É geracional, em Ílhavo.
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De 1907 a 1917, António Marques embarcou como pescador, contramestre e cozinheiro na escuna Loanda, nos iates Rio Ave e Maria Luiza, no lugre-patacho Oceano e no lugre Terra Nova. 
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No lugre-patacho Oceano, desempenhou a função de cozinheiro – contava-me o Francisco – tendo este lugre-patacho abalroado com uma ilha de gelo. O cozinheiro, amarrado, sete vezes mergulhou, sete martelos perdeu… mas tapou o rombo. Já não há estes actos heróicos, nem homens desta têmpera.
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Em 1918, com 29 anos, tirou o Curso de Piloto  e de seguida, por já ter feito as horas as derrotas, obteve as Cartas de Imediato da Marinha Mercante e de Capitão Pescador.
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Durante nove meses, entre 1919 e 1921 foi imediato do lugre-patacho Ferreira e durante mais nove meses capitão do mesmo navio, tendo feito uma viagem à pesca do bacalhau.
O lugre-patacho Ferreira não é mais nem menos, curioso!..., que a  famosa barca Cutty Sark, que poderão ver em visita a Greenwich, enquanto foi pertença do estado português – quantas vezes me repetiu isto o amigo Francisco.
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Em 1923, estreou como Capitão, o lugre Algarve 5º, tendo como imediato Augusto dos Santos Labrincha.
Continuou a comandá-lo até 1927, inclusive.
Na campanha de 1928, capitaneou o lugre Maria da Glória, da Empresa União de Aveiro, Lda. de Aveiro, com João dos Santos Labrincha, como imediato.
Em 1929, estreou como Capitão o lugre Rainha Santa, construído na Gafanha da Nazaré por José Maria Lopes de Almeida, para a Firma Pascoal & Cravo, Lda. de Aveiro. 

Lugre Rainha Santa

Durante os anos 1931, 1932 e 1933 – anos de crise – não embarcou.
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Em 1934, sob o comando de Manoel Ignácio Gaia, pilotou o lugre São Paulo Primeiro, mas acabaram por não fazer a viagem à pesca, por abalroamento à saída de Lisboa com uma traineira. No mar, está-se sujeito a todos os acidentes e incidentes, aliás, como em terra e no ar.
Em 1935, foi à Dinamarca comprar e trazer para Portugal o lugre-motor Labrador para a Sociedade Lisbonense de Pesca do Bacalhau, que, apenas, comandou até Lisboa.
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Durante os anos de 1935, 36 e 37, comandou o lugre Bretanha, que, construído na Murraceira, na Figueira da Foz, acabou por pertencer a diversas praças, após várias vendas e transformações, passando para a praça de Lisboa, em1934.
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De 1938 a 40 (inclusive), comandou o Júlia Primeiro, da praça da Figueira da Foz.
E, em maré dos Júlias da Figueira da Foz, o Cap. António Marques, comandou o lugre Júlia Quarto, nas campanhas de 1941, 42, 43, 44 e 45.

Lugre-motor Júlia Quarto

No Júlia Quarto, em 1945
 
Capitão António Marques, no convés. 1945
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Em 1946, estreou, como capitão, o navio-motor de madeira Capitão Ferreira, construído na Murraceira, Estaleiros Navais do Mondego na Figueira da Foz, por Benjamim Bolais Mónica, em 1945, nele continuando como capitão, até ao ano de 1955.

Navio-motor Capitão Ferreira, em 1949

O Capitão António Marques foi condecorado pelo Presidente da República General Craveiro Lopes em 1953, entre outros capitães ilhavenses, durante a cerimónia da Bênção.


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Mais uma estreia. Em 1956, inaugurou, como capitão, o navio-motor de ferro Senhora da Boa Viagem, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, para a Atlântica – Companhia Portuguesa de Pesca, Lda. E nele se manteve durante três campanhas.
Voltou mais uma vez ao Capitão Ferreira, onde já completava uma década de navio.
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E com esta viagem, deu como encerrada a sua vida de mar, que foi longa e acidentada, mas bem-sucedida e variada, durante 58 anos. A idade e a dureza da faina foram deixando marcas… Mas será que o Capitão António Marques, durante seis anos, conseguiu substituir o ondeado do mar, pelos passeios de Ílhavo? Esse ondulado do mar originava aos «nossos heróicos homens» um andar especial, cambaleado, balanceado, até que habituassem à solidez da terra. Assim foi…mais uma vida passada no mar.
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
Ílhavo, 14 de Abril de 2016
Ana Maria Lopes
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domingo, 22 de maio de 2016

A colecção de formas de «zagaias» do MMI

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De dia em dia, ando para dizer algo sobre a colecção de formas de zagaia do MMI, que os Amigos do Museu (AMI) ajudaram a enriquecer.
Para se fazerem zagaias, gigos e chumbadas, levavam-se, a bordo, barras de chumbo, uma panela de três pés e uma concha com bico. O molde da forma era, geralmente, de bronze, tinha dois orifícios e dois punhos de madeira, enfiados em haste de ferro com que se manuseava (abria e fechava). Com o auxílio da concha, vertia-se o chumbo líquido fervente através de um orifício e no outro, colocava-se o «pé de um duplo anzol». Arrefecia rapidamente, abria-se e estava a zagaia feita.
Para além destas formas, com algumas diferenças, havia também formas de zagaim, pisciformes, com ou sem escamas e barbatanas, formas de zip-zip, formas de cacete ou pissalho (molde de chumbo cilíndrico que substituía as singas, na linha de mão), formas de uma, duas, três ou quatro singas e formas de um, dois ou três gigos (peças fusiformes, em que o pescador colocava uma coroa de alfinetes, bem apertados, destinadas a apanhar lula para isco).
Tendo ido a leilão on-line, a 19 de Setembro pp, a colecção marítima do coleccionador Alexis Passechnikoff, no Leilão do Palácio do Correio Velho, a AMI contribuiu para a compra, em parceria com a CMI, da colecção destes moldes, em número de 25.

Moldes de formas diversos: cacete, zagaias, singas
Caso curioso, esta colecção de zagaias e congéneres, entretanto melhorada, tinha sido emprestada pelo proprietário ao Museu de Ílhavo, aquando da primeira exposição da Faina Maior. Quase caso para dizer, «o bom filho à casa torna», desta vez, depois de adquirida a colecção.

Moldes de formas diversos: zip-zip, zagaim, gigo

Agora, através da realização de uma oficina de moldagem de zagaias, no Dia Internacional dos Museus, a colecção veio a lume.
Costa Nova, 22 de Maio de 2016
Ana Maria Lopes
 

domingo, 8 de maio de 2016

Homens do Mar - João Fernandes Parracho (Vitorino) - 8


Junto à gaiuta, nos seus albaióis de bordo
E hoje, motivada por uma nova/velha fotografia, vamos ao Capitão Vitorino Parracho (1906 - 1991), de que bem me lembro, no seu rosto cheiinho, luzidio e arredondado, olhos muito, muito azulados, cerúleo, sabedor e bondoso, brincalhão, capitão da viagem em causa (ano de 1948), no lugre Júlia IV.
E quando falo da viagem em causa reporto-me ao belo livro, forte e dramática reportagem de bordo, de Anselmo Vieira, Nos Mares da Terra Nova – A Saga dos Bacalhoeiros, 2010, em que o autor é um dos tripulantes do Júlia IV, na viagem de 1948, sob a personagem de Telmo, um alter-ego do próprio autor.
Achei por bem consultar a ficha de inscrição no Grémio do capitão, existente no MMI, para me situar e aí, cheguei à conclusão que o seu verdadeiro nome era João Fernandes Parracho. Complicado, hein? Ílhavo tem destas coisas... Victorino, de alcunha, vinha da madrinha Victorina…E descobrir? Não há dúvida, era ele.
E neste extraordinário relato de viagem, entre narrativas poderosas, o autor dedica um capítulo ao Capitão.
O Telmo gostava do Capitão Vitorino. Referia: – Era um homem de cerca de cinquenta anos, tisnado de moreno, estatura baixa, mas magro e cheio de uma energia aparentemente reprimida. Os olhos eram azul-claros e amendoados, o que lhe dava um certo ar trocista, mesmo quando nos fitava com seriedade. Somente quando se zangava os seus olhos se modificavam: aí escureciam como os dias de trovoada e despediam uma luz, quais faíscas de aço. Mas era raro zangar-se. Todos gostavam dele e o respeitavam, como a uma águia dos lugres bacalhoeiros. Dominava os homens à sua maneira, sem esforço ou prepotência Telmo acreditava ser essa a maneira correcta de comandar um navio.
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Também o genro, Senos da Fonseca, in Nas Rotas dos Bacalhaus – Séc. IX ao Século XVI, 2005, se lhe refere de uma forma afável: – Por destino da vida, meu sogro, Cap. Vitorino Parracho, fez-me entender melhor desta dupla personalidade coexistindo nestas singulares personagens, quase míticas: – De como um homem do mar, determinado, exigente e rezingão (q.b.) mandão a bordo, se transformava, saco posto no cais, no mais afável ser que conheci, homem bom, brincalhão, jocoso, onde residia uma permanente boa disposição, de uma bonomia que tocava a todos (…).
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O lugre, o Júlia IV, que comandava, construído por António Bolais Mónica na Figueira da Foz, em 1914, para a «Atlântica Companhia Portuguesa de Pesca», naufragou, por incêndio, no Virgin Rocks, na campanha seguinte, a de 1949.
Lugre Júlia IV
Familiar testemunhou-me que foi para o mar, com 9 anos, de moço, de moço de convés… Seria possível? Mesmo assim, os doze anos eram o mais habitual. Mas, certificando-me, foi com nove.
Desde que há registos credíveis, Vitorino Parracho pilotou entre 1936 e 37 (inclusive) o lugre Senhora da Saúde da praça de Aveiro. Em 1938, 39 e 40, comandou o lugre de madeira Vaz, que naufragou, de água aberta, nesse ano, a 31 de Agosto, não havendo conhecimento de vítimas.
Entre 1942 e 45, foi capitão do Júlia I da praça da Figueira da Foz, tendo sido transferido para o Júlia IV, durante os anos 1946, 47 e 48.
De regresso à praça de Aveiro, o Capitão Parracho comandou o lugre-motor Dom Denis, de 1949 a 1960 (inclusive). Estreou, de seguida, o navio-motor Rainha Santa, construção de Benjamim Bolais Mónica, cujo bota-abaixo foi a 15 de Março de 1961, o último navio-motor construído pelos Mónica.
Na campanha de 1965, deixou o navio, creio que por doença.
Nas campanhas de 1967 a 69, regressou ao bacalhau, no cargo de imediato, no lugre com motor Luiza Ribau, deixando a vida de mar, definitivamente, após a última campanha, também como imediato, a de 70, no navio-motor Vila de Conde.
Abandonou, pois, o mar, com o devido mérito pelas ausências sofridas e as tormentas passadas.
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Com sua esposa, a bordo de um dos Júlias
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Quando a Alcina, sua filha, minha amiga e ex-colega do colégio e do liceu, ontem, me cedia, gentilmente, a foto dos pais a bordo, num dos Júlias, deliciei-me, dado que tinha oportunidade de elogiar as mulheres de todos os homens do mar (neste caso, as capitoas), que tinham o grande mérito de suportar as ausências e as saudades, de gerir as suas casas, famílias, a educação dos filhos, os haveres ou as dificuldades, as ditas matriarcas ilhavenses, que tanto carinho mereceram e merecem (agora que os tempos são outros).
Fotografias – Fotos de arquivo e gentil cedência da Família do Capitão

Ílhavo, 15 de Março de 2016

Ana Maria Lopes
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domingo, 1 de maio de 2016

O bota-abaixo do barco do mar M. FÁTIMA, na Torreira

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Há muito que não vinha para o lado norte da ria… andava a fazer-me falta. Tem um sortilégio que não encontro noutro local, bem como a fibra dos homens da ria e do mar, que por ali se encontram e labutam.
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Foi um privilégio ter assistido ao bota-abaixo do barco do mar, M. Fátima, ou seja, para arte da xávega. Cumpriu-se o grande sonho do Marco Silva, seu proprietário, homem de grande têmpera, trabalhador, empreendedor, construtor de embarcações tradicionais e grande velejador.
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Foto de Jacques Hamel
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Queria substituir o seu antigo barco, de cerca de 8,50 metros de comprimento por um maior, de 11.15 metros, 3.20 m de largura e 1.20 m. de pontal, com  dois motores, pois com o mar não se brinca.
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A burocracia do projecto foi complicada e demorou cerca de um ano a concretizar-se. Hoje foi o grande dia.

O Marco, em situação de trabalho

A imponente embarcação, construída em madeira de pinho, em armazém perto da ria, após os esforços de alguns, lambeu, pela primeira vez, as águas lagunares, tendo descido pela rampa do porto de abrigo da Torreira, num dia ventoso, mas soalheiro, não faltando muito para provar, na cava da onda, a água salgada, com a arte para que foi construída – a arte da xávega.
 
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Rasga a água da ria, pela primeira vez

Como diz o Marco, foi um projecto de família, em que trabalhou ele, a Albina Amador, sua mulher, dois filhos e o Jorge, um trabalhador da companha.
O M. de Fátima, nas águas lagunares, brilhantes e agitadas por uma nortada revigorante, fez um passeio inaugural com os amigos e espectadores, bem como com os artistas do rancho folclórico As Andorinhas de São Silvestre, que actuou no relvado da Praia do Monte Branco, entre céu, ria e pinhal, animando a cerimónia do bota-baixo. Belo efeito. 

Passeio inaugural…

Alguns tocadores do rancho

As caras da proa da embarcação foram habilmente decoradas pelo pintor Zé Manel, bem como o vertente da proa, em que escreveu, pintando: – QUE A VIRGEM NOS PROTEJA.

 
Parabéns ao Zé Manel!
Este bota-abaixo foi integrado na romaria lagunar da Nossa Senhora do Bom Sucesso, que decorre entre 27 de Abril e o primeiro de Maio, na Torreira.
Não faltaram as vitualhas tradicionais, em serviço simples, mas agradável, de óptimo paladar, em ameno e salutar convívio – porco no espeto, saboroso e bem fatiado, servido em agradável pada. Para términus ou abertura um gostoso caldo verde, com rodela de chouriça – e com um tintol, à beira-ria, assim terminou a festança.
Arte de pesca ancestral, a xávega pratica-se, na actualidade, na praia da Torreira e numa extensa faixa do litoral português, representando, para além do sustento de muitas famílias, um enorme valor identitário, social e cultural.
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Ílhavo, 30 de Abril de 2016
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Fotografias – minhas, de Jacques Hamel e gentil cedência da Etelvina
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Ana Maria Lopes
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domingo, 24 de abril de 2016

Homens do Mar - Francisco Ramos - 7


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Em casa de Zé da Pardala. 1993

E cá vem, hoje, a lume Francisco Ramos (Balau). Bom homem, atencioso, educado, sabedor e prestável. Dele fiquei com gratas recordações.
Nascido em Ílhavo (1915-2002), Chico Ramos, como era conhecido, foi grande marinheiro.
Conhecida da família, já que a minha mãe era madrinha da sua filha, Maria Rosalina, eu frequentava a casa, ali num beco próximo, em Espinheiro, com assiduidade.
Imagino que tenha ido cedo para o mar como acontecia com todos, à época. A partir dos registos, foi ajudante de motorista de 1936 a 1939 no lugre Navegador, construído em Fão, por José Linhares, em 1924, com o nome de Esperança. Na campanha de 1929 passou a propriedade da firma Parceria Marítima Douro que o rebaptizara de Navegador.
Em 1940, foi pescador maduro/especial no Santa Quitéria, tendo naufragado em 1941, com água aberta, nos grandes bancos da Terra Nova.

O Santa Quitéria, em naufrágio, em 1941

Sabendo que Francisco Ramos tinha feito oito viagens no Milena entre 1942 e 1950, como contramestre, lembrei-me de folhear o magnífico livro que é Milena - 1948 | Memórias de uma campanha da autoria de Armindo da Silva Bagão, de onde rebusquei alguns diálogos/descrições em que Francisco Ramos era protagonista. A saber…
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Aliás todo o trabalho de marinharia tinha de ser feito com toda a perfeição, até porque o contramestre, o ilhavense Sr. Francisco Ramos, era muito competente em marinharia e exigia perfeição ao pessoal com ele trabalhava. Ílhavo foi um alfobre de grandes contramestres e marinheiros, apreciados até mesmo em navios estrangeiros, p.15. (…)
Em virtude de o piloto nunca ter embarcado e não ter o curso de pilotagem o capitão Tude chama o contramestre, o Francisco Ramos (Balau), homem com grande experiência nos assuntos de mar e diz-lhe:
 - «Ó Francisco, até chegarmos aos bancos da Terra Nova, tu é que vais tomar conta do quarto do piloto e vais-lhe ensinando o que deve fazer e os cuidados que se devem ter com os panos todos em cima e quando se devem mandar arriar as estênsulas (…) respondendo-lhe o contramestre:
- Fique descansado, Sr. Capitão, que tudo vai correr bem», p. 31. (…)
Com o Milena entre vagas alterosas, o capitão volta-se, agora, para o contramestre e pergunta-lhe:
- «E tu, Francisco, qual é a tua opinião, neste momento?».
Responde-lhe o contramestre:
- «Ó Sr. Capitão. A minha opinião é a mesma do Sr. Imediato. Da maneira como está o mar, o Milena não se vai escorar por muito mais tempo de capa ao temporal que está aí».
- «Pronto», diz o Capitão, «Francisco, vais aos ranchos chamar a companha toda para cima, prontos para o pior, porque vamos desfazer a capa», p. 53. (…)
«As vergas depois de bem travadas do balanço foram arriadas pelo pessoal que estava no convés, sem perigo. Foram estes grandes marinheiros Francisco Ramos, Carlos Agualuza e Luís Caramonete», p. 55.
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A bordo do Milena, entre 1946 e 47

Entre 1951 e 1955 (inclusive), Chico Ramos foi pescador especial no lugre-motor Brites, tendo terminado a sua carreira de mar, como contramestre e pescador especial, no navio-motor Celeste Maria, entre 1956 e 1960, construído em 1954, no estaleiro de Manuel Maria Bolais Mónica para a Parceria Marítima Esperança, Lda.

Dóris do Brites

Em mais do que merecida estadia em terra, após a vida de mar, foi de grande simpatia e utilidade para o «nosso Museu», a partir dos anos 90.
Prestou informações preciosas para a execução das folhas de sala da exposição Faina Maior e, sempre que chamado, vinha acudir, a trabalhos específicos de marinharia, na montagem da grande exposição (Novembro de 1992).
A vista, entretanto, começou a atraiçoá-lo, mas nunca deixou de colaborar com maior ou menor dificuldade.
Mesmo no NTM Creoula, quando havia serviços de intercâmbio cultural entre o navio e o Museu, ele, se era solicitado, respondia logo à chamada.

No Creoula, em 1993

No majestoso Creoula, a 19 de Setembro de 1993, ao aparelhar um bote, aplicava o quete da ré, entre outra palamenta.
A minha gratidão e reconhecimento ao Amigo Chico Ramos, grande homem do mar.
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família de Francisco Ramos
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Ílhavo, 21 de Abril de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 10 de abril de 2016

Homens do Mar - José Fernandes Pereira (Lau) - 6

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Foto de estúdio

Hoje, é a vez do Capitão José Fernandes Pereira Júnior, conhecido pelo Capitão Zé Lau, de temperamento muito sui generis, de quem era conhecida, amiga e aparentada, a quem associo sempre o bonito e velhinho lugre Ana Maria, da praça do Porto, a partir de 1939.
Curioso!... As rectas finais de vida do Ana Maria e do Capitão Zé Lau cruzaram-se e confundiram-se.
O capitão Zé Lau, nascido em Ílhavo (1879-1971) foi para o mar aos catorze anos, como era normal, à época, tendo-o deixado, com a provecta idade de 79 anos, em 1958.
Quem, já amadurecido, não se lembra da sua figura – baixote, velhinho, de cabelos muito alvos, rapioqueiro e sempre bem aperaltado –, mas de feitio difícil, com quem era preciso saber lidar. No meu casamento, em 1965, para que fora convidado, com uma vetusta idade, fartou-se de dançar…Gravei-o na memória…
Entre os postos de moço, piloto, imediato a capitão, lá foi sulcando os mares, no meio de muitas peripécias e alguns naufrágios, em tempos bastante difíceis, passando pelos lugres Lusitânia 3º (futuro Terra Nova) na campanha de 1939, Maria Preciosa (em 1937), Paços de Brandão (em 1938 e 39), Alcíon (1940), Silvina em 1941 (piloto), Delães (torpedeado e afundado por submarino desconhecido, em 1942), Oliveirense (1943 e 44) imediato, Labrador, em 1946, Paços de Brandão, em 1947 e Infante de Sagres III, em 1948. De 1952 até 1958, ocupou o cargo de imediato no Ana Maria, ano em que o velho lugre do Porto naufragou, com água aberta, a 7 de Setembro.

Lugre Delães, em alto-mar, cerca de 1940
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O Capitão, Sr. Joaquim Agonia da Silva, de Vila do Conde, e o nosso imediato, entre os seus quarenta tripulantes, foram salvos pela escuna costeira norte-americana «Spencer», que os entregou posteriormente a um navio espanhol. O velhinho Zé Lau, pelos seus 79 anos e pernas enfraquecidas, já teve de ser auxiliado, nestas andanças e mudanças de embarcação para embarcação. Abandonou, então, a vida do mar.
Tive conhecimento que a tripulação fora transportada para Portugal pelo arrastão João Corte Real, como demonstra a imagem, comandado por José Ângelo Ramalheira.

Tripulação do Ana Maria, a salvo
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Em terra, ainda duraria até aos 91 anos (até 1971), a saborear o aconchego do lar e seus familiares, com invejável memória e vivacidade inusitada.
O seu temperamento prejudicou-o, por vezes, na vida profissional, mas era amigo do seu amigo e por ele os colegas tinham grande estima.
Na última viagem que efectuou, numa entrevista que deu a um repórter do Primeiro de Janeiro, em 14 de Abril de 58, contou as suas histórias de mar, revelando: – o veleiro mais antigo da frota portuguesa é o Ana Maria e eu o tripulante mais antigo.
E assim o Ana Maria e Capitão Zé Lau ficaram na memória dos ilhavenses.
Antes do fecho da edição do Marintimidades, chegou-me uma foto de época, que não quero desaproveitar.



Três oficiais da mesma época
 
Capitão Zé Lau, entre dois irmãos Madalena. À esquerda, Mário Francisco Madalena (1903-1986) e, à direita, João Maria da Madalena (1899-1964).
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Ílhavo, 4 de Março de 2016
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 29 de março de 2016

4º Aniversário do Ciemar

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No próximo dia 2 de Abril, sábado, pelas 17 horas, comemora-se, no Museu, o 4º Aniversário do Ciemar.
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Programa:
> Lançamento do Boletim n.º 4 do Ciemar-Ílhavo (edição digital)
> Inauguração da exposição «Bernardo Santareno, um médico na frota bacalhoeira»
> Apresentação da reedição de Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno (co-edição E-Primatur)
> «Nos Mares do Fim do Mundo com Bernardo Santareno» – Palestra de Ana Paula Medeiros
Quem não tenha a velhinha edição da Ática, há muito esgotada, de Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno, ou mesmo quem tenha, desfrutará da oportunidade de adquirir uma reedição da mesma obra, com algumas novidades.
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Para quem não sabe ou não se lembra recordo o acidente que teve, numa mão, o nosso bom amigo, que já não está entre nós, Sr. Samuel Corujo, mais conhecido pelo Sr. Samuel dos barquinhos em garrafas.
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Recordou-me, várias vezes, nas nossas conversas, o acidente que sofrera, a bordo do Santa Mafalda, em 1958, enquanto 3º motorista. Episódio esse, imortalizado pela pena de Bernardo Santareno, ao tempo, médico no Gil Eannes, em Nos Mares do Fim do Mundo, pp. 135 a 138, capítulo, O Vento, o Mar e O Sangue, que me abalanço a respigar:
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Alô! Alô! O «Santa Mafalda» chama urgentemente o médico! Alô! Alô! Médico! Médico!...
Eu estava no «Bissaia Barreto» (…). Foi então, à hora do jantar, que, aflitivamente, este S.O.S. rasgou os ares: o terceiro maquinista do «Mafalda» tinha uma mão esmagada, por acidente de trabalho! Era preciso intervir e quanto antes. E os dois navios navegaram ao encontro um do outro.
O enfermeiro, o Lourenço, a voz trémula de emoção, deu-me pela fonia mais pormenores: um dos dedos, preso à mão por escasso retalho de pele, estava sem dúvida condenado; e além deste, dois dos outros dedos desta mesma mão, com fracturas múltiplas e expostas, teriam provavelmente a mesma sorte.
Era preciso ver as lesões, mas como chegar ao «Mafalda»? O mar, agora, estava bravo como eu ainda não o vira: vagas apocalípticas cruzavam o «Bissaia» em todos os sentidos, o vento levava pelos ares madeiras e cordame, a névoa tornara-se impenetrável. Como? Como passar?! (…)
… Era impossível tentar a minha passagem. Ai, o alívio que eu nesse momento senti! (…)
Em todo o caso e sempre pela telefonia, lá fui dando instruções de que me lembrei ao pobre Lourenço.
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Era desesperante.
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O mar atingira o auge da fúria: rasgava tudo; vencia, com o seu clamor monstruoso, os pobres gritos humanos; lavava, com a espuma claríssima das suas ondas, a sangrenta nuvem daquela hora.
(…) Mas aquele ferido, tão novo, um rapaz… ai, aquela mão! E se fosse possível salvar-lhe os dedos lacerados? Bem bastava o outro, o que já tinha sido amputado (…).
E mandei seguir o «Santa Mafalda» para terra.
(…)
Recebi hoje – oito dias sobre este acidente – uma notícia admirável: o terceiro maquinista, apesar da brutalidade das lesões, ficará com os seus dedos!
Tudo valeu a pena: a angústia daquela hora, a raiva humilhante da minha impotência, o suor de sangue e fel do Lourenço, o desespero dinâmico do comandante do «Mafalda». Valeu a pena, valeu a pena!
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Com a forte e bela narrativa de Santareno, ficou Samuel Corujo imortalizado na nossa literatura marítima e com os “seus barquinhos”, lembrado nas colecções de miniaturas de veleiros em garrafas, espalhadas por todo o mundo. 
Nos anos 80, em sua casa
Ílhavo, 29 de Março de 2016
Ana Maria Lopes