Domingo, 4 de Março de 2012

Terceira Exposição sobre o Titanic - a grande revelação - 4

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E uma terceira exposição a não perder fora, entretanto, anunciada, no espaço Rossio, em Lisboa, – Titanic The artifact exhibition, em Julho de 2009.
A terceira exposição sobre o Titanic que visitei e a emoção já não foi a mesma, mas, lá, tive oportunidade de apreciar muito mais peças do que em 1994, porque as expedições ao local do naufrágio, para estudos e recolha de peças, foram-se sucedendo.

E aprende-se sempre mais. A meu ver, a exposição estava dignamente montada, de uma forma séria e criteriosa.

Resumia, um pouco, a história do navio desde o nascimento da lenda da construção (1907), do design naval rigoroso, criado em 1908, do início da construção em Março de 1909, do dia do lançamento à água, em 31 de Maio de 1911, do seu acabamento até Março de 1912, da viagem inaugural com partida de Southampton, em 10 de Abril de 1912, até ao desfecho dramático do Iceberg à vista!, pelas 23 horas e 40 minutos de 14 de Abril de 1912.

A RMS Titanic tem-se empenhado em reunir, preservar e restaurar o máximo possível de objectos.
A história já foi contada e recontada, mas nunca de uma forma tão intensa e apaixonante como o fizeram os artefactos diversos apresentados nesta mostra.

Os objectos estavam lá, na hora, pertenceram ao navio e às pessoas que navegaram nele. Não pretendiam afastar a dor da perda dos passageiros, mas demonstravam a importância de recordar e celebrar todos aqueles cujas vidas desapareceram com o naufrágio.

O achamento do Titanic contou com a colaboração de cientistas, aquanautas, historiadores, arqueólogos, engenheiros marítimos, arquitectos navais e conservadores de todo o mundo.
Antes da recuperação dos artefactos do Titanic, não havia uma especialização na conservação de materiais, retirados de uma profundidade de 3800 metros e sujeitos a uma pressão colossal!
Cada objecto exige um tratamento especial e a enorme variedade de materiais impõe a intervenção de especialistas não só em papel, mas também em têxteis, madeiras, metais, cerâmica, couro, etc.
Infelizmente, não existem técnicas de preservação do próprio navio, que está lentamente a ser consumido por micróbios que comem ferro. Parece impossível como a opulência do Titanic alimenta a sofreguidão de micróbios exíguos…
Então, o que mais me impressionou?
O ambiente lúgubre e escuro criado, a meu ver, apropriado à ambiência que pretendia retratar.
Os painéis expositivos eram apresentados continuamente, em andares diversos, separados por escadas metálicas, que simulavam o interior de um navio. Bancos de convés, criteriosamente colocados, permitiam o descanso dos visitantes e a observação rigorosa das peças.

O ruído de fundo imitava o barulho surdo das caldeiras a vapor, que, pela força da rotina, se deixava de ouvir!
Sempre que possível, um apontamento referente aos passageiros, donos das peças em exibição:
 - objectos íntimos, desde óculos, lorignons, lâminas e pincéis da barba, botões de punho, alfinetes de senhora e outras jóias mais requintadas;
 - peças de vestuário, desde meias, papillons, um casaco de empregado de mesa, uma cartola de tecido acetinado;
 - peças do próprio navio, como ornamentos luminosos, um querubim de bronze, suportes metálicos de bancos de convés, candeeiros em pêndulo, sinos que deram o alarme do acidente, telégrafo da casa das máquinas, telefones com altifalantes, megafone com  que o Capitão Smith terá dado a última ordem para abandonarem o navio, coletes salva-vidas, manivelas de turco, etc…
 - entre os objectos de cozinhas e diversas salas de jantar, conforme as classes, podiam apreciar-se grandes caçarolas e panelas, peças de louça e as tais “pratarias” decorativas funcionais, que englobavam os serviços de faqueiros.

 Ainda nos foi dado observar garrafas de champagne, néctar da melhor qualidade, garrafas de cerveja e botijas de cerâmica.
Se citasse tudo, a enumeração seria infindável.

E o mito das “ditas colheres do Titanic” que, por Ílhavo existem, continuava.
Exactamente iguais às que conhecia, apenas com a estrela relevada da WSL, no cabo, só nessa altura me foi dado observar. Os sóbrios talheres ilhavenses, de prata, teriam sido mesmo do Titanic! Prova das provas! Que emoção!


In Catálogo

Ao natural…
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A partir do momento em que na Costa Nova, este verão de 2011, tive o prazer de conhecer, através do Zé Paulo Vieira da Silva, Christopher Davino, membro de topo da RMS Titanic, organizador desta Exposição e autor do Catálogo, tudo, para mim, ganhou uma nova dimensão.


Christopher Davino e AML
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Além das colheres de sopa, também se expunham de doce, garfos de servir, de dentes tremidos, e concha de sopa, em plaqué, com o mesmo motivo.

Foto da Net, com alguns talheres em exibição

A recriação da cena do iceberg, que pretendia ser uma das mais fortes, nem sempre me pareceu bem conseguida. No entanto, ao tocar a algidez da falsa parede gelada, percebemos quão frias estavam as águas do Atlântico Norte, na fatídica noite do afundamento, provocando muitas mortes por hipotermia, além do pânico e do afogamento.
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O que se seguirá?
Uma exposição em Ílhavo? Nunca se sabe…Pelo menos a esperança de ver o documentário, que apenas contemplou Ílhavo, em Portugal, Suíça, França, Reino Unido e Estados Unidos. Será exibido em França, no dia 30 deste mês e, em Portugal, nos primeiros dias de Abril, na TV 5.
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Imagens – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 4 de Março de 2012
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Ana Maria Lopes
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Na senda das exposições do Titanic - 3

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Em 1985, uma equipa de oceanógrafos franceses e americanos descobriu o Titanic naufragado, dividido em duas partes; em 1986, iniciaram-se os trabalhos de mergulho na extensão dos escombros numa área equivalente ao centro de Londres. Mais três expedições foram levadas a cabo até 1994, tendo sido recuperados 3600 objectos, para o que foi utilizado o submergível Nautili, símbolo de alta tecnologia.
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No final de 1994, em grandes parangonas, o National Maritime Museum – Greenwich – London anuncia THE WRECK OF THE TITANIC – Exhibition.
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Sorvi a informação. Mesmo com tempo limitado, porque não soube logo, não podia faltar e então fui até Londres. Que emoção!

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Não perdi o meu tempo. A exposição estava organizada em nove secções, com cerca de 150 objectos. Alguns destes sectores eram recordados através de documentação da época.
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Para além da extraordinária maqueta que representava o Titanic dividido em duas partes, as secções que mais me cativaram foram os objectos e as técnicas da sua preservação. O reconhecimento da baixela em prata atraía-me: estão mesmo a imaginar o motivo. Mas não vi talheres exactamente iguais aos ditos…. Mas, havia várias classes, a bordo, com decorações e equipamentos diferentes – pensei eu.



Peças da baixela de prata do Titanic


 
O que pude ainda observar?
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Coletes de náufragos, lustres de um dos luxuosos salões, restos das cadeiras dos deques, porcelanas, cristais, peças da baixela de prata, instrumentos náuticos e objectos pessoais de passageiros desde pincéis de barba, agendas, pentes, palitos, botões de fardas e jóias (relógios, voltas de ouro com pingentes, alfinetes de gravata, etc.) até…
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O produto encontrado muito dizia da soberba qualidade do navio, da nobreza dos materiais nele utilizados e do nível social dos passageiros que fizeram a sua primeira e última viagem.
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Incrível, um exemplar do jornal Southern Echo, do dia 9 de Abril de 1912, ainda legível!
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A limpeza e manutenção de tão delicados objectos são uma verdadeira lição na arte da preservação, levada a cabo, entre outros, pelos laboratórios da Electricidade de França.
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Sempre alerta de outras possíveis exposições, em 2004, tive conhecimento da que se realizou no Porto, no grande espaço do mercado Ferreira Borges. Não pude faltar, eu e o meu neto mais velho lá fomos, para lhe incutir o fascínio pelo Titanic.

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Bastante pomposa, esta exibição, recriava imensos cenários, mas, para mim, não transmitia um espírito tão sério, científico e investigador, quanto a de Londres. De modo algum.
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(Cont.)

Fotografias – Arquivo pessoal da autora


Ílhavo, 24 de Fevereiro de 2012
Ana Maria Lopes


Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Tradição escrita...das "memórias ilhavenses" do Titanic - 2

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Já em 1996, quando Jean Pierre Andrieux me ofereceu o seu livro Disasters & Shipwrecks, vol. 3, 1940 – 1980, li uma passagem que me surpreendeu, segundo a qual, no Verão de 1993, num almoço a bordo do arrastão de popa, Inácio Cunha, que então dirigia o Comandante António M. São Marcos, a propósito da expedição de 1993 ao Titanic, onde foram recuperadas louças, pratas e outros artefactos do desafortunado navio, mostrou que isto não era novidade para si e que, desde criança, convivera com “pratas” do Titanic.
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Como podia ser, se os primeiros objectos só haviam sido recuperados na expedição de 1987(?) –interroguei-me.
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Como vim a perceber, para meu grande espanto, um seu familiar, o Capitão João Francisco Grilo, tinha comandado o Leopoldina (?), na Primavera de 1912. Após a tragédia do Titanic, os Grandes Bancos estavam pejados de despojos flutuantes do desafortunado paquete. A tripulação do navio recolheu alguns destes destroços, entre os quais estava uma arca com talheres, todos marcados com o símbolo da White Star Line, proprietária do paquete. Quando regressou a Portugal, apresentou o lote ao armador do navio, que não se interessou muito pelo assunto, aconselhando-o a ficar com uma parte e a distribuir os restantes, em Ílhavo, pelos familiares e amigos mais íntimos.

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Daí a explicação para o facto de algumas famílias de Ílhavo, incluindo a minha, possuírem uns tantos, poucos, talheres do Titanic. Pergunto eu: será que isto é verdade e os talheres seriam reconhecidos como tal? Demorou até ter uma certeza, que considero consistente.
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No Verão de 2008, o Capitão João Laruncho de São Marcos presta este testemunho, em Memórias de um Pescador:

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No lugre Leopoldina (?), em fins de Maio de 1912, o ti João Grilo, capitão de navios uma vida inteira, em fins de Maio de 1912, ao chegar à Terra Nova, encontrou aboiado e apanhou um armário de sala de jantar do paquete Titanic, com talheres da “White Star Line” que, ao chegar à Figueira da Foz, em Outubro, concluída a campanha de pesca, entregou ao seu armador, Lusitânia de Pesca.
Destes talheres, guardo como relíquia de valor incalculável e da herança deixada do capitão Grilo, um talher.
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Creio que este talher, hoje, já está na posse de seus filhos.
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Por duas vezes, aparece evocado o nome do Capitão João F. Grilo (Frade), como sendo o autor dos achados, enquanto capitão do lugre Leopoldina.
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Amigos também versados no assunto alertaram-me de que teria sido, de facto, o Capitão João F. Grilo, mas a bordo do lugre Trombetas, um primeiro que existiu, já registado em 1903 na Figueira da Foz, antes do construído em Fão em 1922.


Ficha do GANPB, do achador


Esta informação também está confirmada na grelha existente na página 99 do livro de Manuel Luís Pata, A Figueira da Foz e a Pesca do Bacalhau, Vol. I, que regista a chegada do lugre Trombetas a 27.10.1912, tendo como capitão João Francisco Grilo, com base na informação que lhe chegou através do jornal A Voz da Justiça, da Figueira da Foz, daquele mesmo ano.



1º Lugre Trombetas – 1913



De achado em achado, não é que não descobri que alguns talheres com a mesma origem dos meus, eram carinhosamente albergados numa casa da minha rua, há mais de cinquenta anos, na posse de familiares de terceira geração do Capitão Grilo?
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E nunca tinha ouvido dizer…
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Tenho provas de que algum secretismo envolvia a posse destas «relíquias», no seio das famílias em que existiam.

Para além de colheres de sopa e de chá, também vi, pela primeira vez, garfos do mesmo faqueiro.





Garfos



Mas os tempos são outros, e o mundo, na sua globalidade, permite encontros, trocas de ideias, reconto de histórias – os talhares ilhavenses do Titanic tiveram a sua confirmação plena e entraram na história dos artefactos do malogrado navio.


A descoberta em 1985 dos seus despojos, no fundo do oceano, as sucessivas exposições de artefactos, a partir de 1994, pelo mundo inteiro, para nós, foram aceleradas pelo acaso do ilhavense José Paulo Vieira da Silva, com quem convivemos, ter comandado o navio de pesquisa Jean Charchot, no Verão de 2010, numa última exploração em que uma equipa habitual de oceanógrafos, arqueólogos, cientistas e historiadores, recolheu imagens em 2 e 3 D, bem como dados preciosos para os estudos em causa.

E mais uma vez Ílhavo e a rota do Titanic se cruzaram – conheceram-se e aproximaram-se pessoas e objectos, num interesse comum e fascinante.

E as acções concretizaram-se. Numa adesão da CMI ao projecto, a sala da Faina Maior e o Arquivo do MMI serviram de palco a filmagens, bem como a minha rua, mesmo em obras de remodelação, e algumas das casas relacionadas com o achado.

Também no cais da Gafanha da Nazaré e noutros locais envolventes se caçaram imagens, tendo contado com todo o entusiasmo o que sempre ouvira dizer e o que fui aprendendo e constatando.


Outros actores «contratados», improvisados, mas empenhados, narraram com emoção as suas estórias verídicas, dando corpo a um mito(?), que tem fôlego para ser confirmado.
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Aproveito para agradecer, em nome do programa Thalassa, da TV francesa, a boa vontade da edilidade e de todos os outros participantes, que se afirmaram em equipa.



(Cont.)



Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ficha do Grémio - Gentil cedência do MMI



Ílhavo, 12 de Fevereiro de 2012



Ana Maria Lopes
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

Programa Thalassa, France TV 3, em Ílhavo

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Nos cem anos do Titanic - 1

Perante o andar dos acontecimentos e o «puzzle» que se tem vindo a completar, resolvi reorganizar e reescrever as minhas memórias dos talheres do Titanic existentes em Ílhavo, a que já dedicara alguns posts, em anos transactos.
Mas, como disse, a estória, longe de estagnar, avançou e tem vindo a atingir o auge, com algumas coincidências, cruzamentos de dados e interesses criados, perante o ano de comemoração do desditoso naufrágio do grande Titanic – 2012.


Opinávamos em escritos anteriores – Ílhavo na «rota» do Titanic. À primeira impressão, pareceria descabido, mas, o que é certo, é que acabámos de receber, há dias, a televisão francesa, do Programa Thalassa, France 3, que por Ílhavo permaneceu três dias, para gravar alguns depoimentos e plasmar algumas imagens acerca de artefactos (talheres) do fatídico navio, bem como acerca do fascínio que em torno dele se tem vindo a gerar.
Desde que me lembro, comecei, na juventude, a ouvir falar do Titanic, em casa dos meus avós maternos, onde hoje habito, a propósito, de umas simples, mas fortes e sóbrias colheres de sopa, de prata, com uma estrela relevada, na extremidade do cabo, logotipo da White Star Line.


Estas colheres faziam parte de um dos faqueiros do luxuoso Titanic. Como, porquê e a que propósito?


Colheres de prata do Titanic?...



Aqueles dados foram-me dando volta à cabeça, até porque o meu Pai, de vocação nada marítima, manifestava um certo endeusamento pelo Titanic, o maior vapor da época, o mais luxuoso, o “inafundável”, como diziam, que chegou a desafiar os desígnios de Deus, acabando por naufragar num acidente fatídico, ao colidir, na sua viagem inaugural, com um gigantesco iceberg, na noite de 14 de Abril de 1912, sem que a orquestra nunca tivesse parado de tocar, para não aumentar o pânico aos passageiros (afirmação posta em causa).

Em 1958, a história do Titanic encheu os ecrãs do cinema com o filme ”A Night to Remember”, com Kenneth More, no principal papel. A preto e branco, transmitia-nos todo o drama por que aquela gente passara, a maioria, sem retorno. Ainda muito jovem, vi-o no Teatro Aveirense, mas aí, então, não pensava muito nas colheres com as quais convivia.

Ainda adolescente, era-me contado que aquelas colheres tinham sido encontradas nos restos de um riquíssimo aparador, já só com uma gaveta, com a inscrição TITANIC. Não nos esqueçamos, pois, de confrontar datas e percursos. De fins de Abril a Setembro/Outubro era a altura do ano em que os lugres bacalhoeiros faziam, parcialmente, uma rota aproximada, idêntica à do Titanic, que, ao sair, na sua viagem inaugural, de 1912, em 10 de Abril, de Southampton para Nova Iorque, via Cherbourg e Queenstown, naufragara em 14 de Abril, às 11.40 p. m.

Explicação hipotética, mas dada brilhantemente pelo Comandante António Manuel São Marcos, a bordo, perante uma carta geral do Atlântico Norte, para a TV francesa.
Ele, que também mostrou os seus talheres, entre os quais uma colher de sopa da estrelinha, com que, em criança, comia a sopinha toda, pela mão carinhosa da tia Mercedes…


No primeiro dia de encontro com a equipa, fez-se um reconhecimento dos possíveis locais de filmagem: Ílhavo e enquadramento geográfico, sala Faina Maior do MMI, Arquivo, algumas das casas onde existem os míticos e presumíveis talheres do Titanic.


Tal “cómoda” teria sido “pescada”, de bordo de algum lugre bacalhoeiro, por pessoa amiga ou aparentada do meu Avô, que havia distribuído parte do faqueiro por algumas, não muitas, famílias ilhavenses.
Era o que a tradição oral ia revelando e lá que tinha lógica de sobra, tinha. E, se para experimentar a sensação, um belo dia, puséssemos uma mesa requintada com as presumíveis colheres, para saborearmos a sopa, Avó e netos, imaginando-nos passageiros, de 1ª classe, do tal mítico Titanic, no mundo do faz-de-conta?

Os anos foram passando, sem nada de especial referente ao assunto, a não ser algumas notícias relativas a sobreviventes ainda “vivas” do naufrágio.

Millvina Dean, a última, que fizera a viagem com dois meses apenas, morreu, aos 97 anos, em Southampton, no lar onde decidira passar os últimos dias da sua vida, a 31 de Maio de 2009. Com 97 anos, a 97 anos do naufrágio…

Ironicamente, quando os problemas financeiros do resto da sua vida haviam sido resolvidos pelos consagrados actores do film Titanic (1997) – Leonardo Di Caprio e Kate Winslet – que promoveram um fundo que lhe permitiria pagar a mensalidade da casa de repouso e as despesas médicas, expirou.

Modelo do navio, à escala de 1/350



Tinha 269,10 metros de comprimento, 28 de largura e 46,328 toneladas de arqueação, com uma altura da linha de água até ao tombadilho das baleeiras, de 18 metros.



As máquinas, accionadas a vapor, eram as maiores, construídas até então, com 28 caldeiras. Geravam uma pressão de 15 Kg/cm2, consumindo 728 toneladas de carvão em cada 24 horas. O vapor produzido accionava as turbinas Parsons, que desenvolviam 51 000 hp e impulsionavam o navio a uma velocidade máxima de 23 nós.
Podia transportar um total 3 547 pessoas, entre passageiros e tripulação.
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Erro fatal:

Indubitavelmente, o navio mais luxuoso que alguma vez cruzara os oceanos, não reunia um dos aspectos mais importantes do projecto – a segurança.
Levava 3 560 coletes salva-vidas individuais, mas apenas 16 baleeiras (para 1 178 pessoas), das 64 previstas pelo primeiro desenhador, que teriam sido suficientes para salvar os 3 547 passageiros.
Mas, como o mito da indestrutibilidade do Titanic era tão radical, assim aconteceu…

(Cont).


Fotos de Arquivo da autora do Blog


Ílhavo, 4 de Fevereiro de 2012


Ana Maria Lopes
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

O Matola - 2

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Digo ser este desenho que efectuei o possível plano de formas do barco matola, porque na verdade foi o resultado da pesquisa que se efectuou e que nos parece a mais verdadeira. É este pois o nosso matola.



O modelo, à borda de água



Concluído o plano, dei início à construção do modelo na escala de 1/25 como é meu costume, e à medida que o barquinho aparecia, ia saltando à vista como era elegante a sua imagem.



Em situação de trabalho…



Pensei então, como tinham razão as pessoas de Mira que deles se recordam com tanta estima e saudade.
Os seus barcos, não sendo vaidosos nas cores, eram correctos de formas e bons para o trabalho que executavam devendo ser sempre recordados com o respeito que merecem.




Pormenor do interior…



Na construção do modelo deste moliceiro, como habitualmente, utilizei madeira de tola para o fundo, choupo nos costados e limoeiro no cavername, rodas de proa e de popa, bancadas e porta do leme. Fiz o mastro, a verga e os cabos dos ancinhos de ramos de ameixeira, a vela, de pano de algodão e as ferragens e fateixa, com arame de cobre. Pintei todo o costado e dragas com tinta preta sem brilho e apliquei sobre ela serradura.






Como dimensões principais temos:
 

Comprimento………. 13,50 metros

Boca………………..... 2,50 metros

Pontal……………… .. 0,45 

Número de cavernas      21



António Marques da Silva

Caxias, 24.12. 2011

Escala 1/25


Fotos – do arquivo da autora do blog 


Ílhavo, 26 de Janeiro de 2012


Ana Maria Lopes
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

O Matola - 1

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Era vulgarmente denominado matola, o barco moliceiro construído e usado na parte sul da Ria de Aveiro.
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No livro Moliceiros – A Memória da Ria, de Ana Maria Lopes, na pág. 63, pode ler-se que estes barcos eram construídos nos estaleiros dos Colaços de Portomar e de António Pimentel Loureiro e seu irmão João Pimentel Loureiro, por alcunha o Gadelha, nascido em 1912 no Seixo de Mira.
Hoje já não constrói, mas um seu filho que trabalhava com ele, Evangelista Santos Loureiro, nascido em 1944, estabelecido como construtor naval no Seixo de Mira, dedica-se sobretudo a bateiras e chatas para pesca.



Na traseira da Vista Alegre


Embora fosse possível estes moliceiros exercerem a sua actividade em qualquer zona da ria, era mais comum vê-los à vara ou à vela, arrastando os seus grandes ancinhos na Cale de Mira, desde as praias da Marinha Velha, Praião e Gramata, passando pela Costa Nova, Vagueira, Areão e Seixo de Mira.


Restos de um dos últimos matolas



Sendo muito parecidos com os moliceiros da Murtosa, saltava logo à vista uma principal diferença, por não terem as caras da proa e da popa decoradas.
Eram totalmente breados, tornando-se assim muito mais tristonhos aos olhos de quem os observava. Contudo na sua missão, eram tão capazes como os do norte e como eles bons de vela sendo muito frequente a competição quando seguiam nas suas grandes viagens para descarregar nas folsas de Vagos.
Além da cor, notava-se alguma diferença no lançamento da bica de proa mais alteada e na volta do papo que parecia um pouco mais alargada.
Pelas dimensões de registo que recolhemos, verifica-se que tinham normalmente menos um metro e meio de comprimento e quinze centímetros de boca. De pontal eram iguais aos seus irmãos do norte.
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Ao moliço, sem data


Para desenhar o seu possível plano de formas, utilizei além destas medidas, o maior número de fotografias que com a ajuda da boa amiga Ana Maria Lopes me foi possível observar. Além destes elementos, foi a nossa memória visual que nos deu a melhor ajuda para este trabalho.

(Cont).
Ílhavo, 16 de Janeiro de 2012

Fotos – do arquivo da autora do blog
Ana Maria Lopes
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

Destino de um Barco do Mar - retalhos...

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O chamado de o mais belo barco do mundo por Raul Brandão, não deixou grande memória viva, entre nós.
Quando pelos anos sessenta/setenta do século passado, estes barcos do mar, de quatro remos, começaram a deixar de operar, o seu destino seria o apodrecimento, junto das praias onde foram reis e senhores.
Tal aconteceu com o Senhora do Monte, que parece ter trabalhado na Torreira, de que não há qualquer eco.


 (…) O barco tem quatro remos nos quatro bancos: o do castelo da proa, o do remo da proa, o do remo da ré e o do castelo da ré. A cada um destes pesadíssimos remos se agarram quatro homens de pé nas estorveiras que ficam nos intervalos dos bancos, seis sentados e ainda outros, os camboeiros, puxando os cambões – todos ao mesmo tempo, todos com o mesmo ritmo. O revezeiro, que ordena a saída para o mar, manda também em cada remo. Na parte mais delgada remam os caneiros, que trilham o remo e fazem a voga, ajudados pelos segundos – regista Raul Brandão, ao visitar o nosso litoral, pelos anos 20…, desde Espinho até Mira, passando pela nossa Costa Nova.

Em todo o país, resta-nos um, albergado pelo Museu de Marinha, no Pavilhão das Galeotas e sorte tive em saber algo do seu historial através de dados e imagens cedidas pelo amigo Comandante António Bento, que ainda o presenciou no areal da Torreira e que se encarregou do seu transporte para o referido Museu.
É o Sto António, construído em 1971, em Pardilhó, pelo hábil Mestre Henrique Ferreira da Costa, conhecido pelo Lavoura. Não operou mais que quatro anos – até 1975.



No areal da praia da Torreira, pelos anos 70



Dimensões – comprimento, 15,80 m; boca, 4, 38 m; pontal, 1,24 m. Matrícula A-2116-C.
Foi comprado a David da Silva por 20 000$00, em 28.4.1980 por intermédio da Capitania de Aveiro. O transporte para Lisboa importou em 10 000$00, tendo sido restaurado no Museu de Marinha em 1982. Ei-lo:





Melhor ou pior destino teve o S. Paio da Torreira, acolhido e exibido dignamente pelo Exeter Maritime Museum, depois de votado ao abandono durante uns anos, na borda da ria.



No Museu de Exeter, nos anos 90
No Museu de Exeter, nos anos 90

Com a extinção deste museu, em 1997, por falta de verbas, ainda não consegui notícias do seu rasto, se é que o tem.

Que saudades não terá o S. Paio, da companhia das abegoarias, do auxílio das juntas de bois, da admiração dos pescadores e visitantes, dos mil sóis que se punham no mar, ao entardecer, enquanto se exibia no areal imenso, encharcado por um céu azul, azul, azul.



Postal de época – Torreira


Resta-nos o areal – nem isso, já que tem sido altamente galgado e engolido pelo mar ameaçador.


Ílhavo, 9 de Janeiro de 2012


Ana Maria Lopes
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