sábado, 19 de janeiro de 2019

XX Capítulo da Confraria Gastronómica do Bacalhau - Aniversário


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A Confraria Gastronómica do Bacalhau realiza, amanhã, dia 20, o seu vigésimo aniversário. Parece que foi ontem que o Sr. Prof. Reigota chegou ao Museu para me pedir emprestado por dois dias o garfo de «garfar bacalhau», com que, simbolicamente entronizam os novos confrades. E lá se passaram 20 anos, em que a associação ganhou cada vez mais responsabilidades. Os tempos são outros, há muito mais confrarias, há muito mais eventos onde se fazem representar, mas sempre com o mesmo espírito de defender a parte gastronómica relacionada com o bacalhau, sem esquecer o historial que foi a Faina Maior.
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Todo o programa decorre na Casa da Cultura de Ílhavo.
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10h – Patanisca de Honra
11h – Cerimónia evocativa dos 20 anos da Confraria
12h – Entronização dos novos confrades
13h – Troca de lembranças e Almoço
17h – Sessão de cinema «A Campanha do Argus» de Alan Villiers
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Os novos confrades efectivos entronizados serão: Aníbal Veiga, capitão da frota bacalhoeira, Alexandre Pinto, profissional de Seguros e José Esteves, arquitecto. Os confrades de honra serão José da Rocha Castro, conhecido por Zé do Miguel, antigo pescador do bacalhau, Pedro Abrunhosa, cantor, autor e músico e a Rota da Bairrada.
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No que me diz respeito, cuidado!... sou a única mulher «Confrade de Honra», e a concretização da honraria demorou dez anos a corporizar, segundo me explicaram, na altura.
Recordando momentos dos últimos Capítulos:
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2016. A minha entronização

2017. Na Costa Nova, entrada para o almoço

2018. Momentos de convívio
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No «rancho de bordo», no MMI, confrades e estandarte de 1999
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Que muitos capítulos se realizem com o mesmo espírito confrádico, saúde, entusiasmo e algumas inovações!...

Ílhavo, 19 de Janeiro de 2019
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Ana Maria Lopes-

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Homens do Mar - José da Silva Cruz - 52


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Zé da Pardala
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José da Silva Cruz, mais conhecido por Zé da Pardala, oriundo de famílias modestas, era filho de Manuel Maria da Cruz e de Luísa da Silva Pardala, padeira famosa da rua do Casal. Nascido em Ílhavo em 13 de Novembro de 1915, morador na citada rua, era portador da cédula marítima nº 10208, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, sem data.
Casou com Maria de Jesus Teles, o amor da sua vida, a 14 de Janeiro, de 1939, de quem teve dois rapazes, tendo enviuvado em 1947.
Concluída a instrução primária, deu a conhecer a seu pai que gostaria de ser maquinista na Marinha Mercante. Então, de aprendiz de serralheiro numa oficina em Aveiro, passou a trabalhador-estudante, em Lisboa, na Escola Industrial Fonseca Benevides, e depois a aprendiz de torneiro, também na capital.
Foi com 68 anos, que decidiu deixar-nos escritas as suas Memórias – 1927-1983, que, agora nos auxiliaram, nestas divagações, já que, por esses anos, ainda não havia acesso frequente aos dados da Comissão Reguladora da Pesca do Bacalhau, nem do Grémio.
Com a morte do pai e a falta de meios, a sua vida de estudante terminou. O recurso foi mesmo a pesca do bacalhau através de um pedido ao primo António dos Santos para o levar com ele, no lugre-escuna Santa Regina, antigo veleiro, de que era capitão.
E lá foi «o bom do Zé da Pardala», em Janeiro de 1933, para Massarelos, no Porto, para bordo do navio, em que terá feito a primeira viagem de moço – vida de uma dureza extrema, ainda por cima, naqueles tempos remotos. Entre as campanhas de 1934 e 36, permaneceu no mesmo navio, ascendendo facilmente na carreira profissional. Gostou mesmo daquela vida, apesar de cruel e lá foi de «verde», na viagem de 1934. Entre os «verdes», foi o melhor pescador – revela-nos. Nas safras de 35 e de 36, já foi como pescador «maduro», classificando-se entre os melhores do navio.
Foi sempre um trabalhador destemido, quer com mar bravo quer debaixo de névoa, sentindo vaidade nisso, e o pescar, para ele, era como que fosse um desporto. Nesta campanha, tinha havido algumas mudanças na tripulação, salientando que tinham levado o seu irmão mais novo, Manuel da Silva Cruz, mais conhecido por Necas da Pardala, como moço de câmara. O Necas revelou-se um rapaz esperto e bom trabalhador, e facilmente conquistou a simpatia de todos.  Quando o capitão o mandava «matar o bicho» aos homens, em vez de um copo de aguardente, dava dois, «lubrificação» que a todos agradava. Constou-nos que o capitão António dos Santos batia amiúde ao moço de câmara, este Necas, porque o garoto não regulava convenientemente a torcida do candeeiro a petróleo em relação ao bocal, daí resultando má queima e o enegrecimento do vidro do mesmo. Mas, um dia, o irmão Zé achou que já era demais, arriou-se pela escada da câmara abaixo, armado com a faca de escala, enfrentou o capitão e disse-lhe: «… se volta a bater no garoto, eu escalo-o…». A verdade é que o Nequinhas nunca mais apanhou nem se esqueceu nunca desta história, pois, foi ele mesmo que ainda há poucos meses, antes de morrer, a referiu a alguém.
Foi uma viagem muito fraca, esta de 1936 – nem sequer tinham ido à Groenlândia. Largaram para Portugal, em fins de Outubro, com pouco mais de meio carregamento. Tinha sido esta, a sua última viagem no Santa Regina, pois queixava-se o famoso Zé Cruz que o capitão António dos Santos fazia dele o bombo da festa, pois, como era da família, quando as coisas lhe corriam mal ou ao sentir-se aborrecido com qualquer membro da companha, era nele que «descascava» desalmadamente.
Estava decidido. Chegado ao Porto, saiu portaló fora e, de saco às costas, lá rumou a Ílhavo, onde era costume reunir-se com os companheiros e alinhar em grandes paródias. Um amigo perguntou-lhe se não quereria ir num navio novo, de ferro, ainda em construção nos estaleiros da Companhia União Fabril (CUF), com motor diesel, com frigorífico e outras melhorias de renome, para aquela época – era o famoso Creoula. Ajustadas as condições com o capitão e amigo, dizia ele, Aníbal Ramalheira, lá foram em princípios de Janeiro trabalhar para a Azinheira Velha, localidade junto ao Barreiro que servia de local de armamento, processamento e seca à frota do Bensaúde, para a viagem inaugural, em 1937.
Como o lugre-motor em construção ainda estava um bocado atrasado, os homens destinados ao Creoula, enquanto esperavam pelo navio novo, foram distribuídos pelos outros navios da casa – Neptuno, Hortense, Gamo e Gazela. amarrados lá na Azinheira. Mas, em Março, lá foram para os estaleiros da CUF, para aparelhar o Creoula. Saíram bastante tarde, no fim de Junho com destino à Groenlândia. Foi uma viagem curta.
Saiu equipado de Lisboa, na viagem inaugural em 1937, com botes para dois pescadores, à francesa, a que os nossos homens nunca se habituariam, pelo seu individualismo. No meu dóri, sou eu o capitão – afirmava o pescador – frase amiúde repetida, que o testemunhava. Assim sendo, o capitão viu-se obrigado a pedir botes sobressalentes de outros navios da Parceria, para poder prosseguir a faina.
O Creoula possuía uma câmara frigorífica para o isco, mas o Capitão Aníbal entendia que só os pescadores mais qualificados tinham direito a linhas de trol e a isca. Então, que fazer? como não tivesse isco, o Zé da Pardala arriou e, usando a imaginação, levou a sua velha espingarda, e toca de matar gaivotas e pombaletes, que voavam em volta do navio, cuja carne funcionava como óptimo isco para peixe grado. E a coisa foi-se repetindo, trazendo com frequência o bote carregado. Sendo um dos pescadores mais novos do navio, deu cartas e água pela barba aos azes da Fuzeta, Setúbal, Nazaré e S. Miguel.
Em Ílhavo, depois da chegada, tempo dos regabofes da praxe, das tainadas e noitadas, até que, em Janeiro de 1938, passados o Natal e Ano Novo ainda junto da família e dos amigos, em Janeiro de 1938, de novo, rumou para a Azinheira, para a safra seguinte, no Creoula – viagem que deixou muito que contar, neste caso, pela negativa.
No dia 10 de Outubro, em que o mau tempo vinha a piorar, já não se podia passar da proa à popa. O convés do Creoula era uma autêntica praia. A certa altura, temendo-se o pior, o navio meteu a proa ao mar e uma vaga enorme, cavalgou-o, varrendo-lhe o convés e saindo pela popa. Tal volta de mar, em toda a sua fúria, levou o imediato, Carlos Eduardo Miranda Calás, natural de Lisboa e mais 3 homens qua aí tiveram sepultura para sempre. Para além destas descomunais perdas humanas, esta montanha de mar levou também borda fora, 28 dóris, mesas de escala, selhas, barris e uma agulha magnética.
A retranca da mezena partiu-se em três, bem como a carangueja e o amantilho da vela grande.
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Bela imagem do Creoula a navegar... Foto de F. Paião
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A viagem de regresso foi de luto e muita tristeza, pois, para trás, nas profundezas do oceano, ficaram quatro companheiros de luta, apesar deste nosso amigo ter sido «primeira linha», no que tinha muito orgulho.
Tudo parecia correr bem.  Casou-se em Janeiro de 1939, com a sua mais que tudo, só que, uns oito dias depois do casamento, fora chamado para a Azinheira, já que lhe tinha calhado em sorte, ser um dos que ia para Roterdão, buscar o novo navio da empresa – o Argus – que a Bensaúde aí havia mandado construir. Era um magnífico navio, mas as saudades da sua amada, depois do casório fresquinho, eram mais que muitas. Mal chegaram a Lisboa, começaram os preparativos do navio para a viagem inaugural. Enquanto isso, algumas mulheres de marinheiros, bem como de oficiais, foram também para a capital para junto dos maridos, minimizando assim o tempo de tão grandes ausências.
Sob o comando de Aníbal Pereira Ramalheira, do imediato Hermenegildo Rodrigues do Passo, da Fuzeta e do piloto, o conterrâneo Manuel dos Santos Malaquias, lá o Zé da Pardala recorda que a sua posição a bordo, fora, durante quatro anos consecutivos, escalador e pescador especial, pois durante essas safras, pescara mais de duzentos quintais de bacalhau, por campanha. Com o navio carregado, ainda passaram pelo Grande Banco, para meter mais algum peixe, depois de este ter abatido. Havia mau tempo, com frequência, pelo que os dóris não arriavam. Durante um ciclone, uma onda apanhou, inesperadamente o capitão, atirando-o contra os dóris e o mastro, pelo que nunca mais foi o mesmo, de saúde.
E a rotina continuou, os preparativos do navio para a viagem seguinte (1940). Quem veio substituir o Cap. Aníbal, foi o Cap. Adolfo Paião, homem bem-educado e muito calado. Foi um ano de bom tempo e de muito bacalhau. De regresso, havia o primeiro filho – José Manuel Teles da Cruz – a esperá-lo, o que lhe provocou a maior alegria e forte emoção.
Na safra de 1941, nova mudança de oficiais. O capitão passou a ser João Pereira Ramalheira, o Vitorino, o imediato, Armindo Simões Ré e o piloto, o pai, Alexandre Ré, todos de Ílhavo. Com o seu feitio muito próprio, justo, mas, à moda dele, um dia, deu uma carga de porrada ao cozinheiro e à mulher – questiúnculas – que só não o matou, porque não calhou. A cena deu que falar no meio marítimo de Ílhavo, mas o capitão não se zangou com ele, porque não o sabia desordeiro – mas, algo se teria passado. As coisas lá foram andando,
Confessa-nos o Zé da Pardala que, naquele ano, quem tinha pescado mais peixe, fora ele, mas, o capitão Vitorino dera ao Francisco Laurencinha, também este um óptimo pescador da Fuzeta, os peixes que os moços tinham apanhado a bordo, saindo este, beneficiado. O que foste fazer, ó capitão? Essa atitude feriu a justiça do Zé da Pardala, que jurou ser essa, a sua última viagem ao bacalhau. E foi mesmo.
Nesse ano de 41, naufragara o Santa Quitéria, lugre-motor já velhote, com água aberta, comandado pelo conterrâneo capitão João Sousa. Como o Zé lá tinha um primo, de moço de convés, o António da Silva Rolo, pediu ao capitão se o podia ir buscar, ao que ele acedeu, mas recomendando-lhe cuidado, devido ao mau tempo. Lá foi catá-lo, passando o primo a dormir com ele. Era jovem, bem-educado, trabalhador e todos gostavam dele. No fim da viagem, foi-lhe feita a soldada como aos outros moços.
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Largada de botes, do Argus. Foto de AV.
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Por aqui ficou a epopeia do Zé da Pardala, no bacalhau. O que ele queria mesmo era emigrar para os Estados Unidos da América, como seu pai.
De início, a vida não lhe correu tão bem assim, mas como «self made man», corajoso, despachado e lutador, lá foi vingando e enriquecendo. Começou por trabalhar na agricultura, na Califórnia, onde permanecera até 1951.
O mar, sempre o mar, atraía-o e logo iniciara carreira na pesca do atum, no sul da Califórnia, que largara em 1965.
Com oportunidade de, nos Estados Unidos, voltar a estudar, não perdeu a ocasião e tirou um curso de maquinista. Não lhe faltando nem conhecimentos nem ocasiões, lá andou de maquinista, entre 2º e 3º, nos navios de passageiros e mercadoria, Président Wilson, Taylor, Eisenhower e noutros navios da companhia, até à reforma.
Intercalava estes períodos de trabalho com vindas de férias a Ílhavo, onde desfrutava dos encontros com amigos, das lambanças, das paródias e, mais tarde, de viagens pela Europa no seu Ford Mustang americano.
Já em Ílhavo, definitivamente, tinha uma casa nova com um bom recheio, na rua do Casal e até um pequeno bar, decorado com montes de recordações marítimas trazidas dos muitos lugares onde aportara, onde fazia gosto de receber os amigos, para comer uns peticos e beber «uns calmantes», como chamava às bebidas.
Até eu lá cheguei a ir lá, enquanto Directora do Museu, numa das vindas a Ílhavo do NTM Creoula, onde tinha andado e sempre visitava, com o comandante Sá Leal e os outros oficiais do navio, para uma boa cavaqueira, à moda do Zé da Pardala, servida de uns aperitivos e de uns «calmantes».
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No bar do Zé da Pardala, em Setembro de 1993
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Em jeito de epílogo, querem saber qual era uma das últimas vontades do nosso homem?
Gostava que o meu funeral fosse modesto e gostava de sair da minha casa na Rua do Casal, em Ílhavo, indo do meu Bar para o cemitério da vila, transportado num carro de bois, esse carro antigo, com os fueiros no seu lugar e que os bois fossem cobertos com uma manta preta ou vermelha (a cor para mim não conta), levando, no entanto, os cornos de fora. Ao passar à Igreja, os sinos tocarão em sinal de despedida, e que me levem, então, em paz, para junto da minha esposa de alguns anos, se tal for possível.
Perante tal insólito pedido, tive de me certificar como se tinham passado as coisas e, pessoa fidedigna garantiu-me que nada disso foi posto em prática, pois o encarregado de fazer cumprir tal desejo, por anómalo que era, nem sequer o tentou.
Partiu, o Zé da Pardala, mesmo sem ter sido levado no meio de transporte ambicionado, a 2 de Julho de 2009, com 93 anos.
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Fotos de arquivo da autora
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Ílhavo, 11 de Janeiro de 2019
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Ana Maia Lopes-

sábado, 5 de janeiro de 2019

CMI celebra 40º aniversário da ponte da Vista Alegre


A Câmara de Ílhavo, numa iniciativa conjunta com a junta de Freguesia de S. Salvador e a Fábrica da Vista Alegre, vai assinalar, amanhã, dia 6, pelas 17 horas, o 40º aniversário da abertura da segunda ponte da Vista Alegre. Esta infra-estrutura, que atravessa o Rio Boco, ligando a Vista Alegre e a Gafanha da Boa Vista, para além do garante da mobilidade, incorpora uma realidade histórica entre 1977 e 1979. A recordar:
Pelos anos 30, o transporte de passageiros entre as duas margens da ria, era feito por uma barcaça, movida à vara.
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Era assim a travessia…pelos anos 30
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Por trás da proa do barco moliceiro, vê-se a tal barcaça, para travessia de peões.
Apesar do cenário bucólico e da paisagem idílica, uma ponte fazia muita falta, pois a travessia da barca, em dias de vendaval, constituía um perigo.
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A travessia da ria, pelos anos 50
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Depois de um abaixo assinado, entregue em Dezembro de 1974, em que o «pai» da ideia, – João André Patoilo – dava conta da necessidade da construção de uma ponte que unisse as duas margens da ria, o empreendimento teve o seu início em Abril de 1978, começando a dar passagem a peões em Setembro do mesmo ano. Teve a sua inauguração oficial em 6 de Janeiro de 1979, já, portanto há 40 anos.
Com a presença de várias autoridades e depois dos discursos da praxe e do «passeio» a pé pela nova ponte, foi servido no Refeitório da Fábrica da Vista Alegre, um convidativo almoço que reuniu cerca de100 convidados.
Assim acabou a travessia da barcaça, que após a inauguração da primeira ponte que naquele local existiu, realizada em 1835, começou a transportar para um ou outro lado da ria quantos à fábrica vinham prestar o seu trabalho, ou à vila tinham que se deslocar.
A ponte ainda lá está, já foi restaurada por algumas vezes, restauro esse que tem deixado, muitas vezes, a desejar.
O seu tremelicar, ao transpô-la, faz-nos lembrar todos os acidentes com pontes em que o país tem sido fértil, ultimamente.
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Ponte da Vista Alegre em 2009
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Agora, mais do que nunca, a ponte deve estar sempre cuidada, sobretudo depois da requalificação que o lugar sofreu, com o restauro da Capela, com todas as suas riquezas escultóricas e pictóricas, do Museu, do ex-Teatro Ribalta, das lojas da Fábrica e da instalação do recente Hotel Montebelo, de cinco estrelas que acolhe visitantes e reuniões de luxo. O bairro operário, bonitas moradias e outros arruamentos andam, aos poucos, a ser reconstruídos.
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O prémio Escolha do Público do galardão europeu RegioStars foi, no transacto ano, atribuído, em Bruxelas, ao projecto de requalificação do lugar da Vista Alegre, em Ílhavo, que se propôs a preservar a identidade daquela empresa de porcelana fundada em 1824.
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Ílhavo, 5 de Janeiro de 2019
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Ana Maria Lopes-

domingo, 30 de dezembro de 2018

NOVO ANO DE 2019


Se há imagens que me marcaram, esta foi uma delas -  O Beijo dos Moliceiros


Ílhavo, 30 de Dezembro de 2018

Ana Maria Lopes


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Homens do Mar - David Manuel Mendes Calão - 51


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Cap. David Calão (Ficha do Grémio)

Há em Ílhavo famílias cujo nome logo denuncia que nelas houve, geracionalmente, «pilhas» de homens do mar. E esta é uma delas – família Calão.
Que eu tenha conhecido e com alguma ligação com meu avô materno, pois era seu irmão, o patrono era o Capitão Francisco dos Santos Calão, de quem o visado de hoje é filho.
David Manuel Mendes Calão, filho, pois, de Francisco dos Santos Calão e de Maria Oliveira Mendes, nasceu em Ílhavo, em 27 de Julho de 1926, na rua Dr. Samuel Maia, lá bem para o fundo do Arnal, onde foi criado.
Do casamento com Maria Luísa Pinto Nunes Guerra, nasceram cinco filhos: duas raparigas, Maria Irene e Maria Luísa e três rapazes, Francisco Manuel, David Manuel e José Luís Guerra Mendes Calão, tendo, pelo menos, um deles, o David, vida ligada ao mar.
Capitão já das mais recentes gerações, era possuidor da cédula marítima nº 25165, passada pela Capitania de Aveiro, em 12 de Dezembro de 1945.
É perfeitamente natural que o mar fosse o grande objectivo da sua vida profissional, e, nesse sentido, fez a sua primeira viagem como praticante de piloto (ainda sem curso), na 1ª viagem do ano de 1946, sob o comando do seu pai, Francisco dos Santos Calão, no já citado e conhecido primeiro arrastão de pesca lateral, Santa Joana, mandado construir pela Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), na Dinamarca e estreado na safra de 1936 por João Ventura da Cruz.
David Calão, na safra de 1948, fez a viagem inaugural, a única do arrastão Santa Mafalda, construído em 1948, para a EPA, pelo estaleiro Odero Terni Orlando, em Livorno, Itália, como piloto, sob o comando de António Trindade da Silva Paião (1895-1971).
Retomando o Santa Mafalda no ano de 1950, com duas viagens, exerceu o cargo de piloto na primeira e o de imediato na segunda, sob o comando do mesmo capitão, bem como na única viagem do navio, em 1951, nas duas de 1952 e na primeira de 1953.
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Arrastão São Gonçalinho na Gafanha da Nazaré
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E eis que lhe foi proporcionada a mudança de navio, – o São Gonçalinho – do mesmo armador, Egas Salgueiro. Construção nos Estaleiros de Viana do Castelo, que o seu pai vigiara em 1946/47 e estreara no ano de 1948. Neste navio fizera, o «nosso» homem do mar, a segunda viagem de 1953, como imediato, sob o comando de Manuel Gonçalves da Silva, Paroleiro (1898-1972), situação que se manteve, durante o ano seguinte. A partir de 1955, a situação inverteu-se e o Cap. David Calão passou a capitão do «seu São Gonçalinho», com num ritmo de viagens alucinante, até ao ano de 1966. Apenas não fez a segunda viagem de 1963, tendo sido substituído por António Trindade Grilo Paião (1928-2002).
Neste espaço de tempo, foram seus imediatos, todos de Ílhavo, Manuel Gonçalves da Silva, Paroleiro, Francisco Manuel Mendes Calão (1961, 62 e 63), seu irmão, Manuel Alves Mendes (1964 e 65) e Valdemar Aveiro (1966).
Ao todo, entre imediato e capitão serviu-lhe de «habitat aquático» o São Gonçalinho, durante catorze anos, num total de 25 viagens, entre 1953 e 1966).  Este ritmo vertiginoso só seria conseguido por um homem trabalhador, dinâmico, sabedor e amante da sua profissão, que o levava a vencer a saudade da família, durante meses e meses no mar, em prol do sustento e conforto da mesma.
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Capitão David Calão, a bordo…
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O São Gonçalinho foi o primeiro arrastão com uma linha de veios e pás reversíveis, inovação que penalizou frequentemente o capitão com reparações e alguns dias de estadias em terra, que ele foi ultrapassando sempre.
Nesta mesma década de 60, começaram a surgir os chamados arrastões de popa, novos tipos de navios com novos métodos de pesca – o Maria Teixeira Vilarinho, em 1964, o Santa Isabel, em 1965 e o Santa Cristina, em 1966, para a EPA, ambos construídos nos Estaleiros de S. Jacinto.
Fez a viagem inaugural, em 1965, o Santa Isabel, pelas mãos de João Laruncho de São Marcos (1919-2018).
Em 1967, que grande desafio foi feito ao «nosso» capitão – o comando deste arrastão – … e assim aconteceu.
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O arrastão de popa Santa Isabel. 1965
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Depois de várias e rentáveis viagens, neste novo navio de arrasto de popa, em 1967 (três viagens), em 1968 (duas), em 1969 (duas) e em 1970, uma, visto que na segunda do ano, comandou o navio, Manuel Mendes, o inesperado aconteceu…
Foram seus imediatos Valdemar Aveiro (1967 e 68), António Virgílio (1969, 70 e 71) e seus pilotos, António Manuel Silva (1967 e 68), Manuel Luís Chuva Machado dos Santos (1969) e José Manuel Maia de Oliveira, nos restantes, todos de Ílhavo.
A 23 de Abril de 1971, prestes a largar para Portugal com um carregamento de cerca de vinte mil quintais, segundo noticia O Ilhavense de 1 de Maio, perdeu-se no Labrador, por choque com uma ilha de gelo, baixa mas profunda, o arrastão de popa Santa Isabel, belo navio, relativamente novo, pertença da EPA, salvando-se toda a tripulação, que já vem a caminho. Era seu comandante o distinto oficial náutico Cap. David Mendes Calão.
A perda fatídica na Terra Nova do Santa Isabel provocada por um iceberg só, por milagre, não deixou de luto setenta famílias de pescadores – é o título da notícia do Jornal do Pescador de Junho de 1971, pp. 41 a 44, de que respigo alguns excertos.
O drama, pois de drama se tratou, na medida em que se perdeu uma das mais valiosas unidades da nossa marinha mercante, teve lugar pelas vinte horas do dia 23 de Abril.
Noite cerrada, com toda a tripulação a bordo, depois de um longo dia de faina, eis que um som surdo, proveniente de algo que batera no arrastão, se fez sentir. Surpresa! Baque! Susto! – não se vislumbravam quaisquer luzes, o silêncio era total. A verdade dos factos surgiu e o Santa Isabel estava de água aberta… O seu destino encontrava-se traçado. Não seria preciso muito tempo para que toda a tripulação, composta por setenta homens, assistisse, à partida para um mundo submerso desse navio que era o seu orgulho, impotente para o evitar.
E mais do que o navio, desapareciam, devorados pelas águas, singelos, mas afectuosos bens pessoais, como uma simples fotografia de família, de muitos pescadores do nosso litoral.
Não aconteceu que estes homens, muitos, chefes de família, com bastantes filhos, fossem devorados para sempre. Nem tudo era drama, mas muito de mal havia sucedido.
O Santa Isabel já se preparava para dentro de breves dias, iniciar o regresso para Portugal. Tudo se perdera, mas a vida, essa, salvara-se.
Nesse salvamento, foi de louvar a actuação do capitão, tripulação e pescadores do Vasco d’Orey, arrastão da Empresa de Pescas de Viana, sob o comando de Manuel Machado dos Santos, Praia, de Ílhavo.
A luta pelo salvamento heroico dos seus semelhantes fora inexcedível, até à «captura» do último homem.
Mal chegaram a bordo, foi-lhes proporcionado o maior conforto com a ingestão de bebidas fortes, para lhes restituir o calor de que tanto necessitavam e com a cedência de roupas da própria tripulação, pois mais fartura não havia… são assim os homens do mar. Por vezes rudes, mas humanos e amigos do seu amigo. Logo que possível, a tripulação do Santa Isabel foi dividida entre o Santa Mafalda e o Santa Cristina, ambos arrastões da mesma empresa, em que navegaram até à barra de Aveiro. Se cada um sentiu a seu modo, para o Capitão David, a perda do «seu navio» nunca mais foi ultrapassada. Constou mesmo que foi muito difícil convencê-lo a abandonar o navio numa balsa salva-vidas, já que a sua decisão obstinada era afundar-se com ele. Este dramático episódio, sempre presente na sua mente, aí durou até ao fim dos seus dias.
Nesse mesmo Verão de 71, de férias na Costa Nova com a família, teve um acidente solitário de lancha, em que esta capotou, ao ter-se baixado, o capitão, para acender o cigarro.
Sói dizer-se que a vida é uma roda que anda e desanda para qualquer um dos lados. E nesta época, o azar bateu à porta do Cap. David. A roda resolveu andar para trás. Em fins de Agosto, dia 29, na sua casa de férias, no 1º andar, voltada para a ria, lá ao norte, nº 108, 1º, da Avenida Marginal da Costa Nova, desmaiou na banheira, intoxicado por uma fuga de gás do esquentador. A má notícia espalhou-se entre amigos e correu pela praia mais célere que a nortada.
Apesar de levado para o hospital com vida, urgentemente, foi reanimado, mas as lesões no cérebro provocadas pela falta de oxigénio, deixaram marcas irreversíveis na visão e no controle da fala. Com o andar dos tempos, foi recuperando, mas nunca mais foi quem era, nem voltou ao activo, apesar de ir mantendo alguma bonomia.
Ainda muito novo, partiu a 9 de Outubro de 1983, acabando a sua tormenta, com 57 anos, vítima de um ataque cardíaco. Aquele maldito iceberg gelara-o para sempre.
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Segundo declara Valdemar Aveiro (VA) no seu livro Ecos do Grande Norte (pp.117 a 120), o Cap. David foi o seu último capitão, sendo sem dúvida uma figura carismática da terra de Ílhavo e da pesca do bacalhau.
Ainda não o conhecia pessoalmente e já ouvia falar dele como um homem independente, arrojado, que se lançava em aventuras sozinho, sem mendigar a companhia de ninguém. Se as pescas não eram do seu agrado, abandonava a zona à procura de melhores resultados – grande marinheiro, que teve a oportunidade de confirmar pessoalmente.
Como já referido, o Capitão David, em 1967, passou para o comando do Santa Isabel, navio novo e de arrasto pela popa, onde este grande capitão mostrou o seu real valor, quer como Pescador, quer como Marinheiro.
Afável, calmo, bondoso, bom conversador – assim o retrata Valdemar Aveiro, de quem foi imediato nos anos de 1966, no São Gonçalinho e de 1967 e 68, no Santa Isabel.
A certa altura da vida, em plena actividade e na força da vida, foi morar para uma casa alugada esverdeada, pertença do Sr. Durão, que mais tarde comprou, ainda hoje, uma das mais bonitas e melhores moradias, logo no início da dita Avenida dos Capitães (e das primeiras construídas, pelo início dos anos 50), junto ao Pavilhão Desportivo do Illiabum Clube.
Segundo Valdemar Aveiro, não tendo sido ele o seu primeiro mestre, foi com ele que mais aprendeu, mais cresceu e ganhou dimensão, tendo-o preparado para que pudesse enfrentar com êxito, futuros combates.
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Ílhavo, 13 de Dezembro de 2018
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Fotos – Foto do Grémio cedida pelo MMI e a outra, pela família
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Ana Maria Lopes-

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Tragédias marítimas ... que enlutaram a nossa terra...


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Como já referi, muito mais do que pensamos, se perderam gentes ilhavenses no mar. Em qualquer dos mares, que é todo um. 
Sabendo que dois amigos meus, irmã e irmão, perderam o Pai num naufrágio, há mais de 50 anos, na altura, não lhe dei o merecido valor da perda.
Agora, que pondero mais os factos e os aprecio mais, lembrei-me de ir revirar os jornais da época, para saber se a notícia tinha sido dada e com que profundidade a tinham tratado. 
E no jornal «O Ilhavense» de 10 de Dezembro de 1965, está-se a aproximar o aniversário, dei de caras com o que pretendia.
Na primeira semana do corrente mês, há 53 anos, Ílhavo saiu enlutado de uma grande tragédia marítima.
Havia desparecido o velho cargueiro «João José I», naufragado ao norte do Furadouro, na sua viagem de Lisboa ao Porto, nos fins de Novembro. Vapor onde navegavam 9 homens, que perderam a vida, sendo de Ílhavo, o cozinheiro, Manuel Francisco Grilo, de 45 anos e o motorista, Leopoldo dos Santos Barreto, de 60 anos, homens muito admirados e estimados pelos camaradas pelo seu profissionalismo e capacidade de trabalho.
O cargueiro «João José I», antigo Merwestein, que o capitão João Cândido Cristiano comandou durante muitos anos, fazia viagens de cabotagem sob o comando do capitão cabo-verdiano, Manuel da Silva.

O cargueiro «João José I»
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Saíra de Lisboa para o Porto e a quatro horas de Leixões ainda o capitão comunicava com a esposa, dizendo-lhe que o navio estava a meter água. Nada mais se soube. E esta tragédia marítima poderia ter ficado por aqui…
Teria sido melhor? Pior? Esperou-se um dia, outro e outro, até que…
Cenas muito chocantes se seguiram.
Deu à costa, perto de S. Jacinto, o corpo do desditoso cozinheiro ilhavense Manuel Francisco Grilo de 45 anos, casado com Alzira Chibante.
O coração da família dos outros tripulantes desaparecidos apertou-se mais um bocadinho, numa esperança … de quê? Seria sempre uma má esperança, que talvez diminuísse um pouco a dor da perda. Seria? Não faço ideia, nem opino sobre tal…
Na manhã do dia 6 de Dezembro, encontrado por um pescador madrugador, apareceu arrolado o corpo de Leopoldo dos Santos Barreto, na praia da Costa Nova, um pouco ao norte da casa do conhecido, à época, Dr. Ferreira da Costa. O desafortunado motorista era casado com Júlia Vidal Figueiredo (Mariazinha) e pai da Maria Alice e do Júlio Barreto, meus amigos, e, ao tempo, respectivamente, professora do Externato de Ílhavo e finalista do Instituto Superior Técnico de Lisboa.
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Leopoldo Barreto
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Perante a cena traumática e arrepiante e cumpridas as disposições legais, o corpo, depois de colocado numa urna, foi velado, na Costa Nova, na sala da casa «das Rolinhas», irmãs do capitão Salta e daí para o cemitério de Ílhavo, em funeral, no dia seguinte.
Leopoldo Barreto andava há cerca de 34 anos no navio, que lhe havia servido de sustento para si e para a Família. Nele, agora, encontrou a morte.
O jornal «O Ilhavense» lastimou o sucedido, desejando que as famílias dos desditosos marinheiros encontrassem a resignação para o desgosto que as feriu perante perda tão dolorosa.
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Ílhavo, 03 de Dezembro de 2018
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Fotos cedidas pelos filhos
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Ana Maria Lopes-


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A vinte e seis anos da exposição Faina Maior (1992)


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Para que não vá ficando no esquecimento, apesar de sempre presente, fazem, exactamente, 26 anos, hoje, que se inaugurou a exposição Faina Maior – Pesca do bacalhau à linha, no nosso Museu, pelas 17 horas.

Com muita ansiedade, pompa e circunstância, o auditório, para um documentário prévio, encheu. O Museu encheu. Ílhavo estava ansioso por «entrar» na Faina Maior, exposição preparada há dois anos, com muito amor, dedicação, carinho, enlevo e trabalho, ao longo do litoral, nos secadouros ainda existentes, bem como em trabalho de gabinete e de experiência feito. Isso fez do MMI, o museu com o maior acervo de peças relativas à pesca do bacalhau, do país, e não só.

O prazo aproximava-se e dizia-me o Francisco Marques – Já temos cozinha, já temos leme, já podemos navegar – enquanto eu não me não me convencia muito, pois estávamos a uns escassos dias da inauguração e muitos pormenores havia para ultimar. Na derradeira noite, o museu não fechou – os mais noctívagos saíam, enquanto os mais madrugadores já chegavam.

A exposição constava dos seguintes sectores, documentados por folhas de sala escritas para o efeito: - o dóri, incluindo uma colecção de agulhas de marear e de zagaias, a escala, a salga, o convés, o convés da popa, incluindo uma colecção de formas de zagaia, a cozinha de bordo, o beliche e rancho, a câmara dos oficiais, incluindo as louças de bordo e farmácia, terminando com a secção de «ex-votos». Ocupava todo o rés-do-chão desmontado para o efeito, do edifício anterior ao actual.

Rememorando algumas imagens da grande exposição, que tantos frutos gerou, e, ainda hoje, é «o prato forte» do percurso expositivo do MMI. Há vinte e seis anos.
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O saudoso amigo Gaspar Albino e eu
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Capitães Francisco Marques e Fernando Mendes, entusiastas…
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Dóri aparelhado e colecções afins
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A secção da escala
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Preparando o aparelho junto a uma pilha de botes…
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Simulando a salga, no porão
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O ponto nevrálgico do simulado veleiro
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Beliche e rancho…
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E outros painéis teve, na impossibilidade de os recordar a todos.…
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Ílhavo, 28 de Novembro de 2018
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Fotos – Gentileza de Carlos Duarte
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Ana Maria Lopes-