quinta-feira, 23 de junho de 2016

Homens do Mar - João Fernandes Matias - 11

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Continuando pelas vizinhanças, lembrei-me de trazer a lume o Capitão João Matias, mais conhecido por João da Lúcia ou João da Madrinha, de quem bem me lembro. Tendo morado numa bonita casa, o nº 24 da minha rua, Rua Ferreira Gordo, passava frequentemente à minha casa. Tendo, noutro dia, de ir falar com o João Sílvio e com a Cilinha, seus filhos, já com uns aninhos, de que me lembrei?
De perguntar se tinham fotografias do Pai, sobretudo a bordo. A Cilinha foi-me buscar um álbum, que tinha de tudo, mas lá encontrei o Capitão João Matias, a bordo, em vários navios e situações identitárias. Voltei radiante… Mais trabalho, mas que valeria a pena.
Nascido em 16 de Abril de 1903, faleceu a 27 de Fevereiro de 1992, num acidente fatal ao atravessar a 109, com 88 anos. Terá zarpado para o mar desde cedo, como todos os seus contemporâneos, levado por familiar ou amigo, tendo obtido a cédula marítima em 23.7.1918, passada pela capitania de Aveiro.
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Começou a vida profissional como piloto no Nazaré, da praça de Aveiro, do comando de seu pai.
Entre 1934 e 1941, ocupou o cargo de piloto no lugre Gaspar, sob o comando do Sr. Manuel de Oliveira Mendes. De 1931 a 1933, o navio não foi à pesca, segundo Manuel de Oliveira Martins, autor do livro Viana e a Pesca do Bacalhau.
O lugre Gaspar era o ex-Sarah, de madeira, construído em 1919 na Figueira da Foz, por Manuel Bolais Mónica e adquirido para a campanha de 1921 pela empresa Novas Pescarias de Viana, Lda.

A bordo do lugre Gaspar com o Eng. Queiroz, seu armador. S/d.

Em 1942 e 43, ocupou o lugar de piloto, sob o comando do Cap. José Nunes de Oliveira, mais tarde capitão-chefe da SNAB, no arrastão de pesca lateral, Álvaro Martins Homem, pertencente à SNAB, construído em 1940, em Lisboa, nos estaleiros da CUF. Era imediato o Sr. Mário dos Santos Redondo, também de Ílhavo.

Em Massarelos, Porto, junto à ponte, alguns tripulantes do Álvaro Martins Homem
 
Já agora por curiosidade, o Álvaro Martins Homem e o João Corte Real foram navios gémeos e os dois primeiros arrastões construídos em Portugal.
O Álvaro Martins Homem só iniciou a sua actividade de pesca em 1943, porque o guincho de pesca não chegara a tempo. Dedicou-se, então, a viagens de comércio a carregar bacalhau.
Entre 1944 e 45, o nosso capitão João da Lúcia ocupou o lugar de imediato sob o comando do Cap. Manuel Pereira da Bela, no arrastão clássico, João Corte Real, pertencente à SNAB, gémeo do anterior, como já disse. Era piloto, em 1944, Emílio Carlos de Sousa e em 1945, Joaquim Carlos Caroço.

No João Corte Real, o capitão entre imediato (à direita) e piloto

Chega a campanha de 1946, em que foi imediato sob o comando de José Maria Vilarinho do lugre-motor Primeiro Navegante, construído na Gafanha da Nazaré, por Manuel Maria Bolais Mónica para a firma Ribaus & Vilarinho.
De uma certa faixa etária, quem não ouviu falar em tal espectacular naufrágio, à entrada da barra de Aveiro, a sul do Farol?
Curioso, há sempre um ponto a acrescentar a um conto, neste caso, pela boca de sua filha, de muito boa memória, nas suas 88 primaveras. O pai, João Fernandes Matias, tendo sido imediato na campanha do navio, na safra de 1946, assistiu ao naufrágio do «seu» navio, do paredão da Meia-Laranja. Afinal, como rezam as crónicas? Que se passou, então?
A 14 de Outubro, o Primeiro Navegante entrara em Leixões, para aliviar 3 000 quintais de peixe, tendo voltado a sair, para se fazer à nossa barra. Tinha o destino marcado. Não há que fugir. Entretanto, o Capitão José Maria Vilarinho tinha dito ao imediato, que viesse para Ílhavo, saudoso da família, que ele meteria o navio dentro. Não aconteceu bem assim.
No dia 24 do referido mês, perante um cais apinhado de gente para assistir ao sempre emocionante espectáculo da entrada, pairavam também, lá fora, o Lousado, o Navegante II, o Ilhavense II, o Santa Mafalda, o Maria das Flores, o António Ribau e o Viriato. Vinha o Maria das Flores, a entrar, rebocado pelo «Marialva», quando o «Vouga» lançou o cabo ao Primeiro Navegante, iniciando o caminho já percorrido com os outros navios. Em frente à Meia Laranja, alterosas e repetidas vagas conjugadas com violentas rajadas de vento, encheram todo o poço do navio, que desgovernou e tomou proa ao sul, sendo impelido para cima da coroa ali existente, apesar de todos os esforços dos rebocadores. Perante o perigo iminente que ele corria, os seus esforços também foram em vão.
Embora com dois ferros no fundo e o motor a trabalhar com toda a força, segundos depois, o Primeiro Navegante, batido pelo mar e pelo vento, varava na praia em frente ao nosso Farol.
Terá sido indescritível o momento de aflição e angústia, acorrendo ao local toda a gente, em altos gritos. Só quando houve a certeza de que a tripulação estaria salva, é que o ambiente serenou um pouco.
Durante as marés baixas, foram-se salvando os haveres, apetrechos e a carga possível. Até parece – quem sabe, sabe – que o motor foi reaproveitado para o Adélia Maria (seria segredo?).
Durante uns tempos, como hoje, sempre que soa a tragédia, a gente das redondezas acorreu, em romaria, para ver, «claramente visto», o que o mar consegue fazer.
Desta vez, vão aparecendo alguns testemunhos fotográficos reveladores e aquele donairoso lugre de quatro mastros foi servindo de repasto ao mar, que o desmantelou, destruiu e destroçou, acabando por o devorar na totalidade.

O Primeiro Navegante, naufragado, em 1946

E foi assim que o Capitão João Matias assistiu ao naufrágio do navio de que era imediato, da Meia-Laranja.
A propósito destas mais do que verídicas histórias dos nossos homens do mar, contaram-me.
O Capitão José Vilarinho, quando naufragou na barra de Aveiro, disse ao irmão João: – Se fosses tu a ter este naufrágio, eu matava-te. Teria sido verdade?
E continuando a longa história de João Matias, entrecortada por este episódio dramático, de que fora personagem integrante, nas campanhas de 1947 e 48, ascendeu a capitão do lugre Navegante II, da mesma empresa.
Nos anos de 1949, 50 e 51, comandou o grande Milena, lugre de madeira com motor.

No Milena, entre a filha e a Judite
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Nas safras de 1952 e 53, comandou o n/m de ferro Conceição Vilarinho, tendo como imediato, Gil Ferreira da Silva Júnior.
 
A bordo do n/m Conceição Vilarinho. Início de cinquenta
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Na safra de 1954, embarcou de imediato no n/m de ferro Capitão José Vilarinho, sob o comando de Augusto dos Santos Labrincha.
E a roda gira e, desta vez, na safra de 1955, embarcou como imediato no arrastão clássico António Pascoal, sob o comando de Manuel Pereira da Bela.
Chega o ano de 1956, onde capitão, com José Simões Amaro (o Forneiro) como imediato, naufragou a bordo do lugre com motor, Novos Mares, construído em 1938 por Manuel Maria Bolais Mónica. O jornal O Ilhavense de 1.8.1956 regista que, a 21 de Julho, perto de Virgin Rocks, se deu uma explosão na casa das máquinas que arrasou a popa do navio, que se afundou pouco depois. A tripulação de 56 homens foi salva pelo Maria das Flores sob o comando de Manuel de Oliveira Vidal.
E o tempo de mar já pesava, mas, ainda de 1957 a 1964 (inclusive), comandou o n/m Lutador, que conhecia, ao longe, de ginjeira, pela particularidade de ter sido o único n/m de três mastros. Nada bonito.
 
N/m Lutador, de 1945

Segundo o jornal da nossa terra de 1 de Outubro de 1964, na segunda-feira da festa da Barra, afundou-se o Lutador, com incêndio a bordo, comandado por João Fernandes Matias, com Belarmino de Ascensão Oliveira como imediato.
Foram salvas 82 vidas preciosas – os dois oficiais a bordo do Avé Maria e os restentes espalhados pelos restantes navios.
E o estado físico do «nosso» capitão ia suportando com mais dificuldade a vida salgada; mas, apesar disso, como noto que ia sendo hábito entre alguns oficiais (ainda hoje), retomou o cargo de imediato no Sernache, n/m de ferro, na campanha de 1967 e no Luiza Ribau, lugre de madeira, com motor, na campanha de 1972.
E por aqui acabou o percurso de João Fernandes Matias, onde sofreu as agruras do mar, numa carreira muito diversificada. Numa altura em que a famosa Frota Branca já tinha os dias contados.
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Ílhavo, 19 de Junho de 2016
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Homens do Mar - Capitão Augusto dos Santos Labrincha - 10

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Éramos vizinhos, com uma casa de permeio e um beco – um dos becos de Ílhavo. Pelas traseiras, menina e muito moça, lá conseguia ir até casa da Zerinhas e por lá ficava uns bocados, pois ela também era amiga da minha prima Milú, que, às vezes, me levava ao laró.
Zerinhas, sim, isto é, Maria dos Prazeres Valente Labrincha, cujo pai era o Capitão Augusto dos Santos Labrincha (1899-1982) e a mãe, Maria Valente Labrincha.
Ao procurar a notícia da «partida» do capitão Augusto Labrincha, no jornal O Ilhavense, que sempre faço, fiquei a saber que, além de pessoa bondosa e afável, que já sabia, enquanto piloto do lugre bacalhoeiro Infante de Sagres, capitaneado pelo ilhavense Fernando M. Lau, em 23.5.de 1927, salvou em pleno Atlântico, o Marquês de Pineda e mais dois compatriotas.
Pelos seus doze anos, o que acontecia quase todos os ílhavos, com familiares no mar, teria ido de moço de câmara com algum parente. Era geracional, em Ílhavo. E lá terá ido cumprindo o seu percurso, até que, em 10.8.1926, se tornou 3º piloto.
Folheando pacientemente todos os artigos Eles lá vão para os Bancos da Terra Nova, Sobre as águas do mar… Deus os leve e Deus os traga!, Boa Viagem!, Aquelas Naus…. Relação dos Navios que, este ano, vão à peca do bacalhau, etc., do jornal O Ilhavense, com alguns hiatos, de início, consegui repescar que foi piloto dos lugres Silvina, em1922, do Algarve 5º, em 1926, do Infante de Sagres, em 1927 e 28 e em 1929, do lugre Rainha Santa, da Firma Pascoal & Cravo, capitaneado por seu parceiro António Marques.
Na viagem de 1936, tornou-se capitão do lugre Corça, pertencente à Parceria Geral de Pescarias, que foi vendido após essa campanha, tornando-se no lugre Granja.

O Corça, na Terra Nova. S/d

Capitão no Corça. 1936

Entre vida familiar com gostos e desgostos, como todos nós, a vida profissional lá foi andando, conhecendo o sabor salgado de vários navios.
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Nos anos de 1937 e 38, comandou os lugres Neptuno II, no de 1939, o Gamo e no de 40, o lugre Hortense. 

No Gazela, 1937 – Augusto Labrincha, João Campos Pereira, António dos Santos e imediato do Gazela, Júlio Paião
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E em 1941/42 e 43, surge-lhe o comando do famoso lugre-patacho Gazela Primeiro, o navio mais famoso da Parceria Geral de Pescarias.
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De 1944 a 49 (inclusive), volta ao comando do lugre Hortense, de malogrado destino.
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Entre 1950 e 53 (inclusive) esteve à frente do lugre com motor Adélia Maria, que foi lançado à água a 24 de Abril de 1948, nos estaleiros da Gafanha da Nazaré para os armadores Ribau & Vilarinhos. Durou vinte anos. Naufragou, por incêndio, no Virgin Rocks, em 1968. 

Adélia Maria, a arder, em 1968

Em 1953, durante a cerimónia da Bênção, foi condecorado juntamente com os capitães ilhavenses, João Grilo, António Marques e o irmão, João dos Santos Labrincha (Laruncho).
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Em 1954, estreou o navio-motor, em aço, Capitão José Vilarinho, construído nos Estaleiros Navais do Mondego para José Maria Vilarinho, com sede, em Aveiro.
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Lá pesquei, não foi fácil, uma imagem de Augusto Labrincha, de boné de lado, a bordo do Capitão José Vilarinho, em 1955, a apontar o bacalhau pescado, à chegada dos botes. Neste tempo, já seria numa pequena agenda ou ainda numa tabuinha de madeira, como de início?

A bordo do Capitão José Vilarinho, em 1955, a apontar o bacalhau pescado
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Depois de sete viagens a bordo deste navio, deixou o mar, para viver uma vida sossegada, descansada e calma, junto da família, encontrando-se com oficiais do seu tempo, para a chalaça, perto da Farmácia do Manuelzinho, no Café Central, central, porque o era, onde jogavam cartas ou dominó ou no jardim Henriqueta Maia, no centro da então vila, quando ainda era hábito passear-se ao domingo, em volta do jardim, quando ele ainda tinha flores, que, entretanto, murcharam.
Também era obrigatória a ida à barbearia do senhor Leopoldo. Bom ponto de encontro. Lá «pescava-se mais bacalhau» que no Grande Banco da Terra Nova e Groenlândia juntos.

Pelos anos 70, o descanso dos guerreiros: Capitães Adolfo, Augusto Labrincha e Salta
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Ílhavo, 09 de Maio de 2016
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 6 de junho de 2016

VIII Encontro de Embarcações Tradicionais em Esposende

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Cheguei há pouco de Esposende. Cansada, mas de alma cheia. Dois dias diferentes, a registar. O meu grande agradecimento à Amiga Ivone Magalhães, Directora do Museu Municipal e à Conceição, pela simpatia e acolhimento com que me receberam. Dia de festa em Esposende… Dia do rio e mar e de sua comunidade piscatória.
Ontem, para além de uma actividade interessante, no Museu Marítimo, passei a tarde na rampa junto à lota, à beira-rio, a tentar identificar as embarcações tradicionais que participaram no VIII Encontro de Embarcações Tradicionais em Esposende e a saborear-lhes a beleza das suas manobras.
Algumas embarcações já me eram bem familiares, como a catraia de Esposende, réplica navegante construída em 1993, a Sta. Maria dos Anjos, algumas «dornas galegas» e a lancha de fragata ou o catraio tejano, bem bonito e centenário, trasladado por gosto do proprietário, do Tejo para a laguna de Aveiro, de seu nome Costa Nova.
Catraia Sta. Maria dos Anjos

O catraio tejano Costa Nova
As tais memórias tradicionais marítimas de Esposende, que são relevadas pelo carinho e genica de alguns, iam-se sucedendo e preparando, ao mesmo tempo. Ao fim da tarde, algumas pescadeiras enfeitavam devotamente os andores que participariam na procissão fluvial de hoje e no lançamento de uma coroa de flores, ao mar, após a difícil saída da barra, em memória dos homens do mar falecidos em acidentes marítimos.
Na lota, algumas das divindades incorporadas
Algumas «estórias», tradições, memórias, lendas foram recordadas, enquanto transpúnhamos a fé e o carinho com que enfeitavam os andores, com as respectivas divindades. Pescador e fé caminham de braço dado – Nossa Senhora da Barca do Largo, Nossa Senhora da Graça, S. Pedro, a Senhora da Bonança (freguesia de Fão), a Senhora da Guia, a Senhora de Fátima, e o, para mim, conhecido, mas nunca visto, S. Bartolomeu do Mar.
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O dia de hoje, com a dita procissão fluvial, num clima ameno, calmo e morno convidava ao passeio. Sem contar, mas sem hesitar, aceitei o convite de última hora para embarcar. Todo o desfile foi magnífico, neste caso, em catraias modernizadas, ditas «voadoras», a motor. Embandeiradas em arco com bandeirolas multicolores, desfraldavam à pouca aragem a beleza e o significado da bandeira nacional. Cenário alegre, garrido, penetrante e envolvente. A procissão teve dois momentos altos: um, o do encontro, em que as embarcações se dirigem mais para montante, para receber a Senhora da Bonança (da freguesia de Fão), que vem incorporar-se no cortejo.
A incorporação da Senhora da Bonança
O outro, em navegação a jusante, em direcção à barra, o lançamento à água da simbólica coroa de flores, em homenagem aos pescadores mortos em acidentes marítimos. Um misto de respeito e temor pela ondulação do próprio mar e do entrecruzar da agitação dos motores das embarcações, era o que sentíamos a bordo.
No mar, a coroa de flores
Chamou-me a atenção um barco com quatro fotografias de rostos – explicou-me a Ivone que era um barco de memória fúnebre, o Flecha, ao recordar os quatro últimos homens do mar, que faleceram de uma mesma família – a família Nibre.
Barco de memória fúnebre
De regresso à lota, donde saímos, parece que soube a pouco. Belo, empolgante e salutar!
De regresso do rio
Duas bonitas proas de embarcações com diferentes origens, saudosas da participação, já se sentem isoladas.
Uma portuguesa e uma galega

Fotografias da autora do Blogue
Ílhavo, 5 de Junho de 2016
Ana Maria Lopes

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Exposição St.John's, Porto de Abrigo - A Frota Branca, no MMI

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A Sala de exposições temporárias, no MMI, exibe uma exposição fotográfica sedutora e fora do vulgar, até 23 de Outubro.
Há exposições e exposições, mas esta compensa, brilha e «enche o olho».
O autor, Paul Anna Soik (1919-1999), marido de uma canadiana, para além de fotógrafo, ilustrava. Mas, um belo dia «tropeçou» na Frota Branca, uma frota branca já algo decadente, nos anos sessenta, mas que sempre deslumbra – alguns veleiros e navios bacalhoeiros e pescadores portugueses, que fizeram parte da paisagem e do quotidiano de St. John’s (Terra Nova, Canadá).
Foi este legado fotográfico que veio parar às mãos da associação cultural Bind’ó Peixe, que nos últimos anos se tem dedicado a valorizar a cultura e identidade piscatória da comunidade de Caxinas e Vila do Conde.
Estas fotografias de Paul A. Soik só podem ser vistas hoje no Museu Marítimo de Ílhavo, porque o canadiano Jean-Pierre Andrieux, memorialista, empresário, estudioso da presença portuguesa na Terra Nova e amigo fiel de muitas gentes de Ílhavo, há umas boas dezenas de anos, «não é de guardar os seus tesouros num cofre». Um dia, herdou-as e o seu desejo foi partilhá-las.
O grande segredo da exposição reside na recolha das belas cenas que povoam o nosso imaginário, mesmo sem termos estado em St. John’ s, no tempo da Frota Branca lá residente.
Fortes pormenores de marinheiros e derradeiros veleiros, tais como o Creoula, o Argus, o José Alberto, o Gazela, o D. Denis, são aqueles de que me lembro. Pescadores, com traje domingueiro, com camisolas axadrezadas, quer a bordo, quer em jogos de futebol, habituais no cais canadiano, dão vida aos últimos navios-motor construídos nos Estaleiros Mónica, nos anos 50 – o Vila do Conde, o Avé Maria, o São Jorge, o Novos Mares e outros da mesma época.
O autor foca pormenores realistas e não descuida as pilhas de frágeis botes, sobranceiras, que nos ajudam a identificar o navio em que habitam.
Para além de nos sentirmos «em casa» em tal exposição, ela tem de relevante o suporte que as sustenta. São diapositivos de grande dimensão, montados individualmente em caixas de luz, que nos prendem – a luz que delas emana e uma maneira pouco usual de apresentar um trabalho final.
O fotógrafo ficou deslumbrado com o que viu e conseguiu transmitir-nos esse deslumbramento.
E mais não digo. Visitem-na que vale a pena. Mas se tiverem a sorte de terem um guia como eu tive, o Capitão António Marques da Silva, a informação redobra. Ainda por aí há alguns, poucos, velhos lobos-do-mar, à altura.
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Todas as fotos que aqui possa editar não conseguem reflectir o encanto que aquelas nos transmitem.
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À laia de convite ou melhor, de «isco», aqui ficam estas:

Os botes cor sangue de boi, sobranceiros, do Argus

A tripulação do Novos Mares

As pilhas de botes do São Jorge

Jogo de futebol no cais

A tripulação do Avé Maria
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Fotografias de Sérgio B. Gomes, publicadas no Jornal Público, de 29 de Maio de 2016
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Ílhavo, primeiro de Junho de 2016
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Homens do Mar - Capitão António Marques - 9

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À popa, grande lobo-do-mar

Saiu na roleta o dia do Capitão António Marques, meu vizinho de antanho e aparentado, de quem tenho, ainda, ténue recordação. Homem de rija têmpera, um verdadeiro «lobo-do-mar».
António Marques nasceu em Ílhavo (1889-1966), tendo tido uma vida diversificada, cheia, cheia de tanto mar.
Em Março de 1901, com 12 anos, tirou a Cédula de Inscrição Marítima na Capitania do Porto da Figueira da Foz e começou a sua vida no mar servindo na qualidade de moço de um navio de cabotagem, de uma barca, e outros que tais.
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Em 1906, com 17 anos, fez a 1ª viagem ao bacalhau, como moço, no Gazela Primeiro, comandado por Paulo Fernandes Bagão.
As campanhas do bacalhau foram-se sucedendo, tendo o Gazela Primeiro feito a última viagem de pesca em 1969, ano em que imobilizou na Azinheira, tendo sido vendido em 1971 ao Philadelphia Museum.
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Do casamento com a Senhora D. Nazaré Correia, irmã do meu Avô Pisco, em 8 de Março de 1913, foi surgindo uma família numerosa, como hoje, sói dizer-se. De três rapazes, todos seguiram a vida de mar. É geracional, em Ílhavo.
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De 1907 a 1917, António Marques embarcou como pescador, contramestre e cozinheiro na escuna Loanda, nos iates Rio Ave e Maria Luiza, no lugre-patacho Oceano e no lugre Terra Nova. 
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No lugre-patacho Oceano, desempenhou a função de cozinheiro – contava-me o Francisco – tendo este lugre-patacho abalroado com uma ilha de gelo. O cozinheiro, amarrado, sete vezes mergulhou, sete martelos perdeu… mas tapou o rombo. Já não há estes actos heróicos, nem homens desta têmpera.
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Em 1918, com 29 anos, tirou o Curso de Piloto  e de seguida, por já ter feito as horas as derrotas, obteve as Cartas de Imediato da Marinha Mercante e de Capitão Pescador.
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Durante nove meses, entre 1919 e 1921 foi imediato do lugre-patacho Ferreira e durante mais nove meses capitão do mesmo navio, tendo feito uma viagem à pesca do bacalhau.
O lugre-patacho Ferreira não é mais nem menos, curioso!..., que a  famosa barca Cutty Sark, que poderão ver em visita a Greenwich, enquanto foi pertença do estado português – quantas vezes me repetiu isto o amigo Francisco.
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Em 1923, estreou como Capitão, o lugre Algarve 5º, tendo como imediato Augusto dos Santos Labrincha.
Continuou a comandá-lo até 1927, inclusive.
Na campanha de 1928, capitaneou o lugre Maria da Glória, da Empresa União de Aveiro, Lda. de Aveiro, com João dos Santos Labrincha, como imediato.
Em 1929, estreou como Capitão o lugre Rainha Santa, construído na Gafanha da Nazaré por José Maria Lopes de Almeida, para a Firma Pascoal & Cravo, Lda. de Aveiro. 

Lugre Rainha Santa

Durante os anos 1931, 1932 e 1933 – anos de crise – não embarcou.
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Em 1934, sob o comando de Manoel Ignácio Gaia, pilotou o lugre São Paulo Primeiro, mas acabaram por não fazer a viagem à pesca, por abalroamento à saída de Lisboa com uma traineira. No mar, está-se sujeito a todos os acidentes e incidentes, aliás, como em terra e no ar.
Em 1935, foi à Dinamarca comprar e trazer para Portugal o lugre-motor Labrador para a Sociedade Lisbonense de Pesca do Bacalhau, que, apenas, comandou até Lisboa.
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Durante os anos de 1935, 36 e 37, comandou o lugre Bretanha, que, construído na Murraceira, na Figueira da Foz, acabou por pertencer a diversas praças, após várias vendas e transformações, passando para a praça de Lisboa, em1934.
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De 1938 a 40 (inclusive), comandou o Júlia Primeiro, da praça da Figueira da Foz.
E, em maré dos Júlias da Figueira da Foz, o Cap. António Marques, comandou o lugre Júlia Quarto, nas campanhas de 1941, 42, 43, 44 e 45.

Lugre-motor Júlia Quarto

No Júlia Quarto, em 1945
 
Capitão António Marques, no convés. 1945
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Em 1946, estreou, como capitão, o navio-motor de madeira Capitão Ferreira, construído na Murraceira, Estaleiros Navais do Mondego na Figueira da Foz, por Benjamim Bolais Mónica, em 1945, nele continuando como capitão, até ao ano de 1955.

Navio-motor Capitão Ferreira, em 1949

O Capitão António Marques foi condecorado pelo Presidente da República General Craveiro Lopes em 1953, entre outros capitães ilhavenses, durante a cerimónia da Bênção.


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Mais uma estreia. Em 1956, inaugurou, como capitão, o navio-motor de ferro Senhora da Boa Viagem, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, para a Atlântica – Companhia Portuguesa de Pesca, Lda. E nele se manteve durante três campanhas.
Voltou mais uma vez ao Capitão Ferreira, onde já completava uma década de navio.
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E com esta viagem, deu como encerrada a sua vida de mar, que foi longa e acidentada, mas bem-sucedida e variada, durante 58 anos. A idade e a dureza da faina foram deixando marcas… Mas será que o Capitão António Marques, durante seis anos, conseguiu substituir o ondeado do mar, pelos passeios de Ílhavo? Esse ondulado do mar originava aos «nossos heróicos homens» um andar especial, cambaleado, balanceado, até que habituassem à solidez da terra. Assim foi…mais uma vida passada no mar.
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
Ílhavo, 14 de Abril de 2016
Ana Maria Lopes
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domingo, 22 de maio de 2016

A colecção de formas de «zagaias» do MMI

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De dia em dia, ando para dizer algo sobre a colecção de formas de zagaia do MMI, que os Amigos do Museu (AMI) ajudaram a enriquecer.
Para se fazerem zagaias, gigos e chumbadas, levavam-se, a bordo, barras de chumbo, uma panela de três pés e uma concha com bico. O molde da forma era, geralmente, de bronze, tinha dois orifícios e dois punhos de madeira, enfiados em haste de ferro com que se manuseava (abria e fechava). Com o auxílio da concha, vertia-se o chumbo líquido fervente através de um orifício e no outro, colocava-se o «pé de um duplo anzol». Arrefecia rapidamente, abria-se e estava a zagaia feita.
Para além destas formas, com algumas diferenças, havia também formas de zagaim, pisciformes, com ou sem escamas e barbatanas, formas de zip-zip, formas de cacete ou pissalho (molde de chumbo cilíndrico que substituía as singas, na linha de mão), formas de uma, duas, três ou quatro singas e formas de um, dois ou três gigos (peças fusiformes, em que o pescador colocava uma coroa de alfinetes, bem apertados, destinadas a apanhar lula para isco).
Tendo ido a leilão on-line, a 19 de Setembro pp, a colecção marítima do coleccionador Alexis Passechnikoff, no Leilão do Palácio do Correio Velho, a AMI contribuiu para a compra, em parceria com a CMI, da colecção destes moldes, em número de 25.

Moldes de formas diversos: cacete, zagaias, singas
Caso curioso, esta colecção de zagaias e congéneres, entretanto melhorada, tinha sido emprestada pelo proprietário ao Museu de Ílhavo, aquando da primeira exposição da Faina Maior. Quase caso para dizer, «o bom filho à casa torna», desta vez, depois de adquirida a colecção.

Moldes de formas diversos: zip-zip, zagaim, gigo

Agora, através da realização de uma oficina de moldagem de zagaias, no Dia Internacional dos Museus, a colecção veio a lume.
Costa Nova, 22 de Maio de 2016
Ana Maria Lopes
 

domingo, 8 de maio de 2016

Homens do Mar - João Fernandes Parracho (Vitorino) - 8


Junto à gaiuta, nos seus albaióis de bordo
E hoje, motivada por uma nova/velha fotografia, vamos ao Capitão Vitorino Parracho (1906 - 1991), de que bem me lembro, no seu rosto cheiinho, luzidio e arredondado, olhos muito, muito azulados, cerúleo, sabedor e bondoso, brincalhão, capitão da viagem em causa (ano de 1948), no lugre Júlia IV.
E quando falo da viagem em causa reporto-me ao belo livro, forte e dramática reportagem de bordo, de Anselmo Vieira, Nos Mares da Terra Nova – A Saga dos Bacalhoeiros, 2010, em que o autor é um dos tripulantes do Júlia IV, na viagem de 1948, sob a personagem de Telmo, um alter-ego do próprio autor.
Achei por bem consultar a ficha de inscrição no Grémio do capitão, existente no MMI, para me situar e aí, cheguei à conclusão que o seu verdadeiro nome era João Fernandes Parracho. Complicado, hein? Ílhavo tem destas coisas... Victorino, de alcunha, vinha da madrinha Victorina…E descobrir? Não há dúvida, era ele.
E neste extraordinário relato de viagem, entre narrativas poderosas, o autor dedica um capítulo ao Capitão.
O Telmo gostava do Capitão Vitorino. Referia: – Era um homem de cerca de cinquenta anos, tisnado de moreno, estatura baixa, mas magro e cheio de uma energia aparentemente reprimida. Os olhos eram azul-claros e amendoados, o que lhe dava um certo ar trocista, mesmo quando nos fitava com seriedade. Somente quando se zangava os seus olhos se modificavam: aí escureciam como os dias de trovoada e despediam uma luz, quais faíscas de aço. Mas era raro zangar-se. Todos gostavam dele e o respeitavam, como a uma águia dos lugres bacalhoeiros. Dominava os homens à sua maneira, sem esforço ou prepotência Telmo acreditava ser essa a maneira correcta de comandar um navio.
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Também o genro, Senos da Fonseca, in Nas Rotas dos Bacalhaus – Séc. IX ao Século XVI, 2005, se lhe refere de uma forma afável: – Por destino da vida, meu sogro, Cap. Vitorino Parracho, fez-me entender melhor desta dupla personalidade coexistindo nestas singulares personagens, quase míticas: – De como um homem do mar, determinado, exigente e rezingão (q.b.) mandão a bordo, se transformava, saco posto no cais, no mais afável ser que conheci, homem bom, brincalhão, jocoso, onde residia uma permanente boa disposição, de uma bonomia que tocava a todos (…).
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O lugre, o Júlia IV, que comandava, construído por António Bolais Mónica na Figueira da Foz, em 1914, para a «Atlântica Companhia Portuguesa de Pesca», naufragou, por incêndio, no Virgin Rocks, na campanha seguinte, a de 1949.
Lugre Júlia IV
Familiar testemunhou-me que foi para o mar, com 9 anos, de moço, de moço de convés… Seria possível? Mesmo assim, os doze anos eram o mais habitual. Mas, certificando-me, foi com nove.
Desde que há registos credíveis, Vitorino Parracho pilotou entre 1936 e 37 (inclusive) o lugre Senhora da Saúde da praça de Aveiro. Em 1938, 39 e 40, comandou o lugre de madeira Vaz, que naufragou, de água aberta, nesse ano, a 31 de Agosto, não havendo conhecimento de vítimas.
Entre 1942 e 45, foi capitão do Júlia I da praça da Figueira da Foz, tendo sido transferido para o Júlia IV, durante os anos 1946, 47 e 48.
De regresso à praça de Aveiro, o Capitão Parracho comandou o lugre-motor Dom Denis, de 1949 a 1960 (inclusive). Estreou, de seguida, o navio-motor Rainha Santa, construção de Benjamim Bolais Mónica, cujo bota-abaixo foi a 15 de Março de 1961, o último navio-motor construído pelos Mónica.
Na campanha de 1965, deixou o navio, creio que por doença.
Nas campanhas de 1967 a 69, regressou ao bacalhau, no cargo de imediato, no lugre com motor Luiza Ribau, deixando a vida de mar, definitivamente, após a última campanha, também como imediato, a de 70, no navio-motor Vila de Conde.
Abandonou, pois, o mar, com o devido mérito pelas ausências sofridas e as tormentas passadas.
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Com sua esposa, a bordo de um dos Júlias
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Quando a Alcina, sua filha, minha amiga e ex-colega do colégio e do liceu, ontem, me cedia, gentilmente, a foto dos pais a bordo, num dos Júlias, deliciei-me, dado que tinha oportunidade de elogiar as mulheres de todos os homens do mar (neste caso, as capitoas), que tinham o grande mérito de suportar as ausências e as saudades, de gerir as suas casas, famílias, a educação dos filhos, os haveres ou as dificuldades, as ditas matriarcas ilhavenses, que tanto carinho mereceram e merecem (agora que os tempos são outros).
Fotografias – Fotos de arquivo e gentil cedência da Família do Capitão

Ílhavo, 15 de Março de 2016

Ana Maria Lopes
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