quarta-feira, 27 de junho de 2018

Homens do Mar - Manuel de Oliveira Vidal Júnior - 48


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Cap. Manuel de Oliveira Vidal

Sempre aliei, não sei porquê, o nome do Cap. Manuel Vidal ao Maria das Flores, se bem que ele tenha comandado durante bastantes mais anos, outros navios.
Manuel de Oliveira Vidal Júnior, filho de Manuel de Oliveira Vidal e de Rosa Chuva Deus de Oliveira, nasceu em Ílhavo, a 19 de Novembro de 1921, um de cinco irmãos. Oriundo de família humilde e de parcos recursos viu-se obrigado a frequentar o seminário, com 10 anos, onde não quis continuar tendo saído, passados dois. Empregado de seguida, numa mercearia de Lisboa, era uma espécie de «paquete» que fazia recados e entregava mercadoria na casa dos fregueses. Aí ganhava alojamento, alimentação e «uns dinheiritos», de que entregava a maior parte à Mãe, que vivia com muitas dificuldades. Via comercial, cumpriu os estudos com facilidade, cavalgando alguns anos, sempre em regime de trabalho e estudo, aceitando que pessoa da sua intimidade lhe tivesse pago o curso da Escola Náutica. Mais tarde, já com possibilidades, e num acto solidário, lembrando-se das dificuldades por que passara, fez o mesmo a outros ílhavos necessitados.
Do casamento em 1947 com Maria Vitória Namorado Ferreira, nasceram o Vítor Manuel e a Maria Vitória Namorado de Oliveira Vidal.  Foi com a Torinha que conversei sobre o Pai, pelo qual mostrou grande apreço e admiração, quer afectiva, quer profissionalmente. Além de ter subido na vida, a pulso, por mérito próprio e muito trabalho, dedicou a sua vida ao mar, nunca perdeu nenhum homem nem «sujou» a cédula de ninguém – orgulhava-se a Vitória, ao rememorar a vida do Pai. Iria ver que elementos teria guardado dele e, encontrar-nos-íamos, um dia próximo, na Costa Nova, para mos ceder. E assim foi.
Manuel Vidal era portador da cédula marítima nº 24377, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 22 de Janeiro de 1944.
Começando na pesca do bacalhau, em plena 2ª Grande Guerra e estando ainda muito presente na memória dos  ílhavos, a perda do Maria da Glória e do Delães, em 1942, ainda apanhou duas campanhas de viagens «em comboios», ao ter embarcado, como piloto, pela primeira vez, no lugre Neptuno II, na campanha de 1944, do comando de Mário Paulo do Bem.
O já referido Neptuno 2º, lugre-patacho de madeira, construído em Vila do Conde, em 1873, reconstruído em 1926, por Manuel Maria Bolais Mónica, e armado em lugre, fez a última campanha ao serviço da Parceria Geral de Pescarias, no ano de 1938.
Quando foi comprado pela Empresa de Pesca de Portugal, Lda., de Ílhavo, da gerência de Francisco Abreu, para a campanha de 1939, passou a chamar-se Neptuno Segundo.
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Lugre-motor Neptuno Segundo. Foto Sindicato

Em 26 de Novembro de 1944, foi abaixo o lugre-motor  Maria Frederico.
Sempre que falo de bota-abaixo, recordo o ar festivo que a Gafanha respirava – gente empoleirada por todos os cantos e recantos, filarmónicas em toque brilhante, o estralejar de foguetes ribombantes, navios embandeirados em arco prontos a receber um novo colega, pequenas embarcações pela ria, na esteira do recém-chegado navio, prontas a recolher o madeirame sobrado – uma tensão, uma ansiedade, um nervosismo, que, normalmente, acabavam em grande regozijo, manifestado pelo calor de muito sentidas palmas.
O dueto da oficialidade, nas campanhas de 1945 e 46, manteve-se:  piloto/imediato, Manuel Vidal, sob o comando de Mário Paulo do Bem.
Entre campanhas, mais para superar as dificuldades de início de carreira, fez curtas viagens de comércio, em 1945 e 1946, no navio São Ruy, como 2º piloto, e noutro, como imediato, imperceptível o nome, na Cédula de Inscrição Marítima.
Mas, na safra seguinte, a de 1947, Manuel Vidal ascendeu ao lugar de capitão do Maria Frederico, cargo que exerceu, até 1952 (6 viagens), até ao seu tragicamente belo naufrágio. Ritmo de viagem e de pesca sempre intenso, mas nada de relevante a apontar – a rotina sofrida e perigosa de que já temos, assiduamente, falado e ouvido falar.
Foi seu piloto o «arrojado» Artur Oliveira da Velha, nas campanhas de 1947, 48 e 49 e João Juff Tavares Ramos, entre 1950 e 52.
  
A bordo do Maria Frederico
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O Maria Frederico, lugre-motor de madeira, foi construído a pedido de Francisco António Abreu, gerente da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., por António Pereira da Silva, na Gafanha da Nazaré. Tal empresa tinha instalações de secagem na Malhada – a conhecida seca do Abreu –, mais tarde pertença da P. Tavares Mascarenhas, vendida a Pascoal & Filhos, SA, em Maio de 2004.
O lugre Maria Frederico teve uma curta existência, pois, em 12 de Julho de 1952 naufragou, por incêndio, no Virgin Rocks, tendo sido abandonado e salva toda a tripulação. Pelo menos, o capitão foi trazido para Portugal pelo arrastão Pádua, do capitão João Cristiano.
Mais do que mil palavras, vale esta imagem.
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Arrepiante incêndio no Maria Frederico
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Entre comandos, o «nosso capitão» fez a viagem de 1953, de imediato, no Senhora do Mar, navio-motor, de aço, construído para Mariano & Silva, Lda., nos estaleiros da CUF, em Lisboa, tendo sido capitão, João José da Silva Costa, da Figueira da Foz.
E chegou o ano do Maria das Flores. Perdoem-me os familiares, mas não sei se me interessou mais a biografia marítima do capitão se o historial do navio. Claro, durante cinco anos, completaram-se. O Maria das Flores, lugre de madeira de três mastros, meio atamancado, imagine-se, foi construído para João Carlos Tavares, residente em Estarreja, no Bico da Murtosa, por José Maria Lopes de Almeida, de Pardilhó, em 1946. Mas, já fez essa viagem como propriedade da Empresa Comercial & Industrial de Pesca «Pescal».
Foi uma odisseia tal bota-abaixo e, com material inédito cedido pelo Comandante António Bento, dediquei-lhe três posts no meu blogue Marintimidades – O desencalhe do Maria das Flores.
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Foto aérea da construção, cedida por P.H.C.
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Segundo notícias do jornal da época, O Ilhavense, no dia 18 de Fevereiro de 1946, pelas 16 horas, num estaleiro do Bico da Murtosa, ter-se-á consumado o bota-abaixo do lugre com motor, construído em madeira, armado de três mastros, Maria das Flores.
Mas, cortado o cabo da bimbarra, o navio, porém, não deslizou imediatamente, procedendo-se então aos trabalhos próprios de emergência, até que 45 minutos depois, o Maria das Flores deslizou na carreira para ir encalhar no lodo da ria. Não deixou de se festejar. Mas depois de uma verdadeira saga, cheia de contratempos, a reboque do Vouga, só chegou à Gafanha da Nazaré no dia 3 de Maio, tendo-se feito a amarração, frente à Delegação da CRCB.
A 5 de Maio, depois da desmontagem e arrumação de todo o material, ficou o navio liberto, para poder seguir viagem para Lisboa, em conformidade com as exigências legais recomendadas pelas autoridades marítimas. Que tal?
Mas, foi apenas na safra de 1954, substituindo o também conterrâneo capitão Manuel Pereira Teles, que o Capitão Vidal tomou posse do comando do dito Maria das Flores. Não terá sido um ramo de espinhos? Até não.
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Maria das Flores, em 1955, na Groenlândia
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A bordo do Maria das Flores
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Foi o Maria das Flores um dos primeiros navios, que, na safra de 1956, tendo naufragado em Agosto, o lugre-motor Novos Mares, por explosão a bordo, motivada por um curto-circuito, ouviu a explosão. Por solidariedade dos homens do mar, em situação de perigo, foi o navio do Cap. Vidal  que recolheu 32 tripulantes, bem como o  Labrador, que albergou os restantes.
Foi sempre seu imediato Fernando Luís Magalhães do Amaral, de Lisboa.
Mas o Maria das Flores também não teve um longo percurso, tendo naufragado em Setembro de 1958, ano marcado por muitas tormentas e uma boa meia dúzia de naufrágios.
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Em entrevista, a bordo…
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Em entrevista proferida ao Jornal do Pescador, de Novembro de 1958, pp. 35 a 38, o Capitão Manuel Vidal, à chegada do arrastão Álvaro Martins Homem, que trouxe os náufragos do navio em causa, mostrava-se agastado e abatido pela perda do seu navio, tendo declarado que este ano de 1958 fora de excepcional mau tempo. Cinco ciclones abalaram a segurança dos navios portugueses e alguns, como o Maria das Flores, abriram água e afundaram-se, outros tiveram de arribar várias vezes, pois, além dos ciclones, os mares do Norte foram sacudidos por violentos temporais. Perderam, por esse motivo, muitos dias de pesca, de que resultou terem deixado de pescar uma quantidade preciosa de quintais de bacalhau. O Maria das Flores, que tinha a bordo, mais de 7.000 quintais, durante o mês de Julho, só pôde pescar onze dias, em Agosto, apenas nove e três dias, em Setembro. O navio andou três dias consecutivos em risco de se afundar, entrando a água abundantemente nos porões, sem que as bombas a conseguissem esgotar, por mais decididos que fossem os tripulantes e, por maiores que fossem os seus esforços. Estiveram três dias e três noites sem saberem o que era um minuto de descanso, não tendo conseguido salvar o navio, que se afundou ao cabo de mil tormentos. Nesse ano, tiveram idêntico destino, o Cruz de Malta, o Labrador, o Milena, o  Ana Maria e o Santa Isabel.
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Em 1959, «o nosso capitão» passou a comandar o navio-motor, de ferro, Senhora da Boa Viagem, construído em 1956, para a Atlântica – Companhia Portuguesa de Pesca, de Lisboa, nos Estaleiros de Viana dos Castelo. Fora «o seu navio», entre 1959 e 1975, durante dezassete anos.
Segundo diploma que me foi dado observar, o Cap. Vidal foi homenageado pela Mútua dos Navios Bacalhoeiros, ao prestar assistência ao navio Rio Antuã, comandado por Francisco Teles Paião, em Abril de 1967 – numa situação de dificuldade, em mares gélidos – uma entrada de água inexplicável, à popa, junto do leme, que a bomba não esgotava.
Como outros capitães de Ílhavo, que já me passaram pela pena, foi agraciado, em 1969, com a medalha naval Vasco da Gama, pelos serviços relevantes prestados, na marinha mercante.
Após a campanha de 70, o Senhora da Boa Viagem foi transformado para o sistema de redes de emalhar com lanchas, em cuja mudança, o capitão tivera um papel fundamental.
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Lancha, junto ao navio
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Em descarga de peixe, da lancha
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Sendo pessoa que procurou ter uma intervenção cívica, foi sócio do Sindicato Nacional dos Capitães, Oficiais Náuticos e Comissários da Marinha Mercante, tendo tido um papel fundamental na fundação do Sindicato dos Oficiais em Ílhavo, no edifício do Illiabum Clube, 2º andar, à Rua Arcebispo Pereira Bilhano, em 1951, a que se manteve sempre ligado.
A família passou a viver em Campo de Ourique, a partir de 1954, tendo mudado para Nova Oeiras em 1962, tendo-se aposentado o Cap. Vidal em 1975. Em 1979, regressaram a Ílhavo, donde nunca se haviam desligado, em especial por laços familiares.
Fumador inveterado, na vida de mar, nunca conseguiu deixar tal vício, que lhe passou a atacar fortemente os pulmões.
Depois de uma cirurgia pulmonar em 1988 e de um novo internamento em Coimbra, veio transferido para o Hospital de Ílhavo na véspera da sua morte, depois de ter manifestado vontade de vir morrer à sua terra. E assim nos «deixou» no dia 1 de Dezembro desse mesmo ano, com 67 anos.
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Fotografias cedidas pela família e por outras fontes
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Ílhavo, 26 de Junho de 2018
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Ana Maria Lopes
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domingo, 3 de junho de 2018

Homens do Mar - Fernando Lau - 47

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Capitão Fernando Mathias Lau
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Há muito que a história do «fora ou dentro» me bailava na cabeça, mas como sabia que ela vinha de um capitão pescador, dono de um feitio muito duro e austero, tinha de me certificar como a Família encararia esse reconto, sujeito a publicação no meu blogue Marintimidades. Faz quase um ano que, no intervalo de um evento levado a cabo na ENIDH, em Paço de Arcos, estive com o neto homónimo deste capitão, Fernando Matias Lau, meu amigo, pessoa dos meus tempos e também ele oficial da Marinha Mercante. A história veio a lume e apercebi-me que o Fernando cultivava a memória do avô, do que o caracterizava de bom e de menos bom, dizendo-me que talvez, além de umas fotografias, se propunha a umas conversas comigo, para meu enriquecimento, contando-me alguma das brejeirices dele, que ele tão bem sabia, contadas pelo seu pai, à mesa, enquanto saboreavam o repasto. E uns bons dez meses se passaram… Vimo-nos, no Verão, na Costa Nova, mas não falámos propriamente disso. Outras águas…
Além de outros laços afectivos com o Fernando, os seus pais, em circunstâncias diversas, tinham sido meus professores do ensino primário, nas segunda e quarta classes, na dita Escola Nova, à época, em Ílhavo.
Noutro dia, vindo em «missão de soberania», ao MMI, com alguns colegas do Clube de Oficiais da Marinha Mercante (COMM), encontrámo-nos e trouxe-me duas fotos de 1937, que me encantaram pela sua autenticidade, e projectámos, para além dos elementos de que me conseguia munir por cá, uma ida ao Arquivo Histórico de Marinha, em Lisboa. Ser-me-ia praticamente impossível testar, os seus primeiros anos de mar, devido à data de seu nascimento, mas a partir do posto de capitão, as coisas seriam mais fáceis, depois de consultadas várias fontes.
Fernando Mathias (mais tarde, Matias) Lau, filho de Manoel Matias e de Josefa Rosa Esmerada, nasceu em Ílhavo, na Freguesia de S. Salvador, a 4 de Janeiro de 1881. Dos capitães mais antigos, no tempo, que me têm passado pelas mãos. Do casamento com Maria das Neves, em 1909, nasceram três rapazes e uma rapariga. Dos três rapazes, Armando Matias Lau veio a ser oficial da Marinha Mercante, Mário Matias Lau, motorista, e José Carrancho Lau, professor do ensino primário, bem como a irmã, Berta das Neves Lau. Com a cédula nº 3347 passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 5 de Fevereiro de 1895, teria ido para o mar com 14 anos, como a maior parte dos jovens do seu tempo, que assim o faziam entre os 9 e 14 anos de idade.
A partir do momento em que chegou a capitão, na sua carreira marítima, e antes da existência do jornal O Ilhavense (1921), das fichas do Grémio (GANPB), (1936) e das fichas de inscrição de navios enviados ao bacalhau, de 1934 a 62, os elementos foram encontrados em blogues e livros credíveis, que citarei a seu tempo.
A primeira vez que deparo com o seu nome, é no livro da autoria de Manuel Luís Pata, A Construção Naval e a indústria bacalhoeira na Foz do Mondego, em edição de autor, 2016, Figueira da Foz, pp. 65 a 76. Num resumo do Diário Náutico de 1906 do emblemático hiate Júlia 3º, sob o comando de Fernando Mathias Lau, levando como imediato João dos Santos Salgado, pelo punho do piloto praticante Adriano Alves Fernandes Águas, é-nos dada conta de uma viagem de 22 de Abril de 1906 até 14 de Setembro de 1906, perfazendo, no total, 48 dias de navegação à vela. Nas safras seguintes, nos anos de 1907 a 1909, essa rotina repetiu-se.
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Hiate Júlia 3º. Colecção Delfim Nora/Napesmat
O hiate Júlia 3º foi construído em Fão, por J. M. G. Branco em 1876, de que existe a última referência em 1927, para a firma Mariano &Irmãos, mais tarde Atllântica Companhia Portuguesa de Pesca, com sede na Figueira da Foz.
Na campanha de 1910, o blogue Navios e Navegadores dá-o como capitão do lugre Júlia II, enquanto que Manuel Luís Pata (MLP.), em A Figueira da Foz e a Pesca do Bacalhau, vol. I., p. 97, lhe atribui o cargo de capitão no lugre Júlia I.??? Como terá sido?
Nas campanhas de 1911 a 1914, inclusive, o capitão Fernando continuou a exercer o comando, no lugre Júlia I, a que volta, na safra de 1918, conforme consulta do livro de Manuel Luís Pata, atrás referido, a pp. 98, 99 e 116.-
O lugre Júlia I. Cedência de Reimar
Entretanto, a Atllântica Companhia Portuguesa de Pesca, com sede na Figueira da Foz, mandou construir o lugre Júlia Quarto, ao mestre António Maria Bolais Mónica, num estaleiro da Figueira. Depois do lançamento à água em 4 de Outubro de 1914, fez a sua primeira campanha em 1915, comandado pelo capitão Fernando Matias Lau, de 34 anos e natural de Ílhavo, segundo informação de MLP., no seu livro já citado A Construção Naval… p. 93. Teve o prazer de estrear o navio, o que é sempre uma honra.-
Lugre Júlia Quarto. Foto de autor desconhecido
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E entre os anos 1906 e 1918 (treze anos), com um pequeno interregno em que comandou o hiate Africano, entre 1916 e 17, pertença da Parceria Marítima Africana da Figueira da Foz, o «nosso» capitão, austero e de ríspido feitio, foi um herói dos Júlias da Figueira da Foz, propriedade da Atllântica Companhia Portuguesa de Pesca. 
No ano de 1919, não foi possível localizá-lo, mas em 1920, ressurge na praça de Aveiro, no comando do lugre Altair.
Qual era este Altair? Lugre de madeira de três mastros, construído para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, por Manuel Maria Bolais Mónica, em 1918, na Gafanha da Nazaré. Num belo dia de busca de imagens em Testa & Cunhas, já há uns anos largos, veio-me à mão, no fundo de uma gaveta, nem sei muito bem porquê, uma sugestiva imagem, identificada –  era o lugre Altair.
Altaneiro…o Altair. De autor desconhecido.-
E a odisseia continua…. Entre 1921 e 1930, estreando-o, comandou o lugre Infante de Sagres III, construído para a Sociedade Infante de Sagres, Lda., por Manuel José Calção, em 1921, na Gafanha da Nazaré.  Nesta época, revela-se também o espírito empreendedor do capitão Fernando, em tempos difíceis, ao ser armador, sob a Firma Martins, um dos três gerentes da referida sociedade, juntamente com o prior Alberto Ferreira Martins, da Gafanha da Nazaré, e José Maria da Silva. Com o lugre Luzitânia III, foram os primeiros navios a instalar motor para a campanha de 1932.
Nestas viagens, foram seus pilotos, de Ílhavo, Manuel Lourenço Catarino (1921), António dos Santos Carrancho (23), Ambrósio Gordinho (26) e Augusto dos Santos Labrincha (27, 28 e 30) e Manuel dos Santos Malaquias (1929).
O seu filho, o jovem José Lau, embarcou com o pai, como moço, quando tinha apenas onze anos comemorando o seu aniversário a bordo, o que era normal para quem queria seguir o caminho do mar, o que não veio a verificar-se, pois sofria de bronquite asmática sendo aconselhado pelo médico a não embarcar mais, dada a perigosidade.
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O lugre Infante de Sagres III, em bom andamento. Foto do C. Almeida
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Sem registos entre 1931 e 33, volta a capitão nas safras de 1934, 35 e 37, no mesmo Infante de Sagres III, depois de ter passado para a Empresa de Pesca do Bacalhau do Norte, da praça do Porto, nesse mesmo ano. Levou como seu piloto, o irmão, Amândio Fernandes Matias, de alcunha Parracá, e, como motorista, o seu filho Mário Matias Lau.
Na viagem de 1937, a bordo do seu navio Infante de Sagres III, estalou uma revolta, ao que se consta comandada pelo irmão que ocupava o lugar de piloto, liderando a vontade dos pescadores de iniciar a viagem de regresso a Portugal. Dada a situação e porque o Gil Eannes iria zarpar para Portugal, o Capitão de Bandeira – Comandante José Martins – chamou o capitão Fernando  para ver se o demovia a terminar a pesca pois iria ficar sozinho nos bancos e se sucedesse algo não teria quem o socorresse, ao que ele retorquiu perguntando se era uma ordem ou um pedido, afirmando o Comte José Martins que era um conselho, pois ele era soberano no seu navio para as decisões que melhor entendesse.
Comte José Martins e o cap. Fernando, a bordo do Gil Eannes, em 1937
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Nessa altura e voltando ao navio decidiu adiar a viagem de regresso por mais uns tempos, iniciando-a passado um par de dias, pois o mau tempo e as capturas fracas assim o justificavam.
Mas a sua disciplina, com uma companha difícil – se não houvesse uma mão dura, poderia gerar-se uma situação complicada – não podia ser posta em causa, sob pena de ser «engolido». Mas a resposta, na sua visão, não se ficou por aqui. Após os normais 15 dias de viagem de regresso aportou à barra de Aveiro e quando o rebocador se dirigia para fora da barra para pegar no navio, decidiu rumar para oeste não permitindo que se consumasse a entrada, o que sucedeu, passados uns dias à boca da barra, não sem avisar a mulher que não se preocupasse pois entraria quando entendesse. Era a sua visão de como lidar com a disciplina.
O lugre Infante de Sagres III, no Porto. Foto de A. Villiers
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E, de saco às costas com o enxoval, lá mudou para o último navio da sua vida, na safra de 1938 – o lugre com motor Delães, que teve o prazer de inaugurar, de que dizia, quando alguém, de bote, o transportava, mais tarde, já doente, para o Gil Eannes:  Ah, Delães, Delães, até o teu rolo já é diferente.
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O lugre com motor Delães, com pintura dos anos 40
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O belo lugre com motor, de madeira, Delães, navio gémeo do Oliveirense, foi construído para a Empresa de Pesca do Bacalhau, do Porto, por António Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1938. Foi esta a sua última viagem, neste navio, após um grave acidente em que a ponta do chicote lhe apanhou brutalmente as costas, originando uma enfermidade de que não mais se libertou, tendo mesmo regressado, por conselho médico, mais cedo, para Ílhavo. E não durou muito tempo. Conforme notícia do jornal O Ilhavense, de 23 de Dezembro de 1939, com 58 anos de idade, faleceu na sua casa da rua Vasco da Gama, após grande sofrimento, desde as paragens da Terra Nova, onde foi recolhido pelo vapor-hospital Gil Eannes, o oficial Fernando Matias Lau, que na última viagem, tinha ido à pesca, como capitão do Delães. Foi sempre um oficial arrojado e a isso se deveu a circunstância de, em muitos anos, trazer sempre bons carregamentos de peixe.
Para atestar o seu espírito empreendedor, o seu neto homónimo confirmou-me que, além de sócio/gerente da Sociedade Infante de Sagres, Lda., na Gafanha da Nazaré, foi accionista do Banco Regional de Aveiro,  da Fábrica da Moagem de Aveiro, criou a Sociedade de mercearias Lau & Filhos sediada na R. Comandante Rocha e Cunha em Aveiro, dirigida pelo seu filho Armando Lau, proprietário de duas marinhas de sal a Robalinha e a Afogada e sócio da Sociedade Ilhavense Turuna, Lda., dedicada à construção de navios e comercialização de bacalhau.
Dentre as suas «estórias» que revelam um feitio duro e rígido, a mais famosa será a «do fora ou dentro». Um dia, durante uma das suas últimas viagens, a tripulação revoltou-se. Tendo-o amarrado de pés e mãos, prestes a baldeá-lo, mantinham-no sobre a borda, como ameaça de o deitar ao mar. Hesitavam… O velho capitão, num golpe de audácia:  Vamos, rapazes. Isto não é posição de homem. Ou fora ou dentro, aqui não estou bem. Surpreendidos e dominados pela coragem do velho, os homens abrandaram e puseram-no dentro.
Mas outras se conhecem. Uma das histórias que lhe é atribuída é a que tem a ver com a sua áurea de destemido e afoito na faina da pesca.
Assim num dado momento após vários dias de mau tempo os capitães estavam indecisos sobre o momento de começar a arriar os dóris para iniciar a safra desse determinado dia.
Então, ele colocando um vertedouro debaixo da samarra, dirigiu-se à proa atirando o referido vertedouro ao mar, alertando a tripulação, imediatamente, para arriarem um dóri a fim de o apanhar.
Os outros capitães que estavam à espera que algum tomasse a dianteira e vendo o capitão Fernando a arriar, logo lhe seguiram o exemplo. Alguns minutos após, o mar começou a encapelar acusando-o de ter dado inicio à pesca ao que ele respondeu que não somente tinha arriado o bote para apanhar o referido vertedouro. Era a concorrência a funcionar.
Mais um naco de conversa entre mim e o Fernando: –  O meu avô era uma pessoa que adaptava a sua personalidade às diversas circunstâncias, sendo, a bordo, uma pessoa muito dura, mas, em contrapartida, em casa era exactamente o contrário, tratando a minha avó com uma ternura e carinho inexcedíveis ao ponto de diariamente, com a minha avó, à janela, a vê-lo partir na sua bicicleta para a Gafanha despedia-se dela com a seguinte frase: – Ah, Marquinhas, já estou cheio de mavio – vocábulo esse que significava um misto de amor e saudade.
De outra vez, a bordo, acolheu e recolheu, em dia de nevoeiro cerrado, um verde de outro navio, que veio ter ao seu navio, com o bote carregado. Içou-o, agasalhou-o e elogiou-o, chamando os seus homens, a quem disse: – Ó seus galiqueiros, estão a ver o que este verde pescou e o que vocês carregaram, leve que nem uma alface?
Como outros tantos ílhavos, o Cap. Fernando Lau ficou imortalizado pela pena de Santareno, em Nos Mares do Fim do Mundo, pondo estes registos na boca de pescadores mais antigos. Depois de já se ter referido também à história do «fora ou dentro», voltou à questão da morte.  O ti Zé da Avó juntou: – Morreu há poucos anos ainda, senhor doutor, lá em Ílhavo. Tinha uma nascida ruim que, palmo a palmo, o foi minando todo… O alma do diabo dava urros que se ouviam lá longe, na estrada de Aveiro! Bem feito, bem feito (…). Vi, vi eu, com estes dois que a terra ou o mar há-de comer! Durante três dias e três noites, antes de ele morrer, os corvos, um bando de dez, pelo menos!, não lhe desamparam a casa: nem os gritos, nem as pedras, nem os foguetes foram capazes de os tresmalhar. Sempre ali, cerrados, a voarem como doidos em redor do prédio! (…).
E o pobre do Delães, talvez pela falta do seu capitão, também não durou muito mais, soçobrando ao bombardeamento de 1942, sem perda de vidas.
Ílhavo, 29 de Março de 2018
Fotos com várias origens, incluindo as do neto Fernando Lau
Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Lugre «Altair»


É um belo navio que tem mais de 60 metros de comprido por 11 de largo. E foi admirável vê-lo entrar na água, no domingo penúltimo, na Gafanha, em frente aos estaleiros com as suas bandeiras a tremularem pela viração agreste do Norte.
Foi uma festa atraente a que não faltou a concorrência numerosa e selecta e nem os hinos festivos de duas filarmónicas.
O embarque das pessoas convidadas a assistir ao lançamento do navio à água, realizou-se na lingueta em frente à alfândega, no lindo cais de Aveiro. O trajecto, feito à vela, foi rápido. No barco que nos conduzia, viam-se as pessoas mais gradas da sociedade e da magistratura aveirense, como os ilustres magistrados da Comarca, etc.
Na Gafanha, a multidão era compacta. Tivemos o prazer de cumprimentar ali, o nosso velho e querido amigo e conterrâneo sr. Manuel Rodrigues Sacramento, também sócio da empresa proprietária do «Altair», que com a sua digníssima esposa tem estado nesta vila.
O último cabo que prendia o excelente navio, que é a primeira embarcação de três mastros construída nos estaleiros da Gafanha, estava destinado a receber o corte certeiro e inteligente do ilustre capitão do porto de Aveiro, sr. Silvério Rocha, que, por uma deferência honrosíssima, delegou num dos oficiais franceses, que estão em S. Jacinto, a execução dessa formalidade.
Cortada, pois, a última amarração, deslizou serenamente pela carreira, enquanto estralejavam nos ares dezenas de foguetes, tocavam as duas filarmónicas e se prolongavam entusiasticamente os vivas e as palmas. O lindo navio varou a margem da ria, como que uma gazela que engalanada se quer pôr a descoberto, e, num instante, aparecia na cale, onde lançava ferro a tornar sublime a paisagem. Houve um momento de verdadeiro delírio, quando no castelo da proa da embarcação toda garrida de cores e ainda a oscilar fidalgamente nas águas azuis-esverdeadas do nosso lindo Vouga, apareceram muitos trabalhadores a saudar, descobertos, a multidão e a maravilhosa obra d’arte que a mesma multidão admirava. Foi um momento de indescritível entusiasmo, que se repercutiu no salão onde a Empresa «Boa Esperança» ofereceu um delicadíssimo copo d’água aos seus convidados, entre os quais o mais humilde éramos nós.
Felicitamos a Empresa do «Altair», desejando-lhe as maiores prosperidades.
(In jornal Nauta, 12 de Maio de 1918)
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O lugre «Altair» na barra de Aveiro
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Ílhavo, 12 de Maio de 2018
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Homens do Mar - João Firmeza - 46


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Cap. João de Sousa Firmeza

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As conversas são como as cerejas, e entabulei conversa virtual com o João Paulo Firmeza, acerca da carreira marítima do seu Avô paterno. Navios para cá, navios para lá, naufrágios para cá, naufrágios para lá, arrastões para cá, arrastões para lá, fotos para cá, fotos para lá, não havia nada como marcar um encontro para degustar uma boa posta de bacalhau, depois de uma boa «chora», saborosa, aprimorada e quentinha. A conversa frente a frente desabrocharia naturalmente, evidentemente, em pleno ambiente que respirávamos. Era de interesse de ambos restaurar a vida marítima do Capitão João Firmeza, mas os dados eram escassos, havia vários hiatos, a família era pequena e quem poderia fornecer mais alguns dados, também já tinha desaparecido. Mas, não vamos desistir. Se hoje, ainda chegamos a alguns relatos, mais tarde, a muito menos chegaríamos e mãos à obra…

Segundo a ficha do Grémio, João de Sousa Firmeza era natural de Ílhavo, da Rua Dr. Samuel Maia, filho de João de Sousa Firmeza e de Maria Victoria Tourega, nascido a 26 de Janeiro de 1896. 
Do casamento com Maria Razoilo Senos, a 29 de Julho de 1920, nasceram os filhos Maria Rosalina Razoilo Firmeza, João Francisco de Sousa Firmeza, e Paulo Manuel de Sousa Firmeza, sendo o João Francisco de Sousa Firmeza, já falecido, pai do João Paulo com tive o prazer de conversar. Mais uma vez, esta nossa moda ílhava – nomes muito parecidos, senão repetidos e, por vezes, os sobrenomes dos filhos diferentes. Esclarecido, na questão familiar. Parece-me.
João Firmeza era portador da cédula nº 9107 passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 25 de Janeiro de 1916, o que prova que, a partir desta data, já poderia navegar, mas nada nos aponta nem quando, com que cargo, nem onde, salvo algumas excepções.
É algo estranho que o seu nome, mesmo em registos jornalísticos, apenas apareça, em 1927, 1928, 1929 e 1930, de piloto, no lugre Silva Rios, da praça do Porto, nas safras de 1927 e 28, sob o comando de João Francisco Corujo, no lugre Senhora do Carmo, da praça da Fuzeta, na safra de 1929, sob o comando de Zacarias Mendes Correia, natural da Fuzeta e na safra de 1930, no lugre São Paulo, com sede na Figueira da Foz, sob o comando de António Augusto Marques (Marcela).
Em anos de forte crise, é possível que tivesse viajado no Brasil, em viagens do comércio, o que aconteceu com alguns ílhavos. O neto, residente no Brasil, por razões profissionais, já tentou seguir o rasto do apelido Firmeza, abundante em terras de Cabral, mas não chegou a nenhuma conclusão segura. Fica como hipótese.
Na campanha de 1939, portanto com 43 anos, ressurge como piloto do lugre Santa Quitéria, da praça de Aveiro, sob o comando de João Nunes de Oliveira Sousa, seu conterrâneo. Como já referido, este lugre-motor, ex-navio dinamarquês Vénus, construído em 1919, iniciou a pesca do bacalhau na campanha de 1935, propriedade da Empresa de Pesca Lavadores, Lda., com instalações de secagem, na Barra.
Eu e os registos fotográficos…uma imagem a bordo do D. Denis com alguém que não me era totalmente desconhecido, levou-me à Gafanha da Nazaré, num ápice, pensando que o amigo Marques da Silva seria o informador ideal. E acertei! Há uns dias, no Museu, tinha falado do Cap. Firmeza com grande à-vontade, tendo eu conhecimento que o conhecera com cerca de nove anos e que a diferença de idades era, consequentemente, grande. Mas, nessa meninice passada na Nazaré – que sorte me bafejara!–  convivera paredes meias com o capitão Ferreira da Silva, com o armador Manuel Pascoal e familiares de ambos. Então, em pormenores mínimos diferenciadores dos lugres D. Denis e Rainha Santa Isabel, dava gosto ouvi-lo. Era esta a foto:
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Em 1940, o capitão Ferreira da Silva (à esquerda e o piloto João Firmeza, à direita-

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O lugre-motor de madeira D. Denis fora construído para a Pascoal & Filhos Lda. por António Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1940, tendo feito já essa campanha, uma estreia, sob o comando do Capitão Ferreira da Silva, também gafanhão, tendo levado como piloto, João Firmeza. São os tais «puzzles» de temática marítima, que adoro compor, uns mais fáceis, outros mais difíceis, consoante o percurso e os contornos.
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Em 1941, de «enxoval» às costas, mudou para o convés do lugre de madeira Rainha Santa, como capitão, tendo como piloto, Francisco Fernandes Mano.
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O ano de 1941 em que se tinha perdido o lugre Silvina, por incêndio, despertou-me interesse, tendo ido reler o capítulo O Silvina em chamas, da obra de Jorge Simões, Os Grandes Trabalhadores do Mar, que na campanha de 1941, tinha sido integrado na nossa frota, no lugre Groenlândia, para observação dos nossos homens, em perigos, nevoeiros, brisas, trabalhos, gelos e tudo o mais que viesse a surgir. Rebusco, então, alguns parágrafos desse capítulo:
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(…) Subitamente, soou pela rádio uma voz que traduzia espantosa aflição e angústia, uma voz que gritou enrouquecida:
«Chamada geral! Chamada geral a todos os navios!... Daqui o Silvina, o capitão do Silvina!... Tenho o navio a arder!... E não tenho posição!...»
O que isto significa para um navio com fogo a bordo, debaixo do nevoeiro, só pode ser verdadeiramente compreendido por quem se encontra nestas paragens. Um pavor!... (…) Ao angustioso apelo do capitão do Silvina responderam numerosos barcos:
«Vamos suspender, vamos em teu socorro. Vamos todos, todos os navios de motor. Mas diz-nos alguma coisa. Vibravam os amplificadores: «Atenção! Chamada urgente!... Chamada geral!...O Silvina está a arder!»
«Suspendam, suspendam todos, vão acudir ao Silvina, ao capitão José Cachim!...» (…)
Às oito horas e dez minutos, voltou a soar a voz, cada vez mais enrouquecida e entrecortada pelos soluços do capitão do lugre que o azar transformara numa fogueira gigantesca a baloiçar ao cimo das vagas:
«Toda a companha está nos botes. O navio, ai o meu rico navio, está pronto. Eu estou sozinho a bordo.»
Aconselharam do Santa Princesa: Deixe o motor do transmissor da rádio a funcionar. Salte para os botes! Não se afastem muito. Vão todos os navios à vossa procura!»
Em onze dorys aguardavam os náufragos, desde as oito e um quarto da manhã, que os fossem buscar. Diversos navios viram passar destroços, junto dos costados. Mas chegou a noite e os lugres tiveram de fundear, sem nada haverem descoberto.
Quando às quatro horas e quarenta minutos da manhã, o velho capitão João de Sousa Firmeza, veterano da pesca do bacalhau, comunicou que os náufragos, num clarear súbito do tempo, tinham descoberto o seu navio, o Rainha Santa, mesmo junto deles, a alegria foi indescritível (…).
O Groenlândia dirigiu-se também para lá. E a tripulação foi distribuída por vários lugres, entre eles o Groenlândia, que levava, a bordo, o jornalista. Desceram o bote já comigo (Jorge Simões) para o outro lugre, o Rainha Santa, de que o capitão lhes fez um acolhimento cordial.
Assim se perdeu o Silvina, no meio de chamas, no dia 25 de Maio de 1941.
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E neste belo e verídico relato, encontrámos referências elogiosas ao velho capitão Firmeza.
O Rainha Santa Izabel, como já referido, ex-Rainha Santa, foi construído para a firma Pascoal & Cravo, Lda., na Gafanha da Nazaré, em 1929, por José Maria Lopes de Almeida. Por dissolução desta empresa, em 1937, o navio alterou o nome para Rainha Santa Izabel, tendo sido, então, propriedade de Pascoal & Filhos, Lda. Foi seu capitão João de Sousa Firmeza, nas safras de 1942 e 43, tendo sido seu piloto João Juff Tavares Ramos, em 1942 e imediato, em 1943.
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À direita, João Firmeza e a meio, o armador, Manuel Pascoal. Entre 42 e 43
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No Rainha Santa Izabel, à nossa direita, o Cap. João Firmeza

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Nos anos de 1945 e 46, servira a empresa Testa & Cunhas no elegante lugre-motor de quatro mastros, que o meu avô estreara em 1938, o Novos Mares, como capitão, levando como imediato, em 1945, Francisco José Campos Evangelista, de Esposende, e Carlos Veiga Correia de Oliveira, em 46, natural de Setúbal.
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À entrada de Leixões, o Novos Mares. Fotomar.
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Na safra de 1948, o naufrágio do lugre Gaspar estava guardado para a responsabilidade do Capitão João Firmeza, já que durante vários anos anteriores, navegara sob o comando do nosso conterrâneo Manuel Mendes, falecido em 1947, na cidade de Viana. Segundo O Ilhavense de 20 de Setembro e o Comércio do Porto de 17 de Setembro de 1948, estando quase finda a época piscatória nos mares gelados da Groenlândia e Terra Nova, o destino não quis deixar de assinalar com mais uma tragédia a sua louca sofreguidão.
O lugre Gaspar, açoitado violentamente pelo vendaval que pairou, durante horas, em todo o Atlântico Norte, correra risco grave, ao ser abatido a tiro pelo cutter da Guarda Costeira Americana «Bibb», mas felizmente, o seu apelo fora captado.
O capitão lançou um SOS e logo em seu socorro rumou o navio-hospital «Gil Eanes», que saíra há dois dias de St. John’s, bem como a fragata americana
«Cecil N. Bean», o navio «Tropero», o cruzador «Albany» e o contratorpedeiro «Purdy», além de dois bombardeiros americanos e um hidro-avião de vigilância da costa, que procuraram localizá-lo, bem como recolher os seus tripulantes. Foram distribuídos por outros lugres, com excepção de Salvador Gonçalves Vieira, de Viana do Castelo, que fora levado por uma vaga que varrera o convés do navio, na véspera do acidente.

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O lugre Gaspar, em 1947
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O lugre Gaspar, ex-Sarah, construído em 1919, na Figueira da Foz, por Manuel Maria Bolais Mónica, foi comprado para a campanha de 1921 pela Empresa Novas Pescarias de Viana, Lda. Embora construído em madeira, estava revestido a chapas de ferro e era equipado com um motor de propulsão.
Uns anos mais tarde, o Cap. Firmeza retomou a pesca do bacalhau, mas, desta vez, no arrasto. Na safra de 1954, no arrastão João Álvares Fagundes da SNAB, na 1ª viagem, de imediato, sob o comando de José Nunes de Oliveira e, na segunda, de capitão.
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Na ponte do arrastão João Álvares Fagundes
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Após alguns hiatos, em que não se encontram referências, na safra de 1958, foi de imediato no arrastão Águas Santas, na 1ª viagem, sob o comando de Manuel Lourenço Catarino, também de Ílhavo. Este arrastão de aço foi construído para a Empresa Comercial e Industrial de Pesca, no estaleiro T. Van Duijvendijk’s Scheeepswerf em Lekkerk, Holanda, em 1949.
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Arrastão Águas Santas. Foto de autor desconhecido
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Depois da aposentação, integrou-se no grupo de oficiais com quem se dava, aparecendo em algumas fotos de grupo, já apresentadas, noutros locais, em conversas pelo jardim, em jogos de cartas no Sindicato dos Oficiais no segundo andar do edifício do Illiabum Clube e em almoços/encontros de circunstância, cá em Ílhavo, em Lisboa ou de visita a Évora.
Em 21 de Setembro de 1968, deixou-nos, depois de grande parte da vida passada sobre as salsas ondas do oceano, entre perigos, nevoeiros e gelos traiçoeiros, com 72 anos de idade.
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Fotos cedidas pelo neto João Paulo Firmeza.
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Ílhavo, 17 de Abril de 2018
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Ana Maria Lopes
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