domingo, 30 de agosto de 2015

Na Costa Nova, a ria galgou a terra

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Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha – diz o povo e com razão.
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Como eu não pude ir ter com a ria, veio a ria ter comigo, para encerrar o mês de Agosto com um brilho que, climatericamente, não teve.
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A ria no seu esplendor, na sua lhaneza, na sua fundura e na sua lisura, invadiu a terra, galgando-a, como outrora, plangente.
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Téthis, deusa das águas, fê-la subir, subir, subir, até que, transpondo a rodovia, beijou docemente a estrada e os palheiros, saudosa do seu antigo leito que lhe foi roubado maleficamente por alguém que não pensou, cientificamente, nos efeitos.

Frente à «Marisqueira»

A partir do «Coração da Praia»…
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Costa Nova, 30 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
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sábado, 29 de agosto de 2015

ROMARIA DO S. PAIO da TORREIRA - 2015

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Cumprindo uma ancestral tradição, de 4 a 8 de Setembro, a Praia da Torreira, no Concelho da Murtosa, volta a encher-se de gente, vinda dos mais variados pontos do País, em maré de celebração, para a Romaria do S. Paio da Torreira, indiscutivelmente a mais concorrida, popular e afamada da região marinhoa, naquele que é um dos principais cartazes turísticos da Murtosa.
Os pontos altos dos festejos são, como habitualmente, para além da procissão, as sempre espectaculares descargas de fogo-de-artifício no Mar (dia 5) e na Ria (dia 7), a Corrida de Bateiras à Vela e a Corrida de Chinchorros (dia 5), o Concurso de Rusgas (dia 7) e a Regata de Moliceiros (dia 6). Na animação musical, os destaques vão para as actuações de Lucas e Matheus (dia 5), Sérgio Rossi (dia 6) e Toy (dia 7).
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O cartaz deste ano reproduz um quadro sugestivo e apropriado, criado, a convite da Câmara Municipal da Murtosa, pelo conceituado artista plástico Murtoseiro José Manuel de Oliveira.
 
 
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Programa

4 de Setembro
08.00h – Alvorada
11.00h – Missa Campal do Dia do Idoso, junto à Capela de São Paio
15.30h – Arraial do Dia do Idoso, com o artista JOÃO BELO, junto à Capela de São Paio
22.00h – Actuação da banda JUKEBOX
5 de Setembro
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08.00h – Alvorada
14.00h – Corrida de Bateiras à Vela
17.30h – Corrida de Chinchorros
22.00h – Actuação da banda MJ
24.00h – Sessão de Fogo-de-artifício no Mar
00.30h – Actuação dos artistas LUCAS & MATHEUS
6 de Setembro
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08.00h – Alvorada
10.00h – Concurso de Painéis
14.00h – Regata de Moliceiros
22.00h – Actuação da banda MP3
24.00h – Actuação do artista SÉRGIO ROSSI
7 de Setembro
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08.00h – Alvorada
21.30h – Concurso de Rusgas
22.00h – Actuação da banda SONJOVEM
24.00h – Sessão de Fogo-de-artifício na Ria
00.30h – Actuação do artista TOY
8 de Setembro
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08.00h – Alvorada
10.00h – Missa junto à capela de São Paio, seguida de majestosa procissão.
16.00h – Concerto pela banda «Visconde de Salreu» no Largo 30 de Outubro
16.00h – Actuação da banda L SHOW
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Fonte: Município da Murtosa
Costa Nova, 29 de Agosto de 2015
Ana Maria Lopes
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sábado, 22 de agosto de 2015

E ainda... «Uma Janela para o Sal»

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Porque gostei muito e quase me chocou, alguns respigues do discurso de Álvaro Garrido, na apresentação de «Uma janela para o Sal» na antiga Capitania de Aveiro, que consegui através da Rádio Terra Nova:
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«(…) É um texto poético, ela (Ana Maria Lopes) diz e teima que este é o derradeiro livro, mas, eu há pouco, disse-lhe que seria o derradeiro antes do próximo, certamente, será. Nós sabemos que ela é assim.
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É um livro poético feito de imagens, honra ao Paulo Godinho, também feito na altura certa.
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A Dra. Ana Maria Lopes tem um talento especial para captar as coisas no momento final em que elas podem ser captadas e isto significa uma elevadíssima consciência patrimonial, ou seja, um apurado sentido de declínio da memória e das identidades e, não é por acaso, que o Paulo guardou estas imagens em «slides» desde os anos 80, e, se elas não fossem dos anos oitenta, como disse o Sr. Vereador, não eram tão expressivas das lides do sal, da safra do sal e tão evocativas e exaltantes para evocar os heróis que aqui desfilam que são as figuras sociais às quais nós rendemos homenagem – o marnoto, o moço, o barqueiro, basicamente, o MARNOTO, figurante de todos os outros.»
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O discurso do apresentador foi forte. Calou-me bem fundo, na altura em que falou na escola de Coimbra, «Palavras e Coisas», defendida pelo Professor Paiva Boléo, Catedrático de Filologia Românica, que tanto influenciou a minha formação. Senti-me, no momento, com 18 anos, então, sua aluna e sua fiel seguidora, como sempre fui, até hoje.
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Aveiro, 4 de Junho de 2015
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Álvaro Garrido
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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A Dança das Proas, em Aveiro

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Sensivelmente três anos depois da conclusão dos trabalhos de levantamento de quatro pontes no canal do Cojo, ao longo do Fórum Aveiro, as proas dos moliceiros voltaram a surgir em baixo.
Recorde-se que a obra implicou um investimento de 80 mil euros e tinha como objectivo permitir navegação de moliceiros com proas, o que até então não era possível, sendo serradas e seguras por dobradiças.
Fonte de uma das operadoras adiantou ao Diário de Aveiro alguns dos motivos que justificam o aparecimento de proas de moliceiros, serradas.
Entre elas, está a permanência de uma estrutura sob a Ponte-Praça, desde os tempos do Euro 2004 e usada para montar a árvore do Natal da cidade.
«Quando o movimento é pouco, conseguimos desviar-nos, mas, nesta altura do ano, em que é um corrupio de barcos, isso não é possível e baixamos o bico da proa», explicou a fonte, que garante ser esta uma situação que é do conhecimento da edilidade.
Mas há mais: «Quando a maré está cheia, tem-se mesmo que baixar, até na ponte de S. João, caso contrário não se passa». E não se pense que a situação se aplica apenas aos moliceiros, porque os outros barcos também utilizados nos passeios turísticos, chamados mercantéis, apesar de terem uma proa menos alta, também aqui são obrigados a baixá-la.

Um mercantel, sob a ponte S. João

A questão passa, igualmente, pelo sítio da proa onde se corta e coloca a dobradiça, pois a ideia é colocar a proa no sítio após a passagem do obstáculo.
«Se for mais junto ao bico, torna-se mais leve e coloca-se no devido lugar mais facilmente», defende a fonte contactada pelo nosso jornal. Mas, «se for mais em baixo, a estrutura da proa a mover torna-se demasiado pesada e, nestes dias de muito trabalho, alguns marinheiros não conseguem estar constantemente a fazer esforço».
Assim, alguns moliceiros voltaram a aparecer no Canal Central, com os bicos dobrados.

 
Isto, apesar da Câmara Municipal de Aveiro apelar para que os barcos mantenham as proas direitas o máximo possível, uma vez que se encontra ciente de que é necessário baixá-las em determinados pontos do percurso.
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Sugestão: desde que os moliceiros vieram para o Canal Central, há anos, começou esta polémica. Por via da altura das águas, das pontes e das bicas, não chegamos lá, nem imagino como se há-de resolver a situação.
Por via linguística, talvez cheguemos – havia os moliceiros norteiros, os sulistas e, agora, os centristas. Por que não?
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Ainda – moliceiros imponentes (norte), matolas (sul) e os atamancados ou turísticos (centro).
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Não passa mesmo de sugestão…
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Fonte – DA de 18 de Agosto de 2015
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Costa Nova, 19 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Contrastes na Ria

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Duas imagens de que gosto. São o oposto.
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Poder-lhe-íamos chamar: Contrastes. Qual delas a mais bonita?
 
É dia…

É noite…

Evocam-nos vocábulos opostos. Jogos de palavras. Por detrás da antinomia sempre presente, o bucolismo da paisagem lagunar. De uma paisagem lagunar que já foi.
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Na primeira imagem, o fim do peso da rotina de mais uma emposta, as velas atadas em fim de tarde, projectada no azul celestial, aqui e ali sujo por uns fiapos de algodão, a servirem de fundo à irmandade colectiva dos amanhadores da ria. É dia.
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Na segunda, um prateado sobre o azul-cobalto da ria, originando sombras negras como lava, pintadas no silêncio do recolhimento de um olhar sempre amanhecido.
Jogos de luz que se entretêm a colar tatuagens sensuais sobre o corpo da laguna, em ensaios cenográficos de volúpia deslumbrante, que a emoção colhe por inteiro, sôfrega, ainda antes da compreensão os tactear à superfície das águas.
E ali em qualquer lado, em qualquer parte escondidas, as galhetas, em bandos, à procura de poiso para dormir, em lamento, piando em baixos e agoirentos dizeres, até que a luz agonize e sejam horas do sono. É noite.
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A ria dorme para serenamente embalar o moliceiro no cochilo.
O mar, não.
O mar não tem sossego. O mar resmunga sempre, espreguiçando-se pela areia branca.  
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As duas imagens são da nossa ria, em situações opostas. A superfície lagunar tem destas coisas: noite/dia, claro/escuro, agitação/descanso, velas brancas, mastros negros. Apreciem-nas.
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Contrastes também do dia e noite de hoje: o bulício, o rebuliço, o alvoroço diurnos dão lugar ao sossego, à paz e à calma nocturnas.
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Repesquei estas palavras de um post que tinha colocado no dealbar do Marintimindades, com algumas alterações. Hoje, já lá vão sete anos, ou é de mim, ou da ria. Sinto tudo murcho, muito despido e desmazelado, apesar de ser lua-cheia e maré-viva. Resta-me o horizonte, nos seus cambiantes volúveis, ao longo das diversas horas do dia. E, quando estou em silêncio, como agora, com o tal dito horizonte por fundo, o meu trabalho preferido é brincar nostalgicamente com as palavras, trabalhando-as, mudando-as, acoplando-as, contrastando-as. Contrastes em mim e na ria.
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Fotografias – Arquivo pessoal da autora (anos 80)
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Costa Nova, 3 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 9 de agosto de 2015

AMI enriquece espólio pictórico do MMI

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Neste 8 de Agosto, em que o Museu de Ílhavo cumpriu as suas 78 primaveras, a AMI teve o prazer de enriquecer a colecção de pintura, que, desde há dois anos, se exibe em sala apropriada para o efeito, – o melhor dos nossos maiores e não só…. temas marítimos ou lagunares, dentro de determinadas correntes que se consideram essenciais na colecção.
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Em dia de Documentário sobre varinas, o que havia de ser?
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A lembrança foi um interessante original a tinta-da-china, de Arlindo Vicente, adquirido em leiloeira, de temática regional, datado de 1928, cheio de varinasGente da Barra e da Ria de Aveiro. O traço lembra, em muitos aspectos, o nosso João Carlos.
Personalidade multifacetada, advogado e pintor autodidacta, militante antifascista, Arlindo Vicente saltou para a ribalta, quando, em 1958, disputando a campanha para Presidente da República, desistiu a favor da candidatura de Humberto Delgado.
Em 1970, trocou a advocacia pela pintura, tendo levado a efeito a sua primeira exposição individual de pintura, na SNBA.

Tinta-da-china de Arlindo Vicente

A cena parece situar-se junto do Canal Central, em Aveiro, em que o bico de uma gaivota em voo alado, como que em bailado, tenta beijar a bica de um moliceiro, de velas prenhes e remendadas.
Em primeiro plano, embeleza a cena um casal de pescador e varina.
Ele, figura alta e esguia, descalço, veste calça branca, com camisa quadriculada e, na cabeça, barrete negro, terminado pela tradicional borla.
Sobre o pé, de chinelinha abicada de verniz, das varinas, bate-lhes saia rodada riscada ou quadriculada, salientando-lhe as ancas bamboleantes. Cinta ou faixa iça-lhe a saia, mais ou menos, consoante o necessário. Sobre a cintura fina, assenta um avental claro, por onde espreita a tradicional algibeira, para os trocos. Blusa branca de manga comprida e decotada salienta-lhes o peito roliço e sedutor.
Sobre o rosto esguio, assenta-lhes lenço de estampados diversos, ora caído para trás, ora envolvendo o rosto, encimado por chapéu de feltro de aba baixinha e copa mediana. Sobre este, a típica rodilha em que assenta a canastra alongada que expõe o peixe prateado aos passantes.
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 – Quem quer sardinha vivinha a saltar? – apregoam.
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 E são assim as varinas de Arlindo Vicente, na sua desenvoltura e elegância.

Costa Nova, 9 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Moliceiros - Tempo para viver ou tempo para morrer?...

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Estarei de férias?…huuum. Estou e não estou.
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No passado dia 2 de Agosto foi a Regata de Moliceiros no Bico da Murtosa, em que concorreram sete, de tamanho normal e três, de tamanho menor, números aproximados. Não me foi possível ir. Os premiados na corrida foram, por ordem, Zé Rito, Marco Silva, A. Rendeiro, Sermar e Manuel Vieira.
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Com garra, na regata do Bico. 2015

Segundo informação de amigos, os participantes proporcionaram belos momentos ao longo de todo o percurso, navegando à vela com toda a perícia.
Desta vez, ganhou o Zé Rito, que se distanciou logo de início e não mais foi alcançado, mas perderam os moliceiros, que são cada vez menos. Da zona sul da Ria, nem um, quando, nestes últimos tempos, já houve quatro – o Pardilhoense, o Inobador, o Marnoto e o São Salvador. Outras lides… É pena!...
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O que se tem vindo a perder…ao longo de umas, poucas, dezenas de anos…

Carregal. Moliçada. 1986

A  saber:
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O leme negro, pesadão, na sua elegância, cheio de «chança», carimbado pela marca do construtor, neste caso, do Mestre Lavoura.
Os mastros altos, imponentes, ao longo dos quais deslizam «os imbergues» apontando o céu azul, que sustentam as velas, na luminosidade das suas «teadas».
No «xarolo», a bombordo e a estibordo, as tiras de serapilheira, que vedam a união entre as «falcas» móveis e a borda da embarcação.
Isto é só uma pequena amostra do que de etnológico, antropológico e linguístico se tem vindo a  perder. E o saber, o saber-fazer…
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Outras eras… Sobra-nos o que sabemos.
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Fotografias – MEPC e Paulo Godinho
Costa Nova, 5 de Agosto de 2015
Ana Maria Lopes
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