sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Homens do Mar - Manuel Cecílio do Bem - 49


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Manuel Cecílio do Bem (Paulo)

Sempre foi minha conhecida e vizinha, a Silvina Paula, por aqui por entre as ruas Ferreira Gordo e João de Deus. Noutro dia, ao cruzarmo-nos no passeio, aqui de Espinheiro, dirigiu-se-me e   entabulou conversa. Nesse dia, o assunto tinha a ver com os «Homens do Mar», que O Ilhavense tem publicado. Como filha de marítimo, de quem muito se orgulha, e possuidora de pequenas fotos do Pai, a bordo, tinha muito empenho em que eu pudesse dedicar um dos meus despretensiosos trabalhos ao Manuel do Bem, de alcunha, o Paulo.
E porque não? Se as imagens fossem elucidativas e ela me orientasse naqueles primeiros dados que só a família sabe, então, soltar-me-ia, percorrendo caminhos habituais (jornais O Ilhavense, Jornal do Pescador, fichas pessoais do Grémio, fichas de navios, de cada campanha, tripulações, etc.), que percorro com gosto.
Além disso, em 1992, juntamente com os colegas cozinheiros António Gordo, João Labrincha e João Barreirinha, tinha ido algumas vezes ao Museu, aquando da preparação da lembrada Faina Maior, ajudando-nos a identificar algumas peças do gigantesco trem de cozinha trazidas das secas, bem como dar umas dicas sobre o seu «papel» de cozinheiro, a bordo. Do cozinheiro e seu ajudante, dependiam todo o «combustível» da tripulação, trabalho nada fácil, exaustivo, preocupante, mas rotineiro. E Ílhavo também fora pródigo em fornecer bons cozinheiros para a pesca.
A Paula, mesmo ali, no passeio, recordou alguns dos navios em que o Pai andara embarcado e também os seus capitães – Quim da Graça, Mário Paulo do Bem, Valdemar Aveiro e capitão Pascoal, entre outros. Claro, o seu desejo despertou-me interesse e fiquei, ansiosamente, à espera das fotografias. Da cozinha de bordo, propriamente, não tinha esperança que aparecesse alguma, pois as condições de luz do espaço não eram favoráveis e dificultavam o registo dos desejados cenários reais. Um dia, de posse das mesmas, a Paula, em conversa, ali na sua casa do típico beco ilhavense, nº 11, à Rua João de Deus, tirou-me algumas dúvidas, forneceu-me mais uns dados e daí em diante, eu que me desvencilhasse.
Manuel Cecílio do Bem, de alcunha Paulo, filho de José Paulo do Bem e de Maria de Jesus Calçôa, em Ílhavo tinha nascido em 27 de Maio de 1921 e por aqui se criara.
Portador da cédula marítima nº 22601, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 7 de Março de 1939, terá ainda jovem, sido levado para o mar, por algum amigo ou familiar, como moço de câmara.
Do casamento com Silvina Marques da Silva, em Novembro de 1952, nasceram a Silvina Paula (mais velha) e António Augusto Marques do Bem, também marítimo, com o mar a correr-lhe nas veias.
Depois que termos acesso aos registos do Grémio, Manuel Paulo, terá feito o seu baptismo de mar como moço, no navio-motor de ferro, Santa Maria Madalena, nas safras de 1939 e 40. Continuou no mesmo navio, construído em 1939, para a Empresa de Pesca de Viana, nos estaleiros da Companhia União Fabril (CUF), até 1943, tendo passado a ajudante de cozinheiro. Sempre sob o comando de Joaquim Fernandes Agualusa (1901-1983), mais conhecido por Quim da Graça, de Ílhavo.
  
À nossa direita, a bordo
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Nas safras de 1944 e 45, perde-se-lhe o rasto, que, talvez se venha a encontrar. Esperemos.  Surge-nos, ainda como ajudante de cozinheiro, nas campanhas de 1946 e 47, no lugre Ilhavense Segundo. Este lugre-motor construído para a Parceria Marítima Esperança, Lda., por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1918, não participou nas campanhas de 1949 a 1952, tendo retomado a actividade depois de reconstrução sofrida em 1952. Foi seu capitão, o ilhavense Carlos Ançã.

À nossa esquerda, a bordo…
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E na safra de 1948, o Paulo deu o salto com o «saco da roupa» para o convés do Viriato, aonde regressaria por muito mais tempo, sob o comando de Mário Paulo do Bem (1907-1976).
  
Bota-abaixo do Viriato, em 1945
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Depois de uma passagem na safra de 1949, pelo icónico Gazela Primeiro, sob o comando do ilhavense João Simões Chuva, o Anjo (1901-1956), assentou arraiais no Viriato, durante mais oito viagens, com o mesmo capitão, Mário Paulo do Bem, seu amigo e familiar, até 1955 e com Elmano Pio da Maia Ramos, ambos ilhavenses, entre 1956 e 57, tendo alcançado o posto de cozinheiro no ano de 1951.  Este ano de 1951, no Viriato, parece que me diz mais alguma coisa. Ah!...
Por mais que uma vez que ouvi da boca do Cap. Valdemar Aveiro que se fizera à pesca do bacalhau, pela primeira vez, como moço, a bordo do lugre-motor Viriato, no ano de 1951, no sentido de suportar as despesas da sua formação. Era isso! Acto louvável!...
O Manuel Paulo, como cozinheiro do navio. conterrâneo e amigo do Valdemar, sempre lhe preparava uns «miminhos culinários», à socapa, como era hábito em situações deste tipo – referiu-me a filha.
A principal peça da cozinha, incluída «no rancho» era o grandioso fogão, de início, a carvão de pedra, ladeado de pequenas tulhas com os mantimentos que o cozinheiro mais usava: feijão branco e encarnado, grão, arroz e açúcar, este, fechado a cadeado. As grandes bailas, tachos, panelas, tabuleiros, passe-vites, cafeteiras, penduradas nos vaus. Espaço acanhado…, mas, asseado, limpo e arrumado.
Rente à saída para os grandes bancos, vinha a fragata dos mantimentos. Avisado o cozinheiro, ele conferia-os com ajuda de outros companheiros – tudo com peso e medida!
No dia seguinte, chegava o bote com caixas de peixe: pescada, chicharro, pargo-mulato, peixe-espada, corvina… Vinha logo o cozinheiro – vida difícil a deste homem –, estripá-lo com a ajuda da sua mulher, da do contramestre e de um ou outro marinheiro. Salgava-se no porão, ao lado do encerado com as alfaces, favas, ervilhas, cenouras, para os primeiros dias de viagem. Mais perto da saída, vinha a fragata da água – o cozinheiro que começasse logo a tenteá-la– era-lhe   recomendado.

O casal, a bordo do Viriato, em 1954
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A foto anterior é mais um documento da presença das mulheres a bordo. Aqui, a do cozinheiro, na sua vestimenta de época, com avental lavrado e embonecado com folhos, calçada com as suas peúgas de lã e tamancos envernizados e solas de madeira, comprados na feira da Vista Alegre.

Às vezes, havia queixas - a sopa anda a sair salgada com’à pilha – reclamava a companha.
Às sete e meia da matina, saía o «almoço» – variava entre  papas de feijão, feijão guisado ou assado no forno, papas de farinha de trigo, açorda; – o «jantar», às onze e meia (sopa de feijão branco ou vermelho, ou grão com arroz ou massa, temperada com toucinho bem alto) e peixe cozido, só por só, com alguns temperos, se o cozinheiro estivesse bem amurado (de boa disposição). À ceia, voltava o peixe acompanhado de feijão frade e grão de bico.

E o pão de bordo? Ah! Ah! De boa farinha de trigo americana, amassado em água salgada, estava sempre em tabuleiros sobre a mesa. Se era igual e creio que sim, àquele que nos mandavam a casa, ainda quentinho, sempre que entrava algum navio da empresa: –  Era de comer e chorar por mais!

Pequenas regalias distinguiam a quinta-feira e o domingo: o queque, ao almoço e a carne salcochada, ao jantar.

Também a alguns «pitéus», tinham direito os pescadores, de vez em quando:
– tartaruga, com carne muito apreciada, idêntica à da galinha, mas com sabor a peixe, apanhada ali por altura das ilhas.
– toninha, cozida ou guisada, ou em bifes frescos, apanhada, também, pelas bandas das ilhas.
– a lula excedentária, depois de primordialmente, servir para isca.
– peitos e coxas de cagarra também constituíam um óptimo «pitéu».

Chegados aos pesqueiros, o horário das refeições estava condicionado à pesca.
O cozinheiro aviava o pessoal em refeição volante, que se misturava com gagins e anzóis, no foquim – pão, umas postas de peixe frito, azeitonas, café, uma garrafa de água. Antes da escala, o jantar, com sopa e peixe cozido – agora fresco, pescado e escolhido para o efeito.

Que belo troféu!...
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Depois da escala, a famosa «chora», cozinhada com caras de bacalhau e arroz.
Horas de descanso… poucas…, e de secar a roupa com o calor do fogão, que nunca se apagava – «morria», mas quando o cozinheiro se levantava, dava-lhe uma mexedela com o ferro, punha-lhe mais carvão e toca a andar.

Vida dura que foi melhorando com a maior capacidade e condições dos navios. O Paulo do Bem, desde o Santa Maria Madalena, em 1939, passando pelos já citados navios, também cozinhou, para as companhas dos navios-motor Novos Mares, entre 1958 e 1961, e S. Jacinto, entre 1962 e 64 e do arrastão João Ferreira, em 1965 e 66. Por eles lidou com os capitães Weber Manuel Marques Bela, António de Morais Pascoal, e Joaquim Manuel Marques Bela, todos de Ílhavo, e com João Francisco Grilo, da Figueira da Foz.
Em dias de brisa, com descanso a mais e falta de peixe, más caras, todos se aborreciam.
O pobre do cozinheiro é que alombava…comer sempre a horas certas. Lá se lhe iam os mantimentos, era mais a refeição do meio-dia. Esta malta a bordo só fazia lixo e ainda tinha de a aturar – pensava o cozinheiro.
As mulheres, como já referido, também passavam algum tempo a bordo, antes da largada, ajudando à baldeação e à limpeza. Até mandavam e habituavam-se a ver o tempo…
O Manuel Paulo também teve a sua passagem pelo comércio, como atestam algumas fotografias. Entre fins de 1943 e princípios de 1946, fez algumas viagens para o Brasil, no paquete pertencente à Companhia Colonial de Navegação, Serpa Pinto, que ficou conhecido pelo navio da Amizade.

Paquete Serpa Pinto
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Já após a carreira do bacalhau, por 1967, fez algumas viagens de cabotagem, no navio Alger, em que naufragou por encalhe, em 29 de Junho de 1969, tendo feito um telefonema para a mulher, ali para a antiga loja do Sr. Lamarão, na rua, para a descansar e ouvir.

Em 1971, tirou o curso de cozinheiro no Alfeite, para poder embarcar, então, na Marinha Mercante, tendo sido cozinheiro no «novo» Serpa Pinto, da Companhia Insulana de Navegação, bem como no Funchalense e Madeirense – informação do genro Fernando Gago.
Deixou o mar por volta de 1980.
Depois de um AVC de que recuperou bem, ainda passou uns aninhos cá pela vizinhança, entre umas saídas com amigos, por casa e «dando uma mãozinha» nas lides culinárias, em que chegava a cozinhar ementas diferentes, para satisfazer os gostos de adultos e crianças. Cozinheiro era assim, em Ílhavo. Deixou-nos em 16 de Fevereiro de 2000, com 78 anos.
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Fotos cedidas pela filha.
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Ílhavo, 4 de Junho de 2018
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Ana Maria Lopes
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sábado, 18 de agosto de 2018

Na senda das exposições do Titanic... mais uma!...

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Ontem, no Exploratório de Coimbra, dia 17 de Agosto, pelas 17 horas, foi inaugurada a exposição TITANIC - A Reconstrução.
Tenciono visitá-la e será, para mim, a quinta exposição sobre o Titanic, que visitarei.

A primeira, em 1994, no Museu de Greenwich. A segunda, no Mercado Ferreira Borges, no Porto, em 2004 e a terceira, no espaço Rossio, em Lisboa, em 2009. Foi há bem pouco, que, a convite especial de Paulo Trincão, que muito agradeço, que visitei esta mesma exposição TITANIC – A Reconstrução, presente na Expofacif, em Cantanhede, durante dez dias.
Foi acarinhada com muito interesse e visitada por 18 mil e quinhentas pessoas, num espaço de tempo bastante limitado.

Apesar de já saber que viria a estar presente no Exploratório de Coimbra, a partir de 18 de Agosto, não deixei de vencer a onda de calor dos inícios de Agosto, para visitar o pomposo Titanic, que, em 1912, um ainda mais gigantesco iceberg afundou, sem dó nem piedade. E tal afundamento, pelas suas condições, serviu de tema a livros, a um mar de notícias, a grandes filmes, e, finalmente, já a algumas exposições, depois de terem sido encontrados os seus despojos no fundo do mar, umas dezenas de anos após o naufrágio (1912-1985).

A emoção não foi a mesma da sentida nas anteriores, em que pretendia creditar a existência dos mágicos talheres do Titanic, pertença de algumas famílias figueirenses e, sobretudo, ilhavenses. Já o tinha conseguido na terceira exposição no espaço Rossio, em Lisboa, em 2009. Mas, aprende-se sempre mais e a exibição estava dignamente montada, de uma forma séria e criteriosa, deixando para o final a sumptuosa surpresa.
Resume, um pouco, a história do navio desde o nascimento da lenda da construção (1907), do design naval rigoroso, criado em 1908, do início da construção em Março de 1909, do dia do lançamento à água, em 31 de Maio de 1911, do seu acabamento até Março de 1912, da viagem inaugural com partida de Southampton, em 10 de Abril de 1912, até ao desfecho dramático do Iceberg à vista!, pelas 23 horas e 40 minutos de 14 de Abril de 1912.
Recria alguns míticos espaços, começando pela  fotografia em grande formato da escadaria sumptuosa de acesso aos salões de 1ª classe, alguns pormenores das instalações de lavabos, diversas peças de louça, de garrafas de champagne Henri Abelé, alguns instrumentos da orquestra que tocaria, enquanto o Titanic se afundava, a cabine telegráfica Marconi, muitas fotografias conhecidas, mas sempre emocionantes, em tamanho fantástico de cenas fulcrais no naufrágio, os cadeirões do casal Strauss, de história empolgante,  no deck da primeira classe, e a simulação de uma das várias caldeiras a carvão, do navio.
E a ansiedade vai-se cultivando, à medida que os cenários nos conduzem até ao simbólico e gigantesco iceberg, que destruiu o dito indestrutível.

 
Escadaria famosa
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Pormenores dos lavabos individuais
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Garrafas de champagne, louças e outros objectos
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Alguns instrumentos da orquestra
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Cabine Marconi
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E chegamos ao climax… à simulação do iceberg e da fenomenal «maquette», de cerca de doze metros de comprimento, que a todos espanta, bem como do estaleiro White Star Line, onde o navio foi magistralmente construído.
De bombordo, uma plataforma aproxima os visitantes a nível do modelo, e a estibordo, a «maquette» é aberta, de modo a serem observados todos os pormenores dos diversos conveses, iluminados e em movimento.

Perante o iceberg e o modelo gigantesco

Panorâmica do modelo, a estibordo
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E ficamos por aqui. Quem quiser saber mais, vá mesmo visitar.
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Fotografias de Paulo Godinho
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Costa Nova, 18 de Agosto de 2018
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Projecto DE NOVO NA TERRA NOVA


Faz exactamente, hoje, 20 anos que o navio Creoula saiu para a Terra Nova, numa das missões mais expressivas que jamais cumpriu.

Regresso do antigo lugre aos mares da Terra Nova – in Jornal de Notícias de 9.8.1998

Canadianos e portugueses reaproximam-se
Creoula parte hoje para a Terra Nova – in Diário de Aveiro de 9.8.1998

Ílhavo «viveu» a partida do Creoula para a Terra Nova
O Presidente da República, Jorge Sampaio, no dia da largada do Creoula para a Terra Nova
Na tripulação segue grupo de jovens ilhavenses
Os votos são de boa viagem!... in O Ilhavense de 15.8.1998

Projecto De novo na Terra Nova junta Portugal e Canadá – in Diário de Aveiro de 15.8.1998

Assim se referem ao acontecimento alguns jornais da época. Muitos mais se lhe referiram.

Acudiram milhares de pessoas ao cais nº 10 do Porto bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré, para viverem a saída do Creoula, com destino à Terra Nova. O Presidente da República, Jorge Sampaio, entre aquela massa humana, dirigiu-se ao navio para cumprimentar o Comandante, bem como todos os instruendos e Director de Treino de Mar, Capitão Francisco Marques, numa missão igualmente simbólica, já que havia sido o último Comandante do navio, enquanto lugre da pesca do bacalhau, no ano de 1973.


Jorge Sampaio cumprimenta o Comandante do navio

Também a Barra teve um movimento invulgar. A afluência ao Paredão e Meia-Laranja era fora de série. O NTM Creoula, de velas enfunadas, saía a Barra, relembrando as saídas dos antigos lugres com o mesmo destino. Só que a missão era bem diferente!

De velas enfunadas, saía a Barra

Muitas embarcações de vários tipos acederam ao convite de acompanhar o antigo lugre-motor, dando à entrada da Barra um aspecto comovente e arrebatador.

Saída envolvente e arrebatadora…

Tendo vivido este projecto muito por dentro e acompanhado a viagem muito de perto, inclusive no Canadá, não quis deixar passar a data despercebida – vinte anos são passados.
Patrícia Dole, Embaixadora do Canadá, à época, lançou a ideia desta viagem, que recebeu o apoio dos dois países.
Ao contactar a Associação dos Amigos do Museu, encontrou nela uma forte aliada e, a partir daí, constituiu-se uma Comissão Executiva, sediada no M.M. de Ílhavo, formada pela citada Associação, pela Universidade de Aveiro, pela C.M. de Aveiro e de Ílhavo – assim se realizou o projecto DE NOVO NA TERRA NOVA.
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Fotos de Carlos Duarte
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Costa Nova, 9 de Agosto de 2018
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 7 de agosto de 2018

AMI festeja o 81º aniversário do Museu Marítimo


Hoje, 8 de Agosto, Amigos do Museu festejam o 81º aniversário desta instituição, com a oferta de uma bateira labrega, primorosamente aparelhada. Tosca, mas airosa, embreada a negro, e de bica de proa caracteristicamente levantada, menos atrevida que a do chinchorro, foi construída pelo «mestre de primeira água» António Esteves, de Pardilhó.


Mestre Esteves ultima a labrega

Com um comprimento de 8,40 m, boca 1,82 m, pontal com 0,53 m e 14 cavernas, navegava a remos, à vara ou à vela e dedicava-se à antiga, singular e engenhosa «arte do salto», para a tainha. Depois da vela bastarda, aderiu à moda da vela latina quadrangular, auxiliada, por um pequeno leme de xarolo, de cabeça direita, tipo mercantel.
Sobretudo característica da Murtosa, expandiu-se pelo país, através da diáspora de gentes da região – para sul, integrando-se na «saga dos avieiros» no Tejo, e mesmo até Setúbal, no Sado e, para norte, até à Afurada, chegando a decorar-nos também por aqui, o canal de Mira, na Costa Nova, em tempos idos.
Era uma peça que faltava na Sala da Ria do Museu, tendo sido construída com base no levantamento levado a cabo pelo Arquitecto Fernando Simões Dias, em âmbito de Mestrado em Design, pela Universidade de Aveiro, de Etelvina Almeida, com o título: Embarcações Tradicionais da Ria de Aveiro – uma análise pelo Design, no ano de 2010.
Queremos preservar a memória patrimonial da bateira labrega, A1440 L, A PRETA, de cor e de nome, do afamado Ti Manuel «das Tainhas», que, à data, nela praticava a «arte do salto», na nossa Costa Nova.
A última das últimas (e não será por muito tempo), é a labrega A 2829 L, ROSINHA, da Bestida, é propriedade de Alfredo Cruz (mais conhecido por Viola ou Calcado), ainda primo do Ti Tainha. A ROSINHA, já algo alterada pelas várias amanhações sofridas e pela adaptação de uma falca fixa, ainda utiliza uma arte idêntica (arte da parreira), adaptada às exigências legais actuais. É suposto que ambas as bateiras tivessem sido construídas pelo mestre José Preguiça, do Monte, Murtosa.

 
Alfredo Calcado, com a dita arte de pesca

Para navegar nas águas do Museu, tem sido nossa intenção, ir salvando do tenebroso esquecimento do tempo, uma embarcação tradicional lagunar, de cada vez. A última oferecida ao MMI, em 2013, pelo seu grande peso simbólico e identitário e sua elegância, foi a bateira ílhava, seguindo-se, após uma diuturnidade, a bateira labrega.


A bateira labrega no Museu
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Ílhavo, 8 de Agosto de 2018
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Fotografias de Etelvina Almeida
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Homens do Mar - Manuel de Oliveira Vidal Júnior - 48


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Cap. Manuel de Oliveira Vidal

Sempre aliei, não sei porquê, o nome do Cap. Manuel Vidal ao Maria das Flores, se bem que ele tenha comandado durante bastantes mais anos, outros navios.
Manuel de Oliveira Vidal Júnior, filho de Manuel de Oliveira Vidal e de Rosa Chuva Deus de Oliveira, nasceu em Ílhavo, a 19 de Novembro de 1921, um de cinco irmãos. Oriundo de família humilde e de parcos recursos viu-se obrigado a frequentar o seminário, com 10 anos, onde não quis continuar tendo saído, passados dois. Empregado de seguida, numa mercearia de Lisboa, era uma espécie de «paquete» que fazia recados e entregava mercadoria na casa dos fregueses. Aí ganhava alojamento, alimentação e «uns dinheiritos», de que entregava a maior parte à Mãe, que vivia com muitas dificuldades. Via comercial, cumpriu os estudos com facilidade, cavalgando alguns anos, sempre em regime de trabalho e estudo, aceitando que pessoa da sua intimidade lhe tivesse pago o curso da Escola Náutica. Mais tarde, já com possibilidades, e num acto solidário, lembrando-se das dificuldades por que passara, fez o mesmo a outros ílhavos necessitados.
Do casamento em 1947 com Maria Vitória Namorado Ferreira, nasceram o Vítor Manuel e a Maria Vitória Namorado de Oliveira Vidal.  Foi com a Torinha que conversei sobre o Pai, pelo qual mostrou grande apreço e admiração, quer afectiva, quer profissionalmente. Além de ter subido na vida, a pulso, por mérito próprio e muito trabalho, dedicou a sua vida ao mar, nunca perdeu nenhum homem nem «sujou» a cédula de ninguém – orgulhava-se a Vitória, ao rememorar a vida do Pai. Iria ver que elementos teria guardado dele e, encontrar-nos-íamos, um dia próximo, na Costa Nova, para mos ceder. E assim foi.
Manuel Vidal era portador da cédula marítima nº 24377, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 22 de Janeiro de 1944.
Começando na pesca do bacalhau, em plena 2ª Grande Guerra e estando ainda muito presente na memória dos  ílhavos, a perda do Maria da Glória e do Delães, em 1942, ainda apanhou duas campanhas de viagens «em comboios», ao ter embarcado, como piloto, pela primeira vez, no lugre Neptuno II, na campanha de 1944, do comando de Mário Paulo do Bem.
O já referido Neptuno 2º, lugre-patacho de madeira, construído em Vila do Conde, em 1873, reconstruído em 1926, por Manuel Maria Bolais Mónica, e armado em lugre, fez a última campanha ao serviço da Parceria Geral de Pescarias, no ano de 1938.
Quando foi comprado pela Empresa de Pesca de Portugal, Lda., de Ílhavo, da gerência de Francisco Abreu, para a campanha de 1939, passou a chamar-se Neptuno Segundo.
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Lugre-motor Neptuno Segundo. Foto Sindicato

Em 26 de Novembro de 1944, foi abaixo o lugre-motor  Maria Frederico.
Sempre que falo de bota-abaixo, recordo o ar festivo que a Gafanha respirava – gente empoleirada por todos os cantos e recantos, filarmónicas em toque brilhante, o estralejar de foguetes ribombantes, navios embandeirados em arco prontos a receber um novo colega, pequenas embarcações pela ria, na esteira do recém-chegado navio, prontas a recolher o madeirame sobrado – uma tensão, uma ansiedade, um nervosismo, que, normalmente, acabavam em grande regozijo, manifestado pelo calor de muito sentidas palmas.
O dueto da oficialidade, nas campanhas de 1945 e 46, manteve-se:  piloto/imediato, Manuel Vidal, sob o comando de Mário Paulo do Bem.
Entre campanhas, mais para superar as dificuldades de início de carreira, fez curtas viagens de comércio, em 1945 e 1946, no navio São Ruy, como 2º piloto, e noutro, como imediato, imperceptível o nome, na Cédula de Inscrição Marítima.
Mas, na safra seguinte, a de 1947, Manuel Vidal ascendeu ao lugar de capitão do Maria Frederico, cargo que exerceu, até 1952 (6 viagens), até ao seu tragicamente belo naufrágio. Ritmo de viagem e de pesca sempre intenso, mas nada de relevante a apontar – a rotina sofrida e perigosa de que já temos, assiduamente, falado e ouvido falar.
Foi seu piloto o «arrojado» Artur Oliveira da Velha, nas campanhas de 1947, 48 e 49 e João Juff Tavares Ramos, entre 1950 e 52.
  
A bordo do Maria Frederico
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O Maria Frederico, lugre-motor de madeira, foi construído a pedido de Francisco António Abreu, gerente da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., por António Pereira da Silva, na Gafanha da Nazaré. Tal empresa tinha instalações de secagem na Malhada – a conhecida seca do Abreu –, mais tarde pertença da P. Tavares Mascarenhas, vendida a Pascoal & Filhos, SA, em Maio de 2004.
O lugre Maria Frederico teve uma curta existência, pois, em 12 de Julho de 1952 naufragou, por incêndio, no Virgin Rocks, tendo sido abandonado e salva toda a tripulação. Pelo menos, o capitão foi trazido para Portugal pelo arrastão Pádua, do capitão João Cristiano.
Mais do que mil palavras, vale esta imagem.
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Arrepiante incêndio no Maria Frederico
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Entre comandos, o «nosso capitão» fez a viagem de 1953, de imediato, no Senhora do Mar, navio-motor, de aço, construído para Mariano & Silva, Lda., nos estaleiros da CUF, em Lisboa, tendo sido capitão, João José da Silva Costa, da Figueira da Foz.
E chegou o ano do Maria das Flores. Perdoem-me os familiares, mas não sei se me interessou mais a biografia marítima do capitão se o historial do navio. Claro, durante cinco anos, completaram-se. O Maria das Flores, lugre de madeira de três mastros, meio atamancado, imagine-se, foi construído para João Carlos Tavares, residente em Estarreja, no Bico da Murtosa, por José Maria Lopes de Almeida, de Pardilhó, em 1946. Mas, já fez essa viagem como propriedade da Empresa Comercial & Industrial de Pesca «Pescal».
Foi uma odisseia tal bota-abaixo e, com material inédito cedido pelo Comandante António Bento, dediquei-lhe três posts no meu blogue Marintimidades – O desencalhe do Maria das Flores.
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Foto aérea da construção, cedida por P.H.C.
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Segundo notícias do jornal da época, O Ilhavense, no dia 18 de Fevereiro de 1946, pelas 16 horas, num estaleiro do Bico da Murtosa, ter-se-á consumado o bota-abaixo do lugre com motor, construído em madeira, armado de três mastros, Maria das Flores.
Mas, cortado o cabo da bimbarra, o navio, porém, não deslizou imediatamente, procedendo-se então aos trabalhos próprios de emergência, até que 45 minutos depois, o Maria das Flores deslizou na carreira para ir encalhar no lodo da ria. Não deixou de se festejar. Mas depois de uma verdadeira saga, cheia de contratempos, a reboque do Vouga, só chegou à Gafanha da Nazaré no dia 3 de Maio, tendo-se feito a amarração, frente à Delegação da CRCB.
A 5 de Maio, depois da desmontagem e arrumação de todo o material, ficou o navio liberto, para poder seguir viagem para Lisboa, em conformidade com as exigências legais recomendadas pelas autoridades marítimas. Que tal?
Mas, foi apenas na safra de 1954, substituindo o também conterrâneo capitão Manuel Pereira Teles, que o Capitão Vidal tomou posse do comando do dito Maria das Flores. Não terá sido um ramo de espinhos? Até não.
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Maria das Flores, em 1955, na Groenlândia
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A bordo do Maria das Flores
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Foi o Maria das Flores um dos primeiros navios, que, na safra de 1956, tendo naufragado em Agosto, o lugre-motor Novos Mares, por explosão a bordo, motivada por um curto-circuito, ouviu a explosão. Por solidariedade dos homens do mar, em situação de perigo, foi o navio do Cap. Vidal  que recolheu 32 tripulantes, bem como o  Labrador, que albergou os restantes.
Foi sempre seu imediato Fernando Luís Magalhães do Amaral, de Lisboa.
Mas o Maria das Flores também não teve um longo percurso, tendo naufragado em Setembro de 1958, ano marcado por muitas tormentas e uma boa meia dúzia de naufrágios.
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Em entrevista, a bordo…
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Em entrevista proferida ao Jornal do Pescador, de Novembro de 1958, pp. 35 a 38, o Capitão Manuel Vidal, à chegada do arrastão Álvaro Martins Homem, que trouxe os náufragos do navio em causa, mostrava-se agastado e abatido pela perda do seu navio, tendo declarado que este ano de 1958 fora de excepcional mau tempo. Cinco ciclones abalaram a segurança dos navios portugueses e alguns, como o Maria das Flores, abriram água e afundaram-se, outros tiveram de arribar várias vezes, pois, além dos ciclones, os mares do Norte foram sacudidos por violentos temporais. Perderam, por esse motivo, muitos dias de pesca, de que resultou terem deixado de pescar uma quantidade preciosa de quintais de bacalhau. O Maria das Flores, que tinha a bordo, mais de 7.000 quintais, durante o mês de Julho, só pôde pescar onze dias, em Agosto, apenas nove e três dias, em Setembro. O navio andou três dias consecutivos em risco de se afundar, entrando a água abundantemente nos porões, sem que as bombas a conseguissem esgotar, por mais decididos que fossem os tripulantes e, por maiores que fossem os seus esforços. Estiveram três dias e três noites sem saberem o que era um minuto de descanso, não tendo conseguido salvar o navio, que se afundou ao cabo de mil tormentos. Nesse ano, tiveram idêntico destino, o Cruz de Malta, o Labrador, o Milena, o  Ana Maria e o Santa Isabel.
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Em 1959, «o nosso capitão» passou a comandar o navio-motor, de ferro, Senhora da Boa Viagem, construído em 1956, para a Atlântica – Companhia Portuguesa de Pesca, de Lisboa, nos Estaleiros de Viana dos Castelo. Fora «o seu navio», entre 1959 e 1975, durante dezassete anos.
Segundo diploma que me foi dado observar, o Cap. Vidal foi homenageado pela Mútua dos Navios Bacalhoeiros, ao prestar assistência ao navio Rio Antuã, comandado por Francisco Teles Paião, em Abril de 1967 – numa situação de dificuldade, em mares gélidos – uma entrada de água inexplicável, à popa, junto do leme, que a bomba não esgotava.
Como outros capitães de Ílhavo, que já me passaram pela pena, foi agraciado, em 1969, com a medalha naval Vasco da Gama, pelos serviços relevantes prestados, na marinha mercante.
Após a campanha de 70, o Senhora da Boa Viagem foi transformado para o sistema de redes de emalhar com lanchas, em cuja mudança, o capitão tivera um papel fundamental.
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Lancha, junto ao navio
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Em descarga de peixe, da lancha
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Sendo pessoa que procurou ter uma intervenção cívica, foi sócio do Sindicato Nacional dos Capitães, Oficiais Náuticos e Comissários da Marinha Mercante, tendo tido um papel fundamental na fundação do Sindicato dos Oficiais em Ílhavo, no edifício do Illiabum Clube, 2º andar, à Rua Arcebispo Pereira Bilhano, em 1951, a que se manteve sempre ligado.
A família passou a viver em Campo de Ourique, a partir de 1954, tendo mudado para Nova Oeiras em 1962, tendo-se aposentado o Cap. Vidal em 1975. Em 1979, regressaram a Ílhavo, donde nunca se haviam desligado, em especial por laços familiares.
Fumador inveterado, na vida de mar, nunca conseguiu deixar tal vício, que lhe passou a atacar fortemente os pulmões.
Depois de uma cirurgia pulmonar em 1988 e de um novo internamento em Coimbra, veio transferido para o Hospital de Ílhavo na véspera da sua morte, depois de ter manifestado vontade de vir morrer à sua terra. E assim nos «deixou» no dia 1 de Dezembro desse mesmo ano, com 67 anos.
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Fotografias cedidas pela família e por outras fontes
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Ílhavo, 26 de Junho de 2018
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Ana Maria Lopes
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