quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Homens do Mar - Francisco Correia Marques - 29

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Capitão Francisco Correia Marques

Francisco Correia Marques nasceu em Ílhavo a 14 de Dezembro de 1930, sendo um dos filhos de uma prole de oito irmãos, dos quais três rapazes, todos oficiais da Marinha Mercante, embora, um deles, por doença, nunca tivesse chegado a experimentar o mar. Quer do lado de sua Mãe, Nazaré Correia, como do lado de seu Pai, António Marques, existia uma vasta tradição familiar de actividades ligadas ao mar.
Depois de completar o curso complementar dos liceus, em Aveiro, foi para Lisboa para frequentar o curso de pilotagem na Escola Náutica, que terminou em 1949. Era portador da cédula marítima nº 115236, passada na Capitania do Porto de Lisboa em 8 de Agosto de 1949.
Com estes antecedentes familiares, só o mar o podia esperar……….
Do casamento com Maria dos Prazeres Valente Labrincha (a Zerinhas), nasceram dois rapazes, o António Augusto e o Francisco e a Maria do Rosário. O Francisco tirou o curso de oficial da Marinha Mercante, chegando a andar embarcado com o Pai.
Francisco Marques iniciou a pesca ao bacalhau, nas campanhas de 1949 (uma viagem) e de 1950 (duas viagens),  como piloto do arrastão São Gonçalinho, sob o comando de seu tio, Francisco dos Santos Calão. Era imediato José de Oliveira Rocha. Os oficiais mantiveram-se nas duas campanhas. O São Gonçalinho, mandado construir igualmente pela EPA, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, fez a sua primeira viagem em 1948.
Nas safras de 1951, 52 e 53, passou para a pesca à linha, a sua grande paixão, como imediato do lugre-motor, de madeira, Adélia Maria, sob o comando de seu sogro, Augusto dos Santos Labrincha Laruncho. O lugre, da praça de Aveiro, foi mandado construir para o armador José Maria Vilarinho, em 1948.
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O lugre Adélia Maria, entre botes, em mar chão…
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Na campanha de 1954 assumiu o comando desse lugre, onde se manteve sete anos, até 1960. Entre os diversos imediatos que levou, durante as safras de 1956, 57e 58, conta-se o ílhavo António José Pereira Teles.
A bordo do lugre Adélia Maria, anos 50…

Francisco Marques, nas safras de 1961 e 62, transferiu-se para capitão do navio-motor, em aço, Capitão José Vilarinho, construído para José Maria Vilarinho, nos Estaleiros Navais do Mondego, Figueira da Foz, em 1954.
Interrompeu a sua actividade, para voltar, de Novembro de 1962 a Fevereiro de 1963, à Escola Náutica, para fazer o curso complementar de pilotagem.
O navio-motor Capitão José Vilarinho

Na campanha de 1963, embarcou de imediato no São Ruy, navio-motor em aço, da Empresa de Pesca de Viana, sob o comando do conterrâneo  Joaquim Fernandes Agualuza. No ano seguinte, 1964, assumiu o cargo de capitão.
Chegou a hora de mudar de vida e de terra e, de casa às costas, o Cap. Chico, de 1964 a 1972 e de 1974 a 1975, suspendeu a sua vida no mar e trabalhou na Parceria Geral de Pescarias, na Azinheira (Barreiro), como «capitão de terra».
Em 1973, voltou aos mares da Terra Nova e Groenlândia. Foi desafiado a exercer o cargo de capitão no Creoula, a última viagem do velho lugre-motor. O Francisco tinha saudades do mar, em todas as suas vivências, desde o mar de senhoras ao de vagas alterosas, desde os gelos perigosos e brumas imprevistas e cerradas às calmarias azulinas, reflexo de céus esplendorosos..… O «nosso capitão» era daqueles a quem o mar fazia falta, como suporte vital, além da família, que sempre levava bem juntinho ao coração.
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Pescador entre pilhas de botes, no Creoula, em 1973

Com as mudanças inevitáveis dos processos de pesca, em 1976, depositou o saco no convés do navio, para, desta vez, comandar o Neptuno, navio-motor, em aço, no qual faria a sua última viagem, em 1986. O Neptuno, tendo sido construído para a Parceria Geral de Pescarias, nos Estaleiros de São Jacinto, em 1958, foi transformado em navio de redes de emalhar com lanchas, em 1971.
Ao leme, no navio-motor Neptuno. 1978
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Em final de rota, nos anos 80 e no começo da década de 90 orientou cursos de formação em empresas de pesca e no Sindicato dos Pescadores de Aveiro.
Tendo acabado a sua carreira profissional, voltou à terra natal. Conhecedora do seu saber, disponibilidade, parentesco e vizinhança, propus-lhe ser o supervisor técnico de um documentário À Glória desta Faina, a apresentar no auditório do Museu, em Novembro de 1989. Casas cheias…Daí a uma colaboração importante, sistemática e valiosa com o Museu Marítimo e Regional de Ílhavo, iniciada em 1992, foi um passo. Vivemos um tempo de satisfação, de paixão, cumplicidade e entusiasmo.
De 1994 a 1999, na Associação dos Amigos do Museu, foi seu vice-presidente.
Desafiados pela editora Quetzal, assumimos a co-autoria, do livro Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, publicado em 1996. E com que entusiasmo e enlevo!... Premiado com o «Leme do Ano», A Faina Maior, com  o apoio da Associação dos Amigos do Museu, já teve mais duas edições (2011 e 2015).
Entre Agosto e Setembro de 1998, voluntariamente, foi Director de Treino de Mar na viagem do Creoula ao Canadá, integrada no projecto De Novo na Terra Nova. Era carinhosamente tratado pelo Avô-barbas.
Perante uma reviravolta inesperada, nos órgãos directivos do Museu, o Cap. Chico Marques, entre finais de 1999 e 2002 assumiu a direcção executiva do Museu Marítimo de Ílhavo.
Escreveu vários artigos sobre memórias da pesca do bacalhau e temas de navegação, tendo participado em diversas conferências e programas de televisão.
Nesta última fase, vivia intensamente o mar, em terra...
Por tudo quanto foi recordado, foi-lhe atribuída, e bem, a medalha do Concelho, em ouro, em 16 de Abril de 2001.
Já bastante debilitado, proferiu a sua última palestra, em 18 de Março de 2006, da qual o Museu Marítimo de Ílhavo publicou a brochura  Navegação dos Bacalhoeiros nos Mares da Terra Nova.
Tendo lutado contra uma doença, qual Poseidon contra mar encrespado, sairia, para nosso lamento, vencido. E assim nos deixou a 2 de Novembro de 2006,  há cerca de  dez anos, perante a dor e a saudade de todos os familiares, amigos e dos que, de perto, conviveram com ele. Prolongou a sua vida de mar em terra, nesta terra que foi, sobretudo, de gente do Mar
Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família
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Ílhavo, 6 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 29 de janeiro de 2017

Não nevou em Ílhavo. Só há trinta anos...

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Fez este Janeiro precisamente trinta anos que nevou em Ílhavo.
O tema não é bem o habitual no Marintimidades, mas anda lá por perto. Prometeram, prometeram, prometeram muito frio mas, neve, nada… Bem tive a máquina de atalaia…
Há quem nunca tenha visto o mar e fique horas a olhá-lo, pela primeira vez, na ânsia de transpor o horizonte. Nós, que temos a benesse de usufruirmos das dádivas do litoral, pelo contrário, não podemos apreciar, com frequência, o espectáculo da neve a cair e a matizar de branco montes, vales, bosques, animais, praças e pessoas.
Às vezes, parece que tenho uma atracção por datas e  sem grande esforço, recordo factos com facilidade, não me deixando o meu arquivo fotográfico, normalmente,   ficar mal. Procurei e, rapidamente, encontrei as imagens catalogadas de Neve em Ílhavo – 14.1.1987 – os tais 30 anos.
Pretendo fazer com que os ílhavos recordem este dia, pois não podemos ficar indiferentes ao temporal, frio e neve, que têm assolado, sobretudo, a Europa.
Apesar do frio e chuva que temos suportado, não deixemos de abençoar o cantinho da Europa, à beira-mar plantado, em que vivemos… Vamos lá ver o que meteorologia nos augura...
Como há 30 anos, a minha agilidade para trepar aos telhados, em busca de imagens diferentes, era mais que outra, consegui alguns «clichés» de Ílhavo, menos vulgares. Agora, tenho de usar os mesmos, para quem não viu, e, sobretudo, porque não nevou em Ílhavo. Ei-los:
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Telhados da Rua Ferreira Gordo

Telhados ao longo da Rua João de Deus

As torres da nossa Igreja, à sua altura…

Leves flocos salpicam a Praça da República
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Imagens – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 29 de Janeiro de 2017
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Ana Maria Lopes
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domingo, 22 de janeiro de 2017

Homens do Mar - João dos Santos Labrincha - 28


 

Foi dos capitães com tem tive mais contacto. É fácil de perceber – embarcou durante 15 anos seguidos, em navios de Testa & Cunhas. É evidente que isso representou um factor de aproximação. E a própria vizinhança, ali perto, na Rua de Camões., nº 94.
O Sr. Capitão João dos Santos Labrincha, de alcunha Laruncho (1901-1980), nasceu em Ílhavo em 8 de Agosto de 1901. Filho de Manuel dos Santos Labrincha, e de Rita Correia, teve, do casamento com a Senhora D. Clotilde Silveira, duas filhas – a Rita e a Benedita com quem fui contactar e pedir fotos do Pai, a bordo, no caso de existirem.
Possuía a cédula marítima 12026 passada pela capitania do porto de Aveiro, em 14 de Março de 1914.
Pressuponho que tenha embarcado sem que haja dados par o certificar, mas a partir do momento em que há registos fiáveis, teve um currículo muito certinho, sobretudo entre a Empresa de Pesca de Aveiro e Testa & Cunhas, Lda., com duas curtas excepções.
Nas campanhas de 1928, 29 e 30, foi piloto do lugre Maria da Glória, da Empresa União de Aveiro, Lda., comandado pelo Capitão António Marques (28) e pelo Capitão Francisco dos Santos Calão (29 e 30) - lugre Maria da Glória que veio a ficar  tristemente conhecido pelo fatídico bombardeamento que sofreu em 1942, com consequências desastrosas para Ílhavo.
Nas safras de 1931 e 32 ocupou o cargo de piloto no lugre Santa Joana da EPA, sob o comando Capitão João Ventura da Cruz. O ano de 1931 fora o famoso ano da viragem, o ano heróico da primeira pesca na Groenlândia, que abriu novas portas para a pesca do bacalhau, que era assolada por uma crise profunda.
De 1933 a 35 passou a capitão, com o piloto Manuel Ferreira da Silva, da Gafanha da Nazaré (33), no San Jacinto. O lugre com motor San Jancinto, de madeira, ex-Encarnação, foi construído em 1919, em Pardilhó, por Joaquim Dias Ministro. Adquirido pela Empresa de Pesca de Aveiro para a campanha de 1933, o San Jacinto, na campanha de 1936, passou para a Empresa de Pesca de São Jacinto, Lda.

O lugre San Jancinto, da EPA, até 1936

E o Cap. João Laruncho, como era mais conhecido, continuou na EPA, mas desta vez a comandar o lugre Santa Mafalda, durante 11 anos, de 1936 a 46 – um dos quatro Santas que demandaram a Groenlândia em 1931. Tão heróico foi o feito que não é demais repeti-lo ou lembrá-lo!!!!!
Foram seus pilotos, os ílhavos, João Pereira Gateira (36 e de 38 a 41), José Simões Ré (37), João Nunes de Oliveira, de alcunha Sousa (42, 43 e 44) e José Simões Amaro, de alcunha o Forneiro (45 e 46).
E, porquê? Lá saberão os interessados, à época, mudou-se de armas e bagagens para Testa & Cunhas, Lda., até ao fim da sua carreira profissional.
Começou por comandar nas campanhas de 1946, 47 e 48, o lugre Novos Mares, aquele bonito lugre de quatro mastros, que estreara o meu avô, na viagem de 1938. Foram seus pilotos, os ilhavenses José Simões Amaro (47) e António Cachim, em 48.

O lugre Novos Mares, a secar pano, em frente à seca
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Durante seis campanhas, de 1950 a 55, comandou o navio-motor Inácio Cunha, construído por Manuel Maria Bolais Mónica, em 1945, na Gafanha da Nazaré, dentro do plano de renovação de navios.

Em dia de bota-abaixo, o Mestre Mónica, em discurso exacerbado, junto da madrinha, Senhora D. Adília Cunha. 1945

Na primeira viagem que fizera o nosso capitão, em 1950, naufragara, com o leme partido pelo violento temporal o navio-motor Cova de Iria. Os náufragos foram salvos e trazidos para Leixões pelo navio Inácio Cunha. Aí o vemos a entrar, apinhado de gente.
O Inácio Cunha, na entrada, em Leixões. 1950

Durante estes anos, foram seus imediatos João Nunes de Oliveira, de alcunha Codim (1950 a 54) e Armando Pereira Ramalheira, em 1955. Seus pilotos foram Juvenal Carlos Filipe Fernandes, da Gafanha da Nazaré (50 e 51), Augusto Manuel Valente Labrincha (52 e 53) e Calisto Casqueira Ribau, da Gafanha da Nazaré (54 e 55).

No espardeque do Inácio Cunha, o capitão saúda, à entrada

Durante a cerimónia Bênção de 1953, o Capitão João Laruncho foi condecorado pelo Presidente da República General Craveiro Lopes, entre outros capitães ilhavenses.
Enquanto miúda, tenho a latente lembrança de que ele me trazia daqueles afamados e grandes fashion stores canadianos algumas lembranças – lâmpadas de Natal, multicolores, de água efervescente, que faziam os meus encantos, todos os Natais, uma gabardina muito chique, de cor bordeaux, debruada a quadriculado condizente; mais moçoila, já apreciava umas maquillages levezinhas, uns cremes e uns blushs, que ainda não havia por cá.
E com o vai e volta dos bancos da Terra Nova e Groenlândia, chegara o ano de 1956 e, com ele, um dia ímpar, para mim. A 10 de Março, pelas 15 horas, num dos dias mais felizes da minha adolescência, em cerimónia pomposa, na Gafanha da Nazaré, amadrinhara o navio-motor São Jorge, que Testa & Cunhas encomendara nos estaleiros do Mestre Manuel Maria Bolais Mónica, que o Capitão João Laruncho iria estrear no seu comando. O imediato fora Armando Pereira Ramalheira, em 56 e 57, e piloto, João Sílvio Serrano Matias, em 56.

O navio-motor São Jorge, embandeirado em arco, em dia de bota-abaixo
Pelo meu afilhado São Jorge, se manteve o Capitão João dos Santos Labrincha, até 1961, inclusive, não tendo voltado a ter mais imediatos de Ílhavo.

Na porta de visita à chaminé, EB, do São Jorge 

Dando por encerrada a sua vida de mar, aposentou-se com sessenta anos.
Viveu ainda alguns, bem merecidos, por Ílhavo, na companhia da família e nos habituais encontros de colegas, junto à farmácia, no jardim da vila, ao domingo, no Café Central e na barbearia do Sr. Leopoldo, onde se discutiam acaloradamente todas as campanhas do bacalhau.
Era assim a vida, naquele tempo… para quem esteve ou estava ligado ao mar.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 27 de Novembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 15 de janeiro de 2017

AMI enriquece espólio pictórico do MMI

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Ontem numa frígida noite de 14 de Janeiro, em que o Museu Marítimo de Ílhavo anunciou o programa de eventos comemorativos do seu octogésimo aniversário (com o seu ponto alto a 8 de Agosto), a Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo (AMI) teve o prazer de enriquecer a colecção de pintura, que, desde há três anos, se exibe em sala apropriada para o efeito, – o melhor dos nossos maiores e não só…. temas marítimos ou lagunares, dentro de determinadas correntes que se consideram essenciais na colecção.
Este ano, nos seus 80 anos, o que lhe teríamos reservado? Um achado…uma pérola… que vinha enriquecer o espólio museal.
Aqui atrasado, foi a leilão no Palácio do Correio Velho, uma aguarela intitulada Marinha, de pequena dimensão, 12,5 cm. x 25,5 cm, assinada por T. Mello, não datada. O preço não era assim muito ousado, até porque o suporte apresentava leves sinais de pigmentação, fáceis de atenuar, por restaurador perito.
Marinha de T. Mello

Marinha pode designar muita coisa, mas, neste caso representava duas bateiras ílhavas, na praia, muito provavelmente, em Cascais, com alguns pescadores ílhavos. Depois de observar o quadro, on-line, o entusiasmo apoderou-se de mim. Parece que tinham sido feitas de encomenda. As «nossas tão faladas ílhavas», de uma beleza, elegância e cromatismo extraordinários. Que belíssimo bocado de papel aguarelado documental!....
Depois de umas peripécias leiloeiras, a aguarela era pertença do MMI, pelas «mãos» da AMI.
Ao vê-la ao vivo, os olhos caíram-me nela e dela não se queriam distanciar. Todo o conjunto – aguarela, passepartout e moldura eram trespassadas por uma patine encantadora, que o tempo confere aos documentos.
T. Mello (Thomaz de Mello) foi um autor luso-brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1906 e falecido em Lisboa, em 1990.Viveu quase toda a vida entre Cascais e Sintra, tendo-se dedicado a vários meios gráficos, desde a pintura ao desenho, passando pela BD, caricatura e tapeçaria, estudados pelo crítico de arte José Augusto França. Pertenceu à segunda geração de pintores modernistas.
Ílhavo, 15 de Janeiro de 2017
Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Homens do Mar - António dos Santos - 27




Capitão António dos Santos
À procura de impossíveis, lá vou pedindo, telefonando, escrevendo, indo a casas onde nunca tinha entrado e conversando com pessoas com quem nunca tinha conversado. E assim fui falar, depois de já anunciada, com o Sr. Capitão António Tomé Santos. De uma cajadada matava dois coelhos, perdoe-se-me a expressão coloquial, pois ele, simpaticamente, me recebeu e me cedeu alguns dados, dele e, sobretudo, neste caso, do Pai.
Homens arrojados, valentes, corajosos, estes! Verdadeiros heróis!!! Não é que nunca me tinha apercebido que o Sr. Capitão António dos Santos tinha naufragado três vezes, duas delas, seguidas – no Normandie (1941), no Maria da Glória (1942) e no Leopoldina (1947)? Demais para um homem só!... Veleiros algo anacrónicos, de madeira, já antigos, envelhecidos, conduziam a situações destas.
Tive acesso a uma entrevista que o Capitão tinha dado ao jornal Comércio do Porto, a 7 de Novembro de 1934. Já vai distante, mas António dos Santos, à data, já contava uma boa dezena de viagens. Li-a com interesse, achei-a curiosa, enaltecedora dos seus homens, sobretudo, dos de Ílhavo, enternecedora e, espantosamente bem-humorada.
(…) No cais de Massarelos, tendo estado à descarga, o Santa Regina, comandado pelo capitão António dos Santos, oficial sabedor, enérgico, decidido, arcaboiço de lutador dos mares, homem experimentado nas lides da pesca do bacalhau, é na amurada de bombordo do seu navio, que o capitão Santos descreve, com a maior simplicidade, em conversa, a sua viagem deste ano à pesca do fiel amigo (…).
– Têm horas certas de trabalho, os homens?
– Têm, mas, quando é preciso aproveitar a maré, aproveita-se. É para benefício de todos…
– E demais, como é sempre dia… na Gronelândia (…).
Uma faina de mil diabos, esta vida! Ninguém imagina os trabalhos que a gente passa, quando comem, regaladamente, uma posta de bacalhau assado ou um prato de bacalhau à Gomes de Sá…
– As montanhas de gelo são lá frequentes, capitão?
– São, sim, senhor. Os icebergues, frequentes e perigosos (…). Vê acolá aquela racha? – e aponta uma enorme fenda aberta no cobre do casco. Aquilo foi, só, de roçar por um campo de gelo. Uma manobra demorada demais para o evitar.
– E como procurar evitar esse perigo?
– É conforme. Em último recurso, entregamo-nos à Providência – concluiu o capitão – que desta vez, como de tantas outras, foi a nossa boa protectora
– É certo os esquimós visitarem os vossos navios?
– Eu não os vi, pois pesquei a 64 graus. Mas, aos que fundeiam mais para o Norte, a 68 graus, têm aparecido, a trocar peles de animais por aguardente. O meu colega do Viajante 2º, que pescou pelas alturas da ilha de Disko, teve este ano, a bordo, a visita de seis mulheres esquimós.
E, num olhar malicioso, num desabafo de inveja, o capitão rematou:
– Que rico dia de pesca! Uma marésada assim, não a apanha cá o velho…
– É toda de Ílhavo, a tripulação do Santa Regina?
– Não. Trago também homens da Figueira, da Afurada e da Póvoa…
Verdadeiros heróis! – exclamou, entusiasmado e orgulhoso, o capitão. E, depois com desalento, concluiu:
– Heroísmo ainda tão desconhecido e mal avaliado, quando o Mar lhes não abre a sepultura, espera-os uma velhice cheia de necessidades e misérias…
– E nos dias bonançosos e noites serenas, que fazem os seus marinheiros?
O capitão não responde. Fica pensativo, olhos fitos para além da barra. Mas, compreendendo-lhe o seu pensar, ouvimo-lo dizer:
– Nas noites luarentas almas resignadas dedilham a guitarra, a recordar a sua terrinha tão longe adormecida, tantas milhas distante dos seus olhos saudosos… Nas horas vagas de brisa fagueira, ou calmaria podre, dão largas ao seu instinto artístico. E à revessa do castelo da proa, pegam num madeiro, num canivete, modelam um casco, aparelham-no num requinte de gosto e apuro, sem a mínima falta dum pormenor e das suas mãos, cortadas da linha da zagaia, gretadas da salga e dos ventos glaciais, saem essas embarcações miniaturas, verdadeiras maravilhas de arte, que são o pasmo e encanto de quem visita a sala marítima do Museu de Ílhavo.
Estava terminada a visita. Que os trabalhos da descarga exigiam a presença do capitão. E, já na prancha do cais ainda lhe ouvimos dizer, com aquela franqueza rude, característica da gente do mar:
– Apareça mais vezes. Os amigos são sempre bem-vindos.
Um pouco longa para intróito, mas, mesmo assim, foi decepada, quando achado conveniente.
O Sr. Capitão António dos Santos nasceu em Ílhavo em 6 de Janeiro de 1897. Filho de Tomé dos Santos e de Josefa da Silva, casou com a Senhora D. Ermínia Rocha, de quem teve os filhos – Maria Emília Rocha Santos e António Tomé Rocha Santos.
Possuía a cédula marítima 8399 passada pela Capitania do Porto de Aveiro, sem data.
Teria ido cedo para o mar como muitos outros dos seus conterrâneos, pois esse mar, esse mar danado, corria-lhe nas veias.
Consultados os primeiros jornais, em 1928, foi piloto do lugre Vega, que era o Altair e que viria a ser o lugre Vaz, comandado pelo Capitão José Cândido Vaz.
Nas campanhas de 1929 e 30, foi capitão do lugre Ilhavense 2º.
Nos primeiros arquivos marítimos credíveis, coincidentes com os dados desta entrevista, surge o Sr. Capitão António dos Santos, no comando do lugre-escuna Santa Regina, desde 1934 a 1937, inclusive, da praça do Porto. Em 1936 e 37, foi seu piloto, o também ilhavense João Maria da Madalena. Foi o Capitão Santos que levou pela primeira vez, ao mar, o famoso Zé da Pardala, neste lugre-escuna, possivelmente na campanha de 1935. Vide Memórias (1927-1983), de José da Silva Cruz. Edição de Autor, 1986, p. 15 a 24.
 
Nas safras de 1938 a 1941, continuou capitão, mas, agora do lugre-patacho, de madeira, Normandie.
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O lugre-patacho Normandie
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Este foi o navio francês Normandie III, construído em Shelburne, Canadá, adquirido pela Empresa de Pesca de Portugal, Lda., desta vila, em hasta pública, que iniciou a sua actividade em 1935. O ano de 1941 teria sido fatídico para o navio, pois, no dia 30 de Maio, caíra sobre os bancos da Terra Nova, um forte temporal, do qual resultou ter sido varrido ao mar, de bordo do Normandie, o pescador António Francisco Coentrão de 28 anos, natural de Caxinas, Vila do Conde.
Segundo notícia de O Ilhavense de 20 de Setembro de 1941, no dia 7, naufragou, com água aberta, como já referimos, propriedade da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., de que era gerente o Sr. Francisco António de Abreu. Comandado pelo experimentado homem do mar, António dos Santos e pilotado por Manuel Machado dos Santos (Praia), estava com o carregamento completo. A tripulação foi toda salva e recolhida a bordo do lugre com motor, de madeira, Ana I que a terá trazido a Aveiro.
Foram também seus pilotos, António dos Santos Labrincha (38), Belarmino Ascenção de Oliveira (39) e José Estêvão da Maia (40).
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Não terão sido excessivas, para uma só pessoa, tantas tormentas, inimagináveis?
No ano seguinte, exactamente o de 1942, em tempos de guerra, aceitou pilotar o lugre Maria da Glória, um pouco mais recente, liderado pelo capitão Sílvio Ramalheira. O Maria da Glória, ex-Portugália, construído na Gafanha da Nazaré em 1921, tomou este nome, na campanha de 1927, então propriedade da Empresa União de Aveiro Lda.
Afundado em 5 de Junho de 1942 por um submarino alemão, em viagem para os Grandes Bancos, constituiu uma das maiores tragédias que assolaram a nossa vila maruja. Dentre os 44 tripulantes, apenas se salvaram 8, em condições sobre-humanas, em dois botes carentes de tudo. E António dos Santos foi um dos que se salvou.
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 O lugre Maria da Glória
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E agora? É caso para perguntar… A fé é que nos salva – pensa o povo e assim pensara o ex-piloto. O susto fora tão grande que, na sua aflição, António dos Santos prometera ir ao Santuário da Nossa Senhora de Fátima, todos os anos, a pé, o que vinha cumprindo desde aquele terrível acontecimento, já lá iam dez anos.
Mas não esmorecera e o apelo do mar e o sustento da família chamavam-no com fervor.
No ano seguinte, na campanha de 1943, tornara-se capitão do lugre de madeira Leopoldina, pertencente à praça da Figueira da Foz. O Leopoldina tinha sido construído em Caminha por A. D. dos Santos Borda, em 1902, e fora propriedade de Manuel Moreira Rato & Filhos, de Lisboa, e de um grupo de sócios figueirenses. Em 1906, tornou-se propriedade da Lusitânia – Companhia Portuguesa de Pesca, então formada.
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 O lugre Leopoldina
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Entre as campanhas de 1943 e 1947 (inclusive), comandara-o o Sr. Capitão António dos Santos, até lhe sentir o peso e o perigo do seu afundamento, com água aberta, no Virgin Rocks, em 1947. Em 1943, pilotara-o Bernardino José G. Barbosa e em 1944, o ilhavense Benjamim dos Santos Marcela, Pardal.
Na campanha de 1948, transferira-se para capitão do lugre com motor Trombetas, da mesma empresa armadora.
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Ainda com forças para enfrentar o mar, António dos Santos embarcou de capitão, na safra de 1949, no lugre de madeira Paços de Brandão, da praça do Porto. Construído na Terra Nova, fora reconstruído em 1923, em Vila Nova de Gaia para a firma Veloso, Pinheiro & Cª., Lda. Acabou por ter o seu fim, com água aberta, em 1951, já sob o comando de João André Alão. Pilotara-o nessa viagem, o ílhavo António Nunes Júnior, o Rão.
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 O lugre Paços de Brandão
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Mais do que com razões para sentir na pele a dureza da vida de mar, o Sr. Capitão António dos Santos, muito estimado por todos os seus colegas, depois de três anos em terra, de recobro, partiu cedo e repentinamente, com 56 anos, em 19 de Outubro de 1953, tendo estado a bandeira do Sindicato dos Oficiais, a meia-haste, durante três dias.
A biografia marítima deste nosso Homem do Mar, quase que se poderia intitular, na senda dos naufrágios… três foram eles, e dois completamente seguidos.
 
Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência do filho

Ílhavo, 20 de Novembro de 2016
 
Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Homens do Mar - Armindo Simões Ré - 26

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Capitão Armindo Simões Ré. 1950
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Sempre conheci as quatro filhas do Sr. Capitão Armindo Simões Ré, mas deram-me, por conselho, que a mais amante das memórias materiais e imateriais do Pai, seria a mais nova, a Arminda, e uma neta, a Fernanda, que reside em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, Açores.
Estabelecido o contacto telefónico, passou-me a ser mais fácil ir a Ponta Delgada (via virtual) do que, ali, à dita Avenida dos Capitães (onde sobram dois ou três), nº 83-85.
Para além disso, também percebemos, ambas, que o afecto que ela tivera por seu Avô, teria existido comigo, relativamente ao meu. Coisas da vida, no mundo dos afectos…
E tem vantagens, porque a Fernanda é de Física, trabalha no Instituto Português do Mar e da Atmosfera e pode anunciar-me as «trabuzanas», que costumam deslocar-se dos Açores para o Continente.
O Sr. Capitão Armindo Simões Ré nasceu em Ílhavo em 20 de Agosto de 1907. Filho de Alexandre Simões Ré (1880-1967), também oficial da Marinha Mercante, e de Maria Nunes Vidal, casou com a Senhora D. Arlinda da Silva Ré, de quem teve as quatro filhas – a Maria do Rosário, as gémeas Arlinda e Maria e a Arminda.
Possuía a cédula marítima 18175 passada pela capitania do porto de Aveiro, em 20 de Fevereiro de 1923. Já não teria pertencido àquela geração em que iam prematuramente para o mar, mas a filha mais velha contou-me que o pai se referia que, em tempo de crise, teria embarcado como ajudante de cozinheiro, num navio em que o Pai andava. Tudo muito vago, mas daí a justificação para ele ser uma pessoa muito hábil na cozinha.
Teria sido? Talvez… Nada de muito inédito.
Outra referência – através de correspondência que me foi facultada – apercebi-me que em 1928, andou embarcado no lugre Lídia, em serviço comercial, pertença do armador – José Joaquim Gouveia – Parceria Marítima Douro, Porto, entre 1918 e 1935.
Mais uma referência, também vaga – uma fotografia de um navio do comércio, MIRANDELLA, anotada no verso – recordação da entrada em Hamburgo, a 26 de Novembro de 1930.
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O velho lugre de madeira Argus, em 1934
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Bem, desde que tive acesso a fontes credíveis, o Sr. Armindo Ré fez as campanhas de 1933 a 38, no dito Argus velho. Este Argus, lugre de madeira, construído na Inglaterra em 1873 para a Parceria Geral de Pescarias, mais tarde, na firma Veloso, Pinheiro & Ca. Lda., da praça do Porto, passou a ser o Ana Maria. Foi o seu piloto, sob o comando de Francisco da Silva Paião (33, 34, 35 e 36) e Alexandre Simões Ré (37). Passou ao seu comando em 1938, levando como piloto, Alexandre Simões Ré. Inverteram-se os papéis.
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No velhinho lugre de madeira Argus, em 1936
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E passemos ao lugre com motor, de ferro, Creoula, de 1937, o actual NTM, que todos bem conhecemos.
Nas campanhas de 1939 e 40, sob o comando de João Pereira Ramalheira (o Vitorino), Armindo Ré foi o imediato e Alexandre Ré, o piloto.
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No Creoula, numa das viagens de 39 ou 40
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Na imagem anterior, junto à roda do leme, Sílvio Ramalheira seguido de Adolfo Paião; à esquerda, Armindo Ré.
Nas campanhas de 1941 a 43, seguiu-se o Argus, o novo/velho Argus, de ferro, construído na Holanda, em 1939, imortalizado pela obra tripla A Campanha do Argus de Alan Villiers. O trio da oficialidade manteve-se. Em equipa ganhadora não se mexe – diz-se.
Mas o lugre-patacho Gazela Primeiro meteu-se de permeio e Armindo Simões Ré tornou-se capitão deste mítico navio.
Quem não o sente? Está longe, mas foi nosso, e comandado por capitães todos ilhavenses, ílhavos de rija têmpera, que sempre sonharam com o mar longínquo.
Nas safras de 1944 a 48, inclusive, exerceu, pois, o cargo de seu capitão, com o Pai, Alexandre Simões Ré, como imediato.
O Gazela, em 1900, foi completamente reconstruído em Setúbal, no Estaleiro J. M. Mendes, passando a chamar-se Gazela Primeiro. Passou a ser o maior navio da Parceria Geral de Pescarias e, de todos os navios da empresa, o Gazela Primeiro talvez tenha sido o mais famoso.
Em 1969 imobilizou na Azinheira e em 1971 o navio foi vendido ao Philadelphia Museum e mais tarde entregue a um grupo de amigos, que o vão preservando em perfeitas condições de navegabilidade.
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O lugre-patacho Gazela Primeiro
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Estamos perante um caso de fidelidade a uma empresa, até à data (quase de filho e Pai), quando, provavelmente, perante um convite da empresa Brites, Vaz & Irmãos, Lda., da praça de Aveiro, o nosso capitão foi buscar o navio-motor, de ferro, Vaz, à Holanda, onde fora construído, para o começar a comandar na campanha de 1949. E por quantos anos? 1950, 51 …etc., o que, inicialmente pensara, dezasseis campanhas, com mais cinco, noutra ficha biográfica, durante 21 anos. Até 1969. Uma vida de apego e sempre de sobressalto, já que sobre as salsas ondas, de quando em vez, alterosas.
Segundo informação do Jornal de Pescador, de Abril, p. 49 e Maio, p. 9, de 1949, tivemos conhecimento que o Vaz entrara no Tejo, a 19 de Março, onde estivera, embandeirado em arco, pronto para receber individualidades e outras visitas. O Sr. Capitão Armindo Ré, então com 41 anos, um dos mais hábeis e conhecedores capitães da Marinha Mercante nacional, interpelado pela imprensa citada, mostrava-se encantado com o navio, pela modernidade, conforto, velocidade, capacidade e equipamentos. Foi o seu navio. De imediato, nos anos de 1949, 50 e 51, foi Alexandre Simões Ré, que terá terminado, e não era sem tempo, a sua carreira de mar.
Nas restantes viagens, os imediatos ou pilotos, normalmente, não foram de Ílhavo.
O Sr. Capitão Armindo, tendo tido, a bordo, uma infecção no polegar da mão esquerda, originando um panarício, ia-o escaldando em água fervente, até que um dia, a sangue-frio, como a infecção cavalgasse, ele próprio cortou a falangeta do dedo para evitar o pior. Ao chegar ao Gil Eannes, para um tratamento mais cuidado, informaram-no que, se assim não tivesse agido, teria estado sujeito a ter de lhe ser cortada a mão. Meu Deus, até arrepia a coragem e a ousadia com que assim agiu!...
Igualmente através do Jornal de Pescador, de Agosto de 1970, p.9, confirmámos a existência de uma condecoração, que tivemos o prazer de observar.
No Dia da Marinha, a 8 de Julho de 1970, na presença do Almirante Tenreiro, o Ministro da Marinha, Almirante Pereira Crespo, condecorou os capitães-pescadores Armindo Simões Ré, Manuel Machado dos Santos e José de Oliveira Rocha, todos de Ílhavo, com a medalha Vasco da Gama, de criação recente, galardão exclusivamente do mar e cuja atribuição se ligava a feitos ou serviços praticados.
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O navio-motor, de ferro, Vaz
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Foi no Vaz que levara a bordo da Gafanha para Lisboa, a sua esposa e a filhota Arminda e, mais tarde, a neta adorada, Fernanda. Em ambas, permanecem recordações inesquecíveis, que vim avivar com estes Homens do Mar – rememoram a novidade da viagem marítima, o gosto pela convivência a bordo com a tripulação, os seus albaióis (hoje, jardineiras), que as fazia parecer uns pequenos marinheiros a bordo, o conforto do salão de oficiais com as suas caminhas improvisadas com cadeiras e cobertores, o cheiro do pequeno-almoço, servido por moço de casaco branco…
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O Vaz, Cap. Armindo Ré e a neta Fernanda. 1964
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A neta Fernanda reviveu ainda a situação do quarto do avô-pai – assim o tratava –. Recordou três enormes gavetões encimados por uma cama (o seu camarote), seguido da casa de banho e do gabinete médico; sempre em frente e do mesmo lado, a escada para a ponte (algures por ali estavam pendurados uns binóculos e um chapéu de farda).
Recordou ainda que, ao fundo do camarote e a meia parede havia um armário e, à direita e em frente à mesa de refeições, estava uma maravilhosa secretária repleta de objectos interessantes – réguas e esquadros, canetas e lápis, tabelas com números, livros de registo, etc…, com um grande candeeiro e uma cadeira. Lembra-se de ter ficado lá a escrever, a desenhar e a coscuvilhar (aliás, não se recorda que alguma vez o avô a tivesse avisado ou impedido de ver ou mexer nas suas coisas) … Nesse aspecto, teria sido mais como um irmão ou amigo com quem a confiança era máxima.
Gostava muito de ouvir o meu avô-pai – relembra a Fernanda – a explicar coisas do navio, da pesca, do tempo… ele gostava de ensinar e tinha uma paciência infinita… Assim recorda o Avô-Pai, a Fernanda, de além-mar, dos Açores.
Depois de ter deixado o mar, Armindo Ré ficou por terra, entre o carinho da família, alguns bons anos, não sem deixar de ir diariamente à empresa que ultimamente servira, após o que ia encontrar-se com alguns colegas, junto ao Bispo. Manteve esta rotina até à doença não permitir.
Acamado no último ano por problemas respiratórios, achava que seria levado por um navio, para uma viagem bem longínqua, eterna. E assim foi em 19 de Setembro de 1994, com 87 anos.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 13 de Novembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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