segunda-feira, 29 de junho de 2015

A nossa cultura - A nossa gente

-


Para que os «meus» vindouros se lembrem que, um dia, em Junho de 2015, assistiram a este espectáculo, no Museu Marítimo de Ílhavo.
Pela pena do Professor Fernando Martins, no blogue Pela Positiva, «A Associação Recreativa e Cultural CHIO-PÓ-PÓ, na divulgação e defesa do património cultural ilhavense, tem a honra de convidar Vª Ex.ª para assistir ao evento cultural A NOSSA CULTURA A NOSSA GENTE, dedicado a ANA MARIA LOPES, no dia 13 de Junho de 2015, pelas 21h30, no Auditório do Museu Marítimo de Ílhavo».
Nota: Trata-se de uma homenagem justa e muto oportuna. Conheço há anos Ana Maria Lopes, ilhavense ilustre, conhecidíssima e inspirada estudiosa de tudo quanto diz respeito às nossas terras e gentes, com obra publicada e, decerto, com muito por publicar. Os seus temas favoritos, tanto quanto posso perceber, são a ria e o mar, com tudo quanto lhe está associado. Os meus  parabéns aos promotores desta homenagem bem como à homenageada.

Ílhavo, 29 de Junho de 2015
AML

sábado, 27 de junho de 2015

Regata da ria de 2015

-
A regata da ria (deixemo-nos cá de folclóricos week-ends) deste ano, a 27 de Junho de 2015, interessou-me sobremaneira, porque nem houve mais moliceiros, pelo contrário, mas porque mexeram com os próprios, já de si tão ousados. E com os apreciadores, também.
-
Executou-se num tempo record, pois, em pouco mais de uma hora, fui avisada da chegada, eu, que ainda estava para estar por casa. Tudo a favor – vento, maré e cumprimento de horário. Zarpei e fui direita à lota velha. Muito desmazelo, poucos assistentes, sempre os mesmos, só mesmo aqueles muito, muito interessados.
-
Já não sou daquelas que pode acompanhar a regata, como tantas vezes o fiz, portanto não tenho imagens de garra, que não faltarão por aqui em toda a sua pujança e elegância. Vim moribunda de calor e de cansaço… Mas constou-me que foi extremamente renhido, imensamente disputado, o alcance do primeiro lugar, entre dois grandes homens da ria – o Marco Silva e o Zé Rito, com diferença de apenas um minuto, à chegada à bóia. No entanto, parabéns a todos os participantes.
Não quero salientar alguns aspectos negativos da prova, não merecem os homens da ria, mas sim destacar o arrais MARCO SILVA, por quem tenho um apreço especial, arrais do moliceiro estreante, com o seu nome. Enquanto houver homens com este saber e desta fibra, há-de haver um verdadeiro moliceiro tradicional na ria.  

Nem o ramo à proa lhe faltou…
-
Destacar igualmente o arrais MIGUEL MATIAS, que conheço de rapazote, por ter salvado o São Salvador da folsa profunda em que se encontrava e tê-lo voltado a pôr a navegar em ria aberta.

 



Painel de ré, EB, do São Salvador
Devido ao escasso tempo, alguns pormenores lhe faltava cuidar, mas o amigo Pedro Paião assumiu o seu comando. A amanhação foi a contra- relógio.
Mais uma vez a todos, o meu apreço. Este reduzido texto, mas sentido, ainda tem de ser «postado», hoje. Uma das características da notícia é esta - o tempo de informação.
-
Imagens da autora do blogue.
-
Ílhavo, 27 de Junho de 2015
-
Ana Maria Lopes
-

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Preparativos da Regata de Moliceiros Torreira-Aveiro. 2015


-
Dia 22 de Junho
Como é hábito, lá fomos eu e a Etelvina, passar uma tardada, às redondezas do Estaleiro /Museu da Torreira que o Zé Rito coordena, que, neste tempo, de pré-regata da ria, reconstrói moliceiros, edifica todos os restauros, mazelas, maleitas, podridões, bem como repõe e recompõe fundos, bicas e tudo o que esteja a perigar a segurança da embarcação.
Mas, nem eu nem a ria, nem os moliceiros estávamos na melhor forma. Eu, cansada, como ando, ultimamente, até tropecei numa corda que fixava uma bateira à areia e catrapus…, chão comigo. Vá lá, soube cair, não me estraguei a mim, nem à máquina. O mesmo não aconteceu com o pintor, o Zé Manel Oliveira, que andava numa azáfama, dividido entre a pintura de três moliceiros, com um pé engessado enfiado num saco plástico e apoiado em duas canadianas, quando se deslocava. Que tal? Quem gosta, gosta mesmo e faz os possíveis e os impossíveis. O pai ajudava-o.
A ria, em baixa-mar, estava lamacenta, enlodada, envolta num céu acinzentado, pingado e morrinhado, que não lhe incutia nenhum brilho. Antes pelo contrário.
Os moliceiros, coitados – só quatro! Participarão todos na regata? Não se sabe… ou não se quer dizer. Outros se lhe juntarão? Não se sabe de certeza…. A ria e os seus arrais têm os seus segredos…ai têm, têm.
Garanto que não faltarão, o Marco Silva com o seu moliceiro debutante, o Zé Rito, aguerrido e despachado, com toda a sua genica e o Ré Rebeço,  no A. Rendeiro, com quem conversei, homem com alguma idade e que me confessou, mais uma vez, que eram a ria, o moliceiro e duas bateiras, que lhe davam vida. Caso contrário, residiria com um filho, no Canadá.
Vamos lá entender estas paixões…Lá que as há, há… São homens da ria.

«TANTA PASSARADA À SOLTA E EU A FAZER GAIOLAS!»

Depois de descansar um pouco, enlevada num painel brejeiro, já acabado, a Etelvina segredou-me que tinha uma surpresa para mim. O que seria? Um pescador, de meia-idade, dentro de uma caçadeira, todo enredado na limpeza da sua arte, queria reconhecer uma senhora que, há anos, tinha feito um livro, que ele guardava religiosamente, comprado na Expo 98, onde estava fotografado. Um tal Belo – sussurrava a Etelvina.
O nome não me dizia nada, mas, chegada ao pé dele, sem nos reconhecermos, perguntei-lhe outro nome – Salvador. Ah!, o Salvador Belo, que pintou o barco do Manuel Cachaço, das Quintas, reconstruído na sua própria eira pela equipa habitual de reconstrução do mestre M. Raimundo, já desaparecido.
O barco do Manuel Cachaço, homem com características especiais – trabalhador, mas também muito reinadio – escolheu uns motivos de painéis, especiais, relativos ao rancho da Marinha de Ovar – Noivos de Ovar de 1850, Os Varinos de Ovar de 1920, Os Romeiros de Ovar de 1920 e Os Ceifeiros de Ovar de 1900.
Aqui está uma imagem que exemplifica. E encantadora que ela é.
-
Painel de Salvador Belo. 1986

Haviam desaparecido quase simultaneamente dois dos pintores da ria, o célebre Ti Avelino Marcelo na sua singeleza, ingenuidade, também com o um toque malicioso a seu jeito, e, prematuramente, o famoso Jacinto (Jacintro) Vieira da Silva de alcunha, Lavadeiro.
O jovem Salvador Belo, ali, por 1986/87, veio desenrascar as pinturas do moliceiro do Manuel Cachaço. Parece que estou a ver a cena. Foi fascinante o empenho de toda aquela gente e o nosso. Um painel novo que surgisse era a melhor prenda que nos podiam oferecer.
E, hoje, o reencontro entre mim e o Salvador Belo foi entusiasmante. O livro, seus registos e imagens uniram-nos e fizeram-nos recordar tudo, tudo, tão certinho, que até dava gosto.
Um dos poucos barcos que também decorou, à beira-ria, um dos primeiros de costado verde, foi um de que também recordou a legenda:
REI. DA. VARÉLA.
Virei os ficheiros do avesso, mas o Rei da Varela tinha de cá estar. Ei-lo:

REI. DA. VARÉLA. 1987

E o Salvador a pintar. Apenas se dedicou dois anos a esta arte de «pintor de domingo». Outros começaram a surgir e um deles ainda se mantém, hoje, com muito gosto.

A ria como fundo…1987

Conversámos, palrámos, tagarelámos…o nosso reencontro foi uma das satisfações desse nosso dia. Ambos, claro, mais velhos, uns 30 anos.
Eu, por cá continuo entre barcos, enquanto me deixar a saúde, a organização, o engenho e a arte.
Hoje, o Salvador, pescador da Torreira, é proprietário de uma zelada caçadeira, onde cuidadosamente limpava uma outra arte – uma das redes com que trabalha, agora.
Para finalizar, o registo do feliz encontro, gentileza da Etelvina.

 

 


Ganhámos o dia…
-
Imagens dos anos 80 – Paulo Godinho
-
Ílhavo, 22 de Junho de 2015
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 21 de junho de 2015

«Oratória» sobre «Uma Janela para o Sal»

-
Nada como registar «a oratória», mesmo a minha, no «Marintimidades». Local sagrado!... para mim…
-
Caros /as Amigos/as:
-
Na vida, é adágio popular dizer-se que se deve plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Imbuída pelo gosto de meu pai, plantei umas arvorezitas. Relativamente a filhos, até fiz dois, que, hoje, são o meu suporte e o meu orgulho. Escrever, ou melhor, escrevinhar, entre folhas de sala, catálogos, brochuras e livros, já lá vão alguns.
Mas cada um tem uma histórica.
Quase todos de pesquisa etno-marítima, e/ou etno-linguística, por minha formação, roçando quase a antropologia, também vivem muito da imagem, que considero indispensável neste tipo de trabalhos.
Livro, livro, propriamente dito, acho que começa a ser uma boa altura de este ser o derradeiro.
-
Umas brochuras, uns artigos para revistas da especialidade, uns posts para o famoso Marintimidades, fá-lo-ei até que a voz me doa e já começo a enrouquecer, com facilidade.
São o meu meio, o meu mundo, o que me entusiasmou, na vida – foi o litoral deste país, de norte a sul e, mais tarde, as embarcações lagunares, por empatia e vizinhança geográfica.
Não é obrigatório verter o saber em livro, mas não há nada como deixar escrita a nossa perspectiva. Há várias maneiras de tratar um assunto. De degrau em degrau, chega-se, por vezes, a uma suposta verdade…
Do Vocabulário Marítimo, à Faina Maior (em co-autoria), aos Moliceiros, ao Regresso ao Litoral, às Bateiras da Ria de Aveiro – Memórias e Modelos (em co-autoria), continuei a olhar para as bateiras e seus processos de pesca que sempre me fascinaram, se bem que manifeste mais um fraquinho pelas embarcações. Por aqui residente, era natural que a nossa ria, que sempre me atraiu, me atraísse, agora, de uma maneira diferente, mais amadurecida. Olhares mais sólidos, consistentes e mais vividos…
Discussões salutares que mais tarde dão frutos e nos conduzem a uma suposta solução.

 
Com o SAL, tudo foi diferente, mas afim.
-
Depois do meu filho Miguel ter captado, nos anos 80, as imagens para Moliceiros – A Memória da Ria, fê-lo, de igual modo, com a minha colaboração e orientação durante uma safra de sal, desde os trabalhos preparatórios até ao final, ao devolver o sal de uma marinha, em saleiro, para o canal de S. Roque.
Visavam as imagens e as pesquisas, a feitura de um livro que o trabalho de direcção do Museu de Ílhavo interrompeu. E assim, ficaram acondicionados os diapositivos, em abundância e as cassettes de som com as entrevistas a moços e marnotos, em fita ainda magnetofónica.
Outras vidas, outras andanças, outras procuras pelas últimas empresas de pesca deste país de tal modo que o sal teve de ficar em banho-maria.
Foi uma pesquisa de sacrifício, esta, com imagens contínuas em cerca de 30 marinhas, embora sempre procurássemos as de mais fácil acesso. Fainas matutinas, esfriadas, pinos do sol crestados, enfim, de morrer…neblinas, nevoeiros, que, nuns casos facilitavam a recolha de imagens, noutras, nem por isso.
É o tempo atmosférico um dos principais mandadores na produção salícola… e esse nem sempre estava a jeito.
Todo este material foi ficando e sempre que lhe pegava, a falta de tempo impedia-me de avançar.
Muita água passou por baixo das pontes e o número de marinhas cada vez ia diminuindo mais.
-
Mesmo depois de ter deixado a direcção do museu, fiz vários trabalhos e colaborei noutros. Mas o SAL empedrava…empedernia…
-
Não tinha quem me incentivasse, muito pelo contrário. Seria sempre um livro com muita imagem, e sei bem como são, as dificuldades económicas, sobretudo a nível gráfico.
-
O tempo de trabalhar com o filhote, hoje, um homem, já passara. Outros tempos… Lancei pontes e uni gerações. Acho importante tentar fazer escola e criar, desenvolver o gosto noutras pessoas. Numas, pegará, noutras, nem por isso. Tenta-se.

Mas, há sempre um mas.
-
Há uma boa meia dúzia de anos conheci no museu, a Etelvina, entendemo-nos bem, dei-lhe umas dicas para a tese de mestrado que trazia em mãos com o tema Embarcações tradicionais da Ria de Aveiro, uma análise pelo Design, e, ao poucos foi-se fortalecendo entre nós, uma amizade, apoiada por alguns interesses comuns, cruzamento de saberes, cruzamento de idades, de geração.

 
Há cerca de uns 4 anos, visitei, de novo, o Sr. João Banca da marinha Troncalhada, para que me ajudasse a avivar a memória relativamente às imagens captadas nos anos 80, bem como o Felisberto Fortes, que, entretanto, já não está entre nós. E ingressei pela meia dúzia de marinhas que sobrava, sozinha. Quarenta e tal anos de idade não são sessenta e tal e chegava cansadíssima a casa. Ai, o sal, o sal, que me fazia a alma negra, tal como aos salgadores do bacalhau.
-
O trabalho de campo é muito cansativo e os anos passam e deixam marcas.
Se eu tenho um conhecimento técnico, qb, já de longe, pelo muito que calcorreei marinhas, e a Etelvina tem uma fluência frásica de cariz poético, e que tal, se nos juntássemos e aos poucos, fôssemos produzindo um texto a 4 mãos, em leve dueto, em que o Marnoto fosse o rei da ria? Descrever, «cantando», imagens já com uma três dezenas de anos…
O trabalho na marinha é duro, cansativo, repetitivo, porque o processo é mesmo esse.
Cansa um leitor pela monotonia, que se encanta com o processo, mas, só de vez em quando, espreitando. E para nosso mal, está mais do que em vias de extinção. Até eu, também estou… Marcas do tempo… E tenho uma tendência e um gosto terríveis por fixar e reter assuntos que sinto e pressinto que estão para acabar. É o que tenho praticado.
-
Mas o SAL continuava-me atravessado na garganta, qual espeto, salgando-a demais. Fiz uma proposta à Etelvina e ela gostou do projecto. Primeiro, seduzi-a, com aquelas imagens que achava mais fortes e, posteriormente, disse-lhe o que pensava para o género de texto.
E arrancámos, também para a «nossa safra», nas ditas «terças-feiras no museu», onde trabalhávamos, sem que nem uma mosca nos pudesse interromper o processo.
-
Passado cerca de um ano e meio, estava pronto. O Miguel ia-nos, por vezes, enviando umas dicas – afinal, sem estas imagens não teria havido este livro.

 
E agora? Nada como um livrinho em estilo panorâmico, fácil de ler e reler, de ver e rever, ao colo, como merece, com carinho, em deslumbramento de um desejo alcançado.
-
Lembrei-me, numa tarde de domingo outonal, que havia uma promessa da (Alêtheia Editores), na pessoa de Zita Seabra que há uns anos me disse, – talvez ainda venhamos a trabalhar juntas – ela que nos deu ao prelo «dos primeiros livros de grande memória», ainda noutra editora, lançados neste Museu, nos anos 90.
-
E a Zita gostou do ficheiro enviado, texto e imagens. Outro projecto, outro sonho a concretizar, desta vez para os co-autores – a Etelvina, o Paulo e eu.
Não foi nada fácil. A partir de aqui, nós, os intervenientes, sabemos as vias-sacras por que passámos.
Mas vencemos e «Uma Janela para o Sal» pode, hoje, ser lido e apreciado no regaço. O Sal saiu da gaveta e da garganta, tal qual como foi registado. Não empederniu, nem liquidificou.
Um grande agradecimento a muitos (não vou elencar), ou melhor, a todos quantos trouxeram uma pedrinha de sal para o monte.
-
E aos Amigos que cá vieram ouvir-nos, transmitir-nos aquele calor humano, que sempre faz falta, em ocasiões destas, o nosso grande agradecimento.
-
Fotografias – Teresa Soares (assinada), MEPC e Paulo Mendes.
-
Ílhavo,16 de Maio/ Aveiro, 4 de Junho de 2015
-
Ana Maria Lopes
-

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Torreira vai assistir ao «bota-abaixo» de um novo moliceiro

-
A equipa de construção e decoração
No próximo sábado, dia 20, por volta das 9. 30 h da manhã, a marina de recreio da Torreira, no Município da Murtosa, vai ser o palco de um acontecimento raro nos tempos actuais, e, como tal, digno de especial registo e regozijo: Marco Silva, um jovem arrais da Torreira, de 39 anos, vai fazer o bota-abaixo de um moliceiro, completamente novo, construído por si.
O moliceiro, que será baptizado com o nome do seu proprietário e construtor «Marco Silva», possui um comprimento de 15,95 m, uma boca de 2,78 m e foi construído em madeira de pinho, com recurso a técnicas tradicionais, ao longo de cerca de um mês e meio, pelas mãos hábeis de Marco Silva, ajudado pelo Mestre Firmino Tavares, filho do famoso mestre construtor de Pardilhó, Agostinho Tavares.
-
Para com este Mestre (1922-1996), tenho um afecto especial, pois foi no estaleiro dele, em Pardilhó, que nos anos 80, o meu filho registou as imagens que serviram de base ao capítulo Construção, do meu livro Moliceiros – A Memória da Ria.

Mestre Agostinho Tavares, em acabamentos

As pinturas do barco e dos respectivos painéis, actualmente em fase de execução, estão a cargo do Mestre José de Oliveira, conceituado artista murtoseiro, actor da quase totalidade dos painéis dos moliceiros existentes na Ria de Aveiro.

O bota-abaixo deste novo barco moliceiro possui um enorme simbolismo, pois representa um novo alento e esperança na preservação daquele que é o verdadeiro ex-libris da Ria de Aveiro e, provavelmente, a mais bela embarcação do mundo, que tem na Murtosa a sua pátria.
O desaparecimento da actividade para a qual foram concebidos – a apanha do moliço – ditou a quase extinção dos barcos moliceiros. Hoje, uma grande parte dos moliceiros ainda existentes, estão consignados à actividade turística nos canais da cidade de Aveiro, já sem algumas das características originais.
Na Murtosa, resiste, teimosamente, um conjunto de homens, que mantêm as suas embarcações sem mácula, seja para actividade marítimo-turística, ou, apenas, pela satisfação de as possuírem.
Marco Silva ousou construir um moliceiro novo, que será o primeiro, em seis anos, a ter um bota-abaixo na Murtosa, em pleno coração, geográfico e afectivo, da grande laguna.
Com Marco Silva, pela sua juventude, está também garantida a continuidade dos saberes ancestrais da construção de embarcações tradicionais, pois com as suas mãos, para além desta novíssima embarcação, já tinha construído, anteriormente, cinco bateiras. Depois do moliceiro, o próximo desafio do jovem arrais e construtor de embarcações é materializar um novo barco xávega, de pesca de mar.
-
Além de conhecer o Marco do convívio nas regatas de moliceiros (em vias de extinção), foi ele quem nos valeu e assumiu a feitura, de acordo com ordens recebidas, da vela para a nossa bateira ílhava, existente no MMI, construída pelo Mestre Esteves, de Pardilhó.
Marco Silva foi o ganhador, como arrais, do moliceiro São Salvador, da Junta de Freguesia com o mesmo nome, de Ílhavo, vendido em hasta pública a Miguel Matias. Já se encontra no estaleiro do Zé Rito, na praia do Monte Branco, para últimos restauros e decoração.
Com secretismos, negócios e rivalidades, até parece que são muitos. Mas com paixão e boa vontade, vão-se mantendo nem que seja pelo prazer de possuir e exibir em regata.
-
Fonte: Município da Murtosa, com alguns acrescentos.
-
Ílhavo, 18 de Junho de 2015
-
Ana Maria Lopes

domingo, 7 de junho de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

-
(Cont).
-
Segunda singularidade:
-
Surpreendeu-me positivamente, quando me apercebi por onde queria ir a «A Janela para o Sal» …
-
O livro tem uma particularidade que passará certamente despercebida ao leitor comum. É escrito no presente – como se a safra fosse hoje, ainda como se descreve.
Historicamente errado, que poderia, se levado à letra, destruir todo o trabalho. Mas perceptível.
O livro nasce, na realidade, de um convite feito à co-autora Etelvina. Levando-o a um passado já distante, um passado em que foram feitos os registos da Ana e do filho Paulo. É pois a história vista num passado, transmitida, relatada, num presente qualquer. Uma espécie de crónica real…
Não deixando de fazer a via-sacra do escoar das comedorias, ao estranger, do imoirar à botadela o léxico está presente qb. Não podia deixar de estar. Léxico imaterial rico, que foge a definições mais detalhadas. Sem perder tempo nos descritivos alongados da definição técnica, para aqui despropositada.
Assim, parece-me desde já ser possível, dizer que os três co-autores souberam conciliar e verter para obra, com conta peso e medida, cada um, de per si, os particulares atributos, individuais. Diria, com particular equilíbrio. Every one has is place... ou mais trivial Chacun  à sa place ..... E são a meu ver: o rigor da observação, registo e tratamento de Ana Maria; a beleza poética da descritiva de Etelvina Almeida (uma apaixonada das funduras da laguna e dos relevos humanos – e não humanos que a povoam); a retina selectiva de Paulo Godinho, na escolha e transferência para o duradouro, do que entreviu no momento. O resultado final, acabado de sair do forno e agora deposto em vossos regaços, é... porque foi  assim  que deliberadamente se quis,  não um trabalho  técnico mas uma sucinta monografia sobre a safra do sal na ria, apoiada numa recolha imagética e num estudo de campo, como bem esclarecem  os autores. Uma obra diferente que acrescenta frescura ao tema e enaltece o homem, sublinham, como que a dizer-nos ao que vieram... Confirmamo-lo em absoluto. Final conseguido.
-
-
E assim cada imagem que fixa o humano na paisagem circundante, deixa de ser apenas entusiasmante para uma apreciação sensorial do olhar deslumbrado. Logo em paralelo, reforçando-a, sublinhando-a ou matrizando-a, corre um dorido, poético e choroso texto. Que a explica, reforça e lhe recupera os pormenores do milagre que permite à natureza imitar o milagre isabelino, ao perguntar à Ria – o que trazes no teu seio?... e esta a responder: – flores de Sal, Senhor.
-
A natureza ofereceu o meio.
Ao princípio pareceu molhado demais para ser acolhedor. E de noite sob o prateado de uma lua cheia embolada, parecia não haver sequer fantasma, nele a bulir. E de som apenas se ouvia, de onde a onde, um choro de pio perdido de gaivota grazina, chorando na margem a sua desdita.
Mas logo o homem se lhe atirou afadigado, agradecendo a dádiva. Rapou de um imaginativo compasso, sobraçou no olhar esbelta régua, e logo se atirou a riscar as águas azuis, metendo-a em viveiros, algibés, caldeiras, talhos e cabeceiras, onde se espreguiçam num azul soluçante que, inquietado pela aragem, cintila, parecendo invadido por milhões de cus de lume incendiados pela torreira.
-
Essa figura humana, o primeiro da cronologia humana lagunar, é o marnoto. O decano das labutas lagunares, duradouras. Aquela que serviu de plinto ao Homem que, atraído pelas promessas entrevistas, se alapou, célere, nas suas margens. Abrigado em ocres tugúrios das ruindades da natureza agreste, que foram brotando das lamas secas, enegrecidas, depressa tornadas terras de viço.
Dele bem se poderá dizer: ao princípio era o marnoto!!!
E assim começaria a história até que a página foi encerrada, já lá vão quase três boas dezenas de anos.
-
Meus senhores Minhas senhoras: Amigos
-
O presente trabalho é guarida segura para memória futura. Para lembrar o arquétipo humano, através do qual os deuses imateriais concederam a feitura do sal, «nativo e factício», como o designou, Plínio «O Velho». Quando no séc. II dC, por estas bandas deambulou, em trabalho de campo, a recolher elementos para a sua «História Natural».
E the last but not the least: uma outra singularidade…
As autoras não irão certamente corar… Falamos de janelas e eu espreitei. E o que vi?
-
Este livro feito por duas mulheres que qualquer leitura permitirá dizer-se «muito interessantes», tem, a dada altura, uns laivos de erotismo. Sugerido nas páginas em que esboça o perfil do moço lagunar. Mostrado de calções, sem outro sudário que não seja a pele, a cobri-lo. Ei-lo desnudo qb, e logo as autoras parecem deslumbradas:
-
Quase nu,… eis o moço do Sal, de corpo esbelto e pele bronzeada. Os seus músculos retesam ao longo da íngreme subida...elegante e sereno no caminhar... o corpo moldado à canastra.
-
 

-
E continuam as autoras na luxuosa descrição:
-
Sob intenso sol esse homem musculado, exala e escorre suor e moira....que se colam sobre o peito molhado e salgado.... (a)pele dura gretada.... deixa antever longo curtir que lhe rouba anos de delicadeza... A todo o tempo ele transpira...sal.
A janela passa rapidamente a buraco de fechadura para uma espécie de cândido  voyeurismo...
E o moço de marnoto, surge na «Janela para o Sal», como um Adónis mitológico, divindade de vida-morte-renascimento, ele mesmo, aqui, mito do ciclo anual da produção do sal: a sua «afrodite» com quem escolhe(ia) conviver meses de cio salgado. Corpos de beleza masculina excelsa, talhados na perfeição dos mitos, a que a exsudação copiosa concede um brilho de virilidade entrevista...
-
Meus Senhores, minhas Senhoras, Amigos:
Caros Autores:
A Ana costuma temer a severidade das minhas apreciações.
Pode aqui ficar descansada. Ela esteve certa; eu estive errado. Mas em boa verdade, a Ana esteve certa: porque acreditou e teimou levar por diante algo, onde eu não consegui ver interesse.
Voltando a António Vieira, o Sal de que a Ana queria falar é o sal da salga.
O saído de uma hipotética feitura minha, talvez não o fosse (!). O pregador (eu) quereria fazer uma coisa, mas no fim, faria outra. A cada um, o seu sal, pois…
A Ana esteve certa e feliz, porque comigo nunca esta obra atingiria o mérito que lhe reconheço.
-
A estimada e estreante Etelvina, por quem nutro grande simpatia e apreço, foi the right womam, for the right job... Conferiu uma beleza poética a uma amargurada tarefa. Não é fácil...
-
 

-
Bem: do Paulo Godinho, que um dia, ainda rapazito imberbe, apareceu em minha casa a vender um excelente vídeo de sua autoria (e de Rui Bela), direi que fiquei, já então, aí, na certeza que havia muito a esperar (dos dois). Mas a vida «oblige»...e o fotógrafo teve de dar lugar ao óptimo profissional, que sei o Paulo ser.
Olhe Paulo: não gosto (já!) de dar conselhos aos mais jovens. Se o pudesse fazer dizia-lhe: guarde lá para o fim, como eu fiz, tempo suficiente para trabalhar no seu hobbie. Vai ver que vai muito a tempo...
A todos os meus parabéns.
-
Senos da Fonseca, 16 de Maio de 2015
-
Imagens de Paulo Mendes e de Teresa Soares (assinadas)
-
Ílhavo, 7 de Junho de 2015
-
AML
-

domingo, 31 de maio de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

-
Há textos que gostamos de guardar, partilhar e exibir no Marintimidades. E este, com que o Amigo Senos da Fonseca nos brindou na apresentação do nosso último livro, no MMI, é um deles. A saber:
-
De Sal, pouco conhecimento tenho para além do seu ajuste ao tempero. Dizem ter mão pitosa.
-
O sal materializado ou imaterializado, está permanentemente na vida de cada um. Alguém que ame sem sal qb, não ama: vive de tédio. Alguém que sonhe sem sal qb, não sonha: vive na glória da desilusão…
Ai de quem não dê pela sua presença. Sal da vida, sal da alma, sal dos olhos. Sem o sal qb, não há objectividade no sentir, não há clareza no mundo externo.
-
De sal, observo as doutas palavras desse príncipe de letras portuguesas: – Padre António Vieira. Há sal que não salga…
Ou porque o sal não salga; ou porque a terra não se deixa salgar, ou porque quem prega diz uma coisa e faz outra.
-
Haveria, pois, mil e uma maneiras de abordar ao que vim…ora o que me foi pedido é bem mais simples.
Do sal que salga mesmo…
Mas, lembrei-me, então…
Certo (e quem sabe ter sido esse o motivo) ter em tempo publicado o título «O Homem e o Sal». E aí ter dito (permitam-me citar o dito, que fez parte de setenta títulos publicados).
(…) Há vários milhares de anos, caíram as janelas do Palácio do Céu… Ficaram intactas as vidraças nos respectivos caixilhos, porque as janelas caíram sobre o terreno macio. Hoje são as salinas… (Almada Negreiros)
-
O Homem aqui venceu…
-
Delas disse Unamuno: são, de facto, como que exemplares de uma espécie, em outras partes, já extinta.
Seja qual for o motivo por que estou aqui a perorar, espero não vos maçar.
Entremos, pois, na curiosa história de «A Janela para o Sal».
-
Aqui há uns anos, não muitos, a Ana Maria cirandou em minha volta quando me fazia companhia para os minhas inquirições do livro Bateiras & Artes, tentando-me engajar para um plano conjunto, de trabalho sobre o Sal.
-
Era minha opinião: sobre o sal e a sua feitura, do ponto de vista técnico, era matéria esgotada. Depois de o nosso conterrâneo, Manuel da Maia Alcoforado, ter publicado o seu rigoroso tratado sobre o ouro branco retirado da Laguna de Aveiro.
Do sal, tempero de vitualha, procurado desde a mais longínqua e profunda noite dos tempos, para simples sobrevivência, ou tempero de povos mais adocicados, celebrado por reis, consagrado aos deuses, credor de vassalagem de povos e imperadores antiguidade.
Sobre o Sal, outros trabalhos (livros e álbuns) foram sendo por aqui publicados. Parecia-me (a mim!), pois, esgotado o filão salícola para o prelo. Como morta estava desde há muito a sua produção por estas bandas. O Sal desde o século passado desapareceu na planície alagada lagunar; que não da nossa mesa, vindo de outras paragens onde a extracção dispensa o esforço braçal humano. E onde a máquina, substituiu o ugalho; e o comboio, o burrico do almocreve: o saleiro, logo na pia baptismal, ajoujado de sal – não o da sabedoria, mas o do carrego. 
Do Sal, da sua dorida e suada feitura, pouco mais resta que a lembrança registada em esses inúmeros trabalhos, alguns já repetitivos, já gastos ao nascer para o relembrar. Mas, sim! – é verdade. Há a Troncalhada, Marinha- museu para o mostrar aos turistas. Ao longo do tempo recuperou-se o léxico decalcado da «bíblia» de Maia Alcoforado; métodos e glossário, quase sempre, pouco ou nada acompanhados do exercício de um metódico trabalho de campo.
E aqui faço um parêntesis, para me dirigir às autoras; o glossário n’ «A Janela para o Sal» contradiz a intenção de que falaremos adiante. Era perfeitamente dispensável (em nossa opinião).
Outros livros dados à estampa, insistiram nas fotos «mudas», quase sempre bem felizes – é facto – pois as cãs e as rugas provocadas pela desaforada faina salícola, a isso bem se prestam. Mas de todo pobres no texto que não ultrapassa a simples legenda.
-
-
Ao meu desinteresse, a Ana não desistiu.
E ainda bem...Como lhe costumo dizer: ouve o que Te digo, mas não faças o que Te digo... Hoje, constato, o SAL, foi nela motivação obsessiva, motivação que teria de ser cumprida. Como o fazer (?!)..., creio, ser essa a sua dificuldade.
Tinha consigo um fantástico acervo fotográfico (que seu filho então um jovem entusiasta do registo na caixa impressiva, acompanhante da mãe nas deambulações pelo salgado lagunar, fixou com mestria). Hoje aqui bem patente. Fotografias onde os artifícios hoje permitidos pelos hi-techs digitais, ainda não existiam. Fixadas nos velhos diapositivos, sem acesso a photoshopadas que hoje permitem inserir um pôr de sol em dia tristonho, uma alegoria de estranhos tons, numa exultante sinfonia de cor roubada às quatro estações de Vivaldi. Ana Maria era fiel depositária desse minucioso espólio – um tipo de herança a funcionar ao contrário – sem dúvida lauto e esgotante cardápio de momentos escolhidos, fixados para perdurar (ou renascer, um dia, como foi aqui o caso). Descritivo em imagens, «vitualhas», que marcam cada momento alto do bodo sensorial que é a fazedura da marinha, por entre perfumadas maresias de flores silvestres a povoarem os ares, desde o nascer do sol até ao encharcado crepúsculo nocturno.
-
Um belo dia chegou-se e deu-me conta:
-
  Já arranjei companheira de jorna: – a Etelvina...
-
-
E, passo a passo, fui acompanhando o início do escufenar da marinha, o risco dos vieiros, depois a entre safra...as molhaduras, e a botadela etc, etc.
Rapidamente me dei conta de que o trabalho ganhara um cariz muito diferente do modo como até aqui se tinha falado do sal. O trabalho da parelha (duo) Ana/ Etelvina, tinha escolhido, não o Sal como figuração central do seu livrinho, mas sim, fixado e eleito, o marnoto, como figura central da dorida feitura do sal. E deu a este quase todas as páginas. O trabalho (hoje aqui livro) ganhou justificadas alvíssaras, pelo profundo humanismo que espelha.
Uma apreciação mais cuidada permitiu-me verificar 3 ou 4 singularidades que afastam «As Janelas» do que foi feito até aqui. Note-se, não estou a dizer para melhor, mas diferente. E isso é bastante para merecer elogio.
-
Primeira singularidade:
-
A começar pelas imagens, e a prolongar-se num texto que está lá, para as servir. E não como habitualmente, ao contrário. Creio não me enganar se disser que alinhadas antes de tudo, as imagens, catalogadas de acordo com os pontos marcantes da safra, só depois se contextualizaram as mesmas. O texto não é pois uma descrição consecutiva. Corre como de acordo com a imagem. Com liberdade diria: estamos perante uma banda desenhada poética. O que por norma é, exactamente, o contrário, do que é costume fazer nestes trabalhos.
E conta-nos, gota a gota o desalmado bulício do marnoto.
Não me afasto muito da escriba, se o descrever a meu jeito:
Logo que a ria punha a descoberto uma ruga, logo ele se lhe atirava sob torreira que lhe ressumava o rosto em bagas de suor salgado. Pernas de ceroulas enroladas, camisa arregaçada até aos sovacos, atira-se, sol a despontar, a um bulir esfalfante. Figura central dos clichés (na sua quase totalidade) este era o irredutível marnoto... Que só tem medo que amanhã, numa volta de vento, imprevisível, o céu, em vez de lhe cair em cima – coisa habitual do seu dia-a-dia – comece a chorar copiosamente. E lá vai a sua esfalfadela. Quase que me atreveria a dizer: a janela do livro por onde somos convidados a espreitar, com um certo pudor, centra-se e elege como a figura suada, por vezes quase mortificada. Um dos demiurgos lagunares: o criador do sal. Que sem sudário que lhe acalme a aspereza da torreira do vento aquilão (o seu sudário é a sua pele brochada pelo iodado braseiro que o fustiga), leva a canastra ao calvário. Que é aqui o cone alvo do malhadal...
-


(Cont).
-