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quinta-feira, 9 de março de 2017

Homens do Mar - Manuel Simões da Barbeira - 30

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 Capitão Manuel Simões da Barbeira
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Chegou a vez de tentar reconstituir o currículo marítimo de Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco), meu Avô, mas, dos primeiros anos, não sei praticamente nada, nem sequer tenho quem mo rememore. Começando pelo que sei, reportar-me-ei à bonita, elegante e prazerosa arraisa Joana Caloa, casada com João Simões da Barbeira, o Pisco, marítimo, de cujo casamento nasceram quatro filhos – Manuel Simões da Barbeira, o dito Capitão Pisco, Francisco dos Santos Calão, mais tarde o Capitão Francisco Calão, já lembrado, David, oficial da Marinha Mercante que morreu muito cedo e uma filha, Nazaré Correia, mais tarde, mulher do Capitão António Marques. Filhos do mesmo casal, todos com nomes diferentes. Era, de certo modo, vulgar, por Ílhavo.
Caso para dizer – em casa de ferreiro, espeto de pau, – pois, do meu avô, nem uma foto a bordo, tenho. Fardado e de estúdio e a que consta da ficha do grémio – são apenas as que possuo. Não era propriamente tempo de se andar sempre a «bater chapas».
Se tivesse de resumir a sua vida relacionada com o mar, diria, que teve uma primeira parte, de cerca de 10 anos, como capitão de navios da praça da Figueira da Foz, em que a Figueira estava na vanguarda da pesca bacalhoeira. Comandou, de permeio, durante a campanha de 1919, o lugre-patacho Gazela Primeiro, de Lisboa, e em 1921, sedeou-se na Gafanha da Nazaré, acabando a sua vida de mar na viagem de 1942, com 57 anos.
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Desde que possuo algumas provas, o Avô Pisco, com 23 anos, comandou o iate Mondego, de 1908 a 1911.
O iate Mondego (1908-1917) foi construído em Setúbal, em 1899, com o nome de Novo Flôr. A partir de 1908, passou a chamar-se Mondego, na Sociedade Pescarias Foz do Mondego e, posteriormente, ainda usou os nomes Nazareth e Apollo, tendo pertencido a mais empresas.
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 O iate Mondego, in Ilustração Portuguesa

O Capitão Pisco, nas campanhas de 1912 e 1913, saltou para o comando do lugre Golfinho, da praça da Figueira da Foz.

 O lugre Golphinho, em dia de bota-abaixo. 1912
Este navio teve uma existência muito efémera, mas digna de se recordar. O Golfinho foi construído para a Empresa de Pesca da Foz do Mondego por José Maria Bolais Mónica, nos estaleiros da Murraceira, na Figueira da Foz. Foi, então, considerado o melhor e maior navio do seu tempo.
O seu bota-abaixo tivera lugar a 3 de Março de 1912; porém, quando começou a deslizar, saiu da carreira e enterrou o cadaste no lodo. Só depois de porfiados esforços e do aproveitamento de outras marés vivas, foi possível pô-lo a flutuar. A terceira viagem, tendo saído de Lisboa a 6 de Maio de 1914, foi de um adeus sem fim…
Não fossem algumas coincidências, e nada mais saberia, para lá do que ouvira dos meus avós.
Em meados dos anos 80, pessoa amiga fez-me chegar às mãos cópia do Boletim Mensal da Liga dos Oficiais de Marinha Mercante, ano I, nº 5 de Agosto, de 1914, intitulada Naufrágio do Golfinho que expunha o Protesto e relatório do naufrágio e abandono do lugre português Golphinho, feitos a bordo do vapor inglez Corinthian, de cinco páginas.
Não tendo a intenção de editar todo o relato, apenas respigo o seu texto, recuperando algumas passagens que me parecem dignas de nota, respeitando a ortografia da época.
Por amável deferência de nosso presado consócio Ex.mo Sr. Manoel Simões da Barbeira publicamos o singelo e bem elaborado relatório de mar relativo á perda do seu belo navio que… abalroou com um iceberg na noite de 29 de Maio p.p. O Golphinho que pertencia á praça da Figueira era propriedade da Sociedade de Pesca da Foz do Mondego e era talvez o melhor navio português que ia á Terra Nova.
O capitão Barbeira e piloto sr. Arthur Oliveira da Velha são oficiais distintos da especialidade a que se dedicam e foi devido á sua muita perícia que, habilmente obstaram a que o navio sossobrásse, dando tempo a que conseguissem passar para bordo do Corinthian, que tomou todos os tripulantes, entre os quais José Pedro Martins em estado grave e que infelizmente foi morrer ao hospital de Havre.
Só quem anda nesta vida do mar, vida de constante combate contra inimigos traiçoeiros e poderosos, pode avaliar o que seja pelo meio duma noite escura sentir de repente o navio abalroar contra um obstáculo invisível e inesperado, ouvir o ranger do cavername, o esfacelar do costado, o estalar dos mastros partindo-se e a derrocada dos mastaréus, das enxárcias, dos cadernais, dos estais, por entre o bater de pano, os gemidos dos feridos e os grito de todos! Quanto animo e sangue frio precisa então ter o capitão para, pensando por todos, os serenar e lhes salvar as vidas em perigo! Aí então sobressai a grandesa da sua missão e a nobresa desta vida feita toda de dedicações obscuras e de brilhantíssimos feitos quasi sempre ignorados!Foi de noite e com nevoeiro que o Golphinho bateu na ilha de gelo que por ali vinha no seu deslisar funesto, sem que nada a denunciasse. (…)
Serenados os animos o capitão, que modestamente no seu relatório nunca fala em si, fez tudo por salvar o navio, mas reconhecida a impossibilidade pelo péssimo estado em que ficou após o abalroamento, tratou então de salvar as vidas confiadas à sua guarda. Felizmente quando ia tomar a resolução de mandar abandonar o navio entregando-se e aos outros a uma sorte incerta em pequenos botes, apareceu o paquete inglez Corinthian da Allan Line, em viagem de Montreal para o Havre, que prontamente se aproximou e os recebeu a bordo. O seu Comandante fora de uma bondade extrema, deixando os náufragos no porto de Havre e d’aí vieram num paquete para Lisboa.
Era assim a vida do mar em 1914.
Nas campanhas de 1915 a 1917, comandou o lugre-escuna Figueira, que foi construído em Inglaterra em 1904, tendo sido o ex-Becca and Mary, até 1913, então registado, na Figueira da Foz. Foi posteriormente vendido ao capitão de Ílhavo, António José dos Santos, conhecido por Capitão Rocheiro, tendo sido registado em Aveiro, tornando-se no Alcion, em 1920.
Na campanha de 1918, de aprestos, saco de lona e fardas, voou para o comando do lugre Voador. Este esbelto navio fora construído para a Sociedade de Pesca Oceano, da Figueira da Foz, por António Dias dos Santos, em Fão. O seu bota-abaixo fora em 26.9.1911.
A Gazeta da Figueira de 26 de Outubro de 1912 refere que, a reboque do vapor Liberal, entrou a barra da Figueira, em Outubro, o lugre Voador. Apesar de construído em Fão, este navio veio em casco e os últimos acabamentos, incluindo os mastros, teriam sido feitos na Figueira.
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  Lugre Voador. Figueira da Foz
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Esta foi uma das fotografias, relíquia de um passado centenário, que, juntamente com a do Golfinho ornamentavam as paredes de uma das recoletas da casa de praia que foi dos meus avós, na Costa Nova, demolidas em 1991, pelo seu degradado estado. No meio daquele mobiliário característico das recoletas da Costa Nova, salvaram-se umas camas e lavatórios de ferro, bem bonitos. E da parede? – duas fotografias, uma de um elegante e esbelto lugre, em dia de bota-abaixo…Mesmo sem identificar o navio à primeira, mais valia, desmontar o quadro, limpar a fotografia amarelecida pelo tempo, e guardá-la com carinho. Dois lugres a decorarem a parede de uma recoleta que pertencera ao Avô Pisco, só poderia ter a ver com a vida marítima dele: – ou navio da empresa Testa & Cunhas, ou navio que teria comandado. Conclui, mais tarde, que comandara ambos os lugres, em anos já referidos.
Vivo de referências da vida do meu Avô. Na campanha de 1919, fora o segundo capitão do lugre-patacho Gazela Primeiro. Quando o Gazela, tendo deixado a pesca, partiu para Filadélfia, alguém me ofereceu uma brochura que guardo religiosamente. Nela está esta imagem dedicada a todos os ilhavenses que comandaram o Gazela Primeiro, enquanto lugre bacalhoeiro.
 O Gazela Primeiro, rodeado dos seus capitães ilhavenses

Em 1921, estava na altura de mudar de praça de armamento, tendo atracado na praça de Aveiro.
Manuel Simões da Barbeira começou por comandar o lugre Silvina, de 1921 a 1927. Levou como pilotos, com base nas fontes possíveis, Augusto dos Santos Labrincha (22), José Ferreira Patacão (23), João Nunes de Oliveira e Sousa (25) e João Francisco da Madalena (26 e 27).
O lugre-motor Silvina, de madeira, foi construído para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., de Aveiro, em 1919 por Manuel Maria Bolais Mónica. Em 1928, passou a ser propriedade de Testa & Cunhas Lda.
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Em 1927, abrandemos o ritmo dos navios e das viagens e dediquemos algumas palavras à sua faceta empreendedora. Sempre considerei o meu avô um dos sócios fundadores da empresa Testa & Cunhas, Lda., constituída em 16 de Dezembro de 1927. E foi.

 Assinaturas da 1ª acta, após a constituição da empresa – última assinatura

Mas, ainda não há muitos anos, é que me certifiquei, por escritura encontrada e cópia adquirida no Arquivo Distrital de Aveiro, que ele, anteriormente, já fazia parte da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., de Aveiro.
Tendo tido conhecimento do teor do recorte do jornal O Ilhavense, de 4.12.1927, e tendo cruzado todos estes dados, não foi difícil concluir esta sucessão de empresas.

Recorte do jornal O Ilhavense, de 4.12.1927

E, voltando aos navios, o Capitão Pisco comandou o lugre Cruz de Malta de 1928 a 1937, com uma interrupção em 1932, em que o navio não foi ao bacalhau. Foram seus pilotos João Francisco da Madalena (28), Manuel dos Santos Marnoto Praia (29 a 33), Mário Paulo do Bem (36 e 37).
Na campanha de 1938, fez a viagem inaugural do lugre de quatro mastros Novos Mares, aí se mantendo até 1942 (inclusive). Foram seus pilotos Francisco Fernandes Mano (38), Flávio Ramires Campos Pereira (39, 40 e 41) e Júlio da Silva Paião (42).
Por informação do Jornal de Notícias de 8.12.1938, tive conhecimento de que o Novos Mares, no dia anterior, ao entrar a nossa barra e ao passar a restinga, encalhou, pelo que os restantes cinco navios, que aguardavam fora do porto, ficaram para o dia seguinte. Este encalhe, felizmente sem consequências, foi originado pelo lamentável estado da barra, agudizado pela não existência de motor, a bordo. Na campanha de 39, embora um pouco mais tardiamente, o Novos Mares já partiu, com o novo equipamento, indispensável.

  A escala, a bordo do Novos Mares, em 1938

Então, depois de muitas procelas, maus bocados, aflições, preocupações, angústias, saudades da família, próprias deste tipo de vida rude e dura, ficou em terra, depois de cerca de quarenta anos de mar, apto a, em 1943, iniciar as suas funções de Avô. Adorava-me, estragava-me com mimos, levava-me com frequência à chegada das redes (artes), nas companhas da Costa Nova e, amiúde, no quadro da bicicleta, à seca, na Gafanha da Nazaré. Bonacheirão, bondoso, humano e afável, empreendedor e trabalhador, entregou-se, após as fainas do mar, às visitas sistemáticas à firma de que fora um dos sócios fundadores. As lides agrícolas ali, no quintal do Curtido de Baixo, ocupavam-lhe o resto do tempo. Deixou marcas profundas na minha existência e, além das colheres do Titanic, ainda hoje, guardo, com afecto, alguns dos instrumentos náuticos de seu uso pessoal – em tempo incerto, não saio sem consultar o barómetro que fora seu. Curiosa, a diversidade de navios em que embarcou. Daí, não ter sido fácil, mas atractivo e apelativo, articular as informações.
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Ílhavo, 4 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 3 de abril de 2009

As "viagens " do Avô Pisco - II



1921 a 1926 – Mudou para os navios da Praça de Aveiro, começando por comandar o lugre Silvina.

Lugre Silvina, frente à seca


O Silvina, lugre com motor, de madeira, foi construído em 1919 por Manuel Maria Bolais Mónica para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., de Aveiro. Em 1928 passa a ser propriedade de Testa & Cunhas, Lda. Naufraga, devido a incêndio, em 1941, no Grande Banco da Terra Nova.

1927 – Foi capitão do lugre Laura, porventura, capitão orientador (?) e vigilante da reconstrução a que o navio foi submetido nesse ano, passando a ser em 1928, o Cruz de Malta.

Entre Laura e Cruz de Malta – 1927

1928 a 1937 – Capitaneou o Cruz de Malta.

A este lugre, dediquei um extenso post, neste blog.

O Cruz de Malta, em tempo de guerra…


1938 a 1942 (inclusive) - Fez a viagem inaugural no lugre de quatro mastros Novos Mares, sobre o qual já escrevi o post, O “velhinho” Novos Mares.

O Novos Mares a entrar em Leixões – Fotomar


Por informação do Jornal de Notícias de 8.12.1938, tive conhecimento de que o Novos Mares, no dia anterior, ao entrar a nossa barra e ao passar a restinga, encalhou, pelo que os restantes cinco navios, que aguardavam fora do porto, ficaram para o dia seguinte. Este encalhe, felizmente sem consequências, foi originado pelo lamentável estado da barra, agudizado pela não existência de motor, a bordo. Na campanha de 39, embora um pouco mais tardiamente, o Novos Mares já partiu, com o novo equipamento, indispensável.

E aí, depois de muitas procelas, maus bocados, aflições, preocupações, angústias, saudades da família, próprias deste tipo de vida rude e dura, ficou em terra, depois de trinta e quatro anos de mar, apto a, em 1943, iniciar as suas funções de Avô. Adorava-me, “estragava-me” com mimos, levava-me com frequência à chegada das redes, nas companhas da Costa-Nova e, amiúde, no quadro da bicicleta, à seca, na Gafanha da Nazaré. Bonacheirão, bondoso, humano e afável, empreendedor e trabalhador, entregou-se, após as fainas do mar, às visitas sistemáticas à firma Testa & Cunhas de que fora sócio-fundador, em 16 de Dezembro de 1927. As lides agrícolas ali, no quintal do Curtido de Baixo, ocupavam-lhe o resto do tempo. Deixou marcas profundas na minha existência e, ainda hoje, guardo, com carinho, alguns dos instrumentos náuticos de seu uso pessoal.
Foi curiosa a diversidade de navios em que ele embarcou. Daí, não ter sido fácil, mas atractivo e apelativo, articular as informações.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora, com a colaboração de vários Amigos


Ílhavo, 3 de Abril de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 29 de março de 2009

As "viagens" do Avô Pisco - I



Andava há imenso tempo a tentar reconstituir o curriculum marítimo de Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco), meu Avô (1885 – 1953), mas, dos primeiros anos, não sabia praticamente nada. Ainda ninguém me tinha conseguido ajudar a preencher as lacunas que eu tinha. Quem espera sempre alcança. Parece que chegou a ocasião agora, graças ao precioso trabalho de pesquisa levado a efeito pelo amigo Reimar e ao apoio que me deu.

O Avô Pisco comandou o iate Mondego, com 23 anos, de 1908 a 1911.

O iate Mondego (1908 – 1917) foi construído em Setúbal, com o nome de Novo Flôr em 1899. A partir de 1908, passou a chamar-se Mondego, na Sociedade Pescarias Foz do Mondego e, posteriormente, ainda usou os nomes Nazareth e Apollo, passando por mais empresas.
Com um comprimento de cerca de 31 metros, 8,06 m. de boca e 3,17 m. de pontal, acolhia uma tripulação de 24 homens.

O iate Mondego, in Ilustração Portuguesa


Naufragou durante a viagem dos bancos da Terra Nova para Aveiro, em 1924.

1912 e 1913 – Comandou o lugre Golphinho, da Figueira da Foz.


Lugre Golphinho


1914 – Naufragou no Golphinho, tendo perdido o navio, por colisão com uma ilha de gelo – assunto já divulgado neste blog.


1915 a 1917 – Comandou o lugre-escuna Figueira.

O lugre-escuna Figueira foi construído em Inglaterra em 1904, tendo sido o ex-Becca and Mary, até 1913 e, então registado, na Figueira da Foz.
Com o comprimento de 32, 34 metros, 7 metros de boca e 3,40 m. de pontal, não tinha motor auxiliar. Além de Manoel Simões da Barbeira, nele embarcaram também os seguintes capitães: João dos Santos Redondo (1913 e 1914), Manoel Carlos Fingre (1918) e Amandio Fernandes Mathias (1919).
Foi vendido ao capitão de Ílhavo, António José dos Santos, tendo sido registado em Aveiro, passando a ser o Alcion, em 1920.
Na campanha de 1945, propriedade da Empresa Comercial & Industrial de Pesca “Pescal”, passou a denominar-se Lousado. Naufragou, com água aberta, em 1953, no Virgin Rocks.

1918 – Capitaneou o lugre Voador, da Figueira da Foz.

O lugre de madeira Voador construído em Fão, por António Dias dos Santos, para a Sociedade de Pesca Oceano, da Figueira da Foz, foi lançado à água em 26.9.1911. A Gazeta da Figueira de 26 de Outubro de 1912 refere que, a reboque do vapor Liberal, entrou a barra da Figueira, em Outubro, o lugre Voador. Apesar de construído em Esposende, este navio veio em casco e os últimos acabamentos, incluindo os mastros, teriam sido feitos na Figueira.

Com um comprimento entre perpendiculares de 40, 53 metros, boca de 9, 18 m. e pontal de 3,87 m., não tinha motor auxiliar e albergava 19 tripulantes.

Efectuou a última campanha em 1930.

Lugre Voador


Esta foi uma das fotografias, relíquia do passado, que juntamente com a do Golfinho ornamentavam as paredes de uma das recoletas da casa de praia que foi dos meus avós, na Costa-Nova, demolidas em 1991.

Adquirido o supra-citado navio, na campanha de 1934, pela firma Ribaus & Vilarinho, Lda., da Gafanha da Nazaré, viria a ser o Navegante Segundo, até 1949, ano em que naufragou com água aberta, no Virgin Rocks.

1919 – Foi o segundo capitão do lugre-patacho Gazela Primeiro.


Aos ilhavenses que capitanearam este emblemático lugre, já foi dedicado um post, neste blog.

Gazela Primeiro - F.Baier


1920 – Não foi possível, até à data, localizar em que navio prestou serviço, ou, se, porventura, ficou em terra, o que não creio muito.

(Cont.)

Fotografias – Arquivo pessoal da autora, com a colaboração de vários Amigos

Ílhavo, 29 de Março de 2009

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O naufrágio do CAPITÃO PISCO...





Era uma bela tarde, quente e calma, de Agosto, do ano de 1970. A família, de férias, gozava-as, em pleno, na Costa-Nova. Naquele dia, a nossa tarde foi diferente, tonificante e emotiva. As quatro gerações presentes – Avó, Mãe, eu e o meu filho mais velho – e restantes elementos da família preparavam-se para uma ida a S. Jacinto. Não era piquenique, nem uma ida às camarinhas, passeios estivais também bastante agradáveis. Mais raro e emocionante – o bota-abaixo de um arrastão costeiro, nos Estaleiros de São Jacinto. É uma “estória” muito recente que já tem um grande peso na nossa história. As pessoas e as coisas que já mudaram de cenário!
E quando o arrastão se chamava CAPITÃO PISCO, a carga emotiva, para todos nós, era muito mais forte. Ler mais aqui.

De carro até ao Forte, na lancha da carreira até S. Jacinto, que belo passeio! É sempre agradável ver o Farol numa perspectiva diferente e passar pela entrada da Barra, com a sua forte corrente de águas cristalinas, espumantes e límpidas…

Claro que um bota-abaixo, naquele tempo, de um pequeno arrastão costeiro, não tinha nada a ver com as encenações conseguidas, em anos anteriores, nos Estaleiros Mónica. Só que a emoção de um navio que rasga, pela primeira vez, as calmas águas da ria…ninguém lha tira…
A construção, em aço, nº 85 do estaleiro, de 32 metros de comprimento, destinava-se à pesca costeira com redes de arrasto.
A minha Avó “amadrinhou” a nova unidade, emocionando-se mais intimamente com o acto; trouxe, por gentileza da administração do estaleiro, um belo embrulho de papel colorido e laçarote sedoso e enovelado, cuja peça envolvida ainda hoje me faz parar diante dela, pela sua beleza e significado afectivo.




Lá estou eu a perder-me com as cerimónias de bota-abaixo…Fixemos o objectivo – o naufrágio do CAPITÃO PISCO.

No primeiro de Janeiro de 1986, quando dava os últimos retoques à mesa, para o almoço de boas-vindas ao Novo Ano, toca o telefone… Está? O que acabei de ouvir, pela voz perturbada do Dr. Cunha?...
Sem perdas pessoais, até porque, na altura, não estava ninguém a bordo, o CAPITÃO PISCO naufragara. Faz, exactamente, hoje, vinte e três anos.
Como fora, como não fora…Todos comentámos que o Novo Ano (1986) estava a começar com “óptimas” entradas…

Junto à Marginal da Figueira da Foz, onde hoje é o porto comercial, durante a invernosa noite, o Capitão Pisco estava atracado por fora do Santa Mãe Laura, arrastão igualmente costeiro, pertença da empresa de pesca Sociedade Brasília.

Por força da corrente, na vazante, os cabos do Santa Mãe Laura partiram-se e os dois navios foram de enxurrada, com a força da correntia, pela barra fora, quais brinquedos de criança.
O Santa Mãe Laura estatelou-se nas pedras do molhe e partiu-se de imediato – era de madeira.
O Capitão Pisco saiu a Barra, contornou o molhe e foi encalhar no Cabedelo, a sul da Figueira da Foz.
O mestre pedira para o levarem para bordo, de helicóptero, a ele e ao motorista, mas, impossível, devido às péssimas condições de tempo e mar. Ali ficou, meses e meses, dado como perdido.

A mútua considerou a perda total do navio e indemnizou a empresa, tendo ficado com os salvados que vendeu.
Com o alvará, construiu-se, para substituição da unidade, no Estaleiro Naval do Mondego, na Figueira da Foz, o arrastão costeiro para crustáceos Cygnus.
Fiquei, mais tarde, com um salvado de grande importância afectiva para mim, o sino, embelezado por um primoroso trabalho de marinharia.

Além de alindar a entrada da casa de praia, anuncia visitas e serve de mote a uma história “verdadeira” para os netos. Era uma vez… um barquinho verde, que, numa noite de mau tempo, ….
No domingo seguinte, num soalheiro, mas frio dia de inverno, eu e o Miguel fomos “ver para crer” e imortalizámos as chapas com que deparámos nas “chapas que batemos”.

Comentários para quê?


O Capitão Pisco encalhado

No baixa-mar



No preia-mar


O belo horrível…


Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 1 de Janeiro de 2009

Ana Maria Lopes