quinta-feira, 9 de março de 2017
Homens do Mar - Manuel Simões da Barbeira - 30
sexta-feira, 3 de abril de 2009
As "viagens " do Avô Pisco - II
1921 a 1926 – Mudou para os navios da Praça de Aveiro, começando por comandar o lugre Silvina.
Lugre Silvina, frente à secaO Silvina, lugre com motor, de madeira, foi construído em 1919 por Manuel Maria Bolais Mónica para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., de Aveiro. Em 1928 passa a ser propriedade de Testa & Cunhas, Lda. Naufraga, devido a incêndio, em 1941, no Grande Banco da Terra Nova.
1927 – Foi capitão do lugre Laura, porventura, capitão orientador (?) e vigilante da reconstrução a que o navio foi submetido nesse ano, passando a ser em 1928, o Cruz de Malta.
Entre Laura e Cruz de Malta – 1927
1928 a 1937 – Capitaneou o Cruz de Malta.
A este lugre, dediquei um extenso post, neste blog.
O Cruz de Malta, em tempo de guerra…
1938 a 1942 (inclusive) - Fez a viagem inaugural no lugre de quatro mastros Novos Mares, sobre o qual já escrevi o post, O “velhinho” Novos Mares.
O Novos Mares a entrar em Leixões – Fotomar
Por informação do Jornal de Notícias de 8.12.1938, tive conhecimento de que o Novos Mares, no dia anterior, ao entrar a nossa barra e ao passar a restinga, encalhou, pelo que os restantes cinco navios, que aguardavam fora do porto, ficaram para o dia seguinte. Este encalhe, felizmente sem consequências, foi originado pelo lamentável estado da barra, agudizado pela não existência de motor, a bordo. Na campanha de 39, embora um pouco mais tardiamente, o Novos Mares já partiu, com o novo equipamento, indispensável.
E aí, depois de muitas procelas, maus bocados, aflições, preocupações, angústias, saudades da família, próprias deste tipo de vida rude e dura, ficou em terra, depois de trinta e quatro anos de mar, apto a, em 1943, iniciar as suas funções de Avô. Adorava-me, “estragava-me” com mimos, levava-me com frequência à chegada das redes, nas companhas da Costa-Nova e, amiúde, no quadro da bicicleta, à seca, na Gafanha da Nazaré. Bonacheirão, bondoso, humano e afável, empreendedor e trabalhador, entregou-se, após as fainas do mar, às visitas sistemáticas à firma Testa & Cunhas de que fora sócio-fundador, em 16 de Dezembro de 1927. As lides agrícolas ali, no quintal do Curtido de Baixo, ocupavam-lhe o resto do tempo. Deixou marcas profundas na minha existência e, ainda hoje, guardo, com carinho, alguns dos instrumentos náuticos de seu uso pessoal.
Foi curiosa a diversidade de navios em que ele embarcou. Daí, não ter sido fácil, mas atractivo e apelativo, articular as informações.
Fotografias – Arquivo pessoal da autora, com a colaboração de vários Amigos
Ílhavo, 3 de Abril de 2009
Ana Maria Lopes
domingo, 29 de março de 2009
As "viagens" do Avô Pisco - I
Andava há imenso tempo a tentar reconstituir o curriculum marítimo de Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco), meu Avô (1885 – 1953), mas, dos primeiros anos, não sabia praticamente nada. Ainda ninguém me tinha conseguido ajudar a preencher as lacunas que eu tinha. Quem espera sempre alcança. Parece que chegou a ocasião agora, graças ao precioso trabalho de pesquisa levado a efeito pelo amigo Reimar e ao apoio que me deu.
O Avô Pisco comandou o iate Mondego, com 23 anos, de 1908 a 1911.
O iate Mondego (1908 – 1917) foi construído em Setúbal, com o nome de Novo Flôr em 1899. A partir de 1908, passou a chamar-se Mondego, na Sociedade Pescarias Foz do Mondego e, posteriormente, ainda usou os nomes Nazareth e Apollo, passando por mais empresas.
Com um comprimento de cerca de 31 metros, 8,06 m. de boca e 3,17 m. de pontal, acolhia uma tripulação de 24 homens.
O iate Mondego, in Ilustração Portuguesa
Naufragou durante a viagem dos bancos da Terra Nova para Aveiro, em 1924.
1912 e 1913 – Comandou o lugre Golphinho, da Figueira da Foz.
Lugre Golphinho
1914 – Naufragou no Golphinho, tendo perdido o navio, por colisão com uma ilha de gelo – assunto já divulgado neste blog.
1915 a 1917 – Comandou o lugre-escuna Figueira.
O lugre-escuna Figueira foi construído em Inglaterra em 1904, tendo sido o ex-Becca and Mary, até 1913 e, então registado, na Figueira da Foz.
Com o comprimento de 32, 34 metros, 7 metros de boca e 3,40 m. de pontal, não tinha motor auxiliar. Além de Manoel Simões da Barbeira, nele embarcaram também os seguintes capitães: João dos Santos Redondo (1913 e 1914), Manoel Carlos Fingre (1918) e Amandio Fernandes Mathias (1919).
Foi vendido ao capitão de Ílhavo, António José dos Santos, tendo sido registado em Aveiro, passando a ser o Alcion, em 1920.
Na campanha de 1945, propriedade da Empresa Comercial & Industrial de Pesca “Pescal”, passou a denominar-se Lousado. Naufragou, com água aberta, em 1953, no Virgin Rocks.
1918 – Capitaneou o lugre Voador, da Figueira da Foz.
O lugre de madeira Voador construído em Fão, por António Dias dos Santos, para a Sociedade de Pesca Oceano, da Figueira da Foz, foi lançado à água em 26.9.1911. A Gazeta da Figueira de 26 de Outubro de 1912 refere que, a reboque do vapor Liberal, entrou a barra da Figueira, em Outubro, o lugre Voador. Apesar de construído em Esposende, este navio veio em casco e os últimos acabamentos, incluindo os mastros, teriam sido feitos na Figueira.
Com um comprimento entre perpendiculares de 40, 53 metros, boca de 9, 18 m. e pontal de 3,87 m., não tinha motor auxiliar e albergava 19 tripulantes.
Efectuou a última campanha em 1930.
Lugre Voador
Esta foi uma das fotografias, relíquia do passado, que juntamente com a do Golfinho ornamentavam as paredes de uma das recoletas da casa de praia que foi dos meus avós, na Costa-Nova, demolidas em 1991.
Adquirido o supra-citado navio, na campanha de 1934, pela firma Ribaus & Vilarinho, Lda., da Gafanha da Nazaré, viria a ser o Navegante Segundo, até 1949, ano em que naufragou com água aberta, no Virgin Rocks.
1919 – Foi o segundo capitão do lugre-patacho Gazela Primeiro.
Aos ilhavenses que capitanearam este emblemático lugre, já foi dedicado um post, neste blog.
Gazela Primeiro - F.Baier
1920 – Não foi possível, até à data, localizar em que navio prestou serviço, ou, se, porventura, ficou em terra, o que não creio muito.
(Cont.)
Fotografias – Arquivo pessoal da autora, com a colaboração de vários Amigos
Ílhavo, 29 de Março de 2009
Ana Maria Lopes
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
O naufrágio do CAPITÃO PISCO...
Era uma bela tarde, quente e calma, de Agosto, do ano de 1970. A família, de férias, gozava-as, em pleno, na Costa-Nova. Naquele dia, a nossa tarde foi diferente, tonificante e emotiva. As quatro gerações presentes – Avó, Mãe, eu e o meu filho mais velho – e restantes elementos da família preparavam-se para uma ida a S. Jacinto. Não era piquenique, nem uma ida às camarinhas, passeios estivais também bastante agradáveis. Mais raro e emocionante – o bota-abaixo de um arrastão costeiro, nos Estaleiros de São Jacinto. É uma “estória” muito recente que já tem um grande peso na nossa história. As pessoas e as coisas que já mudaram de cenário!
E quando o arrastão se chamava CAPITÃO PISCO, a carga emotiva, para todos nós, era muito mais forte. Ler mais aqui.
De carro até ao Forte, na lancha da carreira até S. Jacinto, que belo passeio! É sempre agradável ver o Farol numa perspectiva diferente e passar pela entrada da Barra, com a sua forte corrente de águas cristalinas, espumantes e límpidas…
Claro que um bota-abaixo, naquele tempo, de um pequeno arrastão costeiro, não tinha nada a ver com as encenações conseguidas, em anos anteriores, nos Estaleiros Mónica. Só que a emoção de um navio que rasga, pela primeira vez, as calmas águas da ria…ninguém lha tira…
A construção, em aço, nº 85 do estaleiro, de 32 metros de comprimento, destinava-se à pesca costeira com redes de arrasto.
A minha Avó “amadrinhou” a nova unidade, emocionando-se mais intimamente com o acto; trouxe, por gentileza da administração do estaleiro, um belo embrulho de papel colorido e laçarote sedoso e enovelado, cuja peça envolvida ainda hoje me faz parar diante dela, pela sua beleza e significado afectivo.
Lá estou eu a perder-me com as cerimónias de bota-abaixo…Fixemos o objectivo – o naufrágio do CAPITÃO PISCO.
No primeiro de Janeiro de 1986, quando dava os últimos retoques à mesa, para o almoço de boas-vindas ao Novo Ano, toca o telefone… Está? O que acabei de ouvir, pela voz perturbada do Dr. Cunha?...
Sem perdas pessoais, até porque, na altura, não estava ninguém a bordo, o CAPITÃO PISCO naufragara. Faz, exactamente, hoje, vinte e três anos.
Como fora, como não fora…Todos comentámos que o Novo Ano (1986) estava a começar com “óptimas” entradas…
Junto à Marginal da Figueira da Foz, onde hoje é o porto comercial, durante a invernosa noite, o Capitão Pisco estava atracado por fora do Santa Mãe Laura, arrastão igualmente costeiro, pertença da empresa de pesca Sociedade Brasília.
Por força da corrente, na vazante, os cabos do Santa Mãe Laura partiram-se e os dois navios foram de enxurrada, com a força da correntia, pela barra fora, quais brinquedos de criança.
O Santa Mãe Laura estatelou-se nas pedras do molhe e partiu-se de imediato – era de madeira.
O Capitão Pisco saiu a Barra, contornou o molhe e foi encalhar no Cabedelo, a sul da Figueira da Foz.
O mestre pedira para o levarem para bordo, de helicóptero, a ele e ao motorista, mas, impossível, devido às péssimas condições de tempo e mar. Ali ficou, meses e meses, dado como perdido.
A mútua considerou a perda total do navio e indemnizou a empresa, tendo ficado com os salvados que vendeu.
Com o alvará, construiu-se, para substituição da unidade, no Estaleiro Naval do Mondego, na Figueira da Foz, o arrastão costeiro para crustáceos Cygnus.
Fiquei, mais tarde, com um salvado de grande importância afectiva para mim, o sino, embelezado por um primoroso trabalho de marinharia.
Além de alindar a entrada da casa de praia, anuncia visitas e serve de mote a uma história “verdadeira” para os netos. Era uma vez… um barquinho verde, que, numa noite de mau tempo, ….
No domingo seguinte, num soalheiro, mas frio dia de inverno, eu e o Miguel fomos “ver para crer” e imortalizámos as chapas com que deparámos nas “chapas que batemos”.
Comentários para quê?

Imagens – Arquivo pessoal da autora
Ílhavo, 1 de Janeiro de 2009
Ana Maria Lopes








