terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O palhabote Orion

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Sempre me despertou a atenção o nome do lugre Orion, pela beleza da denominação (na mitologia grega, foi um gigante caçador colocado por Zeus entre as estrelas na forma da constelação, Orion), pela elegância das imagens conhecidas do navio e pela curiosidade do lugar em que foi construído, um estaleiro em Aveiro, exactamente junto à ponte da Dobadoura, no lado oposto ao Rossio, em pleno coração da cidade, onde hoje se encontra o monumento à Aviação Naval. É agradável por lá passar, reconhecer as casas, ainda pertencentes à época e imaginar a azáfama que teria caracterizado o local, enquanto estaleiro.
Excerto curioso da notícia dada pelo jornal «O Democrata» de 31.7.1920, com respeito pela ortografia da época:

«(…)A operação, que foi observada por milhares de pessoas estendidas pelas duas margens da ria, que ofereciam espectáculo na verdade admirável, correu perfeitamente, entrando o barco na agua entre estrepitosas palmas, vivas, entusiasmo que avassalou toda a gente a maior parte da qual se descobriu acenando com chapeos e lenços para bordo do barco onde eram queimados inúmeros foguetes.
Pouco depois a empreza recebia os seus convidados a quem ofereceu um abundante copo dagua, levantando-se por essa ocasião vários brindes, calorosamente correspondidos (…)».


O palhabote Orion, em dia de bota-abaixo


O palhabote Orion, construído por José Maria de Lemos, de Aveiro, para o armador Lemos, Sobreiro & Cª, Ldª, também de Aveiro, teve o seu bota-abaixo no dia 25 de Julho de 1920.
Com um comprimento entre perpendiculares de 30, 80 metros, boca de 8, 34 m. e pontal de 3, 40 m., tinha uma tonelagem bruta de 183,32 e líquida de 130,83 toneladas.
Não possuía motor auxiliar.

Durante os anos de 1921 e 22, foi governado pelo capitão ilhavense Aquiles Gonçalves Bilelo (1887 – 1962).


O Orion atracado no Cais das Pirâmides

O elegante navio, de dois mastros, nos anos 1923 e 1924, passou a pertencer ao armador Bagão, Nunes & Machado, Lda., de Lisboa, continuando a ser comandado pelo saudoso Capitão Aquiles Bilelo.
Entre os anos 1925 e 1934, pertença ainda do mesmo armador de Lisboa, a estrutura do Orion alterou-se, tendo-lhe sido aplicado um terceiro mastro, com o objectivo de lhe melhorar a velocidade, pois continuava sem motor auxiliar.
Surgiu, então, o lugre Orion, também com modificação de dimensões: comprimento entre perpendiculares de 34, 20 metros, boca de 8,40 m. e pontal de 3,40 m.

O capitão Aquiles continuou a capitaneá-lo até 1929. Em 1928, foi piloto o oficial José Vaz.

Lugre Orion


Em 1934, passou a pertencer ao armador Amândio F. Matias Lau, de Aveiro, tendo sido empregue na pesca costeira.
Entre 1935 e 45, esteve na posse da Sociedade de Navegação Costeira Nossa Senhora da Agonia, Lda., de Viana do Castelo. Sempre sem motor auxiliar e com uma tripulação de 9 tripulantes, foi utilizado no tráfego costeiro internacional.
Manteve-se em serviço activo e regular até naufragar em condições de grande temporal, a cerca de 10 milhas de Alger, em 19. 12. 1945.

A tripulação conseguiu salvar-se nas baleeiras do navio.
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Fotografias – Arquivo H. Ramos, Arquivo Digital de Aveiro, espólio de Morais Sarmento, e a do lugre, amavelmente cedida pelo MMI.

Ílhavo, 28 de Dezembro de 2010
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Ana Maria Lopes
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domingo, 19 de dezembro de 2010

O lugre Silvina

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À laia de Boas-Festas para todos os meus Amigos, leitores e apreciadores, vou hoje explanar o lugre Silvina, para lembrar o bacalhau do Natal. Escolham-no, pois, directamente da seca, para a noite de Consoada.

O lugre Silvina, registado em Aveiro, foi construído na Gafanha da Nazaré, em 1919, por Manuel Maria Bolais Mónica, com o nome de Águia, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, tendo sido o bota-abaixo a 4 de Outubro de 1919. Era um lugre com três mastros, de madeira, proa de beque, popa de painel e um pavimento.


Dia de bota-abaixo do lugre Águia (1919)

Media de comprimento, entre perpendiculares, 35,50 metros, 8,80 m. de boca e 3,60 de pontal. Tinha uma arqueação bruta de 212, 33 toneladas e líquida de 169,88.
Não tinha motor auxiliar e a tripulação era, em média, de quarenta homens.
Em 1920, foi comprado por 75 000$00, pelo Sr. João Bola, para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, em Aveiro, para quem já efectuou a campanha em causa, com o nome de Silvina.

Surge com características ligeiramente diferentes: 40, 42 metros de comprimento, fora a fora, 34,67, entre perpendiculares, 8,92 m. de boca e 3,62 de pontal. A arqueação bruta era de 207,76 toneladas e líquida de 152,65.

Foi vendido à empresa Agualuza & Batata, Lda., de Aveiro, em 1927, ficando este contrato anulado, face à compra da totalidade dos bens do armador pela firma Testa & Cunhas, ainda durante o ano de 1927, tendo-lhe sido atribuído o valor de 250 000$00 (escritura em 20.12.1927).

De 1920 a 1926, foi comandado por Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco, de alcunha) e em 1927, por António de Souza.
Já na posse de Testa & Cunhas, foi capitão em 1928, Ambrósio Gordinho, e em 1929, António de Souza (ou, eventualmente, Manuel dos Santos Labrincha).

Curiosidades:

Nos anos de 1928, 1929 e 1930, o navio foi à Terra Nova com 37, 37 e 36 tripulantes, respectivamente, tendo utilizando sempre 32 dóris. Nestas campanhas de fracas capturas, foram apurados apenas 1.148, 1.400 e 835 quintais de peixe e 1.100, 2000 e 1.200 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a venda foi de 140.000$00, 172.000$00 e 102.000$00 (escudos), certamente muito abaixo das melhores perspectivas, resultando daí um considerável prejuízo.

Daí resultou o navio não ter feito as viagens seguintes.
Na acta de 7 de Dezembro de 1932 da firma Testa & Cunhas, Lda., os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do Ernani e Cruz de Malta.

Decidiram ainda anunciar a venda do navio Silvina, entendendo que o podiam dispensar. Todos concordaram, desde que se pudesse efectuar em boas ou regulares condições, ficando a gerência autorizada a promover a sua venda.

Segue:
Depois de elaborado o presente relatório (acta de 11 de Agosto de 1934), chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre Ernani nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores. Uma dificuldade surge.

Como suprir a baixa daquela unidade?
Três soluções se apresentam:

1ª – Reparar e apetrechar o Silvina
2ª – Adquirir um navio já feito
3ª – Mandar construir um navio novo

Resolveu-se reparar o lugre Silvina, de modo a estar pronto para a futura safra (para o que foram gastos cerca de 50 contos), obtendo a Gerência informação dos barcos que se ofereçam em boas condições, quer no país, quer no estrangeiro e ainda de um orçamento para um barco novo.


Foto do Silvina, frente à seca


Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. Quem oferece melhores garantias de técnicas é o Senhor Manoel Maria Mónica, que tem dado provas da sua competência e idoneidade. A proposta foi construir um lugre segundo o modelo do Brites (1936), com a introdução de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, pelo preço de 640 contos. A aquisição do motor Diesel ficaria a cargo da gerência.

 

Encomendado em fins de 1936, o Novos Mares, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré.

O Silvina foi prosseguindo a sua difícil missão, capitaneado por Joaquim F. Agualuza (de 1935 a 1937) e José Cachim Júnior (de 1938 até 1941), até que viu o seu fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941.

Quem quiser recordar, pormenorizadamente, este acidente, poderá ler as páginas a ele dedicadas (103 a 116 da reedição de 2007), escritas por Jorge Simões, em prosa da época, «O Silvina em chamas», no livro Os Grandes Trabalhadores do Mar. O jornalista fez a campanha de 1941, a bordo do «Groenlândia», para a observação da faina e recolha de dados.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 19 de Dezembro de 2010

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Mercantela «Os Velhotes» - Ria de Aveiro

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Quantas mais embarcações ainda faltarão? Muito poucas. Eis o texto com que Marques da Silva faz acompanhar o seu último modelo:

A mercantela, embarcação que foi muito usada na Ria de Aveiro, não é mais do que um barco mercantel ou saleiro, mas de menores dimensões.

Aplicava-se no transporte de mercadorias e pessoas, entre as diferentes povoações banhadas pelas águas da ria. Navegava à vela ou à vara, não possuindo qualquer dispositivo para aplicação de remos.

Recordando o meu tempo do Liceu de Aveiro, estou a ver o Canal Central cheio de mercantelas e moliceiros, que, na época das cebolas e depois na das melancias, enchiam o cais com estes produtos, que ali mesmo eram vendidos.

Também nos dias da Feira dos Vinte e Oito, nas margens do Canal do Cojo, estas embarcações descarregavam os produtos que os lavradores traziam para vender, carregando depois os artigos que eles compravam para suas casas.
Era ainda possível ver as mercantelas a trabalharem como berbigoeiras, moliceiras ou barcas de passagem.


Travessia nos anos 80

Foi neste último trabalho que se ocupou a que estamos a recordar e que tinha por nome Os Velhotes, os irmãos Ti Adelino e Manel Ameixa.

Construída toscamente no Seixo de Mira pelo Sr. Evangelista Loureiro (o Gadelha), tinha a matrícula A738TL. Transportou pessoas e coisas entre os embarcadouros da Gafanha da Encarnação e da praia da Costa Nova, quase até aos nossos dias. Foi, então, adquirida pela Câmara de Ílhavo que a implantou na placa central da rotunda da Estrada da Mota.


Verificando que já era muito reduzido o número de mercantelas que se podia observar, resolvi ir a esta rotunda e, aí recolher, apesar do mau estado da embarcação, todas as medidas e informações que me permitiram fazer um plano para execução do seu correcto modelo.

Comprimento sem leme…………....… 11, 58 metros
Boca…………………………...….…….….2, 27 m
Pontal…………………………...………….0,72 m
Número de cavernas……..………......……...22

O modelo


Construí a minha mercantela na escala de 1/25, aplicando madeira de tola no fundo e de choupo nos costados, paneiros, bancadas e leme. Nas cavernas, rodas e traste, usei ramos de limoeiro. Para o mastro e verga, ramos de ameixieira. Para a vela, pano de algodão e para as ferragens e fateixa, arame de cobre.


Pormenor do interior da proa


Procurei fazer a pintura com as cores originais e as ornamentações o mais parecidas que me foi possível.

Caxias, Novembro de 2010

António Marques da Silva



Para além do valor desta pequena miniatura, com o peso que agora vai tendo nos Museus o modelismo náutico, não poderia deixar de divulgar esta pequena «jóia» do maquetismo.
Ainda consegui arranjar mais um trabalhinho para o Amigo Marques da Silva. Por que não uma bateira de recreio, apitorrada, própria para filhas de Capitães de Ílhavo, a que me liga tanto afecto? A ver vamos.

Fotografias da autora do Blog

Ílhavo, 10 de Dezembro de 2010

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Atlântico - Navio perdido e imagem encontrada

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Repescando…O lugre Atlântico naufragou por encalhe a sul da barra de Aveiro, em 30 de Outubro de 1925, por motivo de avaria no leme, tendo sido salvos todos os tripulantes.
Quando em post de 12 de Maio de 2009, AtlânticoNavio Perdido…, narrei o acidente, recordando o ex-Dolores, lamentei o facto de não ter encontrado nenhuma foto do encalhe.

Com a vazante da maré, iniciaram-se os trabalhos de recuperação dos salvados e de grande parte da carga, constituída por 2 200 quintais de bacalhau.

Ao local acorreram milhares e milhares de curiosos, de Ílhavo, Aveiro, Gafanhas, Costa-Nova, para verem o navio naufragado.

Pena é que entre tantos “mirones”, nenhum tivesse feito disparar a objectiva, de modo a que um documento visual tivesse chegado, hoje, até nós, para enriquecer a narrativa, já por si, tão forte e impressionante! – manifestava eu.

Eis que há dias o Amigo Reimar me presenteou com uma foto surpresa com o Atlântico encalhado. Quem espera sempre alcança.


In O Comércio do Porto


Fotografia amavelmente cedida por Reinaldo Delgado
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Ílhavo, 26 de Novembro de 2010
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Ana Maria Lopes
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domingo, 21 de novembro de 2010

A bordo...

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Pelos vistos, a bordo, também se brincava… Para a época (entre 1952 e 70), esta menina tão «sexy», pintada em vela de dóri, a bordo do Capitão João Vilarinho, não estava nada mal – atractivo decote, arrojada mini-saia e bota alta preta!!!!!!!!!!!!!

Que frio!!!!!!!!!!!!!!!

A bordo…

Fotografia – gentil cedência de J. P. Andrieux

Ílhavo, 21 de Novembro de 2010

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Apontamentos... sobre o painel do Gil Eannes, de Domingos Rebelo - 2

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Mas, acontece que em 1955, aquando do bota-abaixo do navio-hospital, foi editada em Lisboa uma brochura alusiva ao acto, que se tornou numa raridade bibliográfica.
Reproduz o óleo, com aparência praticamente igual, mas com algumas diferenças de pormenor:

Reprodução da obra, na citada brochura

Atentem, de novo, nas casinhas do bairro piscatório.
Notam alguma dissemelhança? Exercício de concentração… As casinhas, situadas em pleno terreiro, não têm a beleza nem a frescura dos jardins floridos.

Onde quererei chegar? Tem sido um percurso comparativo, minucioso e demorado…

Mas, entretanto, outra luta começara a ser travada pelo Presidente dos Amigos do Museu, que, em 1995, descobrira um segundo quadro de maiores dimensões (1,55x3,55 m.), praticamente igual, no Ministério do Mar, em Pedrouços, sendo Secretário de Estado das Pescas Marcelo de Vasconcelos.

Em 2002, redescobriu-o no Salão Nobre do Ministério da Agricultura e Pescas, no Terreiro do Paço, sendo então Ministro, o Engenheiro Sevinate Pinto.
A luta continuou. A burocracia era muita.

Aquando da tomada de posse do Ministro Costa Neves em Julho de 2004 e descentralização de certos serviços estatais, o referido quadro foi deslocado para a Secretaria de Estado e Desenvolvimento Rural, na Golegã, donde veio para o Museu de Ílhavo.

Em 23 de Janeiro de 2005 foi feita a entrega solene, a título de depósito, do quadro maior, denominado Família Piscatória (pela primeira vez é-lhe atribuído um título), ao Museu, pelo Ministro da Agricultura, através de um protocolo entre o Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas e a CMI, em que o Senhor Ministro referiu a intervenção persistente, durante 9 anos, de Aníbal Paião (Cfr. O Ilhavense de 1 Fevereiro de 2005).
E lá está exposto, desde essa altura, à esquerda, à entrada da Sala Capitão Francisco Marques.
E, então, que diferenças tem?
Pelo tamanho do quadro e questões técnicas, apenas consegui uma foto de pormenor da obra, com enfoque no que pretendia provar:

Pormenor das tais casinhas do bairro de pescadores

Então, qual a razão da existência de dois quadros, perfeitamente idênticos?

Como justificar as diferenças de pormenor nesta zona?

Na brochura sobre o Gil Eannes, editada em 55, que já referimos, surgiu uma reprodução do painel, com as casinhas de pescadores sem muros, nem jardins.

1. Terá o autor elaborado previamente uma aguarela ou gouache com as pequenas habitações sem muretes, que lhe terá servido de suporte aos trabalhos a óleo de grandes dimensões? É possível…mas desconhece-se o seu paradeiro.

Sendo Domingos Rebelo (1891-1971) supostamente considerado um pintor de regime e, tendo sido estas obras encomendas de Estado, é perfeitamente natural que alguma personalidade do governo de então lhe tivesse feito ver que as casinhas tinham que ser alindadas, adornadas com jardins floridos, para passar a mensagem que o Estado Novo sempre pretendeu fazer passar do bem-estar reinante entre a classe piscatória.
No quadro de maiores dimensões, até porque há mais espaço físico, as pequenas habitações têm ainda, em frente, canteiros verdejantes (Foto anterior, de pormenor).
Nesta imagem, uma observação detalhada acusa que o óleo maior sofreu, numa fase ligeiramente posterior, alguns repintes, nesta zona. Nota-se sob o muro, o traço primitivo só da casa.

2. Porquê a encomenda de dois quadros ao mesmo pintor, com a mesma data?

O de menores dimensões, temos a certeza, foi criado para decorar o Salão dos Oficiais do Gil Eannes.
O outro, pelo trajecto sofrido, imagino que terá sido uma obra para adorno de gabinete governamental.

3. Apesar do mesmo autor e ano, um terá sido original e o outro, cópia. Terá sido feito, primeiro, o destinado ao navio?
Imaginemos que sim. Este, apesar de menor, que, presentemente se encontra nas reservas do Museu, tem uma existência bem mais marcada por emoções e afectos, porque navegou durante cerca de vinte anos no navio-hospital da frota bacalhoeira (1955 – 1973).
É uma obra extremamente reproduzida em postais, brochuras, catálogos e livros, surgindo, nas três alternativas apontadas (sem muretes, nem jardins [1ª versão], com muros e jardins [2 ª versão] e ainda com canteiros exteriores floridos [3 ª versão]).

Um estudo de pigmento (cromático), conduzir-nos-ia a uma data exacta dos repintes, bem como do original e da cópia. Não me atrevo a exigir tanto…
Mais haveria a dissertar e a descobrir, mas chega de martirizar quem, porventura, teve a paciência de nos ler.

Fotografias de arquivo e gentil cedência do MMI

Ílhavo, 8 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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domingo, 14 de novembro de 2010

Apontamentos... sobre o painel do Gil Eannes, de Domingos Rebelo - 1

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Confesso que ando para dar corpo a este texto desde que criei o Marintimidades, mas vai ficando…, vai ficando, até que hoje veio a lume, neste dia invernoso de começo de Outono.


Interessará, possivelmente, a um número diminuto de leitores, mas despertou-me a curiosidade a mim, e creio que clarifica alguns pormenores, desconhecidos de outros, acerca do «Painel do Gil Eannes», existente no MMI.

Acontece (não será muito vulgar), que o MMI possui, no seu espólio, não um, mas dois quadros a óleo, muito idênticos, de grandes dimensões. Ambos assinados pelo por Domingos Rebêlo (assim assinava o artista), com o mesmo motivo, a mesma datação (1955), diferentes dimensões, com o mesmo tipo de suporte, platex, com finalidades diferentes…e alguns pormenores também distintos.

E se bisbilhotássemos e tentássemos clarificar?

Durante o ano de 1990 (tomara posse a 23 de Novembro), foi-se trocando diversa correspondência entre a CMI e a Comissão Liquidatária da Ex-CRCB, através da qual o Presidente da CMI manifestava o desejo de o painel decorativo da Câmara dos Oficiais do navio Gil Eannes, da autoria de Domingos Rebelo, 1955 (1,21x2,54 m.), alusivo à assistência que a Organização Corporativa prestara aos pescadores e suas famílias, passasse a integrar o espólio do Museu de Ílhavo.

Como elegia, que é, da pesca do bacalhau, com toda a gente que a serviu e rodeou, é uma obra que muito interessava ao acervo do Museu.

Depois de alguns contratempos e dificuldades, a 25 de Agosto de 1990, o Administrador Liquidatário da referida instituição comunicou à Direcção do Museu que a Direcção Geral do Património do Estado autorizara a entrega do quadro em causa ao nosso Museu, tendo dado entrada a 2 de Novembro de 1990.


O óleo de D. Rebelo, incorporado no MMI

Não fora incorporado na já arquitectada exposição temporária Faina Maior (inaugurada a 28 de Novembro de 1992), mas sim exposto a 2 de Abril de 1994, aquando da Reabertura do Museu com a Faina Maior transformada em exposição permanente, até ao encerramento temporário da instituição para remodelação (Agosto de 1999).

Reparem bem no exterior das casinhas do bairro de pescadores, à esquerda.

O óleo em exposição – 1994

Este mesmo óleo esteve exposto no  átrio do remodelado edifício, a partir de Março de 2002 e foi integrado na Exposição Estética e Ideologia da Faina Maior – 1º Acto, na Sala de Exposições do MMI, entre 2 de Agosto e 30 de Setembro do ano de 2003.


Convite


O pescador do bacalhau no seu ar místico e grandioso (figura central do quadro), mais parece um santo. É um antigo pescador de Vila Franca do Campo, Manuel Cafua, que foi modelo de alguns trabalhos de Domingos Rebelo.

(Cont.)

Ílhavo, 8 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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sábado, 6 de novembro de 2010

A Bateira do Mar «Carlitos»

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Nos princípios do mês de Agosto, vindo de Lisboa, o Amigo Marques da Silva mimoseou, por enquanto, a sua própria colecção de modelos com mais uma elegante e requintada miniatura. Ei-la:

A bateira do mar «CARLITOS», oferecida em 1985 ao Museu de Marinha pela companha «Os Marretas» do Torrão do Lameiro, é uma airosa embarcação, em tudo semelhante ao barco do mar de dois remos, mas de menores dimensões.


MMBateira do mar Carlitos

Temos conhecimento da existência de bateiras do mar nas companhas de pesca das praias da Beira Litoral, referidas no livro Os Saveiros do Dr. Manuel Leitão.
 
Contudo, os meus quase oitenta anos não me deram oportunidade de ter visto estas bateiras a trabalhar, mas eu também não conheci a praia do Torrão do Lameiro, que fica entre a Torreira e o Furadouro, no concelho de Ovar.

Vi bateiras do mar a pescar na praia de Esmoriz em 1958, com a rede de mugiganga, para apanhar camarão, mas mais pequenas e mais leves do que a «Carlitos».

Na recolha efectuada pela Dr.ª. Ana Maria Lopes para o seu livro O Vocabulário Marítimo Português…, encontramos, na página 108, a fotografia de uma bateira do mar, na praia da Costa Nova. Esta imagem é sem dúvida a do tipo de bateira que eu recordo, muito parecida com a que vi em Esmoriz.

Tenho também na memória as «bateiras de ir ao mar», que, em miúdo, via chegar à praia de S. Jacinto, carregadas de caranguejo, o chamado «pilado».


Marques da Silva inicia o modelo

Na minha lembrança só ficou gravado que eram grandes, mas muito parecidas com as da ria que andavam à «chincha». Nunca as vi com vela ou vara. Deslocavam-se sempre a remos e com mais que dois remadores em cada remo.
 
As pinturas eram mais ou menos decorativas dependendo do gosto do arrais.

Noutro areal…

 
Na construção do modelo desta bateira, apliquei madeiras de tola no fundo, choupo nos costados, limoeiro nas cavernas, nas rodas de proa, de popa e bancadas. Nos remos, usei madeira de tola e nas ferragens da borda e nos escalamões, arame de cobre.


Pormenor

A escala é de 1/25, por ser a que entendi mais conveniente. Para o desenho de construção deste modelo, fiz um levantamento cuidadoso da bateira «Carlitos» que se encontra no Museu de Marinha e que tem as seguintes medidas:

 
Comprimento……………………………9.20 m


Boca……………………………………. 2.15 m


Pontal…………………………………....0.80 m


Número de cavernas. …………..…………18

Caxias, 01. 08. 2010

António Marques da Silva


Fotografias – Autora do Blog

Ílhavo, 5 de Novembro de 2010

Ana Maria Lopes
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domingo, 31 de outubro de 2010

Embarcações lagunares...em 1950

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Neste dia 31 de Outubro, em que todas as notícias amarguram, dia triste por natureza, em que o vento e a chuva de um dia invernoso, em pleno Outono, ajudam a complementar o cenário, que fazer, que, de alguma maneira, distraia das intempéries?

Tive o privilégio de ter ao meu alcance fotografias de Alan Villiers, relativas à Campanha do Argus, em 1950, para observar, comparar e tratar. Entre elas, esta chamou-me a atenção, e o cenário, ao autor, pelos vistos, também.
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A nossa Ria, na Gafanha da Nazaré, em 1950!

O tempora! O mores!
Que espectáculo!
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Não queria, por vezes, ser tão saudosista, no sentido algo negativo que, por vezes, querem atribuir ao termo.

Mas, hoje, já que se festeja o Halloween, ou, mais portuguesmente falando, o Dia das Bruxas (yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay), gostaria de ter poderes mágicos, que me permitissem, por instantes, rever a «nossa» Ria de outros tempos.
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Desfeito o feitiço, lá voltaria ao presente... presente este...com que futuro?
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Imagem – Alan Villiers
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Ílhavo, 31 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Marinha Portuguesa - Nove Séculos de História

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Ao fim da tarde de ontem, numa das mais nobres zonas de Lisboa, frente ao Tejo, teve lugar, no Museu de Marinha, a cerimónia do lançamento do livro da autoria do seu Director, Comandante José António Rodrigues Pereira, «Marinha Portuguesa – Nove Séculos de História», dado à estampa pelas Edições Culturais da Marinha, em aprimorada publicação de iconografia abundante.

Na presença do Senhor General Ramalho Eanes, Presidente da Comissão de Defesa Nacional, Dr. José Luís Arnaut, do Secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, Dr. Marcos Perestrello, do Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante Fernando Melo Gomes, e de outras autoridades, um vasto e atento público assistiu à sua apresentação pela professora Doutora Manuela Mendonça, Presidente da Academia Portuguesa de História, no Pavilhão das Galeotas, entre a rusticidade das embarcações tradicionais e a nobreza das embarcações reais.


Autor e apresentadora

Como refere o autor: Hoje, como antes, o Mar permanece como elemento fundamental para o futuro do País. Assim foi no Século XX com a criação da ZEE, assim será no Século XXI com a concretização do projecto de alargamento da plataforma continental, sempre com a Marinha na nobre missão de garantir aos portugueses o uso do seu mar.

A História da Marinha é uma História de Portugal vista do mar porque não é possível dissociar o Mar dos acontecimentos fundamentais da História do país.

Como afirma o Almirante Melo Gomes no Prefácio, a sua falta era sentida não só pelos marinheiros como pelos historiadores e investigadores que agora passam a dispor de uma obra de referência que apresenta também uma importante iconografia relacionada com o nosso passado.

Correspondendo a um desafio lançado pelo CEMA, em 2003, esta obra é o culminar de um processo de investigação iniciado pelo Comandante Rodrigues Pereira sobre a História da Marinha ao longo de nove séculos, que durou sete anos de pesquisa.

Neste livro de 643 páginas, reúnem-se, pela primeira vez, os acontecimentos mais importantes da nossa história marítima e o que representam para Portugal.

O Comandante Rodrigues Pereira entrou para a Escola Naval a 01 de Setembro de 1966 e especializou-se em electrotecnia em 1971-72, durante o seu percurso na Marinha. Prestou serviço em diversas unidades navais e em terra. Passou à reserva por limite de idade em 2005 e desde 07 de Fevereiro de 2006 é Director do Museu de Marinha.

Após a cerimónia, teve lugar a habitual sessão de autógrafos.


Rodrigues Pereira autografa o livro a Aníbal Paião

Além de ensinamentos que sempre se colhem, esta cerimónia proporcionou excelentes momentos de convívio entre os convidados.

Ílhavo, 28 de Outubro de 2010
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Preservação da barca da passagem

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Mas as memórias de outros tempos, homenageadas pela CMI não ficam por aqui...
Assistimos com frequência a vários Encontros que visam a preservação das embarcações tradicionais.

Ainda há pouco tempo, o tema SOMOS CAPAZES DE TRANSMITIR O PATRIMÓNIO MARÍTIMO ÀS GERAÇÕES FUTURAS? era debatido por estudiosos de cerca de quinze países, no Ecomuseu do Seixal.

A pseudo-solução de expor numa rotunda, a céu aberto, uma embarcação, é um convite urgente para uma morte anunciada. As diferenças de temperatura suportadas, o sol tórrido, a chuva fria, os vandalismos de hoje e a ausência de qualquer manutenção, aceleram o processo.

O interior da barca…2010


Vista de popa


Pormenor da proa


E magoa ver uma, outra, e outra, e muitas vezes em que passamos à rotunda da Estrada da Mota, a barca Os Velhotes, A 738 TL, a degradar-se, transformada num montão de lenha mais apropriada para ser consumida por labaredas.

E se isto me acontece a mim, que sentirá o Ti Manel, que, apesar da vetusta idade (89 anos) e dos achaques, ainda dá a sua voltinha de bicicleta até à Ria e até à barca? Que solução lhe dar?

Seremos nós capazes de preservar todas as embarcações tradicionais de que gostamos e que fazem parte das memórias das gentes ribeirinhas? Ou teremos de lhes arranjar uma auto-sustentabilidade, servindo-as, sem nos servirmos delas?...

Fotografias da autora do Blog.

Ílhavo, 22 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A barca da passage do Ti Manel Ameixa

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O seu nome é Manuel da Graça, mas, por herança do avô, é conhecido por todos por Manuel Ameixa. O «Ti Ameixa», como carinhosamente também lhe chamam, é uma figura emblemática do nosso concelho pela sua ligação à ria e ao vaivém das travessias efectuadas entre a Bruxa e a Costa Nova.

Nascido há 89 anos (12.10.1921) na Gafanha da Encarnação, o contacto do Ti Ameixa com a Ria começou logo na infância. Depois da escola, o seu maior prazer era ir à procura do pai para poder andar na apanha do moliço, tendo, mesmo com 5 anos, aprendido a manobrar a barca.

Nessa altura, eram vários os grandes barcos mercantéis que faziam o transporte de pessoas entre as duas margens, tendo o pai optado, então, por essa actividade em parceria com o filho, de 11 anos de idade (em 1932), num negócio que dava sustento a toda a família. Vinha muita gente de longe, sobretudo depois da vindima, para uns dias de descanso na Costa Nova.

Em primeiro plano, a barca, pelos anos 30…

Celebravam-se ali muitos aniversários… e até os enterros passavam nas barcas!
Durante mais de 20 anos, Manuel Ameixa dedicou-se exclusivamente a esta actividade.
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À vara…
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Mas, após a construção da nova ponte e a consequente diminuição de clientela, optou por ir trabalhar para as lanchas da J.A.P.A., não abandonando o transporte por completo. Durante os fins-de-semana e nas férias de Agosto ajudava o irmão (Adelino Ameixa), que entretanto ficara encarregue do negócio.
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Os Velhotes ao leme da sua barca…
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Com mais de sete décadas ao leme da sua barca, o Ti Ameixa recorda com saudade o último Verão (2006), em que fez a travessia.

Com o andar dos tempos e a falta de clientela mais acentuada, «Os Velhotes» viram-se obrigados a substituir as grandes barcas de 18 metros de comprimento, por exemplares de cerca de 12 metros, tendo sido uma delas ainda construída pelo Ti Agostinho Tavares, de Pardilhó. As últimas já foram produto das mãos de construtor do Sr. Evangelista Loureiro (Gadelha), do Seixo de Mira.


A travessia em 1983…

Não tem memória de acidentes, apenas de um pequeno susto, quando, certo dia ao sair da Costa Nova, sozinho, se levantou vento com o qual não contava. Felizmente, conseguiu controlar a barca e seguiu viagem. Guarda, sim, boas recordações, quando outrora as raparigas cantavam, dançavam e o obrigavam a dançar com elas.

Todos os anos iam fazendo, ele e o irmão, as amanhações e decorações possíveis com «o engenho e arte populares» que tinham.

Era a nossa barca da passagem, nos últimos tempos, até que deixou de existir.

Estas são as memórias de outros tempos, homenageadas pela CMI, quando em 2000, colocou uma barca que pertencia à família de Manuel Ameixa numa das rotundas da Estrada da Mota (in Agenda Cultural da CMI., Novembro, 2006).

(Cont.)

Barca antiga – Cliché de João Teles
Fotografias de Arquivo

Ílhavo, 14 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Lenda do Titanic continua...

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Pelo que acabei de ler no blog Pela Positiva, do Professor Fernando Martins, a lenda do Titanic continua a ter algo a ver com Ílhavo.
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Pela quantidade de posts que dediquei a este navio, pelas exposições a ele referentes que visitei, pelo "mito das suas colheres de prata" que me persegue, o artigo interessou-me sobremaneira.
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Ler a notícia, aqui.
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Ílhavo, 12 de Outubro de 2010
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Ana Maria Lopes

domingo, 10 de outubro de 2010

Lembranças de um pescador do lugre Milena

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A Net tem destas coisas.

Boa tarde Sr.ª D. Ana Maria:

Desde já, agradeço todo o conteúdo fotográfico e informativo, que com prazer deixa ao encontro de qualquer " navegador " via Internet.

Passo à minha apresentação:

O meu nome é Ana Margarida Belo Rebelo. Sou da Praia da Torreira e desde tenra idade convivo com as mais maravilhosas histórias da arte piscatória.

Fiquei extremamente comovida ao encontrar o seu blog. Ao relembrar as histórias que o meu avô contava do "seu Milena".

O meu avô (Joaquim António da Silva Belo) fez a última viagem do Lugre.
Era um Homem feliz ao falar do seu " barquinho " de eleição.

Confidenciou várias vezes, que o Milena era o mais esplêndido de todos os seus " irmãos".

Para além das histórias, vivem também, quadros a óleo e miniaturas do Milena (Envio, em anexo, algumas fotos).

No cafezito dos meus pais, estão expostas todas estas recordações, para manter viva a lembrança.


Miniatura do lugre Milena


Miniatura de um dóri do Milena


Representação pictórica «naïf»


Muito obrigada.

Atenciosamente,

Ana Belo

6. 10. 2010

São escritos salutares como este que nos incentivam a procurar mais e mais, e sempre, histórias da Faina Maior.

Sabendo nós o que foi a dureza da pesca à linha do bacalhau, ainda existiu quem tivesse tido gratas recordações dos seus lugres, conservando-lhes a memória. Nem a agrura do naufrágio (1958) do Milena por que passou este antigo pescador, o desalentou!

Para de algum modo agradecer a atenção desta leitora, lembrei-me de procurar no MMI, nas fichas vindas do Grémio, a de seu avô, e fazer-lhe a surpresa de lha dar a conhecer por este meio.

Ficha do GANPB

E quem sabe? Enviar-lha,  para que, emoldurada, possa acrescentar as recordações do cafezito de seus pais, na Torreira. Envie-me o seu endereço, por favor.

Obrigada, Ana Belo, pelo seu sincero testemunho.
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Ficha do Grémio gentilmente cedida pelo MMI.

Ílhavo, 10 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Apontamento sobre o barco moliceiro do Ti Adelino Ameixa

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Também na Gafanha da Encarnação houve pintores populares de moliceiros, que lhes reformularam as pinturas sempre que necessário.

Foi o caso do Ti Adelino Graça, por alcunha o Ameixa, que fez, também, até ao Verão de 1988, a travessia de passageiros na barca da passagem, entre a Gafanha da Encarnação e a Costa Nova, colaborando durante alguns anos com Manuel Ameixa, seu irmão mais novo.

O Ti Adelino ao leme da barca da passage


Mas o Ti Adelino (1911-1990), como ele me confessou, nasceu num moliceiro, começou a gatinhar nas painas da proa e por lá foi vivendo com uma irmã até aos sete anos. Mais tarde, passou a ter barco próprio, até que se desfez do último em proveito do Museu de Marinha, de Lisboa, em 1979. Tinha sido construído em 1964 pelo Mestre Henrique Lavoura, nascido em 1930, em Pardilhó.

E lá está, albergado no Museu de Marinha, exposto ao público, no Pavilhão das Galeotas, não em grande estado de conservação. Exibe os painéis, de uma grande singeleza e ingenuidade, pintados pelo seu último proprietário, não sem um ou outro erro ortográfico e até o uso do grafema N, invertido. Os de estibordo:


Cta. NOVA – ADELINO GRAÇA (o AMEIXA)


NAO HABACALHAO

Merecia uma profunda amanhação, porque é uma embarcação com passado…

Fotografias de Arquivo

Ílhavo, 7 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Luciana Casanova, modelista do EMS


Entre mim e o Ecomuseu Museu do Seixal existe alguma permuta de afectos, desde há longos anos.

Numa volta pelo litoral do país, em 1988, tive curiosidade de ir conhecer o recém-criado Ecomuseu do Seixal, que, à época, apenas tinha o Núcleo Naval, onde se exibiam algumas rigorosas miniaturas estuarinas do Tejo, produto da habilidade, saber e precisão do Sr. Arnaldo Cunha (1918-2000).

Na altura, coleccionava algumas maquetas de embarcações (hoje, deixei-me disso, devido aos cuidados de conservação que exigem e aos preços exorbitantes), sobretudo marítimas, mas, a beleza, forma e policromia de algumas miniaturas do Tejo, fascinaram-me. Só o preço é que era praticamente proibitivo.

Decorria aí, então, uma Acção de Formação sobre construção naval, na vertente de miniaturas de embarcações, organizada conjuntamente pela CMS e IEFP, orientada por Arnaldo Cunha, de que era aluna Luciana Casanova (1936).



Na oficina do EMS, em 2008


Os seus modelos atraíram-me e tentaram-me mesmo a encomendar-lhe um, mais acessível, de que gostei – o dito catraio do Tejo. Mas a acessibilidade, para a época, tinha que se lhe dissesse – custava a módica quantia de 25.000$00.

Instada a pagar um sinal pela encomenda, metade do valor, lá regressei com o preço da embarcação entalado nos gorgomilos…

Foi-me entregue em Agosto, trazida por pessoas de Ílhavo que residem na zona e costumam passar o Verão, na Costa Nova.

E lá está, desde essa altura, exposta com carinho, na minha casa de praia.



Miniatura do catraio

O catraio, construído, à escala 1/20, uma das menores embarcações do Tejo, tinha diversas utilizações, podendo ser, também, uma embarcação de recreio. Eram frequentes as regatas entre este tipo de barcos.

Poderia armar de várias maneiras, mas este apresenta-se, com uma bujarrona, à proa, e com dois mastros; no maior, arma uma vela quadrangular, de espicha, e no menor, uma pequena catita, também de espicha.

O curioso é que entre mim e a Luciana criou-se alguma empatia e ela, sempre que lá vou, faz-me uma grande festa, lembrando, em voz alta, que fui eu a pessoa que lhe comprou a primeira maquette. Por várias razões, também não a esqueci mais.

Luciana Casanova entrou no quadro do funcionamento do EMS, na mesma actividade e, ainda, há cerca de uma semana, aquando da realização do 7º Congresso do European Maritime Heritage, lá estive e o encontro foi amistoso e esfuziante, como sempre.
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Na oficina do EMS, em 2008

Pessoa profundamente conhecedora da matéria chamou-me a atenção para o valor actual da miniatura do catraio que a Luciana me fizera em 1988 – mil duzentos e cinquenta euros.

Meu Deus! Se já lhe dava valor, ainda mais passei a apreciá-lo e vou fazer por que fique melhor preservado.

Histórias de embarcações e afectos…

Fotografias de arquivo

Ílhavo, 4 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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domingo, 26 de setembro de 2010

Encontro de Embarcações Tradicionais do Norte, em Viana do Castelo - 2


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Deixemos, por agora, um pouco, os pormenores técnicos e as hipóteses muito prováveis de influências nórdicas e dêmos uma ideia das emoções por que passámos, ao improvisar um passeio no rio, até à foz.

Convinha testar o barco, mesmo em condições adversas e algo diferentes do seu «modus faciendi» – dizia o João Paulo.

Brincalhona e destemida, a Ivone Magalhães, Directora do Museu de Esposende, prontificou-se a embarcar.

Olha, Maria vai com as mais e eu também fui – pensei, confiante na agilidade, saber e perícia do João Paulo Baptista, do Sr. Albino (Bino) Gomes, homem treinado e apaixonado por estas causas, que foi pescador de dóri, no Lousado e do Eng. João Barbas, conceituado velejador dos galeões do sal, recuperados, de Setúbal.


Não havia nada a temer. Éramos oito homens e três mulheres a bordo. Só esta curta mas emocionante viagem me permitiu captar algumas das imagens que utilizo.
Em direcção à foz, como o vento nos era adverso, fomos rebocados pela lancha poveira «Fé em Deus» e só isso já era um privilégio.



Até aí, tudo bem. Nela também embarcou o Dr. Manuel Gardete, médico, fotógrafo amador, mas conceituado, de Setúbal, para eternizar a viagem.

À saída da barra, os entendidos acharam por bem içar a vela, mas o vento que não era tanto de popa, como se pensava, não deixou brilhar o funcionamento da nossa vela de pendão.

Ventos de noroeste, ventos de refrega, ventos de través, naquela zona, atrapalhavam a manobra. E íamos sendo, aos poucos, arrastados, em direcção ao cais sul, cheio de pedra!



Encalhe à vista…

Decisão rápida – arria-se a vela. E tocar de lançar mão às duas varas, para impedir o encalhe, com alguns danos previsíveis.

Mas, calma! A situação era controlável! Não era bem a viagem trágico-marítima!
Nem seria preciso, tão-pouco, prometer um ex-voto à Senhora da Agonia!

Eis que a catraia de Esposende, a «Santa Maria dos Anjos», nos ultrapassou, velejando toda catita e despachada.
Socorro!!!!!!!!! – pedimos.


Solícita, aproximou-se. Lançado o cabo, o reboque actuou rapidamente.

Entretanto, passámos pelo Santa Maria Manuela, um ícone, também, para a cidade!




Rebocados mais para junto da margem da cidade, aí, toca de içar, de novo, a vela, para exibição perto do Gil Eannes, de 1955, outra grande referência para os Estaleiros de Viana e para a Faina Maior.


Vista de Santa Luzia, do rio



Folga a escota! – só escotas eram quatro, duas do pano e duas da verga e podem chegar a ser seis! Não é fácil!
Caça o pano! Atenção ao leme! – era o que mais ouvia.
E lá íamos singrando, calmamente, à medida que nos fotografavam das margens.

Vikings à vista…


O cais flutuante já se avistava e aportámos com atracação de mestre.

Estava ensaiado o Lanhezes, mesmo em situação adversa. Aprovado!

Verdadeiro Encontro de Embarcações Tradicionais, vivido e ao vivo!

Ílhavo, 26 de Setembro de 2010

Fotografias da autora do blog e gentil cedência de Manuel Gardete

Ana Maria Lopes

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Encontro de Embarcações Tradicionais do Norte, em Viana do Castelo - 1

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O 2º Encontro de Embarcações Tradicionais do Rio Lima, em Viana do Castelo, foi muito agradável. Convidada muito em cima da hora, imediatamente aceitei, pois o assunto fascinava-me.

E, embora nunca me tivesse detido com muito pormenor sobre embarcações de rio (cultura marítimo-fluvial), a apresentação pública da réplica navegante do Barco do Lima, o Lanhezes, seduzia-me.

Dois dias setembrinos quentes e calmos, o rio majestoso, as trocas de experiências e saberes e o convívio, muito produtivos. Hospitalidade espontânea e amável.

Outra visita com o grupo do Encontro ao Santa Maria Manuela, que muito diz a Viana e lá acostara durante dois dias, não podia faltar. Foi um autêntico e animado festival de cultura marítima, à vela.

Porque o tempo não é muito, vou mesmo deter-me, um pouco, no barco do rio Lima, o Lanhezes, patrocinado pela Junta de Freguesia com o mesmo nome.

Réplica navegante, destinada a passeios e travessias no rio, foi construída com muito saber e respeito histórico pelo Sr. Canijas, Caninhas, de alcunha, assim era tratado.

Embarcação com o construtor dentro


Características completamente opostas à construção em tabuado liso (skeleton first) da ria de Aveiro, usava o tabuado trincado (shell first), característico das construções vikings.
Consultar, para saber mais, aqui.

O leme com formas arredondadas e muito baixo, a imponente vela de pendão (tipo rabelo), com várias escotas de difícil manejo, a proa abicada, estreito painel de popa, varas, intrigavam-me.

Pormenor interior do tabuado trincado, liames e paneiros

Pormenor do leme

Pormenor das cadilhas das escotas, desmontáveis

Pormenor da troça e polés

Majestosa vela de pendão, suspensa da verga


O barco de Água-arriba ou Riba-acima do rio Lima era uma embarcação de cerca de 13,50 metros de comprimento, 2 m de boca e 0, 80 m de pontal, usado desde Viana até Ponte da Barca, no tráfego fluvial.
Os maiores chegaram a medir 22 metros de comprimento.
Transportavam toda a espécie de mercadoria, faziam a travessia do rio e transportavam pessoas para as romarias e mercancias para feirar.

À noite, no Auditório do Museu de Arte e Arqueologia, assistimos ao comovente filme de homenagem Água Arriba, a propósito dos barcos e dos barqueiros do Lima, bem elucidativo e esclarecedor da vida no rio.


O progresso condenou estes barcos ao desaparecimento, mas era preciso revivê-los e a Junta de Freguesia de Lanhezes assim o fez. Boas navegações!

(Cont.)

Ílhavo, 20 de Setembro de 2010

Fotografias da autora do blog

Ana Maria Lopes
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