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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Mercantela «Os Velhotes» - Ria de Aveiro

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Quantas mais embarcações ainda faltarão? Muito poucas. Eis o texto com que Marques da Silva faz acompanhar o seu último modelo:

A mercantela, embarcação que foi muito usada na Ria de Aveiro, não é mais do que um barco mercantel ou saleiro, mas de menores dimensões.

Aplicava-se no transporte de mercadorias e pessoas, entre as diferentes povoações banhadas pelas águas da ria. Navegava à vela ou à vara, não possuindo qualquer dispositivo para aplicação de remos.

Recordando o meu tempo do Liceu de Aveiro, estou a ver o Canal Central cheio de mercantelas e moliceiros, que, na época das cebolas e depois na das melancias, enchiam o cais com estes produtos, que ali mesmo eram vendidos.

Também nos dias da Feira dos Vinte e Oito, nas margens do Canal do Cojo, estas embarcações descarregavam os produtos que os lavradores traziam para vender, carregando depois os artigos que eles compravam para suas casas.
Era ainda possível ver as mercantelas a trabalharem como berbigoeiras, moliceiras ou barcas de passagem.


Travessia nos anos 80

Foi neste último trabalho que se ocupou a que estamos a recordar e que tinha por nome Os Velhotes, os irmãos Ti Adelino e Manel Ameixa.

Construída toscamente no Seixo de Mira pelo Sr. Evangelista Loureiro (o Gadelha), tinha a matrícula A738TL. Transportou pessoas e coisas entre os embarcadouros da Gafanha da Encarnação e da praia da Costa Nova, quase até aos nossos dias. Foi, então, adquirida pela Câmara de Ílhavo que a implantou na placa central da rotunda da Estrada da Mota.


Verificando que já era muito reduzido o número de mercantelas que se podia observar, resolvi ir a esta rotunda e, aí recolher, apesar do mau estado da embarcação, todas as medidas e informações que me permitiram fazer um plano para execução do seu correcto modelo.

Comprimento sem leme…………....… 11, 58 metros
Boca…………………………...….…….….2, 27 m
Pontal…………………………...………….0,72 m
Número de cavernas……..………......……...22

O modelo


Construí a minha mercantela na escala de 1/25, aplicando madeira de tola no fundo e de choupo nos costados, paneiros, bancadas e leme. Nas cavernas, rodas e traste, usei ramos de limoeiro. Para o mastro e verga, ramos de ameixieira. Para a vela, pano de algodão e para as ferragens e fateixa, arame de cobre.


Pormenor do interior da proa


Procurei fazer a pintura com as cores originais e as ornamentações o mais parecidas que me foi possível.

Caxias, Novembro de 2010

António Marques da Silva



Para além do valor desta pequena miniatura, com o peso que agora vai tendo nos Museus o modelismo náutico, não poderia deixar de divulgar esta pequena «jóia» do maquetismo.
Ainda consegui arranjar mais um trabalhinho para o Amigo Marques da Silva. Por que não uma bateira de recreio, apitorrada, própria para filhas de Capitães de Ílhavo, a que me liga tanto afecto? A ver vamos.

Fotografias da autora do Blog

Ílhavo, 10 de Dezembro de 2010

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Preservação da barca da passagem

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Mas as memórias de outros tempos, homenageadas pela CMI não ficam por aqui...
Assistimos com frequência a vários Encontros que visam a preservação das embarcações tradicionais.

Ainda há pouco tempo, o tema SOMOS CAPAZES DE TRANSMITIR O PATRIMÓNIO MARÍTIMO ÀS GERAÇÕES FUTURAS? era debatido por estudiosos de cerca de quinze países, no Ecomuseu do Seixal.

A pseudo-solução de expor numa rotunda, a céu aberto, uma embarcação, é um convite urgente para uma morte anunciada. As diferenças de temperatura suportadas, o sol tórrido, a chuva fria, os vandalismos de hoje e a ausência de qualquer manutenção, aceleram o processo.

O interior da barca…2010


Vista de popa


Pormenor da proa


E magoa ver uma, outra, e outra, e muitas vezes em que passamos à rotunda da Estrada da Mota, a barca Os Velhotes, A 738 TL, a degradar-se, transformada num montão de lenha mais apropriada para ser consumida por labaredas.

E se isto me acontece a mim, que sentirá o Ti Manel, que, apesar da vetusta idade (89 anos) e dos achaques, ainda dá a sua voltinha de bicicleta até à Ria e até à barca? Que solução lhe dar?

Seremos nós capazes de preservar todas as embarcações tradicionais de que gostamos e que fazem parte das memórias das gentes ribeirinhas? Ou teremos de lhes arranjar uma auto-sustentabilidade, servindo-as, sem nos servirmos delas?...

Fotografias da autora do Blog.

Ílhavo, 22 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A barca da passage do Ti Manel Ameixa

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O seu nome é Manuel da Graça, mas, por herança do avô, é conhecido por todos por Manuel Ameixa. O «Ti Ameixa», como carinhosamente também lhe chamam, é uma figura emblemática do nosso concelho pela sua ligação à ria e ao vaivém das travessias efectuadas entre a Bruxa e a Costa Nova.

Nascido há 89 anos (12.10.1921) na Gafanha da Encarnação, o contacto do Ti Ameixa com a Ria começou logo na infância. Depois da escola, o seu maior prazer era ir à procura do pai para poder andar na apanha do moliço, tendo, mesmo com 5 anos, aprendido a manobrar a barca.

Nessa altura, eram vários os grandes barcos mercantéis que faziam o transporte de pessoas entre as duas margens, tendo o pai optado, então, por essa actividade em parceria com o filho, de 11 anos de idade (em 1932), num negócio que dava sustento a toda a família. Vinha muita gente de longe, sobretudo depois da vindima, para uns dias de descanso na Costa Nova.

Em primeiro plano, a barca, pelos anos 30…

Celebravam-se ali muitos aniversários… e até os enterros passavam nas barcas!
Durante mais de 20 anos, Manuel Ameixa dedicou-se exclusivamente a esta actividade.
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À vara…
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Mas, após a construção da nova ponte e a consequente diminuição de clientela, optou por ir trabalhar para as lanchas da J.A.P.A., não abandonando o transporte por completo. Durante os fins-de-semana e nas férias de Agosto ajudava o irmão (Adelino Ameixa), que entretanto ficara encarregue do negócio.
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Os Velhotes ao leme da sua barca…
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Com mais de sete décadas ao leme da sua barca, o Ti Ameixa recorda com saudade o último Verão (2006), em que fez a travessia.

Com o andar dos tempos e a falta de clientela mais acentuada, «Os Velhotes» viram-se obrigados a substituir as grandes barcas de 18 metros de comprimento, por exemplares de cerca de 12 metros, tendo sido uma delas ainda construída pelo Ti Agostinho Tavares, de Pardilhó. As últimas já foram produto das mãos de construtor do Sr. Evangelista Loureiro (Gadelha), do Seixo de Mira.


A travessia em 1983…

Não tem memória de acidentes, apenas de um pequeno susto, quando, certo dia ao sair da Costa Nova, sozinho, se levantou vento com o qual não contava. Felizmente, conseguiu controlar a barca e seguiu viagem. Guarda, sim, boas recordações, quando outrora as raparigas cantavam, dançavam e o obrigavam a dançar com elas.

Todos os anos iam fazendo, ele e o irmão, as amanhações e decorações possíveis com «o engenho e arte populares» que tinham.

Era a nossa barca da passagem, nos últimos tempos, até que deixou de existir.

Estas são as memórias de outros tempos, homenageadas pela CMI, quando em 2000, colocou uma barca que pertencia à família de Manuel Ameixa numa das rotundas da Estrada da Mota (in Agenda Cultural da CMI., Novembro, 2006).

(Cont.)

Barca antiga – Cliché de João Teles
Fotografias de Arquivo

Ílhavo, 14 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
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