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domingo, 22 de abril de 2018

Curiosidades - O Mar de Sines


Na última sexta-feira, assisti no MMI, integrado no Mar Film Festival, a um documentário extraordinário sobre o Mar de Sines – A resiliência das gentes do mar. Confesso que gostei. Relevava as «artes» de pesca tradicionais de que eu tinha conhecimento existirem em Sines. Sempre as observei do lado de terra, enquanto que, no documentário também me era dado observá-las, em acção, no interior da embarcação, o que completava a minha visão. Algumas delas:  caixote do aparelho de anzóis e a sua preparação, a rede do tresmalho, a rede de cerco, o alcatruz para o polvo, a penosa arte de mariscador, a descarga de peixe, sobre os antigos chapéus de lata, a venda em lota, no areal, a toneira para a lula, o chinchorro, os covos já de plástico, e outras, que não memorizei. Todas me eram familiares, tendo gostado de as ver ao vivo, bem como o amor ao mar, manifestado em entrevista, por quem as praticava.
Curioso é que, há uns três anos, recebera um pedido, por e-mail, de um realizador de Sines, Diogo Vilhena, para utilização do livro de que sou co-autora, Faina Maior – A Pescado Bacalhau nos Mares da Terra Nova, encontrado nas mãos de pessoa ainda entre nós, que se identificara numa fotografia, neste livro, que, em primeira edição (Quetzal, 1996) lhe havia sido oferecido por pessoa amiga. Claro que autorizei. Além de outras imagens que tive o prazer de rever no filme, esta era a principal, o dono do livro e protagonista na imagem.
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Imagem 76, do espólio de Francisco Marques

O jovem moço que sustentava o gigantesco bacalhau é João da Silva Faria, nascido em 19 de Novembro de 1931, em Sines, moço, nas campanhas de 1951 1952, no lugre Labrador – assim testemunha a ficha do Grémio. Que coincidência e como o mundo é pequeno. Tudo batia certo.
Cerca de três dias, antes da exibição do documentário em Ílhavo, recebi o gentil convite do produtor António Campos, para estar presente, se possível, à sua exibição. E estive.
No final, entabulou-se entre nós uma agradável conversa sobre as artes tradicionais, que conhecera na minha estadia em Sines, nos anos sessenta, em pesquisa para a minha tese de licenciatura, O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterrarreísmos, que tiveram o prazer de folhear e levar. As imagens desse tempo manifestaram-se, para eles, uma raridade. Outro projecto teriam em vista, para as quais poderiam ser muito úteis. Possivelmente, a seu tempo, conversaremos, de novo. E assim foi o encontro de gentes de Sines, em Ílhavo.
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Botes em Sines. Anos 60
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Sines. Lota no areal.
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Ílhavo, 22 de Abril de 2018
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Dia do Mar

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O Dia Nacional do Mar comemora-se no dia 16 de Novembro, data à qual o Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) não podia ficar indiferente, assinalando-o com várias iniciativas ao longo dia 18, sábado, das quais destacamos:
Pelas 16 horas, a apresentação do livro «Traços de Construção Naval em Madeira – Mastreação e Aparelho do Navio» de António Marques da Silva
e a Entrega dos Prémios do 4º Concurso de Modelismo Náutico do Museu Marítimo de Ílhavo.

 
O livro do Senhor Capitão Marques da Silva é constituído por seis partes, além da Introdução. São elas: A Ossada do Casco, O Arvoredo, Aparelhar um Navio, Ferragens do Navio, Conservação dos Navios de Madeira e O Velame, além da Conclusão e de um sucinto glossário.
Desenhos aproveitados de uma antiga «gaveta», com textos explicativos recentes. E sabemos quanto valem os textos tecnicistas deste Autor!
Os diversos capítulos são separados por belas e elucidativas fotos de Friedrich Baier. Prefácio do Almirante Tito Cerqueira.
Certamente, se aparecer pelo museu, no próximo sábado, sairá muito mais enriquecido. Verá!

Ílhavo, 14 de Novembro de 2017

Ana Maria Lopes
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sábado, 12 de agosto de 2017

Tributo a Capitães de Ílhavo


Prefácio
 
Este Tributo a Capitães de Ílhavo, de autoria de Ana Maria Lopes, não poderia ser dado à estampa e oferecido à comunidade ilhavense em melhor momento. No dia em que o Museu Marítimo de Ílhavo comemora os seus oitenta anos de vida, este livro generoso e quente, tecido delicadamente sobre memórias de família dos admiráveis Capitães de Ílhavo, constitui um presente emoldurado, um diálogo de gerações para dar corpo e espírito à memória futura.
Não escrever este livro seria muito mais cómodo. Mas não foi essa a decisão de Ana Maria Lopes, que aceitou de pronto o desafio que lhe lancei quando soube das notas biográficas que vinha alinhando para publicação informal no seu blogue.
O património e as dívidas da memória comportam uma dimensão ética que pede a generosidade do risco e o desassombro da partilha. Daí a importância deste livro e da iniciativa homónima que o Museu imaginou neste seu ano jubilar em que o território, a identidade local e os seus protagonistas se invocam sem freios. Bem sabem os leitores deste livro, quanto o Museu Marítimo de Ílhavo tem procurado pluralizar memórias e abrir o jogo das identidades a todos os protagonistas humanos da Faina Maior.
Esta herança cultural lendária faz-se de múltiplos heróis humanos, da proa à popa. Prestar tributo aos Capitães de Ílhavo significa reconhecer uma elite local cuja fama correu o país e o mundo e significa fazê-lo de maneira aberta e inclusiva, com os Capitães e os Pescadores, em companha. Basta lembrar que no mesmo ano em que promove esta iniciativa e a presente edição, o Museu Marítimo de Ílhavo editou o livro Portugal no Mar – Homens que foram ao Bacalhau e apresenta ao público um extraordinário portal, Homens e Navios do Bacalhau, quase um museu virtual.
«Tributo a Capitães» e não «aos Capitães», assim o quis intitular Ana Maria Lopes, sabiamente, evitando presunções e a ciclópica ideia de biografar todos os Capitães ilhavenses. Trata-se assim de um tributo profundamente humano, da invocação de uma parte significativa dos Capitães de Ílhavo. Trata-se de uma parte que fala e vale pelo todo, de uma amostra que representa um universo.
Aqui se reúnem trinta breves biografias de Capitães ilhavenses já desaparecidos, conjugando palavras certas e belíssimas imagens, muitas delas inéditas porque residiam algures em silêncio. As biografias privilegiam o currículo marítimo dos oficiais e as principais peripécias dos navios que governaram. Homens houve que naufragaram três vezes. Muitos já eram filhos e netos de oficiais da Marinha mercante. A esses detalhes narrativos, fios de água que levam ao mar, aditou-lhes a autora preciosas notas humanas, traços de vida e testemunhos de família que não deixarão de interpelar outras memórias quando estas páginas forem dissecadas emotivamente.
Os Capitães de Ílhavo são homens de mar, admiráveis marinheiros, nautas por treino e vocação. Mesmo quando comandaram navios nunca deixaram de ser pescadores, continuidades que devem ser lembradas e valorizadas.
A diversidade de biografias que se encontram neste livro permite-nos confirmar que, se lhes chamarmos «Lobos do Mar» ou algo semelhante, não estaremos a exagerar nem a replicar os arroubos da propaganda do Estado Novo. Quando Alan Villiers lhes chamou «os melhores navegadores do mundo», na célebre Campanha do Argus (1951) e num texto que a seguir publicou na revista National Geographic, não exagerou mais do que viu, quotidianamente, nos mares do Norte. Mas fica claro que essas expressões mitificadoras tendem a tipificar estas figuras humanas; salientam os seus traços comuns como se um molde humano lhes tivesse esculpido o carácter e as habilidades náuticas. Um dia, partindo deste livro, será necessário empreender uma prosopografia dos Capitães de Ílhavo. Imagino uma biografia colectiva, de um grupo ou de uma elite dotada de traços comuns, mas de percursos e idiossincrasias singulares. A ideia é dura, mas fecunda.
Quero manifestar a minha alegria por escrever o prefácio deste saboroso livro, agradecer o desafio à Dr.ª Ana Maria Lopes e o entusiasmo dos Amigos do Museu. E devo assinalar, em briosa defesa do nosso Museu, que neste livro os créditos fotográficos encontram-se judiciosamente indicados e as fontes de arquivo que o Museu tem o privilégio de preservar também são devidamente referidas. Aparelhar este navio e fazer esta viagem só augura novas campanhas e maiores empreendimentos. Afinal, o património é tão somente o presente das coisas passadas. Um assunto infinitamente humano.
Álvaro Garrido
Professor da Universidade de Coimbra. Consultor do Museu Marítimo de Ílhavo
Ílhavo, 8 de Agosto de 2017
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AML
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domingo, 24 de julho de 2016

«Nómadas do Oceano» de Valdemar Aveiro

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Nómadas do Oceano – O último livro do Sr. Capitão Valdemar Aveiro dado ao prelo pela Âncora Editora, depois da sua apresentação no Museu Marítimo de Ílhavo, li-o de um trago, bebi-o sofregamente.
Parabéns, caro Capitão Valdemar! Estive mesmo para lhe telefonar a felicitá-lo depois da leitura do seu livro. Mas, achei que era um abuso e não o fiz.
Apreciei-o extremamente, talvez porque os assuntos que nele trata, me estão mais próximos – o papel dos armadores, sobretudo dos mais empreendedores, a citação de navios que me foram familiares – Hortense, Neptuno, Gazela Primeiro, o Santa Izabel, o Santa Joana, alguns arrastões de popa –, pessoas que bem conheci e a própria criação em 1934 da Comissão Reguladora do Comércio de Bacalhau (CRCB) e, em 1935, do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca de Bacalhau, (GANPB).
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Mas a maneira fluida e desassombrada com que «discursa» sobre tudo, deixou-me estupefacta, numa prosa líquida, espontânea e vivida.
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A tal questão do «tempo novo» tratada sem tabus, a questão dos armadores, pelo menos dos mais empreendedores, prenderam-me. Mas a localização dos navios no cais de St. John’s, aquando de ciclone anunciado, dadas as vantagens e desvantagens da tal localização e a ida ao «fashion store» foram registos que li de um trago.
A questão da compra das maquillages, do rimel, do blush, do pó de arroz, do baton, ah, ah, e a prova dos soutiens fizeram-me rir, sozinha, quando dei por mim. E pensei – olha, olha, o que o Sr. Capitão Valdemar sabe!...
Aqueles encontros, as travessias de barco, os códigos entre rapaziada, oficialidade e as «mulheres de ocasião», ou derriços de anos anteriores saem-lhe com uma fluidez estonteante. Muito mais haveria que dizer, mas fico-me por aqui... Só não sei onde é que o Sr. Capitão aprendeu tanta mitologia grega!... Parabéns, caro Capitão!
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Costa Nova, 23 de Julho de 2016
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

«Filinto - O Poeta Amargurado»

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No próximo dia 16 de Janeiro, pelas 16 horas, a Professora Dr.ª Rita Marnoto da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra apresentará o livro Filinto – O Poeta Amargurado de Senos da Fonseca, no Salão da Junta de Freguesia de São Salvador, em Ílhavo.
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Há mais de dez anos que ouço, entre outros temas que lhe teriam sido mais caros, Senos da Fonseca falar de Filinto Elísio. Com razões para sabermos de quem falávamos, a maior parte dos ilhavenses desconhecerá a figura de Filinto.
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Com este livro, passará a conhecê-lo melhor – primeiro, porque foi «um dos nossos», um ílhavo, gerado no nosso rincão e levado, por mar até Lisboa, onde nasceu. Segundo, porque, embora um arcádico não muito conhecido, foi um grande poeta.
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Alguns dos nossos maiores autores como Garrett, Eça, Castilho e outros renderam a este poeta oitocentista, pouco estudado e pouco conhecido, como já referimos, rasgados encómios. Foi um purista do século XVIII, este Filinto, ligando mais às palavras e à construção sintáxica mais importância que às ideias e sentimentos, segundo Eça.
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A biografia do poeta amargurado de SF não é simplesmente a sucessão de notas biográficas de Filinto, mas surge-nos, formalmente, como peça de teatro a levar à cena, no dia 31 de Janeiro, pelo grupo de teatro amador ilhavense – «A Ribalta», no Centro Cultural de Ílhavo, pelas 17 horas.
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Ílhavo, 14 de Janeiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

De novo, o livro «Faina Maior»...

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O meu blogue, além de muito mais, não deixa de fixar as minhas explanações, aquando da apresentação de livros. E esta, não sei bem porquê, não tinha sido registada. Ainda vai a tempo, agora a propósito da 3ª edição do livro Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova. Faina Maior, um título forte, belo, feliz e sugestivo, que sai uma vez na vida, muito mais forte que a «Grande Pêche» dos franceses. Alimentou muitíssimos conteúdos expositivos e continua a ser um entretém de muito mais estudiosos e evocadores. Ainda bem. A semente deitada à terra germinou com fervor. Quem, antes de 1992, ouvira falar da Faina Maior?
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Caros Amigos/Amigas, porque de um encontro de Amigos se trata…
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Não venho propriamente apresentar a Faina Maior. Foi mais que apresentada, há 15 anos.
Em primeiro lugar, o meu agradecimento à Associação dos Amigos do Museu, da qual faço parte, por ter levado a bom porto a reedição do livro Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, publicado pela primeira vez em 1996. O tempo foi passando e…
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…a minha história de «vida em comum» com o saudoso Francisco Marques, associação irrepetível, é, ou deveria ser sobejamente conhecida. Já tem sido contada. Mas nunca será demais.
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Foi o gosto pela pesca do bacalhau que nos uniu. Encontrámo-nos na antiga Escola Preparatória em actividades culturais e por aí começou a nossa cavaqueira.
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Primeira realização: o documentário À Glória desta Faina, que foi visionado neste Auditório do Museu, nos dias 4 e 11 de Novembro de 1989 – duas enchentes a que se não estava habituado. Os nossos homens do mar mereciam essa «homenagem», se assim lhe quisermos chamar.
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Entre mim e o Francisco surgiu a ideia de construir uma cozinha de bordo no Museu, se eu viesse a ser Directora…como constava. E atrás da cozinha, vieram a escala, o porão, o convés, o convés da popa, o beliche e rancho e o salão de oficiais, a começar pelo dóri, o pequeno/grande herói da pesca à linha, com o seu único ocupante, o homem do dóri.

Conferência de imprensa de apresentação da exposição
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Abriu em Outubro de 1992 a grande exposição A Faina Maior – Pesca do bacalhau à linha, que, de temporária, após um ano, passou a permanente.
De certo modo, marcou a evolução cultural da nossa terra, activando os sectores que com ela tinham ligações. Tem estado na base de muitos discursos expositivos, em volta do mesmo tema – basta recordar algum tipo de eventos…ou instituições – A Confraria Gastronómica do Bacalhau, As Tasquinhas do bacalhau, os vários livros da mesma temática que, posteriormente, têm vindo a lume, sob a chancela de diversas editoras…
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E o livro Faina Maior? Sim, este livro? Tendo uma equipa da Quetzal visitado a exposição em Maio de 93, havia-nos feito uma proposta de «pôr» a Faina Maior em livro.
Recebemos a proposta de braços abertos – foi o selar, por escrito, de uma grande Exposição, que, ainda hoje se mantém com melhoramentos.
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Assumimos ambos o compromisso, com os dissabores dos atrasos e as alegrias do sucesso. O texto veio a lume no Verão de 93, mas o lançamento, com as demoras habituais, teve lugar a 22 de Junho de 1996. Dividimos irmãmente os louvores, tanto que recebemos o Leme do Ano (ex-aequo), de reportagem, a 28 de Junho do ano seguinte. 
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Ao recebermos o Leme do Ano, 1997
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O livro, entretanto, esgotara e era um firme desejo da Associação dos Amigos do Museu concretizar a sua reedição.
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Por razões de vária ordem, ainda não tinha sido possível, mas, este Verão, ao arquitectarmos alguns posts do Marintimidades sobre «Creoula – 1973, através da objectiva de António São Marcos», conseguimos ultrapassar, através de um procedimento levado a efeito há vinte anos um problema técnico que existia com essas fotografias. Enfim, foi superado.
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Por outro lado, durante uns tempos, achei alguma piada a que dois dos livros em que mais me tinha empenhado estivessem esgotados, mas, com o andar dos tempos, passei a não achar tão curioso assim. Se, na realidade, não pudéssemos pôr as mãos à obra, não seria muito fácil reerguê-la. Gostava de deixar a Faina Maior, à venda
E esperancei os Amigos do Museu. Muitas voltas foi preciso dar para se alcançar o intento.
É que …
Entre as duas edições, decorreram 15 anos, o suficiente para que a técnica de «fabricar» um livro tivesse mudado como do dia para a noite. O texto, de dactilografado passou a digitado (processado), as imagens, de suporte em papel, passaram a ser digitalizadas, melhoradas, tratadas, photoshopadas q. b.
Sem esquecer, o principal – reencontrá-las, entre tantas mãos por que passaram. O nosso muito obrigada a quem no-las cedeu e ao meu filho Miguel, estou grata pelo apoio técnico dado, mesmo à distância.
Ganhámos uma ansiedade e uma paixão com a re-pesquisa
Era nosso desígnio, pela falta do saudoso co-autor Francisco Marques, manter o livro inalterável. E com perseverança, conseguimo-lo.
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O tema escolhido – a reportagem ou o relato – de uma campanha de barra a barra (neste caso, da de Aveiro), de um lugre da pesca do bacalhau à linha, dos anos 30/40, com toda a azáfama, dureza, angústia, saudade, sacrifício e empenho, era imutável.
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Quase ninguém andou lá, porque tivesse querido. A Faina Maior, com toda a sua austeridade, era um modo de vida…E estas memórias fazem parte de quem teve familiares ao bacalhau e quase todas as pessoas de Ílhavo os tiveram.
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Dentre os cerca de 13 capítulos que reescrevi, voltou a deliciar-me o depoimento ao jornal «Beira-Mar», de 30.11.1930, em que o Capitão Cajeira relata a sua primeira tentativa de chegar à Groenlândia.
No ano seguinte, 1931, três navios da Empresa de Pesca de Aveiro – o Santa Izabel, o seu «gémeo» Santa Mafalda e o Santa Joana – por ordem explícita do seu gerente, demandaram a Groenlândia.
Tendo oportunidade de ler atentamente algumas actas, da mesma época, de Testa & Cunhas, criada em Dezembro de 1927, a partir da aquisição dos bens da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca de Aveiro (todos os aprestos, extenso secadouro e os lugres Hernâni, Silvina e Cruz de Malta), constatei que os tempos de crise, escassez de peixe, dureza de vida, dificuldades financeiras, eram comuns às empresas do sector. E o meu Avô, o Capitão Pisco, por lá andava.
Em acta de 7 de Dezembro de 1932, os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do Ernani e Cruz de Malta.
Decidiram ainda anunciar a venda do navio Silvina, entendendo que o podiam dispensar. Mas…
Depois de elaborada a acta de 11 de Agosto de 1934, (sic) chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre Ernani nos bancos. Ignoramos pormenores – causas e paradeiro dos tripulantes. Só mais tarde se soube que a causa tinha sido incêndio e que os tripulantes haviam sido distribuídos por navios dos pesqueiros próximos, onde se revelaram muito úteis no auxílio das penosas tarefas.
Toda esta falta de notícias, em 1934 é um testemunho da rudeza desta vida.
Para suprir a baixa daquela unidade, resolveu-se reparar o lugre Silvina, de modo a estar pronto para a futura safra, para o que foram gastos cerca de 50 contos.
Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. A proposta foi construir um, segundo o modelo do Brites (1936), com a introdução (sic) de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, Mestre Manuel Maria Mónica, pelo preço de 640 contos.
Encomendado em fins de 1936, o Novos Mares, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré. O meu Avô capitaneara-o na primeira viagem, só à vela, à Groenlândia, já que o motor não havia chegado a tempo da viagem.
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O Silvina foi prosseguindo a sua difícil missão, até que viu o fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941, narrado por Jorge Simões em Os Grandes Trabalhadores do Mar.
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Deixemos as actas da Empresa e voltemos à «produção» do livro.
Teclámos o próprio texto, porque sabíamos parágrafos de cor e dominávamos com facilidade o tecnicismo dos termos, que nos eram familiares.
E a imagem? Como, no meio de tantas mais que foram achadas, repescar aquelas 142 fotos e aquelas mesmas, que, por tantas mãos andaram e tanto se dispersaram?
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Aos poucos fomo-lo conseguindo. Conhecíamos-lhe o tacto, o odor, o aspecto, o tamanho, as marcas do tempo, a grandiosidade.
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Preparativos do lançamento, à noite, no Museu
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Consumou-se o acto. A Faina Maior, livro, está de novo à venda, – era o nosso objectivo –, para uma outra geração, ou para aqueles que por descuido, o não tenham ainda adquirido.
Vamos tentar divulgá-lo, com fervor, por algumas das terras que forneceram homens para esta heróica labuta. Assim tenhamos apoios e algumas facilidades nessas presumíveis andanças.
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Caros amigos e amigas. Muito obrigada, sobretudo, pela vossa presença!
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Fotos – As duas primeiras de Carlos Duarte e a terceira de Fernando José Morgado
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Ílhavo, 19 de Fevereiro de 2011
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

«Faina Maior - A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova»

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Tendo-se esgotado a 2 ª edição do livro Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, da autoria de Francisco Marques e de Ana Maria Lopes, dada ao prelo pela 1ª vez pela Editora Quetzal, em Junho de 1996, os Amigos do Museu Marítimo decidiram levar a cabo uma terceira edição, ipsis verbis, como era necessário e calculável.
Dado o escasso tempo que mediou entre as duas últimas edições, não se fará nenhuma apresentação. A FAINA MAIOR destes dois autores está apresentada, q. b.
Um trabalho memorável, adequado, intenso, que conta uma campanha de barra a barra (barra de Aveiro) por navios da frota bacalhoeira, pelos anos 30, não podia ser modificado e, muito menos, mexido. É aquela epopeia, mesmo.
Com 112 páginas, em bom papel couché, é ilustrado por 142 fotografias a preto e branco, algumas de página inteira, fortes e intensas imagens de época, recolhidas, a custo, no espólio dos nossos homens do mar, bem como, outras, parte integrante das belíssimas imagens de Alan Villiers, todas identificadas.
Livro com apresentação cuidada, de capa dura, e sobrecapa a cores, com uma belíssima fotografia do GAZELA, de Friedrich W. Baier.
Prefácio do Professor Mário Ruivo.
O livro já está à venda da livraria do Museu, na Livraria Santos (Ílhavo), na Leya e Socodante, em Aveiro, na Livrapal, na Gafanha da Nazaré e em «O Ilhavense». Virá a vender-se, igualmente, na loja do navio Gil Eannes, em Viana do Castelo, dentro em breve.´
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Ílhavo, 10.12.2015
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AML
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domingo, 26 de julho de 2015

Apresentação do livro «Uma Janela para o Sal», na Murtosa

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Estão quase a terminar as actividades do mês de Julho, em que intervenho mais directamente. Já não é sem tempo.
A Alêtheia Editores, a Câmara Municipal da Murtosa e os autores convidam-no/a a participar na apresentação do livro «Uma Janela para o Sal», no auditório da COMUR - Museu Municipal da Murtosa, integrada na programação da «Semana do Emigrante 2015», pelas 21 h e 30, do próximo dia 29, quarta-feira.
Senos da Fonseca apresenta o livro e momentos musicais relacionados com a ria abrilhantam e animam  a sessão. Outros palcos, para variar.
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Convite EMBARCAÇÕES LAGUNARES

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De degrau em degrau, vamos subindo ou descendo, no tempo?
Convite
 
Será que tem verso e reverso?
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Parece que sim, mas só para alguns, por causa da crise.
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Será o Arquitecto Carlos Carvalho a apresentar EMBARCAÇÕES LAGUNARES – Bateiras & Artes, Tomo II, de Senos da Fonseca., no próximo dia 18, sábado, pelas 16 h e 30, no MMI.
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Fiquei muito satisfeita ao saber que irei ouvir o meu caro Amigo Carlos Carvalho a falar de embarcações tradicionais, por o rever, para variar e pelo que ele sabe do assunto, que é bastante.
Caramba! Até me levantei para catrapiscar, mas nem uma bateira avisto. Só, ao longe, «uma chata esverdeada» das modernas.
Costa Nova, 8 de Julho de 2015
Ana Maria Lopes

sábado, 4 de julho de 2015

EMBARCAÇÕES LAGUNARES - Bateiras & Artes

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EMBARCAÇÕES LAGUNARES
 
Bateiras & Artes
 
Tomo II
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O Autor, João Fonseca, pelo FB., convidou-nos, para a apresentação do seu novo livro, EMBARCAÇÕES LAGUNARES – Bateiras & Artes, Tomo II, no dia 18 de Julho, no auditório do MMI, pelas 16 h e trinta.
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Sinceramente, um «pouco de suspense» não faz mal a ninguém, mas, muito francamente, não sei como se vai processar o evento. É hábito anunciar. Aguardemos. A seu tempo, saberemos.
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Parece-me que estas bateiras ainda vão fazer correr muita «água», no bom sentido, admitindo que corre para o mesmo lado, apenas com uma contracorrente, de vez em quando, que até faz bem para retemperar.
Exactamente o que acontece com as Artes; umas colocam-se a favor da corrente, outras são do contra e exigem o «contrauga». Terão tempo de aprender se estudarem bem a lição…coisas da nossa ria. Estou ansiosa por pegar em tal livro, saboreá-lo à minha vontade, virá-lo e revirá-lo a meu gosto, observar-lhe os defeitos e as virtudes, que serão muito mais pelo que já conheço dele.
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Ílhavo, 4 de Julho de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 21 de junho de 2015

«Oratória» sobre «Uma Janela para o Sal»

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Nada como registar «a oratória», mesmo a minha, no «Marintimidades». Local sagrado!... para mim…
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Caros /as Amigos/as:
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Na vida, é adágio popular dizer-se que se deve plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Imbuída pelo gosto de meu pai, plantei umas arvorezitas. Relativamente a filhos, até fiz dois, que, hoje, são o meu suporte e o meu orgulho. Escrever, ou melhor, escrevinhar, entre folhas de sala, catálogos, brochuras e livros, já lá vão alguns.
Mas cada um tem uma histórica.
Quase todos de pesquisa etno-marítima, e/ou etno-linguística, por minha formação, roçando quase a antropologia, também vivem muito da imagem, que considero indispensável neste tipo de trabalhos.
Livro, livro, propriamente dito, acho que começa a ser uma boa altura de este ser o derradeiro.
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Umas brochuras, uns artigos para revistas da especialidade, uns posts para o famoso Marintimidades, fá-lo-ei até que a voz me doa e já começo a enrouquecer, com facilidade.
São o meu meio, o meu mundo, o que me entusiasmou, na vida – foi o litoral deste país, de norte a sul e, mais tarde, as embarcações lagunares, por empatia e vizinhança geográfica.
Não é obrigatório verter o saber em livro, mas não há nada como deixar escrita a nossa perspectiva. Há várias maneiras de tratar um assunto. De degrau em degrau, chega-se, por vezes, a uma suposta verdade…
Do Vocabulário Marítimo, à Faina Maior (em co-autoria), aos Moliceiros, ao Regresso ao Litoral, às Bateiras da Ria de Aveiro – Memórias e Modelos (em co-autoria), continuei a olhar para as bateiras e seus processos de pesca que sempre me fascinaram, se bem que manifeste mais um fraquinho pelas embarcações. Por aqui residente, era natural que a nossa ria, que sempre me atraiu, me atraísse, agora, de uma maneira diferente, mais amadurecida. Olhares mais sólidos, consistentes e mais vividos…
Discussões salutares que mais tarde dão frutos e nos conduzem a uma suposta solução.

 
Com o SAL, tudo foi diferente, mas afim.
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Depois do meu filho Miguel ter captado, nos anos 80, as imagens para Moliceiros – A Memória da Ria, fê-lo, de igual modo, com a minha colaboração e orientação durante uma safra de sal, desde os trabalhos preparatórios até ao final, ao devolver o sal de uma marinha, em saleiro, para o canal de S. Roque.
Visavam as imagens e as pesquisas, a feitura de um livro que o trabalho de direcção do Museu de Ílhavo interrompeu. E assim, ficaram acondicionados os diapositivos, em abundância e as cassettes de som com as entrevistas a moços e marnotos, em fita ainda magnetofónica.
Outras vidas, outras andanças, outras procuras pelas últimas empresas de pesca deste país de tal modo que o sal teve de ficar em banho-maria.
Foi uma pesquisa de sacrifício, esta, com imagens contínuas em cerca de 30 marinhas, embora sempre procurássemos as de mais fácil acesso. Fainas matutinas, esfriadas, pinos do sol crestados, enfim, de morrer…neblinas, nevoeiros, que, nuns casos facilitavam a recolha de imagens, noutras, nem por isso.
É o tempo atmosférico um dos principais mandadores na produção salícola… e esse nem sempre estava a jeito.
Todo este material foi ficando e sempre que lhe pegava, a falta de tempo impedia-me de avançar.
Muita água passou por baixo das pontes e o número de marinhas cada vez ia diminuindo mais.
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Mesmo depois de ter deixado a direcção do museu, fiz vários trabalhos e colaborei noutros. Mas o SAL empedrava…empedernia…
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Não tinha quem me incentivasse, muito pelo contrário. Seria sempre um livro com muita imagem, e sei bem como são, as dificuldades económicas, sobretudo a nível gráfico.
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O tempo de trabalhar com o filhote, hoje, um homem, já passara. Outros tempos… Lancei pontes e uni gerações. Acho importante tentar fazer escola e criar, desenvolver o gosto noutras pessoas. Numas, pegará, noutras, nem por isso. Tenta-se.

Mas, há sempre um mas.
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Há uma boa meia dúzia de anos conheci no museu, a Etelvina, entendemo-nos bem, dei-lhe umas dicas para a tese de mestrado que trazia em mãos com o tema Embarcações tradicionais da Ria de Aveiro, uma análise pelo Design, e, ao poucos foi-se fortalecendo entre nós, uma amizade, apoiada por alguns interesses comuns, cruzamento de saberes, cruzamento de idades, de geração.

 
Há cerca de uns 4 anos, visitei, de novo, o Sr. João Banca da marinha Troncalhada, para que me ajudasse a avivar a memória relativamente às imagens captadas nos anos 80, bem como o Felisberto Fortes, que, entretanto, já não está entre nós. E ingressei pela meia dúzia de marinhas que sobrava, sozinha. Quarenta e tal anos de idade não são sessenta e tal e chegava cansadíssima a casa. Ai, o sal, o sal, que me fazia a alma negra, tal como aos salgadores do bacalhau.
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O trabalho de campo é muito cansativo e os anos passam e deixam marcas.
Se eu tenho um conhecimento técnico, qb, já de longe, pelo muito que calcorreei marinhas, e a Etelvina tem uma fluência frásica de cariz poético, e que tal, se nos juntássemos e aos poucos, fôssemos produzindo um texto a 4 mãos, em leve dueto, em que o Marnoto fosse o rei da ria? Descrever, «cantando», imagens já com uma três dezenas de anos…
O trabalho na marinha é duro, cansativo, repetitivo, porque o processo é mesmo esse.
Cansa um leitor pela monotonia, que se encanta com o processo, mas, só de vez em quando, espreitando. E para nosso mal, está mais do que em vias de extinção. Até eu, também estou… Marcas do tempo… E tenho uma tendência e um gosto terríveis por fixar e reter assuntos que sinto e pressinto que estão para acabar. É o que tenho praticado.
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Mas o SAL continuava-me atravessado na garganta, qual espeto, salgando-a demais. Fiz uma proposta à Etelvina e ela gostou do projecto. Primeiro, seduzi-a, com aquelas imagens que achava mais fortes e, posteriormente, disse-lhe o que pensava para o género de texto.
E arrancámos, também para a «nossa safra», nas ditas «terças-feiras no museu», onde trabalhávamos, sem que nem uma mosca nos pudesse interromper o processo.
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Passado cerca de um ano e meio, estava pronto. O Miguel ia-nos, por vezes, enviando umas dicas – afinal, sem estas imagens não teria havido este livro.

 
E agora? Nada como um livrinho em estilo panorâmico, fácil de ler e reler, de ver e rever, ao colo, como merece, com carinho, em deslumbramento de um desejo alcançado.
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Lembrei-me, numa tarde de domingo outonal, que havia uma promessa da (Alêtheia Editores), na pessoa de Zita Seabra que há uns anos me disse, – talvez ainda venhamos a trabalhar juntas – ela que nos deu ao prelo «dos primeiros livros de grande memória», ainda noutra editora, lançados neste Museu, nos anos 90.
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E a Zita gostou do ficheiro enviado, texto e imagens. Outro projecto, outro sonho a concretizar, desta vez para os co-autores – a Etelvina, o Paulo e eu.
Não foi nada fácil. A partir de aqui, nós, os intervenientes, sabemos as vias-sacras por que passámos.
Mas vencemos e «Uma Janela para o Sal» pode, hoje, ser lido e apreciado no regaço. O Sal saiu da gaveta e da garganta, tal qual como foi registado. Não empederniu, nem liquidificou.
Um grande agradecimento a muitos (não vou elencar), ou melhor, a todos quantos trouxeram uma pedrinha de sal para o monte.
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E aos Amigos que cá vieram ouvir-nos, transmitir-nos aquele calor humano, que sempre faz falta, em ocasiões destas, o nosso grande agradecimento.
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Fotografias – Teresa Soares (assinada), MEPC e Paulo Mendes.
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Ílhavo,16 de Maio/ Aveiro, 4 de Junho de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 7 de junho de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

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(Cont).
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Segunda singularidade:
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Surpreendeu-me positivamente, quando me apercebi por onde queria ir a «A Janela para o Sal» …
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O livro tem uma particularidade que passará certamente despercebida ao leitor comum. É escrito no presente – como se a safra fosse hoje, ainda como se descreve.
Historicamente errado, que poderia, se levado à letra, destruir todo o trabalho. Mas perceptível.
O livro nasce, na realidade, de um convite feito à co-autora Etelvina. Levando-o a um passado já distante, um passado em que foram feitos os registos da Ana e do filho Paulo. É pois a história vista num passado, transmitida, relatada, num presente qualquer. Uma espécie de crónica real…
Não deixando de fazer a via-sacra do escoar das comedorias, ao estranger, do imoirar à botadela o léxico está presente qb. Não podia deixar de estar. Léxico imaterial rico, que foge a definições mais detalhadas. Sem perder tempo nos descritivos alongados da definição técnica, para aqui despropositada.
Assim, parece-me desde já ser possível, dizer que os três co-autores souberam conciliar e verter para obra, com conta peso e medida, cada um, de per si, os particulares atributos, individuais. Diria, com particular equilíbrio. Every one has is place... ou mais trivial Chacun  à sa place ..... E são a meu ver: o rigor da observação, registo e tratamento de Ana Maria; a beleza poética da descritiva de Etelvina Almeida (uma apaixonada das funduras da laguna e dos relevos humanos – e não humanos que a povoam); a retina selectiva de Paulo Godinho, na escolha e transferência para o duradouro, do que entreviu no momento. O resultado final, acabado de sair do forno e agora deposto em vossos regaços, é... porque foi  assim  que deliberadamente se quis,  não um trabalho  técnico mas uma sucinta monografia sobre a safra do sal na ria, apoiada numa recolha imagética e num estudo de campo, como bem esclarecem  os autores. Uma obra diferente que acrescenta frescura ao tema e enaltece o homem, sublinham, como que a dizer-nos ao que vieram... Confirmamo-lo em absoluto. Final conseguido.
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E assim cada imagem que fixa o humano na paisagem circundante, deixa de ser apenas entusiasmante para uma apreciação sensorial do olhar deslumbrado. Logo em paralelo, reforçando-a, sublinhando-a ou matrizando-a, corre um dorido, poético e choroso texto. Que a explica, reforça e lhe recupera os pormenores do milagre que permite à natureza imitar o milagre isabelino, ao perguntar à Ria – o que trazes no teu seio?... e esta a responder: – flores de Sal, Senhor.
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A natureza ofereceu o meio.
Ao princípio pareceu molhado demais para ser acolhedor. E de noite sob o prateado de uma lua cheia embolada, parecia não haver sequer fantasma, nele a bulir. E de som apenas se ouvia, de onde a onde, um choro de pio perdido de gaivota grazina, chorando na margem a sua desdita.
Mas logo o homem se lhe atirou afadigado, agradecendo a dádiva. Rapou de um imaginativo compasso, sobraçou no olhar esbelta régua, e logo se atirou a riscar as águas azuis, metendo-a em viveiros, algibés, caldeiras, talhos e cabeceiras, onde se espreguiçam num azul soluçante que, inquietado pela aragem, cintila, parecendo invadido por milhões de cus de lume incendiados pela torreira.
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Essa figura humana, o primeiro da cronologia humana lagunar, é o marnoto. O decano das labutas lagunares, duradouras. Aquela que serviu de plinto ao Homem que, atraído pelas promessas entrevistas, se alapou, célere, nas suas margens. Abrigado em ocres tugúrios das ruindades da natureza agreste, que foram brotando das lamas secas, enegrecidas, depressa tornadas terras de viço.
Dele bem se poderá dizer: ao princípio era o marnoto!!!
E assim começaria a história até que a página foi encerrada, já lá vão quase três boas dezenas de anos.
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Meus senhores Minhas senhoras: Amigos
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O presente trabalho é guarida segura para memória futura. Para lembrar o arquétipo humano, através do qual os deuses imateriais concederam a feitura do sal, «nativo e factício», como o designou, Plínio «O Velho». Quando no séc. II dC, por estas bandas deambulou, em trabalho de campo, a recolher elementos para a sua «História Natural».
E the last but not the least: uma outra singularidade…
As autoras não irão certamente corar… Falamos de janelas e eu espreitei. E o que vi?
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Este livro feito por duas mulheres que qualquer leitura permitirá dizer-se «muito interessantes», tem, a dada altura, uns laivos de erotismo. Sugerido nas páginas em que esboça o perfil do moço lagunar. Mostrado de calções, sem outro sudário que não seja a pele, a cobri-lo. Ei-lo desnudo qb, e logo as autoras parecem deslumbradas:
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Quase nu,… eis o moço do Sal, de corpo esbelto e pele bronzeada. Os seus músculos retesam ao longo da íngreme subida...elegante e sereno no caminhar... o corpo moldado à canastra.
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E continuam as autoras na luxuosa descrição:
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Sob intenso sol esse homem musculado, exala e escorre suor e moira....que se colam sobre o peito molhado e salgado.... (a)pele dura gretada.... deixa antever longo curtir que lhe rouba anos de delicadeza... A todo o tempo ele transpira...sal.
A janela passa rapidamente a buraco de fechadura para uma espécie de cândido  voyeurismo...
E o moço de marnoto, surge na «Janela para o Sal», como um Adónis mitológico, divindade de vida-morte-renascimento, ele mesmo, aqui, mito do ciclo anual da produção do sal: a sua «afrodite» com quem escolhe(ia) conviver meses de cio salgado. Corpos de beleza masculina excelsa, talhados na perfeição dos mitos, a que a exsudação copiosa concede um brilho de virilidade entrevista...
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Meus Senhores, minhas Senhoras, Amigos:
Caros Autores:
A Ana costuma temer a severidade das minhas apreciações.
Pode aqui ficar descansada. Ela esteve certa; eu estive errado. Mas em boa verdade, a Ana esteve certa: porque acreditou e teimou levar por diante algo, onde eu não consegui ver interesse.
Voltando a António Vieira, o Sal de que a Ana queria falar é o sal da salga.
O saído de uma hipotética feitura minha, talvez não o fosse (!). O pregador (eu) quereria fazer uma coisa, mas no fim, faria outra. A cada um, o seu sal, pois…
A Ana esteve certa e feliz, porque comigo nunca esta obra atingiria o mérito que lhe reconheço.
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A estimada e estreante Etelvina, por quem nutro grande simpatia e apreço, foi the right womam, for the right job... Conferiu uma beleza poética a uma amargurada tarefa. Não é fácil...
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Bem: do Paulo Godinho, que um dia, ainda rapazito imberbe, apareceu em minha casa a vender um excelente vídeo de sua autoria (e de Rui Bela), direi que fiquei, já então, aí, na certeza que havia muito a esperar (dos dois). Mas a vida «oblige»...e o fotógrafo teve de dar lugar ao óptimo profissional, que sei o Paulo ser.
Olhe Paulo: não gosto (já!) de dar conselhos aos mais jovens. Se o pudesse fazer dizia-lhe: guarde lá para o fim, como eu fiz, tempo suficiente para trabalhar no seu hobbie. Vai ver que vai muito a tempo...
A todos os meus parabéns.
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Senos da Fonseca, 16 de Maio de 2015
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Imagens de Paulo Mendes e de Teresa Soares (assinadas)
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Ílhavo, 7 de Junho de 2015
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AML
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