quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Homens do Mar - David Manuel Mendes Calão - 51


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Cap. David Calão (Ficha do Grémio)

Há em Ílhavo famílias cujo nome logo denuncia que nelas houve, geracionalmente, «pilhas» de homens do mar. E esta é uma delas – família Calão.
Que eu tenha conhecido e com alguma ligação com meu avô materno, pois era seu irmão, o patrono era o Capitão Francisco dos Santos Calão, de quem o visado de hoje é filho.
David Manuel Mendes Calão, filho, pois, de Francisco dos Santos Calão e de Maria Oliveira Mendes, nasceu em Ílhavo, em 27 de Julho de 1926, na rua Dr. Samuel Maia, lá bem para o fundo do Arnal, onde foi criado.
Do casamento com Maria Luísa Pinto Nunes Guerra, nasceram cinco filhos: duas raparigas, Maria Irene e Maria Luísa e três rapazes, Francisco Manuel, David Manuel e José Luís Guerra Mendes Calão, tendo, pelo menos, um deles, o David, vida ligada ao mar.
Capitão já das mais recentes gerações, era possuidor da cédula marítima nº 25165, passada pela Capitania de Aveiro, em 12 de Dezembro de 1945.
É perfeitamente natural que o mar fosse o grande objectivo da sua vida profissional, e, nesse sentido, fez a sua primeira viagem como praticante de piloto (ainda sem curso), na 1ª viagem do ano de 1946, sob o comando do seu pai, Francisco dos Santos Calão, no já citado e conhecido primeiro arrastão de pesca lateral, Santa Joana, mandado construir pela Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), na Dinamarca e estreado na safra de 1936 por João Ventura da Cruz.
David Calão, na safra de 1948, fez a viagem inaugural, a única do arrastão Santa Mafalda, construído em 1948, para a EPA, pelo estaleiro Odero Terni Orlando, em Livorno, Itália, como piloto, sob o comando de António Trindade da Silva Paião (1895-1971).
Retomando o Santa Mafalda no ano de 1950, com duas viagens, exerceu o cargo de piloto na primeira e o de imediato na segunda, sob o comando do mesmo capitão, bem como na única viagem do navio, em 1951, nas duas de 1952 e na primeira de 1953.
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Arrastão São Gonçalinho na Gafanha da Nazaré
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E eis que lhe foi proporcionada a mudança de navio, – o São Gonçalinho – do mesmo armador, Egas Salgueiro. Construção nos Estaleiros de Viana do Castelo, que o seu pai vigiara em 1946/47 e estreara no ano de 1948. Neste navio fizera, o «nosso» homem do mar, a segunda viagem de 1953, como imediato, sob o comando de Manuel Gonçalves da Silva, Paroleiro (1898-1972), situação que se manteve, durante o ano seguinte. A partir de 1955, a situação inverteu-se e o Cap. David Calão passou a capitão do «seu São Gonçalinho», com num ritmo de viagens alucinante, até ao ano de 1966. Apenas não fez a segunda viagem de 1963, tendo sido substituído por António Trindade Grilo Paião (1928-2002).
Neste espaço de tempo, foram seus imediatos, todos de Ílhavo, Manuel Gonçalves da Silva, Paroleiro, Francisco Manuel Mendes Calão (1961, 62 e 63), seu irmão, Manuel Alves Mendes (1964 e 65) e Valdemar Aveiro (1966).
Ao todo, entre imediato e capitão serviu-lhe de «habitat aquático» o São Gonçalinho, durante catorze anos, num total de 25 viagens, entre 1953 e 1966).  Este ritmo vertiginoso só seria conseguido por um homem trabalhador, dinâmico, sabedor e amante da sua profissão, que o levava a vencer a saudade da família, durante meses e meses no mar, em prol do sustento e conforto da mesma.
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Capitão David Calão, a bordo…
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O São Gonçalinho foi o primeiro arrastão com uma linha de veios e pás reversíveis, inovação que penalizou frequentemente o capitão com reparações e alguns dias de estadias em terra, que ele foi ultrapassando sempre.
Nesta mesma década de 60, começaram a surgir os chamados arrastões de popa, novos tipos de navios com novos métodos de pesca – o Maria Teixeira Vilarinho, em 1964, o Santa Isabel, em 1965 e o Santa Cristina, em 1966, para a EPA, ambos construídos nos Estaleiros de S. Jacinto.
Fez a viagem inaugural, em 1965, o Santa Isabel, pelas mãos de João Laruncho de São Marcos (1919-2018).
Em 1967, que grande desafio foi feito ao «nosso» capitão – o comando deste arrastão – … e assim aconteceu.
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O arrastão de popa Santa Isabel. 1965
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Depois de várias e rentáveis viagens, neste novo navio de arrasto de popa, em 1967 (três viagens), em 1968 (duas), em 1969 (duas) e em 1970, uma, visto que na segunda do ano, comandou o navio, Manuel Mendes, o inesperado aconteceu…
Foram seus imediatos Valdemar Aveiro (1967 e 68), António Virgílio (1969, 70 e 71) e seus pilotos, António Manuel Silva (1967 e 68), Manuel Luís Chuva Machado dos Santos (1969) e José Manuel Maia de Oliveira, nos restantes, todos de Ílhavo.
A 23 de Abril de 1971, prestes a largar para Portugal com um carregamento de cerca de vinte mil quintais, segundo noticia O Ilhavense de 1 de Maio, perdeu-se no Labrador, por choque com uma ilha de gelo, baixa mas profunda, o arrastão de popa Santa Isabel, belo navio, relativamente novo, pertença da EPA, salvando-se toda a tripulação, que já vem a caminho. Era seu comandante o distinto oficial náutico Cap. David Mendes Calão.
A perda fatídica na Terra Nova do Santa Isabel provocada por um iceberg só, por milagre, não deixou de luto setenta famílias de pescadores – é o título da notícia do Jornal do Pescador de Junho de 1971, pp. 41 a 44, de que respigo alguns excertos.
O drama, pois de drama se tratou, na medida em que se perdeu uma das mais valiosas unidades da nossa marinha mercante, teve lugar pelas vinte horas do dia 23 de Abril.
Noite cerrada, com toda a tripulação a bordo, depois de um longo dia de faina, eis que um som surdo, proveniente de algo que batera no arrastão, se fez sentir. Surpresa! Baque! Susto! – não se vislumbravam quaisquer luzes, o silêncio era total. A verdade dos factos surgiu e o Santa Isabel estava de água aberta… O seu destino encontrava-se traçado. Não seria preciso muito tempo para que toda a tripulação, composta por setenta homens, assistisse, à partida para um mundo submerso desse navio que era o seu orgulho, impotente para o evitar.
E mais do que o navio, desapareciam, devorados pelas águas, singelos, mas afectuosos bens pessoais, como uma simples fotografia de família, de muitos pescadores do nosso litoral.
Não aconteceu que estes homens, muitos, chefes de família, com bastantes filhos, fossem devorados para sempre. Nem tudo era drama, mas muito de mal havia sucedido.
O Santa Isabel já se preparava para dentro de breves dias, iniciar o regresso para Portugal. Tudo se perdera, mas a vida, essa, salvara-se.
Nesse salvamento, foi de louvar a actuação do capitão, tripulação e pescadores do Vasco d’Orey, arrastão da Empresa de Pescas de Viana, sob o comando de Manuel Machado dos Santos, Praia, de Ílhavo.
A luta pelo salvamento heroico dos seus semelhantes fora inexcedível, até à «captura» do último homem.
Mal chegaram a bordo, foi-lhes proporcionado o maior conforto com a ingestão de bebidas fortes, para lhes restituir o calor de que tanto necessitavam e com a cedência de roupas da própria tripulação, pois mais fartura não havia… são assim os homens do mar. Por vezes rudes, mas humanos e amigos do seu amigo. Logo que possível, a tripulação do Santa Isabel foi dividida entre o Santa Mafalda e o Santa Cristina, ambos arrastões da mesma empresa, em que navegaram até à barra de Aveiro. Se cada um sentiu a seu modo, para o Capitão David, a perda do «seu navio» nunca mais foi ultrapassada. Constou mesmo que foi muito difícil convencê-lo a abandonar o navio numa balsa salva-vidas, já que a sua decisão obstinada era afundar-se com ele. Este dramático episódio, sempre presente na sua mente, aí durou até ao fim dos seus dias.
Nesse mesmo Verão de 71, de férias na Costa Nova com a família, teve um acidente solitário de lancha, em que esta capotou, ao ter-se baixado, o capitão, para acender o cigarro.
Sói dizer-se que a vida é uma roda que anda e desanda para qualquer um dos lados. E nesta época, o azar bateu à porta do Cap. David. A roda resolveu andar para trás. Em fins de Agosto, dia 29, na sua casa de férias, no 1º andar, voltada para a ria, lá ao norte, nº 108, 1º, da Avenida Marginal da Costa Nova, desmaiou na banheira, intoxicado por uma fuga de gás do esquentador. A má notícia espalhou-se entre amigos e correu pela praia mais célere que a nortada.
Apesar de levado para o hospital com vida, urgentemente, foi reanimado, mas as lesões no cérebro provocadas pela falta de oxigénio, deixaram marcas irreversíveis na visão e no controle da fala. Com o andar dos tempos, foi recuperando, mas nunca mais foi quem era, nem voltou ao activo, apesar de ir mantendo alguma bonomia.
Ainda muito novo, partiu a 9 de Outubro de 1983, acabando a sua tormenta, com 57 anos, vítima de um ataque cardíaco. Aquele maldito iceberg gelara-o para sempre.
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Segundo declara Valdemar Aveiro (VA) no seu livro Ecos do Grande Norte (pp.117 a 120), o Cap. David foi o seu último capitão, sendo sem dúvida uma figura carismática da terra de Ílhavo e da pesca do bacalhau.
Ainda não o conhecia pessoalmente e já ouvia falar dele como um homem independente, arrojado, que se lançava em aventuras sozinho, sem mendigar a companhia de ninguém. Se as pescas não eram do seu agrado, abandonava a zona à procura de melhores resultados – grande marinheiro, que teve a oportunidade de confirmar pessoalmente.
Como já referido, o Capitão David, em 1967, passou para o comando do Santa Isabel, navio novo e de arrasto pela popa, onde este grande capitão mostrou o seu real valor, quer como Pescador, quer como Marinheiro.
Afável, calmo, bondoso, bom conversador – assim o retrata Valdemar Aveiro, de quem foi imediato nos anos de 1966, no São Gonçalinho e de 1967 e 68, no Santa Isabel.
A certa altura da vida, em plena actividade e na força da vida, foi morar para uma casa alugada esverdeada, pertença do Sr. Durão, que mais tarde comprou, ainda hoje, uma das mais bonitas e melhores moradias, logo no início da dita Avenida dos Capitães (e das primeiras construídas, pelo início dos anos 50), junto ao Pavilhão Desportivo do Illiabum Clube.
Segundo Valdemar Aveiro, não tendo sido ele o seu primeiro mestre, foi com ele que mais aprendeu, mais cresceu e ganhou dimensão, tendo-o preparado para que pudesse enfrentar com êxito, futuros combates.
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Ílhavo, 13 de Dezembro de 2018
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Fotos – Foto do Grémio cedida pelo MMI e a outra, pela família
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Ana Maria Lopes-

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Tragédias marítimas ... que enlutaram a nossa terra...


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Como já referi, muito mais do que pensamos, se perderam gentes ilhavenses no mar. Em qualquer dos mares, que é todo um. 
Sabendo que dois amigos meus, irmã e irmão, perderam o Pai num naufrágio, há mais de 50 anos, na altura, não lhe dei o merecido valor da perda.
Agora, que pondero mais os factos e os aprecio mais, lembrei-me de ir revirar os jornais da época, para saber se a notícia tinha sido dada e com que profundidade a tinham tratado. 
E no jornal «O Ilhavense» de 10 de Dezembro de 1965, está-se a aproximar o aniversário, dei de caras com o que pretendia.
Na primeira semana do corrente mês, há 53 anos, Ílhavo saiu enlutado de uma grande tragédia marítima.
Havia desparecido o velho cargueiro «João José I», naufragado ao norte do Furadouro, na sua viagem de Lisboa ao Porto, nos fins de Novembro. Vapor onde navegavam 9 homens, que perderam a vida, sendo de Ílhavo, o cozinheiro, Manuel Francisco Grilo, de 45 anos e o motorista, Leopoldo dos Santos Barreto, de 60 anos, homens muito admirados e estimados pelos camaradas pelo seu profissionalismo e capacidade de trabalho.
O cargueiro «João José I», antigo Merwestein, que o capitão João Cândido Cristiano comandou durante muitos anos, fazia viagens de cabotagem sob o comando do capitão cabo-verdiano, Manuel da Silva.

O cargueiro «João José I»
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Saíra de Lisboa para o Porto e a quatro horas de Leixões ainda o capitão comunicava com a esposa, dizendo-lhe que o navio estava a meter água. Nada mais se soube. E esta tragédia marítima poderia ter ficado por aqui…
Teria sido melhor? Pior? Esperou-se um dia, outro e outro, até que…
Cenas muito chocantes se seguiram.
Deu à costa, perto de S. Jacinto, o corpo do desditoso cozinheiro ilhavense Manuel Francisco Grilo de 45 anos, casado com Alzira Chibante.
O coração da família dos outros tripulantes desaparecidos apertou-se mais um bocadinho, numa esperança … de quê? Seria sempre uma má esperança, que talvez diminuísse um pouco a dor da perda. Seria? Não faço ideia, nem opino sobre tal…
Na manhã do dia 6 de Dezembro, encontrado por um pescador madrugador, apareceu arrolado o corpo de Leopoldo dos Santos Barreto, na praia da Costa Nova, um pouco ao norte da casa do conhecido, à época, Dr. Ferreira da Costa. O desafortunado motorista era casado com Júlia Vidal Figueiredo (Mariazinha) e pai da Maria Alice e do Júlio Barreto, meus amigos, e, ao tempo, respectivamente, professora do Externato de Ílhavo e finalista do Instituto Superior Técnico de Lisboa.
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Leopoldo Barreto
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Perante a cena traumática e arrepiante e cumpridas as disposições legais, o corpo, depois de colocado numa urna, foi velado, na Costa Nova, na sala da casa «das Rolinhas», irmãs do capitão Salta e daí para o cemitério de Ílhavo, em funeral, no dia seguinte.
Leopoldo Barreto andava há cerca de 34 anos no navio, que lhe havia servido de sustento para si e para a Família. Nele, agora, encontrou a morte.
O jornal «O Ilhavense» lastimou o sucedido, desejando que as famílias dos desditosos marinheiros encontrassem a resignação para o desgosto que as feriu perante perda tão dolorosa.
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Ílhavo, 03 de Dezembro de 2018
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Fotos cedidas pelos filhos
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Ana Maria Lopes-


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A vinte e seis anos da exposição Faina Maior (1992)


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Para que não vá ficando no esquecimento, apesar de sempre presente, fazem, exactamente, 26 anos, hoje, que se inaugurou a exposição Faina Maior – Pesca do bacalhau à linha, no nosso Museu, pelas 17 horas.

Com muita ansiedade, pompa e circunstância, o auditório, para um documentário prévio, encheu. O Museu encheu. Ílhavo estava ansioso por «entrar» na Faina Maior, exposição preparada há dois anos, com muito amor, dedicação, carinho, enlevo e trabalho, ao longo do litoral, nos secadouros ainda existentes, bem como em trabalho de gabinete e de experiência feito. Isso fez do MMI, o museu com o maior acervo de peças relativas à pesca do bacalhau, do país, e não só.

O prazo aproximava-se e dizia-me o Francisco Marques – Já temos cozinha, já temos leme, já podemos navegar – enquanto eu não me não me convencia muito, pois estávamos a uns escassos dias da inauguração e muitos pormenores havia para ultimar. Na derradeira noite, o museu não fechou – os mais noctívagos saíam, enquanto os mais madrugadores já chegavam.

A exposição constava dos seguintes sectores, documentados por folhas de sala escritas para o efeito: - o dóri, incluindo uma colecção de agulhas de marear e de zagaias, a escala, a salga, o convés, o convés da popa, incluindo uma colecção de formas de zagaia, a cozinha de bordo, o beliche e rancho, a câmara dos oficiais, incluindo as louças de bordo e farmácia, terminando com a secção de «ex-votos». Ocupava todo o rés-do-chão desmontado para o efeito, do edifício anterior ao actual.

Rememorando algumas imagens da grande exposição, que tantos frutos gerou, e, ainda hoje, é «o prato forte» do percurso expositivo do MMI. Há vinte e seis anos.
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O saudoso amigo Gaspar Albino e eu
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Capitães Francisco Marques e Fernando Mendes, entusiastas…
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Dóri aparelhado e colecções afins
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A secção da escala
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Preparando o aparelho junto a uma pilha de botes…
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Simulando a salga, no porão
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O ponto nevrálgico do simulado veleiro
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Beliche e rancho…
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E outros painéis teve, na impossibilidade de os recordar a todos.…
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Ílhavo, 28 de Novembro de 2018
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Fotos – Gentileza de Carlos Duarte
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Ana Maria Lopes-

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Tragédias marítimas... que enlutaram a nossa terra...


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Tragédias marítimas … que enlutaram a nossa terra...
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Muito mais do que pensamos, se perderam gentes ilhavenses no mar distante, longínquo e gelado, no mar costeiro mais bonançoso ou alteroso, em rios e rias, em qualquer ponto do país, desde que tocasse a pescas, transportes, comércio, etc…
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E o jornal O Ilhavense disso é testemunha, quase há cem anos. Sempre que o consulto, as anotações de tragédias marítimas não vão faltando…
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Num número de Dezembro da década de sessenta, o título chamou-me a atenção e li-o, claro. Acabei por o respigar, pelo insólito do sucedido. E, consultadas as fichas do Grémio, seleccionada a pessoa em causa, tudo corria a favor.
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Ílhavo viveu horas de profunda tristeza na primeira semana do corrente mês.
O mar roubara-nos três vidas de pessoas queridas, que sobre as águas labutavam para ganhar honradamente o sustento das suas famílias.
Sem aparentes motivos, o jovem José Manuel da Silva Correia caíra ao Tejo, de bordo do navio-motor Neptuno, pertença da Parceria Geral de Pescarias, ancorado em Cacilhas.
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Imaginem, no rio Tejo, já após a safra desse ano.
José Manuel da Silva Correia, de alcunha Zé Néu, filho de António Ferreira Correia e de Adélia da Silva Padre, nasceu em Ílhavo a 14 de Março de 1943.
Era portador da cédula marítima nº 29.855, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 6. 12. 1961.
Exerceu a bordo do Neptuno, os cargos de criado, de 1962 a 1964 e de ajudante de cozinheiro, em 1965.-


Ficha do Grémio
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O cadáver só apareceu passados uns dias, em Belém, tendo sido transportado para Ílhavo, no dia cinco de Dezembro. Recebeu uma manifestação fúnebre como há muto não se via na nossa terra.
Muita gente se associou à dor dos pobres pais e do inditoso moço, numa grande e acabrunhada manifestação de pesar, para a classe marítima.
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Outras tragédias marítimas virão a lume numa próxima ocasião.

Foto gentilmente cedida pelo MMI, do Portal de Homens e Navios do Bacalhau.
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Ílhavo, 9 de Novembro de 2018
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Ana Maria Lopes-

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Homens do Mar - Sílvio Ramalheira - 50


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Cap. Sílvio Ramalheira, a bordo do Argus, em 1950

Foi um homem do mar que todos devemos reverenciar, por ter suportado no mar uma das maiores tragédias, que jamais afectaram, mortalmente, Ílhavo, e outras localidades do litoral português. Todos sabemos a que nos referimos!... O fatídico afundamento do lugre Maria da Glória, em Junho de 1942. Mas a sua vida de mar não se limitou a esse ano!...

Alto, simpático, entroncado, de olhos claros, era mais um marinheiro da família Ramalheira – o capitão Sílvio. Tinha de ser. Os Ramalheiras, de Ílhavo, gerações e gerações, cruzaram os mares tenazmente, com um impulso de coragem no olhar. Havia muitos Ramalheiras de Ílhavo, a trabalhar na frota bacalhoeira, nos anos 50, – recorda Alan Villiers – o, João Pereira Ramalheira, o Vitorino, comandava o navio-hospital Gil Eannes, o Aníbal Ramalheira, que supervisionava frota dos Bensaúde, em terra, em Lisboa, depois de uma carreira longa e notável à frente de vários lugres. E muitos mais teria havido.
O Capitão Sílvio Ramalheira nasceu em Ílhavo em 2 de Dezembro de 1902. Filho de João Pereira Ramalheira, de alcunha, o Pisco, também ele capitão da Marinha Mercante, nascido em 1868, e de Maria Rosa Ramalheira. Casou com Maia Júlia Magano, de quem não teve filhos. De segundas núpcias, teve três filhos, dos quais o mais velho, de nome Sívio Ramalheira, seguiu a carreira da Marinha de Guerra, segundo desejo do Pai.
O capitão Sílvio, pela vida fora, conhecia bem, ao longe, aquele pontinho branco que era aquele pequeno veleiro – o Gazela, pois a sua primeira viagem aos bancos, fizera-a, como moço, com cerca de dez anos, naquele navio. Mais tarde e, consultados os primeiros jornais de Ílhavo, fora piloto, nos anos de 1922, 23, 25 e 26 do dito Gazela Primeiro, sob o comando do Pai, João Pereira Ramalheira, o Pisco. Mais tarde, na campanha de 1932, comandara-o. O bichinho do Gazela ficara-lhe, mas, vida é vida e saltitou, então, no comando entre mais três lugres da Parceria – o velho Argus, mais tarde o Ana Maria, em 1927 e 29, o Neptuno II, em 1928 e 30 e o velhinho Gamo, na campanha de 1931. Durante estes anos, teve como pilotos, de Ílhavo, Manuel dos Santos Labrincha (1928) e João Pereira Ramalheira, o Vitorino, em 1930 e Adolfo Francisco da Maia, em 1931. Que recordar dos lugres Neptuno II e do Gamo?
O tal Neptuno II, de madeira, construído em 1873 em Vila do Conde, armou em patacho e, reconstruído em 1926 por Manuel Maria Bolais Mónica, passou a armar em lugre. Deixou de pertencer à Parceria Geral de Pescarias, no ano de 1938.
Do lugre Gamo, há que realçar que foi um lugre de madeira, construído para a PGP, Lda., por Luiz Basílio, no Funchal. Utilizado para a pesca do bacalhau, entre 1923 e 1939, foi vendido, tendo-se destinado ao comércio.

Lugre Gamo

Sílvio Ramalheira, num dia de Junho de 1932, capitão do Gazela Primeiro, num momento de correntes traiçoeiras, de um vento repentino e de ondas perigosas, tinha os seus homens fora (…). Era difícil para um navio, como o Gazela chegar perto dos seus pescadores, sendo costume, nesse tempo, lançar-lhes um longo cabo de manobra preso à popa do navio ancorado (…). Como o Cap. Sílvio não era homem para estar parado, nesse dia, fez-se ele próprio ao mar, levando esse cabo. Levou ainda um segundo dóri, em que remou, velejou, indo ao encontro dos homens que estavam mais em perigo (…). Havia trinta e um dóris do Gazela no mar, e o capitão encontrou e salvou vinte e nove: os dois restantes nunca mais regressaram – recorda Alan Villiers, na campanha de 1950.
Se isto não era uma boa recordação, o que haveríamos de dizer da maior tragédia da sua vida marítima? Horrível! …sem adjectivos que a classifiquem!...
Os capitães, quando o tempo o permitia e se davam bem, visitavam-se nos seus navios. Em 1939, a bordo do lugre Hortense, amigos, à nossa esquerda, Francisco Paião, o seu irmão Adolfo, a meio, capitão do Hortense, e Sílvio Ramalheira, à nossa direita. Uma relíquia de imagem!...
  
Em 1939, a bordo do Hortense

Mas, entre, 1932 e 34, a sua vida dera uma grande reviravolta. Deixava a parceria, para comandar, de saco e bagagens, o lugre Maria da Glória, da praça de Aveiro. Era um belo lugre de madeira, elegante e capaz, onde o capitão investira as suas poupanças. O ex-Portugália, construído na Gafanha da Nazaré, na campanha de 27, passou a chamar-se Maria da Glória, então propriedade da Empresa União de Aveiro, Lda. Foi sujeito a uma reconstrução no ano de 1937, bem como à aplicação de motor de propulsão.
Entre 1933 e 1942, o «nosso» capitão comandara este lugre, até ao seu final trágico, doloroso e pungente. Durante estes dez anos, tivera como pilotos, Flávio Ramires Campos Pereira (36 e 37), Júlio António Lebre (38 e 39) e António dos Santos (1942), todos de Ílhavo.
Em tempos de guerra, foi afundado em 5 de Junho de 1942 por um submarino alemão, em viagem para a Groenlândia, tendo constituído uma das maiores tragédias que assolaram a nossa vila maruja. Dos 44 tripulantes, apenas se salvaram 8, em condições sobre-humanas, em dois botes despojados de tudo. E Sílvio Ramalheira foi um dos que se salvou, em muito mau estado psicológico e físico, pelos muitos estilhaços, com que tinha sido atingido na perna direita.
Vários relatos doridos e arrebatadores existem deste afundamento, não sendo todos eles unânimes na sua narrativa. Muito luto, muita dor, muitas perdas, poucas notícias, muita ansiedade, muito tempo de espera. O jornal O Ilhavense de 1.8.42 dá a notícia, o Diário da Manhã de 25 de Julho de 1942, igualmente, referindo-se aos 37? (36) marinheiros desaparecidos e O Primeiro de Janeiro de 3 de Setembro do mesmo ano, noticia a chegada a Lisboa do capitão Sílvio Ramalheira e de mais três tripulantes do lugre afundado na Groenlândia. E muitos mais se lhe referem, até recentes, como um artigo do jornal Expresso do penúltimo Verão, de 18 de Junho de 2017.
Mas a convalescença do capitão, devagar, devagarinho, de dia em dia, ia avançando, tendo sido muito longa, dolorosa e morosa. Nos anos de 1943, 44 e 45, ficou em terra, não vendo mais jeito de recuperar a perna ferida, sem o auxílio de muletas. Mas, dificilmente, esse tempo chegou e o seu estado físico e psicológico de tal acidente foi-se recompondo. Creio mesmo que lhe deve ter ensombrado a vida toda, se bem que o tempo se tivesse ido encarregando de suavizar as tragédias sofridas. Numa tentativa de minorar as suas penas e de se voltar a sentir válido, retornou ao mar, na campanha de 1946.

E ei-lo a retomar o mar, como capitão do navio Lutador, o tal navio-motor dos três mastros, nas safras de 1946 a 1948.

Durante estes três anos, foi seu imediato, Manuel dos Santos Marnoto Praia (1946 e 47), de Ílhavo. E pilotos, como estreante, João Fernandes Matias (46) e António Remígio Sacramento Teiga conhecido como António Capote (47), também ilhavense. Sílvio Ramalheira teve a satisfação de estrear o navio, que tinha sido construído em 1945 para a Empresa de Pesca de Lavadores, Lda., por João Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, tendo iniciado, pois, a actividade de pesca, no ano seguinte.

Navio-motor Elisabeth, em 1950

Entre as campanhas de 1949 e de 1952, o capitão Sílvio comandou o navio- motor Elisabeth, que fora construído em 1945, para a Empresa João Norberto Gonçalves Guerra, da praça de Lisboa, por Manuel Maria Bolais Mónica. De Ílhavo, teve como imediatos Elmano Graça Ramalheira (50 e 51) e Manuel dos Santos Marnoto Praia (52). Piloto, de Ílhavo, Vitorino Paulo da Silva Ramalheira (52), seu 2º primo.
Durante a célebre campanha do Argus, com Alan Villiers a bordo do mítico navio, visitava com frequências os Capitães Adolfo e Almeida, irmãos, a quem o uniam laços de amizade. A meio, na foto seguinte.

A bordo do Argus, 1950

O repórter do Jornal do Pescador de Setembro de 1951, na p. 8, noticia que o Elisabeth fora o primeiro navio bacalhoeiro a regressar da Groenlândia completamente carregado, elogiando a arte e saber do capitão, em perseguir os cardumes de bacalhau.

Em última «emposta», saltou com regozijo, na safra de 1953, para o novo navio-motor, de aço, Capitão João Vilarinho, construído para João Maria Vilarinho, nos Estaleiros Navais do Mondego, Figueira da Foz, em 1952. E por lá se manteve, durante cinco campanhas. De Ílhavo, apenas teve como imediato, Manuel dos Santos Marnoto Praia e, como piloto, Vitorino Paulo da Silva Ramalheira, em 1953.
  
Navio-motor Capitão João Vilarinho

Aposentou-se em Setembro de 1962, com direito a saborear um merecido descanso, depois de uma ousada e extenuante vida de mar. Deixou-nos em 26 de Abril de 1982, com 79 anos de idade.
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Ílhavo, 16 de Outubro de 2018
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Fotos – de A. Villiers, cedidas pelo MMI e do arquivo pessoal.
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Homens do Mar - Manuel Cecílio do Bem - 49


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Manuel Cecílio do Bem (Paulo)

Sempre foi minha conhecida e vizinha, a Silvina Paula, por aqui por entre as ruas Ferreira Gordo e João de Deus. Noutro dia, ao cruzarmo-nos no passeio, aqui de Espinheiro, dirigiu-se-me e   entabulou conversa. Nesse dia, o assunto tinha a ver com os «Homens do Mar», que O Ilhavense tem publicado. Como filha de marítimo, de quem muito se orgulha, e possuidora de pequenas fotos do Pai, a bordo, tinha muito empenho em que eu pudesse dedicar um dos meus despretensiosos trabalhos ao Manuel do Bem, de alcunha, o Paulo.
E porque não? Se as imagens fossem elucidativas e ela me orientasse naqueles primeiros dados que só a família sabe, então, soltar-me-ia, percorrendo caminhos habituais (jornais O Ilhavense, Jornal do Pescador, fichas pessoais do Grémio, fichas de navios, de cada campanha, tripulações, etc.), que percorro com gosto.
Além disso, em 1992, juntamente com os colegas cozinheiros António Gordo, João Labrincha e João Barreirinha, tinha ido algumas vezes ao Museu, aquando da preparação da lembrada Faina Maior, ajudando-nos a identificar algumas peças do gigantesco trem de cozinha trazidas das secas, bem como dar umas dicas sobre o seu «papel» de cozinheiro, a bordo. Do cozinheiro e seu ajudante, dependiam todo o «combustível» da tripulação, trabalho nada fácil, exaustivo, preocupante, mas rotineiro. E Ílhavo também fora pródigo em fornecer bons cozinheiros para a pesca.
A Paula, mesmo ali, no passeio, recordou alguns dos navios em que o Pai andara embarcado e também os seus capitães – Quim da Graça, Mário Paulo do Bem, Valdemar Aveiro e capitão Pascoal, entre outros. Claro, o seu desejo despertou-me interesse e fiquei, ansiosamente, à espera das fotografias. Da cozinha de bordo, propriamente, não tinha esperança que aparecesse alguma, pois as condições de luz do espaço não eram favoráveis e dificultavam o registo dos desejados cenários reais. Um dia, de posse das mesmas, a Paula, em conversa, ali na sua casa do típico beco ilhavense, nº 11, à Rua João de Deus, tirou-me algumas dúvidas, forneceu-me mais uns dados e daí em diante, eu que me desvencilhasse.
Manuel Cecílio do Bem, de alcunha Paulo, filho de José Paulo do Bem e de Maria de Jesus Calçôa, em Ílhavo tinha nascido em 27 de Maio de 1921 e por aqui se criara.
Portador da cédula marítima nº 22601, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 7 de Março de 1939, terá ainda jovem, sido levado para o mar, por algum amigo ou familiar, como moço de câmara.
Do casamento com Silvina Marques da Silva, em Novembro de 1952, nasceram a Silvina Paula (mais velha) e António Augusto Marques do Bem, também marítimo, com o mar a correr-lhe nas veias.
Depois que termos acesso aos registos do Grémio, Manuel Paulo, terá feito o seu baptismo de mar como moço, no navio-motor de ferro, Santa Maria Madalena, nas safras de 1939 e 40. Continuou no mesmo navio, construído em 1939, para a Empresa de Pesca de Viana, nos estaleiros da Companhia União Fabril (CUF), até 1943, tendo passado a ajudante de cozinheiro. Sempre sob o comando de Joaquim Fernandes Agualusa (1901-1983), mais conhecido por Quim da Graça, de Ílhavo.
  
À nossa direita, a bordo
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Nas safras de 1944 e 45, perde-se-lhe o rasto, que, talvez se venha a encontrar. Esperemos.  Surge-nos, ainda como ajudante de cozinheiro, nas campanhas de 1946 e 47, no lugre Ilhavense Segundo. Este lugre-motor construído para a Parceria Marítima Esperança, Lda., por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1918, não participou nas campanhas de 1949 a 1952, tendo retomado a actividade depois de reconstrução sofrida em 1952. Foi seu capitão, o ilhavense Carlos Ançã.

À nossa esquerda, a bordo…
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E na safra de 1948, o Paulo deu o salto com o «saco da roupa» para o convés do Viriato, aonde regressaria por muito mais tempo, sob o comando de Mário Paulo do Bem (1907-1976).
  
Bota-abaixo do Viriato, em 1945
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Depois de uma passagem na safra de 1949, pelo icónico Gazela Primeiro, sob o comando do ilhavense João Simões Chuva, o Anjo (1901-1956), assentou arraiais no Viriato, durante mais oito viagens, com o mesmo capitão, Mário Paulo do Bem, seu amigo e familiar, até 1955 e com Elmano Pio da Maia Ramos, ambos ilhavenses, entre 1956 e 57, tendo alcançado o posto de cozinheiro no ano de 1951.  Este ano de 1951, no Viriato, parece que me diz mais alguma coisa. Ah!...
Por mais que uma vez que ouvi da boca do Cap. Valdemar Aveiro que se fizera à pesca do bacalhau, pela primeira vez, como moço, a bordo do lugre-motor Viriato, no ano de 1951, no sentido de suportar as despesas da sua formação. Era isso! Acto louvável!...
O Manuel Paulo, como cozinheiro do navio. conterrâneo e amigo do Valdemar, sempre lhe preparava uns «miminhos culinários», à socapa, como era hábito em situações deste tipo – referiu-me a filha.
A principal peça da cozinha, incluída «no rancho» era o grandioso fogão, de início, a carvão de pedra, ladeado de pequenas tulhas com os mantimentos que o cozinheiro mais usava: feijão branco e encarnado, grão, arroz e açúcar, este, fechado a cadeado. As grandes bailas, tachos, panelas, tabuleiros, passe-vites, cafeteiras, penduradas nos vaus. Espaço acanhado…, mas, asseado, limpo e arrumado.
Rente à saída para os grandes bancos, vinha a fragata dos mantimentos. Avisado o cozinheiro, ele conferia-os com ajuda de outros companheiros – tudo com peso e medida!
No dia seguinte, chegava o bote com caixas de peixe: pescada, chicharro, pargo-mulato, peixe-espada, corvina… Vinha logo o cozinheiro – vida difícil a deste homem –, estripá-lo com a ajuda da sua mulher, da do contramestre e de um ou outro marinheiro. Salgava-se no porão, ao lado do encerado com as alfaces, favas, ervilhas, cenouras, para os primeiros dias de viagem. Mais perto da saída, vinha a fragata da água – o cozinheiro que começasse logo a tenteá-la– era-lhe   recomendado.

O casal, a bordo do Viriato, em 1954
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A foto anterior é mais um documento da presença das mulheres a bordo. Aqui, a do cozinheiro, na sua vestimenta de época, com avental lavrado e embonecado com folhos, calçada com as suas peúgas de lã e tamancos envernizados e solas de madeira, comprados na feira da Vista Alegre.

Às vezes, havia queixas - a sopa anda a sair salgada com’à pilha – reclamava a companha.
Às sete e meia da matina, saía o «almoço» – variava entre  papas de feijão, feijão guisado ou assado no forno, papas de farinha de trigo, açorda; – o «jantar», às onze e meia (sopa de feijão branco ou vermelho, ou grão com arroz ou massa, temperada com toucinho bem alto) e peixe cozido, só por só, com alguns temperos, se o cozinheiro estivesse bem amurado (de boa disposição). À ceia, voltava o peixe acompanhado de feijão frade e grão de bico.

E o pão de bordo? Ah! Ah! De boa farinha de trigo americana, amassado em água salgada, estava sempre em tabuleiros sobre a mesa. Se era igual e creio que sim, àquele que nos mandavam a casa, ainda quentinho, sempre que entrava algum navio da empresa: –  Era de comer e chorar por mais!

Pequenas regalias distinguiam a quinta-feira e o domingo: o queque, ao almoço e a carne salcochada, ao jantar.

Também a alguns «pitéus», tinham direito os pescadores, de vez em quando:
– tartaruga, com carne muito apreciada, idêntica à da galinha, mas com sabor a peixe, apanhada ali por altura das ilhas.
– toninha, cozida ou guisada, ou em bifes frescos, apanhada, também, pelas bandas das ilhas.
– a lula excedentária, depois de primordialmente, servir para isca.
– peitos e coxas de cagarra também constituíam um óptimo «pitéu».

Chegados aos pesqueiros, o horário das refeições estava condicionado à pesca.
O cozinheiro aviava o pessoal em refeição volante, que se misturava com gagins e anzóis, no foquim – pão, umas postas de peixe frito, azeitonas, café, uma garrafa de água. Antes da escala, o jantar, com sopa e peixe cozido – agora fresco, pescado e escolhido para o efeito.

Que belo troféu!...
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Depois da escala, a famosa «chora», cozinhada com caras de bacalhau e arroz.
Horas de descanso… poucas…, e de secar a roupa com o calor do fogão, que nunca se apagava – «morria», mas quando o cozinheiro se levantava, dava-lhe uma mexedela com o ferro, punha-lhe mais carvão e toca a andar.

Vida dura que foi melhorando com a maior capacidade e condições dos navios. O Paulo do Bem, desde o Santa Maria Madalena, em 1939, passando pelos já citados navios, também cozinhou, para as companhas dos navios-motor Novos Mares, entre 1958 e 1961, e S. Jacinto, entre 1962 e 64 e do arrastão João Ferreira, em 1965 e 66. Por eles lidou com os capitães Weber Manuel Marques Bela, António de Morais Pascoal, e Joaquim Manuel Marques Bela, todos de Ílhavo, e com João Francisco Grilo, da Figueira da Foz.
Em dias de brisa, com descanso a mais e falta de peixe, más caras, todos se aborreciam.
O pobre do cozinheiro é que alombava…comer sempre a horas certas. Lá se lhe iam os mantimentos, era mais a refeição do meio-dia. Esta malta a bordo só fazia lixo e ainda tinha de a aturar – pensava o cozinheiro.
As mulheres, como já referido, também passavam algum tempo a bordo, antes da largada, ajudando à baldeação e à limpeza. Até mandavam e habituavam-se a ver o tempo…
O Manuel Paulo também teve a sua passagem pelo comércio, como atestam algumas fotografias. Entre fins de 1943 e princípios de 1946, fez algumas viagens para o Brasil, no paquete pertencente à Companhia Colonial de Navegação, Serpa Pinto, que ficou conhecido pelo navio da Amizade.

Paquete Serpa Pinto
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Já após a carreira do bacalhau, por 1967, fez algumas viagens de cabotagem, no navio Alger, em que naufragou por encalhe, em 29 de Junho de 1969, tendo feito um telefonema para a mulher, ali para a antiga loja do Sr. Lamarão, na rua, para a descansar e ouvir.

Em 1971, tirou o curso de cozinheiro no Alfeite, para poder embarcar, então, na Marinha Mercante, tendo sido cozinheiro no «novo» Serpa Pinto, da Companhia Insulana de Navegação, bem como no Funchalense e Madeirense – informação do genro Fernando Gago.
Deixou o mar por volta de 1980.
Depois de um AVC de que recuperou bem, ainda passou uns aninhos cá pela vizinhança, entre umas saídas com amigos, por casa e «dando uma mãozinha» nas lides culinárias, em que chegava a cozinhar ementas diferentes, para satisfazer os gostos de adultos e crianças. Cozinheiro era assim, em Ílhavo. Deixou-nos em 16 de Fevereiro de 2000, com 78 anos.
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Fotos cedidas pela filha.
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Ílhavo, 4 de Junho de 2018
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Ana Maria Lopes
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