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terça-feira, 7 de agosto de 2018

AMI festeja o 81º aniversário do Museu Marítimo


Hoje, 8 de Agosto, Amigos do Museu festejam o 81º aniversário desta instituição, com a oferta de uma bateira labrega, primorosamente aparelhada. Tosca, mas airosa, embreada a negro, e de bica de proa caracteristicamente levantada, menos atrevida que a do chinchorro, foi construída pelo «mestre de primeira água» António Esteves, de Pardilhó.


Mestre Esteves ultima a labrega

Com um comprimento de 8,40 m, boca 1,82 m, pontal com 0,53 m e 14 cavernas, navegava a remos, à vara ou à vela e dedicava-se à antiga, singular e engenhosa «arte do salto», para a tainha. Depois da vela bastarda, aderiu à moda da vela latina quadrangular, auxiliada, por um pequeno leme de xarolo, de cabeça direita, tipo mercantel.
Sobretudo característica da Murtosa, expandiu-se pelo país, através da diáspora de gentes da região – para sul, integrando-se na «saga dos avieiros» no Tejo, e mesmo até Setúbal, no Sado e, para norte, até à Afurada, chegando a decorar-nos também por aqui, o canal de Mira, na Costa Nova, em tempos idos.
Era uma peça que faltava na Sala da Ria do Museu, tendo sido construída com base no levantamento levado a cabo pelo Arquitecto Fernando Simões Dias, em âmbito de Mestrado em Design, pela Universidade de Aveiro, de Etelvina Almeida, com o título: Embarcações Tradicionais da Ria de Aveiro – uma análise pelo Design, no ano de 2010.
Queremos preservar a memória patrimonial da bateira labrega, A1440 L, A PRETA, de cor e de nome, do afamado Ti Manuel «das Tainhas», que, à data, nela praticava a «arte do salto», na nossa Costa Nova.
A última das últimas (e não será por muito tempo), é a labrega A 2829 L, ROSINHA, da Bestida, é propriedade de Alfredo Cruz (mais conhecido por Viola ou Calcado), ainda primo do Ti Tainha. A ROSINHA, já algo alterada pelas várias amanhações sofridas e pela adaptação de uma falca fixa, ainda utiliza uma arte idêntica (arte da parreira), adaptada às exigências legais actuais. É suposto que ambas as bateiras tivessem sido construídas pelo mestre José Preguiça, do Monte, Murtosa.

 
Alfredo Calcado, com a dita arte de pesca

Para navegar nas águas do Museu, tem sido nossa intenção, ir salvando do tenebroso esquecimento do tempo, uma embarcação tradicional lagunar, de cada vez. A última oferecida ao MMI, em 2013, pelo seu grande peso simbólico e identitário e sua elegância, foi a bateira ílhava, seguindo-se, após uma diuturnidade, a bateira labrega.


A bateira labrega no Museu
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Ílhavo, 8 de Agosto de 2018
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Fotografias de Etelvina Almeida
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Ana Maria Lopes
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domingo, 22 de abril de 2018

Curiosidades - O Mar de Sines


Na última sexta-feira, assisti no MMI, integrado no Mar Film Festival, a um documentário extraordinário sobre o Mar de Sines – A resiliência das gentes do mar. Confesso que gostei. Relevava as «artes» de pesca tradicionais de que eu tinha conhecimento existirem em Sines. Sempre as observei do lado de terra, enquanto que, no documentário também me era dado observá-las, em acção, no interior da embarcação, o que completava a minha visão. Algumas delas:  caixote do aparelho de anzóis e a sua preparação, a rede do tresmalho, a rede de cerco, o alcatruz para o polvo, a penosa arte de mariscador, a descarga de peixe, sobre os antigos chapéus de lata, a venda em lota, no areal, a toneira para a lula, o chinchorro, os covos já de plástico, e outras, que não memorizei. Todas me eram familiares, tendo gostado de as ver ao vivo, bem como o amor ao mar, manifestado em entrevista, por quem as praticava.
Curioso é que, há uns três anos, recebera um pedido, por e-mail, de um realizador de Sines, Diogo Vilhena, para utilização do livro de que sou co-autora, Faina Maior – A Pescado Bacalhau nos Mares da Terra Nova, encontrado nas mãos de pessoa ainda entre nós, que se identificara numa fotografia, neste livro, que, em primeira edição (Quetzal, 1996) lhe havia sido oferecido por pessoa amiga. Claro que autorizei. Além de outras imagens que tive o prazer de rever no filme, esta era a principal, o dono do livro e protagonista na imagem.
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Imagem 76, do espólio de Francisco Marques

O jovem moço que sustentava o gigantesco bacalhau é João da Silva Faria, nascido em 19 de Novembro de 1931, em Sines, moço, nas campanhas de 1951 1952, no lugre Labrador – assim testemunha a ficha do Grémio. Que coincidência e como o mundo é pequeno. Tudo batia certo.
Cerca de três dias, antes da exibição do documentário em Ílhavo, recebi o gentil convite do produtor António Campos, para estar presente, se possível, à sua exibição. E estive.
No final, entabulou-se entre nós uma agradável conversa sobre as artes tradicionais, que conhecera na minha estadia em Sines, nos anos sessenta, em pesquisa para a minha tese de licenciatura, O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterrarreísmos, que tiveram o prazer de folhear e levar. As imagens desse tempo manifestaram-se, para eles, uma raridade. Outro projecto teriam em vista, para as quais poderiam ser muito úteis. Possivelmente, a seu tempo, conversaremos, de novo. E assim foi o encontro de gentes de Sines, em Ílhavo.
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Botes em Sines. Anos 60
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Sines. Lota no areal.
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Ílhavo, 22 de Abril de 2018
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Duas velinhas para o «Marintimidades»

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Colecção Capitão Marques da Silva
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dez anos, andava em ensaios para criar um blogue, exactamente, quando estava em exposição no Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), a Colecção Capitão Marques da Silva, na Sala de Exposições Temporárias, até 27 do corrente mês. Mesmo depois desse prazo, seria integrada, pelo menos o seu núcleo principal, na Sala dos Mares do referido Museu.
O protocolo do depósito desta colecção foi assinado no museu, a 5 desse mês de Abril, bem como lançado um pormenorizado Catálogo da mesma. Como co-autora e coordenadora de edição, não me compete a mim avaliá-lo. Direi apenas que, quem o adquirir, levará a exposição para casa, pois é ilustrado por 30 boas fotografias de Carlos Pelicas das 30 peças expostas.

Capa do Catálogo

Para mim, foi muito gratificante trabalhar com Marques da Silva, consolidando uma amizade já com alguns anos, aquando do seu empréstimo ao museu de algumas peças que figuraram na 1ª exposição Faina Maior, em 1992. Não há palavras que qualifiquem as suas mãos nem a sua paciência, que fazem dele um modelista pedagógico de primeira água. Só mesmo as peças falam por si.

Modelo do lugre-motor Creoula
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Curioso ainda o facto de termos em comum um gosto forte pela Faina Maior e pelas embarcações tradicionais portuguesas.

Louvável, a todos os níveis, o seu acto de depósito da maravilhosa Colecção, dando possibilidade a todos os visitantes do Museu de a observarem de perto.

O barco moliceiro

E assim foi criado o Marintimidades, que hoje festeja 10 anos, para falar das coisas do mar, da ria, de embarcações, de artes, de museologia marítima e de eventos que surjam dentro desta área, publicitando-os, e sobre eles detendo um olhar…

Uma recordação desse dia… e nestes dez anos, muita água passou por baixo das pontes…
 


 Ílhavo, 20 de Abril de 2018
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Dia do Mar

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O Dia Nacional do Mar comemora-se no dia 16 de Novembro, data à qual o Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) não podia ficar indiferente, assinalando-o com várias iniciativas ao longo dia 18, sábado, das quais destacamos:
Pelas 16 horas, a apresentação do livro «Traços de Construção Naval em Madeira – Mastreação e Aparelho do Navio» de António Marques da Silva
e a Entrega dos Prémios do 4º Concurso de Modelismo Náutico do Museu Marítimo de Ílhavo.

 
O livro do Senhor Capitão Marques da Silva é constituído por seis partes, além da Introdução. São elas: A Ossada do Casco, O Arvoredo, Aparelhar um Navio, Ferragens do Navio, Conservação dos Navios de Madeira e O Velame, além da Conclusão e de um sucinto glossário.
Desenhos aproveitados de uma antiga «gaveta», com textos explicativos recentes. E sabemos quanto valem os textos tecnicistas deste Autor!
Os diversos capítulos são separados por belas e elucidativas fotos de Friedrich Baier. Prefácio do Almirante Tito Cerqueira.
Certamente, se aparecer pelo museu, no próximo sábado, sairá muito mais enriquecido. Verá!

Ílhavo, 14 de Novembro de 2017

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Associação Memória e Património dos Terre Neuvas visita o Museu Marítimo de Ílhavo

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Repetindo a visita que fizera ao Museu Marítimo de Ílhavo, em Março de 2016, esteve, hoje, de novo, presente, no MMI, uma representação da Associação «Mémoire et Patrimoine des Terre Neuvas», uma colectividade sediada em St. Malo, França, que visa preservar a memória e património da pesca do bacalhau na Terra Nova.
O grupo visitante
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Motivo?????????Jean Baptiste Georgelin, no ano de 1959, um jovem pescador francês, tripulante do arrastão Colonel Pleven, acabou por cair ao mar, em pleno Atlântico Norte, em águas geladas de difícil sobrevivência, sem que ninguém o tivesse visto.
Só mais tarde, a restante tripulação terá dado pela sua falta e o aviso ecoara mais tardiamente. O código de emergência foi escutado a bordo do arrastão português Águas Santas, cujo capitão era, na primeira viagem de 1959, o ilhavense Manuel Lourenço Catarino, nascido em Fevereiro de 1900.
O pescador francês não esqueceu os tripulantes portugueses, que, indo ao seu encontro, num bote, lhe salvaram a vida e tinha uma vontade férrea de os vir a conhecer.
Com um deles ainda vivo, natural de S. Jacinto, aqui ao lado, Manuel Joaquim Bola Vieira, visitou-o, hoje de manhã, na sua terra, para lhe transmitir um sentido agradecimento – o seu renascer. O outro, já falecido, natural da Murtosa, Abílio da Silva Rodrigues Brandão, foi representado pelo seu irmão, que também esteve presente.
No MMI, o nosso reencontro com os elementos da referida associação e com Jean Pierre Andrieux e sua esposa, foi extremamente afectuoso, constando de uma visita guiada em francês, para uma compreensão plena, à Sala Faina Maior e Aquário dos Bacalhaus.
Conhecer o sobrevivente, Jean Georgelin, depois de tais chocantes peripécias em bom estado de saúde e muito bem conservado nos seus 75 anos, foi emotivo e comovente.
Jean Georgelin e eu
Alguns exemplares do livro Portugal no Mar e Tributo a Capitães de Ílhavo foram oferecidos a elementos da comitiva e ao pescador «sobrevivente», tendo sido feita uma identificação visual do capitão, à época, do Águas Santas, e dos pescadores salvadores, no livro Portugal no Mar.
 
Por idêntica gentileza, foram-nos oferecidas placas simbólicas do inédito salvamento. Uma tarde agradável.
Ílhavo, 7 de Setembro de 2017
Ana Maria Lopes
 

domingo, 15 de janeiro de 2017

AMI enriquece espólio pictórico do MMI

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Ontem numa frígida noite de 14 de Janeiro, em que o Museu Marítimo de Ílhavo anunciou o programa de eventos comemorativos do seu octogésimo aniversário (com o seu ponto alto a 8 de Agosto), a Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo (AMI) teve o prazer de enriquecer a colecção de pintura, que, desde há três anos, se exibe em sala apropriada para o efeito, – o melhor dos nossos maiores e não só…. temas marítimos ou lagunares, dentro de determinadas correntes que se consideram essenciais na colecção.
Este ano, nos seus 80 anos, o que lhe teríamos reservado? Um achado…uma pérola… que vinha enriquecer o espólio museal.
Aqui atrasado, foi a leilão no Palácio do Correio Velho, uma aguarela intitulada Marinha, de pequena dimensão, 12,5 cm. x 25,5 cm, assinada por T. Mello, não datada. O preço não era assim muito ousado, até porque o suporte apresentava leves sinais de pigmentação, fáceis de atenuar, por restaurador perito.
Marinha de T. Mello

Marinha pode designar muita coisa, mas, neste caso representava duas bateiras ílhavas, na praia, muito provavelmente, em Cascais, com alguns pescadores ílhavos. Depois de observar o quadro, on-line, o entusiasmo apoderou-se de mim. Parece que tinham sido feitas de encomenda. As «nossas tão faladas ílhavas», de uma beleza, elegância e cromatismo extraordinários. Que belíssimo bocado de papel aguarelado documental!....
Depois de umas peripécias leiloeiras, a aguarela era pertença do MMI, pelas «mãos» da AMI.
Ao vê-la ao vivo, os olhos caíram-me nela e dela não se queriam distanciar. Todo o conjunto – aguarela, passepartout e moldura eram trespassadas por uma patine encantadora, que o tempo confere aos documentos.
T. Mello (Thomaz de Mello) foi um autor luso-brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1906 e falecido em Lisboa, em 1990.Viveu quase toda a vida entre Cascais e Sintra, tendo-se dedicado a vários meios gráficos, desde a pintura ao desenho, passando pela BD, caricatura e tapeçaria, estudados pelo crítico de arte José Augusto França. Pertenceu à segunda geração de pintores modernistas.
Ílhavo, 15 de Janeiro de 2017
Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Exposição St.John's, Porto de Abrigo - A Frota Branca, no MMI

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A Sala de exposições temporárias, no MMI, exibe uma exposição fotográfica sedutora e fora do vulgar, até 23 de Outubro.
Há exposições e exposições, mas esta compensa, brilha e «enche o olho».
O autor, Paul Anna Soik (1919-1999), marido de uma canadiana, para além de fotógrafo, ilustrava. Mas, um belo dia «tropeçou» na Frota Branca, uma frota branca já algo decadente, nos anos sessenta, mas que sempre deslumbra – alguns veleiros e navios bacalhoeiros e pescadores portugueses, que fizeram parte da paisagem e do quotidiano de St. John’s (Terra Nova, Canadá).
Foi este legado fotográfico que veio parar às mãos da associação cultural Bind’ó Peixe, que nos últimos anos se tem dedicado a valorizar a cultura e identidade piscatória da comunidade de Caxinas e Vila do Conde.
Estas fotografias de Paul A. Soik só podem ser vistas hoje no Museu Marítimo de Ílhavo, porque o canadiano Jean-Pierre Andrieux, memorialista, empresário, estudioso da presença portuguesa na Terra Nova e amigo fiel de muitas gentes de Ílhavo, há umas boas dezenas de anos, «não é de guardar os seus tesouros num cofre». Um dia, herdou-as e o seu desejo foi partilhá-las.
O grande segredo da exposição reside na recolha das belas cenas que povoam o nosso imaginário, mesmo sem termos estado em St. John’ s, no tempo da Frota Branca lá residente.
Fortes pormenores de marinheiros e derradeiros veleiros, tais como o Creoula, o Argus, o José Alberto, o Gazela, o D. Denis, são aqueles de que me lembro. Pescadores, com traje domingueiro, com camisolas axadrezadas, quer a bordo, quer em jogos de futebol, habituais no cais canadiano, dão vida aos últimos navios-motor construídos nos Estaleiros Mónica, nos anos 50 – o Vila do Conde, o Avé Maria, o São Jorge, o Novos Mares e outros da mesma época.
O autor foca pormenores realistas e não descuida as pilhas de frágeis botes, sobranceiras, que nos ajudam a identificar o navio em que habitam.
Para além de nos sentirmos «em casa» em tal exposição, ela tem de relevante o suporte que as sustenta. São diapositivos de grande dimensão, montados individualmente em caixas de luz, que nos prendem – a luz que delas emana e uma maneira pouco usual de apresentar um trabalho final.
O fotógrafo ficou deslumbrado com o que viu e conseguiu transmitir-nos esse deslumbramento.
E mais não digo. Visitem-na que vale a pena. Mas se tiverem a sorte de terem um guia como eu tive, o Capitão António Marques da Silva, a informação redobra. Ainda por aí há alguns, poucos, velhos lobos-do-mar, à altura.
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Todas as fotos que aqui possa editar não conseguem reflectir o encanto que aquelas nos transmitem.
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À laia de convite ou melhor, de «isco», aqui ficam estas:

Os botes cor sangue de boi, sobranceiros, do Argus

A tripulação do Novos Mares

As pilhas de botes do São Jorge

Jogo de futebol no cais

A tripulação do Avé Maria
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Fotografias de Sérgio B. Gomes, publicadas no Jornal Público, de 29 de Maio de 2016
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Ílhavo, primeiro de Junho de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 22 de maio de 2016

A colecção de formas de «zagaias» do MMI

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De dia em dia, ando para dizer algo sobre a colecção de formas de zagaia do MMI, que os Amigos do Museu (AMI) ajudaram a enriquecer.
Para se fazerem zagaias, gigos e chumbadas, levavam-se, a bordo, barras de chumbo, uma panela de três pés e uma concha com bico. O molde da forma era, geralmente, de bronze, tinha dois orifícios e dois punhos de madeira, enfiados em haste de ferro com que se manuseava (abria e fechava). Com o auxílio da concha, vertia-se o chumbo líquido fervente através de um orifício e no outro, colocava-se o «pé de um duplo anzol». Arrefecia rapidamente, abria-se e estava a zagaia feita.
Para além destas formas, com algumas diferenças, havia também formas de zagaim, pisciformes, com ou sem escamas e barbatanas, formas de zip-zip, formas de cacete ou pissalho (molde de chumbo cilíndrico que substituía as singas, na linha de mão), formas de uma, duas, três ou quatro singas e formas de um, dois ou três gigos (peças fusiformes, em que o pescador colocava uma coroa de alfinetes, bem apertados, destinadas a apanhar lula para isco).
Tendo ido a leilão on-line, a 19 de Setembro pp, a colecção marítima do coleccionador Alexis Passechnikoff, no Leilão do Palácio do Correio Velho, a AMI contribuiu para a compra, em parceria com a CMI, da colecção destes moldes, em número de 25.

Moldes de formas diversos: cacete, zagaias, singas
Caso curioso, esta colecção de zagaias e congéneres, entretanto melhorada, tinha sido emprestada pelo proprietário ao Museu de Ílhavo, aquando da primeira exposição da Faina Maior. Quase caso para dizer, «o bom filho à casa torna», desta vez, depois de adquirida a colecção.

Moldes de formas diversos: zip-zip, zagaim, gigo

Agora, através da realização de uma oficina de moldagem de zagaias, no Dia Internacional dos Museus, a colecção veio a lume.
Costa Nova, 22 de Maio de 2016
Ana Maria Lopes
 

terça-feira, 29 de março de 2016

4º Aniversário do Ciemar

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No próximo dia 2 de Abril, sábado, pelas 17 horas, comemora-se, no Museu, o 4º Aniversário do Ciemar.
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Programa:
> Lançamento do Boletim n.º 4 do Ciemar-Ílhavo (edição digital)
> Inauguração da exposição «Bernardo Santareno, um médico na frota bacalhoeira»
> Apresentação da reedição de Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno (co-edição E-Primatur)
> «Nos Mares do Fim do Mundo com Bernardo Santareno» – Palestra de Ana Paula Medeiros
Quem não tenha a velhinha edição da Ática, há muito esgotada, de Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno, ou mesmo quem tenha, desfrutará da oportunidade de adquirir uma reedição da mesma obra, com algumas novidades.
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Para quem não sabe ou não se lembra recordo o acidente que teve, numa mão, o nosso bom amigo, que já não está entre nós, Sr. Samuel Corujo, mais conhecido pelo Sr. Samuel dos barquinhos em garrafas.
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Recordou-me, várias vezes, nas nossas conversas, o acidente que sofrera, a bordo do Santa Mafalda, em 1958, enquanto 3º motorista. Episódio esse, imortalizado pela pena de Bernardo Santareno, ao tempo, médico no Gil Eannes, em Nos Mares do Fim do Mundo, pp. 135 a 138, capítulo, O Vento, o Mar e O Sangue, que me abalanço a respigar:
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Alô! Alô! O «Santa Mafalda» chama urgentemente o médico! Alô! Alô! Médico! Médico!...
Eu estava no «Bissaia Barreto» (…). Foi então, à hora do jantar, que, aflitivamente, este S.O.S. rasgou os ares: o terceiro maquinista do «Mafalda» tinha uma mão esmagada, por acidente de trabalho! Era preciso intervir e quanto antes. E os dois navios navegaram ao encontro um do outro.
O enfermeiro, o Lourenço, a voz trémula de emoção, deu-me pela fonia mais pormenores: um dos dedos, preso à mão por escasso retalho de pele, estava sem dúvida condenado; e além deste, dois dos outros dedos desta mesma mão, com fracturas múltiplas e expostas, teriam provavelmente a mesma sorte.
Era preciso ver as lesões, mas como chegar ao «Mafalda»? O mar, agora, estava bravo como eu ainda não o vira: vagas apocalípticas cruzavam o «Bissaia» em todos os sentidos, o vento levava pelos ares madeiras e cordame, a névoa tornara-se impenetrável. Como? Como passar?! (…)
… Era impossível tentar a minha passagem. Ai, o alívio que eu nesse momento senti! (…)
Em todo o caso e sempre pela telefonia, lá fui dando instruções de que me lembrei ao pobre Lourenço.
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Era desesperante.
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O mar atingira o auge da fúria: rasgava tudo; vencia, com o seu clamor monstruoso, os pobres gritos humanos; lavava, com a espuma claríssima das suas ondas, a sangrenta nuvem daquela hora.
(…) Mas aquele ferido, tão novo, um rapaz… ai, aquela mão! E se fosse possível salvar-lhe os dedos lacerados? Bem bastava o outro, o que já tinha sido amputado (…).
E mandei seguir o «Santa Mafalda» para terra.
(…)
Recebi hoje – oito dias sobre este acidente – uma notícia admirável: o terceiro maquinista, apesar da brutalidade das lesões, ficará com os seus dedos!
Tudo valeu a pena: a angústia daquela hora, a raiva humilhante da minha impotência, o suor de sangue e fel do Lourenço, o desespero dinâmico do comandante do «Mafalda». Valeu a pena, valeu a pena!
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Com a forte e bela narrativa de Santareno, ficou Samuel Corujo imortalizado na nossa literatura marítima e com os “seus barquinhos”, lembrado nas colecções de miniaturas de veleiros em garrafas, espalhadas por todo o mundo. 
Nos anos 80, em sua casa
Ílhavo, 29 de Março de 2016
Ana Maria Lopes

quinta-feira, 10 de março de 2016

Música a bordo

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Em visita fortuita às reservas do Museu, deparei com uma grafonola antiga e incompleta com discos de vinil, de 78 rotações, que me fixou o olhar, que logo transmitiu o sinal à mente. Depois de observar o necessário, a conversa girou em torno da grafonola, a propósito de umas cavaqueiras tidas há muitos anos com o velho lobo do mar Capitão Almeida, assim era conhecido.
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Mais tarde foi-me dada a possibilidade de fotocopiar uns apontamentos dele, que possuo, a que recorro com alguma frequência. E assim foi. No Museu, contei aquilo de que me lembrava e, em casa, lá fui a esse baú, tenho vários, e dei logo com o que queria.
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Confessou-me o Capitão Almeida que, no primeiro ano de comando da pesca do bacalhau no lugre Argus (em 1933), mais tarde o Ana Maria da praça do Porto, após reconstrução sofrida no estaleiro de António Maria Mónica, na Gafanha da Nazaré, transmitiu música a bordo.
Argus velho, em 1934
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- Fui o primeiro capitão a dar música a bordo, para o que comprei, por intermédio do meu irmão mais velho, Manuel, uma caixa de música com corda manual, que ainda possuo, (e alguns discos de vinil antigos), com que contemplava os pescadores, em dias de boa pesca e bom tempo. Dizia-se que dava azar música a bordo (dizeres do povo), visto que no Titanic, quando se afundou (1912), a orquestra tocava a bordo.
- Pensei nisso – continuou a conversa – o que me fez, um dia, em que a pesca não estava a correr bem, partir o disco da Ramona, da Samaritana e outros de que gostava muito.
- Mas nunca desisti de dar música, até convencermos os armadores da Parceria Geral de Pescarias, Lda. a fazerem instalação eléctrica de música com altifalantes para o convés.
A música animava muito a companha e, muito principalmente, durante a escala, último e árduo trabalho a bordo, diariamente, depois da pesca, quando o tempo estava bom. Foi uma lição para os navios de outras companhias, em que os capitães também gostariam de música.
Os capitães da Parceria Geral de Pescarias, Lda. podiam, pois, considerar-se precursores da música a bordo sem maus presságios para a pesca. Quantas vezes, através dos nossos postos emissores enchemos o espaço de música, que outros navios, ainda sem instalação emissora, ouviam com agrado.
Mais tarde, foi-nos proibido pelo Gil Eannes, porque de terra se queixavam que interferíamos nas comunicações do correio e outras. Teria sido?
Mas, só para bordo, a coisa não falhava por intermédio de altifalantes.
Foi à volta deste episódio que, na hora lembrei, junto da grafonola, que a nossa conversa rodou.
Trazida da Parceria nos anos 90, anima as reservas do museu
A prova tinha passado por mim, pois «aquela grafonola» tinha sido trazida da Parceria (em 1991), pela equipa de pesquisas, preparatórias da montagem da Faina Maior.
Giraram os discos e rodou a vida. Tem sido um tal voltear!
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Ílhavo, 18 de Fevereiro de 2016
Ana Maria Lopes
 

terça-feira, 8 de março de 2016

Manuel Tavares - um aguarelista a fixar...

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Não passei estes dias de Carnaval cinzentão, pelo menos por cá, só a dar-me o prazer de me rever mais jovem e a desfilar em corsos. Águas passadas não movem moinhos – diz o povo e com razão.
Também «escodrinhei o baú» da pintura. Depois de ter terminado um sucinto post sobre o aguarelista ilhavense Hipólito de Andrade, vieram-me à mente, também umas aguarelas de Manuel Tavares, que não sendo ilhavense nem aveirense plasmou a nossa bela região lagunar com pinceladas muito «suas». Manuel Tavares conhece-se à distância, mas muito pouco de concreto de sabe da vida dele.
Em 1979, na então galeria Grade, sob a tutela de Zé Sacramento, houve, entre 19 de Maio e 3 de Junho, uma exposição de homenagem a Manuel Tavares.
Neste pequeno catálogo, depõem algumas pessoas que o conheceram, de que respiguei algumas palavras, mas muito pouco se continua a saber sobre o artista.
Nasceu em Oliveira de Azeméis em 1911 e morreu em 1974 (?).
Pintor e aguarelista, pai de Manuel Ferreira, nascido em Aveiro, também pintor, de um hiper-realismo estonteante, residente pelos Estados Unidos – soube-o numa galeria do Porto.
Porquê interessar-se o Marintimidades por Manuel Tavares? A ver vamos.
Autodidacta, com tendência para a vida boémia, saltitou de terra em terra, esquissou aguarelas em varadíssimos lugares. Segundo Mário de Oliveira, crítico de arte, o artista foi dos maiores aguarelistas nacionais, pincelando a aguarela, com espontaneidade e grande impulso emocional.
Tem lugar ao lado dos grandes aguarelistas nacionais tais como Alberto de Souza, de quem foi grande admirador e de que são visíveis algumas influências.
Aguarelista de ambientes rurais, foi dos ambientes urbanos (Lisboa, Porto Aveiro), que nos deixou os melhores clichés. E, para mim, é o pintor da água, de céus azuis que nos retrata as marinhas de Aveiro, os moliceiros lagunares, os saleiros no canal de S. Roque e as redes a secar na Costa Nova, que mais me encanta. Tinha de ser.
O «nosso» Cândido Teles, referindo-se a Manuel Tavares, disse que foi ele o primeiro aguarelista que vi interpretar os motivos da nossa ria, facto que me causou forte impressão e constituiu grande incentivo no começo da minha vida artística.
Na altura, MT já trabalhava com certa desenvoltura os temas que vieram a ser a sua predilecção: os palheiros do bairro piscatório do sul da Costa Nova, as bateiras da chincha e os moliceiros afundados nas águas calmas.
Mas, o que mais impressão me causou era o modo como o pintor conseguia obter os seus céus tão luminosos e as suas águas tão transparentes.
Mais do que dizer mais, mais vale contemplar alguns exemplares, que tenho à mão:

Marinhas de sal. MMI. 1941

Secando as redes. MMI. 1941

Moliceiros na Ria de Aveiro. 1960
(em leilão)
 
Aparecem com alguma frequência quadros de Manuel Tavares, em antiquários ou leilões.
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Ílhavo, 9 de Fevereiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 24 de janeiro de 2016

XVII Capítulo da Confraria Gastronómica do Bacalhau

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Foi uma distinção ter sido entronizada «confrade de honra», no XVII Capítulo da Confraria Gastronómica do Bacalhau. E, logo, a primeira mulher!…
Andámos ao serviço do bacalhau das 9 da matina até às 5 da tarde. Cansativo, mas agradável, entre convívio e aprendizagem.
Pelas 10 h, os confrades representantes das diversas confrarias visitantes vinham chegando ao Museu, onde eram recebidos por uma lauta mesa de iguarias copiosas e regionais – 1ª sessão de prova de vitualhas.
Depois de um primeiro encontro, todos se dirigiram ao auditório que fulgurava na policromia intensa dos trajes diversos, e se tornou pequeno para os ocupantes.
Após uma castiça apresentação da Terra da Lâmpada pelo Grão-Mestre João da Madalena, e outros discursos de circunstância, foram trocadas lembranças.
Patanisca de honra – segundo momento degustativo – regada por fresquinho espumante.
A entronização dos novos confrades de honra e efectivos, a bordo do iate Faina Maior, tem o seu ritual a respeitar, traduzido na prova de lasquinhas de bacalhau salgado, broa e vinho tinto e na opinião sobre o sabor dos petiscos.
O Grão-Mestre com o garfo (de garfar o bacalhau do bote para o lugre), entroniza o novo confrade, perante um padrinho que lhe coloca o pendão ao pescoço, fazendo-lhe ver que está a assumir um compromisso na defesa do património gastronómico e cultural do fiel amigo e a sua ligação às terras de Ílhavo.
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Viva o bacalhau!...E brinda-se, a bordo do Faina Maior, com vinho tinto.
Em visita ao Aquário, o confrade João Mário, interpretou um fado de sua autoria, com acompanhamento à viola, num tributo à sofrida vida no mar das gentes de Ílhavo.
Depois de um desfile a pé, com fotografia de grupo na escadaria da Junta de Freguesia, lá nos instalámos no salão do Hotel sobre a piscina, onde degustámos, aos poucos, os pitéus mais apreciados da variada ementa:
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Entradas
Carinhas fritas
Pataniscas de Bacalhau
Ovas de Bacalhau
Bolos de Bacalhau
Punheta de Bacalhau
Prova de azeites
Pratos
Chora
Açorda de línguas
Feijoada de samos
Bacalhau à Confraria
Doces regionais
Bolo de aniversário
Fruta
Os novos confrades foram mimoseados com títulos honoríficos apropriados à cerimónia.

Reportagem fotográfica
Aspecto da assistência, no auditório
Pormenor da assistência
Entronização. 1
Entronização. 2
Os novos confrades, a bordo
Entrega dos títulos honoríficos
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Gentil cedência das imagens de Carlos Duarte e Marina Pequeno
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Ílhavo, 24 de Janeiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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