quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Homens do Mar - Sílvio Ramalheira - 50


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Cap. Sílvio Ramalheira, a bordo do Argus, em 1950

Foi um homem do mar que todos devemos reverenciar, por ter suportado no mar uma das maiores tragédias, que jamais afectaram, mortalmente, Ílhavo, e outras localidades do litoral português. Todos sabemos a que nos referimos!... O fatídico afundamento do lugre Maria da Glória, em Junho de 1942. Mas a sua vida de mar não se limitou a esse ano!...

Alto, simpático, entroncado, de olhos claros, era mais um marinheiro da família Ramalheira – o capitão Sílvio. Tinha de ser. Os Ramalheiras, de Ílhavo, gerações e gerações, cruzaram os mares tenazmente, com um impulso de coragem no olhar. Havia muitos Ramalheiras de Ílhavo, a trabalhar na frota bacalhoeira, nos anos 50, – recorda Alan Villiers – o, João Pereira Ramalheira, o Vitorino, comandava o navio-hospital Gil Eannes, o Aníbal Ramalheira, que supervisionava frota dos Bensaúde, em terra, em Lisboa, depois de uma carreira longa e notável à frente de vários lugres. E muitos mais teria havido.
O Capitão Sílvio Ramalheira nasceu em Ílhavo em 2 de Dezembro de 1902. Filho de João Pereira Ramalheira, de alcunha, o Pisco, também ele capitão da Marinha Mercante, nascido em 1868, e de Maria Rosa Ramalheira. Casou com Maia Júlia Magano, de quem não teve filhos. De segundas núpcias, teve três filhos, dos quais o mais velho, de nome Sívio Ramalheira, seguiu a carreira da Marinha de Guerra, segundo desejo do Pai.
O capitão Sílvio, pela vida fora, conhecia bem, ao longe, aquele pontinho branco que era aquele pequeno veleiro – o Gazela, pois a sua primeira viagem aos bancos, fizera-a, como moço, com cerca de dez anos, naquele navio. Mais tarde e, consultados os primeiros jornais de Ílhavo, fora piloto, nos anos de 1922, 23, 25 e 26 do dito Gazela Primeiro, sob o comando do Pai, João Pereira Ramalheira, o Pisco. Mais tarde, na campanha de 1932, comandara-o. O bichinho do Gazela ficara-lhe, mas, vida é vida e saltitou, então, no comando entre mais três lugres da Parceria – o velho Argus, mais tarde o Ana Maria, em 1927 e 29, o Neptuno II, em 1928 e 30 e o velhinho Gamo, na campanha de 1931. Durante estes anos, teve como pilotos, de Ílhavo, Manuel dos Santos Labrincha (1928) e João Pereira Ramalheira, o Vitorino, em 1930 e Adolfo Francisco da Maia, em 1931. Que recordar dos lugres Neptuno II e do Gamo?
O tal Neptuno II, de madeira, construído em 1873 em Vila do Conde, armou em patacho e, reconstruído em 1926 por Manuel Maria Bolais Mónica, passou a armar em lugre. Deixou de pertencer à Parceria Geral de Pescarias, no ano de 1938.
Do lugre Gamo, há que realçar que foi um lugre de madeira, construído para a PGP, Lda., por Luiz Basílio, no Funchal. Utilizado para a pesca do bacalhau, entre 1923 e 1939, foi vendido, tendo-se destinado ao comércio.

Lugre Gamo

Sílvio Ramalheira, num dia de Junho de 1932, capitão do Gazela Primeiro, num momento de correntes traiçoeiras, de um vento repentino e de ondas perigosas, tinha os seus homens fora (…). Era difícil para um navio, como o Gazela chegar perto dos seus pescadores, sendo costume, nesse tempo, lançar-lhes um longo cabo de manobra preso à popa do navio ancorado (…). Como o Cap. Sílvio não era homem para estar parado, nesse dia, fez-se ele próprio ao mar, levando esse cabo. Levou ainda um segundo dóri, em que remou, velejou, indo ao encontro dos homens que estavam mais em perigo (…). Havia trinta e um dóris do Gazela no mar, e o capitão encontrou e salvou vinte e nove: os dois restantes nunca mais regressaram – recorda Alan Villiers, na campanha de 1950.
Se isto não era uma boa recordação, o que haveríamos de dizer da maior tragédia da sua vida marítima? Horrível! …sem adjectivos que a classifiquem!...
Os capitães, quando o tempo o permitia e se davam bem, visitavam-se nos seus navios. Em 1939, a bordo do lugre Hortense, amigos, à nossa esquerda, Francisco Paião, o seu irmão Adolfo, a meio, capitão do Hortense, e Sílvio Ramalheira, à nossa direita. Uma relíquia de imagem!...
  
Em 1939, a bordo do Hortense

Mas, entre, 1932 e 34, a sua vida dera uma grande reviravolta. Deixava a parceria, para comandar, de saco e bagagens, o lugre Maria da Glória, da praça de Aveiro. Era um belo lugre de madeira, elegante e capaz, onde o capitão investira as suas poupanças. O ex-Portugália, construído na Gafanha da Nazaré, na campanha de 27, passou a chamar-se Maria da Glória, então propriedade da Empresa União de Aveiro, Lda. Foi sujeito a uma reconstrução no ano de 1937, bem como à aplicação de motor de propulsão.
Entre 1933 e 1942, o «nosso» capitão comandara este lugre, até ao seu final trágico, doloroso e pungente. Durante estes dez anos, tivera como pilotos, Flávio Ramires Campos Pereira (36 e 37), Júlio António Lebre (38 e 39) e António dos Santos (1942), todos de Ílhavo.
Em tempos de guerra, foi afundado em 5 de Junho de 1942 por um submarino alemão, em viagem para a Groenlândia, tendo constituído uma das maiores tragédias que assolaram a nossa vila maruja. Dos 44 tripulantes, apenas se salvaram 8, em condições sobre-humanas, em dois botes despojados de tudo. E Sílvio Ramalheira foi um dos que se salvou, em muito mau estado psicológico e físico, pelos muitos estilhaços, com que tinha sido atingido na perna direita.
Vários relatos doridos e arrebatadores existem deste afundamento, não sendo todos eles unânimes na sua narrativa. Muito luto, muita dor, muitas perdas, poucas notícias, muita ansiedade, muito tempo de espera. O jornal O Ilhavense de 1.8.42 dá a notícia, o Diário da Manhã de 25 de Julho de 1942, igualmente, referindo-se aos 37? (36) marinheiros desaparecidos e O Primeiro de Janeiro de 3 de Setembro do mesmo ano, noticia a chegada a Lisboa do capitão Sílvio Ramalheira e de mais três tripulantes do lugre afundado na Groenlândia. E muitos mais se lhe referem, até recentes, como um artigo do jornal Expresso do penúltimo Verão, de 18 de Junho de 2017.
Mas a convalescença do capitão, devagar, devagarinho, de dia em dia, ia avançando, tendo sido muito longa, dolorosa e morosa. Nos anos de 1943, 44 e 45, ficou em terra, não vendo mais jeito de recuperar a perna ferida, sem o auxílio de muletas. Mas, dificilmente, esse tempo chegou e o seu estado físico e psicológico de tal acidente foi-se recompondo. Creio mesmo que lhe deve ter ensombrado a vida toda, se bem que o tempo se tivesse ido encarregando de suavizar as tragédias sofridas. Numa tentativa de minorar as suas penas e de se voltar a sentir válido, retornou ao mar, na campanha de 1946.

E ei-lo a retomar o mar, como capitão do navio Lutador, o tal navio-motor dos três mastros, nas safras de 1946 a 1948.

Durante estes três anos, foi seu imediato, Manuel dos Santos Marnoto Praia (1946 e 47), de Ílhavo. E pilotos, como estreante, João Fernandes Matias (46) e António Remígio Sacramento Teiga conhecido como António Capote (47), também ilhavense. Sílvio Ramalheira teve a satisfação de estrear o navio, que tinha sido construído em 1945 para a Empresa de Pesca de Lavadores, Lda., por João Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, tendo iniciado, pois, a actividade de pesca, no ano seguinte.

Navio-motor Elisabeth, em 1950

Entre as campanhas de 1949 e de 1952, o capitão Sílvio comandou o navio- motor Elisabeth, que fora construído em 1945, para a Empresa João Norberto Gonçalves Guerra, da praça de Lisboa, por Manuel Maria Bolais Mónica. De Ílhavo, teve como imediatos Elmano Graça Ramalheira (50 e 51) e Manuel dos Santos Marnoto Praia (52). Piloto, de Ílhavo, Vitorino Paulo da Silva Ramalheira (52), seu 2º primo.
Durante a célebre campanha do Argus, com Alan Villiers a bordo do mítico navio, visitava com frequências os Capitães Adolfo e Almeida, irmãos, a quem o uniam laços de amizade. A meio, na foto seguinte.

A bordo do Argus, 1950

O repórter do Jornal do Pescador de Setembro de 1951, na p. 8, noticia que o Elisabeth fora o primeiro navio bacalhoeiro a regressar da Groenlândia completamente carregado, elogiando a arte e saber do capitão, em perseguir os cardumes de bacalhau.

Em última «emposta», saltou com regozijo, na safra de 1953, para o novo navio-motor, de aço, Capitão João Vilarinho, construído para João Maria Vilarinho, nos Estaleiros Navais do Mondego, Figueira da Foz, em 1952. E por lá se manteve, durante cinco campanhas. De Ílhavo, apenas teve como imediato, Manuel dos Santos Marnoto Praia e, como piloto, Vitorino Paulo da Silva Ramalheira, em 1953.
  
Navio-motor Capitão João Vilarinho

Aposentou-se em Setembro de 1962, com direito a saborear um merecido descanso, depois de uma ousada e extenuante vida de mar. Deixou-nos em 26 de Abril de 1982, com 79 anos de idade.
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Ílhavo, 16 de Outubro de 2018
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Fotos – de A. Villiers, cedidas pelo MMI e do arquivo pessoal.
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Ana Maria Lopes
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