Mostrar mensagens com a etiqueta Naufrágios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Naufrágios. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de abril de 2018

Naufrágio do lugre «Islândia»

-
Quer saber algo mais sobre o lugre Islândia? Aproveite, pois notícias de navios do comércio, antigos e pequenos, aparecem muito poucas. Nem sempre encontro o que busco, mas, por vezes, encontro o que não busco.
Islândia, nome de lugre? Pois então.
Em O Ilhavense de 20 de Março de 1945, dei com notícia, de título idêntico.
-
A Cruz Vermelha Internacional fretou há dias o lugre-motor Islândia para transportar cerca de 200 toneladas de víveres destinados à população belga. A preciosa carga seria descarregada no porto espanhol Pasajes, donde sairia em camião e caminho de ferro para a Bélgica.
O Islândia saiu do Tejo a 9 do corrente para aquele porto espanhol, sob o comando do Sr. Amândio Fernandes Matias.
O navio, ao navegar no golfo da Biscaia, foi assolado por um vendaval, de que conseguiu safar-se à custa de denodados esforços da tripulação e da mão firme do seu capitão, que passou a manobrar o leme, durante as horas de perigo. Na madrugada do dia 14, quando seguia rumo próximo da costa asturiana, um denso nevoeiro caiu sobre o mar. Navegando com as maiores precauções, o Islândia foi sulcando as águas, mas daí a pouco tempo, encalhava ao largo do Cabo Peñas.
Naufragado o lugre, a tripulação, de dez homens, foi salva e recolhida a bordo do vapor espanhol Hita, que a desembarcou no porto espanhol de El Musel.
Até aqui, desconhecia.

O Islândia, na barra de Aveiro
-
O que sabia era que o Islândia, lugre de madeira, de três mastros, era o ex-Rosita, o ex-Edith M. Cavell, construído em Melburne, Nova Escócia, em 1916. Propriedade de Armadores do Norte, gerência de ilhavenses, entre eles, Copérnico da Conceição da Rocha, participou nas campanhas de bacalhau de 1936 a 38. Em 1939, foi destinado ao comércio.
-
Foto - Espólio de F. Marques
-
Ílhavo, 29 de Abril de 2018
-
Ana Maria Lopes
-

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O lugre «Ilda»

-
Dias invernosos, chuvosos, húmidos e ventosos, como os que têm estado, favorecem as trocas de impressões, à distância, entre amigos que têm gostos afins – navios.
-
Depois de umas visitas e arrumações no meu baú virtual, tendo-me já ocupado no Marintimidades dos naufrágios na barra de Aveiro de que consegui elementos fidedignos, verifiquei que o encalhe do lugre Ilda ficou em branco.
Outros bloguistas mais adiantados já o fizeram, mas o lugre Ilda, encalhado a sul do Farol, não podia ter ficado ausente. Estamos a tempo de o repor.
Aproveitei o desafio.
-
O lugre Ilda cujo construtor foi António Dias dos Santos, de Fão, em 1906, tinha uma arqueação bruta de 225,27 toneladas e 189,30, de arqueação líquida. Era pertença do armador Daniel Silva, de Angra do Heroísmo, com registo em Aveiro.
-
O Ilda, de três mastros, não era bacalhoeiro, mas muita da sua tripulação, que se salvou, era de Ílhavo. Como o soube? Claro, pelo jornal O Ilhavense, de 19 de Agosto de 1934, em busca aturada que tenho vindo a fazer, com parcimónia.
-
Respigando a notícia: – «há perto de um mês desceu do ancoradouro da Gafanha para a boca da barra o lugre Ilda, propriedade do Sr. Daniel da Silva (…) que, por não poder sair, ali ficou aguardando o dia seguinte. Quando o seu capitão, António de Oliveira da Velha, procedia a manobras, verificou que o barco estava em seco.
Rebocado ora por um, ora por outro rebocador, no dia 13 do corrente mês (Agosto), conseguiu safar-se do banco de areia, tomando a direcção do mar. Quando ia na pancada da vaga, foi apanhado por um valente estoque de água que o arrastou para sul do Farol, onde encalhou».
 
-
Ficou como se vê, com um acesso fácil, através de escada improvisada, aos proprietários, tripulação e seguradores e, sempre que assim acontecia, era um tal arraial de voyeurs, em vaivém, para ver realmente visto aquilo que, de facto, acontecera.
-
O capitão, piloto, Sr. José Russo, e outros tripulantes, como já referi, oriundos de Ílhavo, foram salvos por barcos de pescadores, assim como a maior parte da carga constituída por sal, cal, louças e fósforos.
-

-
O navio estava seguro numa companhia inglesa por 110 contos, que tomou conta do barco e, em dias seguintes, fez a venda dos salvados em hasta pública.
-
E assim a acabou a romaria à Barra, pelo menos sem perdas de vidas humanas. E logo em Agosto!...
-
Fotografias – Arquivo Digital de Aveiro.
-
Ílhavo, 1 de Janeiro de 2016
-
Ana Maria Lopes
-

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Entrevistando o Capitão do «Ilhavense I». 2

-
(Cont.)
-
– Houve salvados?
– Quando saltei para o meu dóri, levava comigo todos os livros e documentos de bordo, incluindo dois diários do piloto, mas o meu dóri foi ao fundo, sendo eu salvo nessa ocasião, por outro dóri que veio em meu auxílio, perdendo-se os livros e os documentos.
– Depois…
– Às três horas da manhã, como visse que já nada se podia fazer, para salvamento do navio, mandei remar para terra, em busca de local para desembarque
– Que foi…?
– Perto de uma povoação chamada Saint Shotts.
– Não voltaram ao navio?
– Voltámos por um cabo de vaivém que se estabeleceu de terra para o barco.
– E fizeram, então, alguns salvados?
– Apenas alguma roupa dos tripulantes e alguns objectos de insignificante alor, pois o navio já estava raso de água e impossibilitava, em absoluto, os trabalhos de salvação. Vendo que nada mais se podia ali fazer, voltámos a terra e fomos, então, em busca das autoridades. De Saint Shotts, comuniquei para Trepassey, povoação distante daquela cerca de vinte milhas. Telegrafou-se para o cônsul de Portugal em Saint John’s, Sr. João José Denis.
– O local onde encalharam é de boa navegação?
– Não. Até lhe chamam o cemitério dos navios. Dias antes de nós, naufragou um vapor inglês, que ainda lá vimos, morrendo toda a tripulação. Contam-se já perto de vinte, os barcos encalhados.
– Passaram muitas torturas?
– Muitas torturas e muita fome. Saint Shotts é uma povoação pequena, com cerca de 20 habitantes e onde não há recursos de espécie alguma. Havia de ser uma hora da tarde quando, extenuados, nos desjejuámos com uma chávena de chá.
– As autoridades fizeram-se demorar?
– Só passadas algumas horas depois que telegrafei é que chegaram ao local do sinistro o Juiz de Trepassey, o oficial da Alfândega e um polícia.
– E o nosso cônsul?
– Telegrafou imediatamente ao Juiz de Trepassey, pedindo que nos fossem dados imediatos socorros. Também o nosso conterrâneo Sr. Copérnico da Rocha* foi incansável e dispôs tudo para que nada nos faltasse. Fomos transportados para Trepassey em pequenos carros, por caminhos perigosíssimos, tendo ficado no local do naufrágio um polícia de guarda ao navio e aos salvados. De chegada a Trepassey, também lá estava o cônsul de Saint Jonh’s.
– Que providências tomou o cônsul?
– Averiguados todos os detalhes do naufrágio, e informado de que nada mais se podia fazer e vendo que os marinheiros estavam passando as piores privações, dormindo no soalho de uma sala e cheios de cansaço e fome e tendo ido ao local do sinistro comigo, com o piloto e autoridades verificaram a situação e posição do navio, ordenou, então, a nossa partida para Saint John’s, onde embarcámos a bordo do paquete «Nova Scotia» que nos transportou ao Havre, tomando neste ponto o vapor «Pancras», que nos desembarcou em Leixões.
– Vieram todos?
– Vieram 23 homens. Os restantes 5, em cujo número se contam o piloto, Sr. José Fernandes Matias de Melo e o contramestre Sr. Joaquim Fernandes Serrão, devem estar a chegar a bordo do vapor «Catalina»
– Quantos homens eram de Ílhavo?
– Seis. E outros tantos da Gafanha. Os restantes eram da Nazaré, da Figueira e do Algarve.
E o nosso entrevistado, sem dar mostras de aborrecimentos pelas nossas constantes e contínuas interrogações, cerrou neste momento os olhos.
Calámo-nos. Naquele instante, devia passar-lhe pela mente a recordação de um sonho feito saudade, evocando as horas tormentosas do naufrágio em que correndo da proa à popa, gritava aos seus homens:
– Coragem, marinheiros!
Antes fosse um sonho!
Mas, infelizmente, a perda do «Ilhavense I» fora uma dura e cruel realidade!
-
Degustem esta entrevista levada a cabo há 86 anos, tal como eu a saboreei, apesar de todo o seu dramatismo.
-
*Ainda conheci o Sr. Copérnico Rocha e sua Esposa, quando vinha a Ílhavo, irmão de Conceição e Rosa Rocha, tio de Maria da Conceição Rocha Mano e de José (Zeca) Mano.
-
Costa Nova, 19 de Setembro de 2015
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 25 de outubro de 2015

Entrevistando o Capitão do «Ilhavense I» 1

-
As causas do sinistro – Uma tripulação inteira em riscos de perder a vida – O cemitério dos navios – Horas de tortura e de fome – Uma saudade e um sonho – Coragem, marinheiros!
-
Ao respigar Ilhavenses antigos, por outro assunto, passou-me pelas mãos no de 25/8/1929, esta entrevista que me interessou, ao Capitão do «Ilhavense I».
 
Lugre «Ilhavense I» (foto cedida por Reinaldo Delgado).

Catando-a, (…) Homem experimentado nas lides do mar, o nosso amigo Sr. João André Alão era o capitão, há já alguns anos, do lugre «Ilhavense I», naufragado no dia 15 de Julho passado nos Bancos da Terra Nova.
-
Chegado a Ílhavo na terça-feira pretérita, era nosso dever ouvi-lo sobre o sinistro que causou a perda do barco do seu comando que em 11 de maio havia deixado o porto de Lisboa, impelido pela leve brisa que no tope dos seus mastros cantava a canção dolente que aprendera ao roçar no dorso das vagas – brisa cantante e benéfica a cujo sopro adormecem os nautas portugueses, os nautas da nossa terra, cheiinhos de sonhos e de saudades, sonhos que são uma vida, saudades que são consolo para as suas almas de lutadores nevróticos.
-
À sua casinha da rua Direita nos dirigimos, pois, na manhã escaldante de 5ª feira.
-
E, em frente do arrojado marinheiro, de rosto tisnado e magrizela, ali nos dispusemos à entrevista, rápida, instantânea:
– Em que dia haviam chegado ao Banco?
– No dia 12 de Junho.
– Tinham, portanto…
– Já tínhamos perto de 500 quintais a bordo.
– E porque levantaram ferro?
– Porque o peixe falhou.
– Em que posição estavam?
– A 46 º 11, 6 de latitude N e 57 º 3’ de latitude W.
-
– E navegaram…
-
– Com rumo SE 4 E com destino aos bancos de «Virgin Rocks».
– Aquela posição…
– Era em Saint Pierre, donde levantámos às seis horas.
– O tempo…
– Vento regular de W.S.W., mar de pequena vaga, atmosfera e horizonte empoalhado.
– A que atribui o sinistro?
– A névoa cerrada que apareceu cerca das dezanove horas e a um desvio de agulha, duas coisas frequentíssimas naquelas paragens.
– Houve falta de precauções?
– Não senhor; flutuávamos de acordo com as exigências de flutuação em tais casos.
– Queira contar-nos o que foi esse momento tremendo?
– Devia ser uma hora da madrugada quando fomos surpreendidos pelos gritos das vigias, anunciando terra na proa. Sentindo o perigo iminente, imediatamente mandei arribar. O barco rodou, mas a popa bateu no rochedo. Mandei largar ferro. O navio estava encalhado de popa à proa, rebentando grandes mares no convés.
– Havia possibilidades de salvar o navio?
– Não. Só havia a possibilidade de salvar a tripulação, que ali estava toda em riscos de perder a vida. Por isso, mandei proceder ao imediato desembarque.
– Que se fez…?
– Com grandes sacrifícios e enormes dificuldades. Foram arriados doze dóris, em que se recolheram todos os tripulantes, tendo eu deixado o navio somente depois de verificar que mais ninguém estava a bordo.
-
(Cont.)
-
Costa Nova, 19 de Setembro de 2015
-
Ana Maria Lopes
-

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Traineira «Praia da Atalaia» naufraga na Barra de Aveiro


Fez exactamente ontem, 24 de Novembro, 51 anos, que aconteceu esta tragédia.
-
A traineira Praia da Atalaia naufragou na barra de Aveiro, ao sair para a pesca, a 24 de Novembro de 1963. Teriam perecido, lamentavelmente, mais de 30 pescadores (segundo o jornal Comércio do Porto de 25 de Novembro de 1963).
-
Era uma traineira utilizada na pesca da sardinha com rede de cerco, pertencente à praça de Peniche, construída, em 1954, por Asdrúbal Simão do Carmo para Aníbal Correia e outro sócio.
Media, de comprimento, fora a fora (17.68, entre perpendiculares), 21. 05 metros, boca,  5.25  e pontal,  2.01 m.
A arqueação bruta era de 45.82 toneladas e a líquida, de 12.30.
A propulsão era assegurada por um motor diesel Burmeister & Wain/Alpha, de 180 Hp.

Praia da Atalaia

Cerca das 16 horas, largou do seu ancoradouro, na lota, no Canal das Pirâmides, para demandar a barra, não obstante o sinal de mar bravo estar içado.
-
A Praia da Atalaia navegou até à cabeça do molhe norte, tendo-se o mestre apercebido que o mar estava muito agitado. Por insistência da companha, decidiu voltar ao porto, tendo dado ordens ao maquinista para reduzir a velocidade. Quando a embarcação estava atravessada à ondulação para inverter o rumo, uma vaga alterosa atinge-a com violência por estibordo, rebentando contra o costado.
Antes que a Praia da Atalaia conseguisse safar-se da posição, uma segunda vaga, ainda mais forte, rebenta-lhe em cima, voltando-a e partindo-a ao meio.
-
Entretanto, a traineira Josefa Vilarinho, que navegava ainda no canal da barra, transmitiu para o posto Rádio Telegráfico da Mútua de Pesca, desta cidade, o que havia acontecido. Imediatamente, e por intermédio do mesmo posto, foi chamada a intervenção das duas corporações de Bombeiros Voluntários de Aveiro, assim como a tripulação do barco salva-vidas Jaime Afreixo (1948-2002) dos Socorros a Náufragos. Este barco de socorro, embora tivesse sido lançado à água logo que recebeu aquela comunicação, não pode romper com a ondulação violenta do mar, regressando ao seu ancoradouro.
Outras embarcações idênticas mantiveram-se, ainda por largo tempo, com os seus projectores para as águas, na esperança de poderem recolher alguns sobreviventes que viessem arrastados pela corrente para dentro da barra. Alguns tripulantes daquelas embarcações conseguiram saltar para terra, para, tentarem socorrer alguns sobreviventes no areal da praia de S. Jacinto, para onde a Praia da Atalaia havia sido arrastada de quilha para o ar.

Até à hora em que o jornal noticia – 21,30 h –, o único sobrevivente era o pescador Pedro da Conceição Júnior, natural de Lagos, que, bom nadador e de forte compleição física, conseguiu manter-se à superfície, agarrado a uma bóia, tendo sido lançado para cima dos blocos do molhe. Na esperança de auxiliar alguns dos camaradas que pudessem dar à costa, por ali foi ficando, até que foi levado para a Base Aérea de S. Jacinto, onde recebeu os primeiros socorros.
-
A mesma fonte fornece a constituição da tripulação, pertencendo à nossa zona:
-
Aveiro, motorista Francisco Ferreira Cordeiro, ajudante de motorista, José Alberto Marques Cordeiro e pescadores João Simões Basílio, Carlos Alberto Ribeiro Alcaide, Manuel Matos, Francisco da Graça Basílio, Fernando dos Santos, Celestino Fernando Pataca, José Salvador da Costa, Manuel de Oliveira Pinto, Manuel Salgado, Manuel dos Santos, Manuel Fernandes Teixeira Calisto, Augusto dos Santos Neto e Manuel Maria da Silva, também de Aveiro.

Gafanhas, Emílio da Silva Gramata, Hermínio da Silva Caçoilo, Armindo dos Santos, António Faustino Pereira da Rocha, Manuel Evangelista dos Santos Cadete, José Maria da Rocha Sardo Cravo, e Moisés Vidreiro Matos.

Ílhavo, Manuel Domingos Magano.
-
Segundo a mesma fonte, Comércio do Porto, mas de 26.11.1963, sabe-se de acordo com informação oficial, que o número exacto de homens a bordo que pereceram no naufrágio é de vinte e nove porquanto um, Pedro da Conceição Guerreiro, como referimos, conseguiu salvar-se e oito não chegaram a embarcar.
-
A traineira afundada está quase totalmente desmantelada. 

Do jornal Comércio do Porto, 26.11.1963

 
Há, portanto, algumas disparidades entre o número de náufragos, ao compararmos os dois jornais, de datas subsequentes.
Os barcos da frota de pesca, ancorados no porto de Aveiro, hastearam as suas bandeiras a meia adriça em sinal de luto, tendo, logo de madrugada, iniciado as pesquisas ao longo da costa do litoral aveirense para a possível recolha de corpos dos desventurados pescadores que, porventura, viessem a ser arrojados às praias.
De manhã, foi recolhido e levado para terra, na praia da Torreira, o cadáver do pescador João Simões Basílio, casado, de 64 anos, da Gafanha da Encarnação.
 A tragédia, originada, ao que parece, por um acto de menos prudência, causou a maior consternação na cidade e arredores.
O Sr. Capitão do porto, Agostinho Simões Lopes, esteve em S. Jacinto, a fim de se inteirar das condições em que se deu o trágico acontecimento.
Chegou a Aveiro o Sr. Guilherme de Sousa Otero Salgado, presidente do Grémio e Mútua dos Armadores da Pesca da Sardinha, que representará nos funerais das vítimas do naufrágio, o Contra-almirante Henrique Tenreiro e Comandante Sá Linhares.
O Sr. Capitão do porto de Aveiro representará, nos funerais, o Sr. Presidente da República, e, também, o Sr. Ministro da Marinha. Os funerais serão custeados inteiramente pelo cofre da Mútua dos Armadores da Pesca da Sardinha, não bastando isso, de forma alguma, para superar a falta que os saudosos pescadores, em plena actividade, fizeram às suas famílias, ao tentarem arrancar das águas, o seu sustento, com amor e carinho.
A nossa barra tem sido palco, lamentavelmente, ao longo dos anos, de muitos acidentes e naufrágios. Segundo testemunham os entendidos, não é uma barra fácil.
-
Imagem – Gentil oferta do amigo Reinaldo Delgado
-
Ílhavo, 25 de Novembro de 2014
-
Ana Maria Lopes
-

sábado, 11 de outubro de 2014

Lugre com motor Luiza Ribau

-
Alguns posts vão ficando em banho-maria durante largos tempos. Outros se lhes adiantam. Afazeres…prioridades…interesses…razões várias.
Com o aproximar do fim do ano, temos estado a tentar arrumar a casa para ver o que anda por aqui «a boiar» e que terá ainda cabimento. No Verão, a sedução da ria, das regatas, das romarias lagunares; hoje, voltemos ao mar, à dita Faina Maior que tem sempre que contar, tal qual a Nau Catrineta.
Sempre as imagens…São, sobretudo imagens apavorantes, não divulgadas, que me fizeram, articular a história de vida, de 20 anos, do Luiza Ribau.
Segundo O Ilhavense da época, do primeiro de Abril de 1953, foi lançado à água, em 16 de Março, na Gafanha da Nazaré, o lugre-motor Luiza Ribau, entregue por João Bolais Mónica, à Sociedade Gafanhense Limitada, Ílhavo.
 
Embandeirado em arco, ainda na carreira

Depois de ter provado as águas lagunares

Esta unidade foi o último lugre-motor de 4 mastros, construído para a Faina Maior.

Características principais: – 52 metros de comprimento, 10,90 de boca e 5,46 de pontal. Deslocava 712 toneladas brutas, com uma capacidade de pesca calculada em 13.500 quintais.
-
Inaugurou-o como capitão, o ilhavense Francisco Fernandes Mano (n. em 1904), que o comandou até
1957, voltando a ele, de novo, na viagem de 1966.
Capitanearam-no, também, de 1958 a 1960, em 1965 e de 1970 a 72, Manuel Maria Branco Pata (n. em 1922), natural da Gafanha da Nazaré, Ílhavo, de 1967 a 1969, Orlando Brandão Vidal, (n. em 1927), ilhavense por matrimónio, ambos falecidos, e em 1973, Fernando Paulo Rodrigues Carrancho (n. em 1937), homem da Bairrada, oriundo de uma família de marítimos.
-
Em Setembro de 1958, quando em rota da Groenlândia para a Terra Nova, suportou efeitos de mar provocados pelo violento ciclone Hélène, que acabou por lhe desfazer a ponte de comando, ficando com dificuldade de governo. Valeu-lhe o navio-motor Vila do Conde, do Porto, que o comboiou até demandar o porto de São João da Terra Nova, onde lhe foram feitas reparações e instalada uma casa do leme provisória, tendo chegado a Aveiro com um mau aspecto.
-
Nada mais de muito especial para contar - depois de 1958, a rotina muito sofrida de sempre.
-
Na sua última viagem (1973), em que naufragou, o seu capitão, Fernando Paulo Rodrigues Carrancho à época já  há 15 anos nestas andanças, conheceu o duro ofício, sem ignorar os seus riscos, até, porque já naufragara em Agosto de 1968, no Adélia Maria.
-
Em Virgin Rocks, com um carregamento de 7.100 quintais, numa madrugada de Agosto, que parecia igual a tantas outras, quando se procedia à operação do arriar de botes, recorda ele, numa entrevista, uma voz dava a dimensão do inevitável – fogo a bordo, no paiol dos apetrechos de pesca!
Suspendeu-se o arriar dos dóris e tudo se fez para evitar a perda do navio.
Os esforços revelaram-se inúteis, já que as chamas alastraram velozmente. A alternativa era o abandono do navio, perante a extensão do sinistro. Os socorros foram imediatos, entre mau tempo com rajadas de 120 Km. Foram eles o Conceição Vilarinho, o S. Jorge, o Ilhavense, o Creoula e o Novos Mares.
Levados os tripulantes para bordo, foram transferidos para o Gil Eannes, que os conduziu a St. Jonh’s. Daí para Lisboa, foram transportados por dois aviões.
Nesse mesmo ano de 1973, igualmente naufragaram o Vila do Conde e o Rio Antuã.
-
Para evidenciar a dimensão assustadora do fogo e as proporções aterradoras que atingiu, nada melhor que as imagens, já a cores, que, pelos anos 90, o saudoso Capitão Francisco Marques nos cedeu. Imaginamos que tenham sido registadas por ele próprio, visto que comandou o Creoula, na sua última viagem, tendo sido um dos navios que também colaborou, na assistência aos náufragos.
-
Já há uns largos anos, Francisco Marques e eu achávamos as imagens que mostramos e outras similares, duma grandeza chocante e arrepiante. Era nossa intenção vir a realizar uma exposição fotográfica sobre naufrágios de bacalhoeiros o que não se realizou, por razões diversas. Outros poderão, eventualmente, aderir à ideia, apaixonadamente.
-
 
 
 
 
 
 
O belo horrível!...
-
Ílhavo, 11 de Outubro de 2014
-
Ana Maria Lopes
-

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Afundou-se o vapor CATALINA

-
A nossa terra foi em determinadas épocas, e os primeiros anos da década de 40 foram uma delas, assolada por terríveis naufrágios que deixaram casas com pobres famílias na orfandade. Mais morte… por Ílhavo, em consequência de naufrágios? É mesmo o que queremos dizer.
Perante uma notícia vaga, vinda de St. Jonh’s da Terra Nova sobre o desaparecimento do vapor Catalina, reinou a tristeza, a comoção e a ansiedade, nesta nossa vila maruja – relata O Ilhavense de 1 de Fevereiro de 1942. O brutal acidente do Maria da Glória, do Delães, em 1942, do Santa Irene, do Pádua, em 1943, e tantos mais, encheram páginas dos jornais.
 
 
 
A tripulação do Catalina era de 18 homens, dos quais, dez eram ilhavenses, a saber:
José Fernandes Matias, imediato, João Nunes dos Santos (o Silveira), piloto, Manuel Pereira Lamarão, contramestre, Tomé dos Santos Panela (o Romeiro), Manuel São Marcos, Luís Francisco da Madalena, António Ferreira Carrapichano, marinheiros e Ângelo Ferreira, ajudante de cozinheiro e João Francisco Bichão, moço de câmara.

O Catalina tinha saído do Porto para a Terra Nova, onde ia buscar bacalhau frescal. O seu comandante, nosso conterrâneo, Sr. José Francisco Bichão, adoecera, tendo recolhido a um hospital local. O imediato, José Fernandes Matias (o Cajeira) ocupou o comando do navio, tendo saído de Fortune Bay a 14 de Janeiro – não mais houve notícia dos nautas e seu navio. Temporal, icebergs, consequências da guerra?
O Catalina, juntamente com o Ourém, pertenciam a uma empresa de navegação com sede no Porto, C. A. Moreira & Cª., Lda., utilizados no serviço comercial, com destino à Terra Nova, Islândia e Groenlândia. Paralelamente, escalavam portos no norte da Europa com eventuais viagens para Cuba, assegurando o transporte de açúcar, para os portos nacionais.
Ex-Kilkeel, ex-Falconer, o Catalina tinha um comprimento fora a fora de 55, 50 metros, 9,08 de boca e 4, 70 metros, de pontal. Eram muito raras, senão inexistentes, fotos do Catalina. Chegaram-nos às mãos (via Canadá) as duas que publicamos.
 

CATALINA

 
Fortaleceram mais o desejo de postar a notícia de há 70 anos, dando-lhe uma nova vida (ou morte), já que tanto de trágico teve a ver com Ílhavo.
Em site, muito mais tardio, é evidente, mas fiável, tivemos conhecimento de que o navio fora torpedeado na posição 47º 15’N| 52º 15 ‘ W pelo submarino alemão o U-203, em 15 de Janeiro de 1942, quando de viagem de Fortune Bay para St. John’s na Terra Nova. Não houve sobreviventes.
 
Fotografias oferecidas por Aníbal Paião
-
Ílhavo, 12 de Junho de 2013
-
Ana Maria Lopes
-

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Naufrágios de ontem e naufrágios de hoje...

-
Ontem, na praia do Furadouro, ali tão perto, o mar vitimou dois pescadores que seguiam a bordo do barco do mar, JOVEM, de registo, A - 3244 - L, que naufragou, quando praticava a arte xávega.
 
Barco JOVEM, na praia
 
Hoje, através do Diário de Aveiro, lemos pormenorizadamente a notícia.
Não podia, não devia ser verdade!
Sustento de tantas famílias, cemitério de tantos vivos/mortos, MAR que é MAR, tem de ser respeitado!
A nossa homenagem à memória de Benjamim Carriola e de Jacinto Moreira.
 
Ílhavo, 23 de Maio de 2013
 
Ana Maria Lopes
-

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Otelina - curta, mas penosa história

-
Alguns posts ficam em banho-maria durante largos tempos. Outros se lhes adiantam. Afazeres…prioridades…razões diversas. Com o início do ano, temos estado a tentar arrumar a casa para ver o que anda por aqui «a boiar».

E o lugre-motor Otelina, com curta, mas dramática existência, é uma dessas histórias. Há cerca de dois anos, ao digitalizar umas imagens, duas, identificadas, e de familiar de pessoa conhecida, chamaram-nos a atenção. Nada sabíamos do navio em causa. Se pudéssemos procurar algo?…e assim fizemos.
Segundo O Ilhavense da época, com um calor tropical, foi lançado à água, num domingo, dia 22 de Julho de 1944, na Gafanha da Nazaré, o lugre-motor Otelina, construído no estaleiro do Mestre António Maria Bolais Mónica, para a Sociedade de Navegação Veloz, Lda., com sede em Aveiro.

A nova unidade, para 12 tripulantes, dotada de todos os equipamentos próprios, tinha três mastros, deslocava cerca de 300 toneladas, possuía um motor de 240 cavalos, media, de comprimento fora a fora, 39 metros, de boca, 8,45 m e de pontal, 3, 67 metros.

 
À espera do grande momento…

 
Amadrinhou-o a Sr.ª D. Otelina Mónica, filha do construtor, como mais tarde soubemos. A amarra foi cortada pelo Capitão do porto de Aveiro, Comandante Almeida Carvalho.
 
Quando o Otelina entrou nas águas da nossa ria, o cenário foi o habitual – enorme multidão, muitos aplausos, longos vivas, estridente foguetório, agudas sirenes e acenos com lenços e chapéus.
 
Já flutuava, embandeirado em arco…
 
Lá se quedou na água amena por uns tempos, até que todos os seus acabamentos tivessem lugar, para partir para a primeira viagem!
Deus o proteja! – ouvia-se em surdina.
 
Mas, não protegeu por muito tempo, na sua curta vida.
Secundada por pessoa amiga, consultámos, de novo, o nosso Jornal de 1 de Outubro de 1945.
 
Refere que, no Brasil, quando ia em viagem para o Pará, naufragou à entrada do rio Amazonas, com forte agitação de mar, o lugre Otelina, a 21 de Setembro de 1945. Como estava a operar no «tráfego de longo curso», estaria a transportar todo e qualquer tipo de mercadorias. Durou um ano, o Otelina.
 
Era comandado pelo ilhavense Manuel Pereira Ramalheira, nascido a 1893.

Salvou-se toda a tripulação, com excepção do piloto Joaquim Marques Machado, nascido a 1879, segundo consta da sua ficha do Grémio. Sempre que possível, gostamos de fazer estes confrontos, que nos permitem certificar mais elementos.

 
Ficha do Grémio

E por lá ficou o Otelina, lançado à água, no meio do maior júbilo, há pouco mais de um ano. Mar é mar…há ir e voltar. Mas, nem sempre se voltou. Joaquim Marques Machado não voltou. Ílhavo bem o sabe.
Imagens – Arquivo da autora do blogue
Ficha do Grémio gentilmente cedida pelo MMI
 
Ílhavo, 12 de Fevereiro de 2013
 
Ana Maria Lopes
-

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

GRANDES NAUFRÁGIOS PORTUGUESES - 1194-1991

-
O caro Amigo Comandante José António Rodrigues Pereira reuniu os acidentes marítimos que marcaram a História de Portugal, num só volume, a lançar, amanhã, dia 23 de Janeiro, às 18h e 30, no Espaço de Autor da Bertrand Chiado, em Lisboa.
A obra, edição de A Esfera dos Livros, será apresentada pelo Professor Francisco Contente Domingues.
O prefácio é da autoria do Prof. Dr. Adolfo Silveira.
A ler...




Ílhavo, 22 de Janeiro de 2013
-
AML
-