quarta-feira, 8 de abril de 2020

Cap. Jorge Trólóró


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Resquícios da Faina Maior…

Em tempos de clausura e solidão, sem nada que me entretenha, nem que me apeteça fazer, voltei a este homem do mar, que sempre ficou em suspenso. Queria registar algo da sua biografia, mas nunca consegui grandes elementos.  Há já uns anos, identifiquei uma senhora na Residencial do Casci, que sabia ter sido sua nora, mas, ao interpelá-la com custo, muito pouco consegui… confirmou-me o nome do marido, Jorge Manuel Tavares da Rocha, motorista, já falecido, e do sogro – Capitão Jorge da Rocha Trolaró. Confirmei, mas nada mais. O nome ou alcunha – nunca tive a certeza – apresentava-se-me com muitas variantes: Tróloró, Trolóró, Trólóró ou Trolaró. Acontece, por Ílhavo.

Bem, Jorge da Rocha Trólóró, segundo a sua assinatura da ficha do Grémio, era filho de Joaquim da Rocha Trólóró e de Maria Emília Nunes Vidal, natural de Ílhavo, tendo nascido a 30 de Março de 1900. E por cá viveu…
Casou a 27 de Setembro de 1922 com Maria Rosa Tavares da Rocha, de cujo casamento, nasceram os filhos Maria Jorgelina, Rosa Emília e Jorge Manuel Tavares da Rocha.
Era portador da cédula marítima nº 5.751, passada pela Capitania do Porto do Porto, que testemunhava que exercia a profissão de pescador do bacalhau desde o ano de 1919 como piloto e que deixou de exercer a profissão desde 1941, por motivo de doença. Citava o nome de dois navios, “Patriotismo” e “Delães” e meia dúzia de datas. Estava montado o esqueleto, mas era preciso completar os espaços descarnados. Há anos, deixei de lado, mas, hoje, voltei ao Trólóró, que não conheci, mas de que conheci o tal filho, motorista, que usava o mesmo nome do pai.

Vamos lá “pescar” os dados que faltam, servindo-me dos jornais de época, O Ilhavense, Beira-Mar e dos registos do João David Marques que são “um livro aberto”.
O primeiro registo escrito com que me deparei foi como piloto, em O Ilhavense de Março de1923, do lugre “Vencedor”, da praça do Porto, comandado pelo capitão Francisco de Oliveira.
Nas campanhas de 1926 a 28, continuou como piloto do lugre da praça do Porto, “Patriotismo”, sob o comando de Francisco de Oliveira.
Em 1929, mantendo-se fiel à mesma praça, mudou-se de saco e enxoval para o convés do lugre “Palmirinha”, como piloto, sob o comando de António Cachim Júnior, por aí ficando até 1930, inclusive.
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Observando o rumo… Anos 30
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Em anos de forte crise bacalhoeira, lá foi continuando, trocando de navio, passando a ter a seu cargo, em 1931, o comando do “Patriotismo”, que já servira, até 1939, tendo como piloto António Cachim Júnior. E este foi o “seu navio, em toda a década de trinta, tendo conhecido os pilotos Manuel Gonçalves da Silva (Paroleiro), Adolfo Francisco da Maia e João de Sousa.
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O lugre “Patriotismo”
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Final dos 30, a bordo do “Patriotismo”, em Massarelos
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O lugre de madeira “Patriotismo”, construído em 1923 por José B. Santos Borda, para a Parceria Marítima do Douro, Lda., fez a última campanha em 1939, tendo passado para o comércio, em 1940.
E o “nosso Trólaró”, eis que passou para o comando do lugre motor “Delães”, levando como piloto João Juff Tavares Ramos, nos anos de 1940 e 41. O famoso “Delães”, a quem a sorte não bafejou, em 1942. Tinha o destino traçado.
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O lugre “Delães”
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Mas, voltando ao nosso oficial, que havia pedido dispensa da profissão, em 1941, por questões de saúde, quando é que nos teria deixado? 
Não minto, se disser que há uns anos, folheei, já exausta, em duas tardes, 5 anos de jornais. Finalmente, repliquei, cansada, quando, o nosso jornal de 10 de Junho de 1947 noticiava, que tinha falecido esta madrugada, com 48 anos de idade, Jorge da Rocha (Troloró), oficial da Marinha Mercante, há muito tempo retido em casa, por pertinaz enfermidade.
Curta a vida!...  Desde tão novo, no mar!...
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Ílhavo, 8 de Abril de 2020
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Fotos: do “Patriotismo” cedida por J. David Marques e espólio pessoal
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Ana Maria Lopes-

sexta-feira, 27 de março de 2020

Bota-abaixo do "Avé Maria"


Revendo uma foto e evocando o que ela mostra – na maré de gente que eram os autógrafos dos livros, alguém, que não recordo, ofereceu-me esta foto, com carinho, identificada e datada. Óptimo! Guardei-a e só hoje, em arrumações e escolhas de pastas, gavetas e baús, me veio à mão.
Digitalizei-a, usei-a. Alguém, além de mim, gostará de a ver. Em dia de bota-abaixo do navio-motor “Avé Maria”, em 14 de Fevereiro de 1957, construído na Gafanha da Nazaré por Benjamim Mónica, para a Empresa de Pesca de Lavadores, Lda., os habituais festejos por um novo navio que beija pela primeira vez, as águas da ria.
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Sempre emocionante… e nunca mais visto!
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Então e a foto que me ofereceram? É o preâmbulo da anterior: – Com o navio por fundo, detrás de telhados, de costas, o almirante Américo Tomás, então Ministro da Marinha, é cumprimentado pelo armador do navio, Cap. Ferreira da Silva.  À direita, em primeiro plano, Adelino Ferreira Sardo, motorista e irmão do armador e, à sua direita, a menina Maria Júlia de Oliveira Madaíl, sobrinha de um dos sócios da Empresa, e madrinha do navio, conhecida por Juju Madaíl.  Conheci-a nos tempos do Liceu, sabia onde ela morava, em Aveiro, mas nunca, nunca mais a vi. Recordei-a, hoje, neste esclarecedor cliché.
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Bota-abaixo “Avé Maria”, 1957
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Ílhavo, 27 de Março de 2020
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Ana Maria Lopes-


quarta-feira, 25 de março de 2020

Abria hoje a Feira de Março..., mas os tempos são de calamidade


Isto é só para lembrar… Para mim, a Feira de Março, apesar da vetustez dos seus quase 600 anos, já foi, já era. Neste ano maldito de 2020, pelos motivos que todos sabemos, até faz falta…

Para aí, há sessenta anos, quando vinha de férias da Universidade de Coimbra, que agradável era ir até à Feira de Março! Era mesmo obrigatório experimentar as sensações dos divertimentos mais ousados, para a época – comboio-fantasma, cadeirinhas voadoras, poço da morte –, ir ao Circo, flanar, pavonear as toilettes já primaveris, almejar encontros agradáveis, flirtar, renovar as bijouterias, etc., etc.….
O ambiente favorecia a diversão!

Mas porquê no “Marintimidades”, estas intimidades? Apesar dos meus verdes anos, os barcos moliceiros já não me eram indiferentes. E daí ficou a chapa que bati em 25 de Março de 1961. Não há dúvida que já atraíam as minhas atenções. Eis a prova.
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Inauguração da Feira de Março – 1961
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A ria, inspiradora e calma, espelhava a paisagem!
Estava um bonito dia primaveril! O Rossio é, era, (será?) sempre o Rossio! Alimentava-se da água que bebia! ….

Além do mais, era hábito os barcos moliceiros estarem presentes, por iniciativa dos arrais, movidos pela tradição, em razoável número, no Canal Central, para exibirem as suas elegantes formas e garridismo cromático. Com eles vinham, também, alguns mercantéis, mais pesadões, mas sempre pujantes senhores da Ria.

Esta imagem deixa-me alguma saudade. Apesar de continuar a apreciar a beleza do Canal Central, algo mudou e, se calhar, não foi para melhor. Opiniões!...
Já agora, recordemos o postal que a Comissão Executiva da Feira de Março editou em 1952.
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Em 1952…postal editado pela Comissão Executiva
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Ílhavo, 25 de Março de 2020
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Ana Maria Lopes-

terça-feira, 17 de março de 2020

"Apelos do Passado" apresentado no Museu Marítimo de Ílhavo



A obra “Apelos do Passado” de Valdemar Aveiro foi apresentada no Museu Marítimo de Ílhavo, no passado dia 6, perante uma assistência significativa, que “diz muito” ao autor. Coube a Álvaro Garrido, antigo director e consultor da unidade museológica ilhavense e novo director da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, apresentar a obra.
Este, que é o sétimo livro do autor, tem cerca de cerca de 100 páginas, com breve glossário, dado ao prelo pela Âncora Editora.
É uma obra, sobretudo autobiográfica, que se baseia em factos vividos de uma forma aleatória, quer nas ondas do mar quer em terra lhana, entrecortados por sonos, sonhos e deambulações diversas.
Nascido em Ílhavo, homem de 85 anos, gosta de viver de pé, colaborando ainda hoje com a administração da Empresa de Pescas de S. Jacinto, despois da convalescença de uma grave doença vivida após a sua última viagem em 1988, como capitão “do seu navio” – o arrastão Coimbra.
Tendo conhecido o sabor salgado do mar, apenas com 16 anos como moço de lugre-motor Viriato em 1951, subiu na vida a pulso e depois do Curso de Oficial da Marinha Mercante, na Escola Náutica, em Lisboa, comandou homens e arrastões, confessando com orgulho, que apenas serviu duas empresas, a Empresa de Pesca de Aveiro (EPA) e a Empresa de Pescas de São Jacinto, tecendo os maiores elogios aos seus armadores, respectivamente, Sr. Egas Salgueiro e Dr. Domingos Vaz Pais, já “ausentes”, mas que nunca esquecerá.
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É um livro forte, em que o autor evoca a sua vida de marinheiro entre vagas alterosas, tempestades, growlers e icebergs, de que sente saudades e lembra a doçura de uma criança acabada de nascer, ao compará-la com os novos tempos, que não sabemos para onde nos catapultam. É um livro amargurado, com um tom desencantado do mundo em que vivemos.
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Foto de Etelvina Almeida
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Ílhavo, 17 de Março de 2020
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Ana Maria Lopes-

domingo, 8 de março de 2020

Documentário do "São Ruy", na campanha de 1952

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Anteontem, antes da apresentação do mais recente livro de Valdemar Aveiro, no auditório do MMI, foi servido um belo aperitivo – documentário da campanha de 1952, no navio-motor “São Ruy”, da praça de Viana do Castelo.
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O navio-motor “São Ruy”
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“A Campanha do São Ruy – 1952”, atendendo ao facto do Capitão João Araújo não ser um profissional, deixou-nos, para memória futura, um excelente documentário – a precisão das cenas, a sua sucessão.  os timings certos fazem dele um filme excepcional para se apreciar o processo de registo de uma viagem redonda: o abastecimento de sal, a cerimónia da Bênção no majestoso Tejo, a saída da barra, a vizinhança de outros navios, a vida a bordo, a pesca, o processamento do peixe, a salga, a ida a terra para abastecimento, o reencontro de capitães amigos e o regresso. Por acaso ou não, tem uma forte intenção pedagógica, para seja apreciado por escolas, por jovens descendentes ou não, de quem viveu essa vida.
O texto escrito pela pena de João David Batel Marques para o comentador do filme, é excelente, com um narrador presente, de primeira pessoa, visto que foi posto na boca de quem o filmou – o imediato vianense, João Araújo.
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Imediato João Araújo
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Do trio da oficialidade faziam parte o Capitão José Bilelo e o piloto, carinhosamente conhecido por Chico Leite, ambos de Ílhavo.
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Ílhavo, 8 de Março de 2020
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Ana Maria Lopes-

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Fooooooooogo no Rainha Santa!...

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Um dos últimos navios-motor a ser construído nos estaleiros do Mestre Benjamim Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, para a firma Pascoal & Filhos, Lda., foi lançado à água no dia 15 de Março de 1961. Há quase 59 anos.
O navio, construído em madeira, tinha capacidade para 14 000 quintais de peixe.
O bota-abaixo aconteceu segundo os procedimentos habituais, mas já com bastante menos fulgor.
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O navio embandeirado em arco…
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Características – Comprimento, entre perpendiculares, 48, 91 metros, 10,47 de boca e 5, 35 de pontal. A arqueação bruta era de 829, 61 toneladas e a líquida, de 435, 33.
Albergava 21 tripulantes e 59 pescadores.
Foram seus capitães, João Fernandes Parracho (Vitorino), de 1961 a 1965, João José da Silva Costa, de 1966 a 1972 e António Tomé da Rocha Santos, em 1973.

Naquele período, a vida era bastante intensa no porto bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré e, sempre que tocava a sirene, em Ílhavo, e constava que o incêndio era a bordo ou em alguma seca, uma tal correria despontava para lá, com interesse na observação do acidente. Também lá fui eu!...

Foi o que aconteceu no dia 25 de Fevereiro de 1974. Fazem, hoje, exactamente, 46 anos! Sireeeeene… toque de fogo!!!!!!!!!!! Incêndio no Rainha Santa! E numa debandada, muita gente acudia, num misto de curiosidade e pavor.
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Incêndio a bordo…
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Um grande incêndio deflagrou a bordo, devido a curto-circuito na casa das máquinas – era notório. Colossal azáfama – bombeiros das corporações de Aveiro e de Ílhavo, assistentes, curiosos – um corrupio.
Segundo informação colhida no momento, o navio, dificilmente poderia ser recuperado para a pesca e, sobretudo, para a campanha próxima, para a qual se preparava. Milhares de contos de prejuízo.

À época, não foi muito badalado o destino do navio. Abandonado no cais durante uns tempos, esteve perto de ser desmantelado, mas acabou por ser procurado por um empresário de Avanca, segundo informação colhida na zona, Sr. José Resende, que o adquiriu à empresa proprietária com a intenção de o preservar. Projectos destes nunca foram muito acessíveis.
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Restaurante na Torreira
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Acabou por ter sido recuperado parcialmente e ter feito, a reboque, as últimas milhas, através do Canal de Ovar da Ria de Aveiro, em inícios dos anos 80, tendo acostado junto ao chamado Monte Branco (Torreira), transformado em restaurante/bar. Outra vida, em que também não teve grande sucesso…
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Imagens da Foto Resende
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Ílhavo, 25 de Fevereiro de 2020
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Ana Maria Lopes-

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Homens do Mar - José Marques de Oliveira - 55



José Marques de Oliveira
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Há muito pensava abordar o currículo marítimo do Pai da minha amiga Joana, mas, José Marques de Oliveira, de alcunha Tira o Sousa, foi ficando para o final.  José Oliveira, filho de António Nunes de Oliveira Sousa e de Maria Marques de Oliveira, nasceu em Ílhavo, em 23 de Dezembro de 1918. E a alcunha de Tira o Sousa? Foi-me contado que já que o sobrenome do pai era Sousa, ele também o seria. E assim pensou o garoto, até entrar para a Escola Primária. Ao escrever o seu nome completo, fazia-o como achava que se chamava mesmo. Então o professor recomendava-lhe – Tira o Sousa –, porque não és Sousa mesmo. E daí nasceu a alcunha.
Conheci-o apenas de o ver passar lá para os fundos do Arnal e a própria filha me revelou não saber muito da vida do pai, por desencontros, próprios desta ocupação marítima e da sua vida colegial.
Com cédula marítima nº 10. 698, passada pela Capitania do Porto, no Porto, em 16 de Abriu de 1937, teve uma carreira, na pesca bacalhoeira, de motorista.
Do casamento com Maria da Conceição Rocha da Silva, nasceu a filha Joana.
Com perto de 30 anos de mar, sempre em navios à linha, foi um pronto e fiel servidor da casa das máquinas.
Já me têm passado casos de marítimos de uma grande fidelidade a uma empresa; neste caso curioso, o Zé de Oliveira foi fiel à Sociedade Lisbonense de Pesca do Bacalhau, Lda., mas também foi fiel a três capitães ilhavenses, que sempre acompanhou nas suas mudanças de navio – só se pode concluir que, entre eles, havia uma boa relação de trabalho. Foram os capitães António Simões Picado, com quem fez doze viagens, José Teiga Gonçalves Leite, com três viagens e Elmano Ramalheira, com onze campanhas.
Começou, certamente, como moço, como era hábito, «pau para toda a obra», mas, a partir dos registos existentes desempenhou o cargo de moço, em 1937, no lugre-escuna Santa Regina, pertença, à época, da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., com sede e secadouros em Ílhavo, da gerência de Francisco António Abreu e de Anselmo José Lopes Ferreira. O capitão era o conterrâneo António dos Santos.
Toca de rumar a Lisboa, de albaióis e ferramenta no saco, para servir de ajudante de motorista no lugre Labrador, até à campanha de 1943 (inclusive). Nas de 1944 e 1945, passou a motorista. O capitão sempre foi António Simões Picado, de 1938 a 1945, com excepção das viagens de 1943 e 44, em que o capitão foi o também conterrâneo Júlio Pereira da Bela, de alcunha Salsa.
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No Labrador, o 2º à nossa esquerda, Eduardo Labrincha e o cozinheiro Manuel Pereira
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No Labrador, o 1º à nossa direita, Eduardo Labrincha, Manuel Sarrico…
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João Celestino Chuva Bingre e Zé Oliveira, 1944/45
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Chegado o ano de 1946, aconteceu a viagem inaugural do navio-motor, de madeira, António Coutinho, para onde ambos se mudaram – capitão António Picado e Zé Oliveira, onde este, de 2º motorista, passou a primeiro.

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Navio-motor António Coutinho
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Com a sua característica boina, com jeito para as máquinas e outros serviços, de barbeiro, por exemplo, assim foi vivendo, a bordo, bem humorado e fotogénico.
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Corte de cabelo ao cap. Elmano Ramalheira
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O navio-motor António Coutinho fora um navio-motor, construído em 1945 para a Sociedade Lisbonense da Pesca do Bacalhau, por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré. Nele se mantiveram primeiro motorista e capitão António Picado, apenas com um interregno de 1952 a 54, em que José Teiga Leite liderou o comando do navio, até ao ano de 1955, em que Elmano Ramalheira passou a dirigir o navio-motor.

Na viagem inaugural do São Rafael, em 1959, ambos abalaram, naquele espírito solidário e de amizade a que já me referi, de saco às costas, para o convés do São Rafael, até 1965.
Este navio, já de ferro e de outra dimensão e comodidade, foi construído para a mesma sociedade armadora, pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1959.
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Navio-motor São Rafael
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Na safra de 1961, um triste episódio se passou, que não teria sido nada fácil de suportar pelos camaradas de bordo e ainda menos de comunicar à família.
No dia 22 de Abril, José Augusto Bichão Gago, nascido a 15 de Agosto de 1939, filho de Augusto Bichão Gago e de Evangelina Rainha Bichão, residentes na Rua Direita, em Ílhavo, de 21 anos, perdera a vida por afogamento, na Terra Nova, quando ia iniciar a pesca no seu bote. Aluno da Escola de Pesca, tinha feito dois anos moço, quando se ia estrear como pescador verde. Triste acontecimento, em que o mar arrepanhou para as suas funduras, o corpo de um jovem, para sempre.
Noutro dia em que passava pelo cais da Gafanha sempre recordando memórias, em frente a instalações da CNCB, chamou-me a atenção o nome de um navio, São Rafael, abandonado, enferrujado e degradado. De facto, era o São Rafael a que me venho referindo, depois de ter passado por diversas transformações e registos.
O nosso Zé de Oliveira ainda passou uns bons anos por Ílhavo, onde saboreou o tempo de aposentação, que se concretizou em 1972.
Deixou o mundo dos vivos em 2 de Dezembro de 1990, com 72 anos de idade.
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Ílhavo, 16 de Abril de 2019
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Fotos cedidas por Joana São Marcos
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Ana Maria Lopes-

domingo, 16 de fevereiro de 2020

"GIL EANNES - O Anjo do Mar"


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No dia 31 de Janeiro, a bordo do navio-hospital “Gil Eannes”, em Viana do Castelo, na sessão comemorativa dos 22 anos do resgate do referido navio, além de outros eventos, foi apresentado o livro “Gil Eannes – O Anjo do Mar”, da autoria do comandante ilhavense João David Batel Marques.
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O livro com uma boa apresentação gráfica, é brochado, consta de 132 páginas, em versão bilingue, português/inglês, com cerca de 80 figuras, entre fotografias do navio, em tempo de campanha, já musealizado, arranjos, estatísticas e planos.
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O texto, claro, elucidativo, pormenorizado e atraente, tem a qualidade a que o autor já nos habituou.
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Entre 12-05-1955 e 30-04-1959, o navio teve como Comandante, o capitão João Pereira Ramalheira (Vitorino) e entre 1965 e 1968, o Capitão de Bandeira e Chefe da Assistência à frota bacalhoeira Almirante Quintino Mário Simões Teles, ambos ilhavenses, de que a terra, muito se orgulhou.
A foto de capa, da esquerda para a direita, na campanha de 1955, no “Argus”, mostra o imediato José Luís Nunes de Oliveira (Codim), Comandante Henrique Tenreiro, capitão Adolfo Simões Paião Júnior e o piloto Francisco Teles Paião, tendo o novo “Gil Eannes”, ao fundo.
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Além do local de origem, o livro encontra-se também à venda, na livraria do Museu Marítimo de Ílhavo.
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Ílhavo, 11 de Fevereiro de 2020
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Ana Maria Lopes-

" ÍLHAVO - Ensaio Monográfico - Séc. X ao Séc XX"


“ÍLHAVO – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX”
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Senos da Fonseca
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3ª edição
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Esgotadas as edições anteriores, o autor julgou chegado o momento de reformular, revendo e aumentando o conteúdo do “ÍLHAVO – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX", livro com que o autor pretende precisar uma história, contado passo a passo o percurso desde o nascimento, a evolução económica e social da comunidade ilhavense, para lá de outras referências de interesse para memória futura.
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Tão pormenorizada e documentada, quanto o permitem os documentos que anexa, (disponibilizando-os assim), a obra procura justificar no seu todo, a singular diferenciação (que perdurou até há bem pouco) entre as duas comunidades que lhe deram identificação singular: a dos lavradores acantonados lá no cimo do agregado, e os pescadores dispersos pela beira da ria, acovilhados nos becos tão característicos…
Partindo da afirmação da villa como agregado populacional, identificando em pormenor o historial dos seus donatários, o livro aborda os primeiros tempos ao encontro do Foral Manuelino que a identifica, define e inscreve na história pátria. Segue cronologicamente até à grande crise lagunar, abordando o modo singular como “os ílhavos” procuraram no litoral a sobrevivência. Deixando um rasto inapagável, afirmada nos saberes que transmitiram passo a passo, praia a praia, transmitindo a singularidade de uma cultura diferente. Única!
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Insere o livro, o panorama social e económico, apontando profissões, rendimentos e ofícios que deram a forma, a Ílhavo, de comunidade (já) evoluída, de referência. Aborda o papel marcante dos “ílhavos mareantes”, participantes maiores da faina maior dos bacalhaus, importante para o esforço do país em minorar a sua dependência do estrangeiro.
Não deixa o livro de referenciar a extraordinária geração que, na transição do século, se distinguiu por obras e feitos ou distinção intelectual.
O livro – de 600 páginas, contendo referências históricas e fac-similes de documentos – encerra com um mapa referência que recolhe em datas os principais pontos do historial de Ílhavo.
Encontra-se, para venda, na livraria do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), na livraria Leya, no Clube de Vela da Costa Nova (CVCN) e outros locais a designar.
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Ílhavo, 10 de Fevereiro de 2020
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Ana Maria Lopes-


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Dia de S. Valentim


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Apesar das crises, dos vírus, dos muitos impostos, dos complicados orçamentos, pelos jornais, são só propostas de jantares românticos, com ementas especiais, à luz de velas com rosas vermelhas, soirées dançantes, passeios de barco no Canal Central regados de champagne, e…outros eventos, neste dia 14 de Fevereiro.
Há sempre outras soluções… Este par de simpáticos e criativos velhotes celebra o amor ou a amizade, num passeio a dois, numa tradicional catraia poveira. Que casal delicioso, imbuído de um espírito de juventude e de afecto, inserido num postal antigo de um aguarelado soberbo!
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Apetrechados de vertedouro e de remo, lá vão, ternurentos, vida fora, no Barco do Amor. E esta hein? Sorriam…
Tomariam alguns mais novos fazerem o mesmo, mas…já não lhes apetece…Há vidas e vidas, amores e desamores…
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Ílhavo, 14 de Fevereiro de 2020
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Ana Maria Lopes-

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Cap. Manuel Marques Machado

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A bordo do “Avé Maria” em 1963
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Na sua moradia na Costa Nova, debruçada sobre a ria, onde passou a maior parte da sua aposentação, visitei-o já há uns anos, para me falar da faina marítima de seu Pai.
Agradável, culto, bom conversador, simpático, atencioso, atendeu-me amavelmente, e tirou-me todas as dúvidas relativas ao pai.  Já agora, a sua vida profissional também veio para a baila. Afinal, também um Homem do Mar e, hoje, o decano da Faina Maior, dos últimos que ainda restam.
Nado e criado em terras de Ílhavo, o Cap. Manuel Machado veio ao mundo a 12 de Dezembro de 1926. Já contava 93 invernos, de delicadeza primaveril. Descendente de família de homens do mar, de entre os quais o seu pai, António Augusto Marques, seguiu-lhe as pisadas. 
Pertencendo já à última geração de capitães da Faina Maior, concluiu a Escola Náutica, em 1948, sendo portador da cédula marítima nº 112.324, passada pela Capitania do Porto de Lisboa. Começou a sua vida de mar, no comércio, a bordo do paquete "Sofala", como 3º piloto, entre 1948 e 1951, cujo comandante, Gustavo Peixe, também era de Ílhavo. Viagens? ... muitas - para África, Canadá, Europa, etc.  
Enamorado da sua noiva, professora Maria Nunes Rocha, abandonou, então, este tipo de viagens, para governar a sua vida na pesca do "fiel amigo", com a finalidade de se casar, o que fez em Dezembro de 1951. Desta união, nasceram três rapazes, não tendo seguido nenhum deles a vida de mar.
A sua primeira viagem ao bacalhau aconteceu em 1951, ao embarcar como piloto do arrastão “São Gonçalinho”, tendo-se sucedido o “Estêvão Gomes”, o lugre “Ilhavense II”, os navios-motor “Celeste Maria” e “Senhora do Mar”, como imediato. Neste, na campanha de 1958, cruzou-se com Bernardo Santareno, pseudónimo de António Martinho do Rosário, médico a bordo, de quem me contou algumas histórias curiosas.  Identificou-se, sem dúvida, com o “seu” navio, o “Avé Maria”, que comandou de 1960 a 1970, inclusive.
  
A bordo do “Avé Maria”, em 1969
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Com a aproximação do fim da pesca à linha do bacalhau, rumou para África, em 1971, onde ocupou vários cargos ligados ao mar, de prestígio, tendo-se aposentado em 1991.
Decano dos capitães de Ílhavo, depois de vários achaques que foi vencendo com bonomia e resistência, sempre agradável, afável e delicado, embarcou para a sua última viagem, sem retorno, em 26 de Janeiro de 2020.
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Ílhavo, 26 de Janeiro de 2020
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Ana Maria Lopes-

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Evocando Reinaldo Topete



No dia 9 de Janeiro de 2020, recebi a notícia, para mim, inesperada, de que Reinaldo Topete “partira”, depois de um período em que a doença já o martirizara o suficiente. A idade não perdoa e já tinha feito 82 anos, nesta caminhada.
Não contava, não fui ao funeral, mas achei que lhe devia um agradecimento público, que nunca lhe regateei, ao tempo.
Tendo feito os estudos normais, em Ílhavo e Aveiro, Reinaldo José Gomes Topete formou-se em História na Faculdade de Letras na Universidade de Coimbra. Foi uma das primeiras pessoas, a “entregar o cabedal” à guerra do Ultramar, o que psicológica e fisicamente, não fez bem a ninguém.
Mas, culto, inteligente, voluntarioso, leitor compulsivo, notava-se que tinha necessidade de ocupar o seu tempo sobrante em algo mais do que à sua carreira docente.
Em meados dos anos 80, depois da transferência conturbada do nosso Museu Municipal da Rua Serpa Pinto para o edifício próprio que existiu na Avenida Rocha Madahil (e ainda hoje existe, depois de reestruturado), deu uma grande ajuda na selecção de livros, escolha temática, organização e catalogação da Biblioteca/Arquivo do mesmo Museu, em consonância com a técnica de Bad, ao tempo, Maria do Rosário Vieira.
E em meados de 1990, aquando da minha nomeação, para Directora do Museu, começámo-nos a encontrar com alguma frequência e dei-lhe a conhecer a primeira exposição com que pretendia começar a dinamizar o museu, “Retrospectiva João Carlos”, inaugurada 20 de Abril de 1991. Um dia por semana colaborava comigo, sobretudo no pequeno, mas fiel catálogo com o mesmo nome. Incentivava-me, entusiasmava-me, mais do que eu já estava, acelerava-me, “picava-me”, deixava-me lembretes na caixa do correio, já que éramos vizinhos. Enfim, um desaforo!... Levou-me a retomar uma informação dos inícios do lançamento do Museu, neste jornal, intitulada, PELO MUSEU, que ia dando conta aos leitores das ofertas à instituição e das pesquisas que se iam fazendo.
Isso, porque enquanto decorria a primeira dinamização, já estava no terreno, aquela que seria o sonho de uma equipa entusiasta – “Faina Maior – pesca do bacalhau à linha”. E a terça feira era o dia de pesquisa no exterior, a que o Reinaldo não faltava, depois das aulas ou todo o dia, se, em férias escolares.
Foi o que aconteceu com a Parceria Geral de Pescarias, em que saímos de casa com o nascer do sol e regressámos, já noite escura, cheios de fulgor.
E entre o capitão Francisco Marques, a Marta Vilarinho, eu e o Reinaldo Topete, estou a vê-lo, magro, esbelto, pendurado sempre no seu cigarro, a trepar a mais uma prateleira, em busca de mais uma forma, uma zagaia, uma singa, um saco de lona, uma dala, umas botas de cabedal, um garfinho de samos, uma baila, etc. Fomos muito bem recebidos pelo Sr. Helder Claro, e até o primitivo fogão da cozinha do navio “Creoula” veio para cá, ainda hoje, em exibição. E que bela “bacalhoada”, saboreámos numa grande sala frente ao Tejo, para ganhar forças para as pesquisas da tarde.
Em fins de Outubro, um pouco à revelia da Câmara Municipal, o museu fez-se representar na I Feira do Mar, em Aveiro, com o stand Dos Dóris… despojos dos homens e do mar e com uma brochura com o mesmo título.
Com o estreitar do tempo, a equipa reunia com frequência, à noite, no Museu, quando o Reinaldo me dizia: – quando vir a Faina Maior, em todos os seus sectores, virtualmente projectada, nunca mais aqui ponho os pés.  Não acreditava, mas realmente, o que o Reinaldo anunciava, assim o cumpriu. Ílhavo deve-lhe este entusiasmo, não muito duradouro, mas muito intenso.
Num sábado à tarde, de Novembro, dia 28, de 1992, o Museu abria as suas portas ao público que se reviu na Faina Maior. E com muito sucesso! – sentiu-se, viveu-se!
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Ílhavo, 28 de Janeiro de 2020
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Ana Maria Lopes-