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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Ílhavo... de outrora

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Uma singela pausa nos assuntos marítimos do Marintimidades, para lembrar um assunto de que a minha mãe sempre me falava com enlevo e carinho.
O que a motivou? A oferta de uma foto que pessoa amiga me fez chegar às mãos, devido a umas arrumações de baús.
O saudoso e considerado Prof. José Pereira Teles, fundador do nosso jornal O Ilhavense, escreveu, em 1933, a famosa peça infantil, a Nossa Escola, num total de 40 variados e preciosos números, cujos actores eram alguns alunos/as da dita Escola Nova, hoje, Escola da Música. O maestro Berardo Pinto Camelo, a seu pedido, musicou-a e dirigiu a orquestra da revista infantil, que era composta por diversos instrumentos tocados por conhecidos músicos, ao tempo – violinos, flauta, cornetim, clarinete, saxofones, trombones, rabecão e bateria.
A peça Nossa Escola foi estreada a 8 de Dezembro no Teatro Municipal de Ílhavo, em Cimo de Vila, tendo sido um estrondoso êxito para a época, com mais de trinta representações em várias localidades do país.
Mas, qual a ligação à minha mãe? Muito jovem ainda, ela desempenhou o responsável papel de comère (apresentadora de continuidade), ao longo de toda a revista, nos intervalos dos diversos números.

Maria Rosinha e Nené

A foto em causa, um primor saído dos registos do fotógrafo ilhavense Paulo Namorado, reproduz, em luxuosos e encantadores vestidos ornados a renda de guipure, as lindas meninas Maria Rosa da Graça Peixe (à nossa esquerda) e Nené (assim era conhecida) Sacramento Simões.
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Ílhavo, 25 de Fevereiro de 2018
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Feriado Municipal de Ílhavo. 2017

Feriado Municipal em imagens
 
1. Sessão solene, pelas 10h e 30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho
 
Condecorações honoríficas
 
2. Lançamento do livro «Ílhavo, Terra Milenar», monografia plural, apresentado pelas 17h, na CCI.
 
Capa do livro
Assistência
Grupo parcial de colaboradores
Colaboradores
 
3. Actuação da Banda Sinfónica da GNR, pelas 18h e 30.
Banda Sinfónica da GNR

Fotos de Etelvina Almeida e António Resende
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Ílhavo, 20.4.2017
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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Traineira IDELTA

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Bota-abaixo da traineira IDELTA, em Setembro de 1942

Há dias assim, em que as pesquisas não rendem ou, de facto, não encontramos o que procuramos.
Mas surge sempre algo que nos dá jeito, passível de aproveitar. Não eram precisos estes dados para saber que, no princípio do século XX, se construíram navios, de maior ou menor porte, em Ílhavo, lá para os lados da Malhada.
Eu e as imagens!... Esta foto que utilizo, enviou-ma um familiar dos Abreus, há meia dúzia de anos. Por aqui tem andado, desempregada. Hoje, cheguei ao texto que a ilustra, ao folhear Ilhavenses dos anos 40, para outros fins.
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Assim rezava o de primeiro de Outubro de 1942, que assim respigo:
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Dos terrenos da Seca Da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., sita junto à Ponte Juncal Ancho, nesta vila, foi, no sábado (26 de Setembro), deitada à água uma traineira mandada construir pelo Sr. Francisco António Abreu, sendo construtor o Sr. Silvério Mónica, da habilidosa família deste nome, que em trabalhos de construção naval tem dado provas de uma perícia extraordinária.
A traineira que foi baptizada com o nome de IDELTA, sendo madrinha a filha do seu proprietário, menina Maria Frederica Paradela de Abreu, aluna da Faculdade de Medicina, tem 21 metros de comprimentos, é accionada por máquina a vapor e destina-se à pesca da sardinha, no Porto.
O bota-abaixo, a que assistiu grande multidão, foi coroado do mais feliz êxito, pelo que, tanto o proprietário, Sr. Francisco António Abreu, como o novel construtor, Sr. Silvério Mónica, foram muito felicitados.
De seguida, foi oferecida uma taça de espumante aos convidados, brindando pela prosperidade do arrojado iniciador deste empreendimento, o advogado, Sr. Dr. Joaquim Silveira.
No mesmo local, já está a ser preparado o cavername para a construção de um outro barco de 300 toneladas, que o Sr. Francisco Abreu conta ter pronto no prazo de seis meses.
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Eu, que era apreciadora de cerimónias de bota-abaixo, agora tenho de me contentar com as descrições e imagens encontradas.
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Foto – Gentilmente cedida por amigo
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Ílhavo, 17 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O «nosso» Filinto, no Parque dos Poetas

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Em maré de Filinto, (nunca se viu em tais alturas), entre apresentação e representação da obra de SF, surgiu-me esta recordação.
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Há uma boa dúzia de anos, em visita com a família ao Parque dos Poetas, em Oeiras, deparei-me com uma estátua de Filinto Elísio. Parei, sabia que era um poeta arcádico, «um ílhavo», mas confesso que, nessa altura, não lhe prestei muito mais atenção. Andava bastante mais entretida a brincar com o neto.
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Agora, ah!, lembrei-me. O tal Filinto, em Oeiras!
Pedi a quem me clicasse umas imagens para as dar a conhecer a quem, porventura, não as conheça.
O parque está organizado numa série de pequenas praças, cada uma dedicada a um poeta.
É o caso da praça dedicada a Filinto.
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Um curto caminho conduz à estátua, onde uma placa resume a biografia e a obra do poeta. Consideram-no nascido em Lisboa, mas, enfim, como é verdade, perdoamos-lhes o lapso de desconhecerem que foi gerado em Ílhavo, filho de pais ilhavenses. 

A praça de Filinto

Escultura do poeta
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Foi este o nome arcádico por que ficou conhecido o poeta Francisco Manuel do Nascimento, que nasceu em Lisboa e faleceu em Paris, após uma ausência da Pátria de quase quatro décadas. Em Paris, em 1798, seriam publicados Os Versos de Filinto Elísio e, de 1817 a 1819, as suas Obras Completas (11 vols.), reeditadas em Lisboa, de 1834 a 1840. Filinto representa, na nossa produção literária, a manutenção das grandes orientações neoclássicas, aqui e além tocadas pela emoção pré-romântica.
Manteve um diálogo intelectual e poético com a futura Marquesa de Alorna, por quem tinha uma admiração extraordinária, a quem deu o nome arcádico de Alcipe, que ela depois usou. Grande devoto de Horácio cultivou os géneros da tradição clássica, deixando-nos sonetos, madrigais, epigramas, contos, epístolas, sátiras, odes (sobretudo odes).

Pormenor da sua assinatura-
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Numa folha estilizada no chão, a cinzel, foi gravado este amargurado soneto:
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Estende o manto, estende, ó noite escura,
enluta de horror feio o alegre prado;
molda-o bem c’o pesar dum desgraçado
a quem nem feições lembram da ventura.
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Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da negra cor da minha desventura.
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Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
solte-se o céu em grossas lanças de água.
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Consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero saciar de mágoa a minha mágoa!
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E grão a grão, se vão alargando e cruzando os saberes!...
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Ílhavo, 28 de Janeiro de 2015
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Ana Maria Lopes
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sábado, 5 de dezembro de 2015

A Liga Naval em Ílhavo


A propósito do incêndio que houve, na noite de 23 para 24 do mês passado, no chamado Palacete dos «Cartaxos» e, tendo lido que ele, possivelmente, teria sido mesmo sede do Sindicato dos Mareantes, andei a catar este texto de Diniz Gomes (que sabia existir), que agora respigo. Tardou, mas apareceu:

Ílhavo – terra essencialmente marítima, possuindo cerca de cento e cinquenta oficiais náuticos e mais de três mil indivíduos que do mar tiram o seu sustento num árduo e arriscado mister tão cheio de riscos e privações, quer tripulando a maioria dos nossos navios costeiros e de longo curso, quer ocupando-se no trabalho da pesca nos bancos da Terra Nova, nas armações de Setúbal, Sesimbra, Matosinhos e ainda nas companhas de arrasto das costas do litoral – devia possuir também uma associação de classe marítima para acompanhar o movimento associativo dos tempos modernos e ter quem pugnasse pelos interesses e regalias dos homens do mar. 
 
Assim o entendeu um grupo de patrícios nossos e, no desejo de verem realizado o ideal almejado com tanta ansiedade e preenchida a lacuna que tanto se fazia sentir, lançou mãos animosas à obra, em princípios do ano de 1899.
 
O esforço foi coroado do melhor êxito, congregando-se todas as vontades, reunindo-se os melhores elementos e unificando-se todos os alvitres, por forma a que, no dia 19 de Março daquele ano, era inaugurada a nova associação com o título de Grémio Marítimo Ilhavense.

Em 11 de Março do ano corrente, a convite da Liga Naval de Lisboa, o Grémio ligou-se àquela importante corporação, seguindo assim o exemplo de outras agremiações congéneres do país.

As vantagens desta fusão são incalculáveis, porquanto ninguém ignora a importância e influência política e social da Liga e os recursos de toda a natureza de que ela dispõe, benefícios de muita valia que se reflectem nas juntas locais. Disso são testemunho eloquente os trabalhos, com resultados práticos, do último Congresso Marítimo, brilhantemente levado a cabo ultimamente pela Liga, em Lisboa.

A Junta Local de Ílhavo encontra-se actualmente florescentíssima, com vida desafogada e futuro animoso, possuindo, no melhor prédio da vila, uma magnífica instalação, cuja estampa hoje se publica.



Sede da Liga Naval em Ílhavo


É grande e distinto o número dos seus associados, que, pela reforma ultimamente introduzida nos estatutos, podem ser de todas as classes sociais. Desta arte, ali se reúnem num fraternal convívio – postos de parte estultos preconceitos de desigualdades de nascimento e posição – desde as pessoas mais gradas da terra, ao mais rude e modesto homem do mar. E não é consoladora e simpática esta confraternização de todos os nossos patrícios?


Ílhavo… mais pobre, além de outras valências que o prédio teve.


Ílhavo, 21.10.1903
 
DINIZ GOMES


Cliché do periódico Mala da Europa

Ílhavo, 5 de Dezembro de 2015

Ana Maria Lopes
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domingo, 14 de dezembro de 2014

Memórias «líquidas» de Ílhavo - II

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(Cont).
Retrocedamos um pouco no tempo.
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Ana Maria – Hoje, creio que é de tanta chuva, deu-me para os rios ou riachos, lavadeiras com tripeças. E identificar esta imagem, do tal arquivo de Ílhavo?
Atenção ao vestuário. O lenço na cabeça, com chapéu negro de aba estreita, mas voltada, diz-vos alguma coisa?
Etelvina Almeida – Gosto desta imagem. Contém muita informação.
Ana Maria – Isso é verdade...mas local? Época, aposto nos primeiros decénios do século XX, pelo traje. A roupa a corar, nos arbustos...
Ábio De Lápara – Esta sim! Não reconheço o chapéu. Os de que me lembro não tinham abas. Mas o "rio" tem exactamente a configuração geomorfológica e paisagística do Rio dos Pintos! Corre a meia encosta, contido pelo caminho de acesso. Para a direita o declive para as vessadas que percorriam o vale que desembocava na ponte de pedra da Malhada. As canas, as silvas, a sebe de louros, os velhos choupos ao longe... o tapume de madeira que vedava os acessos privados à levada... tudo aqui me cheira à minha infância. Por incrível que nos pareça hoje, este local situava-se na rua que, a partir da Avenida, hoje leva à Biblioteca Municipal. Lavava-se aqui toda a roupa da rua de Alqueidão. O alguidar de zinco e o cesto de verga mantiveram-se no mercado e a desempenhar as mesmas funções até aos anos 70.
Teresa Cruz Santos – Lembro-me bem das tripeças e da roupa a corar na vegetação envolvente, mas não na zona de Ílhavo. E desses chapéus não me lembro. Pela altura das saias, deve rondar os anos trinta, quarenta... Achei curioso não estarem todas vestidas de preto...
Ana Maria – Pelos vistos, gostaste, Ábio. Nota-se. Sei quais os chapéus a que te referes, em forma de queijo e com uma peninha. Mas, também havia estes. E outros mais rasinhos, onde as peixeiras colocavam as macolas. Grandes memórias, hein?
Ábio de Lápara – Este ribeiro corria a meia encosta, paralelo à rua José Estevão e à rua de Alqueidão. Nele terminavam todos os quintais das casas do lado sul dessas ruas. Sobre ele estão hoje os prédios da Avenida 25 de Abril, desde a Fontoura até ao CASCI, que foram exactamente construídos ao fundo daqueles quintais.
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O mar cansado, retirou-se. No final
Deixou ribeiros, ervas, ambiguidades...
Na ausência perene do seu sal,
Outras vidas nasceram nas vessadas.
Por entre finos mapas de canais
Construíram a cidade que eu amava.
As águas de cristal foram tapadas,
E não lavaram jamais,
Tudo o que a água lavava!
Do meu rio vão agora aquelas águas
Por onde o dia perdeu a claridade
E descem cantando as mágoas...
Nos subterrâneos vasos da cidade.
Céleres, correm p'rá Ria onde o sal
Lhes anula o doce e veste o ser.
Lamentam-se então, como um mortal,
Da dificuldade que tem... sobreviver.
Agora, que os becos estão à venda
E os velhos já se foram dos carris
Restam-me lembranças das contendas.
De um tempo amargo, mas feliz...
E os silêncios não me enganam
Nem nos becos, a tarde calma,
Porque esses silêncios profanam
O alegre chilreio da minha alma...
Tudo parece pacífico… talvez até mesmo doce:
Iluminaram a Praça e floriu o Jardim...
À primeira vista... Pois isso é, como se fosse
Um sobressalto negro dentro de mim.

Maria Dolores – Aqui será a azenha aonde vivia o senhor Alpoim?
Paulo Silva Flautas – O ribeiro é sempre o mesmo! Aqui creio ser onde está agora o Pingo Doce!
João José – Penso bem que era o do Casal que falei e mais ou menos onde hoje está o lago com os patos e onde a criada da minha casa lavava a roupa com a tripeça.
A azenha era na esquina da rua do Casal encostada à casa que mais tarde foi do Cap. José Rocha.
Carlos Maia – Este ribeiro e na Légua em frente ao pinhal seco.
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Há opiniões que divergem, é natural:
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Ana Maria – Cada um fica no que lhe parece. Obrigada pelo esforço, pelas hipóteses, pelas memórias. Essas foram mesmo relatadas de uma forma interessante, bem como as vivências de época, em formato «saudosista» – as lavadeiras, os seus trajares, os riachos, as ribeiras, as bacias, as canastras e as tripeças, essas, peças fundamentais. À custa destas duas longínquas imagens, «navegámos» no tempo, prazerosamente.
Paulo Morgado – Claro que identificar correctamente o local é muito difícil. No entanto será num dos locais existentes ao longo do ribeiro que vinha (vem) da Presa/Légua e que passava pelo Casal a que seguia ao longo do Jardim e ia (vai) desaguar na Malhada (passa pela ponte de grés, dita romana). Conheci locais destes, junto ao Pinhal seco, num sítio que conhecíamos por Brejo, onde hoje está o acesso do Casal para o Continente, outro junto à escola primária de Cimo de Vila, e outro ainda no "Ti Alpoim", onde está a urbanização da Plenicoop. Bem, e mais terão existido anteriormente. Alguns eram mesmo particulares aproveitando a água da levada que alimentava as diversas azenhas que existiam.
Maria Dolores – Também conheci o rio na Avenida aonde havia a lixeira. Ai ainda era pequena. A minha mãe lavava a roupa.
Júlia Sardo – As lavadeiras incansáveis.
Senos Fonseca – Este, creio ser do fio de água que corria abaixo de Alqueidão.
Maria do Rosário Celestino – Como adoro saber tudo isto.
Vieira da Silva – Ainda me lembro de ver uma parte deste riacho de que nos fala o nosso Amigo Ábio De Lápara ao fundo do quintal da casa do meu Tio João Portugal e da minha Tia Júlia Nunes (Pais dos meus Primos António Alcides e José Paulo que foram ainda muito novos para os USA e que o Ábio De Lápara provavelmente conheceu). A casa tinha a frente virada para a Rua José Estêvão, quase em frente da casa do Sr. Madail (que hoje pertence ao Casci) e o quintal terminava num riacho.
Não percebo nada de Arquitectura, mas penso muitas vezes como seria hoje a cidade de Ílhavo se, em vez de "encobrirem" todos os fios de água os tivessem transformado em canais, não necessariamente navegáveis, que (não sei se estou a dizer disparates...) provavelmente ligariam esta zona da actual Avenida 25 de Abril às águas do esteiro da Malhada tornando-se um dos motivos de atracção turística.
Ana Maria – Entrou tarde, mas ainda veio a tempo, para participar. Obrigada, por isso. Mais um testemunho e uma hipótese...
Ábio de Lápara – Conheci muito bem essa casa e era muito amigo deles. As nossas mães eram amigas, e andamos todos na creche da Sra. Henriqueta, que depois foi da Sra. Modesta. A Henriqueta era da família deles e tinha um filho, o António, bem mais velho do que nós, mas que adorávamos pelo que nos apoiava nas brincadeiras. A partida deles para a América causou-me grande dor e nunca a entendi. Não tinham dificuldades económicas, estudavam, e com 15 anos deixaram a mãe e os amigos sem razão aparente, para irem à aventura americana. O António Alcides foi incorporado no exército e veio parar a Berlim da Guerra Fria. Teve sorte. Passado pouco tempo podia ter sido a da Coreia. Correspondemo-nos durante alguns anos, até que a vida nos afastou.
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Mostraram-se retratos, evocaram-se amizades ausentes.
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Ana Maria – Como um simples riacho arrasta tantas recordações, tantas memórias!... «Muita água passou ou passa por baixo das pontes!» - diz-se, não é?
Ábio de Lápara – As palavras e as recordações são como as cerejas...
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Brinquei com palavras? Brinquei. Alinhei frases? Alinhei. Obrigada, Ilhavenses e amigos à conversa, que me forneceram matéria-prima para um texto narrativo, com excertos informativos e poéticos, que compus. I like. Gooooooooooosto muito.
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Imagens – Clichés de João Teles
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Ílhavo, 14 de Dezembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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domingo, 7 de dezembro de 2014

Memórias «líquidas» de Ílhavo - I

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Trazia no baú virtual duas imagens, já há uns anos, conseguidas num arquivo confiável, cá em Ílhavo.
Vi-as, apreciei-as, sorvi-as, mexi-lhes, toquei-as, em papel. Dá-me mesmo mais prazer. O virtual tem os seus encantos, benesses, modernidades, mas o tradicional, neste caso, a imagem em papel tem outra sedução.
Para dissertar sobre elas, no Marintimidades, tinha a consciência de que não sabia o suficiente e que tinha vivido uma infância mais singela, mais caseira. Teria amigos/ que, uns anitos mais velhos/as, passavam e repassavam pelos tais riachos e brincavam frequentemente por esses ribeiros e regueiros, em que a vila de Ílhavo era fértil, todos com a mesma origem.
Lembro-me muito bem de alguns lavadouros, sobretudo do da Fontoura, por onde passava com frequência e há muito menos tempo, de um existente no fim de Alqueidão, para quem levava o destino da Malhada.
Melhor ainda me recordo termos tido, em tempos idos, uma lavadeira, que levava a roupa, semanalmente, que, sem saber ler nem escrever, se entendia com o rol da roupa, com toda aquela sinalética habitual, não trocando sequer uma peça. E não estava marcada… A memória necessita ser exercitada…Grandes mulheres foram as lavadeiras, elas, as verdadeiras artistas destes cenários.
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Lavadouro da Fontoura. 1940

Mas, as ditas imagens forneciam muitas informações e suscitavam muitas memórias.
O seu destino foi, pois, o Facebook, que uns renegam e outros muito apreciam.
Precisavam de ser comentadas por muitas mentes e foi o que conseguimos, através de várias participações, reminiscências e comentários, por vezes de maneira saudosista e enlevada.
Portanto, agradeço sinceramente todos os «likes» e todas as simples manifestações de apreço. Atrevo-me a editar, já que o Facebook é público, as opiniões mais informativas e/ou mais poéticas. Cada um sente como sente e escreve como escreve.
Será uma recolha escrita de «nós», ilhavenses. Vamos a ver se tecnicamente, atino com isto. Foi um desafio posto a mim própria, em dia pardacento, morrinhento e chuvoso, de poucos entreténs e atavios. Tentando encadeá-las o melhor possível! O que nem sempre consegui na íntegra, porque foram partilhadas e suscitaram comentários noutros locais. Seria preciso entrar no âmago facebookiano. Aprende-se sempre…

Vamos a isso.



Optei pela de aspecto menos antigo, para este primeiro exercício de pesquisa e composição.
 
Ana Maria A propósito de um dos antigos Lavadouros de Ílhavo, tenho aqui uma imagem de lavadeiras, no rio, com as suas tripeças, não datada. Alguém me consegue dar umas dicas?
Alguém conseguirá identificar esta imagem? Local e data possíveis?
Maria Dolores – Ui! Isto é muito antigo!
Etelvina Almeida – Belo registo... Deve ser muito antiga.
Ana Maria É e é de cá. Coloquei-a a ver se alguém conseguia identificá-la.
Carlos Oliveira – Já estive a olhar para a excelente fotografia alguns minutos. Não consigo identificar o local. Mas posso especular com base no caudal de água da levada e a geografia do terreno. Ou é na vala Madriz ou vala real junto ao Soalhal ou é junto à Malhada, caso seja do lado de Ílhavo. Se for do lado das Gafanhas não tenho a menor ideia de onde seja. Mas pode muito bem ser do lado das Gafanhas pois consigo identificar as árvores como sendo pinheiros e austrálias, arvores estas que predominam sobretudo nos areais.
Ábio de Lápara Não tenho memória deste trecho. A presença da Ria com aquela dimensão e o rio com aquele caudal, desloca, na minha opinião, a imagem para norte, já fora do nosso concelho. A época em que foi obtida, ronda a viragem do século XIX para o XX. Como o tema é a tripeça, alguém sabe o porquê dos 3 pés?
Paulo Silva Flautas Se não é aqui parece!
Quanto ao caudal, não sabemos o caudal da época nem sequer qual era a época, mas o caudal supostamente era muito maior no passado!

 
Vista aérea – Aponta a via da Malhada
 
Ana Maria Obrigada pelas respostas. Não posso concordar nem discordar, porque não sei. Ábio, explica lá a razão dos 3 pés. Pelo aspecto e vestuário, aposto também na data que propões. Mais início do século XX.
Senos Fonseca – Eu olhei vezes sem conta para esta foto. Estou convencido que foi a que antecedeu o lavadouro ao fundo de Alqueidão, abaixo da Fonte dos Amores. Não vejo que outro local possa ser. Esta fotografia anda por várias mãos, e nunca se adiantou muito.
Ana Maria Somos todos muito novos, pelos vistos, mas «postei» uma outra, em que as lavadeiras têm lenços e chapéus. Procura lá e opina...
João José Lavadouros em Ílhavo só me lembro do da Fontoura e o do Casal.
Ana Maria Lembro-me de um lavadouro, em Ílhavo, no final da rua de Alqueidão, já ali mesmo pertinho da Malhada.
Ábio de Lápara – Percorri a memória dos vales que desaguam na ria ao longo do nosso concelho. A começar pelo que fica a nascente da Coutada. Terminava nas marinhas e o fundo paisagístico poderia ser o da foto. O vale a poente da Coutada não tem bacia para aquele caudal. No verão servia para fazermos "poisos" para armar as "palmas" de caçar os pardais sequiosos do trigo comido nas searas. Os locais mais notáveis eram o poiso do Mastrago e o da Maluca. O vale seguinte é o que atravessa Ílhavo, que desce da Légua, percorrido por vários ribeiros onde, aí sim, se lavava muita roupa ao longo dos seus cursos. Mas duvido que em algum desses pontos o fundo paisagístico da foto pudesse ser aquele. Depois só o vale do Soalhal, que desce de Vale de Ílhavo, poderia corresponder àquela imagem. Fiquemos pois no que nos parece porque a investigação está cara!
Já agora, respondendo à pergunta lá de trás, as tripeças tinham 3 pés, porque 4 eram demais, e dois eram insuficientes! Na verdade, 4 pés no fundo irregular do ribeiro deixariam a tábua sempre instável com um pé mal assente. Três nunca falha!!!
Maria Sílvia Eu «Inda» agora aqui cheguei, e gostei do que vi e li. O tema reportou-me à minha meninice, recordando um ribeiro que deslizava, suavemente, ao longo de toda a Avenida 25 de Abril. Quem se lembra desse tempo sem o Atlântico-Cine-Teatro, sem a Garagem Vizinhos & Vieira, enfim, em toda a extensão da Avenida corria o «rio», onde, desde o Colégio até onde hoje se encontra a Farmácia Moderna, as tripeças abundavam, (sem que suas donas receassem o seu furto) e, até ainda lembro, do sabão nelas deixado. A sua preocupação residia em que, esta presença, lhes garantisse o lugar para a tarefa do dia seguinte. Frequentando a minha 1.ª classe, por aqui passava todos os dias e, embora pequenina, reparava na resistência destas pobres mulheres quando, de Inverno, em águas tão geladas, ali as via metidas! Porém, quando de regresso a casa à hora do almoço, ao atravessar o Jardim Henriqueta Maia, já ouvia o som de suas timbradas vozes cantando, ora, triste, ora alegremente, o Melhor de AMÁLIA!!! Tempos idos em que, de saudade só me trazem a alegria da minha infância! Era triste a vida das lavadeiras, e elas bem a deixavam estampada nos lindos mas tristes fados que, tantas vezes cantavam!......
Ana Maria Observou, realmente. Ficou-lhe gravado todo esse processo. Obrigada, cara Sílvia. Memórias que não esquecem!
Maria do Rosário Celestino – Adorei o seu relato, Maria Sílvia! Desconhecia a existência de tal ribeiro e de todos os outros pormenores que abordou! Muito obrigada, pela informação, que me deu! Fico encantada a ouvir todos estes relatos do passado!
João Simões Xis Maria Sílvia, pois nesse tempo onde fica a garagem dos Vizinhos e, em frente, onde está a Galera e ainda na Travessa da Gruta eram sítios onde lavavam as roupas pois passei parte da minha meninice por esses lados, enquanto a minha mãe lavava a tal dita roupa para ganhar alguns patacos.
Amélia Marabuto – No Rio Pereira também havia um lugar onde se lavava a roupa. E bem me lembro de ver as pessoas com as bacias de zinco à cabeça com a roupa lavada! Também me lembro de ouvir dizer que iam lá lavar as tripas dos porcos, mortos pelo Sr. Ismael! Tempos idos...

Continuarei, relativamente à outra imagem, se tiverem gostado.
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(Cont.)
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Ílhavo, 7 de Dezembro de 2014
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Ana Maria Lopes
 

sábado, 6 de abril de 2013

Travessia na Vista-Alegre nos anos 50

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Uma paisagem que sempre me encantou – a travessia do Canal do Boco, entre as traseiras da quase bicentenária Fábrica da Vista-Alegre e a Gafanha da Boavista – com a sua luminosidade, a água espelhante, a barca de negro embreada, timonada pelo barqueiro (Ó, da barca!...), a simplicidade tosca do trapiche… Hoje, figura humana enriquece a paisagem. Mulher das Gafanhas…
 
Mulher de trabalho, de pés descalços, veste com grande simplicidade: saia lisa, ajustada e avental florido pelo meio da perna anafada. Blusa garrida e estampada, de manga comprida. Carregada, quereria passar para a outra banda.
 
O xaile típico, supostamente amarelado, de lã, com cadilhos torcidos, caindo pelas costas, dobrado em diagonal, sustido no braço esquerdo, envolve a afadigada mulher. Segura à cabeça, em equilíbrio, um cesto de vime, pejado de lenha que acarreta para casa. Para atear a fogueira onde as crianças se aquecerão enquanto cozinha, durante o inverno?


De perfil…
Ó da barca!...
De frente, com rodilha a proteger-lhe a cabeça, de cabelo apanhado, faz prova de esforço, com os braços em asas de ânfora, que sustêm e equilibram o peso da lenha.
 
Poderia ter inspirado algum escultor da VA? Existe uma figura de mulher – tricana –, policromada, de cantarinha à cabeça, que, de algum modo, me lembra esta mulher.


De frente, para a fotografia


 
Ó da barca!...

E a grande e negra barcaça aproxima-se lentamente, para transportar a esforçada passageira. Vidas e destinos!..............
Ó da barca!...
Fotografias - Gentil cedência de familiar de Cândido Ançã
Ílhavo,  6 de Abril de 2013

Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ílhavo na «rota» do Titanic - 2

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Não é que umas casas adiante da minha, na mesma rua, residem mais talheres do Titanic, autênticos, com a mesma origem, há cerca de meio século? Fiquei ansiosa por vê-los, fotografá-los e ouvir a versão do achado, quase há cem anos.




Colheres de chá

Em tudo era concordante com a que toda a vida ouvira e alargou-me mais os horizontes, acicatando-me o espírito de pesquisa e a curiosidade inerente.

Garfos



Lembrei-me, só agora, de ir ao Arquivo do MMI consultar as fichas vindas do GANPB e certificar-me de dados mais concretos do suposto achadorJoão Grilo, de alcunha, Frade.

Se o nome da pessoa não for completo, não se consegue facilmente o objectivo, mas, com paciência e consulta de outros documentos, lá chegámos à ficha do Capitão João Francisco Grilo:


Ficha do GANPB


Fornece-nos muitos dados, entre os quais o local e a data de nascimento, Ílhavo, em 1894, e navios que comandou.

À época, 1912, capitaneava um primeiro lugre Trombetas, da mesma firma (Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca da Figueira da Foz) que o lugre Leopoldina, que João Francisco Grilo também comandou, mas não nesse ano.

À época, também da Figueira, comandava o meu Avô, nascido em 1885, o lugre Golphinho. Sendo aparentado e amigo de João Grilo, recebeu as colheres que este «pescara» e lhe oferecera, como relíquia do inafundável Titanic.


E com estas achegas, se vai cada vez mais o «puzzle» compondo.

Terei ou não razão no título deste arrazoado?


Quem quiser estar por dentro do verdadeiro espólio do Titanic, tem que colocar Ílhavo na «rota» do seu destino.


Ou por que não a RMS Titanic pensar em fazer um exposição, em Ílhavo? Nunca se sabe.


Rotas cruzadas – Viagem inaugural do Titanic e ida para os pesqueiros dos lugres da Pesca do Bacalhau.



Imagens – Arquivo da autora do blog

Ficha  do Grémio– amável cedência do MMI


Ílhavo, 24 de Outubro de 2011

Ana Maria Lopes
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Traje da Camponesa de Ílhavo



Enquanto mexericava em gavetas à procura de umas imagens de grandes veleiros, deparei com este postal – Camponesa de Ílhavo – que me fez recordar conversas passadas, relacionadas com o nosso museu.

Camponesa de Ílhavo – Séc. XIX



Há uns bons 16 anos, tive no museu algumas afáveis conversas com o Arquitecto Quininha, de quem sempre fui amiga, sobre a pintura, trajes e cerâmica expostas. Eram sectores que ele privilegiava, talvez por gostos e saberes, que não eram, nem vieram a ser, sectores fortes, naquela casa: a colecção de pintura é pobre e não criada segundo um estudo prévio, os trajes são praticamente inexistentes e, alguma cerâmica, razoável, recolheu a reservas há já alguns tempos.

Ele gostava especialmente de trajes e sabia muito de ourivesaria. Um dia, quando veio de Lisboa, numa das suas visitas frequentes a Ílhavo, trouxe-me carinhosamente aquele postal da Camponesa de Ílhavo, óleo de F. José Resende, (1825 – 1893), que encontrara à venda no então M.N.A.C. Apreciei-o, guardei-o, mas agora dou-lhe mais valor. O tal quadro vem citado no Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses de F. de Pamplona.

Levou-me a ir confrontá-lo com um outro existente no Museu, algo idêntico. Com a ideia segura que tinha, consultada a colecção on-line de pintura, encontrei-o. – A mulher… também de chapeirão!...

É este:

Camponesa de Ílhavo do Séc. XIX
Francisco Resende – Col. do MMI.


Coincidências: A Camponesa de Ílhavo (o mesmo título), revela-nos o traje da camponesa de Ílhavo, em finais do século XIX. Figura altiva, esta mulher também enverga um chapeirão de aba com lenço, camisa branca, corpete e saia, escuras, e apresenta-se descalça. É um óleo sobre metal de 1875.

O primeiro quadro a que me refiro, que deverá estar nas reservas do actual Museu do Chiado, enriqueceria um pouco mais a nossa colecção, mas as pertenças de cada museu são para se respeitarem, salvo raras excepções de depósitos e cedências.

Segundo descrição de Senos da Fonseca no seu Ensaio Monográfico, a pp. 342 e 343, a lavradeira de Ílhavo (Século XIX) envergava saia de serguilha (fraldilha), colete de fazenda (mesmo de veludo), preso no peito por abotoadura de prata, de par, debruados os botões a cetim amarelo; lenço habitual. Usava uma cinta com que fazia descer ou subir a saia, do meio da perna ao tornozelo. No pescoço, cordão de filigrana.

Algumas semelhanças e alguns pormenores diferentes.

Este primeiro óleo de F. José Resende, talvez, pelas cores empasteladas de uma luminosidade sombria que usa, e pela elegante posição da figura em causa, é de uma nobreza e beleza extraordinárias. Parece demasiado rica e nobre para camponesa. No entanto, está descalça…

Um grande lenço vermelho lavrado, sobre a cabeça, abraça, lateralmente, o chapéu de feltro preto debruado a cetim, de abas bastante largas. Bonita algibeira debruada e brincos compridos de ouro dão um último toque ao vestuário que enobrece a camponesa, segundo a paleta do artista. Não dá para apreciar muito bem se o chapéu, dado o peso da sua aba, tinha fitas ou presilhas que iam da orla à copa exterior, para que as abas não descaíssem.

O grande pintor Francisco José Resende interessava-se mesmo pelo traje da camponesa de Ílhavo – pelo menos, dois quadros conhecidos, parecidos, sobre o mesmo tema…

Mais algumas representações deste género conheço, neste caso, Ílhavas – Vendedoras de sardinha, litografia de Joubert, de meados do século XIX, colecção do MMI., outras de menor qualidade gráfica, o caso do postal do Museu de Ovar, que representa a mulher e o homem de Ovar.

Foi agradável “desenterrar” esta pintura que me levou a relacioná-la e compará-la com outras de que tinha uma memória mais ou menos fresca.

Ílhavas – Vendedoras de sardinha – M.M. de Ílhavo


Mulher e homem de Ovar



Aqui fica o registo das minhas cogitações domingueiras… Há sempre algo que motiva a feitura de um blog.

Fotografias – Arquivo particular da autora e imagens on-line do MMI.

Ílhavo, 9 de Setembro de 2008

Ana Maria Lopes



sábado, 26 de julho de 2008

Representação de Ílhavo no Milenário e Bicentenário de Aveiro



Em Julho de 1959, Aveiro comemorou o Milenário da primeira referência, conhecida, à sua existência, expressa no documento da doação feita em 26 de Janeiro de 959, pela Condessa Mumadona Dias, ao mosteiro de Guimarães, por ela fundado. Aveiro contava-se entre as terras então doadas ao referido Mosteiro.
Em simultâneo, na data referida, Aveiro comemorou o Bicentenário do registo da Carta de Provisão (26.07.1759), em que D. José outorga e faz mercê, que dessa data em diante, Aveiro fique erecta cidade.

A representação de Ílhavo nas festas comemorativas do Milenário e Bicentenário de Aveiro, nomeadamente no Cortejo Folclórico, foi exemplar. Faz hoje, sábado, portanto, dia 26 de Julho, 49 anos…Era domingo, em 1959.

Dia de festa em Aveiro. Ruas e avenidas apinhadas de gente, varandas ornamentadas de colgaduras, a abarrotar… todos quantos acorreram a Aveiro procuraram local de onde pudessem apreciar o espectáculo que se lhes deparava. Corriam de um lado para o outro para bisar os aplausos a todos quantos nos seus bonitos trajes, antigos ou modernos, nas suas danças e canções os encantavam.
Todos os concelhos do nosso distrito cooperaram, participando com os bonitos carros alegóricos representativos das suas actividades comerciais, industriais e agrícolas.

Ílhavo não poderia faltar. Não só porque as histórias das duas povoações tiveram origens e percorreram caminhos comuns até certo período da sua história, confundindo-se durante largo período as suas gentes, já que Sá, sita no termo de Aveiro, pertencia a Ílhavo. Sujeitas aos mesmos momentos de fartura ou de privações, e até catástrofes, conforme o estado da laguna que era a circunstância destas gentes da borda. Mas a ligação entre os dois agregados populacionais ainda se reforçou aquando da grande crise de abastecimento da vila de Aveiro, verificada no séc. XVI. Ílhavo foi, naturalmente, pelas ligações referidas, dos lugares vizinhos que mais comparticipou para suprir as carências sentidas na vila vizinha, fazendo-o dos mais variados modos, com os mais variados produtos em que o termo da vila era rico. Forneceu pão, cereais (milho, trigo, painço), lenha, vinho e ainda carnes e muitos outros produtos, de que Aveiro precisava para sustento da sua população que teria crescido de um modo explosivo a partir do séc. XV, com a presença de muitos mercadores estrangeiros, que ali se vieram fixar.
Por estes motivos, a participação do concelho de Ílhavo, nas festas do Milenário, deveria ter uma dimensão muito vasta e variada, na expressão e motivação.

Embora todo o concelho de Ílhavo tivesse uma representação à altura, é, do nosso grupo, de que eu e muitas das minhas amigas fazíamos parte, que tenho uma memória mais viva.


Abertura da representação de Ílhavo


A abrir, um dístico com a palavra ÍLHAVO, conduzido por dois autênticos pescadores. A seguir, um friso de jovens pescadeiras, seguidas por mais seis padeiras e outras tantas ceifeiras, vestidas a capricho. Um grupo de lindas tricanas antigas e modernas, tendo havido o cuidado de, naquelas como nestas, escolher lindos palminhos de cara, dentre as mais graciosas das nossas gentis meninas. – in “O Ilhavense “ de 1 de Agosto de 1959.

O desfile


Pelo menos, as ceifeiras entoavam alegremente a “Canção das Ceifeiras” que o nosso conterrâneo João Aníbal Ramalheira me ajudou a situar como fazendo parte do repertório da revista infantil “A Nossa Escola”, com letra do Prof. José Pereira Teles e música do vaguense Berardo Pinto Camelo.
Ei-la, completa:



Côro das Ceifeiras

As nossas doces cantigas
São tecidas ao luar
Apanhando as espigas
Em constante labutar.

Côro

Ceifeiras! – lêdas, morênas,
Cachopas da nossa terra
Sois como as lindas falênas
Vôejando pela serra

Estas searas amigas
Dão-nos fartura de pão
Andai, andai, raparigas
Ceifai – as por nossa mão.

Em desafio constante
Andam cigarras no ar,
Não suspendais um instante,
Continuai a ceifar.

Trigo loiro, sazonado,
Vai em seguida p’ra eira
Onde o solsinho doirado
Lhe dá cor mais lisonjeira.

Seguiram-se representações do Illiabum Clube, da Fábrica da Vista-Alegre, da Gafanha da Nazaré, da Indústria de Conservas de Peixe da Barra, o carro da Capelinha da Nossa Senhora da Saúde…

Fechava esta parte do cortejo um carro com uma alegoria de Ílhavo (a vela não podia faltar), estruturada sob um feliz desenho modernista de Emanuel Macedo e ladeada pelos bombeiros Voluntários de Ílhavo.

O carro alegórico

Segundo a fonte jornalística já referida, foi um cortejo que fechou com chave de oiro todas as festas mundanas do Milenário e Bicentenário de Aveiro.

E lembrar a azáfama que antecipou todo este folclore?


O centro do mundo era a casa da Senhora D. Dadinha Lé, pequenina, gordinha e gaiteira, com o bairrismo à flor da pele.
Em cima da mesa da sala de jantar, metros e metros dos mais variados tecidos (cetins, sarjas, veludos, chitas, fazendas, feltros, etc.) e acessórios: chapéus, lenços, cestos, canastras, faixas, xailes, foices e outros.
E as idas ao Porto àqueles grandes armazéns de têxteis, em busca dos tecidos mais apropriados?
E as provas, que farra!

Na nossa juventude, queríamos apresentarmo-nos o melhor possível: o calçar da bota, da meia riscada de vermelho e branco, o arriar do saiote, o içar da saia com a faixa, o trilhar do avental, o ajeitar da blusa ao peito e o dobrar da aba do chapéu da maneira que melhor condissesse com o rosto.

Ceifeiras lêdas, morênas…

Eram estas as gentis ceifeiras, da esquerda para a direita: Célia Ré, Ana Maria Lopes, Maria Manuela Vilão, Rosa Armanda Mano, Idalina Bela e Elisabete Moreira.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

N. B. – No Coro das Ceifeiras, respeita-se a grafia da época, 1933.

Ílhavo, 26 de Julho de 2008

Ana Maria Lopes