Mostrar mensagens com a etiqueta Arrastão Inácio Cunha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arrastão Inácio Cunha. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de abril de 2013

INÁCIO CUNHA - grande dia! - 2

-
(Cont).

 
Cortado o cabo a que fixa o berço onde pousa o navio, pela multidão dos presentes paira um sussurro de expectativa: o saber se o berço desliza pela carreira. Há momentos, breves segundos, em que o navio parece soluçar e ganhar forças para se atrever a deslizar no plano inclinado.
 
Ganha a impulsão suficiente, capaz de ultrapassar o atrito das forças em questão; o navio arranca, primeiro hesitante, logo depois num movimento redobrado. E lá vai…
Todo o mundo fica suspenso: – a sua entrada na água.
 

Entrada na água

 
A popa mergulha na ria, momento crucial que testa a sua estabilidade.
Tomba? Não tomba? E eis que com uma ou outra ligeira inclinação, o navio desliza soberbo, leve, parecendo apressado, afastando-se da carreira.
 

Começa a flutuar… 

Momento de azáfama em que os rebocadores FOZ DO VOUGA proa) e CORONEL GASPAR FERREIRA popa),  se apressam a lançar cabos para o agarrar e trazer de volta. 
 

Rebocadores, ao serviço…

 
O navio suspende, «ferro a pique», não vá o diabo tecê-las e ser necessário uma manobra de emergência para o fundear de imediato. Agarrado de proa e de popa em manobra conjunta, o INÁCIO CUNHA aproxima-se do cais que lhe está destinado para os trabalhos de acabamento.

 
Majestoso e flutuante

Satisfiz, suponho, a curiosidade da amiga Etelvina. E de tantos outros, que, até pela mais tenra idade, não tiveram oportunidade de assistir a estes acontecimentos.
 
Quando hoje abordamos, em passeios lagunares, os Estaleiros de S. Jacinto, quem ousará dizer que naquelas carreiras deslizaram centenas de navios saídos das mãos daqueles que tão sabiamente lhe sabiam dar forma e vida.
 
Quando, em 1997, já quase com trinta anos, foi vendido ao Grupo Silva Vieira, tendo sido registado com o nome de JOANA PRINCESA, lá se foi, com mágoa, «um pedacinho» de mim.
-
Fotografias – Arquivo pessoal da autora
-
Ílhavo, 1 de Abril de 2013
-
Ana Maria Lopes
-

quarta-feira, 27 de março de 2013

INÁCIO CUNHA - grande dia! - 1

-
Começar é fácil…e depois? Como transmitir tanta emoção?
Em conversa com a amiga Etelvina, no facebook, a propósito do bota-abaixo da antiga, mas reconstruída lancha da carreira (Forte/S. Jacinto), PRAIA DA COSTA NOVA, palavra puxa palavra, e a Etelvina puxou pelas oportunidades, que, certamente, terei tido na vida de assistir ao bota-abaixo de «grandes» navios. E acertou! Não teria sido de nenhum Titanic, mas de vários navios-motor, sobretudo nos Estaleiros Mónica e, de outros, mais tarde, nos Estaleiros de São Jacinto. Hoje desactivados, estropiados e abandonados.
 
O facto de estarmos em conversa perante o feliz acontecimento da tentativa de dar nova vida à lancha histórica, fez-me ocorrer à memória, precisamente, uma travessia efectuada numa outra lancha, algo idêntica à PRAIA DA COSTA NOVA com a intenção de irmos, eu e Família, a S. Jacinto, assistir ao bota-abaixo do Inácio Cunha. Dia zarro, em que a ria estava encabritada, toldada pela mareta, que batida pela surriada vinha respingar nas vidraças das janelas da lancha. Nas caras de alguns convidados o balanço da embarcação quando entrou no canal, com a maré a bater-lhe pela amura e a sulada a bater-lhe pela amura de popa, registei algum empalidecer e até alguns gritinhos logo abafados, por vergonha dos restantes. Desembarcados no cais do Labareda, lá foram os convivas, de procissão até à carreira, onde majestoso, pousado no seu berço de construção, o Inácio Cunha esperava a benzedura, o partir da garrafa na roda de proa para então deslizar, majestoso e apressado ao encontro da água por que há muito ansiava. Na sua construção gastaram-se mais de 365 dias (a quilha tinha sido assente em 6 de Novembro de 1968), até que as suas formas elegantes, lançadas, esguias e harmoniosas, ficassem, por fim, acabadas.
 
Bota-abaixo é sempre sinónimo de nascença, dia festivo a recordar na vida da embarcação, data que ficará para sempre gravada na sua ponte de comando. Essa satisfação ajudava os presentes, a suportar o dia invernoso de fins de outono, de fortes bátegas tocadas pelo vento.
 
O meu pequenote, o Pedro, com 3 aninhos, ficou em casa, dado o temporal. Prontos para o evento, seguiam na lancha eu e o Jorge, meus Pais e a minha Avó, que, embora sendo a menos jovem, estava sempre pronta para participar em festejos do género.

Na carreira…


Dia 22 de Novembro de 1969. Pelas 15 horas, a maré não esperava. O navio, cuja mostra das obras vivas tornava ainda mais imponente mostrando o arcaboiço apropriado para o desempenho da exigente tarefa que lhe estava destinada – o arrostar com as tempestades nos mares do Norte, quando não o abrir gelo num campo branco que teria de ser quebrado para sua passagem e libertação – não deixava de impressionar.
 
Em dia festivo não faltava o mariato, código sinalético expressamente colorido, vistoso, próprio para chamar a atenção ao receptor da mensagem, esvoaçando ao vento, que conferia um colorido proa à popa.
 
O INÁCIO CUNHA, de seu nome, era uma moderna unidade, arrastão de arrasto pela popa, construído em aço, destinado à pesca longínqua.
Foi a construção nº 83 do Estaleiro, tendo uma arqueação bruta de 1547 toneladas, comprimento FF de 80,32 metros, boca de 12,50 e pontal de 8, 09 metros. Dois motores Diesel concediam-lhe a apreciável velocidade de 15 nós. O custo foi de cerca de 50 000 000$00.
Recordo-me de três dos seus comandantes – José Ângelo Ramalheira, António Manuel São Marcos e José Alberto Senos Ramalheira. Muitos outros ilhavenses e, não só, aí desempenharam variadas tarefas, com proveito assinalável, já que o Inácio Cunha iria ser um campeão da pesca ao longo da sua vida. 
Fornecidas as principais características técnicas, retomemos a que pretende ser uma emocionante narrativa.
 

  Convidados na tribuna

 
Junto à popa, montava o estaleiro uma espécie de tribuna ornamentada, onde recebia os convidados. No caso presente não eram muitos, dado o recente falecimento do Sr. Silvério Amador, sócio da Empresa proprietária, Testa & Cunhas, Lda.
 
Como era hábito, a bênção foi dada pelo Pároco da Gafanha da Nazaré, Sr. Padre Domingos Rebelo dos Santos, aspergindo-o e pedindo, para o navio e tripulação, os bons ofícios do divino.
 
– Que Deus o acompanhe!!! e o traga de volta com todos os seus tripulantes. De boa saúde e fartas pescas, terminaria o Padre Domingues a sua prédica.

 
Bênção…

 
A D. Adília Marques da Cunha Miranda, que já amadrinhara, em 1945, o navio-motor do mesmo nome, cortou então a fita que arremessava a tradicional garrafa de espumante contra a imponente roda da proa da nova unidade, fazendo-a em bocados, esguichando champanhe por todos os lados. Era o sinal para deixar correr o navio para a água.

Momento alto!...

(Cont).
-
Ílhavo, 27 de Março de 2013

Ana Maria Lopes