Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Ruivo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Ruivo. Mostrar todas as mensagens

domingo, 15 de novembro de 2009

Execução da canga vareira ( Parte IV )


Joaquim Ruivo (tive, agradavelmente, notícias dele, noutro dia), e ainda mantém esta ocupação.

Em primeiro lugar, a canga é cortada – explicou-me –, sendo constituída pela parte inferior, direita, o braço, que termina lateralmente em dois círculos, as maçãs ou romãs e pela parte superior, recortada em forma de castelo – o pente.
Para aperfeiçoamento de todas as partes direitas, é metida a garlopa (plaina grande), para desempenar, aplainar e desengrossar, pois a canga é mais grossa no braço que no pente.
Rectificadas todas as medidas, feitas as quininhas em volta do pente e das maçãs, entra em desenho. Após uma marcação central e longitudinal com régua, o artista grava a compasso o que pode, para então riscar a lápis os desenhos.

Estes – refere – vai-os armazenando na cabeça, para serem usados, consoante a inspiração do momento. Dentre os motivos centrais mais frequentes, sobressaem a sagrada custódia, o vaso de flores, a cruz de Cristo, a flor-de-lis, o escudo português e o signo-saimão.
Os elementos decorativos menores são linhas e flores picadas, ramagens dispostas ou não em friso.
Marcadas as furações (furos necessário às piaças, tamoeiro e coleiras), toda a superfície da face frontal da canga é recoberta de motivos entalhados e pouco vazados.
A face posterior também é gravada e pintada, embora menos ricamente; é no verso que surgem normalmente as iniciais do jugueiro e a data da conclusão da obra.

Face posterior da canga


Após o risco, segue-se a talha, que o artista designa pelo nome de moldura. Utiliza formões, goivas de vários tamanhos e ferrinhos de fundo, também de diversas dimensões, para os diferentes gravados. Em movimentos rítmicos de martelo, o desenho ganha relevo, a cada batedela.

A cada batedela…


Chegou o momento da aplicação das tintas. Depois de um aparelho ou subcapa, à semelhança dos painéis dos barcos, seguem-se as outras tintas bem garridas, vivas, pitorescas nos fundos e meios fundos, terminando na pintura mais superficial.

São cores alegres, porque a vida do campo também o era. Esta ligação entre as cores e a labuta na terra imprime a este tipo de trabalho artesanal uma carga antropológica muito forte, bem como sentimentos religiosos muito enraizados nas vivências de um povo.
As cores mais usadas são o amarelo (para fundo) o rosa vivo, o encarnado, o azul, o laranja e o verde. As tintas, hoje industriais, eram, primitivamente, preparadas com anilinas em pó a que se juntava óleo de linhaça e secante líquido.

Chegou o momento final do encabelamento, que se traduz na aplicação de maçanetas ou touças de pelo de cauda de cavalo, no rebordo superior do pente (cinco a sete tufos), e no das maçãs (cinco tufos), pretas e brancas, alternadamente.

Quanto à antiguidade deste tipo de peça, referem Ernesto Veiga de Oliveira e os seus colaboradores, in Sistemas de atrelagem dos bois em Portugal, Lisboa, 1973, que todos os exemplares de jugos que conhecem, quando datados, são-no sempre e unicamente a partir da segunda metade do século XIX, sendo o exemplar datado mais antigo, de 1868. Este período corresponde a uma melhoria de vida campesina, reflectida nomeadamente na decoração de outras alfaias agrícolas e no engrandecimento da vida e casa rurais.
Na sua opinião, os grandes jugos lavrados representarão, provavelmente, o desenvolvimento de uma dessas anteriores cangas de tábuas, modestas e sem grande valor.

Será que a decoração do barco moliceiro também testemunha um processo idêntico? Terá ele enriquecido as suas roupagens, pela mesma época, para denotar, como alfaia agrícola que era, a pujança do seu dono? De barco indiferenciado, ter-se-á transformado num exemplar exuberantemente decorado, até por influência, também, da vinda de algumas gentes nortenhas para a região?

É uma hipótese perfeitamente aceitável, até porque os primeiros barcos eram quase despojados de decoração e a própria decoração, de que há documentos fotográficos (princípios do século XX), era extremamente modesta, moderada e simplista.

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 15 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Joaquim Ruivo, um homem da ria... ( Parte III )



Joaquim Ruivo, homem da borda de água, com uma casa modesta de lavoura, com farta horta, saudáveis produtos, trata do gado e apanha junco para lhe renovar a cama. Num esteiro próximo de casa, abrigava o seu barco, que reconstruía, quando necessitava, participando também em amanhações de barcos de amigos. Ia ao moliço para uso próprio, quando o havia e decorava barcos, estando o dele sempre muito aprimorado. Além do mais, constrói cangas vareiras nas horas vagas…Um modus vivendi…

ESTÁ AQUI, MAS NAO É P' RA TI…

Daria um belíssimo pintor de moliceiros, se a luta pela vida lhe permitisse e houvesse número de embarcações que justificasse. Os motivos florais e as ramagens são em tudo idênticas às gravadas nas cangas.

Começou o ofício aos catorze anos, tendo feito já cangas para Cortegaça, Furadouro, Ovar, Murtosa, Torreira, Avança, Válega, Estarreja, Salreu, Canelas, Angeja, Vilarinho, Póvoa do Paço, Sarrazola, Oliveirinha, Frossos e S. João de Loure.
Genericamente, executa sempre o mesmo tipo de canga, gravada, esculpida, alta no centro, abatendo-se abruptamente, dos lados, para aí terminar em forma de disco. No entanto, tem algumas diferenças conforme as localidades e as funções a que se destina: mais ou menos baixa, mais ou menos larga, mais ou menos esculpida, mais ou menos forte, pintada ou envernizada.
Para a alagem das redes no mar, aí todos a queriam pintada, bem esculpida, a mais bonita de todas, se possível.

Alagem das redes na Torreira – Anos 80

Utiliza normalmente o eucalipto, embora já tenha usado o carvalho, amoreira e “langomeiro” (lamegueiro). Vai directamente aos pinhais, escolhe as árvores adequadas, trata com os donos, negoceia, põe abaixo, leva a madeira à serração e armazena a necessária, em casa.
Do mesmo “pranchão” (tábua em bruto) pode tirar duas ou três cangas, desde que pratique um bom aproveitamento da madeira, aproveitando as reentrâncias e convexidades de ambas.

J. Ruivo na sua oficina – Anos 80

(Cont.)

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 11 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Alguns jugueiros da região lagunar (Parte II)


O primeiro de que tive notícia foi António Tavares de Almeida (o Soeco Velho), de Avanca, cuja obra foi continuada pelo filho, José Soeco (1897-1988), também já falecido, mas com quem ainda contactei nos anos 80, com cerca de noventa anos.
Ambos artistas famosos, decoraram muitos barcos na zona de Pardilhó, Bunheiro e Murtosa, deixando António Almeida (o Soeco) alguns vestígios no Museu da nossa terra:
- decoração de uma proa de barco moliceiro (actualmente, em reservas), 1935;
- nove painéis, em formato de quadro (59x 82cm), 1935, de uma grande beleza, simplicidade e ingenuidade, do espólio inicial do Museu – 1935, expostos na Sala da Ria.

Painel de bombordo – P. Soéco1935

BAMOS LA COM DEUS


A FAMA O LONGE TOA

Dois dos nove painéis do Soeco Velho – 1935


Pelos anos 80, tive oportunidade de visitar na sua rudimentar oficina, no Bunheiro, o Joaquim Tavares dos Santos, Ruivo de alcunha, nascido em 1944.
Constitui um exemplo flagrante da inter-penetração moliceiro/canga vareira, pois, para além da sua vida de lavoura, apanhava junco e moliço para uso pessoal. Também ia trabalhando nas reconstruções e “restaurações” dos moliceiros, como ele lhes chamava e…fazia cangas.

Apenas se dedica a esta actividade, nos tempos livres e de Inverno, quando o tempo não lhe permite outras ocupações. Aprendeu o ofício com o pai.

(Cont.)

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 6 de Novembro de 2009

Ana Maria Lopes
-