quarta-feira, 23 de abril de 2008

Bota-abaixo do São Jorge (Parte I)

Escolhi este assunto para iniciar o blog, porque o recordo com enorme nostalgia e saudade.
Num sábado, 10 de Março de 1956, com 12 anos, fui madrinha do São Jorge.
Há em mim qualquer gene que me faz amar tudo que saiba a maresia, tudo o que é mar e ria.
Havia, então, assistido, só entre o público, a um bota-baixo e a cerimónia fascinara-me. Não me imaginava personagem principal do que para mim, com aquela idade, era um conto de fadas.
Um belo dia, aparece-me em casa, ali no Curtido de Baixo, o Sr. António Cunha, então gerente da Empresa Testa & Cunhas, a convidar-me para madrinha do São Jorge, que estava em construção.

No estaleiro – 20-1-1956


Porquê eu? Que sensação! Parecia-me convite só para gente importante e crescida!
O nervosismo e a ansiedade intensificavam-se à medida que a data se ia aproximando… a “toilette” (vinha a fina flor da sociedade lisboeta ligada às pescas), o quebrar da garrafa…
Passei a treinar insistentemente nos troncos de laranjeiras do quintal, mas em vão! O tronco ficava esfolado, mas o resistente vidro da garrafa de “champagne” cheia de água, intacto… Havia de ser o que Deus quisesse. Tinha que partir a garrafa.
No sábado escolhido, o dia estava bonito, mas com um ventinho norte a soprar com alguma intensidade.
Pelas 13 horas da tarde, na estação de Aveiro, o Sr. Governador Civil de Aveiro, proprietários do novo navio, autoridades locais, militares e civis e muita gente aguardavam o Sr. Ministro da Marinha, Almirante Américo Tomás e sua comitiva que se deslocara propositadamente a Aveiro em comboio foguete especial.


Chegada à Estação de Aveiro


Teve lugar no salão de festas do então famoso edifício do Teatro Avenida um lauto almoço que a empresa proprietária ofereceu a cerca de trezentos convidados.


Pormenor dos convidados

O convite era embelezado por um curto texto de D. João Evangelista de Lima Vidal:
(…) Nós, os de Aveiro, somos feitos, dos pés à cabeça, de ria, de barcos, de remos, de redes, de velas, de montinhos de sal e areia, até de naufrágios. Se nos abrissem o peito, encontrariam lá dentro um barquinho à vela ou então uma bóia ou uma fateixa – quem sabe?! – talvez a Senhora dos Navegantes(…)
A ementa constava de linguado à Colbert, arroz de pato à Beira Mar, leitão assado; ovos moles regionais, fios de ovos, pudim de laranja, ananás ao Madeira e café (sobremesa); vinhos tinto e branco das caves do Galo d’Ouro, espumante Raposeira, aguardente de 1920 e licores (vinhos).
Usaram da palavra algumas individualidades a desejarem as maiores felicidades à firma armadora, à nova unidade e ao construtor. Pormenor curioso os leitões antes de trinchados e servidos, desfilaram elegantemente em braço de criados, tal passagem de modelos, dentro de pequenos dóris embandeirados em arco, construídos para o efeito.


Pequenos dóris com os leitões

(Cont.)






Ílhavo, 23 de Abril de 2008

Ana Maria Lopes

1 comentário:

Paulo Marques disse...

Para começar, acho que está muito bem. Parabéns.
Talvez possas ir melhorando o aspecto (mais azuis, por exemplo, dado que o blog tratará de assuntos marítimos).