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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O Primeiro Navegante

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Faz, amanhã, 74 anos que o “Primeiro Navegante” encalhou, à boca da Barra. Era tão novinha, que ninguém me levou lá para ver, mas esse naufrágio foi tão fotografado, foi-me tão relatado, mais tarde, de uma forma tão empolgante, que parece que a ele assisti.

O lugre, de madeira e quatro mastros, com potente motor Diesel de 425 HP, foi construído na Gafanha da Nazaré por Manuel Maria Bolais Mónica para a Empresa Ribaus & Vilarinhos, Lda.

Lugre sólido e elegante, media 44,17 metros de comprimento, entre perpendiculares, 10,13 m. de boca e 5,13 de pontal; tinha uma tonelagem bruta de 482,77 toneladas e líquida, de 329,23, capacidade para 12 000 quintais de bacalhau e albergava uma tripulação de 56 homens e 53 dóris.

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O “Primeiro Navegante”
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Curiosamente, o seu bota-abaixo aconteceu pelos fins de Abril de 1940, num domingo, coincidindo exactamente com o seu congénere, de três mastros, “Dom Deniz”.

Imediatamente após o corte da bimbarra e o tradicional baptismo, pela menina Eneida Souto, filha de Alberto Souto, o “Primeiro Navegante” começou logo a deslizar, rasgando as águas da ria, triunfal e airoso.

Se a Gafanha da Nazaré, em dia de bota-abaixo, era sempre aquele dia festivo que já descrevi noutros registos, imaginemos o que não teria sido com um duplo lançamento de unidades bacalhoeiras. Certamente, com toda a frota embandeirada em arco, alegria redobrada, muita ansiedade, muita emoção, muita gente, muito discurso, muita aclamação, muito ressoar de foguetes e de silvos de embarcações.

Depois de seis “normais” viagens, debaixo dos costumados perigos, sob o comando de João Maria Vilarinho (1940 a 1942 e 1945), José Simões Ré (1943), José Maria Vilarinho (1944), chegou o regresso fatídico de 1946, de novo com José Maria Vilarinho, segundo informação das fichas do GANPB. Também zoou, na altura, que o irmão João poderá ter feito apenas a viagem de Leixões para cá.

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Prestes a encalhar…
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A 14 de Outubro de 1946, o “Primeiro Navegante” entrara em Leixões, para aliviar 3000 quintais de peixe, tendo voltado a sair, para se fazer à nossa barra. Tinha o destino marcado. Não há que fugir.

No dia 24 de Outubro, perante um cais apinhado de gente para assistir ao sempre emocionante espectáculo da entrada, pairavam também, lá fora, o “Lousado”, o “Navegante II”, o “Ilhavense II”, o “Santa Mafalda”, o “Maria das Flores”, o “António Ribau” e o “Viriato”. Vinha o “Maria das Flores”, a entrar, rebocado pelo “Marialva”, quando o “Vouga” lançou o cabo ao “Primeiro Navegante”, iniciando o caminho já percorrido com os outros navios. Em frente à Meia Laranja, alterosas e repetidas vagas conjugadas com violentas rajadas de vento, encheram todo o poço do navio, que desgovernou e tomou proa ao sul, sendo impelido para cima da coroa ali existente, apesar de todos os esforços do rebocador “Vouga”. Também o “Marialva” veio em auxílio do lugre, perante o perigo iminente que ele corria, mas os seus esforços também foram em vão. Embora com dois ferros no fundo e o motor a trabalhar com toda a força, segundos depois, o “Primeiro Navegante”, batido pelo mar e pelo vento, varava na praia em frente ao “nosso” Farol.

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Irremediável naufrágio
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Terá sido indescritível o momento de aflição e angústia, acorrendo ao local toda a gente, em altos gritos. Só quando houve a certeza de que a tripulação estaria salva, é que o ambiente serenou um pouco.

Durante as marés baixas, foram-se salvando os haveres, apetrechos e a carga possível.

Durante uns tempos, como hoje, sempre que soa a tragédia, a gente das redondezas acorreu, em romaria, para ver, “claramente visto”, o que o mar consegue fazer.

Desta vez, vão aparecendo alguns testemunhos fotográficos reveladores e aquele donairoso lugre de quatro mastros foi servindo de repasto ao mar, que o desmantelou, destruiu e destroçou, acabando por o devorar na totalidade…

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Vai-se destroçando… 1947
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Foram já alguns, os navios que se perderam naquele fatídico local, de que vou dando conta, sempre que encontro dados suficientes e rigorosos.

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Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 23 de Outubro de 2020

Ana Maria Lopes

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domingo, 23 de março de 2014

Memórias - homens e navios...ilhavenses

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Juntar, numa só recolha, alguns dados de homens ilhavenses e dos navios que comandaram – é a intenção. Não posso ser exaustiva, mas tento relacionar factos.
Dois dos nossos já partiram, de vez, para mares ignotos e bastante mais distantes. Um, com quem convivi de perto, deixou-nos há pouco, neste mês de Março. Aquele a quem eu chamava de primo Salta, porque o era, de facto, partiu já em 1978. O Capitão Vitorino Ramalheira tirou-me, ontem, algumas dúvidas e identificou-me imagens, conseguidas há pouco.
Haverá sempre mais uma pecinha a juntar ao «puzzle» da Faina Maior.
Comecemos…pois, a entrelaçar a vida de homens e navios.

O Capitão Salta (ao centro), a bordo do Argus; à esquerda, César Maurício (chefe de máquinas do navio) e Manuel da Maia Rocha (Laracha); à direita, o Capitão Adolfo Paião e Capitão João Matias. 
1950


Por ordem cronológica, Manuel dos Santos Labrincha, de alcunha Salta, nasceu em Ílhavo, a 5 de Dezembro de 1901, tendo-nos deixado com 76 anos. Iniciou vida no mar, como muitos do seu tempo, com 15 anos, tendo feito viagens de comércio para Cabo Verde, em navios que levavam sal e traziam gado. Propriamente no bacalhau, começou em 1925, tendo sido piloto, no Esperança 2º, e noutros, da praça do Porto. Em 1936 e 37, foi Capitão do Senhora da Saúde, navio adquirido em 1935 pela Empresa Tavares, Mascarenhas, Neves & Vaz, com sede em Aveiro e Porto, que terá naufragado em 1952, na Groenlândia.
 

 Senhora da Saúde, à entrada no Douro. S. data.
Ansiado regresso


De 1938 até 1947, foi capitão do Brites (1936-1966), da Empresa Brites e Vaz & Irmãos, da Gafanha da Nazaré.
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Entre 1948 e 52, comandou o Aviz, navio de 4 mastros, construído por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1939, para a Companhia de Pesca Transatlântica de Pesca, com sede no Porto.
 

O Aviz, em construção. Gafanha, 1939.
 

Aviz. Porto, cheias no Douro de 1962
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Foi entre 1948 e 52 que se cruzou no Aviz com António Morais Pascoal (1923-2014), como seu imediato.

 

Em North Sydney, a bordo. Capitão Pascoal, ao centro; à direita, Capitão Salta e, à esquerda, Capitão Júlio Machado Redondo.S data.
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O Salta a partir de 1953 até ao final de sua vida activa (1959), exerceu o cargo de capitão no Condestável, lugre de 4 mastros construído por Arménio Bolais Mónica, em 1948, na Gafanha da Nazaré, igualmente para a Companhia de Pesca Transatlântica, do Porto.

 
Condestável, em dia de bota-abaixo. 1948

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Eram habituais estas mudanças com a construção de navios novos e, em 1953, assim como o Capitão Salta passa para o Condestável, o Capitão Pascoal assume o lugar de capitão no Aviz, até 1959. Dança de cadeiras, a bordo… Em 1960, enquanto o primo Salta abandona o mar, com uma vida de ausências, o amigo Pascoal passa a comandar o Condestável, que perde, por incêndio a bordo, sem quaisquer perdas de vidas.


Condestável, em ano de transformação, 1957
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O Condestável, de imponente lugre-motor que era, foi transformado, em 1957, em navio-motor com dois mastros.
Na inauguração da transformação, os presentes – o 1º motorista do navio, o Capitão Salta, o gerente da Companhia de Pesca e o Capitão Vitorino Ramalheira – testemunham o acto.


No tombadilho dos botes, em Massarelos. Porto, 1957
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O nosso bom amigo Vitorino Ramalheira, de 1954 a 1959, como imediato do Condestável teve a oportunidade de se cruzar com o capitão Salta.
De 1960 a 1965, passou, então a comandar o lugre Aviz, em que teve a dita de fazer a primeira campanha de capitão e a desdita de naufragar, por incêndio, tendo considerado esse episódio como o caso mais triste da sua longa vida no mar.
Imortalizou-o nas suas lides da pesca à linha do bacalhau, a sua permanência, durante 3 anos, no Santa Maria Manuela, tendo sido o actor/galã do documentário The White Ship, realizado, em 1966, por Hector Lemieux, uma das «jóias da coroa» dos documentários sobre a pesca à linha do bacalhau.
Também passou, no ano de 1951 pelo navio-hospital Gil Eannes, de assistência à frota bacalhoeira, de que seu Pai, João Pereira Ramalheira, era o comandante.
E assim se iam cruzando as vidas dos nossos homens do mar, entre terra e mar, lugres e navios-motores, entre benquerenças e inimizades, entre segredos e concorrências, saudades e sacrifícios.
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Imagens – Arquivo da autora do blogue
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Ílhavo, 23.3. 2014
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Ana Maria Lopes
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