quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Santos em porcelana da Vista Alegre

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Fruto da paixão e labor de toda uma vida, a colecção de imagens religiosas de Carlos Manuel Teles Paião, doada ao Município de Ílhavo, num gesto afectuoso, em Julho de 2021, revela-se como uma das mais importantes colecções conhecidas desta temática, em porcelana da Fábrica da Vista Alegre, fundada em 1 de Julho de 1824. Encontra-se patente ao público de 8 de Agosto a 30 de Novembro de 2021, no r/ch do “Centro de Religiosidade Marítima de Ílhavo”.

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Folha de sala
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O território de Ílhavo foi profundamente marcado pelos objectos aí produzidos, existindo nas casas e oratórios particulares imagens de santos de porcelana, habilmente modelados e pintados pelos artistas locais, onde as preces das mulheres se dirigiam quando as notícias dos homens a bordo dos bacalhoeiros tardavam em chegar. Sempre conheci na minha casa um Menino Jesus “mariola” e um S.  João Baptista. Mais tarde adquiri uma Virgem do Rosário de Fátima, em biscuit, branca, de pormenores estonteantes. Com pena minha, nunca cheguei a possuir, uma Virgem da Conceição, vidrada e policromada, existente com pequenas diferenças, fruto do artesão que a rematada, minha protectora, porque nascida em 8 de Dezembro.

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Entrada
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Carlos Manuel Teles Paião nasceu em Ílhavo a 10 de Novembro de 1932, filho de Francisco da Silva Paião (Almeida), capitão da antiga frota bacalhoeira portuguesa e pai do cantor Carlos Paião. Reunida ao longo de 55 anos, altura em que deixou a pesca do bacalhau, nos lugres “Creoula” e “Argus” e entrou para a os pilotos da Barra de Lisboa.

A primeira peça que adquiriu foi um Santo António de Lisboa, memória do tempo de menino, em que acompanhava a sua mãe a enfeitar e zelar pelo altar de Santo António da igreja de Ílhavo.

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Santo António
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Depois seguiram-se os Meninos Jesus “mariolas”, como lhes chama “por estarem abusacados numa almofada, sem nada fazer, as Virgens da Conceição e restantes santos, comprados em leiloeiras, antiquários e colecionadores, correndo Portugal de lés a lés, à procura das imagens mais raras.

Entre estas, exibe-se logo à entrada um magnífico e raro Cristo crucificado.

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Cristo de cómoda
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Mais adiante, um não menos raro, Senhor dos Passos.

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Senhor dos Passos
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Parabéns ao doador, bem com a sua esposa, pela rara e valiosa dádiva ao MMI, ao Hugo Calão, cuidador da exposição, pelo seu saber e bom gosto e à Fábrica da Vista Alegre, que colaborou na montagem da mesma, no cuidado expositivo e na cedência de algumas fichas que detém e que, normalmente, identificam a peça, com todas as suas características, medidas e, nome original.

Na minha opinião, merece uma visita longa e cuidada.

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Fonte – Folha de sala da exposição

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Ílhavo, 14 de Outubro de 2021

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Ana Maria Lopes

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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Entrevistando o capitão do "IlhavenseI"

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As causas do sinistro – Uma tripulação inteira em riscos de perder a vida – O cemitério dos navios – Horas de tortura e de fome – Uma saudade e um sonho – Coragem, marinheiros!

 

Ao respigar Ilhavenses antigos, por outro assunto, passou-me pelas mãos no de 25/8/1929, esta entrevista que me interessou, ao Capitão do «Ilhavense I».

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Lugre «Ilhavense I»
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Catando-a, (…) Homem experimentado nas lides do mar, o nosso amigo Sr. João André Alão era o capitão, há já alguns anos, do lugre «Ilhavense I», naufragado no dia 15 de Julho passado nos Bancos da Terra Nova.

Chegado a Ílhavo na terça-feira pretérita, era nosso dever ouvi-lo sobre o sinistro que causou a perda do barco do seu comando que em 11 de maio havia deixado o porto de Lisboa, impelido pela leve brisa que no tope dos seus mastros cantava a canção dolente que aprendera ao roçar no dorso das vagas – brisa cantante e benéfica a cujo sopro adormecem os nautas portugueses, os nautas da nossa terra, cheiinhos de sonhos e de saudades, sonhos que são uma vida, saudades que são consolo para as suas almas de lutadores nevróticos.

À sua casinha da rua Direita nos dirigimos, pois, na manhã escaldante de 5ª feira.

E, em frente do arrojado marinheiro, de rosto tisnado e magrizela, ali nos dispusemos à entrevista, rápida, instantânea:

– Em que dia haviam chegado ao Banco?

– No dia 12 de Junho.

– Tinham, portanto…

– Já tínhamos perto de 500 quintais a bordo.

– E porque levantaram ferro?

– Porque o peixe falhou.

– A que atribui o sinistro?

– A névoa cerrada que apareceu cerca das dezanove horas e a um desvio de agulha, duas coisas frequentíssimas naquelas paragens.

– Houve falta de precauções?

– Não senhor; flutuávamos de acordo com as exigências de flutuação em tais casos.

– Queira contar-nos o que foi esse momento tremendo?

– Devia ser uma hora da madrugada quando fomos surpreendidos pelos gritos das vigias, anunciando terra na proa. Sentindo o perigo iminente, imediatamente mandei arribar. O barco rodou, mas a popa bateu no rochedo. Mandei largar ferro. O navio estava encalhado de popa à proa, rebentando grandes mares no convés.

– Havia possibilidades de salvar o navio?

– Não. Só havia a possibilidade de salvar a tripulação, que ali estava toda em riscos de perder a vida. Por isso, mandei proceder ao imediato desembarque.

– Que se fez…?

– Com grandes sacrifícios e enormes dificuldades. Foram arriados doze dóris, em que se recolheram todos os tripulantes, tendo eu deixado o navio somente depois de verificar que mais ninguém estava a bordo.

– Houve salvados?

– Quando saltei para o meu dóri, levava comigo todos os livros e documentos de bordo, incluindo dois diários do piloto, mas o meu dóri foi ao fundo, sendo eu salvo nessa ocasião, por outro dóri que veio em meu auxílio, perdendo-se os livros e os documentos.

– Depois…

– Às três horas da manhã, como visse que já nada se podia fazer, para salvamento do navio, mandei remar para terra, em busca de local para desembarque

– Que foi…?

– Perto de uma povoação chamada Saint Shotts.

– Não voltaram ao navio?

– Voltámos por um cabo de vaivém que se estabeleceu de terra para o barco.

– E fizeram, então, alguns salvados?

– Apenas alguma roupa dos tripulantes e alguns objectos de insignificante valor, pois o navio já estava raso de água e impossibilitava, em absoluto, os trabalhos de salvação. Vendo que nada mais se podia ali fazer, voltámos a terra e fomos, então, em busca das autoridades. De Saint Shotts, comuniquei para Trepassey, povoação distante daquela, cerca de vinte milhas. Telegrafou-se para o cônsul de Portugal em Saint John’s, Sr. João José Denis.

– O local onde encalharam é de boa navegação?

– Não. Até lhe chamam o cemitério dos navios. Dias antes de nós, naufragou um vapor inglês, que ainda lá vimos, morrendo toda a tripulação. Contam-se já perto de vinte, os barcos encalhados.

– Passaram muitas torturas?

– Muitas torturas e muita fome. Saint Shotts é uma povoação pequena, com cerca de 20 habitantes e onde não há recursos de espécie alguma. Havia de ser uma hora da tarde quando, extenuados, nos desjejuámos com uma chávena de chá.

– As autoridades fizeram-se demorar?

– Só passadas algumas horas depois que telegrafei é que chegaram ao local do sinistro o Juiz de Trepassey, o oficial da Alfândega e um polícia.

– E o nosso cônsul?

– Telegrafou imediatamente ao Juiz de Trepassey, pedindo que nos fossem dados imediatos socorros. Também o nosso conterrâneo Sr. Copérnico da Rocha* foi incansável e dispôs tudo para que nada nos faltasse. Fomos transportados para Trepassey em pequenos carros, por caminhos perigosíssimos, tendo ficado no local do naufrágio um polícia de guarda ao navio e aos salvados. De chegada a Trepassey, também lá estava o cônsul de Saint Jonh’s.

– Que providências tomou o cônsul?

– Averiguados todos os detalhes do naufrágio, e informado de que nada mais se podia fazer e vendo que os marinheiros estavam passando as piores privações, dormindo no soalho de uma sala e cheios de cansaço e fome e tendo ido ao local do sinistro comigo, com o piloto e autoridades verificaram a situação e posição do navio, ordenou, então, a nossa partida para Saint John’s, onde embarcámos a bordo do paquete «Nova Scotia» que nos transportou ao Havre, tomando neste ponto o vapor «Pancras», que nos desembarcou em Leixões.

– Vieram todos?

– Vieram 23 homens. Os restantes 5, em cujo número se contam o piloto, Sr. José Fernandes Matias de Melo e o contramestre Sr. Joaquim Fernandes Serrão, devem estar a chegar a bordo do vapor «Catalina»

– Quantos homens eram de Ílhavo?

– Seis. E outros tantos da Gafanha. Os restantes eram da Nazaré, da Figueira e do Algarve.

E o nosso entrevistado, sem dar mostras de aborrecimentos pelas nossas constantes e contínuas interrogações, cerrou neste momento os olhos.

Calámo-nos. Naquele instante, devia passar-lhe pela mente a recordação de um sonho feito saudade, evocando as horas tormentosas do naufrágio em que correndo da proa à popa, gritava aos seus homens:

– Coragem, marinheiros!

Antes fosse um sonho!

Mas, infelizmente, a perda do «Ilhavense I» fora uma dura e cruel realidade!

Degustem esta entrevista levada a cabo há 92 anos, tal como eu a saboreei, apesar de todo o seu dramatismo.

*Ainda conheci o Sr. Copérnico Rocha e sua Esposa, quando vinha a Ílhavo, irmão de Conceição e Rosa Rocha, tio de Maria da Conceição Rocha Mano e de José (Zeca) Mano.

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Ílhavo, 08 de Outubro de 2021

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Ana Maria Lopes

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domingo, 3 de outubro de 2021

Os Navios de Assistência à Frota Bacalhoeira

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Ontem, dia 2 de Outubro, a Fundação Gil Eannes deu ao prelo, depois de ter passado o pior do mau tempo, a obra, em três tomos, “Os Navios de Assistência à Frota Bacalhoeira”, da autoria de João David Batel Marques. Na senda das obras a que já nos tem habituado, estes volumes pressupõem a mesma qualidade dos anteriores, por fora e por dentro.

Por razões diversas, ir a Viana do Castelo, pelas 9 horas da manhã, isso era “uma madrugada”, que temia deixar-me muito cansada. Mas, fruto da amizade do Tito Cerqueira, eram 4 horas da tarde e já folheava os livros  – O “Carvalho Araújo” e o “Gil Eannes” ex Lahneck, tomo I, o “Gil Eannes” de 1955, tomo II e o “Gil Eannes” de 1955, tomo III.

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Tomos I, II e III
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Foram o meu entretém, ontem, e continuarão a sê-lo, hoje, texto e imagens.

Muitos nomes ilhavenses conhecidos, de pessoas e navios os perpassam, o que me dá mais entusiamo, numa primeira leitura. Será sempre, também, uma obra de consulta, todas as vezes necessárias.

Parabéns à Fundação Gil Eannes e, sobretudo, ao autor, João David Batel Marques, a quem felicito.

 

Ílhavo, 3 de Outubro de 2021

Ana Maria Lopes

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Praias lagunares da Costa Nova

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Será que a Costa Nova terá sempre algo a acrescentar? Relativamente à «minha bíblia» sobre esta língua de areia que já nos deleitou muito mais, este “postal” não é novidade.

Há muito que vimos sentindo a falta de uma praia lagunar, num contacto aberto, directo, solto, franco, doce e libertador, com as águas correntes lagunares. Além de nos ter sido afastada da vista, uma boa dezena de metros, a ria, ainda nos foi levado esse refrescar directo dos pés ou dos corpos, nas suas macias águas. Isto consegue-se na ilha, na dita «Ilha Branca» de formação recente (pelos anos 70), mas convenhamos que aí abicar, a quem não tem embarcação, não é fácil.

Desde que a nossa estância balnear se começou a afirmar como pousio de veraneantes, o Bico começou por ser a primeira praia lagunar de renome, aí, até aos anos 30 do século XX.

Quem sabe, hoje, o que foi o Bico?

Um espraiado de areia, mais ou menos defronte ao actual e degradado parque infantil, enamorado de sol, apaixonado de água e luz, onde as beldades chapinhavam em grupo, para se sentiram mais afoitas. Foi a praia lagunar do tempo dos meus pais, onde chegaram a ser montadas, algumas, não muitas, barraquitas riscadas, para aconchego dos grupos de jovens veraneantes e possível troca de vestimenta molhada.

A actividade piscatória na zona era muito razoável e as embarcações, ao longe, na ria, pontilhavam-na de marcas mates ou brilhantes, empasteladas no casario embaciado ou reluzente da Gafanha da Maluca.

 

Postal da Costa Nova (Banhos no rio) – o Bico

Ainda reconheci este Bico, já só com uns restos de areia e vegetação (tramagueiras), onde nos reuníamos, em tardes mais ventosas, para apanhar búzios e «concharinhas» para colares, para jogar as cartas, o prego, o encarreirar ou o ringue. O banho, mesmo para as mais afoitas, já era impossível, dado que ao caminhar pé ante pé, logo atolávamos num lodaçal que nos atemorizava.

No nosso tempo de menina e moça, usámos uma praia lagunar mais a norte (entre 1935 e 70), a que foi dado o pomposo nome de Biarritz (praia famosa do sul de França), frente a um casario que começaria a nascer e a desenvolver-se no redondo conhecido ainda hoje por esse nome.

A pé, de bicicleta ou de bateira, para aí nos dirigíamos em bandos, quais gaivinas ou gaivotas esvoaçantes.

Saboreávamos-lhe a areia branca, macia, em declive, o sol quente, luminoso e acariciador, bem como a água corrente, límpida, agitada ou calma, consoante o vento ou a ausência dele.

A ria era o palco de um sem número de malabarismos – mergulhos corridos, saltados, pinoteados, braçadas em diversos estilos (bruços, crawl, mariposa). Mas, para deleite mesmo ao sabor da corrente, fruindo a quentura do sol, nada como boiar directamente na água ou em colchões ou bóias insufláveis.

Pelos anos 50, os vários banheiros da praia (Sr. Portugal, Abreu e Maiaia) ainda dispunham na faixa de areal, as suas barracas riscadas e coloridas, onde, mediante aluguer, nos vestíamos, despíamos e abrigávamos da canícula, vento ou nevoeiro em excesso.

 

Na Biarritz, em 1963

E, por aqui, foram despontando os primeiros amores que, ainda hoje, deixaram as suas marcas.

Logo a seguir ao aparecimento da Biarritz, começou a moda de San Sebastian (praia do norte de Espanha), uns trezentos metros mais a norte, junto à antiga seca de Lavadores, que não chegou a gozar do brilho do primeiro espaço.

 

 

Na enseada, ao fundo, avista-se San Sebastian.1967
 

A rapaziada, que fruía de belos mergulhos de dunas altas para água límpida e profunda, era mais a clientela de San Sebastian. Ficava, mais ou menos antes da actual ponte da Barra, frente à actual moradia do arquitecto Cravo.

Foram estas as praias lagunares da Costa Nova, até ao grande desfalque, a que foi submetida a ria, pelos princípios de setenta.

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Costa Nova, 23 de Setembro de 2021

Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 21 de julho de 2021

Representação de Ílhavo no "Milenário e Bicentenário de Aveiro"

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Em Julho de 1959, domingo, Aveiro comemorou o Milenário” da primeira referência, conhecida, à sua existência, expressa no documento da doação feita em 26 de Janeiro de 959, pela Condessa Mumadona Dias, ao mosteiro de Guimarães, por ela fundado. Aveiro contava-se entre as terras então doadas ao referido Mosteiro.

Em simultâneo, na data referida, Aveiro comemorou o Bicentenário” do registo da Carta de Provisão (26.07.1759), em que D. José outorga e faz mercê, que dessa data em diante, Aveiro fique erecta cidade.

A representação de Ílhavo nas festas comemorativas do Milenário e Bicentenário de Aveiro”, nomeadamente no Cortejo Folclórico, foi exemplar. Faz segunda-feira, portanto, dia 26 de Julho, 62 anos…Era domingo, em 1959.

Dia de festa em Aveiro. Ruas e avenidas apinhadas de gente, varandas ornamentadas de colgaduras, a abarrotar… todos quantos acorreram a Aveiro procuraram local de onde pudessem apreciar o espectáculo que se lhes deparava. Corriam de um lado para o outro para bisar os aplausos a todos quantos nos seus bonitos trajes, antigos ou modernos, nas suas danças e canções os encantavam.

Todos os concelhos do nosso distrito cooperaram, participando com os bonitos carros alegóricos representativos das suas actividades comerciais, industriais e agrícolas.

Ílhavo não poderia faltar. Não só porque as histórias das duas povoações tiveram origens e percorreram caminhos comuns até certo período da sua história, confundindo-se durante largo período as suas gentes, já que Sá, sita no termo de Aveiro, pertencia a Ílhavo. Sujeitas aos mesmos momentos de fartura ou de privações, e até catástrofes, conforme o estado da laguna que era a circunstância destas gentes da borda. Mas a ligação entre os dois agregados populacionais ainda se reforçou aquando da grande crise de abastecimento da vila de Aveiro, verificada no séc. XVI. Ílhavo foi, naturalmente, pelas ligações referidas, dos lugares vizinhos que mais comparticipou para suprir as carências sentidas na vila vizinha, fazendo-o dos mais variados modos, com os mais variados produtos em que o termo da vila era rico. Forneceu pão, cereais (milho, trigo, painço), lenha, vinho e ainda carnes e muitos outros produtos, de que Aveiro precisava para sustento da sua população que teria crescido de um modo explosivo a partir do séc. XV, com a presença de muitos mercadores estrangeiros, que ali se vieram fixar.

Por estes motivos, a participação do concelho de Ílhavo, nas festas do Milenário, deveria ter uma dimensão muito vasta e variada, na expressão e motivação.

Embora todo o concelho de Ílhavo tivesse uma representação à altura, é, do nosso grupo, de que eu e muitas das minhas amigas fazíamos parte, que tenho uma memória mais viva.

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Abertura da representação de Ílhavo
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A abrir, um dístico com a palavra ÍLHAVO, conduzido por dois autênticos pescadores. A seguir, um friso de jovens pescadeiras, seguidas por mais seis padeiras e outras tantas ceifeiras, vestidas a capricho. Um grupo de lindas tricanas antigas e modernas, tendo havido o cuidado de, naquelas como nestas, escolher lindos palminhos de cara, dentre as mais graciosas das nossas gentis meninas. – in “O Ilhavense “ de 1 de Agosto de 1959.

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O desfile
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Pelo menos as ceifeiras entoavam alegremente a “Canção das Ceifeiras” que fazia parte do repertório da revista infantil “A Nossa Escola”, com letra do Prof. José Pereira Teles e música do vaguense Berardo Pinto Camelo.

Seguiram-se representações do Illiabum Clube, da Fábrica da Vista-Alegre, da Gafanha da Nazaré, da Indústria de Conservas de Peixe da Barra, o carro da Capelinha da Nossa Senhora da Saúde…

Fechava esta parte do cortejo um carro com uma alegoria de Ílhavo (a vela não podia faltar), estruturada sob um feliz desenho modernista de Emanuel Macedo e ladeada pelos Bombeiros Voluntários de Ílhavo.

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O carro alegórico
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Segundo a fonte jornalística já referida, foi um cortejo que fechou com chave de oiro todas as festas mundanas do Milenário e Bicentenário de Aveiro”.


E lembrar a azáfama que antecipou todo este folclore?

O centro do mundo era a casa da Senhora D. Dadinha Lé, pequenina, gordinha e gaiteira, com o bairrismo à flor da pele.

Em cima da mesa da sala de jantar, metros e metros dos mais variados tecidos (cetins, sarjas, veludos, chitas, fazendas, feltros, etc.) e acessórios: chapéus, lenços, cestos, canastras, faixas, xailes, foices e outros.

E as idas ao Porto àqueles grandes armazéns de têxteis, em busca dos tecidos mais apropriados?

E as provas, que farra! Na nossa juventude, queríamos apresentarmo-nos o melhor possível: o calçar da bota, da meia riscada de vermelho e branco, o arriar do saiote, o içar da saia com a faixa, o trilhar do avental, o ajeitar da blusa ao peito e o dobrar da aba do chapéu da maneira que melhor condissesse com o rosto.

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Ceifeiras ledas, morenas…
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Eram estas as gentis ceifeiras, da esquerda para a direita: Célia Ré, Ana Maria Lopes, Maria Manuela Vilão, Rosa Armanda Mano, Idalina Bela e Elisabete Moreira.

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Ílhavo, 21 de Julho de 2021

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Ana Maria Lopes

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quarta-feira, 14 de julho de 2021

As velas do moliceiro

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Luís de Magalhães refere, no seu trabalho “Os barcos da Ria de Aveiro”, 1905 – 1908, que nas romarias fluviais, as velas ricas têm bordados interessantes, quase todos multicores e feitos por meio da aplicação de estofos diversos ao pano da vela: umas armas reais, uma cruz, um vaso com flores, etc.

Já há muito que esse costume não se observa, é pena. Creio mesmo que nunca vi.

No MMI., em exposição na Sala da Ria, o visitante tem possibilidade de apreciar um desses raros exemplares, com escudo encimado por coroa real, ladeado por ornamentos florais, em arte aplicada. Tem a particularidade de rizar só por cima. Data provável 1816/1876 (?)

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MMI. – Enfeite de vela festiva
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Costume que ainda se mantém é ornamentar a vela com bandeiras de várias nacionalidades, relativas aos países para onde emigraram os donos dos barcos ou familiares, em dias também festivos.

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Decisão e confiança de vencer
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Normalmente. as velas são brancas, não se submetendo ao encasque ou seja à submersão numa cozedura de casca de pinheiro, que lhes dá uma cor vermelho-acastanhada. Tornam-se translúcidas e luminosas, deixando transparecer a luz, o que permite apreciar as várias teadas inteiriças ou emendadas, se a lona não chegou, ou remendadas, quando já apresentam partes envelhecidas.

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As “teadas” da vela evidenciam-se
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Esporadicamente, há anos, usavam um segundo mastro, à proa, o mastaréu, mais baixo, que fixavam numa pequena coicia, através de uma abertura entre as duas painas da proa, entre um argolão que funcionava encostado a uma reentrância do barrote, onde trabalhava uma vela de dimensões menores, chamada traquete. Chegavam “a bolear e a arrastar com dois panos, mas, quando o tempo era muito, arriavam o traquete e botavam ombro ao mastaréu, poisando-o por cima da proa, por riba dos golfiões”.

Imagem de beleza invulgar era o moliceiro armado com vela grande e traquete de que conservo uma vaga ideia da minha juventude, aqui, na Costa-Nova. Era motivo para virmos apreciar à varanda, quando algum passava…já ia sendo raro. Agora, nada, nem com duas velas, nem com uma. Eu bem olho…mas…só na realidade imagética de alguns espólios encontrados…

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Na amplidão da ria, moliceiro com duas velas
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Foi o que aconteceu há pouco tempo, quando me veio à mão, em buscas em sótãos, pela primeira vez, um cliché de um moliceiro a navegar com duas velas, frente à Costa-Nova. Não é brilhante a imagem, mas, até hoje, foi a única encontrada. Por isso, merece divulgação e partilha.

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Ílhavo, 14 de Julho de 2021

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Ana Maria Lopes

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domingo, 11 de julho de 2021

Travessia na VA, nos anos 50

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Uma paisagem que sempre me encantou – a travessia do Canal do Boco, entre as traseiras da quase bicentenária Fábrica da Vista-Alegre e a Gafanha da Boavista – com a sua luminosidade, a água espelhante, a barca de negro embreada, timonada pelo barqueiro (Ó, da barca!...), a simplicidade tosca do trapiche… Hoje, figura humana enriquece a paisagem. Mulher das Gafanhas…

Mulher de trabalho, de pés descalços, veste com grande simplicidade: saia lisa, ajustada e avental florido pelo meio da perna anafada. Blusa garrida e estampada, de manga comprida. Carregada, quereria passar para a outra banda.

O xaile típico, supostamente amarelado, de lã, com cadilhos torcidos, caindo pelas costas, dobrado em diagonal, sustido no braço esquerdo, envolve a afadigada mulher. Segura à cabeça, em equilíbrio, um cesto de vime, pejado de lenha que acarreta para casa. Para atear a fogueira onde as crianças se aquecerão enquanto cozinha, durante o inverno?

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De perfil… 

Ó da barca!...

De frente, com rodilha a proteger-lhe a cabeça, de cabelo apanhado, faz prova de esforço, com os braços em asas de ânfora, que sustêm e equilibram o peso da lenha.

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Poderia ter inspirado algum escultor da VA? Existe uma figura de mulher – tricana –, policromada, de cantarinha à cabeça, que, de algum modo, me lembra esta mulher.

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De frente, para a fotografia
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Ó da barca!...
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Ó da barca!...

E a grande e negra barcaça aproxima-se lentamente, para transportar a esforçada passageira. Vidas e destinos!..............

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Ó da barca!...

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Fotografias – Gentil cedência de familiar de Cândido Ançã

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Ílhavo, 11 de Julho de 2021

Ana Maria Lopes

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