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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Memórias da romaria da Senhora da Saúde

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Os festejos em honra da Nossa Senhora da Saúde, iniciados em 1837, vieram substituir a primitiva Festa de S. Pedro, em Ílhavo (que se tornou na Festa das Companhas), passando a ter data fixa, no último domingo do mês de Setembro.
Competia em popularidade com o S. Paio ou com o S. Tomé, na grandiosidade da animação dos festejos lagunares, no corrupio de gentes e na algazarra. Do norte do Bico ao sul da Mota, a Costa-Nova engalanava-se com o estendal de moliceiros.
Agora, vem aí a romaria…Só que nem dá p’ra te comprar uma flor…
A minha mais antiga recordação deste arraial é uma fotografia, no terraço do meu palheiro, à época, com dois anos e um grande laçarote na cabeça. A armação da festa comprova a data – fins de Setembro de 1946. Vivia no coração da romaria.
Outra memória, bastante mais forte e de que ainda hoje me recordo vivamente, foi a minha integração na procissão, trajada de anjinho – a primeira e a única vez.
Cá perdura o boneco tirado à la minuta no meu baú, como mandava a tradição.
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O anjinho assustado, de sete anos
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Só que foi uma procissão complicada e agitada, porque durante o seu trajecto, deflagrou um forte incêndio na, à época, Pensão Pardal, na esquina norte da Estrada do Banho.
Alterado o percurso, o susto apoderou-se de todos. As chamas lambiam as outras casas e todos temiam que se propagassem às residências vizinhas. Foi um alvoroço.
Lá vieram os Bombeiros de Ílhavo acudir ao sinistro que poderia ter alcançado proporções gigantescas, dado que as casas da proximidade eram palheiros de madeira ressequida.
Na ausência de data na fotografia, lá fiz algumas diligências para situar a ocorrência no ano certo – foi no domingo da Festa de 1951 (in O Ilhavense de 10 de Outubro de 1951).
Naquela idade os meus avós faziam-me as vontadinhas todas e eu lá tinha os meus rituais.
A minha primeira compra era um «chapelinho de papel» muito frágil e gracioso, que habitualmente estava à venda numa tenda, que montava arraial em frente à Vivenda Quinhas, hoje de Jorge Picado.
Quando chegavam à minha porta, a ti Adelaide Ronca com as flores de papel com quadra popular e ventarolas, e a ti Caçoa, com o baú das doçarias tradicionais, entre as quais sobressaíam os melosos e açucarados suspiros e os bolinhos brancos, logo as boas festeiras tinham em mim uma das primeiras freguesas; uma mão para erguer o moinho à procura do vento, até que zunisse, e logo a outra atascada com doçarias para secar a água que me crescia na boca, só de vê-las.
Seguia-se a visita à Vida de Cristo, em movimento, descrita em voz roufenha, rouca do publicitador, tornada ensurdecedora pela ampliação conferida pelas cornetas do altifalante, que tentavam sobrepor-se ao anúncio das cadeiras voadoras ou da casa dos espelhos ou do comboio fantasma, itens do arraial que se iam visitando, vez à vez, até que esgotados  na segunda-feira do fim de festa.
Incluída no programa das visitas, não podia faltar uma ida  às barracas de loiça de Barcelos, para  «puxar» de uma argola presa a um fio, que erguia o número correspondente ao prémio, que calhava em sorte.
Assim ia gozando a festa naquela idade da criancice e inocência.
Os restantes registos fotográficos são bastante mais tardios, de 1960, ano em que as minhas amigas e eu, já espigadotas, no esplendor da nossa juventude, combinámos viver a Senhora da Saúde, à moda antiga. Tinha 16 anos.
Os primeiros sinais da romaria eram dados pela chegada e montagem da armação. Depois, a vinda das primeiras tendas. Mas quando os primeiros moliceiros chegavam do norte e do sul da ria, os norteiros e os matolas e atracavam mesmo aqui pertinho de mim, então a festividade estava próxima.
Experimentámos de tudo um pouco. Depois de um belo passeio de Vouga, estava na hora de começar a reinar: andámos de carrossel, de carrinhos eléctricos, de cadeirinhas voadoras, integrámo-nos nas danças sobre a proa dos moliceiros, subimos aos vistosos e animados coretos, tirámos a sina numa boneca de tecido peludo preto, com uma grande cabeçorra, normalmente em frente do palheiro dos Senhores Moura, hoje da Rosa Maria Moura, apreçámos toda a quinquilharia possível, desde os toscos brinquedos de lata e madeira aos ferros forjados mais elaborados. E o café de apito?
Assistimos respeitosamente ao desfile da procissão, apreciámos o fogo-de-artifício, assustando, conforme podíamos e sabíamos os forasteiros, especados, de olhos pregados no céu.
Foi assim a nossa festa setembrina de 1960, em homenagem à Senhora da Saúde, em que se concentrava grande número de devotos.
As participantes na folia eram Maria Manuela Vilão, Rosa Maria Moura, Eneida Viana e eu.
Hoje, no entanto, apenas com os festejos religiosos, fogo-de-artifício, e umas doçarias festivas, ainda se vai passar à Costa-Nova a Senhora da Saúde. Nem gostamos, sequer, de ver a casa fechada. Tradição… É a que temos. É para respeitar, tentar transmitir…e, se possível, melhorar.
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Debruçados no coreto
 
Sobre as belas proas de moliceiros
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A «ler a sina»
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No «carroussel»
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Imagens – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 21 de Setembro de 2017
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Ana Maria Lopes

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Amizades geradas na Costa Nova

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Com este tempo outoniço, aproveitá-lo mesmo para limpezas de roupas e papelada. Nestas andanças veio-me à mão um texto de Isabel Maria C. Madail, que arengou, no final de uma apresentação no CVCN, minha e de Etelvina Almeida, Uma viagem p´la ria, em Agosto de 2014.
No final, a Isabel pediu a palavra… Que quereria ela dizer? Nada como dar-lha, para saber:
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Esplanada e embarcações lagunares, na Costa Nova
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Não posso deixar passar este momento sem intervir, prometendo ser breve
A Ana Maria e eu vivemos muito na Costa Nova e a Costa Nova, fomos amigas e às vezes inimigas (ela era endiabrada) toda a vida.
Os nossos familiares vinham para a Costa por Maio, aqui permanecendo até finais de Outubro. Se houvesse obras de vulto a fazer, viriam mais cedo, claro, e a estadia, então, prolongava-se. Daí o tratarmos por Tu esta terra onde nos sentíamos e sentimos bem, onde conhecíamos toda a gente, para onde fugimos para tentar curar as agruras que a vida também nos trouxe, continuando, até hoje, a fazê-lo.
Aqui, a Ana Maria era a «Aninhas» e eu, a «Inzabelinha».
Contudo, a Ana Maria, muito atrevida, decidiu nascer antes de mim, uns escassos três meses, o que lhe deu a vantagem de entrar na Escola um ano antes de mim, muito importante, e eu tive muita pena.
Como ela bem disse, andou cá na Escola na 1ª e 3ª classes, quando da construção da casa onde hoje vive.
Eu que nunca me conformei por ter nascido depois dela, entrei na Escola um ano mais tarde e, assim frequentei a 3ª classe na Costa Nova, enquanto a Ana Maria a tinha frequentado no ano anterior, fazendo exame da 3ª na Gafanha da Encarnação; para isso a travessou a ria, de barca, com a Professora e os colegas, tudo cheio de pompa e circunstância.
Contudo, só por causa do meu atraso em chegar a este mundo, quando, no ano seguinte, pensava que ia fazer exame à Gafanha com o resto da turma, fiquei desiludida: Foi o 1º ano em quês se fizeram exames na Costa – um ponto a favor da Ana Maria que foi de barca.
O centro do «mundo» – a Costa Nova
Claro que eu, ao longo dos tempos atravessei a ria com enterros, que eram também fluviais: o caixão e acompanhamento iam na barca, para a outra margem, mas, não sendo a viagem privativa, iam também outras pessoas, cujo único meio de transporte era aquele.
Mas, voltando à Ana Maria que na Costa Nova era Aninhas: um dia estávamos ao colo das nossas Mães e, sem quê nem para porquê, eis que ela se lembra de me dar uma valente bofetada
Quando fazia qualquer asneirita, como eu ou qualquer outra criança, o Capitão Pisco, seu Avô, de saudosa memória, dizia-lhe que eu é que ia passar a ser a neta  dele e aí aparecia ela, pior que estragada, como se eu tivesse culpa.
Mas éramos muito evoluídas: o Avô pagava uma barraca na Biarritz para nós nos vestirmos após o banho da ria. Muito fino… teríamos 7 /8 anos
Além de tudo, foi a Costa Nova que mais nos ligou: fazíamos campeonatos do jogo do prego, de ringue… Temos sido próximas desde sempre. Matriculámo-nos no mesmo curso, eu um ano depois, claro, por causa dos tais três meses…
A Ana Maria era mais azougada do que eu no que respeita ao mar: muito nadadora, muito despachada…
Perdoem o tempo que vos roubei, para vos contar como se formavam amizades nestes areais.
A nossa Costa, a Costa da nossa infância, onde passávamos meio ano, deixou-nos marcas profundas, que fazem com que, embora tendo visto muito lugares bonitos, continuemos apaixonadas por ela. E a Ana Maria fá-lo de forma mais notória, mais interveniente, e muito bem. Por isso a felicito!
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Pela beira da ria…1960
Não lhe posso perdoar que se tenha adiantado a mim, que nasci apenas três meses mais tarde, o que lhe dava um ar muito importante, já que andou sempre mais adiantada do que eu.
Isabel Maria C. Madaíl
CVCN, Agosto de 2014
AML
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domingo, 28 de maio de 2017

Na Escola Primária da Gafanha da Encarnação

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A propósito de um escrito de Senos da Fonseca, no FB, relativo à Gafanha da Gramata, depois da Maluca e, por fim da Encarnação – veio-me à cabeça um capítulo da minha vida escolar em que também tem lugar a Escola Primária da Gafanha da Encarnação.
Vou para a Costa Nova desde que nasci, sempre para a mesma casa.

O bonito palheiro…

Antes de ter a arquitectura actual, era um bonito palheiro de rés-do-chão em adobe, com varanda, o terceiro da Calçada Arrais Ançã (lado sul), a partir do actual Largo da Marisqueira, de onde se usufrui uma paisagem inebriante e mutante, de dia e de noite, ao amanhecer e ao entardecer. Era esta a vista da minha casa, até 1973, inserida num horizonte sem fim.
 
Mota actual – 1942
 
Com o aterro parcial da laguna (seria necessário?), foi-me roubada.
Costa-Nova dos meus encantos!!!!! Adeus bateira Namy atracada ao moirão multicolor, em frente a casa! Adeus serventia do embarcadouro da barca! Adeus travessia para a «Bruxa». Adeus pesca ao caranguejo da muralha com fio, pedra ou concha e uma lasquita de bacalhau! Também passaram à história as belíssimas atracações da barca, ao perto, em dias de nortada ou de inverno, com marola forte e vento rijo, não sei se à Labareda nem se não. Mas lá que eram bonitas, certeiras e arrojadas, eram.

Era este o cenário em 1973…

Mas, voltando à história, frequentei a 1ª e 3ª classes da Escola Primária, nesta linda praia, entre ria e mar situada.
Foi minha professora a Senhora D. Palmira, de quem guardo gratas recordações, bem como de algumas colegas que ainda hoje reconheço.
O «lugar» para a Escola Primária que frequentei foi criado em 1930, na então Avenida Boa-Vista, a norte.
Um belo dia, a Senhora Professora informou a minha Mãe que eu, com 5 anos, chegava demasiado cedo à escola. Gostava sempre, antes das aulas de ir ver o mar. Vem de longe, esta tendência…
Chegado o final do ano lectivo de 1950-51, o exame da 3ª classe estava à porta. O meu primeiro exame. E onde fazê-lo? Tinha de ser na Escola da Gafanha da Encarnação
Sempre que lá passo, me lembro.
 
Escola da Gafanha da Encarnação em 1959

Claro, tínhamos que ir de barca, à vara, tão calmo estava o dia de Julho, e, a pé, até à escola. Vestido novo… toda enfeitada.
Uma nova escola, novos professores, novo ambiente…algum nervosismo.
O texto que me saiu em sorte foi «A libelinha e as folhas de nenúfar». Correu bem e, no final, bom resultado.
Voltámos. A minha Mãe e Avó esperavam-me…com ansiedade. A sua menina a chegar do primeiro exame… e de barca!!! Quem se gaba do mesmo?
Um pequeno percalço, no regresso: escorregou-me um lápis novinho em folha, costado abaixo e enfiou-se debaixo dos pesadões paneiros da embarcação.
Por mais que pedisse, lamuriosa, ao barqueiro, ele não se compadeceu da minha pena. Será que um insignificante lápis merecia o trabalhão de levantar um ou dois paneiros da grande barca?... Lá ficou, mas não me esqueci…

O que interessava é que estava na 4ª classe, com as férias à porta…
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Mota – Cliché João Telles
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Restantes fotografias – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 28 de Maio de 2017
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Os «Vougas» - influência na paisagem lagunar


O lazer na ria - 3

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(Cont).
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Pelos anos 50/60, um passeio de Vouga era tão desejado, que até havia quatro Vougas, o Navegador I, II, III e IV, pertença do Senhor Francisco Tainha, murtoseiro, que fazia a época de veraneio, para aluguer, ao mesmo tempo que tinha também para o mesmo efeito, quatro bateiras – a Miúda, a Tildinha, a Fernanda e a Kiss me.
Se o grupo veraneante, não tinha quem comandasse o barco, um dos arrais mais a jeito (ganharia uns trocos e o prazer de velejar), era com frequência o Capitão Manuel Mendes, um rapazote, à época.
Segundo opiniões avalizadas, os Navegadores eram uns tamancos, pesadões, construídos de eucalipto, na Murtosa, sendo o Navegador IV, o mais aproximado de um verdadeiro Vouga.
Não há dúvida que aquela espécie de baía, que ali formava a ria, junto da última Mota (1941), onde atracavam as barcas da passagem, em verdadeira atracação à Labareda, era o coração da praia – a Milú, a Namy, a João Luís, as 8 embarcações de aluguer, a lancha Razalas, o Lena II, o Rio Vouga e algumas bateiras de pesca.

Postal em circulação nos anos 60 
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E tudo vento levou…
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Disseram-me, pois o barco era-me familiar, que, uma vez, um tal Major Ferrer apareceu junto do Mestre Gordinho com um barco mais pequeno, cerca de uns 5 metros de comprimento, de nome, Lena I, pedindo-lhe que lhe construísse um, idêntico, que resultou mais comprido (perto de 6 metros), com poço dividido transversalmente e se viria a chamar Lena II. Assim o fez, por volta de 1942. Este bote, dito «de linhas quebradas», porque de construção mais económica e mais fácil, em que as cavernas já não tinham a dificuldade do arredondado, não sendo inteiriças, seduziu o Mestre.
Uns anos mais tarde, entre outros, construiu um para si, o Rio Vouga, em 1948, que creio que ainda existe apto a navegar. Esta variante, embora coabitando com os Vougas mais puros, nunca foi considerada como tal.

ALBERTO. Barco familiar. Anos 40

Se o Vouga foi por excelência, um barco familiar, dada a sua constituição exterior, bem como um poço fundo e cómodo, defensor de algumas aragens mais agrestes, também serviu de barco romântico a duo, para um casal enamorado.
 
Vouga Zália com os proprietários a bordo

Também memorizei de uma forma muito nítida as tardes de lazer passadas individualmente, em ria calma, cheia e espelhada, do Engenheiro Ventura da Cruz, no Zália, do Senhor Taveira, no Bill e do Capitão Chico Leite, no Ok. Por vezes, a neblina do fim da tarde descia e envolvia o cenário, com uma beleza ímpar.

Eng. Ventura da Cruz, no Zália

Do lazer individual à competição, as suas características eram relevantes. E ponto alto, na Festa da Senhora da Saúde, era o panorama lagunar das regatas. Estonteante o espectáculo, apreciado de perto, durante tantos anos!

Antigamente, regata da Senhora da Saúde

Se passeava e muitas vezes o fiz, por terra, entre a Torreira e o Carregal, tínhamos o prazer de apreciar os ditos Vougas cabinados do norte da ria, pois aqueles grupos de amigos ficavam de um dia para outro na ria, entregues à caça, nos seus barcos cabinados – daí a justificação de uma coberta que os protegesse do fresco da noite.
Como esses passeios passaram a durar alguns dias e noites, os barcos deste tipo foram aumentando.
Segundo informação do Arq. Hélder Ventura, também aqui presente, que me cedeu estas imagens dos Vougas de Ovar – alguns ainda navegam e outros já desapareceram, como é o caso do «Jolinha». O primeiro destes Vougas foi encomendado a António Gordinho por Francisco Ramada em 1947.

O JOLINHA – barco de Ovar, cabinado

De seguida, construíram-se  mais embarcações deste tipo, algumas por  grupos de amigos que se associaram na «empreitada», como foi o caso do «Caster», do «Narceja» e do «Vouga». Estes dois últimos ainda existem e resistem.
Para além destes barcos existiam mais três ou quatro : o «Ria de Sonho» o «Ovarense» e outros dois por identificar,  que chegaram a envergar velas de carangueja.
Em sagrado e ameno  convívio, num dos primeiros Cruzeiros da Ria, tal como os moliceiros norteiros e os do sul, os matolas.
 
Um dos pimeiros Cruzeiros da Ria

Imagens – Fotos gentilmente cedidas por Jorge Ventura da Cruz, João Aníbal Ramalheira, Hélder Ventura e José Guerra.
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Ílhavo, 2 de Dezembro de 2015
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Ana Maria Lopes
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sábado, 28 de novembro de 2015

Os «Vougas» - influência na paisagem lagunar

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O lazer na ria - 2

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(Cont).
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Por volta de 1900, acentuou-se o desejo de fruir das belezas da ria, em passeio, do conhecimento das cales mais recônditas e estreitas e dos lugares mais típicos. Isso já era vulgar nas bateiras caçadeiras a 2 ou a 4 remos, muito leves para a brandura das mãos singelas e mimosas das raparigas.
A vela era para os mais musculados, mais rapazotes, de porte hercúleo.
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M. Mendes e J. Paião no IRENE. 1959
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Era um prazer sorver as belezas da ria, aproveitar a alegria da juventude, as brincadeiras, os namoricos, só de uma estação (amores de Verão ficavam enterrados na areia), ou perduráveis por uma vida.
Para além dos tais passeios lagunares a remos, havia, com muita frequência, picnics organizados, com umas boas dezenas de raparigas e rapazes à Bruxa (Gafanha da Encarnação), ao local da abertura do Canal do Desertas, à Vagueira e, para norte, à mata ou à Casa-Abrigo, para umas tainadas, em S. Jacinto.
Para isso, se alugavam um ou dois mercantéis, as ditas barcas de passage – assim eram conhecidas.
Começou a surgir a necessidade de reduzir a quantidade de picniqueiros e de tornar mais restritos e ocasionais, os passeios na ria. Já bastava a obediência ao horário das marés…Começava a surgir a necessidade de ter ou usar os tais «botes, mais tarde apelidados de Vougas».
O passeio mais habitual, mais à mão, mesmo na nossa frente, era uma ida à Bruxa.
E, a propósito de Bruxa, lembro-me e confirmei que no meu tempo havia duas Bruxas. Uma não chegava. Não é que houvesse ali alguma «bruxa» propriamente dita. Pero que las hay, las hay… A que ficava, como ainda hoje, mesmo junto à pseudo-mota da Gafanha da Maluca, ligada a uma Ti Norta, que curava algum malzinho, não era a que frequentávamos.
Caminhando uma centenas de metros, a pé, do lado direito, raparigas e rapazes, divertidos e desejosos de dar asas aos seus afectos, pois muitos houve, às vezes, ainda não resolvidos.
O recinto era um terreiro tapado por junco, protegido por um telheiro quadrangular, onde umas toscas mesas de madeira, alongadas, sob o telheiro, recebiam as vitualhas.
Não seriam o que mais nos interessava – umas bifanas, pão quente, uns pires de amendoins, tremoços e azeitonas e a famosa jeropiga (jorpigão), bebida doce e espiritual, em bilhas servida, para copinhos direitos e pequenos. Cuidado! As moçoilas, com umas lambidelas na borda do copinho da jeropiga tornavam-se mais doces e meigas, menos ariscas, mais dadas, prontas para o bailarico sobre o junco, pois íamos munidos de um gira-discos a pilhas, com as nossas preferências musicais em discos de 45 rotações.
O junco não seria o piso mais adequado para o bailarico, mas nem se sentiam umas picadelas ou cócegas do junco que entrava pelas sandálias, tal era o entrosamento amoroso.
E ao final da tarde, lá regressávamos à Costa Nova, sob a vigilância das mamãs, que nos esperavam, ansiosas.
Para ir à Bruxa, nem eram precisas barcas, mas mesmo (sim!) umas bateiras, ou então, os famosos Vougas. Neles íamos também com frequência, ao banho lagunar, cheio de piruetas e de mergulhos da proa, na Biarritz ou San Sebastian. O baixo calado do Vouga e o arredondado do casco facilitava-nos o retorno a bordo, para novo mergulho. Era assim a vida na ria… nadar por baixo do barco, outra pirueta, isto para os mais afoitos e destemidos. E facilmente se abicava à areia, se necessário.

O Vouga Zé Manel, em Agosto de 1948
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Nas idas à Vagueira, a sul, em duas barcas, ou a S. Jacinto, a norte, à mata ou à Casa-Abrigo, lá íamos munidos de cestas de mantimentos e doces, aprimorados, preparados habilmente pelas mães das moçoilas, para captar o seu futuro genro, se tal querença era do seu agrado. Instrumentos não faltavam – violas, violões, acordeões e bombos, para animar a festa, cantoria e pé-de-dança.

Picnic à Vagueira, em Agosto 1961

Podíamos rematar com uma banhoca fresquinha de mar espumoso, apesar da distância, à época, apanhando e comendo… camarinhas pelo caminho… Por isso, não faltavam mantas, agasalhos, as ditas grossas piolheiras, arrumadas sob a coberta da proa, para nos aquecerem ao final da jorna.
Os mais arrojados, rapazes, chegaram a velejar nos seus Vougas até ao S. Paio, famosa romaria da Torreira, a 8 de Setembro, ou fazer passeios até ao Carregal, Ovar.

Chegada do Carregal, em Setembro de 1958

Pelos anos 50, terá assim surgido a ideia do mítico Cruzeiro da Ria, desde 1959, com poucas interrupções, que, este ano, cumpriu a sua 52ª (quinquagésima-segunda) prova, com a duração de dois dias – Ovar/Aveiro/Ovar.
Nesta altura, não faltavam lazeres e entreténs na Costa Nova, tanto se vivia na ria. À noite, bailes chiques no Casino, abrilhantados por Jazz da época ou, em alternativa, passeios de vaivém pela esplanada ao som de músicas dedicadas, a pedido, na mítica Rádio Faneca. Outros tempos…
Mas quando havia um bota-abaixo de um Vouga, era uma festa de arromba. Assim reza uma notícia pescada em O Ilhavense de 20 de Setembro de 1941, acerca de um bota-baixo …Júnior construído pelo Mestre Gordinho, para o Sr. José Pardal.
E muito mais festas do género se fizeram, mesmo mais tarde, até aos anos 80. Basta lembrar a reinação feita aquando do bota-baixo do Vouga Gavião, construído para o Capitão Manuel Mendes, à época, no estaleiro Ria Marine pelo Mestre Alberto Costa.
Para além do Mestre Gordinho, foram surgindo alguns habilidosos de ocasião, que até construíram o seu próprio barco familiar.
Em fins dos anos 30, inícios de 40, sendo alguns proprietários de botes, moradores na zona do Sport Algés/ Dafundo e seus associados, tenho conhecimento que, entre 1938 e 42, o meu Avô Pisco chegou a levar alguns, no lugre Novos Mares, para Lisboa.
Confesso que na Costa Nova, fiz mais uso da minha bateira a 2 ou 4 remos, de forqueta, uma naifinha, com leme e tudo, mas, durante alguns Verões, muito nos divertimos no barco do João José Agualusa, que não era um Vouga, mas outro tipo de barco à vela.
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(Cont).
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Imagens – Fotos gentilmente cedidas pelos Capitães Aníbal, Paião, Manuel Mendes e Comandante Paulo Corujo.
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Ílhavo, 28 de Novembro de 2015
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Os Vougas - influência na paisagem lagunar

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O lazer na ria - 1

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Foi uma Jornada de amigos, no Ciemar, mais ou menos de pessoas, que, de uma maneira ou de outra amaram e amam a paisagem lagunar e a integração nela, através das ditas embarcações tradicionais e de recreio, neste caso, dos «Vougas».
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À guisa de intróito
Não seria a pessoa talvez mais indicada para a participação nestas Jornadas, sobretudo por ser mulher e não ter um conhecimento técnico dos Vougas. Certamente, o meu Avô, Capitão Pisco (n. em 1885) não teria mandado fazer uma bateira caçadeira de recreio, integrada no recheio deste museu, que teve o nome de NENÉ, antes de eu nascer e de NAMY, após a minha vinda ao mundo. Pouco faltou para ter sido numa bateira.
Se tivesse sido uma geração de rapazes, estou por certa que teria mandado fazer um Vouga e, então, a «coisa» tinha piado mais fino. E tê-lo-ia mandado construir ao Sr. António Gordinho (n. em 1894), quase vizinho em palheiros na Marginal da Costa Nova, com quem se dava bastante.
Não tanto com o hábil carpinteiro naval (autodidacta,) mas mais com o carpinteiro geral, a quem entregou a construção das suas duas moradias na Costa Nova, nos trabalhos de carpintaria, pelas décadas de 40/50. Todos os sábados lá ia eu com o meu Avô fazer os pagamentos à obra, tendo tido oportunidade de ter ouvido conversas entre ambos. No final, ganhava uma caravelinha – assim lhe chamava eu – pela ajuda que dava e pela companhia que fazia.
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Com os ditos palheiros tão próximos, frequentava assiduamente o palheiro do Sr. Gordinho e da Sra. Etelvina, riscado de verde e branco amarelado, entre a ainda hoje Vivenda Quinhas e o Hotel Beira-Ria (enquanto durou). A filha Fernanda, à época, modista, chegou a fazer-me alguns trapinhos de domingo, que, toda vaidosa, lá costumava ir provar.
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Parte-se de um pressuposto, pelo que sabemos, que o Vouga é um barco de recreio aparecido na Costa Nova, a que se dava, genericamente, o nome de «bote», pelos anos vinte do século anterior, pelas mãos deste hábil Mestre Gordinho, ou da sua lavra, ou com algumas influências sofridas pelas Américas, por onde também andou.
O ofício de carpinteiro foi herdado de seu pai, morador um pouco mais a sul, na Costa Nova e aplicado, sobretudo, na construção e reparação dos característicos palheiros. Contudo, quer pai quer filho lançavam-se em alguns projectos ocasionais de construção de barcos. Talvez a construção assídua de barcos, relativamente a mestre Gordinho só tenha acontecido depois da estadia que fizera nos Estados Unidos da América (Gloucester). Será que as linhas das escunas americanas o terão influenciado? Ou as de algum centerboard também americano? O seu filho, aqui presente, saberá muito mais, certamente, do que eu.
Num panfleto original de uma Grandiosa Regata de Vela e Remos, em 28 de Setembro de 1913, alude-se, exactamente à participação de um center-board, à vela, que teve de dar duas voltas ao triângulo de bóias. Nota curiosa…
Quais as principais características do dito «bote», mais tarde, apelidado de «Vouga»?
Muito genericamente, era um barco à vela, de casco redondo, de madeira, com quilha e patilhão móvel, de cavername inteiriço, com as seguintes dimensões: comprimento, cerca de 6 m, boca, 1,75 m e pontal, 0, 45 m. (mínimo), destinado a passeios familiares e não só. Mestre Gordinho, pelo que tenho ouvido, não fazia dois botes iguais, ou a pedido do proprietário, ou porque a garagem ou espaço onde o construía o limitava, ou porque ele próprio gostaria de variar.
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A odisseia lagunar dos botes do Mestre Gordinho
A marginal lagunar no coração da praia – Anos 20 e … tal.
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Em princípio, até cerca dos anos 40, o bote armava uma vela quadrangular, com carangueja. Mais tarde, a vela maior era do tipo latino, triangular, com mastro bem alto e retranca e, a vante, armava um triângulo ou estai. E, curioso, que as velas, de pano-cru, de teadas atravessadas, também eram feitas com a colaboração do Mestre e da sua mulher, Senhora Etelvina.
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Reforçando a ideia de que o Vouga se adapta admiravelmente às condições lagunares, cito SF, no seu livro Costa Nova do Prado – 200 anos de História e Tradição, 2009, p. 133 - O «Vouga» foi uma embarcação de recreio que apareceu na Costa Nova, com um desenho e características muito bem recriadas para o passeio de grupos, na ria. Calando muito pouca água, ajustando o calado móvel à profundidade encontrada (patilhão móvel), é capaz de transportar até 6/8 tripulantes. Sendo um barco muito rápido, está muito bem adaptado aos ventos locais, e à navegação interior em águas, por vezes, agitadas por ventos fortes habituais, do quadrante norte.
Posta de época. Final de anos 20
Muitas destas embarcações fizeram parte das vivências e memórias das famílias ligadas à história da estação balnear da Costa Nova, tendo a sua grande maioria o nome da mulher, da filha, da mãe do proprietário. Recordemos o Zinda (ainda a navegar) – tinha 8 anos o Capitão Aníbal Paião, quando o pai, Capitão Adolfo Paião, o mandou construir –, o Laide, o Rosinha, o Zália, o Irene e outros mais. Ainda hoje, é habitual a adopção de nomes femininos – Ana Maria, Beatriz, Raquel, etc.
 
A Costa Nova no seu melhor. Início dos anos 50
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(Cont).
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Imagens – Postais de época e foto gentilmente cedida por Rosário Vieira.
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Ílhavo, 20 de Novembro de 2015
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Antevisão da Festa da Senhora da Saúde - 2015

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Em maré de romarias setembrinas, segue-se no próximo fim-de-semana, último de Setembro, a festa da Nossa Senhora da Saúde, na Costa Nova. É uma pena que  aquela que já foi, em tempos, a segunda maior romaria lagunar a seguir ao S. Paio, presentemente, não passe da festa religiosa, procissão e eucaristia dominical.
Se fosse possível regredir no tempo, por uns dias, desejaria assistir a uma romaria dos anos sessenta, com artística armação na Avenida Marginal e nos caminhos conducentes à Capelinha. A montagem da armação em altos escadotes marcava o início da festa. Seguia-se a vinda das primeiras tendas. Mas quando os primeiros moliceiros chegavam do norte e do sul da ria, os norteiros e os matolas e atracavam mesmo aqui pertinho de mim, então a festividade estava próxima.
Recordo com saudade a chegada das barracas das cutelarias de Guimarães, os chapelinhos de papel de vários feitios e cores, os brinquedos toscos infantis de lata e de madeira, o café «de apito», a doçaria tradicional da Ti Rosa Caçoa, com os seus suspiros melosos e açucarados e os bolinhos brancos de gema.
Ao lado, a Ti Adelaide Ronca com as flores das festas, de papel, com quadra a gosto, e as coloridas e vistosas ventarolas. O Sr. Quintino Teles com os seus pratos típicos, em cerâmica relevada, com castanhas e sardinhas assadas, ovos estrelados, que até apetecia degustar, etc.
Ainda os ferros forjados, as barracas das loiças de Barcelos e de alguns atoalhados e «lingerie», bem como, os homens dos guarda-chuvas, compunham o ramalhete.
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E os vistosos e animados coretos com a banda a tocar!!!!.....
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Não faltava a Vida de Cristo, em movimento, descrita em voz roufenha, rouca, do publicitador, tornada ensurdecedora pela ampliação conferida pelas cornetas do altifalante, que tentavam sobrepor-se ao anúncio da casa do espelhos, do carrocel, dos carrinhos eléctricos ou cadeirinhas voadoras.
Com muita gente, com muito barulho, acabou por se tornar impossível a festa na frente/ria, incluindo a própria procissão, que não era recebida com o respeito devido.
Há uns anos largos, toca de mudar a festa para a Avenida do Mar. Ainda pior!!!! Chegou-se a um exagero e a uma falta de sanidade, com que alguns moradores não conviviam muito bem, quase impossibilitados de entrar em suas casas. Já não eram vendas típicas e, por vezes, ingénuas, mas uma autêntica FEIRA, onde chegou a intervir a ASAE.
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E hoje, o que é que temos? A procissão, após a missa festiva e pouco mais. A praia tem menos movimento que num domingo normal de Agosto. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
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No entanto, ainda se vai passar à Costa Nova a Senhora da Saúde, quanto mais não seja, para saborear, entre amigos, a chanfana ou o leitão assado, o que origina uma prévia «procissão de leitões».
Normalmente, a visão que tenho da procissão é a que a minha varanda me oferece. Esta:

Tendo-me uma amiga disponibilizado uns clichés, com uma visão diferente da procissão, entre palmeiras e palheiros, resolvi usá-los, com sua autorização, para ilustrar a descrição do cortejo processional do ano passado, dando relevo aos andores, com as respectivas imagens, adornados carinhosamente com flores – cravos, rosas, antúrios, copos de leite, gladíolos – e verduras multicolores. 

Nossa Senhora da Saúde, entre palmeiras altivas
 
 S. José, plasmado contra bonitos palheiros riscados de branco, azul e verde, com varandas ornadas de colgaduras, em sinal festivo
Imagem da Mãe do Redentor

Nossa Senhora de Fátima, tendo como cenário um dos mais aprimorados palheiros, riscado de branco e vermelho e de toldo igualmente rubro 

Os cochichos das «santinhas»

Santo Amaro, aconchegado no seu esbelto meia-lua, levado aos ombros por pescadores, nas suas camisas aos quadrados
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Outros aspectos haveria mais a enumerar – irmandades, fanfarra, grupo de escuteiros, pároco da Gafanha da Encarnação, acólitos e crentes acompanhantes, cumpridores de promessas – mas dei prioridade aos andores, na sua imponência e singeleza.
Nem gosto, sequer, de ver a casa fechada, nesse dia.

Tradição…apesar de já não ser o que era. É a que temos. É para respeitar e tentar transmitir…

Imagens – De arquivo (Etelvina Almeida, 1, e 6 e as restantes de Maria Emília Prado e Castro)

Costa Nova, 24 de Setembro de 2015
 
Ana Maria Lopes