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domingo, 11 de julho de 2021

Travessia na VA, nos anos 50

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Uma paisagem que sempre me encantou – a travessia do Canal do Boco, entre as traseiras da quase bicentenária Fábrica da Vista-Alegre e a Gafanha da Boavista – com a sua luminosidade, a água espelhante, a barca de negro embreada, timonada pelo barqueiro (Ó, da barca!...), a simplicidade tosca do trapiche… Hoje, figura humana enriquece a paisagem. Mulher das Gafanhas…

Mulher de trabalho, de pés descalços, veste com grande simplicidade: saia lisa, ajustada e avental florido pelo meio da perna anafada. Blusa garrida e estampada, de manga comprida. Carregada, quereria passar para a outra banda.

O xaile típico, supostamente amarelado, de lã, com cadilhos torcidos, caindo pelas costas, dobrado em diagonal, sustido no braço esquerdo, envolve a afadigada mulher. Segura à cabeça, em equilíbrio, um cesto de vime, pejado de lenha que acarreta para casa. Para atear a fogueira onde as crianças se aquecerão enquanto cozinha, durante o inverno?

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De perfil… 

Ó da barca!...

De frente, com rodilha a proteger-lhe a cabeça, de cabelo apanhado, faz prova de esforço, com os braços em asas de ânfora, que sustêm e equilibram o peso da lenha.

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Poderia ter inspirado algum escultor da VA? Existe uma figura de mulher – tricana –, policromada, de cantarinha à cabeça, que, de algum modo, me lembra esta mulher.

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De frente, para a fotografia
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Ó da barca!...
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Ó da barca!...

E a grande e negra barcaça aproxima-se lentamente, para transportar a esforçada passageira. Vidas e destinos!..............

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Ó da barca!...

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Fotografias – Gentil cedência de familiar de Cândido Ançã

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Ílhavo, 11 de Julho de 2021

Ana Maria Lopes

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sábado, 5 de janeiro de 2019

CMI celebra 40º aniversário da ponte da Vista Alegre


A Câmara de Ílhavo, numa iniciativa conjunta com a junta de Freguesia de S. Salvador e a Fábrica da Vista Alegre, vai assinalar, amanhã, dia 6, pelas 17 horas, o 40º aniversário da abertura da segunda ponte da Vista Alegre. Esta infra-estrutura, que atravessa o Rio Boco, ligando a Vista Alegre e a Gafanha da Boa Vista, para além do garante da mobilidade, incorpora uma realidade histórica entre 1977 e 1979. A recordar:
Pelos anos 30, o transporte de passageiros entre as duas margens da ria, era feito por uma barcaça, movida à vara.
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Era assim a travessia…pelos anos 30
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Por trás da proa do barco moliceiro, vê-se a tal barcaça, para travessia de peões.
Apesar do cenário bucólico e da paisagem idílica, uma ponte fazia muita falta, pois a travessia da barca, em dias de vendaval, constituía um perigo.
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A travessia da ria, pelos anos 50
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Depois de um abaixo assinado, entregue em Dezembro de 1974, em que o «pai» da ideia, – João André Patoilo – dava conta da necessidade da construção de uma ponte que unisse as duas margens da ria, o empreendimento teve o seu início em Abril de 1978, começando a dar passagem a peões em Setembro do mesmo ano. Teve a sua inauguração oficial em 6 de Janeiro de 1979, já, portanto há 40 anos.
Com a presença de várias autoridades e depois dos discursos da praxe e do «passeio» a pé pela nova ponte, foi servido no Refeitório da Fábrica da Vista Alegre, um convidativo almoço que reuniu cerca de100 convidados.
Assim acabou a travessia da barcaça, que após a inauguração da primeira ponte que naquele local existiu, realizada em 1835, começou a transportar para um ou outro lado da ria quantos à fábrica vinham prestar o seu trabalho, ou à vila tinham que se deslocar.
A ponte ainda lá está, já foi restaurada por algumas vezes, restauro esse que tem deixado, muitas vezes, a desejar.
O seu tremelicar, ao transpô-la, faz-nos lembrar todos os acidentes com pontes em que o país tem sido fértil, ultimamente.
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Ponte da Vista Alegre em 2009
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Agora, mais do que nunca, a ponte deve estar sempre cuidada, sobretudo depois da requalificação que o lugar sofreu, com o restauro da Capela, com todas as suas riquezas escultóricas e pictóricas, do Museu, do ex-Teatro Ribalta, das lojas da Fábrica e da instalação do recente Hotel Montebelo, de cinco estrelas que acolhe visitantes e reuniões de luxo. O bairro operário, bonitas moradias e outros arruamentos andam, aos poucos, a ser reconstruídos.
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O prémio Escolha do Público do galardão europeu RegioStars foi, no transacto ano, atribuído, em Bruxelas, ao projecto de requalificação do lugar da Vista Alegre, em Ílhavo, que se propôs a preservar a identidade daquela empresa de porcelana fundada em 1824.
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Ílhavo, 5 de Janeiro de 2019
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Ana Maria Lopes-

sábado, 6 de abril de 2013

Travessia na Vista-Alegre nos anos 50

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Uma paisagem que sempre me encantou – a travessia do Canal do Boco, entre as traseiras da quase bicentenária Fábrica da Vista-Alegre e a Gafanha da Boavista – com a sua luminosidade, a água espelhante, a barca de negro embreada, timonada pelo barqueiro (Ó, da barca!...), a simplicidade tosca do trapiche… Hoje, figura humana enriquece a paisagem. Mulher das Gafanhas…
 
Mulher de trabalho, de pés descalços, veste com grande simplicidade: saia lisa, ajustada e avental florido pelo meio da perna anafada. Blusa garrida e estampada, de manga comprida. Carregada, quereria passar para a outra banda.
 
O xaile típico, supostamente amarelado, de lã, com cadilhos torcidos, caindo pelas costas, dobrado em diagonal, sustido no braço esquerdo, envolve a afadigada mulher. Segura à cabeça, em equilíbrio, um cesto de vime, pejado de lenha que acarreta para casa. Para atear a fogueira onde as crianças se aquecerão enquanto cozinha, durante o inverno?


De perfil…
Ó da barca!...
De frente, com rodilha a proteger-lhe a cabeça, de cabelo apanhado, faz prova de esforço, com os braços em asas de ânfora, que sustêm e equilibram o peso da lenha.
 
Poderia ter inspirado algum escultor da VA? Existe uma figura de mulher – tricana –, policromada, de cantarinha à cabeça, que, de algum modo, me lembra esta mulher.


De frente, para a fotografia


 
Ó da barca!...

E a grande e negra barcaça aproxima-se lentamente, para transportar a esforçada passageira. Vidas e destinos!..............
Ó da barca!...
Fotografias - Gentil cedência de familiar de Cândido Ançã
Ílhavo,  6 de Abril de 2013

Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Feira dos Treze na Vista Alegre - II




E o movimento da feira prossegue…


E o fatico a escolher...

É só escolher! – ecoava o pregão da vendedeira. E os interessados lá se agachavam à procura da peça ideal, no fatico amontoado. Era costume mandar vender à feira as peças de roupa de que desgostávamos.
De frente para nós, um friso de “mulheres”, em elegante jeito de tricana moderna, cabelo descoberto, luzidio e arrepiado no seu totó, bem aninhado. Xailes pretos, de malha de seda e franja alta, delineavam-lhes o busto. E o sapato apitorrado de tacão médio elevava-lhes a figura. Ao lado, um gentleman, de fato, camisa e chapéu de feltro, espreitava a cena, trilhando artisticamente entre os dedos a prisca do cigarro, qual galã de cinema.


Mas…e a rodilha multicolor e o chapeuzinho vindo da Gândara, tão característico também da mulher de Ílhavo, redondo, tipo queijo da serra, com pequena aba colada à copa, contornada por fita de veludo, com laço abatido e pequeno penacho?
E o painel expositivo continua.

A latoaria…


Aqui, a diversidade da oferta é estonteante: jarros, bacias, baldes, penicos, panelas, tachos, cafeteiras, chocolateiras, leiteiras, malgas, pratos, de alumínio ou esmalte.
E as considerações sobre o trajar não mais teriam fim – lenços na cabeça, sob o chapéu, uns caídos a envolvê-la, de pontas amarradas à frente, outros, cruzados atrás, e de pontas soltas sobre o colo, outros, trespassados sob o queixo e de nó cego atrás, e ainda outros cruzados atrás e pontas torcidas e amarradas no cocuruto da cabeça.

Também as saias rodadas, pelo meio da perna, encilhadas pela faixa, compunham o “ramalhete”.

Esta passerelle era um testemunho de hábitos e costumes de classes sociais diferentes, desde o povo de pé descalço, actuante, até à senhora de média burguesia, espectadora.

Cansada, mas deleitada, de tanto observar e descrever. O leitor arguto que conclua, descobrindo, porventura, mais alguns pormenores interessantes.
Fiz, com gosto, esta romagem à Feira dos Treze, num qualquer mês de 1935.

Imagens cedidas, gentilmente, por pessoa amiga

Ílhavo, 19 de Abril de 2010

Ana Maria Lopes

sábado, 10 de abril de 2010

Feira dos Treze na Vista Alegre - I


Já que tivemos a oportunidade de atravessar o Canal do Boco da ria de Aveiro, que banha as traseiras da Vista Alegre, visitemos, hoje, uma feira dos 13, em 1935, através de quatro fotografias que são um documento.

O Bispo D. Manuel de Moura Manuel terá desenvolvido junto da Coroa e apoiado o despacho de D. Pedro II da Feira Franca da Vista Alegre, que, na prática, foi reduzida a feira mensal, instituída todos os dias treze de cada mês. Foi, pois, a 15 de Junho de 1693, que foi estabelecido o alvará da Feira dos Treze, também conhecida pela feira do Bispo, a pedido do povo e autoridades de Ílhavo.

A importância desta feira como centro dinamizador das trocas na zona, trazendo até nós populações vizinhas e até estrangeiras, foi de uma importância enorme para a fixação de populações. Tornou-se numa das feiras mais movimentadas da época, onde se vendiam e procuravam o sal, produtos agrícolas, gado, lenha, peixe, cereais, etc.
Aceder-se-ia a ela, através dos parcos meios de transporte da época, não menosprezando, de modo algum, o acesso lagunar, para várias populações ribeirinhas.

Hoje em dia, a feira tem pouco em comum com a realidade de outros tempos: antigamente os feirantes chegavam de véspera, bebiam vinho verde, comiam castanhas assadas e variados petiscos; dançava-se e cantava-se desde o alvorecer. O mês mais importante para a realização da feira era, e ainda é, o de Novembro, coincidindo com o dia de S. Martinho.
Ainda hoje se realiza, apesar de ter perdido o carácter de acontecimento social. Era uma das mais movimentadas da época.
O próprio movimento em Espinheiro, em dias de Feira, era notório; hoje, o dia nem lembra.

Os barros, junto ao rio…


Comecemos pela imagem dos barros, junto à Ria, de oleiros que vinham da zona de Ovar, e que ali tinham umas características e toscas barracas, onde deixavam muito material em barro, de umas feiras para as outras – vasos, alguidares, bacias, púcaras, cântaras, bilhas, jarras, assadores de castanhas, buzinas, etc.

Os panos pendurados em arco…


Os compradores procuravam os tecidos que mais lhes agradavam, regateando preços, para comprar o melhor possível.

Os panos pendurados em arco despertavam os olhos arregalados das freguesas. As imagens apresentam um verdadeiro figurino de época: xailes grosseiros e rudes, pela cabeça, atados à cinta, suportados aos ombros, caídos, traçados à frente ou passando por baixo de um dos braços, com a ponta encavalitada no ombro oposto.

(Cont.)

Ílhavo, 10 de Abril de 2010

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 31 de março de 2010

A ponte da Vista Alegre



Quando recolhi elementos para construção actual da Ponte das Duas Águas, que dá acesso à zona das praias, passaram-me pelas mãos alguns dados da ponte da Vista Alegre, que não desperdicei.
Sempre foi um local, aqui na região, aprazível, até onde sempre gostei de dar uma passeata – seria o fascínio da ria… e o vigor da juventude. Para aí há uns 45 anos, lembrava-me que o transporte de passageiros entre as duas margens da ria, era feito por uma barcaça, movida à vara.

Era assim a travessia…pelos anos 30


Por trás da proa do barco moliceiro, vê-se a tal barcaça, para travessia de peões.
Apesar do cenário bucólico e da paisagem idílica, uma ponte fazia muita falta, pois a travessia da barcaça, em dias de vendaval, constituía um perigo.

A travessia da ria, pelos anos 50


Depois de um abaixo assinado, entregue em Dezembro de 1974, em que o “pai” da ideia, – João André Patoilo – dava conta da necessidade da construção de uma ponte que unisse as duas margens da ria, o empreendimento teve o seu início em Abril de 1978, começando a dar passagem a peões em Setembro do mesmo ano. Teve a sua inauguração oficial em 6 de Janeiro de 1979, já fez trinta anos.
Com a presença de várias autoridades e depois dos discursos da praxe e do “passeio” a pé pela nova ponte, foi servido no Refeitório da Fábrica da Vista Alegre, um convidativo almoço que reuniu cerca de 100 convidados.
Assim acabou a travessia da barcaça, que após a inauguração da primeira ponte que naquele local existiu, realizada em 1835, começou a transportar para um ou outro lado da ria quantos à fábrica vinham prestar o seu trabalho, ou à vila tinham que se deslocar.
A ponte ainda lá está, já foi restaurada por algumas vezes, mas restauro esse que deixa sempre a desejar.
O seu tremelicar, ao transpô-la, faz-nos lembrar todos os acidentes com pontes em que o país tem sido fértil, ultimamente.

Actual ponte da Vista Alegre


Já agora, não faltaria olhar só pela ponte. E a Capela da Vista Alegre, com todas as suas riquezas escultóricas e pictóricas? E o bairro operário? E as bonitas moradias? E os arruamentos e árvores exóticas e centenárias? E o arquinho de acesso pedonal à ponte?
Faz pena passar hoje pela Vista Alegre, local outrora idílico e cuidadosamente preservado, actualmente votado ao total abandono.

Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 31 de Março de 2009

Ana Maria Lopes