domingo, 13 de novembro de 2011

Associação dos Oficiais da Marinha Mercante de Ílhavo

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Há dias, o amigo João Reinaldo, depois da procissão do Senhor Jesus dos Navegantes, confidenciou-me que tinha uma questão a pôr-me, relativamente à Bandeira dos Oficiais, porque haviam constatado que a insígnia estava algo danificada e que necessitaria de restauro.

Depois de nos informarmos acerca da peça (de que se revelou haver duas), uma mais antiga que a actual, observámo-las, para propor um possível restauro aos Amigos do Museu, cuja intenção seria participada à Unidade Directiva da instituição museológica.
Após a sua observação, começámos imediatamente por concluir que não seria uma, a original, e outra, a réplica, porque, embora os motivos bordados fossem os mesmos, os dizeres diferiam.

A primeira, cujo navio, à popa, desfraldava uma pequena bandeira monárquica, referia:

CLASSE MARÍTIMA
ILHAVENSE



A segunda, cuja bandeira, à popa do navio, já era republicana, rezava:

ASSOCIAÇÃO DOS OFICIAIS DA MARINHA MERCANTE
ÍHAVO – 1921 – 1926




A partir daqui, muitas dúvidas se puseram: o nosso amigo Vitorino Ramalheira, o menos jovem dos presentes, disse lembrar-se de ir a uma sede da tal Associação, pela mão do seu Pai, ali pela Praça da República.

Entretanto, em local, a meu ver, não muito adequado para conversas sobre bandeiras, em despedida de um colega Oficial à sua última morada, encontraram-se alguns dos mais velhos oficiais da nossa praça.

Chegaram-me alguns recados não muito elucidativos sobre o assunto, mas eu é que não descansei mais, no sentido de me informar melhor.
A origem da bandeira, por agora, passou a interessar-me bastante mais que o seu restauro.

Data de 1921, que fazer? Se coincide exactamente com o ano da criação do Jornal O Ilhavense, toca de começar a percorrê-lo (nesta época, há algumas faltas de números), pelo menos durante essa meia dúzia de anos.
A história – logo nos primeiros nºs entre 1922 e 23 – confirmou a existência de uma Associação de Oficiais da Marinha Mercante, em Ílhavo, fundada a 1 de Janeiro de 1921, com sede provisória no salão do «Club dos Novos». Fiquei a saber quem foi constituindo a sua Direcção e Assembleia Geral, bem como os assuntos pelos quais mais se interessava – a necessidade de um navio-hospital que acompanhasse a frota, proposta da criação da Escola Náutica, cumprimento da lei no que concerne a matrículas, etc.

Qual não foi o meu espanto, quando, ao chegar a casa me deu para teclar a referência em causa na Internet e me apareceram cerca de 70 páginas, em PDF, dignas de crédito, pois eram constituídas por documentação legal, vários Estatutos que se foram reformulando uns aos outros, uma acta e o rol dos 152 sócios, quase todos nomes que nos são familiares.

(Sic) São, então, aprovados os estatutos de uma nova associação de classe (é porque houve uma anterior, como indicia a existência da bandeira mais antiga), a constituir em Ílhavo, sob a denominação de Associação de Classe dos Oficiais da Marinha Mercante Portugueza.
Em acta da Assembleia Geral de 23 de Janeiro de 1927 (via Internet), num dos últimos pontos, é tratado o assunto da bandeira:
(Sic) A «Bandeira Marítima», por costume estabelecido entre os marítimos de Ílhavo, vai, todos os anos, na procissão do Senhor Jesus dos Navegantes. Essa bandeira vai ser substituída por uma nova da Associação.

Estaria esclarecida a questão da existência das duas bandeiras e a origem, pelo menos da segunda.
E quem a teria bordado? Leonilde da Velha, hábil neste tipo de labores? Seria uma hipótese, divulgada em desdobrável de uma exposição de trabalhos desta hábil Artista, em Abril de 1992, a meu ver, não muito viável.
Nota – Nem sempre os dados nos surgem quando os procuramos e, há uns dias, tive acesso ao Livro de Actas da AOMMI, aberto em 26 de Dezembro de 1920, para tal fim.

Antes da reunião da fundação (1921), já citada, houve uma reunião preparatória em 6 de Dezembro de 1920, no salão do «Club dos Novos», donde saiu a constituição de uma Comissão instaladora. Segundo os associados, esta AOMMI deveria ser independente, embora intimamente ligada à Liga de Oficiais da Marinha Mercante de Lisboa.
Numa tarde outonal de um domingo já frescote, fui perpassando os olhos pelo tal Livro de Actas, e constatei:

– (…) que só cerca de um ano mais tarde, a sede da Associação se transferiu do salão do «Club dos Novos» para um prédio alugado ao Senhor António Dias Afonso, na Praça da República, junto ao prédio pertencente ao Senhor Joaquim Machado (acta de 31 de Janeiro de 1921).
– (…) que a Direcção mandasse fazer uma bandeira de gala, própria, em vez de chamar a si a bandeira marítima que existe nesta vila ( acta de 8 de Fevereiro de 1921).
– (…) que a bandeira de gala tem um regulamento com onze esmiunçados artigos (acta de 8 de Dezembro de 1926).
– (…) que José de Oliveira da Maia Alcoforado ofereceu umas fitas da cor da Bandeira Nacional para a bandeira de gala da colectividade ( acta de 18 de Dezembro de 1932).

Esta é a última acta registada neste Livro de Actas, tendo restado ainda algumas folhas em branco.

(Cont).

Fotografias – Da autora do blog

Ílhavo, 13 de Novembro de 2011

Ana Maria Lopes
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sábado, 5 de novembro de 2011

O Barco Mercantel ou Saleiro - 2

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À medida que o barquinho ia crescendo, a minha caixa de memórias deixava escapar lembranças que nem eu sabia que lá estavam guardadas.
 
Primeiro apareceram os barcos da passagem da Bestida para a praia da Torreira. Como os recordava grandes e altos que até me faziam pôr em bicos de pés a espreitar por cima das falcas para ver correr a água! Depois vieram as viagens à Senhora das Areias em São Jacinto, nos barcos do Sr. Henrique Ramos, com música, cantadores e muitas cestas com merendas.
 
Entretanto, também lembrava os que chegavam cheios de cacos de telhas e de tijolos das fábricas de Aveiro, para descarregarem ao longo das secas da Cale da Vila desde os estaleiros até ao esteiro do Oudinot. Foram eles que pavimentaram o que seria a marginal limitada pela muralha que chegou depois, feita com pedras que os mercantéis igualmente iam buscar algures lá para o norte.


Mas, havia ainda o torrão e o saibro com que os lavradores da Marinha Velha e da Cambeia fizeram dos caminhos de carro as estradinhas, que hoje são algumas das ruas da cidade da Gafanha da Nazaré.

Eram igualmente estes barcos que os descarregavam ao longo da borda nos locais das margens da Ria onde podiam chegar os carros de bois.

Para todos os lados se avistavam os mercantéis, incansáveis trabalhadores da Ria. À vara, à vela e até à sirga, acarretavam tudo o que era necessário à vida dos povos que cercavam este grande espelho de água e que para seu uso diário os idealizaram e construíram.


À vela, à sirga ou à vara…


Esguios e fortes, mas ágeis e bons de vela, quando governados pelas mãos práticas dos seus arrais, sulcavam não só os esteiros das salinas, mas ainda os estreitos canais da cidade.
 
Sem dúvida, era no trabalho das marinhas, carregando o sal que lhes deu o nome, que melhor se identificavam e se embelezavam com aquelas cargas cintilantes.



Postal – Ao serviço do sal…



Nasceram com esta missão específica e foi durante a faina da descarga do sal, feito pelas salineiras no canal de S. Roque, que os olhos perspicazes dos artistas os imortalizaram em telas por todos conhecidas.


Óleo de Cândido Teles


Foram estas memórias que fui revivendo durante as horas da construção do modelo que me fizeram ver como era notável a dignidade que transparecia desta embarcação. Não era vistoso o seu aspecto, mas irradiava segurança, força e altivez.

Na verdade foi um senhor da nossa Ria.

As suas medidas principais eram:

Comprimento……………..18.00 metros
Boca…………………....…..03.28 m
Pontal……………………...00.73 m
Escala………………………1/25

30.9.2011

António Marques da Silva


Imagens – Da autora do blog

Ílhavo, 5 de Novembro de 2011

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Barco Mercantel ou Saleiro - 1

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Mais uma vez, aproveitando a onda dos modelos, tentei o amigo MS a miniaturizar a maior embarcação da laguna, e, eventualmente, uma das mais antigas (das maiores), que ainda faltava na sua colecção.

Acedeu com gosto à minha proposta e aproveitou, para base de trabalho, o barco mercantel, construído pelo Mestre António Esteves de Pardilhó, em 2001, que a Sala da Ria do MMI exibe.
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Tirou minuciosamente os seus apontamentos, por meados de Maio, estando pronto de casco, em bruto, em fins de Agosto. Pintura e vela, concluiu-as até agora, meados de Outubro.
E fotografá-lo tão dignamente como merecia? Sem estúdios, nem condições profissionais, nada como ir ao terreno e dar-lhe a provar o sabor da água da Ria.

Aproado na borda, espera a carga


Lá fomos até à Praia dos Tesos, no Jardim Oudinot, com todo o cuidado, fazer os «clichés» que nos aprouve. Abicou à borda e a suave aragem outonal encheu-lhe o pano, a nosso agrado.
E o Marintimidades não podia deixar de acolher este senhor da Ria.

Refere Marques da Silva:

Completada a pesquisa que efectuei acerca das bateiras da Ria de Aveiro, entendi que esse trabalho ficaria valorizado se, para termo de comparação de dimensões e formas, efectuasse um levantamento rigoroso do barco mercantel ou saleiro.

Aproveitando a oportunidade de ter na sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo um magnífico exemplar destes barcos, recolhi em óptimas condições todas as medidas e pormenores de construção, necessários ao trabalho que me propunha executar.
Tal como fiz para as bateiras, desenhei com rigor um plano de formas do casco e um plano vélico, de modo a ter possibilidade de construir um modelo completo, seguindo as regras usadas pelos construtores, aplicando a escala de 1/25, como tinha feito para as anteriores.

Utilizei balsa para o fundo e madeira de choupo para os costados. Para o cavername, roda de proa, cadaste e bancadas, serrei ramos de limoeiro. No mastro, verga e varas, apliquei ramos de ameixieira. Na vela usei pano de algodão e nas ferragens do leme e na fateixa, arame de cobre.
Como acabamento apliquei bondex no costado e tinta branca nas caras de vante e de ré. A cobertura da casa da proa, a draga, a cinta e a porta do leme, pintei-as com tinta preta sem brilho e espalhei serradura fina nos locais adequados, simulando o que era costume fazer para dar aderência aos pés do barqueiro quando trabalhava com as varas.

Pormenor do interior da proa


(Cont.)

Ílhavo, 27 de Outubro de 2011
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ílhavo na «rota» do Titanic - 2

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Não é que umas casas adiante da minha, na mesma rua, residem mais talheres do Titanic, autênticos, com a mesma origem, há cerca de meio século? Fiquei ansiosa por vê-los, fotografá-los e ouvir a versão do achado, quase há cem anos.




Colheres de chá

Em tudo era concordante com a que toda a vida ouvira e alargou-me mais os horizontes, acicatando-me o espírito de pesquisa e a curiosidade inerente.

Garfos



Lembrei-me, só agora, de ir ao Arquivo do MMI consultar as fichas vindas do GANPB e certificar-me de dados mais concretos do suposto achadorJoão Grilo, de alcunha, Frade.

Se o nome da pessoa não for completo, não se consegue facilmente o objectivo, mas, com paciência e consulta de outros documentos, lá chegámos à ficha do Capitão João Francisco Grilo:


Ficha do GANPB


Fornece-nos muitos dados, entre os quais o local e a data de nascimento, Ílhavo, em 1894, e navios que comandou.

À época, 1912, capitaneava um primeiro lugre Trombetas, da mesma firma (Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca da Figueira da Foz) que o lugre Leopoldina, que João Francisco Grilo também comandou, mas não nesse ano.

À época, também da Figueira, comandava o meu Avô, nascido em 1885, o lugre Golphinho. Sendo aparentado e amigo de João Grilo, recebeu as colheres que este «pescara» e lhe oferecera, como relíquia do inafundável Titanic.


E com estas achegas, se vai cada vez mais o «puzzle» compondo.

Terei ou não razão no título deste arrazoado?


Quem quiser estar por dentro do verdadeiro espólio do Titanic, tem que colocar Ílhavo na «rota» do seu destino.


Ou por que não a RMS Titanic pensar em fazer um exposição, em Ílhavo? Nunca se sabe.


Rotas cruzadas – Viagem inaugural do Titanic e ida para os pesqueiros dos lugres da Pesca do Bacalhau.



Imagens – Arquivo da autora do blog

Ficha  do Grémio– amável cedência do MMI


Ílhavo, 24 de Outubro de 2011

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

10º Aniversário da Ampliação e Remodelação do Museu Marítimo de Ílhavo




PROGRAMA

21 de Outubro | Sexta-feira
: 10 h-18 h Dia aberto

: 10 h-17 h Jornadas do Mar «10º Aniversário»

                  Actividades do Serviço Educativo


22 de Outubro | Sábado


: 16 h Sessão Comemorativa do 10º Aniversário da Ampliação e Remodelação do MMI

: Apresentação do programa comemorativo dos 75 Anos do Museu Marítimo de Ílhavo

: Inauguração da exposição de pintura Álbum do Mar, de Costa Pinheiro

: Exposição da peça O Barco dos Apóstolos, depósito da Família do Tenente Alberto da Maia Mendonça e esposa Maria Casimira Gomes da Cunha

: Apresentação do Livro Bateiras da Ria de Aveiro: Memórias e Modelos, de António Marques da Silva e Ana Maria Lopes

: 17 h30 Quarteto de Flautas da Universidade de Aveiro (Marés de Música – Ílhavo 2011)


Fonte – MMI
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Ílhavo, 20 de Outubro de 2011
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A famigerada bateira erveira de Canelas... no MMI - 2

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(Cont.)

E, então, a embarcação que agora relembro ao Sr. Manuel Pires, que ainda fotografei semi-abandonada no esteiro de Canelas (anos 80)?



Esta seria mais a verdadeira bateira erveira de Canelas, já sabia, aceito. Mais barata, menor, utilizada exactamente para os mesmos fins: comprimento, 9, 40 metros 2 metros de boca e 14 cavernas, não contando com as dos golfiões duplos. Preparada com traste, para aplicação de mastro. O seu acesso às medidas, á época, não foi fácil.

Popa da bateira erveira e reflexo
(Anos 80)

As pessoas com mais posses, mais abastadas, preferiam mandar construir a primeira de que falámos, chamando-lhe barco, para distinguir.
Há pontos que lhes são comuns e de que não abdicavam: um par de golfiões à proa e outro à ré, bordo com cinta e draga, embreamento a negro, uso de casca de arroz a polvilhar os locais escorregadios, não sendo as pintas decorativas, obrigatórias.

Sondando o Mestre Pires relativamente a um convívio com os construtores de matolas, renegou-o, sul é sul e norte é norte, da Ria – revelou. Desconhecia onde o pai teria ido buscar os moldes de proa e ré, sobretudo, da famigerada bateira erveira de Canelas.
Tê-los-ia, muito mais idênticos, ali mais à mão, no estaleiros dos Mestres Garridos. Se não é bateira a nomenclatura mais correcta, mas poderá ser barco, matola é que nunca. Teriam de me convencer muito bem e, hoje, já não é fácil. Onde tem o matola, a elegância desta proa, além das outras diferenças já apontadas?
Pareceres...
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Sempre ouvi falar só num tipo de matolas, do que fui vendo há dezenas de anos pela Ria, e do que lia nos livros de registos da Capitania, que consultei na época. Eram-lhe atribuídas as seguintes medidas – comprimento, 13, 50 metros, 2, 50 m de boca, e de pontal 0, 45 m. E já mo confirmara o mestre do Seixo, ainda nos anos 80, conhecido carinhosamente por Mestre João Gadelha, pai do actual Evangelista Loureiro (também conhecido por Gadelha).

Este trabalho que agora reconheci em Canelas é para uma representação turística e sabemos que aí os barcos perdem alguma dignidade. Não vai ter mastro, nem vela, embora tenha  coicia, traste e uma minúscula enora. Não vai ter leme, nem fêmeas do leme tem, e a pá da borda não corresponde à traça correcta, pois não está ajustada para navegar.
Mantém as cavernas de arrancas de carvalho, como todos os barcos de Canelas, mais resistentes às águas doces e salobras da região.
Não teria sido mau que tivesse concluído que a embarcação em causa era um matola, mas não concluí. Serei livre de assim pensar, perante os diversos contextos por que fui passando.
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Foi frutuosa a visita ao galpão polivalente e improvisado de Manuel Pires: tinha de tudo que o tempo ainda não apagou: chão de terreiro, próprio para enterrar as estacas, teias de aranha pendentes dos travejamentos superiores, pipas de vinho, cabras à solta, moldes, paus de pontos, restos de madeira de pinho e de arrancas de carvalho. Fiquei razoavelmente elucidada, tendo gostado da clareza explicativa de Manuel Pires.

Imagens – Do arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 12 de Outubro de 2011
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A famigerada bateira erveira de Canelas...no MMI - 1

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(Esclarecimento)

Sobre a famigerada bateira erveira de Canelas, como Senos da Fonseca a trata, no seu último blogue Arquitectura Naval Lagunar, Bateiras, II parte, pensei se lhe havia de responder, não concordando inteiramente com algumas das afirmações que faz. Ter dúvidas é  salutar; sabendo eu que gosta que haja opiniões discordantes das suas, eis as minhas, com as quais pode não concordar:
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Em primeiro lugar, não tenho nenhum cargo oficial ligado ao Museu, presentemente; são heranças do passado (não haja confusões), mas o Sr. Engenheiro saberá(?) que aquela classificação foi feita por mim, já em 1995, aquando da inauguração da Sala da Ria em 25 de Novembro de 1995. E continuou na actual, no edifício renovado e remodelado, tendo-me tudo passado pelas mãos.

É muito natural com o feitio que me conhece das impressões marítimas e livreiras trocadas, que logo tenha imaginado que eu não deixaria de ir ao terreno, saber e ver o que se estava a passar lá por Canelas. Poderia ter-me enganado, poderia a classificação de D. José de Castro de 1943, em Estudos EtnográficosAveiro, estudo notável que muito prezo, ter influenciado a opção da nomenclatura que adoptei. Errare humanum est

Mas, a bem da classificação do património, voltei a Canelas para falar com Manuel Pires (n. em 4.2.1952), que trabalha, por gosto e jeito, em reconstrução de caçadeiras, quando tem que fazer e lhe sobra tempo do seu emprego fixo na Portucel e da agricultura.

É filho do construtor Arnaldo Domingues Rodrigues Pires (1921-1997), com quem conversei demoradamente por volta de 1985 e com quem estive mais vezes. O Ti Arnaldo trabalhou uns bons anos com o Mestre Luciano Garrido até 1970. Entretanto, estabeleceu-se num acanhado estaleiro onde me recebeu, ajudou a construiu muitos «barcos de Canelas» (longe ainda de eu estar no Museu), designação genérica por que também eram  conhecidos, em Canelas e Salreu.
Construiu a embarcação em causa em 1964 e ofereceu à própria instituição de Ílhavo, os moldes com que a construiu e que lá são exibidos. Dá a entender que o tipo de construção «encerrara», com a doação dos moldes.

A embarcação, na altura, estava no activo, mudava gado, transportava pessoal, transportava ervas, apanhava moliço e levava os seus proprietários até ao S. Paio. Mede 10. 00 metros de comprimento, 2.00 metros de boca e 0,48 m de pontal.

Barco de Canelas

Constatei que era emblemática em Canelas, porque não tendo nenhuma embarcação do «antigamente» que representasse o povo trabalhador, a Junta de Freguesia, em protocolo com a CME, mandou construir este exemplar, visitável,  a colocar, além, numas valas de água doce. Ainda permanece em casa do construtor, porque as valas, por agora, estão muito secas.

As suas medidas sofrem algumas alterações, devido à viagem que ele terá de fazer entre valas, e no resto, tinha umas ideias das construções do pai; já alguns moldes, os de roda da proa e popa construiu-os  novos, vê-se pelo estado e coloração da madeira e fez muita coisa a olho - testemunhou-me.



Portanto, as medidas sofrem um pouco do estado de conveniência do local para onde vai. Roubou-lhe, sobretudo ao comprimento, passou a ter 8, 82 metros, 2, 07 m de boca ,e de  pontal, 0, 55 m.

Nº de cavernas – 14 + 2 pares de golfiões elevados, à proa e à ré e outro par, à ré, à face, os do cagarete.

Tem bordo, com cinta e draga, para facilitar o percurso ao longo dele.

(Cont.)

Imagens – Do arquivo pessoal da Autora

Ílhavo, 3 de Outubro de 2011

Ana Maria Lopes