domingo, 21 de fevereiro de 2016

A CATRAIA de ESPOSENDE


Concluído o meu modelo da masseira de Vila Praia de Âncora, tinha chegado a hora de continuar a navegar para o sul, pois era esse o caminho que vinha fazendo, ao encontro de embarcações de pesca local. 
Não foi necessário percorrer grande distância, pois chegado a Esposende, logo os olhos ficaram presos na elegante e vaidosa catraia, embarcação que foi muito utilizada, em toda esta zona da nossa costa.
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De Esposende para sul até ao Douro, era possível encontrar sempre embarcações deste tipo. Mesmo com pequenas alterações, necessárias à arte de pesca ou ao local onde tinham de trabalhar, era sempre bela a sua presença.
Mas é a catraia piladeira de Apúlia, que eu vou tentar reproduzir, seguindo os desenhos do magnífico livro «Embarcações Tradicionais: Em busca de um património esquecido» de Ivone Baptista de Magalhães, p. 80, e todas as preciosas informações que a pesquisa no computador sempre pode facultar. 

Desenho do livro citado

Como sabemos, esta embarcação que não passava dos sete metros de comprimento, era construída com uma elegância de linhas e uma beleza de formas que a meu ver, é difícil de superar.
Tendo de boca, isto é, de máxima largura, uma dimensão que à primeira vista parecia exagerada, os seus construtores conseguiram com o lançamento de proa e os bem delineados delgados de popa, fazer um casco que dá gosto observar.
Certo é, que não foi de ânimo leve que assim o idealizaram com tão grande largura. A vela que lhe estava destinada era enorme e foi essa a forma de a conseguir envergar e marear, permitindo atingir com segurança, uma considerável velocidade.
Foi com todas as informações que consegui recolher, que preparei como é meu costume, um plano de construção de modelo de uma catraia piladeira, na escala de 1/25, para juntar aos meus anteriores modelos.
Principiei então a preparação do estaleiro e a escolha da madeira para a quilha, roda de proa e cadaste. Depois para o cavername escolhi os ramos mais curvos, que melhor se adaptavam às delicadas formas da minha catraia que ia ficando cada dia mais bonita. Mas quando se aplicaram as sarretas e as primeiras tábuas da cinta, era um gosto para a vista e até mereceu a sessão de fotografias que a perícia do meu sobrinho Quim tão bem fixou e que eu vou guardar para memória futura.

Uma mão cheia …de cavername

Aos poucos fui concluindo o tabuado do casco, e depois dos arranjos interiores, apliquei por fora e por dentro o costumado tratamento para a madeira, que a deixou de cor dourada e tão bonita que nem apetecia pintá-la.
Mas era preciso fazer a porta do leme e respectiva ferragem para fixação no cadaste e em seguida tratar do mastro e da verga para definir o painel da vela.

Pormenor dos aprestos
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Pronta a vela, comecei a construir a fateixa, a polé, o vertedouro e os forcados, onde arrumei os quatro remos depois de prontos, para não estorvarem a manobra de rede, que consegui arrumar numa das casas da popa.
Ficou assim pronto o meu modelo da catraia piladeira de Apúlia, a que atribui o nome de Gaivina.
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A Gaivina – catraia piladeira de Apúlia
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Como de costume, apliquei madeira de limoeiro nas peças estruturais da ossada e choupo no forro dos costados. Para as ferragens usei arame de cobre, nos remos, madeira de tola e no mastro na verga e nos forcados, ramos de ameixieira. A vela, os cabos e a rede são de algodão.
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De proa…
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A catraia que procurei representar teria:
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Comprimento…………...7.00  m
Boca……………………..2.50  m
Pontal…………………...0.87  m
Escala utilizada 1/25

10/12/2015
António M. Silva 

4 comentários:

Anónimo disse...

Numa próxima «navegação» para Norte, permito-me sugerir à Drª Ana Maria Lopes que faça uma visita à ridente fréguesia de Apúlia, onde poderá apreciar a mais bela catraia-piladeira, o ADAMASTOR, que julgo ser a mais bela, e única, existente em Portugal.
Cordiais saudações marinheiras,
Al bino Gomes

Ana Maria Lopes disse...

Caro Sr. Albino:

Eu sei que a catraia-piladeira o ADAMASTOR se encontra na Apúlia. No entanto,obrigada pela sugestão de visita. Não sei quando será. Cumprimentos.

Ricardo Pedro da Costa Vale disse...

Como posso entrar em contacto com o artesão?pode me dizer por favor ?

Ana Maria Lopes disse...

Boa noite: O «artesão» é um ex-capitão da Marinha Mercante, António Marques da Silva, que faz embarcações, por gosto pessoal, e não executa para fora, isto é, não faz para vender. Cumprimentos.