quinta-feira, 10 de março de 2016

Música a bordo

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Em visita fortuita às reservas do Museu, deparei com uma grafonola antiga e incompleta com discos de vinil, de 78 rotações, que me fixou o olhar, que logo transmitiu o sinal à mente. Depois de observar o necessário, a conversa girou em torno da grafonola, a propósito de umas cavaqueiras tidas há muitos anos com o velho lobo do mar Capitão Almeida, assim era conhecido.
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Mais tarde foi-me dada a possibilidade de fotocopiar uns apontamentos dele, que possuo, a que recorro com alguma frequência. E assim foi. No Museu, contei aquilo de que me lembrava e, em casa, lá fui a esse baú, tenho vários, e dei logo com o que queria.
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Confessou-me o Capitão Almeida que, no primeiro ano de comando da pesca do bacalhau no lugre Argus (em 1933), mais tarde o Ana Maria da praça do Porto, após reconstrução sofrida no estaleiro de António Maria Mónica, na Gafanha da Nazaré, transmitiu música a bordo.
Argus velho, em 1934
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- Fui o primeiro capitão a dar música a bordo, para o que comprei, por intermédio do meu irmão mais velho, Manuel, uma caixa de música com corda manual, que ainda possuo, (e alguns discos de vinil antigos), com que contemplava os pescadores, em dias de boa pesca e bom tempo. Dizia-se que dava azar música a bordo (dizeres do povo), visto que no Titanic, quando se afundou (1912), a orquestra tocava a bordo.
- Pensei nisso – continuou a conversa – o que me fez, um dia, em que a pesca não estava a correr bem, partir o disco da Ramona, da Samaritana e outros de que gostava muito.
- Mas nunca desisti de dar música, até convencermos os armadores da Parceria Geral de Pescarias, Lda. a fazerem instalação eléctrica de música com altifalantes para o convés.
A música animava muito a companha e, muito principalmente, durante a escala, último e árduo trabalho a bordo, diariamente, depois da pesca, quando o tempo estava bom. Foi uma lição para os navios de outras companhias, em que os capitães também gostariam de música.
Os capitães da Parceria Geral de Pescarias, Lda. podiam, pois, considerar-se precursores da música a bordo sem maus presságios para a pesca. Quantas vezes, através dos nossos postos emissores enchemos o espaço de música, que outros navios, ainda sem instalação emissora, ouviam com agrado.
Mais tarde, foi-nos proibido pelo Gil Eannes, porque de terra se queixavam que interferíamos nas comunicações do correio e outras. Teria sido?
Mas, só para bordo, a coisa não falhava por intermédio de altifalantes.
Foi à volta deste episódio que, na hora lembrei, junto da grafonola, que a nossa conversa rodou.
Trazida da Parceria nos anos 90, anima as reservas do museu
A prova tinha passado por mim, pois «aquela grafonola» tinha sido trazida da Parceria (em 1991), pela equipa de pesquisas, preparatórias da montagem da Faina Maior.
Giraram os discos e rodou a vida. Tem sido um tal voltear!
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Ílhavo, 18 de Fevereiro de 2016
Ana Maria Lopes
 

4 comentários:

Maria Emília Castro disse...

Muito gosto de saber destas histórias!
Bem haja, Ana Maria!

Ana Maria Lopes disse...

Obrigada, Milita. Faço por ir divulgando as histórias que fui ouvindo.

marmol disse...

Não sabia que o percursor da música a bordo tinha sido o Capitão Almeida.
Era um facto quando a pesca era boa quer na linha, redes de emalhar ou arrasto, punha-se música para animar a escala.
Velhos tempos...

Anónimo disse...

Pois era. Nos anos 50, a bordo do Lousado, só nos davam música quando a pesca era farta.
E nada de fados, ou qualquer outra música mais ou menos lenta. Normalmente, sempre músicas alegres, à mistura com um ou outro copito de bagaço para animar a malta, que assim lá ia escalando ao ritmo...
Quando a pesca era fraca, então nem música fúnebre havia...

Al bino Gomes