Conforme imagem abaixo, fez parte de uma montagem, em miniatura, das companhas da borda do mar, da Costa-Nova, exibida durante muitos anos no nosso Museu, muito seguramente, desde a sua abertura oficial, em 8 de Agosto de 1937.
Montagem, em escala, de um palheiro, barco do mar das companhas e carro de bois de transporte de peixe – enxalavar –, M.M. e R. de Ílhavo, 1937
Através da leitura de correspondência de Américo Teles, tive, em tempos, conhecimento da encomenda (entre 1934 e 1937), por parte dos Amigos do Museu de então, de um conjunto de peças ao artesão aveirense, Porfírio da Maia Romão, exímio miniaturista: vinte e duas alfaias de amanho das marinhas, em dimensão real, e ainda uma maqueta de uma marinha, em miniatura pormenorizada, oito miniaturas de embarcações da Ria, que têm lugar digno na Sala da Ria e este modelo de barco do mar, também à escala.
Material perecível como é, esteve sujeito aos efeitos do tempo e às condições de exposição, que nem sempre têm sido as melhores.
Até para se ser miniatura, é preciso ter sorte!
Tendo-se disponibilizado o Sr. Capitão Marques da Silva, com as mãos, o saber e paciência que lhe são reconhecidos para restaurar alguns modelos necessitados de intervenção, este foi o escolhido para início de tão meritória como exigente tarefa.
Em que mãos extraordinárias ele foi cair!
Tive a sorte, graças ao bom relacionamento com o Amigo Marques da Silva de ir acompanhando o processo de restauro.
Toda a embarcação foi limpa cuidadosamente, zelada e tratada. Marques da Silva fez os possíveis por manter a decoração das quatro caras de proa e ré, por estar magnífica, e ser feita com tintas envelhecidas, hoje muito difíceis de imitar. Interveio com muita habilidade e leveza num ou noutro pequeno troço mais degradado, sobretudo da cercadura. Esta, constituída por bordadura de motivos campestres, repetidos, é clássica, neste tipo de decoração. Na cara da proa, a estibordo, a cruz de Cristo; a bombordo, a cabeça de um arrais, talvez o arrais Ançã, ambos os motivos envoltos em círculos.

As diversas ferragens foram igualmente aprimoradas e substituídas ou refeitas.
Segundo atentamente me informou pelo telefone, o que mais parece ter emocionado Marques da Silva, ao lixar cuidadosamente a tinta ressequida do costado, foi verificar que a feitura do “barquinho” não utilizava cola e tinha um tabuado extremamente perfeito, cavilhado a madeira de mangue, para cavernas inteiras e alternadas – palavras do próprio. Por isso, resolveu não pintar o costado, mas apenas dar-lhe uma espécie de bondex para tratamento da madeira, deixando à vista aquela obra de arte.

A sua intervenção foi mais profunda, a nível do aparelhar do barco – isto é, arte e aprestos, adequados.
Concluída a recuperação – confessa-me Marques da Silva – resolvi aparelhá-lo para a pesca: os remos com os seus cambões e arreatas, os caibros com as estribeiras, o cabo do reçoeiro sobre a rede arrumada à ré, com as suas pandas de cortiça devidamente empilhadas e o cabo da mão da barca arrumado a vante. Com os dois calimotes (barris) para as bóias das mangas, ficou pronto para ir ao mar.
Todos os ilhavenses devem ficar muito gratos ao Capitão Marques da Silva, porque este tipo de trabalho é muito ingrato, já que até há dificuldade em conseguir, no mercado, materiais para estas tarefas. Pequenas inconfidências que me foi relevando – segredos do ofício de modelista – levaram-me a saber como ultrapassou esses contratempos: o cabo dos rolos, à ré (imagem de pormenor), foi feito manualmente, a partir de fio fino e a rede não é mais do que gaze encascada e cuidadosamente seca. Que paciência, engenho e arte!
Nem o sistema de varar ao mar foi esquecido, constituído por uns tantos rolos, sobre os quais o barco desliza, assentes em varas compridas, perpendiculares à linha da praia, sendo puxado, nesse tempo, por juntas de bois.
Para terminar, porque fé e devoção são apanágio do pescador, pintado, no arco da coberta da proa, NOSSA SENHORA DA SAÚDE, que a nós, ilhavenses, muito nos diz, por ser a Santa Padroeira da Costa-Nova do Prado.
1ª Imagem – in M. M. e R. de Ílhavo – Memória descritiva pelo Director António da Rocha Madahil, 1965
Fotografias – Ana Maria Lopes
Ílhavo, 24 de Junho de 2008
Ana Maria Lopes
1 comentário:
Boa noite.
Verdadeiramente encantador. Estou há imenso tempo a contemplar os detalhes deste trabalho nas fotos, pois sou também grande adepto do modelismo naval.
Parabéns ao criador e ao restaurador, pelo seu trabalho de grande dificuldade.
Na minha opinião, o melhor modelista é o que consegue trabalhar sem as ferramentas de topo do mercado e produz peças improvisando, como por exemplo com a "rede de gaze". É quase um constante "ver" as formas noutros pequenos objectos do dia-a-dia e transformá-las.
Uma das minhas artes favoritas.
Atentamente,
www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt
Enviar um comentário