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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Programa Thalassa, France TV 3, em Ílhavo

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Nos cem anos do Titanic - 1

Perante o andar dos acontecimentos e o «puzzle» que se tem vindo a completar, resolvi reorganizar e reescrever as minhas memórias dos talheres do Titanic existentes em Ílhavo, a que já dedicara alguns posts, em anos transactos.
Mas, como disse, a estória, longe de estagnar, avançou e tem vindo a atingir o auge, com algumas coincidências, cruzamentos de dados e interesses criados, perante o ano de comemoração do desditoso naufrágio do grande Titanic – 2012.


Opinávamos em escritos anteriores – Ílhavo na «rota» do Titanic. À primeira impressão, pareceria descabido, mas, o que é certo, é que acabámos de receber, há dias, a televisão francesa, do Programa Thalassa, France 3, que por Ílhavo permaneceu três dias, para gravar alguns depoimentos e plasmar algumas imagens acerca de artefactos (talheres) do fatídico navio, bem como acerca do fascínio que em torno dele se tem vindo a gerar.
Desde que me lembro, comecei, na juventude, a ouvir falar do Titanic, em casa dos meus avós maternos, onde hoje habito, a propósito, de umas simples, mas fortes e sóbrias colheres de sopa, de prata, com uma estrela relevada, na extremidade do cabo, logotipo da White Star Line.


Estas colheres faziam parte de um dos faqueiros do luxuoso Titanic. Como, porquê e a que propósito?


Colheres de prata do Titanic?...



Aqueles dados foram-me dando volta à cabeça, até porque o meu Pai, de vocação nada marítima, manifestava um certo endeusamento pelo Titanic, o maior vapor da época, o mais luxuoso, o “inafundável”, como diziam, que chegou a desafiar os desígnios de Deus, acabando por naufragar num acidente fatídico, ao colidir, na sua viagem inaugural, com um gigantesco iceberg, na noite de 14 de Abril de 1912, sem que a orquestra nunca tivesse parado de tocar, para não aumentar o pânico aos passageiros (afirmação posta em causa).

Em 1958, a história do Titanic encheu os ecrãs do cinema com o filme ”A Night to Remember”, com Kenneth More, no principal papel. A preto e branco, transmitia-nos todo o drama por que aquela gente passara, a maioria, sem retorno. Ainda muito jovem, vi-o no Teatro Aveirense, mas aí, então, não pensava muito nas colheres com as quais convivia.

Ainda adolescente, era-me contado que aquelas colheres tinham sido encontradas nos restos de um riquíssimo aparador, já só com uma gaveta, com a inscrição TITANIC. Não nos esqueçamos, pois, de confrontar datas e percursos. De fins de Abril a Setembro/Outubro era a altura do ano em que os lugres bacalhoeiros faziam, parcialmente, uma rota aproximada, idêntica à do Titanic, que, ao sair, na sua viagem inaugural, de 1912, em 10 de Abril, de Southampton para Nova Iorque, via Cherbourg e Queenstown, naufragara em 14 de Abril, às 11.40 p. m.

Explicação hipotética, mas dada brilhantemente pelo Comandante António Manuel São Marcos, a bordo, perante uma carta geral do Atlântico Norte, para a TV francesa.
Ele, que também mostrou os seus talheres, entre os quais uma colher de sopa da estrelinha, com que, em criança, comia a sopinha toda, pela mão carinhosa da tia Mercedes…


No primeiro dia de encontro com a equipa, fez-se um reconhecimento dos possíveis locais de filmagem: Ílhavo e enquadramento geográfico, sala Faina Maior do MMI, Arquivo, algumas das casas onde existem os míticos e presumíveis talheres do Titanic.


Tal “cómoda” teria sido “pescada”, de bordo de algum lugre bacalhoeiro, por pessoa amiga ou aparentada do meu Avô, que havia distribuído parte do faqueiro por algumas, não muitas, famílias ilhavenses.
Era o que a tradição oral ia revelando e lá que tinha lógica de sobra, tinha. E, se para experimentar a sensação, um belo dia, puséssemos uma mesa requintada com as presumíveis colheres, para saborearmos a sopa, Avó e netos, imaginando-nos passageiros, de 1ª classe, do tal mítico Titanic, no mundo do faz-de-conta?

Os anos foram passando, sem nada de especial referente ao assunto, a não ser algumas notícias relativas a sobreviventes ainda “vivas” do naufrágio.

Millvina Dean, a última, que fizera a viagem com dois meses apenas, morreu, aos 97 anos, em Southampton, no lar onde decidira passar os últimos dias da sua vida, a 31 de Maio de 2009. Com 97 anos, a 97 anos do naufrágio…

Ironicamente, quando os problemas financeiros do resto da sua vida haviam sido resolvidos pelos consagrados actores do film Titanic (1997) – Leonardo Di Caprio e Kate Winslet – que promoveram um fundo que lhe permitiria pagar a mensalidade da casa de repouso e as despesas médicas, expirou.

Modelo do navio, à escala de 1/350



Tinha 269,10 metros de comprimento, 28 de largura e 46,328 toneladas de arqueação, com uma altura da linha de água até ao tombadilho das baleeiras, de 18 metros.



As máquinas, accionadas a vapor, eram as maiores, construídas até então, com 28 caldeiras. Geravam uma pressão de 15 Kg/cm2, consumindo 728 toneladas de carvão em cada 24 horas. O vapor produzido accionava as turbinas Parsons, que desenvolviam 51 000 hp e impulsionavam o navio a uma velocidade máxima de 23 nós.
Podia transportar um total 3 547 pessoas, entre passageiros e tripulação.
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Erro fatal:

Indubitavelmente, o navio mais luxuoso que alguma vez cruzara os oceanos, não reunia um dos aspectos mais importantes do projecto – a segurança.
Levava 3 560 coletes salva-vidas individuais, mas apenas 16 baleeiras (para 1 178 pessoas), das 64 previstas pelo primeiro desenhador, que teriam sido suficientes para salvar os 3 547 passageiros.
Mas, como o mito da indestrutibilidade do Titanic era tão radical, assim aconteceu…

(Cont).


Fotos de Arquivo da autora do Blog


Ílhavo, 4 de Fevereiro de 2012


Ana Maria Lopes
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Colheres do Titanic...as minhas "memórias"

Quando pretendo explorar um assunto e ele se vai esclarecendo, se lhe vão juntando pequenos dados, tudo caminha no mesmo sentido – é como que uma tragédia grega que atinge o seu clímax.
O processo, neste caso, não é bem o mesmo, porque desde que me lembro, comecei a ouvir falar do Titanic, em casa dos meus avós maternos, a propósito, de umas simples, mas fortes e sóbrias colheres de sopa, de prata, com uma estrela relevada, na extremidade do cabo, logotipo da White Star Line. Estas colheres faziam parte de um dos faqueiros do luxuoso Titanic. Como, porquê e a que propósito?

Colheres de prata do Titanic?...


Aqueles dados foram-se avolumando na minha cabeça, até porque o meu Pai, de vocação nada marítima, manifestava um certo endeusamento pelo Titanic, o maior vapor da época, o mais luxuoso, o”inafundável”, como diziam, que chegou a desafiar os desígnios de Deus, acabando por naufragar num acidente fatídico, ao colidir, na sua viagem inaugural, com um gigantesco iceberg, na noite de 14 de Abril de 1912, sem que a orquestra nunca tivesse parado de tocar, para não aumentar o pânico entre os passageiros.


Em 1958, a história do Titanic encheu os ecrãs do cinema com o film”A Night to Remember”, com Kenneth More, no principal papel. A preto e branco, transmitia-nos todo o drama por que aquela gente passara, a maioria, sem retorno. Ainda muito jovem, vi-o no Teatro Aveirense, mas aí, então, não pensava muito nas colheres com as quais convivia.


Ainda adolescente, era-me contado que aquelas colheres tinham sido encontradas nos restos de um riquíssimo aparador, só com uma gaveta, com a inscrição TITANIC. Não nos esqueçamos, pois, de confrontar datas e percursos. De Abril a Setembro era a altura do ano em que os lugres bacalhoeiros faziam, parcialmente, uma rota idêntica à do Titanic, que, ao sair, na sua viagem inaugural, de 1912, em 10 de Abril, de Southampton para Nova Iorque, via Cherbourg e Queenstown, naufragara em 14 de Abril, às 11.40 p. m.

Postal naïf do naufrágio


Tal “cómoda” teria sido “pescada”, de bordo de algum lugre bacalhoeiro, por pessoa amiga ou aparentada do meu Avô, que havia distribuído parte do faqueiro por algumas, poucas, famílias ilhavenses.


Era o que a tradição oral ia revelando e lá que tinha alguma lógica, tinha. E, se para experimentar a sensação, um belo dia, puséssemos uma mesa requintada com as presumíveis colheres, para saborearmos a sopa, Avó e netos, imaginando-nos passageiros, de 1ª classe, do tal mítico Titanic, no mundo do faz-de-conta?


Os anos foram passando, sem nada de especial referente ao assunto, a não ser algumas notícias relativas a sobreviventes ainda “vivas” do naufrágio.
E o trazer agora à cena o assunto do Titanic, se bem que estivesse “em agenda”, ocorreu, porque li, há uns meses (18.10.2008), a notícia de que Millvina Dean, de 96 anos, a última “sobrevivente” do Titanic, ainda viva, anunciou que ia leiloar todos os objectos que tinha, da época, para poder pagar o lar de terceira idade onde habita.
Dean tinha apenas dois meses quando seguiu a bordo do famoso navio, ao colo da mãe, tendo revelado que não tinha memória do sucedido e assim teria preferido ficar, do que ter visto o blockbuster de 1997 "Titanic”. Millvina é actualmente a única sobrevivente do Titanic, depois da morte da sua compatriota, Barbara Joyce Dainton, há dois anos (2007).


(Cont.)


Fotografias – Arquivo pessoal da autora e de Reimar

Ílhavo, 1 de Fevereiro de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Tradição escrita... das "memórias ilhavenses" do Titanic




Já em 1996, quando Jean Pierre Andrieux me ofereceu o seu livro Disasters & Shipwrecks, vol. 3, 1940 – 1980, li uma passagem que me surpreendeu e que resumo, traduzindo-a:

Durante o Verão de 1993, fui convidado pelo Comandante António M. São Marcos, narra Andrieux, para um almoço a bordo do arrastão de popa, para pesca longínqua, Inácio Cunha, que, então comandava. Este navio, de alojamentos bem distribuídos, que eu conheça, era o último navio da frota de pesca portuguesa que tinha o logotipo do proprietário Testa & Cunhas, estampado em toda a sua louça – era a Cruz de Malta.
Tinha visto, vários anos antes, louça com variados logotipos noutros navios, mas tal prática desaparecera por completo. Falámos da expedição de 1993 ao Titanic, onde foram recuperadas louças, pratas e outros artefactos do desafortunado navio. Rapidamente, o Comandante São Marcos mostrou que isto não era novidade para si e que, desde criança, convivera com “pratas” do Titanic. Como podia ser, se os primeiros objectos só haviam sido recuperados na expedição de 1987? – pensei eu.
Como vim a perceber, para meu grande espanto, um tio-avô do Comandante, o Capitão João Frade, tinha comandado o Leopoldina (?), na Primavera de 1912. Após a tragédia do Titanic, os Grandes Bancos estavam atulhados de despojos flutuantes do desafortunado paquete. A tripulação do navio recolheu alguns destes destroços, entre os quais estava uma arca com talheres, todos marcados com o símbolo da White Star Line, proprietária do Titanic. Quando regressou a Portugal, apresentou o lote ao armador do navio, tendo ficado apenas com uma pequena parte que retirou para ele e distribuiu pelos familiares e amigos mais íntimos.
Daí a explicação para o facto de algumas famílias de Ílhavo possuírem alguns, poucos, talheres do Titanic. Pergunto eu: será que isto é verdade e os talheres seriam reconhecidos como tal? Até hoje, ainda não tenho uma certeza absoluta.

Em 1997, o magistral filme dirigido por James Cameron e estrelado por Leonardo Dicaprio e Kate Winslet, com o mesmo nome, mais uma vez endeusa o tema. Torna-se na maior bilheteira do cinema americano e mundial e açambarca 11 dos 14 Óscares.

The New York Times



No Verão passado, o Capitão João São Marcos presta um depoimento, nas Memórias de um Pescador, que escreveu:

No lugre Leopoldina (?), em fins de Maio de 1912, o ti João Grilo, capitão de navios uma vida inteira, em fins de Maio de 1912, ao chegar à Terra Nova, encontrou aboiado e apanhou um armário de sala de jantar do paquete Titanic, com talheres da “White Star Line” que, ao chegar à Figueira da Foz, em Outubro, concluída a campanha de pesca, entregou ao seu armador, Lusitânia de Pesca.
Destes talheres, guardo como relíquia de valor incalculável e da herança deixada do capitão Grilo, um talher.

Por duas vezes, aparece evocado o nome do Capitão João Grilo (Frade), como sendo o autor dos achados, enquanto capitão do lugre Leopoldina.
Amigos também versados no assunto alertaram-me de que teria sido, de facto, o Capitão João Grilo, mas a bordo do lugre Trombetas, um primeiro que existiu, já registado em 1903 na Figueira da Foz, antes do construído em Fão em 1922.

Esta informação também está confirmada na grelha existente na página 99 do livro de Manuel Luís Pata, A Figueira da Foz e a Pesca do Bacalhau, Vol. I, que regista a chegada do lugre Trombetas a 27.10.1912, tendo como capitão João Francisco Grilo, com base na informação que lhe chegou através de A Voz da Justiça, da Figueira da Foz, daquele mesmo ano. De qualquer das maneiras, é uma achega, que não queria deixar de registar.

1º Lugre Trombetas – 1913


Fala-se, nos meios mais próximos, que será lembrado o centenário do acidente, em Abril de 2012, com uma exposição jamais vista, não sei onde. Faltam pouco mais de três anos. Talvez eu, ou alguém por mim, consiga averiguar, de vez, se se trata realmente de colheres do Titanic, ou se a imaginação popular e o diz que diz acrescentaram o resto à história. Quem conta um conto, acrescenta um ponto… Mas que a explanação tem fundamento, tem.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora e de Reimar

Ílhavo, 8 de Fevereiro de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Tradição escrita...das "memórias ilhavenses" do Titanic - 2

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Já em 1996, quando Jean Pierre Andrieux me ofereceu o seu livro Disasters & Shipwrecks, vol. 3, 1940 – 1980, li uma passagem que me surpreendeu, segundo a qual, no Verão de 1993, num almoço a bordo do arrastão de popa, Inácio Cunha, que então dirigia o Comandante António M. São Marcos, a propósito da expedição de 1993 ao Titanic, onde foram recuperadas louças, pratas e outros artefactos do desafortunado navio, mostrou que isto não era novidade para si e que, desde criança, convivera com “pratas” do Titanic.
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Como podia ser, se os primeiros objectos só haviam sido recuperados na expedição de 1987(?) –interroguei-me.
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Como vim a perceber, para meu grande espanto, um seu familiar, o Capitão João Francisco Grilo, tinha comandado o Leopoldina (?), na Primavera de 1912. Após a tragédia do Titanic, os Grandes Bancos estavam pejados de despojos flutuantes do desafortunado paquete. A tripulação do navio recolheu alguns destes destroços, entre os quais estava uma arca com talheres, todos marcados com o símbolo da White Star Line, proprietária do paquete. Quando regressou a Portugal, apresentou o lote ao armador do navio, que não se interessou muito pelo assunto, aconselhando-o a ficar com uma parte e a distribuir os restantes, em Ílhavo, pelos familiares e amigos mais íntimos.

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Daí a explicação para o facto de algumas famílias de Ílhavo, incluindo a minha, possuírem uns tantos, poucos, talheres do Titanic. Pergunto eu: será que isto é verdade e os talheres seriam reconhecidos como tal? Demorou até ter uma certeza, que considero consistente.
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No Verão de 2008, o Capitão João Laruncho de São Marcos presta este testemunho, em Memórias de um Pescador:

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No lugre Leopoldina (?), em fins de Maio de 1912, o ti João Grilo, capitão de navios uma vida inteira, em fins de Maio de 1912, ao chegar à Terra Nova, encontrou aboiado e apanhou um armário de sala de jantar do paquete Titanic, com talheres da “White Star Line” que, ao chegar à Figueira da Foz, em Outubro, concluída a campanha de pesca, entregou ao seu armador, Lusitânia de Pesca.
Destes talheres, guardo como relíquia de valor incalculável e da herança deixada do capitão Grilo, um talher.
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Creio que este talher, hoje, já está na posse de seus filhos.
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Por duas vezes, aparece evocado o nome do Capitão João F. Grilo (Frade), como sendo o autor dos achados, enquanto capitão do lugre Leopoldina.
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Amigos também versados no assunto alertaram-me de que teria sido, de facto, o Capitão João F. Grilo, mas a bordo do lugre Trombetas, um primeiro que existiu, já registado em 1903 na Figueira da Foz, antes do construído em Fão em 1922.


Ficha do GANPB, do achador


Esta informação também está confirmada na grelha existente na página 99 do livro de Manuel Luís Pata, A Figueira da Foz e a Pesca do Bacalhau, Vol. I, que regista a chegada do lugre Trombetas a 27.10.1912, tendo como capitão João Francisco Grilo, com base na informação que lhe chegou através do jornal A Voz da Justiça, da Figueira da Foz, daquele mesmo ano.



1º Lugre Trombetas – 1913



De achado em achado, não é que não descobri que alguns talheres com a mesma origem dos meus, eram carinhosamente albergados numa casa da minha rua, há mais de cinquenta anos, na posse de familiares de terceira geração do Capitão Grilo?
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E nunca tinha ouvido dizer…
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Tenho provas de que algum secretismo envolvia a posse destas «relíquias», no seio das famílias em que existiam.

Para além de colheres de sopa e de chá, também vi, pela primeira vez, garfos do mesmo faqueiro.





Garfos



Mas os tempos são outros, e o mundo, na sua globalidade, permite encontros, trocas de ideias, reconto de histórias – os talhares ilhavenses do Titanic tiveram a sua confirmação plena e entraram na história dos artefactos do malogrado navio.


A descoberta em 1985 dos seus despojos, no fundo do oceano, as sucessivas exposições de artefactos, a partir de 1994, pelo mundo inteiro, para nós, foram aceleradas pelo acaso do ilhavense José Paulo Vieira da Silva, com quem convivemos, ter comandado o navio de pesquisa Jean Charchot, no Verão de 2010, numa última exploração em que uma equipa habitual de oceanógrafos, arqueólogos, cientistas e historiadores, recolheu imagens em 2 e 3 D, bem como dados preciosos para os estudos em causa.

E mais uma vez Ílhavo e a rota do Titanic se cruzaram – conheceram-se e aproximaram-se pessoas e objectos, num interesse comum e fascinante.

E as acções concretizaram-se. Numa adesão da CMI ao projecto, a sala da Faina Maior e o Arquivo do MMI serviram de palco a filmagens, bem como a minha rua, mesmo em obras de remodelação, e algumas das casas relacionadas com o achado.

Também no cais da Gafanha da Nazaré e noutros locais envolventes se caçaram imagens, tendo contado com todo o entusiasmo o que sempre ouvira dizer e o que fui aprendendo e constatando.


Outros actores «contratados», improvisados, mas empenhados, narraram com emoção as suas estórias verídicas, dando corpo a um mito(?), que tem fôlego para ser confirmado.
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Aproveito para agradecer, em nome do programa Thalassa, da TV francesa, a boa vontade da edilidade e de todos os outros participantes, que se afirmaram em equipa.



(Cont.)



Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ficha do Grémio - Gentil cedência do MMI



Ílhavo, 12 de Fevereiro de 2012



Ana Maria Lopes
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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ílhavo na «rota» do Titanic - 1

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Talvez conduza os leitores amigos a concordarem com este título, à primeira vista delirante.

Em posts do mês de Fevereiro de 2009, dei-vos conta da predilecção que tinha pelas minhas colheres de sopa do Titanic e pelas «memórias» que as envolviam. Mito? Lenda? Realidade?

Tendo concluído que era uma história oral que «tinha pernas para andar», com um suporte real muito legítimo, lógico e credível, faltava-lhe uma autenticação por pessoa abalizada. Estará próxima, prometeram-me.

O que precipitou os factos? Coincidências ou destinos?

O Centenário em 2012 do fatídico naufrágio do luxuoso navio, com tudo de história, mito e lenda que em volta dele se gerou, aproxima-se.

E o Comandante, amigo e conterrâneo José Paulo Vieira da Silva capitaneou, no verão passado, um navio em que uma expedição da equipa RMS Titanic fez buscas ao local do naufrágio, com diversos e científicos fins.


No fundo do Oceano, presentemente

O Comandante deu a conhecer aos interessados a “estória” das colheres e, no regresso da viagem, viu e fotografou os talheres em causa, após entusiasmada conversa e troca de impressões.

Passou quase um ano e há pouco recebi um e-mail de Jérémie Marie, a perguntar-me se estaria interessada em contar a história, bem como em mostrar os «badalados» talheres, perante as câmaras, para um curto documentário francês acerca do Titanic, a rodar no ano do centenário.

Em princípio, concordei, vamos a ver se se realizará. A equipa de filmagens deslocar-se-á a Ílhavo para esse fim? !!!!! A ver vamos…

Neste último Agosto aparece também pela Costa Nova, trazido pelo Zé Paulo, outro especialista da RMS Titanic, interessado em conversar e ver as mesmas colheres – Christopher Davino, autor do Catálogo e Director Executivo da última exposição patente em Lisboa, no espaço Rossio (Julho 2009), Titanic The artifact exhibition.

Mas, como existem em Ílhavo? E há outras famílias que também possuem talheres, se bem que eu nunca os tivesse visto (a origem tinha sido a mesma).

Acharam a história encantadora e fascinante e perante a exequibilidade dos factos, prometeram que atestariam a autenticidade dos objectos.
Aguardemos…
Mas as coincidências não ficaram por aí…. Em banalidades de rua…, chegou-se aos talheres do Titanic e, imaginem, caso para dizer que santos de casa não fazem milagres.

(Cont.)

Imagens – Arquivo da autora do blog

Ílhavo, 27 de Setembro de 2011

Ana Maria Lopes
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sábado, 10 de agosto de 2013

Ida às Berlengas no Santa Maria Manuela - I

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Foi no fim de semana dos passados dias 20 e 21 do mês de Julho que, juntamente com a minha família, embarquei no navio Santa Maria Manuela, para uma viagem pequena e quase insignificante, mas inesquecível. Iniciou-se no porto de pesca da Gafanha da Nazaré, de onde saímos em direcção ao arquipélago das Berlengas. Passámos entre a Berlenga e os Farilhões e regressámos durante a noite, em direcção ao pontal da Galega, pesqueiro que fica a cerca de 14 milhas da barra de Aveiro e a 19 milhas da barra de Leixões, para um dia dedicado a actividades marítimas diversas.
Este relato será escrito mais como repositório de memórias, já que apesar de a viagem ser pequena em distância e tempo, foi muito grande em emoção e oportunidade.
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Chegámos ao porto de pesca da Gafanha da Nazaré ainda na noite de sexta-feira, com intenção de dormir a bordo, para não chegarmos atrasados para a partida, no dia seguinte, de manhã cedo. Aquele recanto em frente à empresa Pascoal parecia ter saído de um filme dos anos 50, com dois lugres reflectidos nas águas espelhadas da ria. Via-se que o Santa Maria Manuela estava à espera de qualquer coisa. Talvez soubesse que no dia seguinte iria partir para uma pequena aventura. O Argus ainda espera melhores dias.
Tivemos oportunidade de observar o navio com alguma atenção, sobretudo por dentro e, em particular, o camarote de "instruendos" que nos estava destinado. Não era propriamente um quarto de hotel de 5 estrelas. Mas, comparando com muitas fotografias antigas que em tempos me passaram pelas mãos, estará a grande distância do "rancho" que possuía quando era novo, sobretudo no que a espaço e a conforto diz respeito. Agora, a mesa de refeições já não fica junto ao beliche... Mas também não somos propriamente pescadores nem moços de convés. Temos o privilégio de embarcar como turistas de luxo.
Não me refiro propriamente ao tipo de luxo de massas dos grandes paquetes, quais Titanic modernos. É difícil de explicar. Talvez no fim deste relato se perceba a que me refiro.
Para alegria e gáudio nossos, era a primeira vez que iriamos navegar neste belíssimo navio e também a primeira vez que sairíamos a barra de Aveiro mais de 5 milhas mar adentro. Claro que havia o medo de passarmos enjoados toda a viagem, mas as previsões meteorológicas eram favoráveis. O tempo previa-se bom e o mar previa-se calmo. As condições seriam ideais para quem fazia uma primeira viagem deste género num veleiro desta dimensão.
A manhã estava calma e nublada, típica dos meses de Verão nesta região, com a sorte de não termos sido visitados por nenhum nevoeiro traiçoeiro, que normalmente impede a vista de alcançar o horizonte.
Ao chegarmos ao canal de saída da barra, sente-se alguma emoção. As pessoas que se encontram na margem acenam e tiram fotografias. O navio retribui com um apito estridente da sua ronca, apito esse que também serve para espantar as dezenas de barcos apinhados na boca da barra, local muito apetecível para a pesca desportiva.
A maioria dos pescadores que aí se encontrava também saudava o navio, mas algumas ovelhas negras, armadas em piratas das Caraíbas, que ocupavam ostensivamente o canal de navegação, desdenhavam da sua passagem. Alguns até chamavam nomes feios, porque eram obrigados a sair do supostamente fantástico local em que se encontravam. Em particular, um deles quase era abalroado pelo navio, se não tivesse conseguido manobrar o seu barquinho depois de ter levado um berro do mestre que vigiava a proa... Depois de se ver o seu pequeno barquinho a salvo, o seu pequeno comandante só teve tempo de dizer qualquer barbaridade, que na minha cabeça ficou registada como "para a próxima desvia-te, ó sua... sua... sua baleia branca sem dentes". E eu acrescento... Mas com mastros.
 
 

Bem, 10 minutos passados, já estávamos em mar aberto, numa calma absoluta, que contrastava bastante com as pequenas zaragatas da boca da barra, que mais pareciam saídas de um bando de gaivotas nervosas, em permanente discussão à volta do seu cardume. Tudo isso ficou rapidamente arquivado nas nossas memórias mais longínquas, sobretudo depois de tudo o que se ia seguir.
O curioso da navegação marítima é que tanto faz navegarmos num pequeno barquinho a motor, como num grande veleiro ou no maior dos petroleiros. Todos eles são obrigados a ter uma bússola tradicional e a carta de navegação da zona em que navegam, por mais sofisticados que sejam os instrumentos de navegação que tenham ao seu dispor. E em todos eles se calcula a posição, se define um rumo e se repete este binómio (calcular posição, corrigir rumo) vezes sem conta, sempre corrigindo o rumo que é alterado pelo vento e pela corrente, até chegarmos ao destino pretendido.
Claro que, no caso do Santa Maria Manuela, não só estão lá a bússola tradicional e a carta de navegação, mas também equipamentos de topo, como o GPS incorporado num sofisticado programa de navegação, onde aparece a derrota real do navio marcada sobre uma carta de navegação electrónica, dois potentes radares, uma girobússola, equipamentos de comunicações e o piloto automático, entre outros que não consegui fixar. Todos estes equipamentos fazem com que já não seja necessário marcar na carta linhas de posição (como por exemplo, azimutes ou enfiamentos). Basta olhar para o GPS e sabemos onde estamos. Mas mesmo assim, a posição era marcada na vulgar carta de navegação em papel, o que certamente será muito útil, na eventualidade de avaria de algum desses equipamentos.
Alguns colegas de viagem referiram que esta era mesmo a viagem ideal. A título de comparação, explicaram que, no ano anterior, em Setembro, fizeram uma viagem diabólica. O navio atingia inclinações de 45º – diziam. Não sei se seria assim tanto, mas não deve ter sido fácil. Descreveram que não se conseguia comer porque tudo andava de um lado para o outro. Era muito difícil dormir, porque mal se conseguiam segurar para se manter em cima do beliche, quanto mais dormir...
No fim da viagem, o saldo foram muitos enjoos, uma vela rasgada, copos e pratos partidos, mas com vontade de repetir, se possível um bocadinho mais calma. Era, sem qualquer dúvida, o caso desta viagem que relato.
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Foi com grande prazer que “abri” o Marintimidades à colaboração do meu filho Paulo Miguel Godinho, dono de uma grande sensibilidade perante as “coisas do mar e da ria”.
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Costa Nova, 10 de Agosto de 2013
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