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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

A construção da "ílhava" em exposição

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Abriu, há nove anos (11.1.2014.), a exposição fotográfica da construção da ílhava, exibida no MMI, aquando da apresentação pública desta nossa bateira.

Quem viveu a aventura desta recriação fê-lo com paixão. Para além do mais, acompanhou durante meses, a perícia, o gosto, a minúcia, a arte com que a Etelvina fez estes registos fotográficos para memória futura. São apenas 20 imagens de razoável dimensão, que fazem parte de centenas que clicou durante meses, desde o lançamento da tábua da quilha da embarcação, até ao seu regresso às origens – Ílhavo.

Quem acompanhou a montagem desta exposição, teve a sensação de que se trabalhou em arame de circo, por “contratempos” de vida que o empenho e a coragem superaram. Mas, valeu a pena! Foi unânime a opinião dos observadores – um apontamento de cariz etnográfico que embrulha muito de sociológico, de antropológico, de sócio-cultural e de histórico.

Melhor do que as nossas palavras, o texto introdutório da própria autora revela o que ela procurou e viveu, neste registo. Ei-lo:

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Bateira ílhava, uma embarcação secular

Uma embarcação com vínculo e apelido das gentes de Ílhavo.

Segundo dados históricos, esta embarcação é referenciada a partir do século XVIII, tendo-se extinguido no século XX.

Herdando o nome da sua terra natal, esta bateira terá sido criada com o propósito de servir as gentes da borda-d’água lagunar, passando posteriormente para o mar. Terá sido um artefacto de trabalho, uma ferramenta polivalente, servindo para toda a faina. Mais tarde, migrou para as águas do Douro e do Tejo, tendo-se ali extinguido, não deixando rasto.

Não restando exemplar físico da embarcação, alguns estudiosos desenharam e maquetaram um protótipo com base em documentos escritos, registos imagéticos e gráficos.

A ideia de construir uma réplica desta embarcação secular tem vindo a ser alimentada ao longo dos anos.

Em Junho de 2013, a Associação dos Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo (AMI) formou uma equipa de trabalho para concretizar este sonho – reconstruir um elemento patrimonial identitário da região, já perdido.

Por iniciativa desta Associação, estudou-se, elaborou-se, supervisionou-se e custeou-se todo o projecto. Actualmente, pode-se apreciar o belo exemplar da bateira ílhava exposto na Sala da Ria deste Museu.

Construída na borda-d’água, em Pardilhó, num estaleiro naval tradicional, por um conceituado mestre, foi imperativo manter o processo construtivo, os materiais e acabamentos tradicionais, fidedignos com a realidade de outrora.

Apresentada ao público, no dia 11 de Janeiro de 2014, a réplica da bateira ílhava, uma peça única em ambiente museológico, transmite através do sistema construtivo, dos materiais, da sua forma e história funcional, um conjunto de elementos de cariz etnográfico, identitários da nossa região.

Recuperou-se um património imaterial, materializando-se nesta réplica. Um bom exemplo e um contributo para trabalhos futuros.

Esta breve exposição de fotografia tem como objectivo dar a conhecer, através de alguns apontamentos imagéticos, algumas fases do processo construtivo da emblemática embarcação.

Pretende-se, ainda, de forma sucinta, transmitir alguns momentos de rara beleza e encantamento vividos dentro de um estaleiro, durante a construção de um artefacto artesanal – luz, odor, textura, cor, brilho, pó... tudo isto se entranha na alma!

 

AMI, Presidente – Dr. Aníbal Paião

Equipa de trabalho – Capitão Marques da Silva, Eng.º Senos Fonseca, Dr.ª Ana Maria Lopes, coordenadora do projecto.

Construtor naval – Mestre António Esteves (o Pardaleiro)

Vela – Marco Silva e família.

Fotografia: Etelvina Almeida

Para amostra, fazendo crescer água na boca:

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Esculpindo…
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Em pose…
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Assentamento acrobático…
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Com ritmo…
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Vestida com vela içada… 

Texto introdutório e imagens – Etelvina Almeida

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Ílhavo, 11 de Janeiro de 2023

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Ana Maria Lopes

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domingo, 4 de dezembro de 2022

A propósito da vinda da "bateira ílhava" para o MMI

 

Relembrando…

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Último ensaio, em 15 de Novembro de 2013
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Ílhavo e a sua região de que tanto se fala como centro difusor de cultura marítima terão deixado, por via directa ou indirecta marcas na cultura marítima do nosso litoral.

Habituámo-nos desde cedo, quando visitámos zonas marítimas, para pesquisa etno-linguística, desde estudante universitária, a ouvir tecer algumas considerações relativas a Ílhavo e aos habitantes locais, mal se apercebiam que era oriunda da citada região.

E começámo-nos a capacitar-nos de que onde existia uma bateira existiu um ílhavo ou há vestígios, pelo menos, da passagem de um ílhavo.

Cremos mesmo que por Ílhavo tem havido um interesse crescente pela grande faina dos ílhavos no litoral, não tendo tido a exposição temporária, «A Diáspora dos ílhavos», no MMI, de 8 de Agosto a 31 de Outubro de 2007 a aceitação desejada pela maioria dos interessados nesta grande questão da identidade local.

Virando costas à Laguna, por inóspita que estava, os ílhavos, com suas artes ainda algo rudimentares, fixaram-se junto ao mar. Aberta definitivamente a barra em 1808, vieram instalar-se no areal a que chamaram Costa Nova (arrais Luís Barreto, igualmente conhecido por Luís da Bernarda) com as companhas da xávega. Tão exímios se tornaram no manejo destas artes estes emigrantes da borda do mar, refere Senos da Fonseca, que o desejo de partir em busca de locais onde o peixe fosse mais abundante se tornou evidente (Senos da Fonseca, Ílhavo – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX, 2007, Papiro Editora. Porto, 2007, pp. 174 a 181).

A fundação da Cova e Gala por ílhavos tem-se apresentado um caso mais polémico, porque se tem baseado, de livro em livro, em afirmações não confirmadas por registos paroquiais estudados ultimamente pelo pesquisador Hermínio de Freitas Nunes.

A presença ou a passagem de ílhavos por Palheiros de Mira, também Raquel Soeiro de Brito a comprovou (Palheiros de Mira – Formação e declínio de um aglomerado de pescadores. Edição Fac-similada, Cemar. Praia de Mira, 2009, pp. 21 e 36), ao consultar Registos Paroquiais, concluindo que entre 1835 e 1870 as populações originárias de Ílhavo foram as que mais contribuíram para a formação do povoado.

Mas a sua característica de nómadas da beira-mar fez com que não parassem. Pela Nazaré também andaram, tendo contribuído para a sua formação. Na pequena monografia Nazaré e o seu concelho, Raúl de Carvalho, (Lisboa, 1966, p. 21), depois de algumas alusões aos pescadores de Ílhavo, referencia que estes, após terem abandonado as suas terras, em busca de melhor vida e mais fartura de peixe, constituíram os primitivos povoadores da Nazaré.

E Raúl Brandão, no capítulo dedicado à Nazaré de Os Pescadores (Edições Estúdios Cor, Lda. Lisboa, s.d., p. 160), afirma pela boca de Joaquim Lobo, que aquela gente viera de Ílhavo e recorda ainda que foram os cagaréus que povoaram os melhores e mais piscosos pontos da costa, vindo pelo litoral abaixo, aos dois e três barquinhos juntos, até ao Algarve.

Também tivemos conhecimento da influência que os referidos povos exerceram na Ericeira, visto que Joana Lopes Alves, ao ocupar-se da rede do linguado ou tresmalho, assegura ter sido trazida para a Ericeira pelos pescadores da Murtosa, que a usavam na sua terra (A linguagem dos pescadores da Ericeira. Junta Distrital de Lisboa. Lisboa, 1965, p. 57).

Mas não ficaram por aí. Também na Costa da Caparica, associando as pescas estivais de mar a fainas invernosas em rios e estuários, os ílhavos aí se instalam por volta de 1770, sendo referido por Helena e Paulo Nuno Lopes (A Safra. Livros Horizonte, Lda. 1995, p. 57), que no final do séc. XIX, trabalharam na Caparica, na pesca, mais de setecentas pessoas.

Igualmente Maria Alfreda Cruz ao ocupar-se do tresmalho, certifica que é conhecido, em Sesimbra, por «redes de ílhavos» designação que denuncia a sua proveniência (Pesca e Pescadores em Sesimbra. Centro de estudos Geográficos. Lisboa, 1966, p. 54).

Também por finais do século XIX, continuam a referir Helena e Paulo Nuno Lopes (ob. cit., p. 57) que os pescadores de Ílhavo chegam à costa alentejana, para aí trazendo as suas famílias, tendo vivido aí, em inícios do século XX, quarenta famílias.

Todos os anos chegam ao Tejo umas dezenas de barcos varinos – é o nome que dão a estas embarcações pequenas e rasteiras, com um mastro e proa levantada (…). Quando se levanta borrasca encalham o barco nas margens do rio e abrigam-se à proa, debaixo de um oleado encerado (não haverá aqui hábitos idênticos?), onde dormem, cozinham e consertam as redes.

Também emigram para o Tejo barcos «ílhavos», que são maiores e andam à pesca da sardinha entre o cabo da Roca e o Cabo Espichel. E há muitos pescadores da Vieira que vão para os campos de Vila Franca e Santarém pescar o sável. Os da Borda-d’água chamam-lhes «avieiros» – ascendentes que ficariam a viver nos seus barcos até ao último quartel do século XX.

Francisco Oneto Nunes (Vieira de Leiria – A História, o Trabalho, a Cultura. Edição da Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, 1993, p.174), baseando-se na informação recolhida nos registos paroquiais da freguesia de Vieira de Leiria refere que desde 1911 até 1933, os livros de registos de óbitos indicam o falecimento de 19 indivíduos já de idade avançada, cujos pais eram naturais de Ílhavo, Mira, Tocha, Quiaios, Figueira da Foz e Lavos. Oneto Nunes sublinha a existência, em 1790, de dois barcos de pesca, que habitualmente costumavam pescar nas costas de S. Jacinto, de fins de Junho até Fevereiro, e que seguiam depois para o Tejo.

Parece que a ida, se bem que temporária de "ílhavos" para o Tejo, começa a ser incontestável, porque registada por alguns documentos e estudiosos.

Também fomos recolhendo alguns testemunhos orais. Ao entrevistarmos, nos anos 80 do século passado, na Murtosa, Joaquim Maria Henriques (Raimundo), construtor famoso de embarcações lagunares, aí nascido em 1909, testemunhou-nos que «algumas vezes se deslocara com o pai a Peniche, Setúbal, Alcácer do Sal, Vila Franca de Xira, Carregado e Salvaterra de Magos para a construção de bateiras que os murtoseiros utilizavam, quando para esses locais iam fazer a safra do sável».

Também A. A. Baldaque da Silva, a quem é atribuída uma pesquisa extremamente criteriosa em 1886 (Estado Actual das Pescas em Portugal – A Pesca Marítima, Fluvial e Lacustre em Todo o Continente do Reino, referido ao ano de 1886. Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, pp. 197, 240, 241, 287 e 403), faz inúmeras referências ao carácter emigrante dos povos da região da Murtosa, Ílhavo e Aveiro. Ao ocupar-se da rede sardinheira, afirma que os pescadores ílhavos que emigraram para Setúbal, lá usaram uma sardinheira (rede de emalhar sardinha), de menores dimensões. Averiguou também em inquérito directo a que procedeu que trinta barcos ílhavos, tripulados por 450 homens, depois da pesca costeira à tarrafa, iam pelo rio acima para a pesca do sável. Eram também os pescadores ílhavos que emigravam para a enseada entre os cabos da Roca e Espichel e aí usavam, nuns barcos com o seu próprio nome, a rede de cerco volante, designada por tarrafa.

Sobre este barco ílhavo (também conhecido por bateira ílhava), refere-nos que era um barco de fundo chato, construído nas margens da ria de Aveiro, com um compartimento fechado à proa, para abrigo de parte da tripulação, com mastro a meio, aparelhando vela latina de pendão, navegando mais vulgarmente a remos, movidos por três a quatro homens. Empregam-se muito na pesca da sardinha, na enseada de Entre cabos da Roca e de Espichel, durante o inverno, usando a tal rede denominada tarrafa.

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Aprestos, por quem sabe…
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É, no entanto, o tresmalho (rede de emalhar formada por três redes sobrepostas) a rede mais difundida pelos ílhavos, que em grande número emigraram durante a época do sável para o Douro, Tejo e Sado, continua Baldaque da Silva.

Todas estas citações elencadas não pretendem ser mais do que um ponto de reflexão.

Ainda há bem pouco tempo, ao abordarmos o livro "Canoas do Tejo" de Luís Sande e Pedro Yglesias de Oliveira (Edição da Câmara Municipal de Cascais, 2009, p. 92), achámos curioso o parágrafo que passamos a transcrever – As bateiras são embarcações pequenas, com cerca de cinco a seis metros, com uma construção muito simples, que foram introduzidas no Tejo pelos avieiros, ou cagaréus como eram conhecidos, que eram comunidades que vieram da zona de Aveiro e se instalaram nas margens do Tejo. Viviam em pequenas casas palafíticas, construídas em cima de estacas e nas próprias bateiras. Ainda hoje existem avieiros a viverem nestas condições e a pescar em embarcações que não têm sequer motor auxiliar.

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E assim se foram expandindo os ílhavos…os ditos colonizadores da areia…– tínhamos por cá estas notas…outros terão outras… e documentos, para enriquecer o caudal da diáspora dos ílhavos.

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A. Esteves e Marco Silva içam a vela…
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Ílhavo, 04 de Dezembro de 2022

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Ana Maria Lopes

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domingo, 12 de janeiro de 2020

Bateira "ílhava" já mora no Museu Marítimo de Ílhavo

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Foi com este título que o Diário de Aveiro de 12 de Janeiro de 2014 noticiou a apresentação pública da bateira “ílhava”, no Museu Marítimo de Ílhavo, oferta da Associação dos AMIgos do Museu Marítimo. Já seis anos voaram.
Belíssima aquisição, expressiva, singular, elegante, da qual não nos arrependemos!
Estiveram presentes muitos amigos, para a receber. Bem-hajam!
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Em exibição no MMI

Ílhavo 12 de Janeiro de 2020
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Ana Maria Lopes-

domingo, 2 de agosto de 2015

«Ílhavas», em meados do Séc. XIX, em Belém

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Mais uma prova documental.
Se já conhecia este cliché registado (Fig. 1), CPF, em 1862, pelo fotógrafo real Joaquim N. Possidónio da Silva, de bateiras ílhavas sobrantes, nas imediações da Torre de Belém, extraído da Revista Especial «Sábado» de aniversário, nº 470, de 2 a 8 de Maio de 2013, hoje ofereceram-me um mimo que é uma outra, idêntica, bastante mais aproximada e um pouco mais antiga.
Soube-me bem este «doce», exposto em «Tesouros da Fotografia Portuguesa», na Galeria Municipal do Porto, conseguido pelo fotógrafo Amedée Ternant, em 1858 (Fig. 2), CPF. 

Figura 1

Figura 2

É pena que as proas destas duas últimas bateiras não se distingam muito bem, para observar e saborear a altivez das proas negras altaneiras.
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Costa Nova, 2 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
 

sábado, 20 de setembro de 2014

A presença dos «ílhavos» no Cais da Ribeira

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Pessoa amiga, conhecendo os meus gostos, teve a amabilidade de me oferecer uma fotografia em suporte de papel, cerca de 15 por 20 cm, conseguida na livraria Galileu de Cascais. Fiquei encantada. Para mim, um registo único.
Todas as imagens que até agora conheço de bateiras ílhavas são registos isolados, em princípio. Esta, pelo contrário é um registo integrado.
 
É um tal entrelaçado de pessoas e barcos que ofusca e seduz. Imaginamos, pois, que se trata de uma cena cujo palco é o Cais da Ribeira, que engloba classes de vários estratos sociais – pelo aspecto e, sobretudo, pelo diferente trajar.
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Rapazotes, de boina ou boné, sentados no cais, descalços… Raparigas, de saia comprida, coberta por avental, encilhados por faixa escura, e blusa de manga comprida, lisa ou axadrezada. A cabeça protegida por lenço atado sob o queixo, ou caído de pontas soltas, coberto por chapéu redondo, em formato de queijo, tipo miroa ou de aba pouco larga…Alguns senhores de fato escuro e chapéu de feltro de aba
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Encalhadas na areia, proas e popas emaranhadas, com vergas e mastros cruzados, de embarcações distintas – traineira de Peniche, caíque do Algarve, canoas de Cascais…
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Ao largo, ancoradas, pesadas fragatas, no seu negro característico, com roda de proa direita, bem distinta da do varino, com a água a tocar os bordos, tal era a sua carga. Aqui e acolá, ao longe, «pintado» um ou outro navio…
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É este o quadro que me encanta e seduz… Mas o que é que mais me fascina e atrai?

 
Entre este emaranhado complexo, é a presença de duas bateiras ílhavas, nas suas proas bem abicadas, negras, donairosas, altivas e elegantes.
 
É a presença dos ílhavos, no seu barrete negro de borla, aqui e acolá, de gabão escuro, sobre manaias e camisa claras.
 
Seguindo com paciência as linhas das bateiras, entre pessoal apinhado na praia, somos conduzidos às suas rés, varadas na areia.

Um quadro raro, fotografado, da nossa expansão, litoral abaixo. Na ausência de data, pelo que venho observando, arrisco-lhe uma datação – ali pelo último decénio do século XIX.
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Apreciem…que vale a pena.
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Ílhavo, 15 de Agosto de 2014
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A construção da «ílhava» em exposição

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Embora com alguma fugacidade, não queremos que passe despercebida do Marintimidades a exposição fotográfica da construção da ílhava, exibida no MMI, aquando da apresentação pública desta nossa bateira.
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Quem viveu a aventura desta recriação fê-lo com paixão. Para além do mais, acompanhou durante meses, a perícia, o gosto, a minúcia, a arte com que a Etelvina fez estes registos fotográficos para memória futura. São apenas 20 imagens de razoável dimensão, que fazem parte de centenas que clicou durante meses, desde o lançamento da tábua da quilha da embarcação, até ao seu regresso às origens – Ílhavo.
Quem acompanhou a montagem desta exposição, teve a sensação de que se trabalhou em arame de circo, por «contratempos» de vida que o empenho e a coragem superaram. Mas, valeu a pena! Foi unânime a opinião dos observadores – um apontamento de cariz etnográfico que embrulha muito de sociológico, de antropológico, de sócio-cultural e de histórico.
Melhor do que as nossas palavras, o texto introdutório da própria autora revela o que ela procurou e viveu, neste registo. Ei-lo:

Bateira ílhava, uma embarcação secular

Uma embarcação com vínculo e apelido das gentes de Ílhavo.

Segundo dados históricos, esta embarcação é referenciada a partir do século XVIII, tendo-se extinguido no século XX.
 
Herdando o nome da sua terra natal, esta bateira terá sido criada com o propósito de servir as gentes da borda-d’água lagunar, passando posteriormente para o mar. Terá sido um artefacto de trabalho, uma ferramenta polivalente, servindo para toda a faina. Mais tarde, migrou para as águas do Douro e do Tejo, tendo-se ali extinguido, não deixando rasto.
Não restando exemplar físico da embarcação, alguns estudiosos desenharam e maquetaram um protótipo com base em documentos escritos, registos imagéticos e gráficos.
A ideia de construir uma réplica desta embarcação secular tem vindo a ser alimentada ao longo dos anos.
Em Junho de 2013, a Associação dos Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo formou uma equipa de trabalho para concretizar este sonho – reconstruir um elemento patrimonial identitário da região, já perdido.

Por iniciativa desta Associação, estudou-se, elaborou-se, supervisionou-se e custeou-se todo o projecto. Actualmente, pode-se apreciar o belo exemplar da bateira ílhava exposto na Sala da Ria deste Museu.
Construída na borda-d’água, em Pardilhó, num estaleiro naval tradicional, por um conceituado mestre, foi imperativo manter o processo construtivo, os materiais e acabamentos tradicionais, fidedignos com a realidade de outrora.
Apresentada ao público, no dia 11 de Janeiro de 2014, a réplica da bateira ílhava, uma peça única em ambiente museológico, transmite através do sistema construtivo, dos materiais, da sua forma e história funcional, um conjunto de elementos de cariz etnográfico, identitários da nossa região.
Recuperou-se um património imaterial, materializando-se nesta réplica. Um bom exemplo e um contributo para trabalhos futuros.
Esta breve exposição de fotografia tem como objectivo dar a conhecer, através de alguns apontamentos imagéticos, algumas fases do processo construtivo da emblemática embarcação.
Pretende-se, ainda, de forma sucinta, transmitir alguns momentos de rara beleza e encantamento vividos dentro de um estaleiro, durante a construção de um artefacto artesanal – luz, odor, textura, cor, brilho, pó... tudo isto se entranha na alma!

AMI, Presidente – Dr. Aníbal Paião
Equipa de trabalho – Capitão Marques da Silva, Eng.º Senos Fonseca, Dr.ª Ana Maria Lopes, coordenadora do projecto.
Construtor naval – Mestre António Esteves (o Pardaleiro)
Vela – Marco Silva e família.
Fotografia: Etelvina Almeida

Para amostra, fazendo crescer água na boca:


Esculpindo…

Em pose…

Assentamento acrobático…

Com ritmo…

Vestida com vela içada…

Texto introdutório e imagens – Etelvina Almeida

Ílhavo, 15 de Janeiro de 2014

AML
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domingo, 12 de janeiro de 2014

Bateira «ílhava» já mora no Museu Marítimo de Ílhavo

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É com este título que o Diário de Aveiro de hoje noticia a apresentação pública da  «ílhava», no Museu de Ílhavo.
Estiveram presentes muitos amigos para a receber. Bem-hajam!
 
 
 
Foto - Ana Maria Lopes
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Ílhavo, 12 de Janeiro de 2014
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O MMI prepara-se para albergar a «nossa ílhava»

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A ílhava, «para mim», só tem uma história mais ou menos consistente, há cerca de 30 anos. Bateira identitária dos ílhavos, foi a mais polivalente das embarcações da região lagunar – na ria, usada, para a apanha do moliço e para carreto; no mar, desde a rede do chinchorro, na quebra da vaga à arte da tarrafa, em águas do Tejo, na baia de Cascais. É enigmática e senti necessidade de sistematizar o que fui aprendendo sobre ela. Não descobri nada. Atenção! Li, observei, pensei e vou tentar pormenorizar coincidências. O processo da ílhava tem tido vários intervenientes, que se foram sucedendo no tempo.
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Sabia desde os meus vinte e tal anos que tinha havido uma bateira ílhava, mas como não havia deixado rasto que me despertasse a curiosidade, esse conhecimento permaneceu em letargia.
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A consulta frequente, pelos anos 60, do brilhante livro de Baldaque da Silva, Estado Actual das Pescas em Portugal, de 1891, não me despertou muito a curiosidade. Os elementos que, na altura, o autor forneceu, não me chamaram ao assunto. Baldaque fez algumas referências a esta embarcação e às tarrafas usadas pelos pescadores ílhavos na enseada de Entre Cabos da Roca e Espichel, em barcos denominados ílhavos. Inclusivamente com uma gravura (p. 403) e com uma descrição não muito vigorosa, relata que são barcos de fundo chato, de proa e popa terminadas em bico recurvado, mastro e leme de xarolo, construídos nas margens da ria de Aveiro, também usados na apanha da vegetação que ali denominam moliço.
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Barco ílhavo, em Baldaque da Silva (gravura)
 
Embarcação, muito possivelmente, já usada pelos ílhavos nos séculos XVIII e XIX para a pesca da sardinha com a arte da tarrafa, em faina no Tejo – conclui-se.
Embora a mesma fotografia (aqui já fotografia), tivesse sido usada por Rocha Madahil in Alguns Aspectos do Traje Popular na Beira Litoral e pelo padre João V. Rezende na sua Monografia da Gafanha (1944), os autores não dão nenhum realce à embarcação, mas sim aos trajes dos pescadores que a usaram, sobretudo ao gabão, barrete, calça, camisa axadrezada e faixa.
 

E, à época, mais ninguém despertara para a ílhava, que eu tivesse tido conhecimento.
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Eis senão quando D. Manuel de Castello Branco, in Embarcações e Artes de Pesca, livro publicado pela Lisnave, em 1981, fala destas embarcações oriundas do litoral de Aveiro, em que os ílhavos se deslocavam durante o Outono e parte do Inverno, temporariamente, para as águas de Cascais, atraídos por melhores condições de trabalho, preços, mercados e mar mais calmo.
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Castello Branco faz uma descrição muito minuciosa da ílhava: as características principais, a construção, as dimensões e tonelagem, a cor, o leme, o velame, os aprestos e acessórios, meios de propulsão (remos e vela), tripulação, actividade, artes de pesca (tarrafa) e porto de armamento. Era sem dúvida a «nossa ílhava» (imagem seguinte).



Luiz de Magalhães, in Barcos da Ria de Aveiro, 1905-1908, fez-lhe uma referência muito fugaz, que, de certa maneira, me confundiu. O próprio Museu de Ílhavo, criado oficialmente em 1937, não tinha no seu conjunto de miniaturas à escala, feitas habilmente por Porfírio Maia Romão em 1934, uma verdadeira ílhava.
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Há pormenores curiosos que me vão engrossando o interesse pela bateira ílhava.
Como nunca deixei de fazer recortes de jornais, de assuntos marítimos relativos ao mar e à ria, ao organizá-los, há cerca de três anos, veio-me à mão um, do Diário de Aveiro de 6 de Junho de 1999, em que a SIMRIA e o Clube de Vela da Costa Nova tinham assinado um protocolo em que uma das suas intenções era trazer de volta a ria antiga. Outro objectivo seria apoiar o projecto de recuperação da ílhava, embarcação que andou na ria de Aveiro, que deu origem a todas as outras, referiu Senos da Fonseca, acrescentando que «o próprio moliceiro é fruto de uma evolução natural da ílhava».
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DA de 6 de Junho de 1999

Achei que essa predilecção pela ílhava já era uma vocação mais antiga de Senos da Fonseca, tanto mais que um tempito antes (meados dos anos 90) tinha aparecido no Museu, para trocar umas impressões com a directora de então, sobre a bateira ílhava, munido de uns projectos da embarcação, em computador. Eu não sabia muito mais e confesso que os computadores, nessa altura, me intimidavam um pouco.
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Revelou-me mais tarde que devido a maleitas de que as informáticas às vezes padecem, perdera, com pena, os referidos projectos. Talvez a razão por que ainda hoje não tivéssemos tido uma bateira ílhava em tamanho real.
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Entretanto, tive conhecimento que na Colecção Seixas do Museu de Marinha existia uma miniatura à escala 1/25, em exibição, de um barco ílhavo.
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Também me apercebi de que o precioso Catálogo Seixas (publicado em 1988, pelo MM), abundante em fartas e seguras informações, nos apresenta, uma fotografia de um barco ilho, assim o apelida, a navegar na ria de Aveiro.
 
Barco ilho navega na ria de Aveiro… (Foto cedida pelo Museu de Marinha. Colecção Seixas)

 
E mais umas tantas preciosas imagens da bateira ílhava, na pesca da tarrafa, na baía de Cascais e imediações.
Entre os Amigos do Museu havia uma vontade não divulgada, mas intrínseca, de que o Museu viesse a ter uma bateira ílhava, mas tal desejo também nunca se cumpriu. Era capaz de ser um bocadinho arriscado, em vários domínios, assumir a sua construção.
E o tempo foi passando…
Com a mudança de século e já em Junho de 2007, SF., após uma pesquisa aturada e entusiasta, lançou o Ílhavo – Ensaio Monográfico do Século X ao Século XX, em que informa, a propósito da ílhava que, com base nas informações de Castello Branco, encomendara a Manuel Rufo, de Pardilhó, um modelo à escala de 1/27.
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Conclui (pp. 225 e 226) que havendo referências deste barco ter sido utilizado na apanha de moliço, não será estulto admitir ter sido a ílhava a precursora do barco moliceiro, tantas similitudes são patentes na forma e no conceito das duas embarcações…
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Nesse mesmo ano de 2007, o MMI exibira a exposição A Diáspora dos Ílhavos, no seu 70º Aniversário, de 8 de Agosto a 31 de Outubro, em que um modelo da bateira ílhava executado pelo hábil Marques da Silva fora vedeta. O plano, à escala 1/25, do Museu de Marinha, pertence ao desenhador e modelista, Luís António Marques, investigador da equipa H. M. Seixas, entre 1926 e 1948.

Modelo de barco ílhavo, em exibição, no MM

 
E com a força do Verão de 2011, o livro Embarcações que Tiveram Berço na Laguna, de Senos da Fonseca foi dado à estampa pela Papiro Editora. O autor revelou mais pormenores sobre a embarcação e teceu as suas considerações, algo discutíveis, mas admissíveis, pela sua viabilidade.
Já agora, seria realizável, hoje em dia, com os associados da AMI, em causa, e os meios de que dispomos (ou não dispomos) levar a efeito a recriação de uma ílhava em tamanho real? – pergunta-se. A nossa embarcação identitária? E para abicar onde? Não numa rotunda…exposta às intempéries. Na água, não duraria muito tempo – é sabido. O nosso museu, concordemos, à parte algumas limitações, temos consciência, seria mesmo o local de eleição.
Fica o desafio….
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Ílhavo, 20 de Outubro de 2011
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PS. Este blogue está em banho-maria desde o inverno de 2010. Parece-me o momento oportuno de ele vir a lume.

Como nas novelas…dois anos mais tarde…

A ílhava é um desejo concretizado. Chegou, no passado dia 30, ao Museu Marítimo de Ílhavo, graças ao saber e empenhamento de uma comissão da AMI, com a participação entusiasta e sabedora do construtor António Esteves, de Pardilhó, de Marco Silva (que se encarregou da vela) com cobertura fotográfica completa de Etelvina Almeida. No Verão passado, já com a ílhava em construção, Paulo Horta Carinha, reconhecendo o meu interesse pelo assunto, teve a gentileza de me oferecer um postal antigo de Aveiro, de que é grande coleccionador. Mostra nada mais nada menos que uma ílhava, já de menor dimensão, junto às Pirâmides, numa fase de vida já mais tardia, eventualmente pelo segundo ou terceiro decénio do século XX.
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A ílhava vai ser apresentada aos ílhavos, a 11 de Janeiro 2014, como nossa embarcação identitária, que levou muitos conterrâneos de antanho, por essa borda fora, que se transformaram em colónias mais ou menos fechadas de pescadores oriundos da zona, dando até origem a várias localidades litorâneas. Rogamos aos ilhavenses que estejam presentes.

Ria de Aveiro, junto às Pirâmides
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Imagens – Do arquivo pessoal da autora do blogue (livros, postais e jornal)
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Ílhavo, 3 de Janeiro de 2014
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Amigos do Museu de Ílhavo ressuscitam «a ílhava» - uma bateira secular

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E a saga continua... do ano velho para Ano Novo.
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O dia 30 de Dezembro foi de grande ansiedade e emoção para a equipa de trabalho que ficou encarregada da construção da «ílhava»...chove, não chove, passa... não passa...esmurra... não esmurra..., mas tudo foi previsto e medido ao milímetro. E o S. Pedro ajudou.
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ílhava no Tejo. Imagem da Colecção Seixas, Museu de Marinha
 
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Já cá está a ílhava e será apresentada ao público, no próximo dia 11, pelas 16 horas. Um velho sonho concretizado.
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Para saber mais, consulte a edição do Diário de Aveiro, de hoje.
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Ílhavo, 2 de Janeiro de 2014
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Bateira ílhava, modelo de Marques da Silva

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Em 2007, o MMI exibiu a exposição A Diáspora dos Ílhavos, no seu 70º Aniversário, de 8 de Agosto a 31 de Outubro, em que um modelo da bateira ílhava executado pelo hábil Marques da Silva fora vedeta.

Bateira ílhava, no Catálogo


A este propósito, referiu o autor do modelo, in Catálogo Colecção Capitão Marques da Silva, elaborado para o depósito de sua colecção, em Abril de 2008, no MMI:

Os barcos ílhavos ou varinos são como o nome sugere embarcações que vieram da Ria de Aveiro.
Digo vieram, porque nas indicações que recolhi, o seu local de trabalho era na boca da Barra de Lisboa, durante os meses de Inverno. No Verão ficavam varados nas praias de Algés e Pedrouços, onde as companhas tinham palheiros e varais, para guardar a palamenta e as redes. Durante o verão este pessoal ficava nas suas terras, onde havia trabalho nas artes da Torreira e da Costa Nova.


ílhavos da tarrafa abicados na Praia da Ribeira

Cada companha de trinta homens possuía dois barcos e com eles rebocavam, à força de remo, a sua tarrafa, rede de arrasto de superfície, com a qual pescavam sardinha. No barco da rede, embarcava o mestre e catorze camaradas, no caíque ou barco do peixe, um arrais e os outros catorze.

ílhavos de gabão e barrete, na ílhava, dedicados  à arte da tarrafa

Tal como nos descreve D. Manuel de Castello Branco, no seu livro Embarcações e Artes de Pesca, 1981, (os ílhavos são barcos longos, de fundo chato e arqueado, boca aberta e proa e popa erguidas, arrufadas e encurvadas em forma de gancho. São semelhantes aos saveiros, mas muito maiores. Têm igualmente tábua de quilha e verdugos de reforço na borda. Interiormente têm bancada com enora, carlinga fixa nas cavernas, sarretas e tilha abaulada à proa).

Dimensões de registo:
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Comprimento + ou – 13. 80 metros
Boca + ou – 2. 50 metros
Pontal + ou – 0,80 metros
Tonelagem + ou – 5, 8 toneladas
Relação comprimento/boca +ou – 5. 5 metros

Continua:

Nas minhas frequentes visitas ao Museu de Marinha de Lisboa, sempre o modelo do Ílhavo me fascinava. Não só a sua forma característica, mas achava estranho nunca ter visto nenhum, mesmo velho, nos meus passeios à volta da Ria.

Finalmente a explicação chegou no livro do D. Manuel de Castello Branco. Sendo barcos da Ria de Aveiro, a sua aplicação era em Lisboa. Aqui encontrei ainda a razão para o meu avô dizer que tinha nove anos quando veio na bateira para Lisboa com o seu pai e também recordar-se do palheiro e dos varais que os seus tios armavam na praia de Pedrouços, dos quais foram desapropriados quando da construção do caminho de ferro de Cascais.

Todas estas lembranças, reforçadas pelo gosto que os Amigos do Museu de Ílhavo mostravam ter por esta embarcação, deram-me força e coragem para que baseado no desenho Nº. 798 – 11Bb-A5 na escala de 1/25, do Museu de Marinha, resolvesse construir este modelo de Barco Ílhavo.


António Marques da Silva

Lisboa, Abril de 2007


Esta foi a primeira das bateiras que Marques da Silva construiu, não pensando ainda que seria a primeira de uma colecção primorosa de bateiras que tem vindo delicadamente a executar. A seu pedido, fui buscar os escritos ao Catálogo então feito e com ela encerramos, ele e eu, a tal colecção.

É caso para dizer que as últimas, muitas vezes, são as primeiras. Ou melhor, neste caso, a primeira foi, aqui, na postagem do blog, a última.

Fotografia de Carlos Pelicas

Ílhavo, 9 de Setembro de 2011

Ana Maria Lopes