segunda-feira, 24 de abril de 2017

Homens do Mar - Alexandre Vidal Simões - 32

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Alexandre Simões Vidal. Setembro de 1966
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Alexandre Vidal Simões (Ré), nado e criado em Ílhavo a 30 Janeiro de 1920, era o filho mais novo de Alexandre Simões Ré (1880-1967) e de Maria Nunes Vidal, entre uma descendência de oito irmãos – seis rapazes (João, José, Armindo, Manuel, Armando e, ele, Alexandre) e duas raparigas, Célia e Maria. Dos seis varões, quatro foram oficiais da Marinha Mercante. Alexandre Simões também foi marítimo, ajudante de motorista, tendo chegado pela sua dedicação e saber a exercer o cargo de maquinista.
 
Era portador da cédula marítima nº 11477, passada na Capitania do Porto do Porto, em 26 de Fevereiro de 1944.
 
Do casamento com Maria Mercedes da Silva, nasceram três filhos, a Mercedes, a Esperança e o João Alexandre, também ele, oficial da Marinha Mercante O efeito das gerações marítimas, ainda se foi sentindo, em Ílhavo…
Paiões, Ramalheiras, Cajeiras, Rés e muitas mais famílias de gente do mar ilhavense fazem-me sempre muita confusão, no parentesco, mas nada como, pé ante pé, ir esclarecendo. Os sobrenomes de irmãos, a maior parte das vezes, eram diferentes e as alcunhas e sobrenomes confundiam-se com frequência.
Alexandre Simões tinha uma habilidade manual que a Mercedes sempre enaltece com carinho e orgulho de filha. Aprendeu e praticou a sua «arte», nas serralharias de José Peixe e António Larico, cá no burgo, tendo, mais tarde, sido um óptimo funcionário da Fundição Paula Dias, em Aveiro, ao mesmo tempo que continuava com os estudos, em regime nocturno, na Escola Comercial.
Mas, o apelo do mar, numa vila maruja como Ílhavo, teria sido mais forte. E foi, de facto. A partir de fontes credíveis, Alexandre Ré começou como ajudante de motorista no lugre Navegante II, sob o comando de seu irmão João Simões Ré, na campanha de 1945.
Este lugre-motor de madeira, de três mastros, ex-Voador, foi construído para a Sociedade de Pesca Oceano, Lda., por António Dias dos Santos, em Fão, em 1912, tendo sido adquirido pela firma Ribaus & Vilarinho, com sede em Aveiro, em 1934.
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Lugre Navegante II, na Gafanha da Nazaré
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Na campanha de 1946, como ajudante de motorista (2ª viagem) embarcou no arrastão da SNAB, João Corte Real, sob o comando de Manuel Simões Ré, seu cunhado. A este navio, voltaria, mais tarde, em muitas mais viagens.
De retorno à pesca à linha do bacalhau, Alexandre Ré trabalhou em alguns dos navios míticos da Parceria Geral de Pescarias, com instalações de secagem na Azinheira Velha/Barreiro.
Nas campanhas de 1947 a 1949, embarcou no belo cisne branco Creoula, como 2º motorista, sob o comando do Capitão Francisco da Silva Paião, o intrépido Cap. Almeida.
Na campanha de 1951, experimentou, como motorista, o malfadado lugre-motor de madeira, Hortense, sob o comando do ílhavo João Simões Chuva, o Anjo.
E, saco no convés, chegou a vez de saltar para o mítico Argus, nas campanhas de 1952 e 53, como 2º motorista, sob o comando do Cap. Adolfo Simões Paião Júnior. Do primeiro ano no Argus, 1952, a Mercedes cedeu-me esta grata recordação fotográfica, com os pais e com o Cap. Adolfo, a bordo, há 65 anos. A pilha de sete botes compunha e embelezava o cenário marítimo.
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A bordo do Argus, em Lisboa. 1952
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Na campanha de 1955, duas viagens como 3º motorista no arrastão São Gonçalinho atraíram-no. A oficialidade manteve-se – capitão, David Manuel Mendes Calão, imediato, Manuel Gonçalves da Silva (Paroleiro) e praticante de piloto, Ernesto Manuel dos Santos Pinhal, todos de Ílhavo. Este arrastão clássico, mandado construir pela Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, fez a sua primeira viagem em 1948.
De seguida, parece que o arrastão clássico pertença da Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau (SNAB), João Corte Real, o seduziu, nele permanecendo durante muitos anos, sem que tivesse vindo a conhecer mais nenhum navio – de 1956 a 1972.
 
O arrastão clássico João Corte Real
Por curiosidade, o João Corte Real e o Álvaro Martins Homem foram navios gémeos e os dois primeiros arrastões construídos em Portugal, nos estaleiros da Companhia União Fabril (CUF), em Lisboa.
Na campanha de 1956, Alexandre Simões (Ré) ai retomou a sua carreira de 3º motorista, tendo ascendido a pulso e por mérito, em 1971, a 1º maquinista, tendo passado por 2º motorista e maquinista. Entre 1956 e 63 (inclusive), foi seu capitão José Ângelo Ramalheira, também de Ílhavo.
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Em St. John’s, em 1971
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Entre 1964 e 69, trabalhou sob o comando de capitães de fora, incluindo João Francisco Moreira Neta, de 1970 a 72, natural da Palhaça.
Alexandre Simões, bonacheirão, habilidoso, brincalhão, respondia com graça aos que lhe sugeriam comprar um carro, que não trocaria pela sua bicicleta. Não me faz falta – já lá tenho dois Mercedes em casa – mulher e filha.
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Momentos de convívio e diversão, a bordo do João Corte Real

São identificados, à esquerda, Alexandre Simões e, a meio, Manuel Tomé Cruz de Oliveira, residente em Ílhavo.
Nos finais de 60, teve o azar de partir uma rótula a bordo, pelo que esteve uns tempos internado no Gil Eannes, regressando ao navio, de muletas, hoje objecto de museu do navio-hospital.
Mas, um azar nunca vem só e o clímax da sua vida estava marcado. No início de Setembro, por volta das celebrações do Senhor Jesus dos Navegantes, sua mulher recebera um telefonema que lhe dera conta da terrível notícia – o marido fora atingido, na casa das máquinas, pela explosão de uma caldeira, que o deixara em desastroso estado, tal a amplitude e o grau das queimaduras sofridas. Nem imagino o que terá sido para a sua mulher, ainda na força da vida, receber uma notícia dessas! Alexandre Ré foi imediatamente internado num hospital de St. John’s, acabando por falecer em pouco tempo, dia 3 de Setembro, não dando sequer hipótese de ela ainda o ter visto com vida.
Ílhavo foi mais uma vez assolado por esta trágica notícia, tendo sido o seu funeral muito concorrido e a sua morte muito sentida em todo o meio, onde era bastante estimado. Assim partiu, com 52 anos, tendo sido o funeral no dia 7 de Setembro de 1972, este conterrâneo, que do mar vivia, a ganhar o sustento da Família, em fatal acidente com laivos de tragédia.
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Fotografias – Gentil cedência de sua filha Mercedes
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Ílhavo, 2 de Abril de 2017
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Ana Maria Lopes
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1 comentário:

Fernanda do Rosário da Silva Carvalho disse...

O meu tio-avô Alexandre! Eu era muito pequena mas lembro-me bem dele! Carinhoso e divertido...
O Avô-Pai guardava uma foto dele no quarto em cima da cómoda...Bela homenagem Ana Maria!