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terça-feira, 27 de junho de 2017

Homens do Mar - José Pelicas Gonçalves Bilelo - 34

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Capitão José Pelicas Gonçalves Bilelo
Aqui pelas vizinhanças, pelos conhecimentos e pelas genealogias marítimas, tão habituais em Ílhavo, tinha que parar por ali, na Rua de Camões, nº 87 – falo de José Pelicas Gonçalves Bilelo.
O Sr. Capitão José Pelicas Gonçalves Bilelo (1920-2000), nasceu em Ílhavo em 19 de Fevereiro de 1920.
Filho de Aquiles Gonçalves Bilelo (1887-1962), que já lembrei a seu tempo, e de Maria Rosa Pelicas, teve, do casamento com a Senhora D. Maria Manuela da Cruz Bixirão, muito amiga de minha mãe, três filhos – José Alberto, Vasco Manuel e Maria do Rosário Bixirão Gonçalves Bilelo. O primeiro foi oficial da Marinha Mercante, o Vasco foi meu aluno e com a Maria do Rosário, mantenho uma relação cordial.
Acabou o Curso de Pilotagem da Escola Náutica em 1942, tendo obtido a cédula de inscrição marítima nº 23945, passada pela capitania do porto de Aveiro, em 23 de Dezembro de 1942.
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 Possivelmente, a bordo do José Alberto. Anos 40

Dados credíveis permitem-me afiançar que nos anos de 1943 e 44 foi piloto do lugre-motor José Alberto, sendo capitão seu cunhado José Vaz Mano e imediato, Manuel dos Santos Malaquias. Como já referi, o José Alberto, ex-Caroline foi construído na Dinamarca, em 1932, tendo sido adquirido pela Sociedade de Pescas Oceano, Ld.ª, da Figueira da Foz, para a campanha de 1935. Tinha uma silhueta que o distinguia de todos os navios da nossa frota.

 O José Alberto, no início dos anos 60. F. Baier

Em 1945, foi imediato do navio Portucale, do comércio, sendo o capitão, o seu sogro, José da Cruz Bixirão. Desembarcou no ano anterior ao trágico naufrágio do navio, em 1946.

Ainda, piloto, a bordo…

Agora, começa a dança dos arrastões, que se torna bastante mais difícil de cotejar, pelo facto de poderem fazer duas viagens, podendo a oficialidade não se manter de uma para a outra.
 
Na safra de 1946, cumpriu o cargo de piloto no arrastão da EPA Santa Joana, 2 viagens, sob o comando do Capitão Francisco dos Santos Càlão, na primeira, e Capitão José Pereira da Bela, na segunda. O imediato era João Laruncho de São Marcos.
Na de 1947, igualmente no arrastão Santa Joana, também com 2 viagens, a oficialidade manteve-se, incluindo o capitão, que foi José Pereira da Bela.
 
Na campanha de 1948, também de 2 viagens, exerceu a função de piloto, na 1ª viagem e de imediato, na 2ª, mas, então, do arrastão Santa Princesa. O capitão da 1ª viagem foi António Trindade da Silva Paião e o da 2ª, o Capitão Manuel Inácio Gaia, da Figueira da Foz. O imediato da primeira foi José da Silva Rocha e o piloto da 2ª, Weber Manuel Marques Bela.
Na campanha de 1949, de uma só viagem, continuou a ser imediato do mesmo arrastão, igualmente sob o comando de Manuel Inácio Gaia, pilotado por Weber Manuel Marques Bela, de Ílhavo.
O arrastão Santa Princesa foi construído de aço, nos estaleiros Cox & Cª. (engineers), Lda., Falmouth, Inglaterra, em 1930, com o nome de Sptitzberg, tendo sido comprado pela EPA, em 1939, que o rebaptizou de Santa Princesa.
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O arrastão Santa Princesa, à entrada de Leixões. Fotomar

Durante as safras do 1950 e 51, estreou-se como capitão do esbelto lugre-motor Brites, da praça de Aveiro, levando como imediato, Artur de Oliveira da Velha. Nada de expectante, e a vida continua no mar, com curtas estadias em terra.

De 1952 a 1961, foi para a praça de Viana, substituir o pai, Capitão Aquiles Gonçalves Bilelo, que se aposentara, após o términus da campanha de 51, como capitão do navio-motor São Ruy.
É natural que tenha tido e teve, alguns imediatos e pilotos de Viana do Castelo e das redondezas, mas, Ílhavo também esteve presente com outros – Francisco Manuel de Oliveira Leite, piloto em 52 e 54 e imediato em 53, Orlando Brandão Vidal, piloto em 1954 e Alberto Marques Pauseiro, imediato de 57 a 60.
 
O navio-motor São Ruy

De 1962 a 1972, onze campanhas, foi capitão do arrastão Rio Lima, não tendo feito a segunda viagem, nos anos de 1965, 67 e 1972.
Durante este período, foram seus imediatos José Manuel Redondo Malaquias e Manuel Ângelo Nunes Correia, de Ílhavo.
O arrastão Rio Lima fora proveniente do navio-motor, de ferro, com o mesmo nome, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1952 para a Empresa de Pesca de Viana, que foi transformado em arrastão clássico, após a campanha de 1961.

O Rio Lima fundeado em Lisboa, na Junqueira. Foto de LMC

Nas campanhas de 1973 a 1976, comandou o arrastão também lateral Senhora das Candeias, tendo tido como imediatos José Ferreira da Costa Rocha, de Monserrate e António Fernando Paroleiro Santos, de Ílhavo.
O Senhora das Candeias foi arrastão lateral, de origem, mandado construir nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo em 1948, por ordem da EPV.
Ainda em 1976, ficou como Capitão Chefe da Empresa de Pesca de Viana, tendo-se aposentado em 1979, após cerca de 36 anos de mar intenso.
Passou, junto da família, ainda alguns aninhos, que poderiam ter sido bem mais calmos, se não tivesse exercido o cargo de Presidente da Câmara entre 1980 e 82.
Deixou-nos a 15 de Janeiro de 2000, com 79 anos de idade, depois de não ter resistido à falta da esposa, desaparecida, há pouco menos de um mês.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 19 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 14 de maio de 2017

Homens do Mar - David Càlão Marques - 33


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Capitão David Marques, a bordo do Inácio Cunha-
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David Càlão Marques nasceu em Ílhavo a 20 Agosto de 1926, sendo um dos filhos de uma descendência de oito irmãos, dos quais três rapazes, todos oficiais da Marinha Mercante. O mais novo, António Samuel, por doença, nunca chegou a embarcar. Do lado dos pais, Nazaré Correia e António Marques (a que já nos referimos), existia uma vasta tradição familiar de ocupações ligadas ao mar. Era irmão mais velho do saudoso Capitão Chico Marques.
No ano de 1948, terminou o Curso de Pilotagem da Escola Náutica, tendo sido portador da cédula marítima nº 43600, passada na Capitania do Porto de Lisboa em 8 de Agosto de 1947.
Do casamento com Maria Luísa Maia Batel, nasceram dois filhos, o João David, oficial da Marinha Mercante e Francisco Jorge Batel Marques, ambos, como eu, bisnetos da arraisa Càloa. O efeito das gerações ainda se fazia sentir, em Ílhavo.
Só mesmo o mar, dados os antecedentes familiares, podia ser o seu destino profissional.
David Marques iniciou a pesca ao bacalhau, na campanha de 1948, como piloto do arrastão Senhora das Candeias, sob o comando de José Gonçalves Vilão, tendo como imediato Manuel Santos Marnoto Praia, de Ílhavo. Fora a estreia do arrastão.
O Senhora das Candeias foi mandado construir pela Empresa de Pesca de Viana nos Estaleiros Navais da mesma cidade.
 
O arrastão Senhora das Candeias
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Nas safras de 1949 a 54, estreou-se na pesca à linha, durante seis viagens, como imediato do navio-motor, de madeira, Capitão Ferreira, sob o comando de seu pai, Capitão António Marques.
Foram seus pilotos, Mário dos Reis Maurício, de Lisboa (49), Fernando Esteves Águas, da Figueira da Foz (50 e 51), César Augusto dos Santos Oliveira, residente, que foi, em Vagos (52 e 53) e Samuel Pinto Borges, da Figueira da Foz (54).

O navio-motor, da praça da Figueira da Foz, fora mandado construir para Atlântica – Companhia Portuguesa de Pesca, em 1945.
 
O navio-motor, de madeira, Capitão Ferreira, em 1946
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Na campanha seguinte, a de 1955, estava na altura de mudar de navio e estreou-se como capitão do lugre-motor Brites, pertença da empresa Brites & Vaz, Lda., da Praça de Aveiro. Foi seu imediato António Simanta Carvalho, de Beja.
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O lugre-motor Brites, nos anos 60
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Os capitães tinham por hábito, de quando em vez, visitarem-se nos navios que comandavam. Eis uma chapa de quatro capitães de Ílhavo de uma geração mais recente – Elmano Pio da Maia Ramos, capitão do Hortense, David Marques, capitão do Brites, Francisco Correia Marques, capitão do Adélia Maria e João Fernandes Matias, capitão do Gazela Primeiro.
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A bordo do Gazela, em 1955
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David Marques, no ano de 1956, retomou o navio-motor, Capitão Ferreira, mas, desta vez, ascendendo ao cargo de capitão. Foi seu imediato o nosso patrício António Tomé da Rocha Santos.
Por motivo de doença e de uma intervenção cirúrgica, no ano de 1957, não foi à pesca.
E de viagem em viagem e de navio em navio, em várias «empostas», o Capitão David, na campanha de 1958, estreou o navio-motor, de aço, Rio Alfusqueiro, em que fez duas viagens de capitão, tendo tido como imediatos, Manuel Paulo Pinto Nunes Guerra (58) e Francisco Manuel Mendes Calão, em 59, e como pilotos, Francisco Manuel Mendes Calão (58) e António Brito Vida Branco, de Soza (59). O Rio Alfusqueiro fora construído para a EPA, nos, à época, Estaleiros de São Jacinto.
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O navio-motor Rio Alfusqueiro, em dia de bota-abaixo. 1958
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Na campanha de 1960, mudou de rumo e de rota, tendo ido para a pesca do Cabo Branco. Fez algumas cadeiras do Curso Complementar (Curso de Capitão), que concluiu no princípio de 1961.
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Nas campanhas de 1961 e 62, transferira-se para a Empresa Testa & Cunhas, Lda., onde assentara arraiais. Começara por exercer o cargo de capitão do navio-motor de madeira, Inácio Cunha, construído em 1945, pelo Mestre Manuel Maria Bolais Mónica. Foram seus imediatos, António Brito Vida Branco, de Soza (61) e Adolfo Francisco da Maia, de Ílhavo, (62).
 
A bordo do Inácio Cunha… 1961
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No ano de 1962, o Capitão David Marques declarou à empresa 11 162 quintais de bacalhau, de acordo com o seu diário de pesca, pelo que o navio abandonou o pesqueiro e chegou a Aveiro, sobrecarregado, pondo em perigo o navio, a sua carga, seus pertences e vidas humanas.
O que se fazia por mais uns quilitos de bacalhau, para ganhar a vida!!!!
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À chegada à Gafanha da Nazaré, bem no fundo… 1962
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O Capitão David, de 1963 a 1971, durante nove anos, comandou o meu idolatrado afilhado, que me deu tantas alegrias – o navio-motor de madeira, cujo bota-abaixo foi na Gafanha da Nazaré, em Março de 1956 – o São Jorge.
 
Belos e variados pormenores da ponte e convés deste navio…
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Enquanto esteve à sua frente, teve como oficiais, os imediatos, Joaquim Pereira Fernandes (1963) e João Guilherme da Silva Ferreira (64 a 66), da Gafanha da Nazaré, Mário Paulo do Bem, de Ílhavo, em 1967 e 68, Mário Manuel Gamelas Santana (69), residente em Aveiro e João Isidoro de Jesus Martins (1970 e 71), também de Ílhavo.
No ano de 1972, conheceu outros climas, fazendo uma viagem a Angola no navio-cisterna Porto de Aveiro, com um carregamento de vinho tinto a granel, embarcado na Gafanha da Nazaré. Também fez a viagem de imediato no Gil Eannes, com o Comandante António Manuel Papão Chinita. O ano de 1973 fora o da última viagem do navio-hospital, na assistência à frota bacalhoeira.
David Marques, ainda na campanha de 1973, voltou ao Capitão Ferreira, já transformado para navio de redes de emalhar com lanchas, tendo tido como imediato José Boavida de Carvalho Mesquita, de Lisboa.
Em 1973/74, foi capitão do navio porta-contentores Eco Tejo, com o imediato Manuel Luiz Chuva Machado dos Santos, de Ílhavo.
Começou a vida profissional com o avô, Capitão Manuel Santos Marnoto Praia e acabou com a companhia do neto, Manuel Luiz Chuva Machado dos Santos.
O tempo corre, corre, corridinho e cada um sente as suas corridas e as faltas dos seus. Em 25 de Abril de 1974, prematuramente, com 47 anos, partiu sem regresso, com 25 anos de mar. Ainda dizem que se morre muito no mar… Morre, pois morre, mas morre-se sobretudo, quando e onde se tem o destino marcado.
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Imagens – Meu arquivo pessoal
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Ílhavo, 10 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Homens do Mar - Alexandre Vidal Simões - 32

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Alexandre Simões Vidal. Setembro de 1966
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Alexandre Vidal Simões (Ré), nado e criado em Ílhavo a 30 Janeiro de 1920, era o filho mais novo de Alexandre Simões Ré (1880-1967) e de Maria Nunes Vidal, entre uma descendência de oito irmãos – seis rapazes (João, José, Armindo, Manuel, Armando e, ele, Alexandre) e duas raparigas, Célia e Maria. Dos seis varões, quatro foram oficiais da Marinha Mercante. Alexandre Simões também foi marítimo, ajudante de motorista, tendo chegado pela sua dedicação e saber a exercer o cargo de maquinista.
 
Era portador da cédula marítima nº 11477, passada na Capitania do Porto do Porto, em 26 de Fevereiro de 1944.
 
Do casamento com Maria Mercedes da Silva, nasceram três filhos, a Mercedes, a Esperança e o João Alexandre, também ele, oficial da Marinha Mercante O efeito das gerações marítimas, ainda se foi sentindo, em Ílhavo…
Paiões, Ramalheiras, Cajeiras, Rés e muitas mais famílias de gente do mar ilhavense fazem-me sempre muita confusão, no parentesco, mas nada como, pé ante pé, ir esclarecendo. Os sobrenomes de irmãos, a maior parte das vezes, eram diferentes e as alcunhas e sobrenomes confundiam-se com frequência.
Alexandre Simões tinha uma habilidade manual que a Mercedes sempre enaltece com carinho e orgulho de filha. Aprendeu e praticou a sua «arte», nas serralharias de José Peixe e António Larico, cá no burgo, tendo, mais tarde, sido um óptimo funcionário da Fundição Paula Dias, em Aveiro, ao mesmo tempo que continuava com os estudos, em regime nocturno, na Escola Comercial.
Mas, o apelo do mar, numa vila maruja como Ílhavo, teria sido mais forte. E foi, de facto. A partir de fontes credíveis, Alexandre Ré começou como ajudante de motorista no lugre Navegante II, sob o comando de seu irmão João Simões Ré, na campanha de 1945.
Este lugre-motor de madeira, de três mastros, ex-Voador, foi construído para a Sociedade de Pesca Oceano, Lda., por António Dias dos Santos, em Fão, em 1912, tendo sido adquirido pela firma Ribaus & Vilarinho, com sede em Aveiro, em 1934.
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Lugre Navegante II, na Gafanha da Nazaré
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Na campanha de 1946, como ajudante de motorista (2ª viagem) embarcou no arrastão da SNAB, João Corte Real, sob o comando de Manuel Simões Ré, seu cunhado. A este navio, voltaria, mais tarde, em muitas mais viagens.
De retorno à pesca à linha do bacalhau, Alexandre Ré trabalhou em alguns dos navios míticos da Parceria Geral de Pescarias, com instalações de secagem na Azinheira Velha/Barreiro.
Nas campanhas de 1947 a 1949, embarcou no belo cisne branco Creoula, como 2º motorista, sob o comando do Capitão Francisco da Silva Paião, o intrépido Cap. Almeida.
Na campanha de 1951, experimentou, como motorista, o malfadado lugre-motor de madeira, Hortense, sob o comando do ílhavo João Simões Chuva, o Anjo.
E, saco no convés, chegou a vez de saltar para o mítico Argus, nas campanhas de 1952 e 53, como 2º motorista, sob o comando do Cap. Adolfo Simões Paião Júnior. Do primeiro ano no Argus, 1952, a Mercedes cedeu-me esta grata recordação fotográfica, com os pais e com o Cap. Adolfo, a bordo, há 65 anos. A pilha de sete botes compunha e embelezava o cenário marítimo.
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A bordo do Argus, em Lisboa. 1952
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Na campanha de 1955, duas viagens como 3º motorista no arrastão São Gonçalinho atraíram-no. A oficialidade manteve-se – capitão, David Manuel Mendes Calão, imediato, Manuel Gonçalves da Silva (Paroleiro) e praticante de piloto, Ernesto Manuel dos Santos Pinhal, todos de Ílhavo. Este arrastão clássico, mandado construir pela Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, fez a sua primeira viagem em 1948.
De seguida, parece que o arrastão clássico pertença da Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau (SNAB), João Corte Real, o seduziu, nele permanecendo durante muitos anos, sem que tivesse vindo a conhecer mais nenhum navio – de 1956 a 1972.
 
O arrastão clássico João Corte Real
Por curiosidade, o João Corte Real e o Álvaro Martins Homem foram navios gémeos e os dois primeiros arrastões construídos em Portugal, nos estaleiros da Companhia União Fabril (CUF), em Lisboa.
Na campanha de 1956, Alexandre Simões (Ré) ai retomou a sua carreira de 3º motorista, tendo ascendido a pulso e por mérito, em 1971, a 1º maquinista, tendo passado por 2º motorista e maquinista. Entre 1956 e 63 (inclusive), foi seu capitão José Ângelo Ramalheira, também de Ílhavo.
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Em St. John’s, em 1971
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Entre 1964 e 69, trabalhou sob o comando de capitães de fora, incluindo João Francisco Moreira Neta, de 1970 a 72, natural da Palhaça.
Alexandre Simões, bonacheirão, habilidoso, brincalhão, respondia com graça aos que lhe sugeriam comprar um carro, que não trocaria pela sua bicicleta. Não me faz falta – já lá tenho dois Mercedes em casa – mulher e filha.
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Momentos de convívio e diversão, a bordo do João Corte Real

São identificados, à esquerda, Alexandre Simões e, a meio, Manuel Tomé Cruz de Oliveira, residente em Ílhavo.
Nos finais de 60, teve o azar de partir uma rótula a bordo, pelo que esteve uns tempos internado no Gil Eannes, regressando ao navio, de muletas, hoje objecto de museu do navio-hospital.
Mas, um azar nunca vem só e o clímax da sua vida estava marcado. No início de Setembro, por volta das celebrações do Senhor Jesus dos Navegantes, sua mulher recebera um telefonema que lhe dera conta da terrível notícia – o marido fora atingido, na casa das máquinas, pela explosão de uma caldeira, que o deixara em desastroso estado, tal a amplitude e o grau das queimaduras sofridas. Nem imagino o que terá sido para a sua mulher, ainda na força da vida, receber uma notícia dessas! Alexandre Ré foi imediatamente internado num hospital de St. John’s, acabando por falecer em pouco tempo, dia 3 de Setembro, não dando sequer hipótese de ela ainda o ter visto com vida.
Ílhavo foi mais uma vez assolado por esta trágica notícia, tendo sido o seu funeral muito concorrido e a sua morte muito sentida em todo o meio, onde era bastante estimado. Assim partiu, com 52 anos, tendo sido o funeral no dia 7 de Setembro de 1972, este conterrâneo, que do mar vivia, a ganhar o sustento da Família, em fatal acidente com laivos de tragédia.
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Fotografias – Gentil cedência de sua filha Mercedes
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Ílhavo, 2 de Abril de 2017
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 9 de março de 2017

Homens do Mar - Manuel Simões da Barbeira - 30

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 Capitão Manuel Simões da Barbeira
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Chegou a vez de tentar reconstituir o currículo marítimo de Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco), meu Avô, mas, dos primeiros anos, não sei praticamente nada, nem sequer tenho quem mo rememore. Começando pelo que sei, reportar-me-ei à bonita, elegante e prazerosa arraisa Joana Caloa, casada com João Simões da Barbeira, o Pisco, marítimo, de cujo casamento nasceram quatro filhos – Manuel Simões da Barbeira, o dito Capitão Pisco, Francisco dos Santos Calão, mais tarde o Capitão Francisco Calão, já lembrado, David, oficial da Marinha Mercante que morreu muito cedo e uma filha, Nazaré Correia, mais tarde, mulher do Capitão António Marques. Filhos do mesmo casal, todos com nomes diferentes. Era, de certo modo, vulgar, por Ílhavo.
Caso para dizer – em casa de ferreiro, espeto de pau, – pois, do meu avô, nem uma foto a bordo, tenho. Fardado e de estúdio e a que consta da ficha do grémio – são apenas as que possuo. Não era propriamente tempo de se andar sempre a «bater chapas».
Se tivesse de resumir a sua vida relacionada com o mar, diria, que teve uma primeira parte, de cerca de 10 anos, como capitão de navios da praça da Figueira da Foz, em que a Figueira estava na vanguarda da pesca bacalhoeira. Comandou, de permeio, durante a campanha de 1919, o lugre-patacho Gazela Primeiro, de Lisboa, e em 1921, sedeou-se na Gafanha da Nazaré, acabando a sua vida de mar na viagem de 1942, com 57 anos.
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Desde que possuo algumas provas, o Avô Pisco, com 23 anos, comandou o iate Mondego, de 1908 a 1911.
O iate Mondego (1908-1917) foi construído em Setúbal, em 1899, com o nome de Novo Flôr. A partir de 1908, passou a chamar-se Mondego, na Sociedade Pescarias Foz do Mondego e, posteriormente, ainda usou os nomes Nazareth e Apollo, tendo pertencido a mais empresas.
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 O iate Mondego, in Ilustração Portuguesa

O Capitão Pisco, nas campanhas de 1912 e 1913, saltou para o comando do lugre Golfinho, da praça da Figueira da Foz.

 O lugre Golphinho, em dia de bota-abaixo. 1912
Este navio teve uma existência muito efémera, mas digna de se recordar. O Golfinho foi construído para a Empresa de Pesca da Foz do Mondego por José Maria Bolais Mónica, nos estaleiros da Murraceira, na Figueira da Foz. Foi, então, considerado o melhor e maior navio do seu tempo.
O seu bota-abaixo tivera lugar a 3 de Março de 1912; porém, quando começou a deslizar, saiu da carreira e enterrou o cadaste no lodo. Só depois de porfiados esforços e do aproveitamento de outras marés vivas, foi possível pô-lo a flutuar. A terceira viagem, tendo saído de Lisboa a 6 de Maio de 1914, foi de um adeus sem fim…
Não fossem algumas coincidências, e nada mais saberia, para lá do que ouvira dos meus avós.
Em meados dos anos 80, pessoa amiga fez-me chegar às mãos cópia do Boletim Mensal da Liga dos Oficiais de Marinha Mercante, ano I, nº 5 de Agosto, de 1914, intitulada Naufrágio do Golfinho que expunha o Protesto e relatório do naufrágio e abandono do lugre português Golphinho, feitos a bordo do vapor inglez Corinthian, de cinco páginas.
Não tendo a intenção de editar todo o relato, apenas respigo o seu texto, recuperando algumas passagens que me parecem dignas de nota, respeitando a ortografia da época.
Por amável deferência de nosso presado consócio Ex.mo Sr. Manoel Simões da Barbeira publicamos o singelo e bem elaborado relatório de mar relativo á perda do seu belo navio que… abalroou com um iceberg na noite de 29 de Maio p.p. O Golphinho que pertencia á praça da Figueira era propriedade da Sociedade de Pesca da Foz do Mondego e era talvez o melhor navio português que ia á Terra Nova.
O capitão Barbeira e piloto sr. Arthur Oliveira da Velha são oficiais distintos da especialidade a que se dedicam e foi devido á sua muita perícia que, habilmente obstaram a que o navio sossobrásse, dando tempo a que conseguissem passar para bordo do Corinthian, que tomou todos os tripulantes, entre os quais José Pedro Martins em estado grave e que infelizmente foi morrer ao hospital de Havre.
Só quem anda nesta vida do mar, vida de constante combate contra inimigos traiçoeiros e poderosos, pode avaliar o que seja pelo meio duma noite escura sentir de repente o navio abalroar contra um obstáculo invisível e inesperado, ouvir o ranger do cavername, o esfacelar do costado, o estalar dos mastros partindo-se e a derrocada dos mastaréus, das enxárcias, dos cadernais, dos estais, por entre o bater de pano, os gemidos dos feridos e os grito de todos! Quanto animo e sangue frio precisa então ter o capitão para, pensando por todos, os serenar e lhes salvar as vidas em perigo! Aí então sobressai a grandesa da sua missão e a nobresa desta vida feita toda de dedicações obscuras e de brilhantíssimos feitos quasi sempre ignorados!Foi de noite e com nevoeiro que o Golphinho bateu na ilha de gelo que por ali vinha no seu deslisar funesto, sem que nada a denunciasse. (…)
Serenados os animos o capitão, que modestamente no seu relatório nunca fala em si, fez tudo por salvar o navio, mas reconhecida a impossibilidade pelo péssimo estado em que ficou após o abalroamento, tratou então de salvar as vidas confiadas à sua guarda. Felizmente quando ia tomar a resolução de mandar abandonar o navio entregando-se e aos outros a uma sorte incerta em pequenos botes, apareceu o paquete inglez Corinthian da Allan Line, em viagem de Montreal para o Havre, que prontamente se aproximou e os recebeu a bordo. O seu Comandante fora de uma bondade extrema, deixando os náufragos no porto de Havre e d’aí vieram num paquete para Lisboa.
Era assim a vida do mar em 1914.
Nas campanhas de 1915 a 1917, comandou o lugre-escuna Figueira, que foi construído em Inglaterra em 1904, tendo sido o ex-Becca and Mary, até 1913, então registado, na Figueira da Foz. Foi posteriormente vendido ao capitão de Ílhavo, António José dos Santos, conhecido por Capitão Rocheiro, tendo sido registado em Aveiro, tornando-se no Alcion, em 1920.
Na campanha de 1918, de aprestos, saco de lona e fardas, voou para o comando do lugre Voador. Este esbelto navio fora construído para a Sociedade de Pesca Oceano, da Figueira da Foz, por António Dias dos Santos, em Fão. O seu bota-abaixo fora em 26.9.1911.
A Gazeta da Figueira de 26 de Outubro de 1912 refere que, a reboque do vapor Liberal, entrou a barra da Figueira, em Outubro, o lugre Voador. Apesar de construído em Fão, este navio veio em casco e os últimos acabamentos, incluindo os mastros, teriam sido feitos na Figueira.
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  Lugre Voador. Figueira da Foz
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Esta foi uma das fotografias, relíquia de um passado centenário, que, juntamente com a do Golfinho ornamentavam as paredes de uma das recoletas da casa de praia que foi dos meus avós, na Costa Nova, demolidas em 1991, pelo seu degradado estado. No meio daquele mobiliário característico das recoletas da Costa Nova, salvaram-se umas camas e lavatórios de ferro, bem bonitos. E da parede? – duas fotografias, uma de um elegante e esbelto lugre, em dia de bota-abaixo…Mesmo sem identificar o navio à primeira, mais valia, desmontar o quadro, limpar a fotografia amarelecida pelo tempo, e guardá-la com carinho. Dois lugres a decorarem a parede de uma recoleta que pertencera ao Avô Pisco, só poderia ter a ver com a vida marítima dele: – ou navio da empresa Testa & Cunhas, ou navio que teria comandado. Conclui, mais tarde, que comandara ambos os lugres, em anos já referidos.
Vivo de referências da vida do meu Avô. Na campanha de 1919, fora o segundo capitão do lugre-patacho Gazela Primeiro. Quando o Gazela, tendo deixado a pesca, partiu para Filadélfia, alguém me ofereceu uma brochura que guardo religiosamente. Nela está esta imagem dedicada a todos os ilhavenses que comandaram o Gazela Primeiro, enquanto lugre bacalhoeiro.
 O Gazela Primeiro, rodeado dos seus capitães ilhavenses

Em 1921, estava na altura de mudar de praça de armamento, tendo atracado na praça de Aveiro.
Manuel Simões da Barbeira começou por comandar o lugre Silvina, de 1921 a 1927. Levou como pilotos, com base nas fontes possíveis, Augusto dos Santos Labrincha (22), José Ferreira Patacão (23), João Nunes de Oliveira e Sousa (25) e João Francisco da Madalena (26 e 27).
O lugre-motor Silvina, de madeira, foi construído para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., de Aveiro, em 1919 por Manuel Maria Bolais Mónica. Em 1928, passou a ser propriedade de Testa & Cunhas Lda.
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Em 1927, abrandemos o ritmo dos navios e das viagens e dediquemos algumas palavras à sua faceta empreendedora. Sempre considerei o meu avô um dos sócios fundadores da empresa Testa & Cunhas, Lda., constituída em 16 de Dezembro de 1927. E foi.

 Assinaturas da 1ª acta, após a constituição da empresa – última assinatura

Mas, ainda não há muitos anos, é que me certifiquei, por escritura encontrada e cópia adquirida no Arquivo Distrital de Aveiro, que ele, anteriormente, já fazia parte da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., de Aveiro.
Tendo tido conhecimento do teor do recorte do jornal O Ilhavense, de 4.12.1927, e tendo cruzado todos estes dados, não foi difícil concluir esta sucessão de empresas.

Recorte do jornal O Ilhavense, de 4.12.1927

E, voltando aos navios, o Capitão Pisco comandou o lugre Cruz de Malta de 1928 a 1937, com uma interrupção em 1932, em que o navio não foi ao bacalhau. Foram seus pilotos João Francisco da Madalena (28), Manuel dos Santos Marnoto Praia (29 a 33), Mário Paulo do Bem (36 e 37).
Na campanha de 1938, fez a viagem inaugural do lugre de quatro mastros Novos Mares, aí se mantendo até 1942 (inclusive). Foram seus pilotos Francisco Fernandes Mano (38), Flávio Ramires Campos Pereira (39, 40 e 41) e Júlio da Silva Paião (42).
Por informação do Jornal de Notícias de 8.12.1938, tive conhecimento de que o Novos Mares, no dia anterior, ao entrar a nossa barra e ao passar a restinga, encalhou, pelo que os restantes cinco navios, que aguardavam fora do porto, ficaram para o dia seguinte. Este encalhe, felizmente sem consequências, foi originado pelo lamentável estado da barra, agudizado pela não existência de motor, a bordo. Na campanha de 39, embora um pouco mais tardiamente, o Novos Mares já partiu, com o novo equipamento, indispensável.

  A escala, a bordo do Novos Mares, em 1938

Então, depois de muitas procelas, maus bocados, aflições, preocupações, angústias, saudades da família, próprias deste tipo de vida rude e dura, ficou em terra, depois de cerca de quarenta anos de mar, apto a, em 1943, iniciar as suas funções de Avô. Adorava-me, estragava-me com mimos, levava-me com frequência à chegada das redes (artes), nas companhas da Costa Nova e, amiúde, no quadro da bicicleta, à seca, na Gafanha da Nazaré. Bonacheirão, bondoso, humano e afável, empreendedor e trabalhador, entregou-se, após as fainas do mar, às visitas sistemáticas à firma de que fora um dos sócios fundadores. As lides agrícolas ali, no quintal do Curtido de Baixo, ocupavam-lhe o resto do tempo. Deixou marcas profundas na minha existência e, além das colheres do Titanic, ainda hoje, guardo, com afecto, alguns dos instrumentos náuticos de seu uso pessoal – em tempo incerto, não saio sem consultar o barómetro que fora seu. Curiosa, a diversidade de navios em que embarcou. Daí, não ter sido fácil, mas atractivo e apelativo, articular as informações.
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Ílhavo, 4 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Homens do Mar - Francisco Correia Marques - 29

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Capitão Francisco Correia Marques

Francisco Correia Marques nasceu em Ílhavo a 14 de Dezembro de 1930, sendo um dos filhos de uma prole de oito irmãos, dos quais três rapazes, todos oficiais da Marinha Mercante, embora, um deles, por doença, nunca tivesse chegado a experimentar o mar. Quer do lado de sua Mãe, Nazaré Correia, como do lado de seu Pai, António Marques, existia uma vasta tradição familiar de actividades ligadas ao mar.
Depois de completar o curso complementar dos liceus, em Aveiro, foi para Lisboa para frequentar o curso de pilotagem na Escola Náutica, que terminou em 1949. Era portador da cédula marítima nº 115236, passada na Capitania do Porto de Lisboa em 8 de Agosto de 1949.
Com estes antecedentes familiares, só o mar o podia esperar……….
Do casamento com Maria dos Prazeres Valente Labrincha (a Zerinhas), nasceram dois rapazes, o António Augusto e o Francisco e a Maria do Rosário. O Francisco tirou o curso de oficial da Marinha Mercante, chegando a andar embarcado com o Pai.
Francisco Marques iniciou a pesca ao bacalhau, nas campanhas de 1949 (uma viagem) e de 1950 (duas viagens),  como piloto do arrastão São Gonçalinho, sob o comando de seu tio, Francisco dos Santos Calão (1949 e 50) e de José de Oliveira Rocha (2ª viagem de 1950). Este, imediato nas duas primeiras viagens, na terceira, passou a capitão, tendo sido substituído por Eduardo Pereira Afonso, de Lisboa. O São Gonçalinho, mandado construir igualmente pela EPA, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, fez a sua primeira viagem em 1948.
Nas safras de 1951, 52 e 53, passou para a pesca à linha, a sua grande paixão, como imediato do lugre-motor, de madeira, Adélia Maria, sob o comando de seu sogro, Augusto dos Santos Labrincha Laruncho. O lugre, da praça de Aveiro, foi mandado construir para o armador José Maria Vilarinho, em 1948.
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O lugre Adélia Maria, entre botes, em mar chão…
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Na campanha de 1954 assumiu o comando desse lugre, onde se manteve sete anos, até 1960. Entre os diversos imediatos que levou, durante as safras de 1956, 57e 58, conta-se o ílhavo António José Pereira Teles.
A bordo do lugre Adélia Maria, anos 50…

Francisco Marques, nas safras de 1961 e 62, transferiu-se para capitão do navio-motor, em aço, Capitão José Vilarinho, construído para José Maria Vilarinho, nos Estaleiros Navais do Mondego, Figueira da Foz, em 1954.
Interrompeu a sua actividade, para voltar, de Novembro de 1962 a Fevereiro de 1963, à Escola Náutica, para fazer o curso complementar de pilotagem.
O navio-motor Capitão José Vilarinho

Na campanha de 1963, embarcou de imediato no São Ruy, navio-motor em aço, da Empresa de Pesca de Viana, sob o comando do conterrâneo  Joaquim Fernandes Agualuza. No ano seguinte, 1964, assumiu o cargo de capitão.
Chegou a hora de mudar de vida e de terra e, de casa às costas, o Cap. Chico, de 1964 a 1972 e de 1974 a 1975, suspendeu a sua vida no mar e trabalhou na Parceria Geral de Pescarias, na Azinheira (Barreiro), como «capitão de terra».
Em 1973, voltou aos mares da Terra Nova e Groenlândia. Foi desafiado a exercer o cargo de capitão no Creoula, a última viagem do velho lugre-motor. O Francisco tinha saudades do mar, em todas as suas vivências, desde o mar de senhoras ao de vagas alterosas, desde os gelos perigosos e brumas imprevistas e cerradas às calmarias azulinas, reflexo de céus esplendorosos..… O «nosso capitão» era daqueles a quem o mar fazia falta, como suporte vital, além da família, que sempre levava bem juntinho ao coração.
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Pescador entre pilhas de botes, no Creoula, em 1973

Com as mudanças inevitáveis dos processos de pesca, em 1976, depositou o saco no convés do navio, para, desta vez, comandar o Neptuno, navio-motor, em aço, no qual faria a sua última viagem, em 1986. O Neptuno, tendo sido construído para a Parceria Geral de Pescarias, nos Estaleiros de São Jacinto, em 1958, foi transformado em navio de redes de emalhar com lanchas, em 1971.
Ao leme, no navio-motor Neptuno. 1978
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Em final de rota, nos anos 80 e no começo da década de 90 orientou cursos de formação em empresas de pesca e no Sindicato dos Pescadores de Aveiro.
Tendo acabado a sua carreira profissional, voltou à terra natal. Conhecedora do seu saber, disponibilidade, parentesco e vizinhança, propus-lhe ser o supervisor técnico de um documentário À Glória desta Faina, a apresentar no auditório do Museu, em Novembro de 1989. Casas cheias…Daí a uma colaboração importante, sistemática e valiosa com o Museu Marítimo e Regional de Ílhavo, iniciada em 1992, foi um passo. Vivemos um tempo de satisfação, de paixão, cumplicidade e entusiasmo.
De 1994 a 1999, na Associação dos Amigos do Museu, foi seu vice-presidente.
Desafiados pela editora Quetzal, assumimos a co-autoria, do livro Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, publicado em 1996. E com que entusiasmo e enlevo!... Premiado com o «Leme do Ano», A Faina Maior, com  o apoio da Associação dos Amigos do Museu, já teve mais duas edições (2011 e 2015).
Entre Agosto e Setembro de 1998, voluntariamente, foi Director de Treino de Mar na viagem do Creoula ao Canadá, integrada no projecto De Novo na Terra Nova. Era carinhosamente tratado pelo Avô-barbas.
Perante uma reviravolta inesperada, nos órgãos directivos do Museu, o Cap. Chico Marques, entre finais de 1999 e 2002 assumiu a direcção executiva do Museu Marítimo de Ílhavo.
Escreveu vários artigos sobre memórias da pesca do bacalhau e temas de navegação, tendo participado em diversas conferências e programas de televisão.
Nesta última fase, vivia intensamente o mar, em terra...
Por tudo quanto foi recordado, foi-lhe atribuída, e bem, a medalha do Concelho, em ouro, em 16 de Abril de 2001.
Já bastante debilitado, proferiu a sua última palestra, em 18 de Março de 2006, da qual o Museu Marítimo de Ílhavo publicou a brochura  Navegação dos Bacalhoeiros nos Mares da Terra Nova.
Tendo lutado contra uma doença, qual Poseidon contra mar encrespado, sairia, para nosso lamento, vencido. E assim nos deixou a 2 de Novembro de 2006,  há cerca de  dez anos, perante a dor e a saudade de todos os familiares, amigos e dos que, de perto, conviveram com ele. Prolongou a sua vida de mar em terra, nesta terra que foi, sobretudo, de gente do Mar
Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família
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Ílhavo, 6 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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