quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Ida às Berlengas no Santa Maria Manuela - II

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É certo que o vento não soprava. De tarde aumentou um pouco, mas ainda estava fraco. Mas o Santa Maria Manuela não se fez rogado e, uma a uma, todas as velas foram içadas. Ao sair a barra, já estava em cima a vela grande e à proa, a polaca e a bujarrona. Ao início da tarde foram içadas, por esta ordem, a giba (à proa), a vela do traquete, a do contratraquete e por fim, a vela da mezena. Mas não se iam ficar por aí. Logo a seguir, seriam içados, por esta ordem, os gavetopes do traquete, do contratraquete, do grande e da mezena (ou seja, um a um, da proa para a popa). E assim passou o Santa Maria Manuela a navegar com todos os seus 11 panos orgulhosamente envergados nos seus mastros.
Foi curioso observar a confusão de cabos que abunda por todo o navio, até porque tenho sempre que pedir ajuda para montar convenientemente o catamaran que costumo alugar na Costa Nova. E assim, logo à partida, quando comparado com esse barquinho, a dificuldade aumenta enormemente, a partir do momento em que se começa a multiplicar por 11 o conjunto de cabos e apetrechos necessários para cada vela ou mastro: escotas, adriças, moitões, amantilhos, brandais, enxárcias, mais os cabos para amarrar cada vela quando descansa... E certamente me estou a esquecer de outros mais... É preciso tirar um valente curso. Mas a tripulação manejava toda esta parafernália com destreza e mestria.
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Ainda a respeito dos gavetopes, confesso que não conhecia o termo, mas rapidamente tentei inteirar-me do seu significado. "Gavetope" ou "gafetope" são as palavras portuguesas que derivam do inglês "gaff top", que significa topo da gávea. Portanto, o termo identifica as velas que são içadas no topo dos mastros. Pensava que estas seriam as famosas estênsulas, envergadas pelos antigos lugres, como o próprio Santa Maria Manuela, quando era mais novo. Mas não. Em comparação com as estênsulas, estes gavetopes são mais pequenos e certamente muito mais leves – uma das muitas inovações introduzidas na remodelação do navio, que não desvirtuam o seu aspecto.
Talvez devido à beleza e elegância que o navio espalhava no ar e espelhava na água, tivemos a simpatiquíssima visita dos verdadeiros especialistas da hidrodinâmica e da destreza aquática para completar o cenário – pelo menos três golfinhos apareceram para brincar na proa do navio e acompanhar a sua deslocação suave. Nunca tinha assistido ao vivo. Fiquei o tempo todo a admirar os seus movimentos rápidos e elegantes.
Pareciam ser eles que rebocavam o navio. Andavam de um lado para o outro, a vante. Apareciam acima de água, saltavam, mergulhavam, passavam por debaixo da proa do navio e apareciam do outro lado. Davam a sensação que viviam uma intensa alegria.
A viagem continuou calma e o vento até amainou um pouco. À medida que o sol se aproximava do horizonte, todas as cores ficavam mais quentes, quase parecendo queimar os objectos.
Entretanto, vimos uma nuvem curiosa por estibordo, por detrás da qual se escondeu o sol. Estava previsto alterar o nosso rumo sucessivamente para estibordo, invertendo o sentido da marcha em direcção a norte, para regressar. Passaríamos entre a Berlenga e os Farilhões. Mas, surpresa das surpresas (para mim, pelo menos), à medida que nos aproximávamos da referida nuvem, as condições de vento e de mar começam a alterar-se bruscamente. Passou a estar mais frio, pelo que tivemos que vestir uns casacos e passámos a ouvir uma zineira permanente.
Como o vento vinha de estibordo, de oeste, e ainda teríamos que andar algum tempo nessa direcção, para passar a sul dos Farilhões e inverter o sentido da marcha, assim que começámos a andar contra o vento, naturalmente as velas começaram a bater. Todos os panos ainda estavam içados e, principalmente, os gavetopes esvoaçavam numa dança permanente.
Não estava preocupado com toda a barafunda, porque um veleiro é um veleiro e eu sabia que assim que cruzássemos a linha do vento, as velas encheriam do lado contrário, o navio teria conseguido virar de bordo e prosseguiríamos a rota definida.
De qualquer forma, até que isso acontecesse, gerou-se alguma azáfama a bordo, para baixar os gavetopes, que continuavam endiabrados. O cenário era digno de registo, embora um pouco enigmático, porque ainda havia um lusco-fusco, a lua estava cheia e começava a espreitar por debaixo da tal nuvem, o navio tinha os holofotes do topo dos mastros acesos e a tripulação andava de um lado para o outro, embora houvesse alguma ordem em tais movimentos. A hierarquia de comando parecia funcionar e cada um sabia a sua função com maior ou menor rigor.
Eu observava e fazia experiências com a máquina fotográfica e com o telemóvel para tentar armazenar esse movimento – do mar, das velas, das gaivotas e dos homens, o melhor possível. Sim, porque situações destas, de movimento, luz e cor, não acontecem ao virar da esquina.
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E já disse gaivotas. Sim, não sei donde elas apareceram. Provavelmente vieram dos Farilhões ou da Berlenga. Estão habituadas a ver passar muitos veleiros por estas paragens. Mas a maioria deles são mais pequenos e não são tão vistosos como o Santa Maria Manuela. Imagino que as gaivotas tenham vindo para ver se estava tudo em ordem.
Certamente, não só acharam alguma parecença entre as velas do navio e as suas próprias asas, como também lhes pareceu familiar a forma leve e elegante como o navio sulcava as águas, muito semelhante ao seu próprio movimento de planadoras, quase sem esforço.
Ouvi-as, talvez por telepatia, dizer umas para as outras:
– Este não é o Creoula? É tão parecido!
– Não, são realmente parecidos mas esse costuma vir de sul e este veio de norte. Eu já vejo as suas velas desde que passou ao largo da Nazaré.
Ainda tagarelaram mais qualquer coisa, mas já não consegui ouvir. Depois, acho mesmo que pararam de conversar e começaram um movimento frenético de mergulho, seguido de refeição rápida, do tipo fast-food. Às vezes, os peixes fugiam-lhes. Mas elas não largavam o navio. Pareciam aproveitar a luz e o movimento. E não sei mesmo se não pousariam algures para descansar, aproveitando a boleia.
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Estava tão envolto nestes movimentos graciosos de asas e refeições rápidas, que quase me assustei... De repente, parecíamos ter ficado às escuras. Apagaram os holofotes dos mastros. As gaivotas não eram mais visíveis. E o corpo parecia querer um bom beliche para descansar.
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E o relato do meu filho Miguel continua.
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Costa Nova, 15 de Agosto de 2013
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1 comentário:

Maria Emília Castro disse...

E eu vou ficar á espera de ler o resto! Gostava imenso de fazer uma viagem destas, mas como enjoo, ainda não ganhei coragem! Estou a gostar de ler este relato da viagem!