sábado, 16 de fevereiro de 2013

Bateira «Zé Gato» - Lagoa de Mira - I

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Com a vinda inesperada do Amigo Marques da Silva a terras da Gafanha, pelo Carnaval, veio mais uma «prenda» para a colecção que já vai muito encorpada – Barcos/bateiras da ria, em modelos. Com ela, o plano e o pequeno texto:
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Há dias um amigo que conhecia a minha colecção de modelos de bateiras da ria de Aveiro, perguntou-me se eu sabia da existência das que se usam na Lagoa de Mira.
Não sabia.
Na realidade, embora tendo ido várias vezes à praia de Mira, nunca havia prestado atenção às embarcações da lagoa. No meu subconsciente, entendia que deviam ser iguais às que eu conhecia no sul da ria e sendo assim, nunca lhes tinha dado a atenção que agora entendo merecida.
Este amigo informou-me também que naquela altura, tinha visto uma em seco, talvez para ser pintada, e que portanto era boa ocasião para eu ir lá dar uma espreitadela.
 
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Assim fiz e como de costume levei papel, lápis, uma fita métrica e os costumados companheiros que vão tendo paciência para me ajudar.
Realmente lá estava a bateira, num local público e muito acessível, que tornou esta pesquisa uma viagem de recreio. Tratava-se de uma embarcação construída segundo os preceitos utilizados em todas as zonas da ria, com algumas pequenas alterações certamente necessárias à especificidade da sua função de pesca na lagoa.
 
 
Digo função de pesca, por ser essa a utilização que para ela me pareceu apropriada e por ver atracada no canal próximo uma outra igual, ainda com aprestos de pesca a bordo.
A principal diferença que se notava era a falta do coberto de proa. É totalmente aberta de fora a fora, mas conserva os braços do forcado de proa alongados, formando os golfiões.
Tem duas chumaceiras com «escalamões» para remar numa bancada bastante a vante e mais uma do lado de estibordo para ser utilizada numa bancada a meio. Não tem ferragem para leme, nem enora ou carlinga para mastro.
Chamava-se “Zé Gato” e o número de registo era C- 0623.
Fiz o plano para construção do modelo, na escala de 1/25, como vem sendo meu hábito.
 
 
Construí esta bateirinha como de costume com cavername de limoeiro e forros de choupo. Os remos construi-os de tola e procurei pintá-la com cores muito parecidas às originais.

 
 
As medidas reais encontradas são:
 
Comprimento………. 5,85 metros
Boca…………………1,40 metro
Pontal………………. 0,38
Nº de cavernas……….11
Escala………1/25
Caxias, 15.1.2013
A.Marques da Silva
(Cont). 

Ílhavo, 16 de Fevereiro de 2013

AML

3 comentários:

João Reinaldo disse...

É caso para dizer: "Aqui há gato" e é gato escondido com o rabo de fora.
Boa oportunidade para conhecer mais uma embarcação da nossa região.

Anónimo disse...

Pois eu tenho fotografias de 3 bateiras da Barrinha, que vi alagadas no inverno de 2011 e pelo menos duas tinham tamanhos diferentes, sendo uma pequenissima... A bateira maior tinha na verdade três chumaceiras mas como estavam afundadas essa tinha o seu leme tradicional dentro... num quintal ao lado havia ainda uma outra já bastante velha....
Julgo que estas bateiras são uma evolução turistica da bateira matola, pois seria dificil pôr os veraneantes a navegarem com vara... Antigamente havia várias pessoas na Barrinha a alugarem bateiras às meias horas...
No Canal de Mira encontrei os restos de uma matola a sul Gafanha do Carmo e, lá para sul, depois da Vageira, está uma outra bastante podre mas ainda inteira...

Antonio Angeja

Antonio Dias de Figueiredo disse...

Muito obrigado pelo seu excelente trabalho! Na minha infância, há cerca de 55 anos, passava as férias na Praia de Mira e convivia estreitamente com as bateiras, que estavam muito ligadas à vida na Barrinha.

Tanto quanto recordo, a sua função mais comum era a apanha do moliço, usado para adubar os campos. Também serviam de meio de transporte entre os lados poente (parte habitada) e nascente (campos) da povoação. Não me recordo de as ver usadas para pescar. Pescava-se na Barrinha, à cana, mas a partir da margem, em particular no Poço da Grota, a zona mais funda. A única modalidade de pesca que conheci, feita com as bateiras, era proibida e era raro ver alguém a arriscar-se. Era a pesca ao “candeio”, durante a noite, com uma lanterna Petromax suspensa da proa, que permitia ver os peixes (em particular as enguias) a esconderem-se no fundo. Para o efeito, usava-se uma vara longa com ponta em arpão.

A generalidade das bateiras tinha quatro chumaceiras com escalamões. O lugar junto à proa era o mais usado, porque deixava todo o resto da bateira livre. Nessa posição os remos cruzavam-se, o que permitia manobrar com muita facilidade e, até, remar só com uma mão. Também era possível serem remadas por duas, com uma no banco junto à proa e outra no banco intermédio. Quando se faziam competições, normalmente no verão, usavam-se dois remadores e quatro remos por bateira. Quando a bateira era usada para a apanho do moliço não usava remos, mas sim uma vara longa, que se apoiava no fundo. Também era possível, embora pouco frequente, usar um só remo, que se segurava com uma das mãos, junto à popa, usando a outra mão para o fazer “gingar”.

Nos dias de vento era frequente levantar-se o estrado (ou “paneiro”) maior, para navegar à poupa, usando-o como vela e travando-o na vertical com auxílio do vertedouro.

António Figueiredo