quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Gazela Primeiro em reconstrução, na Gafanha

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Uma fotografia sem data e sem elementos identificativos perde grande parte do seu valor, dispersando-se no tempo…

Se fornecer tantos dados que no-la permitam balizar na cronografia, pode ser um manancial precioso de conhecimento.
É o que se passa com esta excelente imagem, pela informação que nos faculta. Jorra de cada canto…
O que é que nos ensinou ou nos fez rever, reescrever ou meditar?
De assunto em assunto, fomos navegando…ou melhor, sobrevoando a zona dos Estaleiros Mónica na Gafanha da Nazaré, pelo ano de 1959. Já lá vão 53, meio século e pico…


Foto aérea dos estaleiros Mónica, em dia festivo

Vejamos – em primeiro plano uma doca flutuante, que ainda hoje existe na Gafanha a funcionar. Foi mandada vir da Inglaterra pelo Mestre Mónica, para acolher o lugre-patacho Gazela Primeiro, propriedade da Parceria Geral de Pescarias, do Barreiro, para suportar uma grande intervenção de restauro.
Para dirigir tal trabalho foi destacado o Capitão Marques da Silva, nos seus joviais 28 anos.
Do espólio sobrante do grande incêndio que devorou os Estaleiros Mónica, existem no MMI, apenas arquivos relativos às décadas de cinquenta e sessenta.

À primeira vista, chamou-nos a atenção uma pasta de 1959-60, dedicada à reconstrução do Gazela. Para além de dois planos do navio, anotados, sobretudo nas ditas áreas de intervenção, um dossier de correspondência pormenorizada entre armador e estaleiro também nos cativou.
Segundo nos revelou o amigo Marques da Silva, a reparação foi profunda – visava a verificação do cavername, pelo que foi necessário retirar para substituir a quilha e a sobrequilha.
O respeitável Mestre Manuel Maria Mónica, que acompanhava, de alma e coração, os trabalhos de reparação deste velho navio, mantinha uma boa relação com todos os elementos da tripulação.
O seu desaparecimento inesperado (a 16 de Julho de 1959), após os trabalhos de orientação da colocação da nova quilha, foi um rude golpe sentido muito sentido por todos.

E que mais? De lupa em punho, as letras alinhadas na doca, os enfeites, os navios embandeirados em arco, um movimento inusitado no cais, punham-nos uma questão. Que se teria passado?
Fomos lendo, fazendo deslizar a lupa ou o zoom, conforme os suportes:
ESTALEIROS MÓNICA E OPERÁRIOS SAUDAM O PRESIDENTE AMÉRICO THOMAS, SALAZAR E THEUTÓNIO PEREIRA. VIVA PORTUGAL

Uma saudação típica do regime em vigor que Mestre Mónica, todo situacionista, idealizou e ajudou a desenhar com a sua própria mão, referiu-nos Marques da Silva.
A vizinha cidade de Aveiro festejava as suas bodas milenares, pelo que o Presidente da República e sua comitiva aí estariam presentes, entre 4 e 6 de Julho de 1959.
Chegámos à identificação segura da data, mesmo na ausência de imagem datada.

Transportados de Lisboa a bordo de navios de guerra, desembarcaram os ilustres visitantes, no Forte da Barra. Depois do acto inaugural das obras do porto de Aveiro, o cortejo, passando pela Gafanha, dirigiu-se à cidade milenar, para inaugurar as novas instalações do porto de pesca costeira (Jornal do Pescador. Agosto de 1959, pp. 22-23) de Aveiro (Aos 5 dias do mês de Julho de 1959… – rezava uma lápide –), junto ao Canal das Pirâmides, quando elas ainda existiam.

Era a moderna lota, hoje completamente em estado de ruina e degradação.
E que mais nos é dado observar na imagem? Um mar de cavername e de esqueletos náuticos. Entre eles, sobranceira pelo tamanho e pompa, a monumental construção que ocupava a carreira, na grandiosidade dos seus vários andares.
A Nau S. Vicente, na carreira do estaleiro do Mestre Manuel Maria. Pelo sul deste, o que foi do seu irmão António Mónica, à data já falecido. Ao largo, um horizonte despido, salpicado de umas casitas. A Gafanha da Nazaré de ontem e… a de hoje?
Mais vale quedarmo-nos por aqui, para continuar a catar pormenores que nos fascinam.

Há imagens que valem a pena, pelo valor documental. Reportam-nos a uma passado recente, com o qual não concordaremos, mas de uma forma extremamente viva e reveladora. Dos estaleiros, nem marca. O Gazela ainda navega, mas por outras águas que não as nossas.

E lá vão os tais 53 anos, hoje, dia 5 de Julho.


Foto gentilmente cedida pelo Capitão Marques da Silva


Ílhavo, 5 de Julho de 2012


Ana Maria Lopes
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2 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia.

Uma verdadeira raridade esta foto. Excelente artigo mais uma vez nos oferece.

Atentamente,
www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

Luis Miguel Correia disse...

Muito interessante, como sempre.Também é um passatempo meu, desencantar as histórias escondidas em imagens antigas... Muitas vezes consegue-se de repente após anos à procura...

LMC