quarta-feira, 13 de maio de 2009

A arte xávega na Vagueira



Hoje, ao folhear o Diário de Aveiro, esta notícia chamou-me a atenção:


Após a observação, em várias épocas, do que ainda resta da arte xávega, chegámos à conclusão, in REGRESSO AO LITORAL – Embarcações Tradicionais Portuguesas, que a região costeira que medeia entre Espinho e Vieira de Leiria, incluindo a zona lagunar de Aveiro, é aquela em que ainda mais sobrevivem as chamadas “embarcações tradicionais” e, apesar de algumas adulterações que têm sofrido ao longo dos tempos, ainda vão sendo agradáveis à vista. Saibamos continuar a mantê-las.


O barco do mar já não é o mesmo de há quarenta anos em local nenhum, bateiras do mar genuínas já não existem… Mas a arte xávega, embora de menores dimensões, ainda continua, neste espaço geográfico, a ser lançada em embarcações de madeira, de linhas elegantes e sóbrias, mas alegre policromia.

Costa-Nova – 1984 (embarcação da Vagueira)

Relembremos:
– A extensão de areal tem vindo a diminuir gradualmente em toda a costa portuguesa, havendo pontos de incidência mais forte em zonas como Esmoriz, Aveiro, Ílhavo Vagueira e Costa da Caparica;
– A legislação marítima no geral, como a que adveio da integração do país na Comunidade Europeia, é muitíssimo mais rigorosa;
– O pescado tem vindo a diminuir em quantidade e qualidade;
– As despesas por conta da classe piscatória têm vindo a aumentar: manutenção das embarcações, preço dos combustíveis, quantidade de licenças exigidas pela autoridade marítima, etc.


Pelos motivos elencados, as artes de pesca mais puras e trabalhosas têm tendência acabar. Ainda bem que a Autarquia de Vagos reconhece o valor patrimonial, cultural e social do barco e da arte, já que também constituem um grande chamariz, sob o ponto de vista turístico.

Pena é que a Costa Nova não consiga manter uma companha, mesmo com algumas adulterações a que os tempos obrigam, para fazer jus aos barcos de grandes dimensões que já lá houve, até aos anos 50.

Fotografia – Postal de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 13 de Maio de 2009

Ana Maria Lopes

5 comentários:

fangueiro.antonio disse...

Boa noite.

Neste tema dos barcos tradicionais, como a Drª diz e bem nos pontos que enumera, não se pode fugir a certos factores que por certo levarão ao fim destes barcos como instrumentos de trabalho. No entanto a meu ver, isto não quer dizer que é o fim dos barcos.
Através de um associativismo bem organizado, seja por regiões ou mesmo a nível nacional, é possível manter os barcos tradicionais activos em acções culturais e mesmo de "competição" entre associações. A Galiza, que costumo várias vezes dar como excelente exemplo, está a iniciar a sua época de cultura marítima-2009, a qual se prolonga até inicios do Outono todos os anos, de forma bem vísível, mas mesmo durante os restantes meses, a movimentação em torno dos barcos mantém-se, seja na construção de um par deles novos, restauros, exposições, publicações, etc. A Federação Galega tem sem dúvida muita vida a preparar a época alta.
Os diferentes tipos de barcos galegos, independentemente de tamanho ou "beleza" continuam a aumentar todos os anos e não são para "trabalho". São para "brincar" entre associações, passar bons momentos de vida náutica, mas acima de tudo manter o passado bem vivo.
Em Portugal podemos fazer o mesmo e faz-se em certas zonas do país, mas julgo que falta um organismo central a dar as directivas e a "ensinar" quem gosta destas coisas e quer contribuir mas não sabe como.
Os belos barcos de mar da xávega podem ser mantidos activos mesmo sem ser para a pesca e até se lhes retiravam as adaptações modernas, pois são tradicionais e devem manter esse aspecto antigo. Como com vários outros barcos pela costa fora, pode-se fazer muito com eles e não só pô-los como "estátua" numa rotunda ou frente ao mar (o que também quase não acontece).
Estamos muito lentos neste aspecto, mas julgo que se vai tentando aqui e ali.

Atentamente,
www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

paulo agra disse...

boa noite
Concordo plenamente com que o amigo António escreveu
mas nós aqui no nosso cantinho deixamos andar um dia destes acordamos e olhamos para os lados e procuramos e não encontramos nada, desapareceu tudo ...pode ser que nessa altura para ir buscar um subsidio que se faça alguma replica atamancada pois nessa altura todo o saber da construção naval de barcos tradicionais se perdeu para sempre
cumprimentos Paulo Agra

ahcravo disse...

drª ana maria

não sei se lembra, ams encontrámo-nos na praia de mira e tive a oportunidade de lhe facultar um livro.

como notou há neste momento em mira, e não só, alguns paladinos da pureza das terminologias que querem deixar de dizer arte xávega e passar a tratá-la somente por arte ou artes.

gostava de saber a sua opinião.

penso que seria interessante promover um encontro para debater a terminologia mais correcta e procurar trazer à colacção a história desta arte de pesca em portugal.

J.pião disse...

Bom dia meus Senhores ,estou de acordo totalmente com o amigo António e amigo Agra ,pois os que tutélam a cultura maritima téem amnésia e lamentavelmente se esqueçem do passado Português, com respeito a cultura maritima e nós não podemos deixar de lembrar constantemente ,para ver se os Sres que tutelam esses pelouros recupéram das amnésias que pelos vistos perdura também aqui ém Vila do Conde ...comprimentos Jaime Pião

francisco disse...

Parece que por aí ainda existirá a possibilidade de salvaguardar algum exemplar da arte da xávega. Cá pelo Algarve, a última dessas artes (Meia Praia - Lagos) já pouco tempo sobreviverá.

http://caisdosul.blogspot.com/