segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Um olhar sobre o sal

-
Fruí desde muito jovem o sabor do salgado aveirense, pois o ambiente convidava-me e o Marintimidades de hoje já me bulia.
Pelos anos 50/60, sempre que alguém me levava à empresa, na Gafanha da Nazaré, para além dos estaleiros, dos navios e da laguna envolvente e sedutora, lá tinha aquele espectáculo deslumbrante diante da vista – de Julho a Setembro, montes de sal até onde a vista alcançava. E aprendi a vê-los, a amá-los e a com eles conviver.
E o Marintimidades de outrora, para mim, já tinha um não sei quê de salinidades.
Esta tendência, porventura, natural, genética, quem sabe, foi trabalhada na disciplina de Linguística Portuguesa I e II, sobretudo com o impulso do professor Paiva Boléo, defensor da escola «Coisas e palavras», que tinha por base o cruzamento da linguística com a etnografia. E cedo, trabalhei no terreno, depois de bibliográfica e logisticamente, bem preparada.
O chamado ILB (Inquérito Linguístico Boléo) levou-me a fazer um trabalho obrigatório para a cadeira de Linguística Portuguesa II, «in loco» na Gafanha da Nazaré, em 1964, onde residi mesmo durante 8 dias, numa casa perto dos estaleiros, cedida pelo Sr. Artur Carvalho, encarregado de Testa & Cunhas. Hoje, parece irrisório «ir assentar arraiais na Gafanha» para fazer um trabalho, mas, naquele tempo, tinha as suas razões.
Os primeiros contactos com operários dos estaleiros, com moliceiros, com mulheres das secas, com agricultores, com o pároco da época que me auxiliou, cinzelaram-me a memória, já posso dizer…, para toda a vida. E as marinhas?
Ao tempo, a minha avó era proprietária de uma marinha (adquirida em 1953), pertencente ao chamado Grupo do Mar, marinha dobrada, de configuração regular, de nome Pioneira. Entre marnotos e moços, sempre brejeiros, conheciam-na por um outro nome maroto, com o qual rimava…-eira.
Foi nosso marnoto durante muitos anos o Sr. João dos Santos Estanqueira, em parceria de metade, exemplar trabalhador, que, num fatídico dia, caiu desfalecido sobre um monte de sal que cobria com bajunça, devido a um colapso fulminante.
Nunca mais a Pioneira foi a mesma e, em remota lembrança, recordo-o, numa seriedade impressionante, quando vinha fazer contas do sal, das areias, da bajunça, das madeiras ou mimar-nos com saborosas e escorregadias enguias de viveiro.
Não tinha acesso directo por terra a Pioneira, e era preciso atravessar a Cale da Vila, de bote ou bateira e, de seguida, andarilhar, por entre veredas estreitas e sinuosas.
De uma visita à marinha em Abril de 64, enquanto os trabalhos preparatórios da nova safra começavam, colhi ainda estas imagens, que guardei sagradamente. Foi o meu primeiro olhar sobre o sal.
 
Aspecto geral

Neto do marnoto com almanjarra

Ajeitando a cobertura de um monte

Algumas alfaias, junto ao palheiro

Dois saleiros, os grandes senhores da ria
 
-
E tudo se foi…in illo tempore. Agora, são outros. Escrevinhemos sobre os que passaram, enquanto alguns pomposos programas europeus os tentam projectar nos tempos futuros. Oxalá!
Fotos do arquivo da autora
Ílhavo, 3 de Dezembro de 2012
Ana Maria Lopes
-

3 comentários:

  1. Que gosto ler a sua prosa e poder recordar coisas que se não voltam mais, ao menos nos deleitam o espírito na recordação...

    ResponderEliminar
  2. Julgo que a DrªAna Maria já utilizou a última fotografia (2 saleiros - também mercantéis ? -e 1 moliceiro...) como "cartão de Boas-Festas no Marintimidades...Maravilha de barco,o moliceiro,ainda sem pretensões turísticas !...Vê-los regressar das "quintas do sul",vazios,bolinando estrememente praticamente nos 50 / 100 metros de largura do "canal"em meia-maré,mudando de borda de 3 em 3 minutos,vela "caçada",é ESPECTÁCULO QUE NUNCA MAIS ESQUECE,e que os "novos"não podem "gozar"!...Belas fotos,as suas!...
    Cumprimentos,"kyaskyas".

    ResponderEliminar
  3. Caro Conterrâneo:

    Obrigada pelos seus comentários. Está certo, já usei a foto dos 2 saleiros e moliceiro, num cartão de Boas Festas, no Marintimidades. Gosto tanto dela, que, sempre que posso, a aplico. Mas, foi mesmo neste contexto e nesta data que ela foi tirada por mim. É uma beleza. Concordemos.
    Cumprimentos.

    ResponderEliminar