domingo, 11 de março de 2018

Homens do Mar - João Simões Ré - 43

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Cap. João Simões Ré. Julho de 1942

João Simões Ré, nasceu em Ílhavo a 8 de Julho de 1903, na Rua do Urjal sendo o filho primogénito do «velho» capitão Alexandre Simões Ré (1880-1967) e de Maria Nunes Vidal, entre uma descendência de oito irmãos – seis rapazes (José, Armindo, Manuel, Armando, Alexandre e, ele próprio, João) e duas raparigas, Célia e Maria. Dos seis varões, quatro foram oficiais da Marinha Mercante e o mais novo, Alexandre Simões (Ré), já referido, nascido em 1920, motorista no arrastão João Corte Real.
Era portador da cédula marítima nº 14441, passada na Capitania do Porto de Aveiro, em 2 de Dezembro de 1916.
Do casamento (24 de Janeiro de 1942) já um pouco tardio com Alcina Benvinda Ruivo Cachim, nasceram dois filhos, a Alcina Maria Cachim Simões Ré, que fez parte do meu grupo alargado de amigas na Costa Nova e o João António Cachim Simões Ré, também ele, oficial da Marinha Mercante O efeito das gerações marítimas ainda se ia sentindo, por Ílhavo…
Rés, Paiões, Ramalheiras, Cajeiras e muitas mais famílias de gente do mar ilhavense fazem-me sempre muita confusão no parentesco, mas nada como, pé ante pé, ir esclarecendo, junto de familiares e amigos. Os sobrenomes de irmãos, a maior parte das vezes, eram diferentes e as alcunhas e sobrenomes confundiam-se com frequência.
Teria sido da geração de ilhavenses que provaram a água do mar muito cedo, até porque os genes familiares lhes corriam nas veias.
Por informação da ficha do Grémio, deixou de exercer a profissão desde 1925 a 1934, por motivo de ausência. Pensei logo na hipótese de ter partido, nessa época de crise, como outros oficiais ilhavenses do mesmo período, e assim me foi confirmada pelos filhos, a sua presença na marinha de comércio brasileira. Da família dos Rés, forçosamente, teria ido cedo, muito cedo para o mar. Mas, a esse respeito, nada me foi confirmado. Deduzo… por semelhança com outras famílias.
Passando a pente fino, nos jornais Beira-Mar e O Ilhavense, desde os primórdios, as notícias referentes à saída para os Bancos da Terra Nova (há alguns hiatos), apercebi-me de que na safra de 1922 (e possivelmente, também em 23), teria sido piloto do lugre Patriota II, da praça do Porto, sob o comando do pai, Alexandre Simões Ré. A partir do momento em que as fontes do Grémio fornecem material seguro, surge como piloto do lugre-motor Santa Quitéria (nas viagens de 1936, 37 e 38), com o capitão João Nunes de Oliveira Sousa, também, de Ílhavo.
Este lugre-motor, ex-navio dinamarquês Vénus, construído em 1919, iniciou a pesca do bacalhau na campanha de 1935, propriedade da Empresa de Pesca Lavadores, Lda., com instalações de secagem, na Barra. Por curiosidade e com base no jornal O Ilhavense de 10 de Junho de 1941, tendo chegado à Terra Nova em 15 de Maio, abriu água, afundando-se. A tripulação de 50 homens foi salva e recolhida pelos lugres, que, por aquelas paragens se encontravam. Era seu capitão o já referido João Nunes de Oliveira Sousa e piloto, o nosso patrício Adolfo Francisco da Maia.

O Santa Quitéria, naufragado, já incendiado. 1941

João Ré começou por conhecer as agruras da pesca à linha, passando mais tarde, efectivamente a capitão-pescador de arrastões.
À laia de estágio, fez a primeira viagem na campanha de 1940, no arrastão Santa Joana, como piloto, sendo capitão Francisco dos Santos Calão e imediato, Manuel Gonçalves Viana. Este navio, como já referido, foi o primeiro arrastão lateral português mandado construir para a EPA, na Dinamarca, em 1935, adaptado às exigências dos mares gélidos do bacalhau.

A modernidade do arrasto lateral, à época

Voltou à pesca à linha, de saco de lona num novo convés, como piloto do navio-motor Santa Maria Madalena, de aço, construído para a Empresa de Pesca de Viana nos Estaleiros da CUF, em 1939. Nas campanhas de 1941 e 42, foi seu capitão Joaquim Fernandes Agualusa e imediato, Manuel Pereira da Bela, de alcunha Violante, também nosso conterrâneo.
Entre mar e terra e terra e mar, e empresa armadora, o tempo passado carinhosamente no seio da família ia sendo muito pouco e, normalmente, os filhos sabiam muito pouco da vida dos pais. As mães eram as matriarcas para tudo e para todos.
Para cumprir a dura missão da pesca à linha, faltava-lhe passar por dois navios:
 - Um, na safra de 1943, inaugurando-o, foi o navio-motor, de madeira, Bissaya Barreto, tendo João Ré passado a imediato, sob o comando de Elias Andrade Bilhau, natural da Figueira da Foz. Este navio, como já referido, foi construído para a Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca, Lda., por Benjamim Mónica, na Figueira da Foz, em 1943, tendo sido o primeiro navio-motor de pesca à linha construído de madeira.
 - Outro, na campanha de 1944, foi o famoso e elegante lugre-motor, de aço, de quatro mastros, o Creoula, ainda hoje navio de treino de mar para jovens e menos jovens, dependendo dos programas. Com Francisco da Silva Paião, o conhecido capitão Almeida, na chefia, e António dos Santos Labrincha, como piloto, João Ré, como imediato, deixou definitivamente na sua esteira a pesca à linha e passou decididamente para os arrastões de pesca lateral.
Entre os anos de 1945 e 1949 (inclusive), o arrastão João Álvares Fagundes foi a sua morada aquática, estreando-o, perfazendo nele, ao todo, sete viagens, com curtas estadias em terra, as duas primeiras de imediato e as restantes, sempre de capitão. Enquanto imediato, teve os ílhavos João Nunes de Oliveira Sousa como capitão e Júlio Pereira da Bela, o Salsa, como piloto.
Enquanto capitão, navegou com o conterrâneo António Augusto Marques (Marcela), como imediato (1948 e 49).
O arrastão clássico João Álvares Fagundes foi construído na Companhia União Fabril (CUF), em Lisboa, em 1945, para a Sociedade de Armadores de Bacalhau (SNAB), de Lisboa.
O arrastão clássico João Álvares Fagundes

Nos anos de 1950 e 1951, de «enxoval» ao ombro, saltou para o comando do arrastão do mesmo tipo Álvaro Martins Homem, tendo nele cumprido três viagens. Não era vida fácil – além dos perigos inerentes à profissão – suportar a ausência tão prolongada da família.
Este arrastão de aço também foi construído, em 1941, para Sociedade de Armadores de Bacalhau (SNAB), no estaleiro da Companhia União Fabril (CUF), em Lisboa.

A bordo, na asa da ponte, fumador inveterado

Chegou o momento de fazer uma viagem, a inaugural, no arrastão João Martins, a de 1952, com a oficialidade toda de Ílhavo, Asdrúbal José Sacramento Teiga, como imediato e José Nunes de Oliveira, como piloto.
Este arrastão foi construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1952, para a SNAB., tendo sido registado em Lisboa, em 18 de Julho de 1952.
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O arrastão João Martins
 
Segundo informação de Ricardo Lisboa da Graça Matias, na p. 142 da sua dissertação de mestrado, Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993), apesar de ter sido o último arrastão do grupo inicial a ser construído, não foi, seguramente, o melhor deles, o João Martins.
E desta vez, mudou o saco do «enxoval», para finalizar a sua brilhante carreira de mar, de vez, para o convés do arrastão Fernandes Lavrador, por onze anos, desde 1953 a 1963, em que arrostou com o mar, as vagas, a lonjura, os growlers, os icebergs, os furacões, os cardumes, o azar, a sorte, a coragem e o destino. Ao todo, neste arrastão, sensivelmente, fez dezassete viagens.
O Fernandes Lavrador foi construído no Estaleiro T. Van Duijvendijk’s  Scheepswerf em Lekkerkerk, na Holanda, em 1947, tendo sido registado em Lisboa, em 25 de Agosto de 1948, também para a SNAB., sociedade a que o capitão foi fiel desde 1945.

O arrastão Fernandes Lavrador

Com o andar dos anos, as informações seguras sobre a oficialidade, sobretudo nos anos de duas viagens foi rareando, mas concluímos que foi seu imediato, o ílhavo, José Ângelo Ramalheira (1953), piloto, Mário Augusto da Silva Madalena (63) e praticante de piloto, António José Ferreira Simões Ré, seu sobrinho, em 1954.

Na asa da ponte, João Ré navegando em campos de gelo

E com a última viagem de 1963, deixou o oceano, com perto de cinquenta anos de mar salgado.
Não teve muito tempo para se refazer em terra da lonjura marítima, junto da família, entre a sua casa da Rua Arcebispo Bilhano, nº63 e a casa da Costa Nova, sobranceira à ria, sobre o Café Atlântida.
Trabalhador, leal, bom, simpático, afável, se bem que também soubesse ralhar, quando oportuno – era assim o capitão João Ré.
Deixou-nos, vítima de problemas respiratórios, em 30 de Março de 1970, com 67 anos.
Falar de Ílhavo, é falar do mar – do seu sussurro, da sua canção cujo eco se repercute pelos séculos além. Ílhavo e o mar andam tão unidos como o perfume às rosas e a inquietação à alma humana – já poetava João Marques Ramalheira.
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Fotos – Gentilmente cedidas pela Família e arquivo pessoal
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Ílhavo, 5 de Fevereiro de 2018
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Ana Maria Lopes
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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Ílhavo... de outrora

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Uma singela pausa nos assuntos marítimos do Marintimidades, para lembrar um assunto de que a minha mãe sempre me falava com enlevo e carinho.
O que a motivou? A oferta de uma foto que pessoa amiga me fez chegar às mãos, devido a umas arrumações de baús.
O saudoso e considerado Prof. José Pereira Teles, fundador do nosso jornal O Ilhavense, escreveu, em 1933, a famosa peça infantil, a Nossa Escola, num total de 40 variados e preciosos números, cujos actores eram alguns alunos/as da dita Escola Nova, hoje, Escola da Música. O maestro Berardo Pinto Camelo, a seu pedido, musicou-a e dirigiu a orquestra da revista infantil, que era composta por diversos instrumentos tocados por conhecidos músicos, ao tempo – violinos, flauta, cornetim, clarinete, saxofones, trombones, rabecão e bateria.
A peça Nossa Escola foi estreada a 8 de Dezembro no Teatro Municipal de Ílhavo, em Cimo de Vila, tendo sido um estrondoso êxito para a época, com mais de trinta representações em várias localidades do país.
Mas, qual a ligação à minha mãe? Muito jovem ainda, ela desempenhou o responsável papel de comère (apresentadora de continuidade), ao longo de toda a revista, nos intervalos dos diversos números.

Maria Rosinha e Nené

A foto em causa, um primor saído dos registos do fotógrafo ilhavense Paulo Namorado, reproduz, em luxuosos e encantadores vestidos ornados a renda de guipure, as lindas meninas Maria Rosa da Graça Peixe (à nossa esquerda) e Nené (assim era conhecida) Sacramento Simões.
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Ílhavo, 25 de Fevereiro de 2018
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Ana Maria Lopes
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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Homens do Mar - João Pereira Ramalheira Júnior - 42

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João Pereira Ramalheira Júnior

Depois de uma conversa amena e agradável com o amigo Capitão Vitorino Ramalheira, na sua encantadora e aconchegada casa de Vagos, sobre o Rio Boco, mais uma vez me fez sentir que gostaria que eu reunisse o possível currículo marítimo relativo a seu avô, João Pereira Ramalheira Júnior. Foto introdutória, há-a, belíssima, cheia de charme. E fontes seguras escritas pelo próprio pulso, que se podem utilizar com confiança, também. Então, vamos a isso, mesmo com algumas dúvidas que sempre perdurarão, quando se penetra no tempo.
João Pereira Ramalheira Júnior, filho de João Pereira Ramalheira Sénior e de Rosália Joaquina de Jesus, nasceu em Ílhavo no dia 23 de Junho de 1874, pelas 11 horas da noite – declara ele. Do casamento com Victorina da Graça Rocha a 27 de Novembro de 1897, nasceram doze filhos, de que faleceram cinco, ainda crianças. A mortalidade infantil era muito elevada, ao tempo. Restaram – João, Aníbal, Judith, Ângelo, Paulo, Maria Rozália e Elmano.
Este guerreiro marítimo matriculou-se na escola de pilotagem da Capitania do Porto do Porto, com 17 anos, em 1891, com três companheiros do norte e dois de Vila do Conde. Apresentados a exame em Outubro, saíram aprovados. Depois de uma visita a Ílhavo em Janeiro de 1893, seguiu para Lisboa a bordo da barca Maria Luiza, referindo nos seus escritos: – Saí em Fevereiro para África (Loanda), ocupando no citado navio o lugar de moço de governo, fazendo as minhas derrotas à prôa, nas horas do meu descanço.
Regressou a Lisboa em Setembro deste mesmo ano de 1893, tendo conseguido entrar na aula do Sr. Morais como ouvinte. Inscrito em exame, ficou aprovado com a classificação de 12 valores. De surpresa, apareceu em Ílhavo, já piloto, e a 10 de Novembro foi para bordo da chalupa Baccarat, em Viana do Castelo, como marinheiro, sendo mestre o seu querido pai. Já que o navio não tinha contramestre e a tripulação assim o entendeu, foi designado como tal, para fazer a viagem de Viana a Lisboa e vice-versa.
Tendo chegado e desembarcado a tripulação, para poupar o pai, ficou no navio só com o moço a meter carga e aprestos para a futura viagem que seria sob o comando de um dos seus tios.
É possível que a chalupa Baccarat fosse a citada pelo investigador esposendense José Eduardo de Sousa Felgueiras, no livro Sete Séculos no Mar (XIV a XX), Vol. III, p. 147. O referido navio foi construído em 1891 nos estaleiros de Fão por José Dias dos Santos Borda Júnior, para José Fernandes Pereira Júnior, da praça de Aveiro. Não foi arqueada na data da finalização da construção, tendo ido à água em 25 de Agosto de 1891. A tripulação foi matriculada em 23 de Setembro de 1891, sendo todos os elementos de Ílhavo.
Em Janeiro de 1894, em Viana, fui lembrado para capitão da chalupa D. Rosa e também para piloto do hiate Manoel Espregueira, mas como as soldadas não me convinham, voltei para Ílhavo – relembra.
Acontece que, em 1894, o seu cunhado João Pereira Ramalheira (o Pisco) passaria a ser capitão, nesse mesmo ano do patacho Neptuno da Parceria Geral de Pescarias (PGP), em viagem para os Bancos da Terra Nova e, ele, com vinte anos apenas, teria preferência para o lugar de piloto, a que voltou em 1897 e 1899. E assim foi.
Nas safras de 1895 e 96, passou, como piloto, pelo lugre Labrador.
Com 22 anos, fez parte do famoso grupo inicial Chio-Pó-Pó de 1897, que saiu à rua a propósito duma charge político-local, com Dr. Samuel Maia, Marcos Ferreira Pinto Basto, João Francisco da Rocha, Eduardo Craveiro (Pai), José Craveiro Júnior, Diniz Gomes, Manuel Sacramento, Manuel Teles Júnior, Abel Regala, Samuel Ramos, José Mendonça e Adriano Neto Júnior.
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João Pereira Ramalheira é o que está sentado
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Na primeira viagem após o casamento, na safra de 1898, embarcou no Porto, na barca Quitéria, como piloto e depois como piloto e contramestre, por negligência deste, tendo saído para o Rio de Janeiro, em Março, e regressado da Estado de Santa Cruz – Brasil – em Fevereiro de 1899.
No ano de 1900, embarcou de piloto no lugre Argus, aquele velhinho lugre de madeira, construído em Dundee, Inglaterra, em 1873.

Antigo Argus. Foto do Cap. Almeida, 1934
 
Quase definitivamente, ascendeu ao cargo de capitão, nos anos de 1901 e 02, da escuna Hortense, a que já não voltou.
Em 1903 e 1904, embarcou no lugre Gamo, em 1903 de piloto e em 04 de capitão, a que terá voltado nos anos de 1909 a 1912 (inclusive). Para os mais interessados, que lugre Gamo teria sido este?
Um primeiro lugre-patacho Gamo construído em Inglaterra, no estaleiro de Ed. Tayport, tendo sido dado por concluído durante o mês de Março de 1874. Foi inicialmente baptizado com o nome de Rena, tendo sido matriculado na praça de Dundee.
Colocado à venda em 1885, foi comprado pela firma Bensaúde & Cª., e registado nos Açores. Em 1891, com a transferência desta empresa para Lisboa, o navio passou, desde então, a navegar registado em Lisboa, mas, à época, sob propriedade da recém-formada Parceria Geral de Pescarias.
No registo de 1899 o navio já se apresentava armado em lugre. Todavia, poderá aí haver alguma incorrecção, com base em foto da Ilustração Portuguesa, de 1907, onde o navio foi retratado com aparelho de lugre-patacho. No entanto, é bem provável que, por facilidade de operação vélica, o navio tenha, sido armado em lugre, durante o período entre 1909 e 1913. Depois de ter ficado em terra, na Azinheira no ano de 1905, refere o próprio que exerceu o cargo de capitão no hiate Razoilo, nos anos de 1906 e 07.
Aqui, é de parar e respirar fundo. Temos pano para mangas. Houve, de facto, pelo menos, dois hiates Razoilo – constata-se.
O primeiro, referido na p. 102 do já citado livro do investigador esposendense Sousa Felgueiras, Razoulo 1º – (Razoilo), hiate, foi construído nos estaleiros de Esposende em 1859/60, por António dos Santos Garcia, para José Razoulo, de Ílhavo. Matriculou a sua tripulação de sete elementos na Delegação em Esposende, em Junho de 1860, sendo o mestre José Razoulo, de 40 anos e o contramestre José Simões Ré (?). Toda a tripulação era de Ílhavo, à excepção do «moço de bordo», que era de Viana.
Em contrapartida, o hiate Razoilo de que aveirenses e ílhavos falam, que, de Aveiro, juntamente com o Náutico, foi um dos primeiros a retomar a Grande Pesca foi construído (atesta-o a tradição oral), em 1899/1900, num pequeno estaleiro, na Malhada (Ílhavo), por António Mónica, pai do Mestre Manuel Maria Mónica. Do estaleiro, era proprietário o Sr. Razoilo, de quem era sócio o «nosso» João Pereira Ramalheira Júnior, que fez duas viagens (já citadas) como capitão, no referido hiate, em 1906 e 1907, cujo salário de capitão serviu de moeda de troca para o pagamento da sociedade, segundo notícia do jornal Beira-Mar, de 21.4.1923.

Hiate encalhado denominado Razoilo. Sempre ouvi dizer que era este último, o construído na Malhada

Depois de uma primeira viagem feita na escuna Creoula, na safra de 1908. a  última viagem aos Grandes Bancos, atestada pelo próprio capitão, foi feita na mesma escuna, no ano de 1913, em que adoeceu com  uma pneumonia, que conseguiu curar a bordo do navio-hospital francês St. François d'Assise, onde marinheiros portugueses eram hospitalizados e do qual recebiam, eventualmente, a necessária ajuda humanitária.

Escuna Creoula. Foto de autor desconhecido.

No ano de 1914, ficou em terra, empregado na seca, como supervisor dos terrenos que a PGP, aí detinha, em Darque, na margem esquerda do rio Lima. Terá sido a fase menos conhecida da sua vida, coincidente com os anos da I Grande Guerra. Fez uma viagem a S. Miguel no Gamo, em 1916, com objectivos ignotos, dirigindo-lhe, posteriormente uma obra, em Viana.
Tendo, por esses anos, a pneumónica passado por todos os familiares, sem que os ceifassem, deu ordens, para que, logo que possível, toda a família seguisse para a Azinheira. A 17 de Novembro de 1918, assim sucedeu, tendo ido todos – o Aníbal, a Judith, o Ângelo, o Paulo, a Zália, a mãe e a criada (o João estava emigrado no Brasil).
Gerente da Parceria Geral de Pescarias, a partir de Outubro de 1918, aposentou-se  em 1935, tendo vindo viver definitivamente para Ílhavo.

PGP. Azinheira Velha, em 1931

Várias e árduas teriam sido as tarefas da gerência de uma empresa como aquela, sobretudo, no pós-guerra, mas uma que destaco, porque já a conhecia, foi todo o apoio que deu à construção do lugre com motor, Hortense, pelo mestre Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1930. Segundo imprensa da época, o navio, que passou por algumas contrariedades no deslize, no domingo, em 4.4.1930, só as ultrapassou na segunda-feira. Em casa de João Pereira Ramalheira, nosso conterrâneo e gerente da PGP, em Ílhavo, foi servido um copo de água, aos convidados.
 
 Na sua terra de origem  faleceu, vítima de trombose, em 7 de Julho de 1944, com 70 anos.
Não há dúvida que a família Ramalheira, entre outras, de Ílhavo, nasceu para a vida de mar…
João Pereira Ramalheira Júnior, por todas as suas experiências, proezas, aventuras e vivências, foi um homem do mundo, sempre com a sua sede em Ílhavo.
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Ílhavo, 11 de Fevereiro de 2018
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Fotos cedidas pelo neto Vitorino Ramalheira e arquivo pessoal da autora.
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Ana Maria Lopes
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domingo, 28 de janeiro de 2018

Homens do Mar - Carlos Fernandes Parracho - 41

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Cap. Carlos Fernandes Parracho

Ainda conheci razoavelmente o Cap. Carlos Parracho, tive tempo para isso, mas lembro-me, sobretudo, da família, na casa da Costa Nova. Ficava, exactamente, nas traseiras da minha, com entrada para a Avenida da Bela Vista, com partilha de uma entrada de viela comum.
Filho de António Fernando Parracho e de Rita de Jesus, nasceu em Ílhavo, na Freguesia de S. Salvador, a 11 de Dezembro de 1904. Praticamente, na viragem do século… A família Parracho, conhecida por cá e por outras localidades ribeirinhas, teve fortes ligações ao mar. O Cap. Parracho, de alcunha, o Marcela, era irmão mais velho do Cap. João Fernandes Parracho, conhecido por Vitorino, também ele homem da Faina Maior, que velejou, igualmente, pelos navios da Figueira da Foz, antes de os trocar pelos da praça de Aveiro, a quem já dediquei umas páginas no livro «Tributo a Capitães de Ílhavo».
Assim aconteceu com este irmão. Do casamento com Silvina da Rocha Bilelo, conhecida por Silvina Carrancho, em 1924, nasceram três rapazes e duas raparigas. Os três rapazes, Aníbal Rocha, António Manuel e Carlos Alberto foram também oficiais da Marinha Mercante. Aliás, foi o mais velho, o Cap. Aníbal Parracho, último capitão do Gazela Primeiro, na safra de 1969, já de provecta idade, que se deslocou ao Museu acompanhado do filho Carlos Júlio, também ele capitão da Marinha Mercante, para conversar comigo, fornecer-me elementos e recordar episódios marítimos referentes ao Pai. Não eram muitos, mas…os possíveis.
Segundo a convicção do filho, o Cap. Carlos Parracho, sempre andou no bacalhau, onde se iniciou com doze anos, seguindo o percurso dos «meninos» do seu tempo. Mar e mar…
Desde que existem informações credíveis, o seu nome aparece como piloto do lugre-motor Trombetas, nas campanhas de 1936 a 1939, sob a orientação do capitão figueirense Elias Andrade Bilhau. Este lugre, de madeira, tinha sido construído para Lusitânia Companhia de Pesca, Lda., em Fão, em 1922. No ano de 1938, sofrera um terrível acidente de que o jornal O Ilhavense de 28 de Maio do mesmo ano, nos dá conta:
 Na manhã do dia 10 deste mês, a 42 º-29’ de latitude Norte e 41 º-10’ de longitude Oeste, pelas 7 horas e meia da manhã, o Trombetas foi apanhado por um violentíssimo tufão, que lhe varreu ao mar nove homens, dos quais dois se conseguiram salvar muito a custo. O vagalhão que lhe invadiu o convés, arrastou-lhe 35 «dóris», partiu-lhe o leme, o albói da ré e 2 faróis de borda, levou-lhe a agulha, avariou-lhe a instalação eléctrica e o motor, que só passou a trabalhar para vante.
O navio conseguiu chegar a Ponta Delgada no dia 16, onde ia reparar as avarias para, de novo, se fazer ao mar, rumo à Groenlândia, em busca do pão daqueles que vão para a pesca do bacalhau.
Embora do mesmo armador, Lusitânia Companhia de Pesca, Lda., Carlos Parracho estreou-se como capitão em 1940, do lugre de madeira Leopoldina, construído em Caminha, por A. Dias dos Santos Borda, em 1899. Em 1906, tornou-se propriedade da Lusitânia. Aí perfez três anos de mar – de 1940 a 1943. Neste período, teve como imediato, em 1940, o ílhavo Júlio António Lebre.

O lugre Leopoldina

Continuando pela Figueira da Foz, o Capitão Marcela, como era mais conhecido, e ao serviço da Lusitânia, mais uma vez, chegou a altura de mudar o estrafego (aprestos) para o convés do Luzitânia III. Este lugre de madeira construído por José da Silva Lapa, em Vila Nova de Gaia, em 1918, cessou a sua actividade em 1945, exactamente na terceira safra em que o nosso capitão por lá se manteve – de 1942 a 1945. Foi um dos primeiros navios a instalar motor propulsor, para a campanha de 1932. Teve como imediatos, António Mesquita Ribeiro, da Figueira da Foz (1943 e 44) e o ilhavense António de Morais Pascoal, em 1945, em início de carreira.
Naquela altura, demandar o porto da Figueira era uma aventura… então, o Luzitânia, no regresso da viagem de 1945, ao fazer-se à barra, a reboque do vapor Setúbal, encalhou. Conseguindo safar-se, voltou a encalhar, num banco de areia, em frente ao Mercado Municipal. O próprio rebocador Setúbal também «sonhou o fundo» e bateu com a quilha na areia, avariando o leme e o hélice. O Luzitânia teve que ser aliviado, abrindo-se-lhe também um canal, fazendo escavações dia e noite, durante os períodos do baixa-mar.
Mesmo à boca da barra e na ansiedade do retorno ao seio da família, estes achaques esperavam os nossos homens do mar. Quem diria!...
Chegou o ano de 1946 e até 49, Carlos Parracho comandou o navio Bissaya Barreto. Este, construído também para a Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca, Lda., por Benjamim Mónica, na Figueira da Foz, em 1943, foi o primeiro navio-motor de pesca à linha construído de madeira. A ele voltaremos.
 
Navio-motor Bissaya Barreto, na Figueira da Foz…

Durante estas quatro safras, sem muito de especial a referir, realçando sempre a dureza da vida do mar em tais condições, teve como imediatos, os ilhavenses João André Alão, de alcunha, o Rigueira (1946 e 47), Paulo de Oliveira Bagão (1948) e Amândio Fernandes Matias, de alcunha, o Parracá (1949).
Chegado a metade do século, na safra de 1950, o «nosso capitão» comandou o navio-motor, de madeira, Cova da Iria. Ex-Vilas Boas, foi construído para a Parceria Marítima do Douro, por José Mónica, nos estaleiros da Afurada, em 1944. Adquirido pelo armador João Maria Vilarinho, participou na campanha de 1949. Este ano de 50 trouxe muito que contar a Carlos Parracho, que naufragara, com água aberta, no dito Cova da Iria, em viagem da Groenlândia para Portugal, por se lhe ter partido o leme sob violento temporal.
Em imprensa da época, colhi alguns destes dados. Na viagem da Groenlândia para Portugal, em inícios de Setembro, a tripulação vinha toda satisfeita, com uma boa pescaria de 14.000 quintais. Não contava com um valente temporal que, a setecentas milhas dos Açores, tivera que enfrentar. Logo de início, partiu o leme, que, por ordens do capitão, foi substituído por uma esparrela (leme improvisado). Também não durou muito e, violentamente, foi espatifado. Capitão, imediato, Francisco António Bichão, de alcunha, o Saltão, e o contramestre, então ferido, iam morrendo. Com o ímpeto do temporal, o navio, desgovernado, atravessou-se e ficou à mercê do vento e do mar. Assim que o capitão deu ordem aos tripulantes para arriarem os botes e neles se fazerem transportar para o Inácio Cunha, aqueles 78 homens trataram de abandonar o Cova da Iria, manobra delicada e de muito risco, devido ao estado do mar, e que teve de ser feita com toda a prudência. À medida que os dóris se iam afastando, o capitão, agarrado à amurada, ia contando os seus homens, não fosse algum ficar por lá, atordoado. Depois, ordenou aos principais da equipagem e, conforme o regulamento internacional, que acelerassem o afundamento do navio, incendiando-o.
O mar, dominando o Cova da Iria, galgava-o já por todos os lados, impossibilitando o comandante de sair da ponte. Então o Capitão Marcela, sobre a ponte de comando ao ver-se sem bote, não hesitou e lançou-se à água. Os homens dos botes, ao avistarem-no, remaram em seu auxílio e conseguiram agarrá-lo, quando as forças já lhe faltavam.
O Capitão do Inácio Cunha, João dos Santos Labrincha, assim que o seu camarada se aproximou da borda do seu navio, foi ampará-lo, conduzindo-o ao camarote, enquanto os outros náufragos foram confortados pelos outros membros da companha do Inácio Cunha, partilhando os seus beliches.
O navio salvador chegou no final de Setembro ao porto de Leixões com os náufragos do Cova da Iria (existe uma foto comprovativa desta chegada), tendo tido uma calorosa e emocionante recepção da parte dos familiares, autoridades, armadores e entidades relacionadas com o navio.
O jornal O Ilhavense do primeiro de Dezembro de 1991, pela pena de Fernando Parracho, recorda este naufrágio, ao mais minucioso pormenor.

Navio-motor Cova da Iria

Mas, nem tamanho susto fez com que o Cap. Parracho suspendesse alguma viagem. Na safra de 1951, já estava a postos para comandar o Groenlândia.
Ex-Viana, ex-lugre-escuna Groenlândia, foi reconstruído para Armazéns José Luís da Costa & Ca. Lda., nos Estaleiros de António Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1940.
Durante os quatro anos que o comandou, de 1951 a 54, teve como imediatos Manuel Joaquim Pinto, de Aveiro (51), Cesário Augusto Fernandes da Cruz (52) da Gafanha da Encarnação, João André Alão (53),de alcunha, o Rigueira, de Ílhavo e Vital Grandvaux Barbosa, de Lisboa.

Que belo exemplar de bacalhau!...

E em 1955, transferiu-se, numa «nova emposta» para o navio-motor de madeira, Paraíso. E que navio vem a ser este? O Bissaya Barreto, que o nosso capitão já comandara, quando procedia a reparações no Douro, fora destruído por um incêndio, em Janeiro de 1950. Entretanto, reconstruído para a Empresa de Pesca de Portugal, de Ílhavo, em 1955, por José Gomes Martins (o Viola), na Gafanha da Nazaré, cá o temos de volta aos bancos, apelidado de Paraíso, com o capitão Marcela, no seu comando, tendo levado como imediato, Belarmino Ascenção de Oliveira, residente em Ílhavo.

Navio-motor Paraíso

E em 1956? Comandou o navio-motor Rio Antuã, ex-Bissaya Barreto, ex-Paraiso, que, em 1956, passou a pertencer à Empresa de Pesca de Aveiro, com o nome de Rio Antuã. Como imediato, continuou com Belarmino Ascenção de Oliveira, seu imediato, na viagem anterior.
E, a nível da oficialidade, na safra de 1957, foi seu imediato Carlos Augusto Correia Nóbrega da Silva, de Aveiro e, piloto, Aníbal Carlos da Rocha Parracho, seu filho mais velho, que acima referimos como o nosso guia para a elaboração deste trabalho – encontro de gerações, frequente em Ílhavo.
Durante mais 3 anos, de 1958 a 60, pai e filho ocuparam os dois lugares de topo, no navio Rio Antuã.

Cap. Carlos Parracho, a bordo…

E, na campanha de 1961, mais uma «emposta», já quase com sessenta anos, desta vez, para o lugre-motor Adélia Maria, onde já navegaram outros oficiais com quem tive uma ligação muito próxima.
E aí fez cinco viagens, até 1965, tendo sido seu imediato, sempre, um seu outro filho, António Manuel da Rocha Fernandes Parracho, já falecido. Na última viagem, de 65, maleitas do coração atormentaram-no e, por ordem do médico do Gil Eannes, esteve mais «recolhido», ficando o seu filho mais à frente das preocupações do navio e da pesca. E assim deixou definitivamente o mar, após uma longa carreira, tendo-se aposentado em Janeiro de 1972.
O lugre com motor, de madeira, com quatro mastros, Adélia Maria, da praça de Aveiro, foi mandado construir para o armador José Maria Vilarinho, por João Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1948.
Lugre-motor Adélia Maria, na Groenlândia
Mesmo com problemas de coração, ainda viveu bastantes anos no nosso Ílhavo, saboreando uma merecida aposentação. Frequentava assiduamente o Sindicato dos Oficiais, no segundo andar do edifício do Illiabum Clube, onde, com diversos colegas e amigos, jogava cartas e conversava sobre a evolução da vida do mar. «Partiu», descansado, e com o sentimento do dever cumprido, em 23 de Janeiro de 1993, com 89 anos.
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Imagens amavelmente cedidas pelo filho Aníbal Parracho.
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Ílhavo, 19 de Dezembro de 2017
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Homens do Mar - João de Jesus da Rocha Agra - 40

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João de Jesus da Rocha Agra

Esta história de um Homem do Mar, ou melhor de um Jovem do Mar, tardou a aparecer. Porquê? Como? Quando?
Procuram-se, mas só vêm ter connosco, quando menos pensamos. Depois, cruzam-se os dados do «puzzle» e o jogo bate certo.
Aquando da história de José Duarte Oliveira, que perdeu a vida, em pleno oceano, na ânsia de carregar mais o bote, enquanto pescador do lugre- motor D. Diniz, na viagem de 1952, tendo deixado a sua mulher, eterna viúva, com três filhas para criar, pelo menos a família, emocionou-se com esta narrativa, pressagiada num belo e profundo sonho premonitório.
Num comentário ao sucedido, então, na dita Faina Maior, João Cândido Agra, através do FB, informou-me que um seu tio/padrinho de quem tinha a cédula marítima, também tinha perdido a vida na pesca do bacalhau, num dóri, enquanto pescador do Milena, em 1955. O caso chocou-me, interessou-me e repliquei que haveríamos de falar. Mas, outras tarefas se impuseram.
Eis senão quando, ontem, no Museu Marítimo de Ílhavo (o lugar certo), enquanto apreciava os modelos de embarcações tradicionais apresentados a concurso, dei de caras com o tal João Cândido Agra, ao apreciarmos, ambos, a mesma peça. Deu-se a conhecer, pois já falara, virtualmente, comigo, e contou-me que tinha construído aquele modelo de dóri, patinado pelo tempo, e corroído por alguma ferrugem dos anos, em memória do seu tio/padrinho, que desaparecera, no dóri, enquanto pescador verde (que pesca pela primeira vez), do lugre Milena, em 1955. Alto! O assunto interessou-me, trocámos umas palavras e pedi-lhe que procurasse documentação que tivesse dele, para acertarmos um encontro mais esclarecedor.
Mas, a conversa ficou por ali.
Como se chamava? – perguntei  eu. Não tinha a certeza. João de Jesus?
Seria melhor confirmar.
Ao entardecer, a curiosidade despertou-me e toca de tentar encontrar o nome, entre os maiores da Faina Maior. Mas só com João de Jesus, não chegava lá e os dados não batiam certo. Experimentei teclar também Agra e surge-me um nome que preenchia os requisitos – João de Jesus da Rocha Agra, nascido em Ílhavo, em 20 de Agosto de 1934. Tentei situar-me no tempo, na tragédia e debrucei-me numa foto que já tinha dele – moço, jovem, aprumado, bonitão, de olhos grandes, escuros, vivaços, cheios de sonhos, que se afundaram, eternamente nas águas do oceano. Pareceu-me.
Quem teria sido o capitão do Milena, em meados da década de 50? Mais propriamente, em 1956…
Pensemos nas situações que originavam estes desaparecimentos – o demasiado afastamento do navio, neste caso de pescador-verde, a pouca experiência, uma brisa levantada repentinamente que enraivecera o mar ou um forte nevoeiro, que, rapidamente, toldara o horizonte. Qualquer uma destas razões poderia ter sido o motivo do desaparecimento do jovem João de Jesus Agra. Ou, então, nenhuma destas.
Depois do encontro com o sobrinho e do que me contou, algo mais compôs o cenário, mas, o resultado era aquele e só ele – afundara-se no oceano, enquanto pescava.
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Milena, à entrada de Leixões.

Teria, porventura, pais, que terão sofrido uma dor profunda e eterna, não tinha ainda família constituída, mas, sempre uma mulher, de permeio. Deixara, uma jovem namorada, na sua terra natal – Ílhavo – a sua prometida, com quem tencionava casar, no Dezembro seguinte, após a viagem. Dor sem fim, virara viúva antes do tempo.

Alto, forte, espadaúdo, um castelo de um jovem, engolido pelas águas – assim era o João Agra, nascido em Ílhavo, em 29 de Agosto de 1934, filho de Manuel da Rocha Agra e de Leonor de Jesus. Com a cédula passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 21 de Janeiro de 1951, tinha a formação da Escola de Pesca e fora tripulante do Milena de 1951 a 1956, como como moço nos dois primeiros anos, passando a verde, a maduro e a 2ª linha, à data do acidente.
Nada como tentar escalpelizar e procurar pormenores… No Ciemar, porventura, encontraria a resposta, se a sorte me rondasse. Pedi O Ilhavense e perguntei se havia o Diário Náutico do Milena, da campanha de 1956 (era essa a data certa). E havia. Folheei-o emocionalmente, à espera de algo que me esclarecesse completamente. De folha em folha, cheguei a 6 de Maio e aí, nas observações, surge-me a nota esclarecedora, que procurava – Bom tempo. Chamou-se às 16 15. Pelas 19.30, como todos os botes estivessem dentro, deu-se por falta do número seis, João de Jesus da Rocha Agra, que se afundou com a embarcação que tripulava. Mais uma página e abanada pela emoção, deparei com o:

Termo de Óbito

Aos sete dias do mês de Maio de mil novecentos e cincoenta e seis, o lugre-motor Milena, propriedade da Indústria de Aveirense de Pesca, Limitada, na posição estimada quarenta e seis graus e quatro minutos Norte e quarenta e nove graus cincoenta e nove minutos Oeste de Greenwich, arriou este navio a sua campanha para o exercício da faina da pesca às treze horas e trinta minutos com vento fraco e bonançoso de Oeste-Noroeste, mar encrespado e boa visibilidade, condições estas consideradas como boas e normais para trabalhar, tendo todos os navios arriado e estando à vista, com os botes na água, os bacalhoeiros «Maria das Flores» e «S. Jorge». Pelas dezasseis horas, o Capitão do navio suspendeu e navegou trinta minutos para Les-Sueste, ficando assim todos botes a barlavento.
Pelas dezasseis horas e quinse minutos, içou a bandeira chamando para bordo a sua companha. Os botes começaram a chegar a bordo pelas desassete horas e quinse minutos.
Às dezanove horas e trinta minutos, estando já todos os pescadores dentro, deu-se pela falta do número seis, João de Jesus da Rocha Agra, natural da freguesia e concelho de Ílhavo, nascido a vinte e nove de Agosto de mil novecentos e trinta e quatro, filho de Manuel da Rocha Agra e de Leonor de Jesus e inscrito marítimo na Capitania de Aveiro, sob o número vinte e seis mil seiscentos e trinta. Segundo informações do pescador José Borda d’Água Hilário, o tripulante em questão encontrava-se ao Norte do navio alando o seu aparelho.
Imediatamente o capitão suspendeu e se dirigiu para rumo indicado. Depois de várias pesquisas até ao anoitecer viemos para sotavento da posição indicada onde permanecemos fundeados até ao alvorecer.
Pelas cinco horas do dia oito suspendeu e navegou durante quatro horas e meia a vários rumos contornando a posição em que se encontrava aquele pescador.
Depois de todas estas tentativas e como não se encontrassem quaisquer vestígios, reuniu o Capitão os seus oficiais e principais da equipagem, concordando todos que o desditoso pescador se afundou juntamente com o bote que tripulava quando se encontrava a alar o aparelho tanto mais que as botas de cabedal e o fato de oleado que usava quando pescava lhe dificultavam bastante os movimentos.
A atestar esta afirmação tomamos em linha de conta, em virtude de se encontrarem perto o lugre «Maria das Flores» e navio-motor «São Jorge», pescando também, o facto de por nenhum deles ter sido recolhido, tanto mais que as condições de visibilidade eram esplêndidas. Como aliás o eram inicialmente.
Em fé do que se lavrou o presente termo de óbito, que vai ser assinado pelo capitão e principais da equipagem.

Joaquim Manuel Marques Bela – capitão
Silvério Conde Teixeira – imediato
Flávio da Silva Pereira – piloto
Francisco Malaquias Matias Lau – 1º motorista
Albino Domingues Gafanha – 1ª linha

Folheando o diário, no sentido de saber como se passou o dia seguinte, a bordo, deparei com este registo, no dia 8 – Bom tempo, mar e horizonte. Não se arriou em sinal de luto.
No jornal O Ilhavense de 20 de Maio de 1956, a notícia VARRIDO ao MAR dá-nos conta que de bordo do lugre «Milena» foi varrido ao mar o pescador ilhavense João de Jesus Rocha Agra, solteiro, de Cimo do de Vila.
Consultado o Jornal do Pescador desse ano, não encontrei qualquer referência. No ano de 1953, no mês de Janeiro, p. 16, nas Notas de elogio dos capitães, relativas ao aproveitamento dos alunos da Escola Profissional de Pesca, embarcados na campanha de 1952, o capitão do Milena, Carlos Augusto de Castro, sobre o João de Jesus da Rocha Agra, refere que cumpriu a contento todas as suas obrigações.

Foto da cédula marítima

E por aqui fica o relato de acontecimento tão triste e da preocupação da tripulação em localizar e salvar o desditoso jovem, cuja sepultura foram as profundezas geladas do Oceano.
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Ílhavo, 23 de Novembro de 2017
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Fotos – cedidas pela Família e pela Fotomar
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Ana Maria Lopes
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