quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Homens do Mar - João Maria da Madalena- 20

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Na sequência da biografia marítima de João Fernandes Mano (Agualusa), só poderia ocupar-me, de seguida, da de João Maria da Madalena, respectivamente, Capitão e piloto do lugre Gamo que, em 1918, foi torpedeado por um submarino alemão camuflado, a 31 de Agosto, navegando o lugre na latitude 46º 02’ N e longitude 32º 32’ W, na rota dos Açores, tendo sobrevivido a uma aventura extenuante. Salvaram-se 34 dos 39 náufragos que tripulavam o bacalhoeiro Gamo, tendo aportado ao Faial em 8 pequenos dóris, quase sempre sem comer nem beber, 470 milhas à vela, a remo e a correr com as vagas.
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Natural de Ílhavo, nascido a 18 de Outubro de 1899 (-1964), começou por passar logo esta tremenda e trágica experiência de mar, aos 18 anos de idade, o que muito possivelmente, o terá marcado para a vida.
No entanto, o seu currículo marítimo não ficou por aqui. Tendo, muito possivelmente, andado cerca de 20 anos na marinha de comércio, voltou, de acordo com a ficha do GANPB, à pesca bacalhoeira, tendo exercido em 1938, o comando do lugre Santa Regina, com o imediato Artur Oliveira da Velha, também de Ílhavo, tendo tido o infortúnio de naufragar
Segundo o Jornal da terra, de 4 de Junho de 1938, na sexta-feira à noite chegou a notícia a Ílhavo de se ter perdido o lugre-escuna Santa Regina da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., com sede em Ílhavo. O navio naufragou a noroeste dos Açores, tendo sido salva a tripulação por um vapor de carga inglês, que a levou para Glasgow. Era seu capitão o Sr. João Maria da Madalena e piloto o Sr. Artur da Velha, levando mais de doze homens de Ílhavo, sendo os restantes de outros centros piscatórios.
Pelo neto do Sr. Capitão João da Madalena fiquei a saber que Eduardo António Rodrigues, moço, de Ílhavo, que falecera no naufrágio, era cunhado do capitão, que o levara na viagem, a seu pedido, por estar desempregado. Mais um acaso que sempre marcou a vida do «nosso capitão».
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Tendo-me sido facultado o Diário de Bordo do Santa Regina, respigo excertos arrebatadores e aflitivos da descrição do seu naufrágio.
«… No dia 1 de Junho, o barco navegava com a proa à vaga e com o velame reduzido, de «capa rigorosa».
No dia seguinte era tal a força de mar e vento que o barco cavalgava por sobre as vagas, escorregando depois «a pique», como se fosse mergulhar nas profundezas, para logo de seguida apontar de novo a proa ao céu.
Por volta das 5 horas, rebentou dentro do navio um grande golpe de mar que inteiramente varreu o convés, formando a água castelo que ia até meia altura do mastro e que levou toda a borda falsa dos dois lados e 33 dories, arrancando as poucas velas que estavam içadas, partiu com fragor os «alvois» das escotilhas, a roda do leme e levou tudo quanto se encontrava solto no convés.
O barco tombou para o lado direito, fazendo um ângulo tal que a verga que cruza um dos mastros chegou a tocar na água.
Com o barco adornado desta maneira, começámos por lançar ao mar todos os ferros e correntes, depois o sal, (de que o navio ia carregado para conservação do bacalhau) e duas horas depois quando já corríamos com o mar e com o vento, novo e violento golpe de mar abriu 5 enormes brechas na popa do Santa Regina, partindo com grande estrondo parte da câmara e levando pela borda fora 3 dos nossos tripulantes.
O mar levou os 3 homens que nunca mais apareceram e levava tudo quanto encontrasse à sua frente… até um tanque de ferro com 3 toneladas de água foi atirado contra as enxárcias do mastro central, quebrando-as e deixando-o desamparado.
Todos os homens correram às bombas, mas os seus esforços resultaram inúteis, pois o navio cada vez metia mais água (…).
Assim nos mantivemos a lutar com o mar até às 17 horas, que foi quando avistámos o vapor inglês Cap. Nelson, que imediatamente acudiu ao nosso pedido de socorro (…), mas só na madrugada seguinte dia 3 de Julho conseguiu enviar-nos por 2 vezes um salva-vidas, que transportou para bordo do Cap. Nelson, todos os sobreviventes. O Santa Regina, em cujas câmaras havia sido lançado petróleo, para que não constituísse perigo para a navegação, afundou-se, em chamas, na latitude 40 34 N. e longitude 37,18 W. …».
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Entrevista ao Cap. João Maria Madalena, a bordo do paquete Lima, em 1938
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Em Jornal de 11 de Junho de 1938, ficamos a saber que a empresa em causa recebera um telegrama do capitão do Porto da Horta, anunciando que tinham chegado àquela ilha 30 náufragos do lugre Santa Regina, tendo falecido 3 tripulantes, sendo, entre eles, Eduardo António Rodrigues, moço, de Ílhavo, mais um da Afurada e outro da Nazaré.
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Os oficiais do lugre Santa Regina e do lugre Bretanha, naufragados, ambos, em 1938
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Nas campanhas de 1939, 40 e 41, «o nosso capitão» pilotou o lugre Cruz de Malta, pertença de Testa & Cunhas, Lda., sob o comando do Sr. José Gonçalves Vilão.
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Nas viagens de 1942 e 43, foi imediato do lugre Milena, sob o comando do Sr. António Augusto Marques (Marcela).
Entre 1945 e 1948 (inclusive), comandou o lugre Senhora da Saúde, adquirido pela empresa Tavares, Mascarenhas, Neves & Vaz, Lda., para a campanha de 1935.
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Em 1949, fez uma viagem como imediato, no arrastão Invicta, sob o comando de João Nunes de Oliveira Sousa, navio de aço, construído na Holanda, em 1948, para a Companhia de Pesca Transatlântica Douro, da praça do Porto. 
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Arrastão Invicta, da praça do Porto, anos 50
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A partir do início dos anos 50, comandou o navio de cabotagem Dione, construído em 1951, nos malogrados estaleiros de S. Jacinto, tendo tido, vários imediatos de Ílhavo.  
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A bordo do Dione, em 1955
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Também conhecido por João do Grande, foi um homem zeloso, trabalhador e amigo da família, de cuja companhia se viu privado tanto tempo, pelas ausências marítimas, cheias de perigos e agruras, desde a mais tenra idade.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência do neto João da Madalena
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Costa Nova, 30 de Setembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Homens do Mar - João Fernandes Mano - 19

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Capitão João Fernandes Mano
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Como o mundo é pequeno e, às vezes, anda distraído…
Sempre fui conhecida e amiga da Senhora D. Maria Júlia Mano, viúva de Cândido Teles. Falava-me com frequência no feito heróico de seu Pai, contemporâneo de meu Avô, na pesca do bacalhau, mas, muito francamente, nunca liguei o nome à pessoa.
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Agora, que pretendia integrar em Homens do Mar, para memória futura, o grande arrojo do capitão e tripulação do lugre Gamo, qual não é o meu espanto, quando ao procurar a ficha de inscrição no GANPB de João Fernandes Mano, de alcunha Agualusa, nascido em Ílhavo, (1884-1965), li que tivera como filhos, João de Oliveira Mano, Júlio de Oliveira Mano (já falecidos) e Maria Júlia O. Mano, a tal minha amiga, contemporânea de minha Mãe, ambas com a vetusta idade de 91 anos.

E vamos ao Gamo. Há mais do que um relato. Assim sendo, resolvi ler ambos, e usar, respigado, o que estará mais à mão, o do jornalista Costa Júnior, in Ao Serviço da Pátria – A Marinha Mercante Portuguesa na Iª Grande Guerra, edição da Editora Marítimo-Colonial, Lda. Lisboa, 1944.
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Se a pesca do bacalhau já era, de si, tão dura, como todos sabemos, o ano de 1918 ainda conseguiu ser pior, pois, a ele acresceram os horrores e contrariedades da guerra submarina.
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E relata
Costa Júnior:-
(…) Eram 39 homens que constituíam a equipagem do lugre português Gamo, que naquele dia 22 do mês de Agosto de 1918, se preparava par iniciar a viagem de regresso ao Tejo. O navio encontrava-se, fundeado entre os baixios Sunder e Nain Fathons, carregado com cerca de seis mil quintais de bacalhau salgado.
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A ordem do Capitão de suspender a âncora teve de ficar adiada para o dia seguinte. A viagem, tão mal iniciada, parecia agora fazer-se, sem contrariedades e com vento de feição. Eis quando: (…)
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No dia 31 de Agosto, navegando o lugre na latitude 46º 02’ N e longitude 32º 32’ W, o vigia assinalou pela amura de bombordo, eram 16 horas, uma embarcação de velas içadas, mas sem jeito de ser navio de vela, pois as tinha sem regra e mal colocadas. O capitão João Fernandes Agualusa pegou no binóculo para melhor ver o estranho barco que se aproximava, e mal o fizera, viu a explosão de um tiro, no mesmo instante em que uma granada assobiando a sua música macabra, passava entre o mastro da mezena e o mastro grande, rente à borda do navio, indo o projéctil cair a cerca de 100 metros de distância.
A tripulação do Gamo não tinha dúvidas quanto ao tipo de visitante – um submarino alemão camuflado.
Imediatamente, o capitão, sem perder a serenidade, mas sem forças para lutar, rendeu-se à evidência, enquanto um oficial alemão o informou que apenas tinham dez minutos para abandonar o navio, que ia ser afundado, sem dó nem piedade.
(…)
Treze dóris (…) foram preparados e lançados à água, cada um deles tripulado com três homens, e sendo cheios 14 barris de 50 litros de água – dois dos quais ficaram no dóri do capitão. Era um espectáculo digno de ver-se, o submarino pairando nas calmas águas e atracados a ele os treze dóris. Depois do interrogatório costumado, os dóris largaram do submarino enquanto deste, a tiros de canhão, afundavam o Gamo. Ao longe, era avistado um penacho de fumo. O submersível apressou-se a mergulhar, e desapareceu.
Até 1 de Setembro, pela manhã, nada de extraordinário aconteceu, rumando as cascas de noz em direcção a sul, com mar chão.
Eis que rebentou uma forte trovoada, acompanhada de vagas alterosas, que impediu a navegação aos pequenos barcos.
(…)
Mas o que até aqui estivera mal, às 17 horas tornou-se muito pior. Um forte escarcéu de mar rebentou, levantando os dóris a pino, e voltando quatro deles; os restantes nove ficaram rasos de água, que só a custo, e com muito trabalho e sacrifício, pôde ser esgotada. Dois homens agarraram-se ao barco do capitão e foram salvos e outros igualmente por outras embarcações, salvando-se nove homens dos doze que tripulavam os quatro dóris que se perderam. Nesse instante, não mais do que um segundo, todos os barcos perderam a aguada e mantimentos, e três homens perderam a vida.
Tendo avistado a 2 de Setembro os faróis de um vapor, fizeram-lhe pedido de socorro, que não foi atendido. Um dóri, tentando correr sobre o vapor, acabou por se voltar, perdendo-se 2 dos 3 marinheiros que o tripulavam. E cinco vidas já estavam perdidas, em condições tão agrestes e impiedosas.
Mais uma vez, o capitão, corajosamente, aproveitou para fazer ver aos seus homens que nenhuma embarcação se afastasse.
Não havia que comer, e por única bebida para todos os homens, um barril com cerca de 40 litros de água. Era preciso sair daquela situação – navegando.
O tempo melhorara, embora pouco, e foi resolvido correr com a vaga, ao sabor da forte ondulação. Assim, entre a vida e a morte, correram os náufragos do Gamo setenta milhas para sul.
No dia seguinte, a vaga era menor, os barcos corriam com as gibas içadas, mas cerca das 23 horas uma onda mais alterosa fez entrar um dóri dentro de outro, afundando-o. A muito custo, os seus tripulantes foram salvos pelas (…) restantes embarcações.
Nos dias 4 e 5 conseguiram os bravos tripulantes do Gamo navegar à vela. No último dia acabara-se a água, e a comida era coisa que não provavam, havia já muitos dias. Nos dóris reinava a fome e a sede.
(…)
Entrara o desânimo. Aqui e além avizinhavam-se prenúncios de revolta entre os náufragos, sem forças para suportar o peso enorme da sua tragédia. O capitão resolve então intervir e … mentir.
Mentir? Sim, mentir, piedosamente – dizer à tripulação que não estariam mais do que a 36 milhas da ilha do Faial, o que o piloto, João Maria da Madalena, corroborou.
A mentira surtira o efeito desejado, mas o pior seria no dia seguinte, pois em boa verdade a ilha do Faial estava afastada ainda, pelo menos 80 milhas. Que nova mentira seria possível inventar?
Entretanto, o tempo não pactuara com a mentira e tornara-se agreste e enevoado. Não se vendo o horizonte, os homens, desalentados, começaram a desconfiar do apelo do capitão, que, entretanto, fora interpelado.
(…)
«Terra à vista! Terra à vista! Estamos salvos!» – gritavam todos a um tempo, ao avistarem as ilhas Graciosa, Faial e Pico, tão claras que pareciam pintadas num quadro.
Mas, depois de ligeiros momentos de alegria, reviravolta nas emoções. Um calor intenso e as gargantas secas que nem fogo estaladiço! Eis que capturaram uma tartaruga, o que, por vezes, acontecia. Rapidamente degolada, largou o sangue para um sueste, aparado por um pescador. Tendo-o bebido de um trago, caiu inanimado. Só água salgada pela cabeça lhe revitalizou os sentidos.
(…)
O dia estava escaldante, o vento entrara em calmaria e ninguém tinha forças para remar. Os dóris, a remos ou à vela, avançavam a passo de formiga, impulsionados por aquelas vontades de gigantes, e às 2 horas, após titânicos, o barco do capitão conseguiu dobrar a ponta dos Capelinhos, acompanhado por mais três. Nos restantes, os tripulantes completamente exaustos, não tinham forças para remar, certos que morriam à vista de terra sem a poder alcançar.
O capitão procurava inutilmente um lugar para desembarcar. Lá avistaram os náufragos o farol de um barco fundeado, e para ali se dirigiram todos. Era a canoa dum tripulante com o seu proprietário a bordo, e antes mesmo de lhe pedirem qualquer indicação ou auxílio, os pobres náufragos só puderam pronunciar uma palavra: Água! … Água!
(…)
Tendo-os o proprietário refrescado imediatamente, conduziu-os a casa, perto de um pequeno porto. A família do honrado pescador açoriano ajudou os náufragos do Gamo a sair, conduzindo-os a um poço, onde beberam até fartar.
(…)
Era uma hora da madrugada quando o capitão João Agualusa, amparado pelo caritativo pescador, foi até à da cidade da Horta onde vivia a autoridade marítima, participar-lhe o ocorrido e pedir-lhe auxílio para o salvamento dos barcos que se encontravam ao largo – sem que os seus tripulantes tivessem forças para se aproximar. Uma hora depois, saía da doca uma lancha a motor, em serviço na Capitania do Porto, fazendo rumo à ponta dos Capelinhos. Foi encontrado um dóri, que seguia rebocado por um barco de pesca que o socorrera, e mesmo sem acostar, o Patrão Mor atirou-lhes alguns pães e um garrafão de água; a viagem prosseguiu para rodear a ilha, e às cinco horas outro dóri foi encontrado, também já a reboque dum pesqueiro.
Continuou a busca dos restantes náufragos que durou toda a madrugada e toda a manhã, sem maior resultado, cruzando o mar em todas as direcções.
(…)
Em momento de tristeza, todos imaginavam os seus camaradas perdidos para sempre. Mas, entretanto ao passar a lancha junto ao porto de Castelo Branco, um homem gesticulava com desespero e ansiedade. Aproximaram-se e ouviram:
Os náufragos que faltam já estão todos em terra. O dóri do senhor piloto (João Maria da Madalena) arribou na costa norte, na praia do Almoxarife, e foi um automóvel buscá-los…
Satisfeitos com a notícia, os passageiros da lancha da capitania continuaram em direcção à doca, onde chegaram perto das 16 horas. No cais o bravo capitão João Fernandes Mano Agualusa era aguardado pelas autoridades e muito povo, cada um à porfia querendo saudar e homenagear o heróico comandante do Gamo que, comovido e envergonhado, não sabendo o que tinha feito para merecer aquele acolhimento carinhoso, chorava, as lágrimas caindo-lhe em grossas bagas pela cara abaixo. Quem, no momento de perigo defendera a vida de todos, e se portara como um valente; quem praticara feitos dignos dos velhos marinheiros portugueses que esmaltam de glória páginas antigas da história, chorava de comoção, envergonhado desse momento final de fraqueza. Disse depois: parecia-lhe que chorava de alegria por ver os seus homens salvos …
Passados dois dias foi encontrado o oitavo dóri pela lancha baleeira Amaral, que o trouxe a reboque para a doca do porto da Horta. Salvaram-se 34 dos 39 náufragos que tripulavam o bacalhoeiro Gamo, tendo aportado ao Faial em 8 pequenos dóris, navegando esses botes, quase sempre sem comer nem beber, 470 milhas à vela, a remo e a correr com as vagas.
E assim Costa Júnior acabou o relato, que burilei, provavelmente baseado, na narrativa escrita na primeira pessoa, por Capitão e Piloto do Gamo, a bordo do lugre Sílvia, aos quatro dias do mês de Julho de 1924.
Era este o feito heróico, a que a filha do capitão sempre se referia, mas eu, nessa altura, desconhecia-o.
E já agora, que lugre Gamo seria este?
O lugre-patacho Gamo foi construído em Inglaterra, no estaleiro de Ed. Tayport, tendo sido dado por concluído durante o mês de Março de 1874. Foi inicialmente baptizado com o nome Reindeer, propriedade de W. Thomson, que teve o navio matriculado na praça de Dundee.
Colocado à venda em 1885, foi comprado pela firma Bensaúde & Cª., por 3.150 000 (três milhões, cento e cinquenta mil réis) e registado nos Açores.
Em 1891, com a transferência da empresa Bensaúde & Cª. para Lisboa, o navio passou desde então a navegar registado em Lisboa, mas, à época, sob propriedade da recém-formada Parceria Geral de Pescarias.
No registo de 1899 o navio já se apresentava armado em lugre. Todavia, a informação parece incorrecta, com base na foto, abaixo, da Ilustração Portuguesa, de 1907, onde o navio foi retratado com aparelho de lugre-patacho. No entanto, é possível que o navio tenha, de facto, sido armado em lugre, muito provavelmente durante o período entre 1911 e 1913.
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O GamoIlustração portuguesa de 1907

Uma informação complementar relativa a 1902, permite constatar estar a navegar equipado de 42 tripulantes, com 32 canoas, passando alguns anos depois a dispor de uma equipagem à volta dos 35 tripulantes, com o mesmo número de canoas. A partir da lista de navios de 1909, já é possível verificar que o navio mantém valores, esses, confirmados pela lista de 1914. Nesta lista, o Gamo apresenta 38,90 metros de comprimento, 7,10 metros de boca e 4,04 metros de pontal.

Mas muito mais terá unido estes dois capitães, o meu avô Pisco e João F. Mano (Agualusa).
No jornal da terra, pescámos que o nosso capitão comandara o lugre Laura, que, mais tarde, viria a ser o Cruz de Malta, entre 1921 e 1925. Nos mesmos anos, comandava o Avô Pisco, o lugre Silvina, bem bonito, ali, em foto de época de Henrique Ramos, a exibir o pano a secar, ambos pertencentes à Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., da praça de Aveiro.
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Ao fundo, supõe-se ser o lugre Laura

No mesmo decénio de 20, dá-o como capitão do lugre Sílvia, em 1928 e 29, também da praça de Aveiro.
Ao consultar a sua ficha do GANPB, que considero credível, esta atribui-lhe uma viagem como capitão no lugre Pescador da praça da Figueira da Foz, na campanha de 1937, de piloto no lugre Ilhavense II, sob o comando de Manuel Santos Marnoto Praia, na safra de 1941 e de capitão no lugre Florentina, pertencente à praça de Lisboa, nas campanhas de 1938 e 1942, o que não confere com o Ilhavense, jornal.
Admitamos que sim.
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O lugre Florentina

Em referência que lhe foi feita, aquando do seu falecimento, consideraram-no um nauta destemido, tendo comandado vários navios, dentre eles a barca Foz do Douro. Comandou, exactamente, a célebre viagem, que teve como célebre passageiro, o almirante Gago Coutinho, com partida de Santos e chegada a Leixões em 31.3.1944. Utilizando o velho astrolábio dos navegadores do século XV, Gago Coutinho fazia todos os dias as medições astronómicas ao lado dos pilotos do navio, que se serviam dos modernos aparelhos, como o sextante e o cronómetro, tentando imaginar como teria sido a viagem ao Brasil, de Pedro Álvares Cabral.
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Fotos – Arquivo pessoal e cedência da filha do Capitão
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Costa Nova, 19 de Setembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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sábado, 24 de setembro de 2016

Homens do Mar - Francisco Fernandes Mano - 18

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Em conversa de amigos, veio à baila o Capitão Francisco Fernandes Mano, por quem o João Reinaldo Cruz manifestou ter tido uma simpatia especial, pois autorizou que o seu Pai, Manuel Nunes da Cruz, conhecido por Manuel Gestas, cozinheiro do lugre António Ribau, o levasse com ele, no navio, da Gafanha para Setúbal e de volta a Lisboa, no ano de 1960, enquanto capitão do dito lugre. Foi uma prenda por ter passado o ano, na altura com 15 anos. Há memórias que ficam gravadas…
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E assim começou…outras histórias vieram a lume…
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O Capitão Francisco Fernandes Mano, natural de Ílhavo nasceu em 1904 e deixou-nos em Junho de 1979, com 75 anos.
Foi casado com a Senhora D. Cármina Gonçalves Fernandes Mano, casamento de que nasceram a Rosa Armanda, a Isilda Maria, a Alzira Maria e o Francisco Mano, com quem falei, aqui pela Costa Nova e me cedeu alguns dados.
Era possuidor da cédula marítima nº 5299, de 1916, passada pela Capitania do Porto do Porto, com 12 anos de idade.
Como os colegas do seu tempo, terá ido, pois, bastante cedo para o mar.
Desde que possuímos registos oficiais, foi, na campanha de 1929, embarcou de piloto no lugre Ernani, sob o comando de Júlio António Lebre, também de Ílhavo.
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O lugre Ernani foi construído na Gafanha da Nazaré, por Manuel Maria Bolais Mónica e lançado à água a 26 de Dezembro de 1918, com o nome de Estrella do Mar, para o Armador Santos, Moreira & Cª., de Aveiro, na posse do qual se manteve até 1920.
Foi pertença da Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, Lda., de Aveiro, entre 1920 e 1921, tendo navegado com o nome de Apollo.
Passou a chamar-se Ernani, aquando da venda, em 1921, à Empreza de Navegação e Exploração de Pesca, também de Aveiro, à qual Testa & Cunhas o adquiriu, em 20 de Dezembro de 1927, com o mesmo nome.
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Segundo o jornal O Ilhavense de 10 de Agosto de 1934, o lugre Hernani foi pasto das chamas na Groenlândia, onde se encontrava a pescar, como é sabido.
A empresa armadora tentou pelos meios possíveis saber notícias dos náufragos, até que o Ministério da Marinha providenciou no sentido de obter informações, tendo, por fim, informado que se encontravam distribuídos por vários navios, naquelas paragens.
Na campanha de 1937, pilotou o lugre de madeira Vaz, ex-Vega, construído em 1918, na Gafanha da Nazaré, por Manuel Maria Bolais Mónica, propriedade da empresa Brites, Vaz & Irmãos, Lda., na campanha de 1929, tendo como capitão o ilhavense João dos Santos Redondo.
Em 1938, exerceu o cargo de piloto, sob o comando de Manuel Simões da Barbeira, meu avô, do lugre com motor Novos Mares, tendo-o estreado, pertença da Empresa Testa & Cunhas, Lda. Esta primeira viagem, sei-o de fonte limpa, fê-la só à vela, sem motor, pois este não tinha chegado a tempo da campanha. Tempos de heróis…
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O Capitão Chico Mano, a bordo…
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Na campanha de 1940, foi piloto do navio-motor de ferro, Santa Maria da Madalena, construído em 1939, nos estaleiros da CUF, para a Empresa de Pesca de Viana, sendo capitão, Joaquim Fernandes Agualuza e imediato, Manuel Pereira da Bela, ambos de Ílhavo.
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N/m Santa Maria da Madalena
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Na campanha de 1941, pilotou o lugre com motor, de madeira, Rainha Santa Izabel, ex-Rainha Santa, construído na Gafanha da Nazaré, em 1929, por José Maria Lopes de Almeida, para a firma Pascoal & Cravo, Lda., em 1929. Por dissolução desta empresa, em 1937 alterou o nome para Rainha Santa Izabel, sendo então propriedade de Pascoal & Filhos, Lda. Foi seu capitão o conterrâneo João de Sousa Firmeza.
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No ano de 1942, passou a pilotar o lugre com motor, de madeira, Lusitânia III, sob o comando de João Francisco Grilo, irmão do Senhor Padre Grilo. Este lugre foi construído em 1918 por José da Silva Lapa em Vila Nova de Gaia para a Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca, com sede na Figueira da Foz.
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Lugre com motor Lusitânia III
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Nos anos de 1943 e 44, passou a imediato do lugre com motor, de madeira, António Ribau (ex-Navegante III da firma Ribaus & Vilarinho), sob o comando do conterrâneo João Pereira Gateira.
No ano de 1946, alcançou o comando do mesmo navio, de que foi capitão até 1952, inclusive. Entre os seus imediatos, teve, o ilhavense, Fernando Hernâni Rocha Mano, nos anos de 1946 e 47.
Entretanto, a Sociedade Gafanhense, Lda. encomendou a João Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, o lugre com motor Luiza Ribau, cujo bota-abaixo foi em 1953. O nosso capitão teve o prazer de o inaugurar e de se manter seu capitão, até 1957, inclusive. Dentre outros, foi seu imediato o conterrâneo Alberto Marques Pauseiro. 
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Lugre com motor Luiza Ribau, em dia de bota-abaixo. 1953
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No ano seguinte, 1958, teve o infortúnio de naufragar, sendo capitão no lugre com motor, de madeira, Santa Izabel, construído na Gafanha em 1929 para a Empresa de Pesca de Aveiro (EPA) – um dos quatro primeiros navios a ir à Groenlândia.
Naufragou em 1958, pertença da Empresa de Bacalhau de Portugal, Lda., de Lisboa, na viagem de regresso a Portugal. Ainda no pesqueiro, o navio estava a fazer água e, por isso, vinha acompanhado pelo n/motor de aço, Senhora da Vida, da mesma casa, do comando do Capitão Alfredo Simões Júnior.
A situação tornou-se insustentável e o Santa Izabel foi abandonado, não sem antes o terem incendiado, conforme os usos e costumes internacionais para tais situações, e toda a tripulação foi recolhida pelo Senhora da Vida, que estava próximo.

Lugre com motor, de madeira, Santa Izabel
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No ano de 1959, passou para imediato do n/motor Avé Maria, recém-construído na Gafanha da Nazaré, em 1957, sob o comando do capitão Manuel José Fernandes.
Entre os anos 1960 e 62 (inclusive), voltou ao comando do António Ribau, tendo o navio naufragado neste último ano.
Segundo o jornal da terra O Ilhavense, de 1 de Maio de 1962, tendo saído de Lisboa a 18 de Abril, o António Ribau, ao chegar ao norte de S. Miguel, nos Açores, no domingo de Páscoa, declarou-se incêndio na casa das máquinas. A tripulação foi salva pelo vapor francês Fort Richepaure, que a transportou para Ponta Delgada, de onde viria a ser trazida para Lisboa, pelo vapor Carvalho Araújo.
Nos anos 1964 e 65, exerceu o cargo de imediato no n/motor Rio Antuã, sob o comando do capitão Francisco Teles Paião.
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O Rio Antuã, em S. Jonh’s, em 1967
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Na campanha de 1967, voltou a capitão do Luiza Ribau, tendo como imediato João António Machado Marques.
Em 1968, dou como findo o seu percurso marítimo, com uma viagem de imediato no n/m Vila do Conde, tendo como capitão, muito possivelmente, o também ilhavense Ernesto Manuel dos Santos Pinhal.
Conheceu uma diversidade de navios, passou por «algumas mudanças de cadeira», que nos permitem recordar ou imaginar alguns dos anacrónicos, mas belos veleiros, que constituíram a nossa frota, bem como alguns navios-motor, mais modernos, mas menos bonitos.
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Fotos – Arquivo pessoal e cedência do filho do Capitão
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Costa Nova, 14 de Setembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Homens do Mar - António de Morais Pascoal - 17

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A bordo do Aviz, em 1948

A partir do momento em que o Sr. Capitão Pascoal passou a comandar o n/m Novos Mares, estabeleceu-se entre as duas famílias, uma certa afabilidade e estima, dando-nos bastante bem, de tal modo que as duas filhas mais novas, ainda crianças, as gémeas Graça e Teresa foram minhas damas de honor, a 11 de Setembro de 1965. Como o tempo tem corrido…
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António Morais Pascoal, nascido em 30 de Abril de 1923, exerceu os cargos de piloto, nos lugres Lusitânia III e Milena, respectivamente, nos anos de 1945 a 1947, sob o comando, respectivamente, de Carlos Fernandes Parracho (1945) e Tude de Brito Namorado (1946 e 1947).

No cais, junto ao Milena. Ao centro, A. Pascoal e, à direita, o Capitão Tude Namorado. Entre 46 e 47.
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De 1948 a 52, serviu o lugre e Aviz, como imediato, comandado pelo Capitão Manuel dos Santos Labrincha (Salta), com a excepção do ano de 1949, em que fez 2ª viagem do arrastão João Corte Real, sob o comando de Manuel Gonçalves Viana, de Ílhavo.
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António Pascoal, a bordo do Aviz, em 1948
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De 1953 a 1960, comandou o dito lugre Aviz, da praça do Porto, tendo tido como imediatos, de Ílhavo, João Evangelista Gonçalves (1953) e Ernesto Emanuel dos Santos Pinhal (de 1956 a 1959).
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No Aviz, quetes cheios. Boa pesca.
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Na campanha de 1960, passou para o comando do Condestável, da mesma empresa, ano em que naufragou, sendo seu imediato, de novo, Ernesto Emanuel dos Santos Pinhal.
O Condestável, de imponente lugre-motor que era, resultou, em 1957, em navio-motor com dois mastros, após modernização.
O jornal O Ilhavense de 10.9.1960 noticia o naufrágio do Condestável. Sem perda de vidas, mas uma unidade a menos na valorização da nossa frota e mais 10.000 quintais de bacalhau que se desperdiçaram. O navio/motor, juntamente com o Aviz que ainda se encontrava a pescar pertenciam à Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., do Porto, tendo sido a causa do naufrágio um incêndio que irrompeu na casa das máquinas, originado por um curto-circuito, às 9 horas do dia 30 de Agosto. A tripulação, composta por 72 homens foi salva pelo Gil Eannes e dividida pelos arrastões que estavam prestes a regressar a Portugal. Faziam parte da tripulação, de Ílhavo, o capitão, António de Morais Pascoal, o imediato, Ernesto Manuel Pinhal dos Santos, o contramestre José dos Santos Pereira, o cozinheiro, José Lucílio Ramos e o ajudante de cozinheiro, Júlio Pereira Verdade.
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Na campanha de 1961, voltou à praça de Aveiro, como capitão do navio-motor, Novos Mares, até 1974.
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Por coincidência, o Novos Mares, construído nos estaleiros de Manuel Maria Mónica, da Gafanha da Nazaré, para a empresa Testa & Cunhas, lambeu, pela primeira vez as águas da ria, no dia 19 de Março de 1958, em substituição do lugre-motor de mesmo nome, naufragado na campanha de 1956.
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Já flutuava…em 1958
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Pilhas de botes…no Novos Mares, em campanha de 69
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Ora o Novos Mares, em 1974, depois de ter passado o 25 de Abril ancorado no Tejo, ainda seguiu para a Terra Nova, ano difícil para a campanha do bacalhau. Regressou em fins de Julho por ordem da Secretaria de Estado das Pescas, uma vez que se haviam malogrado todas as tentativas de conciliação com os tripulantes, que reivindicavam melhores remunerações e outros benefícios. O ano era «quente», tendo regressado à Gafanha da Nazaré… com os porões vazios e greves a bordo.
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Manifestação em St. Pierre, em 1974
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Tornara-se um navio-histórico, pois fora o último barco da chamada Frota Branca a navegar no estreito de Narrows, com os seus dóris cautelosamente alinhados no convés (in Disasters & Shipwrecks of Newfoudland and Labrador, Vol. 3, de J. P. Andrieux, p.121 e 122).
Uma longa vida dedicada à pesca do bacalhau à linha, que, após uns pares de anos em terra, terminou em 10 de Março de 2014.
Nestes longos anos de capitão do n/m Novos Mares, o amigo Capitão Pascoal teve como imediatos ilhavenses, Ernesto Emanuel dos Santos Pinhal (1961), Libânio Tibério Paradela (1962 a 64), Carlos Manuel Vieira Torrão (de 1971 a 73). Em 1974, António Armando Pereira Verdade.
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No ano de 1964, a entrada do navio, para mim, foi peculiar, pois, filmei-a, na minha velhinha Bell and Howell, em circunstâncias especiais, indo em lancha da empresa, esperar o navio, à boca da Barra.
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Que grande azáfama, a bordo! Indescritível… Perante a ansiedade dos beijos e dos abraços, no cais… As bonecas canadianas, em todo o seu esplendor, em grandes caixas, eram a lembrança preferida, dos pais marinheiros para as suas filhotas. E Cruxifixos para casa, também não faltavam. Do navio para os botes e dos botes para o cais. Mas a presença era o melhor dos melhores presentes.

Cap. Pascoal, na ponte, em observação dos trabalhos. 1964. Foto extraída do filme.
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A grande tristeza da saída era compensada pela grande alegria da chegada. Dizia-se…
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Pequenas estórias de uma grande história!
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Fotos – Arquivo pessoal, cedência de J. P. Andrieux e do Sr. Capitão Pascoal
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Costa Nova, 2 de Setembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Homens do Mar - Manuel dos Santos Labrincha - 16

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De visita ao famoso Argus. Foto de Alan Villiers, em 1950
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A roda gira e, desta vez, «está de quarto», o Capitão Salta, de nome, Manuel dos Santos Labrincha. Aquele a quem eu chamava de primo Salta, porque o era, de facto, nasceu em Ílhavo, em 5 de Dezembro de 1901 e partiu de vez, para mares ignotos e bastante mais distantes, a 5 de Setembro de 1978. O Capitão Vitorino Ramalheira tirou-me, algumas dúvidas e identificou-me novas imagens, conseguidas há pouco.
Há sempre mais uma pecinha a juntar ao «puzzle» da Faina Maior.

O Capitão Salta (ao centro), entre César Maurício (à esquerda) e Adolfo Paião e João F. Matias (à direita). A Campanha do Argus, 1950
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Iniciou vida no mar, como muitos do seu tempo, com 15 anos, sendo portador da cédula nº 12054, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em Março de 1914. Fez viagens de comércio para Cabo Verde, em navios que levavam sal e traziam gado.
Propriamente na pesca do bacalhau, começou em 1926, tendo sido piloto, no Esperança 2º, comandado por Francisco António Bichão, e noutros, da praça do Porto.
Em 1936 e 37, foi capitão do lugre com motor de madeira, Senhora da Saúde, ex- navio dinamarquês Helga, construído em 1920, adquirido para a campanha de 1935 pela Empresa Tavares, Mascarenhas, Neves & Vaz, com sede em Aveiro, que terá naufragado em 1952, na Groenlândia. Foi seu piloto João Fernandes Parracho.

Senhora da Saúde, à entrada no Douro. S. data
Ansiado regresso…
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De 1938 até 1947 (inclusive), comandou o lugre com motor, de madeira, Brites, construído por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1936 para a Empresa Brites e Vaz & Irmãos, da Gafanha da Nazaré.
Segundo o jornal da nossa terra de 15 de Outubro de 1938, este ano de 1938, tem sido fatídico para os pescadores do bacalhau. Um ciclone que soprou no dia 12, no oceano, fez mais umas quantas vítimas, como estragos, nos navios. Desta vez, entre outros, o lugre Brites também perdeu um homem, tendo sofrido também importantes prejuízos materiais. Era seu piloto José Simões Ré.
Outros pilotos/imediatos ilhavenses, durante este período de 1939/1947, do lugre Brites foram – Manuel Fernandes Matias (1942), António Fernandes Matias (Cajeira) (1943/44), Manuel Nunes de Oliveira (1946/47).
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Entre 1948 e 52, o capitão Salta comandou o lugre com motor, de madeira, Aviz, navio de 4 mastros, construído por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1939, para a Companhia de Pesca Transatlântica de Pesca, com sede no Porto.

O lugre Aviz, em construção. Gafanha, 1939

Aviz. Porto, cheias no Douro de 1962
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Foi entre 1948 e 52 que se cruzou o nosso capitão, no lugre Aviz, com António Morais Pascoal (1923-2014), como seu imediato.

Em North Sidney. Capitão Salta, à direita, Capitão Pascoal, ao centro, e Júlio Machado Redondo, à esquerda. S. data
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O Capitão Salta a partir de 1953 até ao final de sua vida activa (1959), exerceu o cargo de capitão no lugre com motor Condestável, de 4 mastros, construído por Arménio Bolais Mónica, em 1948, na Gafanha da Nazaré, igualmente para a Companhia de Pesca Transatlântica, do Porto.
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Lugre Condestável, em dia de bota-abaixo. 1948
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Eram habituais estas mudanças com a construção de navios novos e, em 1953, assim como o Capitão Salta passa para o Condestável, o Capitão Pascoal assume o lugar de capitão no Aviz, até 1959. Dança de cadeiras, a bordo… Em 1960, enquanto o primo Salta abandona o mar, com uma vida de ausências, o amigo Pascoal passa a comandar o Condestável, que perde, por incêndio a bordo, sem quaisquer perdas de vidas.

Lugre Condestável, em ano de transformação, 1957

O Condestável, de imponente lugre-motor que era, foi transformado, em 1957, em navio-motor com dois mastros.
Na inauguração da transformação, os presentes – o 1º motorista do navio (à esquerda), o Capitão Salta (ao centro), o gerente da Companhia de Pesca e o Capitão Vitorino Ramalheira (à direita) – testemunharam o acto.
 
No tombadilho dos botes, em Massarelos, Porto

O nosso bom amigo Vitorino Ramalheira, de 1954 a 1959, como imediato do Condestável teve a oportunidade de se cruzar com o capitão Salta.
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E assim se iam cruzando as vidas dos nossos homens do mar, entre terra e mar, lugres e navios-motor, entre benquerenças e inimizades, entre segredos e concorrências, saudades e sacrifícios.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Costa Nova, 10 de Agosto de 2016
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Ana Maria Lopes
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